Domingo, Novembro 14, 2004

Estranha e simplória sabedoria

Foi uma época atribulada, mentalmente atribulada, pois eu me propusera o embate do qual poucos - dentre os muito poucos, nesses milhares de anos de história, de que tomei conhecimento - saíram sobre as próprias pernas. Fora insuficiente a comoção da circunstância, era ainda assoberbado pelo compromisso de, tendo a posse dos despojos, ordená-los de maneira inteligível no ducumento de tamanho e forma prefixados com o qual obteria o grau de mestre.

O bom leitor saberá aqui tolerar a licença épica em face do comezinho desdobramento da narrativa, ponderando o artifício como o único de que pôde o escrevinhador, pouco fornido de melhores, lançar mão para deitar tintas menos frívolas não tanto na descrição do seu drama particular, mero acessório à guisa de pano de fundo, mas na introdução de personagem cujo perfil singelo contrasta e se exalta na penetração do seu breve pronunciamento.

Assim os mais afamados eleitos de outras contendas, nessa escolhida por mim, tombavam às primeiras estocadas. Entre eles, Platão e Aristóteles, aos quais não tinha sinceramente interessado a matéria, permanecendo incólume, entretanto, um desconhecido, cuja façanha, a olhos com intentos diversos dos meus, atravessaria novos séculos sob inescusável desdém. Seu nome, Aristoxeno. Seu feito, por demais técnico para a apreciação comum, foi o de desafrontar os outros dois. No primeiro, interessado apenas em postular a rija complexidade dum tecido social gerido por sábios, o significado da música - roubado ao modelo tradicional do etos (ou caráter, aproximadamente) - foi posto a serviço da permanência do indivíduo na classe a que seria destinado: para o soldado, música em modo aguerrido, para os espíritos mais flexíveis, melodias efeminantes, e assim por diante. Disse, em suma, o óbvio: a música significa o seu etos. O segundo pareceu ir além do seu mestre formulando a hipótese aproximada a seguir: o caráter da música é, na verdade, uma impressão causada no espírito do ouvinte.

Ao leitor pouco atento e algo versado nos meandros da teoria da música pode soar como de somenos importância o feito aristotélico, embora jamais se comparado à incúria platònica de tomar sem maior exame - procedimento inédito em sua obra - consideração de que só não são capazes as vítimas da surdez: a música possui caráter. Tombam ambos ante o contendor, mas justiça seja feita: o liceano o atinge antes - digamos - no ombro, já que sua asserção ao menos levou em conta o sujeito, em aparência esquecido - ou desdenhado! - no seu antecessor. Sim, disse então Aristoxeno, tem esse ou aquele caráter a música, os quais se manifestam no espírito. E daí? O que confere tal ou tal caráter - ou significado - a ela? Nesse ponto a Górgona - identidade aposta aqui ao oponente com vistas a tão-só não dissipar de súbito a fibra épica do relato - estremeceu e, petrificada, trincou em mil pedaços já antevendo no olhar desse novo bravo a temida resposta: a música significa, conclui Aristoxeno, por obra de sua urdidura, do entretecer dos seus elementos, os sons, pela superposição de alturas, ritmos, timbres e intensidades vários; entenda-se-os e saber-se-á o que diz a música! Estava encerrada a questão, não obstante platonismo e aristotelismo, acometendo qual febre o pensamento universal ao longo dos derradeiros dois mil e trezentos e tantos anos, adiou até o último século a abertura do lacre de onde Aristoxeno a depositou para a consideração de seus sucessores.

Acredite, leitor, em minhas insignificância e insensatez eu desafiava, ao tempo em que me inteirei dessas coisas, a mesma criatura, de algum modo rediviva após tantas eras de suposto silêncio. Em virtude disso eu trafegaria por toda Idade Média, alcançaria a Renascença, toparia com Zarlino, Rameau, Fux, Hanslick, Schoenberg, Stravinsky, Hindemith, Danielou, Nattiez, todos, entre tantos outros, se não inteiramente derrotados, ao menos gravemente feridos. Como vantagem pessoal, contava com a lição do grego, largamente ignorada ou desdenhada pelos demais, bem como com alguns instrumentos urdidos nas recentes Lógica Simbólica e Semiótica, entretanto, pobre leitor, não me atrevo a cansá-lo mais com semelhantes peripécias da palavra - cuja função aqui teria sido a de pô-lo em sintonia com o tanto ocupando os meus pensamentos na ocasião - a serviço de assunto de pouco ou nenhum interesse senão para os carentes da sensibilidade que os permite apreciar sem entraves a boa música, quando o tema que intento referir anda longe ainda, devendo contentá-lo sem demora com o resultado de minha justa, da qual, contundido aqui e ali por sérios golpes que quis a fortuna eu soubesse esquivar em grande parte, produzi o módico volume onde aproximei o estratagema por intermédio do qual crêem filosofia e ciência chegar a suas conclusões - a operação lógica conhecida como implicação - e certa trama subjazendo ao discurso da música desde pelo menos os tempos das Cruzadas! Sim, logrei mostrar (ou cri tê-lo feito) a cumplicidade de música e pensamento verbal, sendo essa estrutura o seu significado, e obtive assim o duvidoso título de mestre em composição, embora não vislumbre ainda sua utilidade para lá da hierarquia universitária e suas cobiças!

Dona Lurdes: eis, por fim, o anunciado personagem cujo nome ouso grafar sem o 'o' mesmo não estando seguro de obedecer à ortografia em sua certidão de nascimento, pois creio denotar, em assim o escrevendo, a simplicidade de sua posição na pirâmide social. Conversávamos ela, eu e outrem à frente do portão da casa onde morei, numa ladeira antiga e empobrecida dum bairro central do Rio, quando se mencionou - não lembro quem ou a qual propósito - algo de existência improvável ou impossível. Entreolhamo-nos com irrisão e disse D. Lurdes: 'Se tem nome é porque existe de alguma maneira'!

Silêncio!

Ora, leitor (ou leitora! - a privação de um substituto neutro para o substantivo no português obriga, em respeito à polidez, a iteração de cujas omissões anteriores me retrato aqui), como dizia, ora, dada a pálida pintura do meu estado psíquico no momento, motivada pelo mar de informação semiótica e lógica a que fora lançado, é de prever o efeito bombástico da assertiva de minha vizinha, não escondendo, inclusive, a indefectível forma silogística na qual se nos apresentaram verdadeiras pérolas da filosofia universal. Por isto silenciei. Creio terem sido diversos dos meus os motivos do silenciamento da outra presença em nossa cena, a terceira, excluída misteriosamente de minha memória, mas imagino-lhes um fundo algo místico assombrando com a possibilidade real, material, da fictícia entidade aludida na conversa e ratificada na sentença de D. Lurdes. Aproveito para confessar o meu assombro também, alimentado nesse gênero de monografias que souberam redescobrir nas intenções da poética mítica da Grécia pré-clássica a extrema cumplicidade de dizer e tornar existente.

Neste ponto são inúteis quaisquer formas de ceticismo, uma vez ser inegável a existência das idéias, as quais são, no mínimo, coisas a que um dito qualquer corresponde. O leitor ou leitora podem ser mesmo adeptos das doutrinas sensualistas e alegar que uma idéia não seria, a rigor, percebida por um ou mais dos cinco sentidos: imagens como palavras e outros gêneros de grafismos, sons e fenômenos mais, dir-me-ão, veiculam as idéias, não obstante confinem-se elas tão-só ao pensamento. De minha parte alego ser o pensamento sorte de sentido constituído da junção ou interpenetração das informações colhidas pelos outros cinco e vertidas em ondas cerebrais (ou eletricidade, ou seja lá o que for); prova disso melhor não tenho senão jamais ter-me entrevistado - de maneira impensável! - com alguém privado de tato, paladar, olfato, visão e audição dizendo-me haver adquirido o conteúdo do que pensa em fonte diversa. E, caso não convença semelhante argumento, disponho outro: a existência das idéias é tão real (seja lá como se interprete o adjetivo) que não raro põe em risco o equilíbrio mental, havendo inclusive crescente número de terapias para tais distúrbios rivalizando ou quiçá excedendo aqueles convencionados como sendo puramente físicos.

A minha vizinha referia, enfim, algo de perturbadora verossimilhança, não vejo como negar. E, muito mais do que à comprovação de serem as idéias existentes assim como o são você, eu, estas palavras e tudo mais, o embaraço provocado pelo seu dito está no uso do que em lógica é chamado de quantificador, partícula cujo sentido é estabelecer a incidência mínima da referida qualidade num universo qualquer estabelecido. Assim a frase pode traduzir-se como: 'ao menos de uma maneira existe aquilo designado por um nome'. Comprovamos que ao menos com sua idéia um nome estabelece correspondência, afirmativa óbvia, mas não incapaz de causar o espanto, dado ter saído de fonte improvável como a simplicidade de D. Lurdes. Mas não podemos desdenhar do sobressalto do terceiro e anônimo indivíduo na cena, do qual foi possível inferir o receio de tocar, ver, escutar, cheirar ou degustar entidades produzidas numa incontrolável fantasia, de lá trazidas pelo ato comezinho e - no caso - pavoroso da menção. Seu temor denota, além do mais, em sua condição social ou cultural não menos simplória do que a de D. Lurdes, a estreita intimidade com a estrutura lógica da frase onde a quantificação, em seu vago rigor, estabelece dentro da totalidade das coisas uma possibilidade inquietante.

Já mencionei, não poucas pérolas da filosofia universal valeram-se dessa fôrma para enunciar seus também impressionantes achados, sem falar na música chamada tonal (desconheço se as de outros tipos também o fizeram, pois não as investiguei sob tal prisma)! À imitação dos curiosos do funcionamento dos organismos vivos, os quais vão buscar nos açougueiros a perícia dos seus talhos, a lógica costuma fazer sentenças em pedaços com o fito, entre outros, de classificá-las segundo certos moldes ou mesmo de reduzi-las, seja qual for a quantidade, a somente uma. No passo de suas parentas da zoologia e da botânica, para quem não passamos de acidentes numa tabela dispondo gêneros e espécies, a anatomia lógica é capaz de mostrar, por exemplo, um discurso como Os Lusíadas, em suas riqueza e dimensão grandiloqüentes, como uma série relativamente monótona de umas poucas estruturas frasais ou, pior, comprimi-lo numa sentença única desprovida de qualquer poesia, procedimentos causadores de espécie nos apreciadores da literatura tanto quanto nos amantes das formas vivas a visão destas esfaceladas. A despeito de ignorar o perfil de quem se interessará por este escrito, ainda que de modo passageiro devo proceder a exame dessa natureza no dito de D. Lurdes, ou não se aquilatará o peso de sua estrutura na atividade humana compulsória de relatar para entender as coisas que nos cercam.

Enunciada de maneira coloquial, suprimidos termos tidos como implícitos por quem a escutou, a frase poderia reescrever-se como: 'se há um nome, então existe (ou existiu) aquilo por ele designado' ou, mais concisamente, 'um nome sempre designa algo'. Mesmo assim apresentada, a afirmativa esconde no mínimo outra cuja ausência lhe negaria sentido, como quando aberto o abdome dum animal e tendo à vista os intestinos, o anatomista experiente assevera a existência, no interior deste, de veias e nervos e sangue, sem os quais não seriam verdadeiramente intestinos. No presente caso ocorre um desdobramento, de hábito tido como decepcionante pelos não versados no rigorismo dos lógicos por nele se dizer, em última análise, a mesma coisa seja com pouca economia, seja invertendo-se os termos: 'tudo quanto se conhece é designado' ou, de outro modo, 'o conhecimento das coisas determina designações (seus nomes)'. Encurtando a conversa: na raiz da sentença de minha antiga vizinha há um pressuposto ainda mais geral, aplicável - segundo nossa maneira de ver e entender o mundo - a toda e qualquer coisa, a saber, 'tudo tem uma causa'. Apesar da obviedade, o mencionado pressuposto vem propondo um sem número de problemas em cuja solução o homem vem-se ocupando no correr dos séculos.

O mais importante de tais problemas parece ser o do conhecimento das relações entre as causas e seus efeitos, e as mais cobiçadas dessas relações, sem dúvida, são aquelas invariáveis, ou as ocorridas sejam quais forem as circunstâncias. As invariâncias, em minha opinião e grosso modo, devem sua importância à necessidade nossa de sobreviver sem o estorvo da perene novidade, muito embora lidemos, a despeito de quaisquer esforços, com a sombra ineludível do inesperado. De todas destaco uma de especial interesse para a presente ocasião: 'qualquer coisa será sempre e incomparavelmente mais rica em características, em propriedades, do que as idéias que causam'; outro modo de o dizer: 'uma idéia jamais dará conta por inteiro do que a causou'; ou ainda: 'nunca se fará uma idéia completa de algo'; e, à moda clássica: 'uma idéia é menos perfeita do que sua causa'. Os indivíduos normais temos certa dificuldade em admitir tal evidência. Vivemos com a crença de bem conhecermos, por exemplo, os objetos utilizados no dia-a-dia, atitude cotidiana de insinceridade para conosco mesmos determinada talvez pelo intenso e disperso fascínio ante a diversidade do mundo, talvez por sermos negligentes com nossa habilidade fundamental, o pensamento. Ao contrário, o filósofo tem o sonho da imobilidade corporal, mais ainda, sonha mesmo com pôr de parte o próprio corpo no afã exclusivo de pensar. É capaz de examinar por toda a vida as facetas inesgotáveis de um pedaço de cera e comprazer-se com a confissão de sua ignorância acerca disso que poderia ter nas mãos pela eternidade.

Com suficiente atenção ter-se-á de há muito intuído onde intento chegar, ter-se-á vislumbrado, desde a fala de D. Lurdes, essa presença insidiosa duas de cujas mais expressivas contribuições para a humanidade, tirante o casamento de geometria e álgebra, foram os esforços metódicos de mergulhar na própria consciência e de afirmar a existência de Deus. Em sua lisura Descartes foi levado a concluir, segundo o mesmo pressuposto de haver uma causa para tudo, a existência do ser inteiramente perfeito cuja idéia, não obstante e naturalmente imperfeita, fermentava em seu pensamento. Raciocinou, segundo me parece, para chegar a tanto, tomando como ponto de partida a observação comum de que os sentidos de hábito nos enganam: à distância, exemplificou, enxergava um ponto naquilo que de perto se revelaria uma torre. Na dúvida quanto a isto e a tudo mais trazido pelos sentidos, escolheu negar e o fez com o que pôde, com seu próprio corpo, inclusive. Esbarrou, é natural, nos pensamentos e aí foi levado a admitir a existência disto que os formulava, ele mesmo, a consciência. Nesse ponto ser-lhe-ia fácil, embora dolorosamente, confinar-se à solitária do ceticismo, o solipsismo, mas é salvo por essa idéia imperfeita cuja causa era a suma perfeição, Deus. Ora, mais ou menos pensou ele, se posso duvidar de - e por conseguinte negar - tudo, conquanto não o possa fazer comigo mesmo, uma vez constatar que sou eu quem está pensando isto, a idéia que tenho de mim possui, como qualquer idéia, sua causa, no caso, eu próprio e, como tudo mais além das idéias possui causas, possuo também a minha, a qual só pode ser a entidade absolutamente perfeita cuja idéia tenho impregnada no pensamento. Sendo, como é, o ser de absoluta perfeição causador de mim e da idéia que faço de si, é causa também de todo o resto de que duvidei e por rigor metodológico neguei de partida, havendo, portanto, o mundo, não estando eu a aluciná-lo, não estando eu só num universo que é eu mesmo. Seco o suor da fronte e já tranqüilizado, Descartes empreende a composição das 'Meditações'.

Descartes, como é evidente, não vem causando pouca celeuma ao longo dos derradeiros trezentos e tantos anos: não é possível negar a própria consciência e muito menos Deus, sendo a prova disto a mesma encontrada por minha simplória vizinha para conferir verossimilhança a uma monstruosidade qualquer urdida em nossa fantasiosa conversação. De tal raciocínio não se pode afirmar categoricamente a novidade: esteve desde sempre embutido nos arrazoados teológicos ao longo de pelo menos a sofrida história da cristandade. Nem ele mesmo, Descartes, parecia conhecer com segurança suas fontes, tanto que não as menciona ou o faz de maneiras evasivas, tais como 'os antigos filósofos', por exemplo, alguns deles identificados com alguma facilidade com os estóicos. Qualquer bom padreco meio versado em retórica já vinha traçando tangentes a esse argumento em suas homilias paroquiais, restando ao francês, quando muito, a primazia de tê-lo exposto com inquietante objetividade. Do arrazoado, brilhante, por sinal, em termos dos instrumentos lógicos urdidos com a finalidade de demonstrar a existência divina, fica a lição da impossibilidade de honestamente falar-se nela.

Pois os atributos com que se concebe a divindade, para lá de verdadeiramente ela existir ou não, criam no bom senso uma cadeia de incoerências, a saber, de raciocínios insolúveis. A começar pela perfeição (excetuando as idéias, sempre e por necessidade em débito para com seus objetos), como explicar um mundo defeituoso tendo origem no melhor posssivel? Se a regra é invariante, a idéia de eugenia, por exmplo, mesmo a mais bem intencionada e conduzida, não passa de quimera. Mais sério ainda: estaríamos, sem o percebermos, piorando geração após geração (não falta, inclusive, quem aposte nisso!). Para agravar o problema, como entender uma perfeição todo-poderosa com uma descendência tão pródiga em enguiços? Como como conceber que, podendo-se realizar o melhor, escolha-se - não obstante infinita boa vontade (outro dos atributos divinos) - o duvidoso? (O verdadeiro professor Pangloss jogou fora muita tinta tentando mostrar, de modo reverso, que esse 'duvidoso' é de fato o melhor.) Pelo menos nós humanos, em nossa persistente boa fé, temo-nos mostrado incapazes de compreender semelhantes conceitos, embora não nos cansemos de os admirar por seus artifícios lógicos. Caso diferente é o dos teólogos, cujo argumento máximo contra essas dúvidas se resume a nos informar não nos ser possível atinar com os desígnios divinos. Por isso exortam à tolerância, ao fim e ao cabo, atitude indicada em quase todas as situações da existência, seja ou não seja Deus como é de hábito (e, dizem, por necessidade) descrito. Seja este, porventura, o ensinamento por excelência possível a toda e qualquer boa filosofia: advertir-nos da imperfeição das coisas e fazer-nos tolerantes para com isto que jamais compreenderemos. A outra, filosofia de compleição enganosa, constituída de técnicas impressionantes, tem como fim exclusivo cooptar-nos o bom senso - como bem aprendeu a fazer a música com finalidade nobre - para uma visão embaçada do real.

Para terminar, tenho de mencionar o povo conhecido por mim em dois ou três parágrafos de 'Preleções sobre a essência da religião' do grande Feuerbach, os 'kamtchadalos'. Como o seu deus, 'Kurka', tendo o poder de criar tanta coisa - protestavam -, o fez como um inepto, pondo em sua rota montanhas intransponíveis, rios inquietos, tempestades e dor? Por isso o execravam como a um estúpido, considerando-se a si próprios, ao contrário, inteligentes, pois sua simplória sabedoria se pautava pela certeza de serem bondade e ignorância incompatíveis, esta possivelmente a marca distintiva da autêntica humanidade.

Waldemar M. Reis

 
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License. -->