Terça-feira, Novembro 23, 2004

Para concordar, discorde - e vice-versa!

Possuo opinião formada sobre o assunto, mas me abstenho de enunciá-la aqui. Oportunidade não faltará de expô-la à discussão, conversa longa que, ademais, não escapará ao leitor agudo de entrelinhas no exposto a seguir.

É deveras infindável a lista de causas da miséria humana. Entretanto, praticamente todas podem ser descritas, de modo geral, como o confronto da necessidade com a ignorância do que a determina, desencadeando-se assim respostas - em grande parte ações - não raro estapafúrdias. Por exemplo: qual a razão de sermos obrigados a comer? Para o senso comum a questão pode parecer absurda, mas havemos de concordar numa coisa: existe quem a nutra! Além dos anoréxicos e outros inapetentes, fortes candidatos por certo são os envolvidos no fornecimento exaustivo de alimentos, como lavradores, cozinheiras, garçons, etc, em especial quando não estão matando a própria fome. Quanto às reações, de hábito não passam de uns poucos resmungos, havendo quem aposte em outras mais radicais e, por isso, quem cuide pessoalmente das próprias refeições, jamais se expondo ao risco de sequer beliscar um quitute do mais renomado 'chef' por desconhecer seja o seu humor, seja a sua cozinha no momento do preparo. Mas há quem chegue ao paroxismo e, em virtude de misteriosas convicções, passe a nutrir-se de ar, ou assim afirmar. Estou entre os que desejam com sinceridade crer em semelhante proeza (livrar-me da fome representaria notável economia de tempo!). Outros, por incrível que pareça, acreditam!

Transferindo-nos agora ao âmbito de outra miséria, digo, necessidade humana cujas razões ou motivos passam ao largo do entendimento universal, encontrei faz pouco uma de suas mais singelas e - por que não dizer? - curiosas expressões. Trata-se de crônica recente (17-11-04) do jornalista Diogo Mainardi, colaborador num semanário resistindo desde os tempos da ditadura. Pouco freqüento o iracundo cronista, sempre às voltas com temas de importância nacional como a partilha do seu endereço, a avenida Vieira Souto, com moradores de uma favela nas adjacências. Entretanto, desnecessário é ser assíduo leitor do cronista para notar o seu manejo canhestro do assunto aqui em foco: a condição gregária do homem. Melhor dizendo, até pouco tempo atrás estive convencido de ser o sr. Mainardi tão-só um elitista, um daqueles cuja compreensão da sociedade humana se faz pela convicção da necessária divisão dos indivíduos em servidos e seviçais, argumento de evidente consistência do ponto de vista dos integrantes do primeiro grupo. É habitual acompanhar este ideário uma condição imprescindível e de caráter moderado: a de permanecer cada qual onde se está, notadamente quando se está bem ou, em outros temos, a mobilidade social, sim, exceto a 'minha', senão para melhor.

Foi com a nova página do cronista que pude avaliar a dimensão dessa dinãmica social para si. Sob o título 'A invenção do brasileiro' ataca, em resumo, o nacionalismo getulista, responsável pelo urdimento da idéia que temos, brasileiros, de nós mesmos, povo contente, pacífico, mestiço, isento de preconceitos (incluso o racial), trabalhador, etc, não poupando também todo o rol de colaboradores na implantação e na solidifiação da auto-imagem nacional resistindo até os dias de hoje, como Ari Barroso, Villa-Lobos, Portinari e Gilberto Freire. Até aí, imagino que o possuidor de formação escolar média esteja advertido do fato e, em certa medida, o considere bom, não obstante o saiba parte da política de Estados fascistas assolando o mundo ao longo de quase todo o século passado. O quid do artigo, no entanto, aparece mais ao fim, quando o sr. Mainardi, tomando como exemplo a história européia, pontilhada de revoluções e guerras, conclui pela necessária desavença no processo de formação dos povos!

Duas coisas - creio - a boa ciência, muito antes dos últimos quatrocentos anos, aprendeu a distinguir: a ocorrência - ou mesmo a recorrência - de um fato e sua necessidade, em suma, não é por vir acontecendo que algo tem de acontecer outra vez ou para sempre. Suficiente é consultar alguém de bem com a vida: não, nada de dissensões, dirá. Embora se desconheça a exata circunstância da formação da grei humana, quais os interesses que a nortearam em tempos pré-históricos, sabe-se hoje com certeza ser mais conveniente associar-se a amigos que a inimigos. A concepção de sociedade abarca, faz muito, ao menos o desejo de paz, não obstante ignore como estabelecê-la. Apenas isto basta como prova de não ser consensual o casamento obrigatório de sociedade e cizânia, tratando-se de opinião pessoal essa do sr. Mainardi, ou porventura de uso em grupo do qual estou decididamente excluído.

Ignoro também a realidade a que semelhante opinião faz frente. A cuidadosa olhadela à volta revela a qualquer cidadão, ao contrário, situação em inteiro acordo com o parecer do sr. Mainardi e, se não me engana a memória, desde muito antes de nos convencerem de sermos brasileiros! Pelo jeito ele se reporta à população habitando os mosteiros em geral que, segundo me consta, não abraça em sua totalidade comportamentos pacíficos, ou a mim próprio, embora não me possa classificar com exatidão como um parvo absoluto, na medida em que, se não ando em pé de beber o sangue alheio, procuro defender-me, de preferência no diálogo. Sintetizando: em plena guerra, convoca-nos o cronista à guerra!

Por fim, faladores e escrevedores o sabemos, há o perene risco de se chegar, pelo uso compulsivo e imoderado das palavras, ao "outro pólo da verdade" - como o alertou Quintana. Qual parede invisível se interpondo ao caminho do discurso, a contradição - ou paradoxo - é destino invariável dos narizes muito caprichosos trazendo a reboque insuficiente massa cinzenta para lhes comedir a pressa. Segundo alguns (bons) lógicos, contradizer-se é mesmo condição do dizer, é inescapável. Assim, não censuro o sr. Mainardi por se precipitar onde mais cedo ou mais tarde todos os discursadores nos encontraremos, mas cabe ao menos apontar o modo como o fez.

Ao postular a discórdia como motor perene da sociedade humana, como o fizeram os geniais sofistas de modo um tanto diferente, o cronista em pauta compõe a sua versão particular do célebre paradoxo no qual alguém se diz mentiroso: se de fato mente quando o diz, sua afirmação é verdadeira, mas se é veraz no que afirma, está mentindo! De maneira análoga, ignoro a atitude mais adequada a tomar no que respeita à opinião do sr. Mainardi: se discordo, estou concordando e, caso concordasse, não teria tal direito sem lhe estar contra.

Waldemar Reis

 
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License. -->