Quinta-feira, Dezembro 23, 2004

Feliz dia qualquer!

Desejo-lhe toda a felicidade do mundo hoje, um dia como outro qualquer, em que alguma criança nasceu e ao menos outra morreu, assim como tanta gente. Neste e em todos os outros dias de nossas vidas desejo-lhe imensa felicidade. Pois sempre é tempo de ser feliz - isso em nome de que até o infortúnio é suportado - e, além do mais, este é o dia mais venturoso de sua vida, já que pode ser o último e ao longo do qual você decerto terá, no mínimo, lembrado de algo bom, se não o estiver vivendo.

Mas não lhe desejo que saia atabalhoadamente procurando-a, já que o mundo é lugar certo de perigos, o pior deles o risco de não encontrá-la ou de confundi-la com uns tragos de embriaguez e muita conversa fiada. E, ademais, ela não está muito além do que se vê de olhos fechados, prova disso melhor não tenho senão a consideração de ser você quem a sente, quem a percebe, caso contrário seria alheia essa felicidade, contagiosa, é bem verdade, mas por vezes infensa à sua pessoal, visto nem todos sabermos como prodigalizá-la muito para lá do círculo exíguo do próprio coração.

Desejo-lhe, portanto, a felicidade quieta, aquela de uma caneca de chá quente nos dias chuvosos embaixo das cobertas, um bom livro e muito imaginar, e não a de multidões ou de festas de família, mesas fartas e fogos de artifício, onde é provável uma indigestão ou coceiras nos olhos e onde você constatará apenas que sempre esteve e estará só, como todos os outros, aprisionado numa teia de recíproca incompreensão. Então, se procurar alguém, que seja quem se empenha em compreendê-lo em toda sua contradição, quem o escuta mesmo sem ter dito nada, quem o enxerga no escuro e lhe sente a pele sem necessidade de tocar. Poucos são os donos de semelhante perfil, um deles velho conhecido, que caminha ao seu lado constantemente, embora você não lhe dê suficiente ou nenhuma atenção, tratando-o às vezes com certa impaciência, a típica dos convívios muito estreitados. Portanto, calma, pois de outro modo a felicidade é mera excitação, dissipando-se como as borrascas ao darem lugar a mansos dias de chuva ou tardes mornas de verão.

Waldemar Reis

 
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