Breve e estéril discussão
"Mas, o mais importante, sempre, é fugirmos das formas estáticas, cediças, inertes, estereotipadas, lugares-comuns, etc. Meus livros são feitos, ou querem ser pelo menos, à base de uma dinâmica ousada, que, se não for atendida, o resultado será pobre e ineficaz. Não procuro uma linguagem transparente. Ao contrário, o leitor tem de ser chocado, despertado de sua inércia mental, da preguiça e dos hábitos. Tem de tomar consciência viva do escrito, a todo momento. Tem quase de aprender novas maneiras de sentir e de pensar. Não o disciplinado — mas a força elementar, selvagem. Não a clareza — mas a poesia, a obscuridade do mistério, que é o mundo. E é nos detalhes, aparentemente sem importância, que estes efeitos se obtêm. A maneira-de-dizer tem de funcionar, a mais, por si. O ritmo, a rima, as aliterações ou assonâncias, a música 'subjacente' ao sentido — valem para maior expressividade.
(...)"
(Guimarães Rosa, em carta a Harriet de Onís, de 4 de novembro de 1964)
Não digo que seja condenável a procura da escrita dúctil, mais amolgada ao pensamento e à fala comuns, cotidianos, visto também ser possível desse modo construir o maravilhoso, o imprevisto, enfim, o inusitado. Há pelo menos uma coisa de imediato garantida nisso de escrever-se como se fala, é bem verdade: refiro a outorga, a anuência do leitor, do apreciador da obra, fundamental para que se configure o processo artístico. Mas há também um senão, ao menos, na escolha de instrumentos de sedução assim eficazes: a formação de um público em extremo habituado a ser servido, indolente, inepto em sua relação com o mundo, este cuja apreciação demanda não poucas vezes esforços verdadeiramente estóicos.
Parece verdade que a sociedade humana vem se constituindo em oposição explícita ao mundo ou àquilo que, no mundo, crê o homem ser incômodo ou nefasto aos seus bem-estar e sobrevivêcia. E dessa redoma confortável, a salvo do adverso, somos capazes de apreciar - esteticamente, portanto - até os cataclismos. Isto parece concordar com a busca de fórmulas fáceis - assimiláveis sem maiores esforços, sem quaisquer transtornos - para as obras de arte. Entretanto tudo isso nos faz esquecer nossa condição mortal, na qual a imortalidade, pretendida e ainda que possível um dia, viria a ser um estorvo adicional, pois será preciso aprendermos a tolerá-la em toda a sua monotonia, para a qual certamente não estamos preparados pois seria preciso desfrutarmos de outra condição desde o nascimento, a de eternos! A arte fácil não ensina a morrer, mas a desviar nossa atenção do fato de que morremos! È preciso aprender a morrer, sim, mas não apenas isto: é preciso que aprendamos a apreciar esse momento tão pessoal, intransferível, como nos habituamos a apreciá-lo quando acontece com os outros, de preferência os personagens de ficção. É preciso estimular o homem a gozar incondicionalmente em sua existência ou ele será um eterno - ainda que perecível - infeliz.
Além do fragmento de carta que inspira este comentário, Rosa já me tinha feito outros regalos, como quando entendi que sua linguagem (especialmente em 'Grande Sertão'), soando para nossos ouvidos clássicos ou mesmo modernizados como sub-humana, linguagem própria de uma humanidade que temos escolhido ignorar, é veículo privilegiado de questões que os shakespeares esqueceram ou jamais imaginaram. Coisa idêntica pode-se dizer de Nelson Rodrigues com seu jargão burguês-suburbano-carioca.
No meu caso tenho procurado, em muitos textos, explorar a elasticidade do clássico, do lógico, da clareza e das virtudes do som, incluso o ritmo, o que me opõe, em princípio, à estética do mineiro, ao menos no que concerne ao termo 'clássico'. De um lado, o faço por estar habituado a semelhante textura equanto leitor e, de outro, pela certeza de que a música do falar diário se perde inevitavelmente no tempo, substituída por nova, vindo a ser o tecido lingüístico tradicional aquele em que sonoridade e sentido são preservados em detrimento das renovações sofridas pela comunicação mais imediata, mais urgente. È por este derradeiro ponto que se estabelece uma conivência entre a minha e a estética de Rosa: o leitor indolente será de imediato afastado, ou se disporá a "aprender novas maneiras de sentir e de pensar". Pois disto também o clássico é capaz, do novo na aparência estática, do selvagem no gesto civilizado e do misterioso e do obscuro à luz da coerência. Além do mais, serve o clássico de freio, sem o qual estou certo de que já estaríamos tão distantes do vernáculo camoniano quanto esteve este do latim anterior à república romana. Sem o clássico é provável que necssitássemos de intérpretes para conversarmos com nossos antepassados mais recentes, situação de que não estamos muito longe nesses nossos dias.
Waldemar Reis (11/03/05)
(...)"
(Guimarães Rosa, em carta a Harriet de Onís, de 4 de novembro de 1964)
Não digo que seja condenável a procura da escrita dúctil, mais amolgada ao pensamento e à fala comuns, cotidianos, visto também ser possível desse modo construir o maravilhoso, o imprevisto, enfim, o inusitado. Há pelo menos uma coisa de imediato garantida nisso de escrever-se como se fala, é bem verdade: refiro a outorga, a anuência do leitor, do apreciador da obra, fundamental para que se configure o processo artístico. Mas há também um senão, ao menos, na escolha de instrumentos de sedução assim eficazes: a formação de um público em extremo habituado a ser servido, indolente, inepto em sua relação com o mundo, este cuja apreciação demanda não poucas vezes esforços verdadeiramente estóicos.
Parece verdade que a sociedade humana vem se constituindo em oposição explícita ao mundo ou àquilo que, no mundo, crê o homem ser incômodo ou nefasto aos seus bem-estar e sobrevivêcia. E dessa redoma confortável, a salvo do adverso, somos capazes de apreciar - esteticamente, portanto - até os cataclismos. Isto parece concordar com a busca de fórmulas fáceis - assimiláveis sem maiores esforços, sem quaisquer transtornos - para as obras de arte. Entretanto tudo isso nos faz esquecer nossa condição mortal, na qual a imortalidade, pretendida e ainda que possível um dia, viria a ser um estorvo adicional, pois será preciso aprendermos a tolerá-la em toda a sua monotonia, para a qual certamente não estamos preparados pois seria preciso desfrutarmos de outra condição desde o nascimento, a de eternos! A arte fácil não ensina a morrer, mas a desviar nossa atenção do fato de que morremos! È preciso aprender a morrer, sim, mas não apenas isto: é preciso que aprendamos a apreciar esse momento tão pessoal, intransferível, como nos habituamos a apreciá-lo quando acontece com os outros, de preferência os personagens de ficção. É preciso estimular o homem a gozar incondicionalmente em sua existência ou ele será um eterno - ainda que perecível - infeliz.
Além do fragmento de carta que inspira este comentário, Rosa já me tinha feito outros regalos, como quando entendi que sua linguagem (especialmente em 'Grande Sertão'), soando para nossos ouvidos clássicos ou mesmo modernizados como sub-humana, linguagem própria de uma humanidade que temos escolhido ignorar, é veículo privilegiado de questões que os shakespeares esqueceram ou jamais imaginaram. Coisa idêntica pode-se dizer de Nelson Rodrigues com seu jargão burguês-suburbano-carioca.
No meu caso tenho procurado, em muitos textos, explorar a elasticidade do clássico, do lógico, da clareza e das virtudes do som, incluso o ritmo, o que me opõe, em princípio, à estética do mineiro, ao menos no que concerne ao termo 'clássico'. De um lado, o faço por estar habituado a semelhante textura equanto leitor e, de outro, pela certeza de que a música do falar diário se perde inevitavelmente no tempo, substituída por nova, vindo a ser o tecido lingüístico tradicional aquele em que sonoridade e sentido são preservados em detrimento das renovações sofridas pela comunicação mais imediata, mais urgente. È por este derradeiro ponto que se estabelece uma conivência entre a minha e a estética de Rosa: o leitor indolente será de imediato afastado, ou se disporá a "aprender novas maneiras de sentir e de pensar". Pois disto também o clássico é capaz, do novo na aparência estática, do selvagem no gesto civilizado e do misterioso e do obscuro à luz da coerência. Além do mais, serve o clássico de freio, sem o qual estou certo de que já estaríamos tão distantes do vernáculo camoniano quanto esteve este do latim anterior à república romana. Sem o clássico é provável que necssitássemos de intérpretes para conversarmos com nossos antepassados mais recentes, situação de que não estamos muito longe nesses nossos dias.
Waldemar Reis (11/03/05)


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