<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935</id><updated>2012-02-10T22:20:52.891-02:00</updated><title type='text'>Textos Públicos</title><subtitle type='html'>&lt;br&gt;&lt;b&gt;Ensaios&lt;/b&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;
&lt;b&gt;Os escritos a seguir são partes do jogo em que periodicamente são lançados à maneira de mensagens em garrafas ao mar, embora subvertendo o sentido ordinário do gesto. Pois tendo o propósito inicial de auxiliar o autor na organização do pensamento, seu teor deixa clara a presunção de não ser exata ou tão-somente ele o náufrago a quem se destinam.
&lt;/b&gt;&lt;br&gt;</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>64</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-56569738078019978</id><published>2011-10-18T21:41:00.002-02:00</published><updated>2011-10-19T02:30:52.546-02:00</updated><title type='text'>Viver...</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;... como quem passa.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Por quê? Ora, por ser assim mesmo que se vive.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Veja o sol, por exemplo, incidindo sobre um ponto qualquer do globo: é sempre de outra maneira a cada vez que o faz e mesmo se acaso o ângulo é igual, ninguém o notará, por se ter modificado o ponto ou a atmosfera que os seus raios cortam e, é certo, o lugar donde se observa a cena. E ainda que o observador jamais se mova, se possível, tudo mais ao seu redor continuará a suceder-se: sempre algo novo, inimitável, irrepetível e que passa. Assim rezam física, religião, o poeta.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Portanto, despeça-se. Mas não como quem vai depois reencontrar, tampouco como quem canta um tango ou uma modinha. Despeça-se apenas. Pois é assim que se vive.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-56569738078019978?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/56569738078019978/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=56569738078019978&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/56569738078019978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/56569738078019978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2011/10/viver.html' title='Viver...'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-7292159017900957738</id><published>2011-08-05T18:13:00.054-03:00</published><updated>2011-11-08T20:55:32.636-02:00</updated><title type='text'>O uso próprio de 'liberdade' segundo Epicteto</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Uma provocação para Antonio Caetano&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;"É a liberdade algo além do poder de viver como escolhemos? "Nada além." Dizei-me, então, ó vós homens, quereis viver em erro? "Não queremos." Ninguém, então, que viva em erro é livre. Desejais viver no medo? Desejais viver em tristeza? Desejais viver em perturbação? "De modo algum." Ninguém, então, que esteja em estado de medo ou tristeza ou perturbação é livre; mas quem quer que esteja livre de tristezas e  medos e perturbações, este estará ao mesmo tempo livre da servidão."&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Epicteto - Discursos, Livro 2, Capítulo 1&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em certo sentido o filósofo é um dicionarista. Mas ao invés de apenas coligir as acepções de todo e qualquer termo em uso em determinado lugar e a um determinado tempo, ele parece restringir-se a uns tantos, que acredita atemporais e de domínio universal, procurando afinar-lhes e, em boa medida, corrigir-lhes o significado. Bom exemplo disso é termo 'liberdade'. No diálogo em epígrafe Epicteto é preciso em sua definição ordinária: 'o poder de escolher'. E nas três frases seguintes delineia o argumento que, levado às últimas conseqüências, conclui por em grande medida negar ou, ainda, limitar a definição inicial. Trata-se de argumento imbricado na fórmula aristotélica que iguala o conceito de 'causa final' ao de 'bem'. Se esta é aceita, então não há escolha e, por conseguinte, ou não há liberdade, ou é impróprio o seu sentido ordinário. Epicteto se esquiva de concluir o argumento que iniciou. Por não tê-lo em conta? É incerto, em especial pelo fato de que em seguida o desenvolve ao ponto de apresentar o único objeto relativamente ao qual a acepção comum de 'liberdade' é aplicável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aristóteles não deixa dúvidas quando identifica 'causa final' com o 'bem' e só faz ressalvas quanto a utilizá-la na investigação da natureza: na esfera do humano sua aplicação seria inequívoca. Quer pôr de fora de sua teleologia natural a presunção de intenção consciente, cuidado admirável quando não fazia muito Thales via deuses no interior das coisas: no âmbito natural a 'causa final' seria inferida somente do que é repetidamente produzido e apresenta uma função. O olho, por exemplo, teria por 'causa final' o ver: pouco importa que seja criado com a intenção de proporcionar a visão ou que apenas se veja porque se o possui. Já um eclipse se explicaria suficientemente por intermédio da 'causa material' e da 'causa eficiente': não faria sentido encontrar-lhe 'causa final'. Ajunta também que, mesmo nesse contexto, o da natureza, a 'causa final' tem de ser algo bom. 'Bom', no caso, parece indicar precisamente a qualidade do que mostra ter alguma função, alguma utilidade, e mesmo não se inferindo intenção de se produzir tal utilidade: ter uma função é bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos domínios da produção humana a inferência da 'causa final' segue uma linha semelhante, mas há um complicador quanto ao que constitui função ou bem por cuja influência algo aí se produz: a opinião diversa e por vezes inconciliável dos indivídos quanto a de fato ser ou não ser bom o que se produziu. E mais do que objetos quaisquer, obras de arte, instrumentos, os atos parecem ser o tipo de produto mais numeroso causado pela intenção do homem. Aristóteles demonstra estar ciente desses aspectos por tão-só não apresentar restrições à fórmula da 'causa final' quando aplicada à compreensão da produção humana. Tacitamente assume ser o bem - ou algum bem - o que move a produção humana e ainda que esse produto seja avaliado como mau por muitos e mesmo todos os indivíduos - incluindo o que o produziu. É o caso, por exemplo, de obra cujo autor a repudia depois de rejeitada pelos apreciadores, de um medicamento que por qualquer motivo se revela nocivo após ser lançado no mercado, duma declaração de guerra da qual se arrepende quem a fez e, principalmente, caso do maníaco que incomoda ou mesmo lesa quem não lhe causou nenhum mal e do terrorista que se mata para matar outrem. Todas essas coisas e atos possuem em comum a intenção causadora, que para o perpetrador foi, pareceu de momento ou é de fato boa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'O inferno está cheio de boas intenções': o ditado pode ser sinal de familiaridade do senso comum para com idéia que, simples embora, é adrede rejeitada por alguma filosofia, para dizer o mínimo. No entanto, não é exatamente de 'boas intenções' que se alimenta o mal, mas de ignorância. Soubessem de antemão, o autor do efeito futuro que teria o seu trabalho no público - e em si próprio - e quem declarou a guerra que não venceria, por certo não levariam a termo o que fizeram. Já o maníaco e o terrorista, embora não arrependidos de suas ações (suponha-se que mesmo na morte este último se mantenha inflexível), caso encontrassem, um, algo de diferente e que supusesse ser melhor para fazer, e o outro, um modo mais ameno e igualmente eficiente de externar seu protesto, creio não haver dúvida de que os escolheriam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto se dá por não serem coisas e atos produtos interessantes em si mesmos, mas no quanto deles se infere de bom. Pois o bem, como é corrente, a rigor é um juízo  - uma opinião, dissesse talvez Epicteto - afixado no quanto se produz desde que isto é ainda projeto. Como bem o demonstra o cuidado de Aristóteles ao considerar a inferência de 'causa final' de eventos da natureza, bem e mal são exclusivos da esfera humana, que os detecta por meio das sensações de prazer e desprazer. E são inúmeros os tipos de prazer e desprazer, cada qual correspondendo a determinados bens e males, tantos são que por vezes causam grande confusão, de que é exemplo o suicida: ora, estando a noção de bem entremeada nas estratégias de auto-preservação da vida, como pode a supressão, pelo sujeito, da sua própria ter por 'causa final' algo bom? É compreensível, entretanto, que circunstâncias adversas quaisquer possam torcer no sujeito até mesmo o cerne de sua representação do bem, quando o morrer, então, lhe parece perspectiva tolerável, mais do que a de estar vivo, pois crê que ao menos desse modo põe fim ao sofrimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É provável que considerações desse gênero tivesse Aristóteles no espírito quando afirmou ser indiferente se a 'causa final' é &lt;em&gt;"um bem real ou só uma aparência do bem"&lt;/em&gt; &lt;em&gt;(Metafísica, 5-2)&lt;/em&gt;: talvez por ser para nós o 'bem real' algo como o norte é para o planeta e a 'aparência de bem' como a bússola que o suscita. Tão poderoso é o seu magnetismo sobre nós que chega a comprometer mesmo a sagrada idéia de escolha. Esta a conclusão a que chegaria Epicteto caso interrompesse o seu diálogo na quarta sentença e acrescentasse apenas mais uma: &lt;em&gt;'ora, se liberdade é poder de escolha e se jamais se escolhe errar ou, o que é o mesmo, jamais se escolhe o pior, o mal, como então é possivel ser-se livre preferindo-se sempre e exclusivamente um dos termos da alternativa?'&lt;/em&gt; Entretanto, ele a omite, é provável que por prudência. Afinal já desafiava o suficiente as preconcepções de sua assistência com o rigor do estoicismo para pôr em xeque assim de súbito idéia talvez a mais apreciada pelo gênero humano, causa que é do imprevisível quando ameaçada. Por outro lado, é possível também que por conhecer a fundo suas implicações - Epicteto foi escravo na Roma de Nero - tenha preferido conservar o significado comum do termo, embora corrigindo os excessos no seu uso. Além disso, ele sabia: na prática, ainda que nos convença a lógica rasteira do argumento, lidamos como se houvesse escolha, desavisados como somos de que a indecisão quanto ao que eleger não passa de efeito da ignorância, que nos embota a percepção instantânea da única possibilidade válida na circunstância. Por isso é paciente e prossegue fazendo o que lhe cabe para contornar ou dissipar a ignorância: ensina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim ele procede expandindo o argumento que passa a centrar-se, em suma, na definição de 'erro', de início de maneira direta - é ausência de liberdade - e depois de forma enviesada, contemplando aquilo em que resulta, seus sintomas: medo, tristeza, perturbação. O final parece fugir à conclusão, embora ele retorne ao conceito inicial, de liberdade. Um amigo filósofo confessou-me uma vez seu constrangimento diante da conclusão nos silogismos, esforço evidentemente vão de esclarecer o que claro está desde a premissa. Ponderei dizendo-lhe que talvez fosse justo que assim se sentisse com os exemplares do silogismo escolar, criados com o fito de fazer ver o aprendiz o quanto da premissa interessa de fato para o conhecimento, mas não com os silogismos propostos na práxis, invariavelmente apresentados sem a conclusão. Exatamente como procede Epicteto com o seu que, a rigor, é um silogismo duplo, a ser concluído por quem dele se inteirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se observou, apesar de não nos ter dito na quinta e omitida sentença, a liberdade já fora rechaçada: como a entendemos de ordinário, a liberdade se revela impossível. Então ele prossegue com o argumento do erro, estabelece sua relação com a liberdade e envereda por realçar seus sinais: sinais de que não se agiu como é devido, de que se deixou embotar pela ignorância, de que  se realizou escolha - quando a rigor é instantânea para o instruído a percepção do melhor a fazer: e daí as mostras de arrependimento - medo, tristeza, perturbação - à guisa de confissão de culpa. É disso que não se é livre quando se está em erro, insinua Epicteto e o todo de sua doutrina o confirma insistentemente: de culpa e arrependimento. É deles que é mister se livrar. Mas não apenas. Livre é quem cumpriu com o devido, é quem, então, está livre do dever, único uso aceitável da acepção de liberdade. É verdade, e Epicteto e o estoicismo não nos enganam, trata-se de sensação transitória essa da liberdade, caso o sujeito tenha sorte, já que a realidade é pródiga em substituir um dever cumprido pelo chamado de um novo, quando não de nos propor diversos ao mesmo tempo e cujos cumprimentos nunca se alinham a um mesmo instante. Mas essa é a vida segundo os estóicos, restando a nós resignar-nos, jamais curvar-nos à servidão aos deveres não cumpridos e ao rol de infelicidades que acarretam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cadenza interrotta&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revisitar o estoicismo - coisa hoje em dia na esfera da obstinação, para mim - é recapitular ingratidão milenar dois de cujos atores significativos são cristianismo e Descartes. Descartes ao menos o aponta, imprecisamente, com vaga metonímia: "filósofos antigos". E dá a 'sua' versão de liberdade: desta feita graduada - como é usual proceder quando da mensuração de &lt;em&gt;continua&lt;/em&gt; como quente-frio - e a cujo mais baixo grau estariam confinados os acometidos da incerteza (ou indiferença), estado - aliás - a que ele próprio se submete para gestar suas Meditações. A ascenção de nível do sujeito se dá quando pende para um dos lados do dilema: &lt;em&gt;"seja porque... conheça evidentemente que o bom e o verdadeiro aí se encontrem, seja porque Deus assim disponha o interior do... pensamento(!?), tanto mais livremente"&lt;/em&gt; o escolherá e abraçará &lt;em&gt;(Meditação Quarta)&lt;/em&gt;. Também, como seus 'misteriosos' mentores, omite a conclusão: questão de escola,  questão de estilo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;Rio, 13 de agosto de 2011&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;Waldemar Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-7292159017900957738?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/7292159017900957738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=7292159017900957738&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/7292159017900957738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/7292159017900957738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2011/08/o-uso-proprio-de-liberdade-segundo.html' title='O uso próprio de &apos;liberdade&apos; segundo Epicteto'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-3512651873653352044</id><published>2011-04-07T02:51:00.050-03:00</published><updated>2011-07-16T04:06:45.905-03:00</updated><title type='text'>Narciso</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;a Maria Clara&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Verdadeira vítima. Que mal havia em desejar ninguém? Mas aos olhos de quem o queria sem esperança de sucesso era o completo arrogante: não mudamos muito desde o seu tempo. Foi amado, sim, é certo que Eco o amou, um amor incomunicável ou somente comunicável quando o outro lhe dissesse antes amá-la. Foi a sorte a que Juno a condenou quando se deu conta de ser enganada por Jove, o marido, que fornicava outras ninfas enquanto Eco a levava literalmente na conversa. Dali em diante a alcoviteira só repetiria o que ouvisse e, o pior, apenas os derradeiros sons. Como era de se esperar de figurinha assim, foi oportunista, aproveitando-se do que dizia Narciso ao notar que o seguiam ás escondidas; em resumo: precipitou-se, lançou-se nos braços do rapaz e - era de esperar também - foi posta a correr. Mas foi coerente com o que sentia pelo moço e findou seus dias em prantos, transformada em pedra que para sempre reproduz o final do que se diz ao redor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O responsável pelo destino de Narciso foi na verdade outro moço. Dizem que se chamou Adaminio e terminou por se matar implorando a Nemesis pelo que de melhor ela fazia: vingança. Há quem diga que somente pediu à deusa para dar a Narciso amor não correspondido. Pedido, concedido. O cenário foi escolhido com critério, fonte límpida, intocada, protegida dos reflexos excessivos do sol, lugar perfeito para que se cumprisse o vaticínio estranho, pois formulado em condicional, que lhe fizeram ainda nos braços da ninfa sua mãe: viveria muito se não se conhecesse. Um detalhe crucial: é inverossímil que Narciso, caçador solitário por escolha, tenha jamais se debruçado sobre poça d'água, que seja, para saciar a sede; talvez não estivera diante de uma tão cristalina quanto a que lhe ofereceria a deusa, mas é certo que de alguma mais opaca, o suficiente, entretanto, para ter uma idéia do quanto de si sabia impressionar quem o desejava. Segundo o poeta é fato que até se envaidecia um tanto de ser cobiçado por ninfas, mas tal poderia não passar de mera constatação das cortes que lhe faziam e que por vezes o aborreciam, é natural, fomentando o seu perfil público de imodesto. Enfim, conhece Narciso a si, conhece a própria beleza, não o suficiente para desencadear a condição de sua sorte adversa, com certeza, mas se conhece. Vê-se por aí a quantas já ia o tino grego desde bem antes de Platão quando o assunto era conhecimento: conhecer é conhecer bem, por inteiro (ou o mais próximo possível disso), ou não passa de simples opinião. Daí a fonte límpida, sem os exageros do sol e intocada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O resto é história bem conhecida, embora muitos pensem que Narciso morreu sem saber que se apaixonara pelo próprio reflexo. Quanto a isto o poeta não deixa dúvidas e é pródigo nos detalhes da tragédia a partir desse ponto. De tanto ficou uma das mais assombrosas e ambiciosas meditações acerca do amor-próprio quando levado a sua expressão hiperbólica. Não há, em primeiro lugar, culpa alguma em Narciso. Como se disse no início, trata-se de vítima, como a maioria dos personagens trágicos na Grécia antiga, do destino. Um destino que o fez belo e lhe prometeu vida longa caso permanecesse ignorante de si (como, aliás, queriam que ficasse ao lhe chamarem Narciso, sonâmbulo ou, do modo como usamos o possível radical do nome hoje em dia, narcotizado, entorpecido) e lhe pôs no encalço verdadeira horda de fanáticos por sua aparência, capazes, pelo visto, de qualquer artimanha para se verem deitados com o efebo ou para se desagravarem do não conseguido. Depois, a esperteza cruel de Nemesis, que entende ser improvável encontrar no mundo alguém a impressionar o auto-suficiente Narciso senão ele mesmo e lhe oferece então a visão perfeita, o perfeito conhecimento de si, que lhe reverteria o destino possível de longevo ignorante.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A fábula também faz cotejar som e luz quando refletidos: o amor de Eco só se comunica e se consuma como reflexo do amor alheio, enquanto o de Narciso é impossibilitado por ser reflexo aquilo que ama e, por conseguinte, não o refletir - enfim, não o corresponder; uma não pode refletir o amor do outro, pois inexistente, e este ama o reflexo que não pode amá-lo de volta. Infelicidades simétricas. Ovidio não é claro ou mesmo omite o por que de haver Juno escolhido esse castigo para a ninfa, mas é de supor que a condenou a perpetuar o que fazia enquanto a distraía das fugidas de Júpiter: alongar ao máximo a conversa com a deusa, na certa aproveitando-se do final de um assunto para incitá-la a emendar noutro correlato. Assim, de qualquer modo, Eco é vítima dos próprios atos, mas Narciso o é dos atos e cobiças alheios, sem mencionar os de uma divindade que usa espada e porta uma balança, mas possui asas, contrariando as expectativas que criamos na convivência com uma sua parenta menos ágil e de olhos vendados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O tema do exagerado amor-próprio é central na alegoria, mas ao seu redor gravitam outros de peso equivalente, como o do conhecimento, por exemplo, sem falar no do desejo, que confina com outros como o da inveja e assim numa cadeia praticamente interminável. É suficiente contemplar o mito para ir dando com eles um a um, às vezes amontoados, esquema classificável como interdisciplinar por um especialista em matéria de conhecimento em nossos tempos. A história de Narciso é mesmo exemplar no quanto concerne ao escopo da &lt;i&gt;mitopoiese&lt;/i&gt; (ou a composição do mito no jargão técnico). Às vezes breves, esses relatos se entrelaçam uns nos outros e é pressuposto a urdidura resultante representar o funcionamento das coisas, um modelo do mundo, de modo análogo ao que supõem atualmente as ciências fazer, talvez distinguindo-se apenas quanto à linguagem usada, mas não quanto ao interesse e mesmo à precisão. Os temas aparecem evidentemente revolvidos, discutidos, ponderados ou expostos para serem assim tratados por quem do mito se inteirar, de modo correlato ao que em mais de dois mil anos a filosofia vem tratando os seus.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A reserva com que o auto-conhecimento é apresentado, no caso, surpreende, em particular quando confrontado com o 'conhece-te a ti mesmo' do anedotário socrático. Espécie de despertar propiciado, em princípio, pelo artifício da deusa, talvez não por qualquer outro de seus sortilégios, e configurado com os elementos do sentido visual, pode ser estendido sem constrangimento a toda e qualquer parte do sujeito passível de percepção e conhecimento pelos sentidos restantes - inclusive o sentido somatório dos demais, o pensamento. Quantos narcisos há imunes a espelhos, mas não ao som da própria voz, à textura da própria pele e mesmo ao quanto tramam ao pensar? Veja-se, no mito mesmo, o sentido da presença de Eco. Seu amor só é dado a conhecer como reflexo do amor alheio externado - só pode manifestar o seu  a quem primeiro manifesta amor por si; não pode cortejar dizendo amar ou, mais ainda, pode ser obrigada a dizer amar a quem não ama de fato, apenas por assim determinar a maldição de Juno. Trata-se de uma variação do próprio Narciso: o amor que pode dizer nutrir pelo outro é em verdade um amor a si mesma, pois amor do outro por ela, Eco: só pode dar a conhecer o seu depois de conhecer o amor alheio: ama, portanto, esse amá-la&lt;a href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=7735935&amp;amp;postID=3512651873653352044&amp;amp;from=pencil#footnote-1"&gt;&lt;sup&gt;*&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;. E não se perca de vista o &lt;i&gt;medium &lt;/i&gt;a que Eco foi designada, o som, a despeito de a imagem permanecer como elemento fundamental na montagem do mito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A assimilação de conhecimento e amor é outro ponto notável: seria de fato o conhecer um amar o conhecido? Comparemo-la ao 'amor ao saber', tradução própria do termo 'filosofia', de cunhagem atribuída também a Sócrates. É evidente, o amor de Narciso por seu reflexo perfeito é hiperbólico e mesmo doentio, segundo algumas compilações de patologias psiquiátricas. Haveria então limite para o conhecer-se, para o amar-se? Sim, limite, visto o amor a si ser inextirpável do indivíduo, findando quando este finda. E os gregos já estavam perfeitamente inteirados disto: o estoicismo observava que o primeiro conhecimento, o conhecimento inato, era o do bem. Nasce-se sabendo-se o que é bom e mau, o que apetece e desgosta. Vê-se que os fazedores de mitos já sabiam de antemão o que filósofos demonstrariam depois de trilharem os caminhos instáveis da metafísica: conhecer só é possível por intermédio do amar, esse primeiro julgar, de que viemos dotados ao mundo: é, enfim, o somatório do quanto experimentamos na condição de viventes, espécie de códice pessoal, interno, onde se inscrevem todos os sabores e dissabores atribuídos ao percebido. Essa discussão ressoará forte em &lt;em&gt;Teeteto&lt;/em&gt; e terminará, como praticamente tudo na obra platônica, indecidida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas não parece duvidoso afirmar que, se o perceber e o julgá-lo não são ainda conhecimento propriamente dito, são o seu estopim. E perceber é perceber-se, é perceber-se percebendo, ainda que não se esteja inteirado disto em ato. O mesmo pode ser dito do conhecer. Ora, Narciso conhecia-se antes de condená-lo Nemesis; segundo o poeta, estava satisfeito consigo mesmo, como se observou: já devia inclusive conhecer ao menos sua imagem embaçada. Mas não adoeceu desse amar. Só ao contemplar-se no cenário escolhido pela deusa definha até a morte. Por que? É possível que por ter-se posto, com clareza e distinção, diante de si, ter-se percebido como outro, ter-se despossuído. O tema retornaria - ainda que sem referir diretamente Narciso, se bem me recordo - em &lt;em&gt;Doença Mortal&lt;/em&gt;: um dos graus do pecar, mostra Kierkegaard, está nesse modo narcísico de lidar com a alteridade eventual ou não do próprio eu. Quis Narciso ter quem de fato ja possuía. Viu-se como o viam os demais, que não podiam tê-lo. E, é claro, como esses, foi incapaz de resistir aos próprios encantos. O sortilégio de Nemesis foi pôr Narciso fora de si, literalmente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Narciso feliz seria aquele que se conhece, sim, mas não como o conhece o outro. Eis, por fim, o perigo do conhecer-se anunciado pelo adivinho: tornar-se permanentemente objeto do próprio conhecimento, esquecer-se de que se é, antes de mais, sujeito. Tal jogo de espelhos pode pepetuar-se ao ponto de susucitar a questão: sofria também o reflexo n'água por ver-se apartado de Narciso? De qualquer modo, era assim que Narciso o via: em sofrimento. Mas a profecia de Tirésias não dá pistas de tanto. Seu enunciado padece ainda de pelo menos dois dos cacoetes clássicos dos vaticínios: é excessivamente lacônico e evasivo, algo contornado pela formulação condicional, esta típica dos enunciados da filosofia e da ciência desde sempre. Não diz 'conhecer-se-á e, portanto, viverá pouco', mas 'caso se conheça, não chegará à velhice': o conhecimento de si como condição da morte precoce. Nisto Tirésias mostra estar bem à frente do seu tempo, tempo no qual a adivinhação ainda não lançara mão do artifício do condicional para evadir-se das charadas. Mas fica por aí, omite os detalhes da natureza do conhecimento que levaria Narciso a morrer tão cedo. Curioso é notar que o conhecer tem como função - talvez - essencial a de ser o meio pelo qual o indivíduo projeta durar, por conseguinte sendo - ou contendo - uma forma de previsão, uma espécie de profecia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Codetta&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há quem pergunte, por exemplo, como o narcisismo é visto pela filosofia. Aqui se procurou responder a isto de modo algo enviesado: como o mito de Narciso se apresenta ao pensamento, ou ainda, como filosofia e ciência - assim como as entendemos hoje em dia - já estavam contidas, cifradas, nesse gênero de relatos, observação esta que, é evidente, em nada as diminui.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p id="footnote-1"&gt;*O trecho a seguir é um flerte clássico com o narcisismo de Eco. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;"As mulheres, especialmente se forem belas ao crescerem, desenvolvem certo autocontentamento que as compensa pelas restrições sociais que lhes são impostas em sua escolha objetal. Rigorosamente falando, tais mulheres amam apenas a si mesmas, com uma intensidade comparável à do amor do homem por elas. Sua necessidade não se acha na direção de amar, mas de serem amadas; e o homem que preencher essa condição cairá em suas boas graças. A importância desse tipo de mulher para a vida erótica da humanidade deve ser levada em grande consideração. Tais mulheres exercem o maior fascínio sobre os homens, não apenas por motivos estéticos, visto que em geral são as mais belas, mas também por uma combinação de interessantes fatores psicológicos, pois parece muito evidente que o narcisismo de outra pessoa exerce grande atração sobre aqueles que renunciaram a uma parte de seu próprio narcisismo e estão em busca do amor objetal. O encanto de uma criança reside em grande medida em seu narcisismo, seu autocontentamento e inacessibilidade, assim como também o encanto de certos animais que parecem não se preocupar conosco, tais como os gatos e os grandes animais carniceiros. Realmente, mesmo os grandes criminosos e os humoristas, conforme representados na literatura, atraem nosso interesse pela coerência narcisista com que conseguem afastar do ego qualquer coisa que o diminua. É como se os invejássemos por manterem um bem-aventurado estado de espírito - uma posição libidinal inatacável que nós próprios já abandonamos. O grande encanto das mulheres narcisistas tem, contudo, o seu reverso; grande parte da insatisfação daquele que ama, de suas dúvidas quanto ao amor da mulher, de suas queixas quanto à natureza enigmática da mulher, tem suas raízes nessa incongruência entre os tipos de escolha de objeto."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;S. Freud; Sobre o Narcismo: Uma Introdução&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-3512651873653352044?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/3512651873653352044/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=3512651873653352044&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/3512651873653352044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/3512651873653352044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2011/04/narciso.html' title='Narciso'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-6680238238696025876</id><published>2011-04-07T01:16:00.002-03:00</published><updated>2011-04-07T02:37:45.045-03:00</updated><title type='text'>Fim dos tempos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Para quem ainda não entendeu: o mesmo que eternidade, o que dura para sempre, mesmo porque "o tempo não pára" (algo como o 'fim da história', com a particularidade de que haverá soberano, o de sempre e sem sucessor). Acaba, isto sim, a medida ou a noção da passagem do tempo, isto é, a alternância. Pois, segundo a promessa, só haverá dois lados, incomunicáveis: um de êxtase, outro de desespero. Enfim o que é bom vai durar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-6680238238696025876?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/6680238238696025876/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=6680238238696025876&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/6680238238696025876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/6680238238696025876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2011/04/fim-dos-tempos.html' title='Fim dos tempos'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-6379815474627787724</id><published>2011-01-09T04:09:00.020-02:00</published><updated>2011-04-10T00:14:04.361-03:00</updated><title type='text'>Experimentando a causa final</title><content type='html'>&lt;p class="western" align="right" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;em&gt;a Clarão e Tuninho&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt; &lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Sim, o tempo não existe, trata-se de apenas uma ideia sem correspondente exato na 'realidade' – e, engraçado, fala-se assim como se as ideias fossem irreais. Acato. Não vou aqui discutir isso. Mas peço que se conceda que, seja o que for o tempo para lá das ideias, é com o auxílio da ideia que se faz dele que o mundo ganha algum sentido para nós. De fato envelhecemos depois de termos sido jovens, fomos jovens depois de havermos nascido e bem depois de sequer termos sido seja o que fomos quando nossos pais não se conheciam. Tal conjunto de eventos, seja ou não 'coisa real', com ele lidamos com o auxílio da ideia incerta de tempo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  É preciso, pois, que algo dure, para nos ser possível afirmar que isto existe. Nossos corpos, por exemplo, duram, embora mudem sem pausa, desde quando somos concebidos, até depois da morte, quando continuam seus processos de mudança até se dissiparem, assumindo então forma da qual não nos permitimos mais afirmar serem aqueles corpos. Mas nós mesmos, ou seja, esses conjuntos ainda pouco compreendidos de corpos e consciências, se é impreciso dizer que começamos a existir em úteros, há generalizada concordância em torno à afirmação de que nos finamos com a morte, apesar de os corpos com que nos compúnhamos permanecerem por mais algum tempo existindo. Cessar de durar é, por conseguinte, deixar de existir, seja lá como isto se entenda por intermédio do abstruso conceito de tempo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Assim, as coisas têm de durar, ou não existem. No nosso caso é possível acrescentar que também &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;queremos&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; durar – exceção feita a quem da vida se desencantou, embora até desencantar tenha-se por certo alinhado conosco, com os demais, que têm de e &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;querem&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; durar. Parece ser parte da natureza disto que chamamos de 'estar vivo' essa obstinação em durar. No meu entender, muito naturalmente o é. Pois, como já concordamos, se não dura, não existe. Só que o ser vivo existe por si e também &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;por querer&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;, por fazer por onde.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Ah, claro, a ciência já provou que os indivíduos são outra ficção. Sem dúvida, mas este é mais um ponto por quel teremos de passar sem o levarmos muito além. Infelizmente somos também constrangidos por algo na nossa natureza a ver o mundo como amontoado de coisas distintas umas das outras, embora por vezes sejamos capazes também de vê-las todas como uma coisa só – ou melhor, somos obrigados a 'engolir' isso em virtude de tudo diante dos nossos narizes transformar-se em qualquer outra coisa com o passar do misterioso tempo. Infelizmente, disse, por não sermos cientistas ou filósofos por toda a duração de nossas vidas, mas por felicidade também, já que não permanecemos imóveis quando um piano nos cai sobre a cabeça, considerando que ele e nós constituímos de fato um &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;continuum&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;. Enfim, temos aqui de admitir, sem maiores considerações, que há para nós o mundo, bem como as coisas no mundo, seja qual for o motivo de tal ocorrer conosco.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Então: indivíduos quaisquer existem para nós em virtude de durarem; no nosso caso, além de termos de durar, também &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;o queremos&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;. E existir, ao menos para os que não se enfadaram da existência, é em princípio algo que sem pestanejar qualificamos de bom. Sim, às vezes não se quer matar-se e, por outro lado, não parece preciso afirmar que existir é bom. Nesse caso trata-se de quem está a transpor a linha dividindo quem gosta e quem desgosta de existir. Nada obstante, enquanto do outro lado não estiver, estará dizendo nas entrelinhas que reconhece haver na vida ao menos o bastante para tolerá-la – há o suficiente de bem no viver para impedi-lo de estourar os miolos imediatamente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Tanto se disse para mostrar que a vida, ao menos para quem não se deprimiu, é um bem. Mas ela não é de fato nada: é a vida, somente. Prova disso é que pode ser desprezada por um sem número de viventes. E embora seja tão-só viver, estes que dela se agradam o confessam afixando-lhe um rótulo, o rótulo de bem. E, claro, de tudo fazem para permanecer vivendo. Quanto aos outros, os descontentes, não se pense entretanto que discordam por inteiro dos demais: não! Só que para eles, indivíduos em aparência mais exigentes, a vida tem de ser &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;efetivamente&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; boa. Ora, não apenas para eles: para seja qual for o vivente, a vida só é bem se for boa. Aqui entra em cena outro ponto indiscutível, embora tema de incontáveis discussões: a boa vida é questão de tolerância. Uma dor, por exemplo, uma lancinante, no caso: há quem a suporte indefinidamente e quem sequer tolere imaginá-la sem pensar em desaparecer. (Curioso é ter de admitir que quem prefere a morte a um viver menos – ou nada – prazeroso deve ter alguma noção de como é inexistir e essa noção lhe indica tratar-se de coisa melhor do que  o existir – pois imaginamos que naturalmente declinaria da escolha caso supusesse tratar-se de algo pior.)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Enfim, concordamos em que em si o viver não é lá muita coisa, só sendo um bem quando é bom (ai!, geme o lógico – e desta vez o ouvimos), e em que, mesmo em se desprezando a vida, isto se faz na suposição de que a outra condição, a de não viver, é um bem maior. Resultado: parece-nos que, até aqui, pouco importa a forma sob a qual ele nos apareça, estamos constantemente no encalço do bem ou, concedo, se não do BEM ele mesmo (espécie de Papai Noel da filosofia), ao menos de algum bem ou de parte desse bem de gorro e botas vermelhas. E não se trata só de ir atrás do dito cujo, mas de fazê-lo aparecer, ou mais, trata-se até de criá-lo, de trazê-lo à existência.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  O sujeito faz sinal na penumbra, indicando não concordar. Parece meio sem jeito, não quer mostrar a cara, mas como aqui garantimos a livre expressão, aos poucos fica à vontade para expor o seu ponto: antes ressalva que já tentou de tudo para mudar, mas tem de admitir que continua apreciando o sofrimento alheio. Segundo seus próprios termos, produz o mal. Senhores, senhores, por favor, não riam; é evidente que encontraram a chave: naturalmente, ou não teríamos concordado tanto até aqui. É que o amigo lá de trás não percebeu como formulou a questão: disse &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;gostar&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; de fazer o mal. E, claro, não se &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;gosta&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; senão do que é bom. O problema, sim, está no gostar do que para um outro é mau. Este, entretanto, é outro assunto por que teremos de passar sem virá-lo do avesso: deve por certo haver um viés especial por cujo intermédio nos é possível entender este e semelhantes casos, mas temos de deixar para outra ocasião o encontrá-lo. Então, em miúdos se tem: seja qual for a causa ou o motor de seu gosto, gosta disso, digo, isso lhe é um bem.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Um outro indivíduo toma coragem e se levanta: não nos alvorocemos, seu caso parece ser diferente. Detesta o mal – como a maioria de nós afirma detestar – e, no entanto, por mais que busque o melhor, acaba sempre restando de suas ações algo condenável por alguém. É, o inferno parece mesmo estar cheio das melhores intenções. Vejamos: em princípio somos levados a crer que de fato todos – sem exceção – gostamos de algo, ou seja, procuramos sempre por ou nos esforçamos para realizar algo bom, um bem; entretanto há quem goste de fazer com os demais o que estes – e mesmo ele próprio – detestam (sendo preciso reconhecer que há também quem &lt;em&gt;goste&lt;/em&gt; disto para si próprio!) e há quem o faça sem querer, crendo produzir um bem comum. O amigo aqui não parece distinto da maioria de nós: há afinal quem aqui se atreva a lhe atirar a primeira pedra?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Pois bem, há entre nós quem creia enquadrar-se em outro grupo? Ah, sim, o amigo ali. Como? Carrasco? Senhores, senhores! Calma, senhores, do contrário rompemos nosso pacto de livre expressão. Ou prefeririam os senhores que mantivesse ele o silêncio e nos privasse de conhecer o que seria – talvez – uma classe distinta de buscadores e criadores do bem? Como? Claro, funcionário público. Não, não precisa dizer de onde o senhor vem; todos aqui estamos cientes de que os carrascos ainda andam longe da via de extinção. Enfim, o senhor mata, diz não gostar do que faz e que o faz por ser preciso. É verdade: o amigo de há pouco causou-nos consternação dupla, de um lado, por confessar gostar de ser mau e, de outro, por termos tacitamente aquiescido em que tal a nós parece dever-se somente a alguma patologia; o segundo não nos pareceu diferente de nós outros; mas este, meus caros, este nos apresenta uma condição como que simétrica – ou seria complementar? – à do anterior. Vejamos: um faz mal – ou algum mal – pensando fazer somente o bem e o outro está certo fazer um bem enquanto faz de fato um mal.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Mas entendamos. É evidente que esses bens e males não são universais, não agradam ou desagradam generalizadamente. O que é bom para uns não o é para outros e assim por diante. E eis a lição que aprendemos daí: a lição de que bem e mal não existem – diz a garotinha. Não, não estou seguro de que seja essa a lição: pois, ora, cada um de nós de fato experimenta, sente, o que é bom ou mau para si; não há duvidar de que bem e mal existem. A lição é a de que bem e mal são, sim, relativos, não apenas um ao outro, o que é evidente, mas relativos a quem sente ou percebe os eventos no mundo como bons ou maus. Esta lição já podíamos tirá-la faz algum tempo, desde quando o rapaz ali lamentou-se de não conseguir realizar um bem sem arestas, sem que alguém o entendesse como mal, ou mesmo desde antes, quando falamos da tolerância da cada um de nós para com as dores de viver. Bem e mal, por conseguinte, existem, mas não no mundo lá fora: existem em cada um de nós; é, como diria o amigo filósofo aqui nos prestigiando, um juízo. (Falei certo?)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Há outra lição que se pode tirar ainda neste ponto de nosso debate e já adianto-a: o companheiro carrasco ali não é diferente, de modo geral, da maioria de nós. Aliás, mesmo o rapaz na penumbra, embora, digamos, adoentado, não é também tão diferente de nós na medida em que tem razoável noção do que pratica, ainda que não consiga conter-se. Mas a nossa semelhança com o amigo funcionário público é grande o bastante para causar espécie àqueles de nós menos sinceros. Ele não passa de instrumento usado para perpetrar uma ação comum e, de modo geral (salvo por certos filósofos ou ascetas diversos), grandemente aceita em meio a nós, resumível no ditado que hiperbolizo: &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;olho por olhos, dente por dentes&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;. Sim, visto nem sempre parecer-nos satisfatória a troca de um dos nossos por somente um dos de outrem. Em suma, em maioria (assim espero) professamos o desprezo, a intolerância e mesmo o horror do mal, mas o utilizamos quando entendemos de remediar-nos quando algum nos acomete. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Bem, Samuel Hahnemann, estou seguro, não se orgulharia de nos mostrarmos assim tão intuitivamente homeopáticos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Mais curiosa ainda se torna a situação caso eu pergunte aos senhores o que se opõe ao mal, o que se opõe no sentido de dar cabo, pôr fim a ele, ao que sem exceção me responderiam: o bem. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Murmura a senhora ali no meio: daí o princípio do &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;dar a outra face&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;. Espere. Não estou convencido de que o dar a outra face seja a fórmula exata do bem para dar cabo de todo mal: talvez no caso do amigo na penumbra, e ainda assim a depender do seu tipo de – perdoe, por favor, a franqueza – sadismo, pois há sádicos que preferem as vítimas que se recusam a oferecer quaisquer faces e seja mais o que for. Se o caso é o do indivíduo comum, que nos faz um mal acreditando sanar um outro que pensa haver sofrido por nossa causa, não creio que o oferecimento da outra face o sacie e é possível que o confundamos então com o sádico típico, se ele continua a maltratar-nos, ou até que faça meia volta, tendo-se dado por satisfeito. A questão, aí, está em produzir algo realmente bom para ele ou em não ter produzido o que o afligiu.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;  É possível que nossa intuição homeopática seja, no entanto, providencial: em certa medida ela pode ser tida por a única maneira de fazermos ver a quem nos causou o mal o que ele nos fez, mas exclusivamente quando isto se produziu por – digamos – engano. Já o &lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;dar a outra face&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;, no contexto em que ocorreu, ensina apenas que diante desse tipo de perpetrador do mal não há alternativa a continuar saciando-lhe a índole sádica; não se tratava nem mesmo de ignorância pura: havia ignorância, sim, pois se ele compreendesse de fato a extensão de seus atos, não os realizaria, mas da ignorância se aproveitava o sadismo para exercer-se. Pois bem, o revide, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;o olho por olho&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; (ou &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;por olhos&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;), talvez não passe – em certa medida – de um modo de trazermos o outro à consciência, embora nós mesmos, ao praticá-lo, incorramos no mesmo tipo de ignorância. O &lt;em&gt;dar a outra face&lt;/em&gt; pode&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; também&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; o ser, a depender da circunstância. Enfim, ambos têm lá sua probabilidade de sucesso na contenção do mal.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Bem, adiantamo-nos um tanto, mas já era tempo de fazer entrar em nosso debate a ignorância. Então a pergunta: se conhecêssemos sempre o modo mais adequado de agir, adequado, diga-se, sem que dele resultasse para ninguém qualquer mal, qual de nós – com exceção, é claro, do nosso amigo sádico – se recusaria a levá-lo a efeito? Era o que se esperava: silêncio geral. Assim, se soubéssemos, se soubéssemos...! Mas ocorre de quase nunca sabermos, como há pouco o confessou o amigo. E mesmo aqueles que demonstram muito saber, visto  serem mínimos ou quase imperceptíveis os males advindos de seus atos, sabem que não sabem o suficiente para não permitirem imiscuir-se nos resultados de suas ações mal nenhum. E eis que voltamos a falar do Papai Noel da filosofia: muitos morremos de velhos na esperança de o depararmos na sala em uma noite qualquer – eis o que muitos de vocês acabaram de pensar. Daí, entretanto, a compactuar com o caos, convenhamos, é um exagero.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Daí ao perdão indiscriminado, diz a senhora da &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;outra face&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;, é outro pulo. É verdade. Mas há alternativa ao perdoar, digo melhor, há um coadjuvante para o perdão. Sim. Acertou na mosca o senhor aqui: conhecer! O contrário de ignorar: bem contra mal, conhecimento contra ignorância. Dir-se-ia mais, entretanto: educar. Pois se nascemos, como afirmaram alguns filósofos, sabendo o que é o bem, parece evidente não sabermos com a desejada precisão como obtê-lo no e do mundo. E como alguns é pressuposto saberem um tanto, em vista mesmo do seu tempo de vida, nada mais adequado que passem adiante esse saber. E que ensinem, acima de tudo, a conhecer, já que, como vimos, são sempre novas as circunstâncias.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-top: 0.2cm; margin-bottom: 0.2cm"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;  Por fim, imagino que tenhamos compreendido um pouco a 'mecânica' – podemos chamá-la assim – de bem e mal para, em primeiro lugar, termos ciência de que não somos capazes de praticar o mal e tampouco o bem absolutos; para termos ciência antes, até, de que seja o que pratiquemos, temos em vista sempre um certo bem, necessariamente (e tendo por alvo a nós próprios, não esqueçamos disto, ou seja, tendo por alvo tudo quanto de nós ou para nós consideramos bom, tudo de que gostamos: o altruísmo não passa de um modo do egoísmo); para sabermos que só concedemos ao mal por ignorar como evitá-lo e que só o evitamos com a prática de bens, a qual só se logra com o auxílio do conhecimento; e, por último, para conscientizar-nos de que gente como Leibniz e Aristóteles não falaram por falar ou inconsequentemente do &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;melhor dos mundos&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; e da &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;causa final&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style: normal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-6379815474627787724?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/6379815474627787724/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=6379815474627787724&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/6379815474627787724'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/6379815474627787724'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2011/01/experimentando-causa-final.html' title='Experimentando a causa final'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-1470725099848889466</id><published>2011-01-08T07:23:00.001-02:00</published><updated>2011-01-08T07:25:48.663-02:00</updated><title type='text'>Sem poesia</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Se acaso poesia aqui houver, não a terei posto eu. Poesia é presença  acidental: raro atende quando chamada, aparecendo sem que a esperem. Em seu nome  faz responder um simulacro cujo ardil é fingir onipresença e fazer pensarem os  tolos que os cerca a poesia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Por isso, se alguma aqui houver, a terá posto o olhar, usado como é em tomar  às palavras o sentido mais rasteiro. Seja isto evidência de uma natureza,  moldada em volta de um sentido único que tem por objeto unicamente o prazer.  Bastante é, às vezes, um termo, um som, um gesto acidental para despertá-lo, sem  o que recolhe-se o sujeito ao desacordo a que dá o nome de dor. Por isso tanta  poesia, mesmo se pouca, até quando nenhuma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-1470725099848889466?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/1470725099848889466/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=1470725099848889466&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/1470725099848889466'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/1470725099848889466'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2011/01/sem-poesia.html' title='Sem poesia'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-3091601663041873052</id><published>2011-01-08T05:31:00.009-02:00</published><updated>2011-01-08T05:55:47.966-02:00</updated><title type='text'>Livre é você. Sou apenas justo, embora incompreendido.</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:Book Antiqua;"&gt;&lt;span style="font-family:Book Antiqua;"&gt;&lt;span style="font-family:Book Antiqua;"&gt;&lt;span style="font-family:Book Antiqua;"&gt;&lt;span style="font-family:Book Antiqua;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Liberdade  é a ideia resultante da constatação do sujeito, a despeito de sua capacidade de  antever, de a ação do outro ter sempre algo de imprevisível. A si mesmo o  sujeito não pode com honestidade considerar livre. O mundo lhe aparece como o  coibidor por ex&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;celência, diante do qual tudo  quanto realiza tem de justificar-se, tem de fazer-se de maneira precisa,  consequente, ou arrisca frustrar-se. O justo não pode ser livre como o outro,  cujas atitudes é raro lhe parecerem por inteiro justificáveis. Amiúde a ação  alheia só lhe é passível de alguma compreensão - de alguma justificação - muito  depois de ocorrida, quando então pode ele, o sujeito, o justo, concluir não  haver o outro gozado de tanta liberdade quanto lhe atribuiu quando não lhe  compreendia o por que do ato. Mas como uma mesma justificativa nem sempre é  plenamente aplicável a toda circunstância ulterior, pode advir ao sujeito a  constatação de que não previu uma ação subsequente do outro e, por conseguinte,  que este é livre na ocasião.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O sujeito é  sempre justo. Só reconhece o contrário quando lhe manifestam admiração, ou seja,  quando outrem, que sujeito também é, dá mostras de não lhe haver previsto os  atos, de não os haver justificado. Só assim reconhece que ele, sujeito, ao menos  desse modo é livre também: quando lhe mostram que não é tão justo quanto de si e  para si acreditava ser. Mas enquanto não dá com o reflexo do seu ato no outro  continua o sujeito para si mesmo sendo apenas justo, incessantemente limitado.  Os atos próprios lhe aparecem todos como consequentes: conhece muito bem - ou  assim acredita - o por que de cada qual. Mais ainda: quase sempre está tão certo  de ser justo que lhe custa admitir ou entender que assim não pareça aos olhos do  mundo. É por isso que recalcitra, a despeito de advertido, apenas para  permanecer incompreendido, embora a insistência nesse ato lhe possibilite também  convencer os demais. Quando há convencimento, sua atitude então não é mais  encarada como livre e sim como justificada (ou justificável), podendo ser  adotada por todos quanto querem somente permanecer justos. Mas lhe é possível  também submeter quem não se convenceu: quando isto se dá, sua ação, a despeito  de - ou precisamente por - permanecer incompreendida, pode tornar-se, mais do  que reprovável, modelar e, por conseguinte, cobiçável por quem almeje ser - ou  parecer - livre.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A associação de  liberdade com ignorância não é recente. A definição acima apenas a apresenta de  outro viés, talvez menos intuitivo do que os vieses clássicos, e faz uso pródigo  das ambiguidades que acarreta. Trata-se em princípio de longa e livre paráfrase  da sentença de abertura de ’Discurso do Método’, da qual o termo ’bom senso’ foi  substituído por ’justeza’, em boa medida sinônimo do anterior, embora aqui  esteja num contexto algo diverso daquele sobre que Descartes escreveu (o da  metodologia da ciência) e que o especialista no assunto não hesitaria em  designar como ética. O ponto polêmico do texto é a oposição flagrante dos termos  ’livre’ e ’justo’, conotando o primeiro evidentemente transgressão e o segundo  acatamento de alguma regra ou lei. A um moderno liberal isto ressona inequívoca  provocação; não o censuremos por haver abandonado a leitura no parágrafo  anterior. Afinal de contas o sentido de ’transgredir’ fixou-se nos últimos  tempos numa conotação negativa, a de infringência de algo a ser cumprido, quando  em princípio denota apenas ’ultrapassagem’. Nesse contexto, portanto, a  transgressão do indivíduo livre esboçada acima não acarreta necessariamente o  rompimento de algum trato, lei ou regra, mas um ir além disso, nada obstante tal  possa ou não dar-se de maneira procedente: é possível ter-se em conta princípio  maior, mais abrangente, ao se ultrapassar um outro, não tendo sido outra a forja  de heróis em cujos tempos foram tidos por vilões. Em Temor e Tremor Kierkegaard  tratou de caso extremo dessa espécie, o de Abraão desincumbindo-se do que lhe  encomendara Deus, a morte de Isaac: em virtude de cumprir ordem divina estaria o  patriarca isento de responder aos preceitos da moral - ou da ética - humanamente  concebível?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Em suma, para o  sujeito o outro estaria, sim, transgredindo alguma regra, mas não por  necessidade infringindo-a. É possível que num primeiro momento fosse o ato tido  por infringência, mas, uma vez justificado - compreendido - pelo sujeito, logo  passa a transgressão no melhor dos sentidos. É também possível que o sujeito não  justifique o ato alheio, o que, na circunstância, o autoriza a qualificá-lo como  mera infração. Em ambos os casos é do sujeito a ignorância, ao menos a inicial,  até que entenda ele o ato alheio, que o veja como justo, ou quando se rende por  fim à evidência de não ser capaz de justificá-lo. No caso último a ignorância é  também do outro: ao menos enquanto agia não se deu conta de tão-só infringir.  Esse ignorar tem algo de perverso: observe-se que enquanto ignora como agir  melhor, ignora que ignora. E ignora que ignora por acreditar que sabe o que faz:  uma completa obscuridade, estado a que se está permanentemente sujeito e  detectável quase sempre de forma tardia. Mas tal só se entende por intermédio de  Aristóteles, para quem o fim último (ele chamou de ’causa final’) de seja o que  for é o bem - ou um bem. Como é evidente, trata-se de sorte de axioma, ou seja,  de afirmação não passível de provar-se por intermédio de artifícios da lógica -  ou do discurso, como se mostra, por exemplo, que ’Sócrates é mortal’, desde que  se admita por premissa que Sócrates é homem e que todo homem é mortal. Descartes  disse o mesmo do ’penso, logo existo’: assim como a asserção aristotélica esta  seria passível somente de experimentação. Em ambos os casos é mister gozar o  sujeito experimentador de mínima sinceridade, ou se condenará a um insustentável  delírio cético (você consegue, por acaso, convencer-se de que não existe?), ou à  ilusão de ser capaz de conceber e empreender algum mal, em suma, tornar-se-á  louco ou presunçoso caso não leve a sério as experiências sugeridas pelos dois  filósofos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Assim, a  despeito de crermos no contrário, ao acatarmos o ’axioma’ de Aristóteles  admitimos de enfiada nossa incapacidade de produzir o mal. E de fato o  produzimos, exclusivamente por ignorância (a única justificativa plausível para  tamanho desatino), mas como se fora sorte de bem: no fim de todas as nossas  intenções há sempre algo de bom, ainda que, tornadas em atos, consumem algum  tipo de mal. É evidente, o tal bem almejado, ainda que mínimo, o é sempre  referido a um sujeito ou a algo que ele tem por parte de si, pouco importa se em  pessoa não é ele o contemplado, como é o caso das guerras, em que se mata e  mesmo se morre por bem de um conceito diáfano como o de ’pátria’. Há uma lógica  de bem e mal, passível, inclusive, de algebrização, pela qual se demonstra que o  segundo sempre é espécie de subproduto da canhestra obtenção do primeiro. Isto,  entretanto, é matéria para outra oportunidade, bastando de momento entender-se  que tal só ocorre por intercessão da ignorância: soubesse o sujeito como  efetivar de maneira melhor o bem concebido, sem que daí surgisse mal nenhum, é  seguro que o faria: por pior que a outrem pareça o ato de alguém, este foi de  fato o melhor que se conseguiu realizar, é claro, sob o viés de quem o realizou.  E, como se pontuou acima, não raro o sujeito ignora que ignora a maneira de  realizá-lo melhor. Um ponto imprescindível: é suposto concordarmos, para a  compreensão do quanto aqui se disse e se dirá, que bem e mal de fato inexistem  no mundo senão como juízos, digo, senão como nota aposta pelo sujeito a tudo  quanto lhe é perceptível - aí incluído o pensamento. O mundo é composto de  fatos, como o queria Wittgenstein, em si próprios destituídos de bondade ou  maldade senão quando presenciados por um sujeito, uma consciência. Há uma razão  para que os considere como o faz, embora o discuti-la tenha de ter lugar noutra  instância, por bem da brevidade. De momento é bastante admitirmos existir bem e  mal, sim, mas apenas enquanto juízos, sem que tal torne inviável o que aqui se  diz.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Descartes dá sua  explicação do fenômeno: admite não sermos capazes de saber tudo (admite a  ignorância, portanto), mas culpa a vontade, que passaria à frente do  entendimento e - até por pirraça, é de imaginar - escolheria o pior. Em sua  divisão desmesurada do espírito humano o francês concebe uma vontade  desgovernada, embora divina, perfeita, como o é o próprio entendimento (ambos  dádivas de Deus), para pôr a salvo do erro a ’clareza e a distinção’ dele, o  entendimento, a razão. Nesse passo põe de ponta-cabeça a idéia de liberdade  afirmando ser seu grau mais baixo a indecisão (esta que ele usou como ’método’,  segundo afirmação própria, para o achamento das verdades de sua metafísica) e o  mais alto a escolha (ainda que a incorreta?), quando se é, então, "ainda mais  livre". Em certo sentido tinha razão com respeito á indecisão: caso se aceite o  ’axioma’ aristotélico, ignorante seria quem, embora não a efetive, crê ter  escolha, uma vez que, seja lá como decida realizar não importa o quê, isto a  realizar-se será invariavelmente um bem e um bem cuja amplitude ou cujos  possíveis corolários, maléficos ou não tão bons, dizem respeito a o quão  conhecedor - o quão sábio - o seu autor é. E quem crê ter escolhas, ao menos na  acepção comum de liberdade, diz-se livre, no caso, para escolher. Em suma, livre  seria quem vê diante de si miríade de opções a serem indiferentemente pinçadas:  livre por ignorar qual delas é a adequada à circunstância, na qual, enfim, seria  de fato a única a merecer realizar-se. Observa-se que aqui Descartes entendeu a  liberdade em sentido um tanto diverso do que a entende o senso comum: a  indecisão - ou a iminência da escolha - seria para ele o mais baixo grau de  liberdade, enquanto para o senso comum seria talvez o único. Mas ao afirmar que  se é "ainda mais livre" quando é realizada a escolha, em que sentido seria  possível entendê-lo, se algum há? Imagino que no único possível, o de estar-se  livre do cumprimento daquele dever (invariavelmente o dever de produzir algo de  bom), se - e somente se - este de fato foi cumprido, embora seja incerto  afirmar, pelas indicações que deixou, que Descartes tivesse isto em  mente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Nesse ponto o  ’sei que não sei’ socrático ganha sentido intrigante: estaria o sábio a  justificar suas falhas, em particular as futuras, ou a demonstrar a  impossibilidade de praticar-se o bem perfeito? Em ambos os casos a resposta pode  ser afirmativa, o que tornaria a filosofia exclusivamente em sorte de ato de  contrição, não fora a orientação inata para o bem do indivíduo, axiomática, a  fazer dela também formulário de estratégias para buscá-lo com a menor  interferência possível do subproduto mal. Além disso é pouco mais o que afirma o  sábio saber, como, por exemplo, que não há escolha, uma vez que só se tem  sentidos para o bom e, caso houvesse no mundo alternativa a este, sequer as  levaria em conta, sequer as perceberia; sabe também ser cambiante sua percepção  para o bem, tanto maior quanto for o seu conhecimento do mundo; e sabe que é  livre apenas quando desincumbido do dever, coisa que, a rigor, jamais se dá,  pois o desencargo de um é de pronto substituído pela solicitação de cumprimento  dum seguinte e assim para todo o sempre enquanto  viver.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-3091601663041873052?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/3091601663041873052/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=3091601663041873052&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/3091601663041873052'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/3091601663041873052'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2011/01/livre-e-voce-sou-apenas-justo-embora.html' title='Livre é você. Sou apenas justo, embora incompreendido.'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-5716488822732059751</id><published>2009-06-09T03:44:00.001-03:00</published><updated>2011-01-08T19:54:00.340-02:00</updated><title type='text'>O Passageiro da Caixa-Preta</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Nada mais admirável num avião do que a caixa-preta. Um diminuto objeto, para dizer quase tudo, talvez o único de todo o aparelho a escapar da mais variada gama de acidentes com integridade suficiente para revelar o enredo da tragédia. Em termos de resistência o seu conteúdo é dos mais perecíveis de todo o conjunto, incluídos os passageiros, o que por certo parece ser o bastante para justificar o engenho empregado em fazê-la indestrutível ou próximo disso.&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Avesso a viajar como sou e sobrevivente de sensações desagradáveis das três últimas de minhas poucas viagens de avião, determinei que só voltaria a voar quando se pusessem à venda lugares nas caixas-pretas e, é claro, caso ali se diponibilizasse também o suficiente para a sobrevivência humana até o resgate. Se algo incompreensível há para mim, isto é a circunstância de ainda não se haver usado a tecnologia das caixas-pretas nas aeronaves por inteiro. &lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;A própria existência de tais objetos, sem falar na cor que lhe aplicaram no nome, me sugere sentimentos tenebrosos. Ela é a prova de que desastres com esse meio de transporte são efetivamente inevitáveis, ou melhor, imprevisíveis. Caso contrário, qual seria sua necessidade? E por ser refratária, ao contrário do restante do avião, a caixa-preta é evidência do maior apreço dos fabricantes, engenheiros e empresários da aviação pela história (a das catástrofes, no caso) do que pela integridade dos seus semelhantes.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Passando ao largo desta última constatação, os demais pensamentos entristecem quando se percebe também que os altos preços das passagens aéreas não referem apenas o ressarcimento da pesquisa por segurança nos vôos, mas, a rigor, a financiam. Somos todos, então, potenciais voluntários de uma perigosa e lucrativa experiência sem prazo de conclusão. Entre suas metas, naturalmente, a integridade dos viajantes - ou assim anunciam. Antes desta, entretanto, está o ganho milionário dos empreendedores - os fabricantes - e seus intermediários - as companhias aéreas. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Nada de errado há em oferecer-se como cobaia para experimentos, mesmo os de risco, exceto quando não se está consciente das adversidades possíveis, quando não se é advertido delas de antemão. Ora, podem contestar-me: os passageiros de aviões, salvo exceções óbvias, estão plenamente informados dos riscos dessas viagens. Dir-se-ia que sim, que é verdade, não fosse a insistente afirmação, supostamente extraída de estatísticas, de ser a aviação o meio de transporte mais seguro do mundo, quiçá o mais seguro de todos os tempos. Um exemplo desse lugar-comum foi o comentário do Joelmir Beting, menos de um dia após o recente desaparecimento do jato da Air France: nos Estados Unidos morre-se mais em virtude de picadas de abelhas do que de quedas de avião. A ironia - ou o sarcasmo - explícita é inerente à fraseologia desse comentarista de economia e finanças.&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;O quadro se agrava com a observação de que as incautas cobaias pagam - e caro - para fazer papel pelo qual não poucas vezes se paga, prática que se estende a todos os lados de nossa desvalida existência: de medicamentos a telefones celulares, da agricultura transgênica à malha de satélites sobre nossas cabeças. Quase todos os modernos serviços e objetos à disposição são meros experimentos pelos quais pagamos como se se tratasse de produtos acabados. Quando se conhecem as condições de realização da ciência um pouco mais de perto, das quais a principal seja por certo a de ser obra em progresso, é possível não ceder tão facilmente à sedução de seus derivados, a saber, as técnicas, as tecnologias. &lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;O problema está em, nada obstante a maior correção do cientista, exercer-se a ciência em associação com o capital. É o exercício das finanças que cobra do pesquisador a continuada perfídia de modo a manter o fluxo do lucro em volume suficiente para saciar quem investiu inicialmente em seu trabalho. Por conta dessa aliança somos induzidos, os chamados usuários dos produtos e serviços (e, na verdade, objetos vivos de experiências), a esperar de incontáveis destes mais do que o devido, quando não a perecer e, caso a história venha adotar-nos, figurar para o futuro como meras vítimas do destino e não como heróis ou mártires do conhecimento, da ciência, sem cuja iniciativa suicida as gerações subseqüentes - é provável que de cobaias também! - não estariam onde estarão.&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esta seria uma conclusão eufemística ou, para dizê-lo sem eufemismo excedente, hipócrita. Nela está implícita uma imagem adocicada do cientista e da ciência como faz algum tempo não é praticada: desinteressado ofício de sujeitos ocupados apenas do bem da humanidade, descobridores de noções inauditas e em geral vítimas da ignorância à sua volta. Talvez tenha sido assim há milênios, até Sócrates, mas não com Platão. Talvez com justeza tenha o primeiro criticado os sofistas por venderem ensinamentos e não pelos ensinamentos mesmo. Talvez Galileu, da Vinci e uns tantos mais tenham praticado esse tipo de ciência à margem das finanças. Mas já Pasteur é apontado por fraudar - é possível que por vaidade - certos resultados de seus experimentos e daí então tudo - ou quase isso - parece justificar-se em nome da pecúnia. &lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;É ela, nos derradeiros tempos, a puxar o carro da curiosidade humana e a induzir, mesmo que inadequada ou duvidosa, uma aplicação para seja o que se descubra ou invente nos laboratórios sob seus auspícios. Desde que viável em termos de lucro, todo rebotalho ali produzido ganha no mundo alguma utilidade. Nem a onda natural, hoje transmutada em ecológica, escapa desse procedimento, embora - quem sabe? - um dia aufiramos dela algum benefício... Tendo como aliada a propaganda, capaz de com suas artes insinuar-se na vontade geral, conclui-se que o mercado é a única de todas a invenções humanas cuja serventia é passível de previsão mais segura. Quando sai dos trilhos, a razão é evidente, embora se finja dissimulá-la: malversação continuada. Das outras criações do espírito do homem pouco é possível dizer quando desandam. Até os relógios atómicos atrasam (muito pouco, mas atrasam) e mesmo as caixas-pretas, a despeito de sua aludida solidez, podem perder-se para sempre.&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Rio, 9 de junho de 2009 &lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;Waldemar M. Reis&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-5716488822732059751?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/5716488822732059751/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=5716488822732059751&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/5716488822732059751'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/5716488822732059751'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2009/06/o-passageiro-da-caixa-preta.html' title='O Passageiro da Caixa-Preta'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-985194115059307940</id><published>2009-02-22T18:54:00.003-03:00</published><updated>2009-06-09T03:51:43.849-03:00</updated><title type='text'>Darwin, pecador</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Darwin não soube em que se metia. Avaliou mal as &lt;/span&gt;&lt;a title="There Is No ’Politically Correct’ Science" href="http://www.discovery.org/a/9051" target="_blank"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;conseqüências&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt; de sua hipótese. No seu rastro vieram a selvageria esclarecida dos mercados, a eugenia e argumentos capciosos justificando o racismo. À exceção da entropia, tudo parece evoluir no mundo feliz dos seres superiores.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Apesar de todo o cuidado, toda a parcimônia por que pautou sua existência, não pôde evitar certas conclusões. Sabe-se lá como no fim da vida justificava para si próprio a postura anti-escravidão de sua juventude!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Seu pecado, entretanto, não foi exclusivo, tampouco inédito. Toda uma civilização cantava e ainda canta a igualdade de ’progresso’, ’aperfeiçoamento’ e ’evolução’, nada obstante tenha sempre sabido que doenças e outros malefícios também progridem ou evoluem e mesmo se aperfeiçoam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Fora decerto melhor se seguisse os antigos chineses e um conhecido químico francês, dizendo: tudo se transforma. Mas enquanto homem deixou prevalecer a vaidade e enquanto europeu a cor da própria pele. Esqueceu-se de ser nossa superioridade semelhante à das abelhas e formigas e de que abandonados e solitários na natureza virgem poucos de nós sobreviveriam.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;É verdade, sim, entendemos ou procuramos entender o mundo, exercemos um falar complexo e produzimos livros. Em que, entretanto, isto nos tem ajudado a escapar da sina comum a toda forma de vida?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Resultado: nem mesmo chegamos a ver-nos sós na mata ou escaldados no deserto e a menos de duzentos anos de sua morte já contávamos com progressiva escassez de recursos provocada por um mercado inteirado de ser ele também uma força da natureza, devendo por conseguinte obedecer-lhe as leis, essas mesmas cuja ação teria posto o homem no topo da escala evolutiva.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Isto para nos darmos conta do quão perigoso é o uso dos conceitos. Como na aplicação da matemática, é suficiente um sinal a menos, um ponto fora do lugar para mudar a rota de uma nave ou pôr uma casa no chão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;A despeito dos tropeços, no entanto, proporcionou-nos - em parceria com muitos de seus contemporâneos, não esqueçamos - a abertura de uma porta efetivamente dando para paisagem compreensível e ampla, sulcada de caminhos que, decerto por milagre, dão voltas, voltas e mais voltas antes de darem no precipício além do qual, dizem, para sempre espera Deus.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Rio, 22 de fevereiro de 2009&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Waldemar M. Reis&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-985194115059307940?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/985194115059307940/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=985194115059307940&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/985194115059307940'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/985194115059307940'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2009/02/darwin-pecador.html' title='Darwin, pecador'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-6317797909932261719</id><published>2009-02-21T08:23:00.001-03:00</published><updated>2009-06-09T03:50:57.397-03:00</updated><title type='text'>De literatura, caos e pensamento (um caminho possível entre três temas)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"Que a rosa não se desfaça em borboletas e da macieira não brotem diamantes, não é mais surpreendente que a rosa, as borboletas, a maceira e os diamantes". Antonio Caetano&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;O fantástico é o único ramo possível da literatura, já dizia Borges. Por mais realista que tente ser um autor, inevitavelmente produzirá situações inusitadas ou não causará interesse. A rigor é a vida mesma fantástica por natureza, por ser imprevisível.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;De hábito o fantástico é definido em oposição ao corriqueiro, àquilo de cuja verdade cremos possuir provas bastantes. Seu sinônimo constante tem sido o inverossímil. Mas o que, nesse mundo turbulento, há de mais fantástico do que o comezinho, a repetição? Como não espantar-se também diante da verdade?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Embora não nos demos conta, o habitual e o verdadeiro são autênticos milagres, principalmente quando é possível conhecê-los de antemão, digo, quando é possível prevê-los. O normal é que nos inteiremos de que são um e outro depois de serem fatos e depois de experimentarmos longa ignorância quanto ao que haveria de vir. Em fim de contas o verossímil termina por ser das expectativas a mais incerta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Assim, se é mister classificar as literaturas e evitar as discrepâncias imediatas na conceituação das classes, que se o faça de maneira mais trivial, por exemplo, segundo a temática: a do cotidiano, no qual se incluem as paixões; a da especulação técnico-científica; a do mistério ou suspense, que abriga desde os crimes até o sobrenatural; a das idéias, como os ensaios, a filosofia e a vulgarização da ciência; e por fim a variada. A rigor é muito difícil encontrar obra exclusivamente classificável num único tipo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Em virtude da natureza promíscua do modo verbal de o pensamento expressar-se, todos os temas perpassam com mais ou menos contundência toda e qualquer obra; o fato de predominar um tipo não impede a participação dos demais. O problema está em saber se tal ocorre de modo procedente. Por exemplo: se numa ficção científica a tecnologia, a ciência e a filosofia aparecem torcidas, isto é de somenos importância, o mesmo ocorrendo no caso de nos temas fictícios do cotidiano filosofar-se de maneira canhestra ou ocorrerem aparições do domínio sobrenatural.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Estranho, se não mesmo incômodo e intolerável, é o tema das idéias ser pontuado de argumentos sem consistência ou informações enganosas, salvo se está usando do artifício da ironia. Isto decorre do caráter de crônica desse tema, o único de entre os listados a ter compromisso incancelável com a verdade, com a realidade. No caso de insistir-se no uso do termo ’realismo’ para classificar alguma das literaturas, talvez seja este o tipo que mais o merece.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Semelhantes ocorrências derivam de circunstâncias variadas, visto a vulgarização da ciência ser em geral atribuição de leigos, jornalistas mais ou menos especializados no tema, ou de cientistas que, se fluem nas linguagens usadas nos respectivos ramos da ciência em que investigam, de hábito articulam mal essas idéias na linguagem comum. Há exceções, é natural, mas em vista de sua raridade fazem história, caso como o de Asimov, que terminou por dedicar-se exclusivamente à literatura, deixando de lado a prática letiva da ciência.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Entretanto as imperfeições na divulgação da ciência, se não mesmo na própria ciência, se devem ao manejo canhestro dos conceitos. O problema começa já na filosofia, responsável, na estrutura acadêmica, pelo estudo destes. Passando ao largo das recentes publicações destinadas ao público em geral, algumas das quais de boa qualidade, freqüente-se por exemplo o repertório de ensaios de filosofia ditos profissionais para se ter uma idéia do que é não fazer idéia daquilo sobre que se discorre. Justiça feita às exceções, pode-se dizer que o fantástico se manifesta ali sob a forma do absurdo, quando não cede lugar ao irrelevante.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;É natural também que se exercite diante de quaisquer textos, e não apenas nos deste último tipo, o viés crítico, o qual não passa do continuado cotejo com a experiência pessoal com vistas à estimativa do que ao leitor parece mais ou menos próximo ao que considera como realidade. Na literatura de divulgação científica isto é de importância particular na medida em que somos circundados por quantidade crescente de artefatos derivados do estudo metódico do mundo, e não apenas para termos idéia de como manejá-los, mas também para o fazermos com a devida cautela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Um dos exemplos mais recentes da penetração das descobertas de físicos, químicos e biólogos no quotidiano é a idéia de que ’tudo é quântico’, embora boa parte de quem o afirme o faça sem qualquer idéia do que ’quântico’ vem a ser - e imagino que se o soubesse mencioná-lo-ia com maior parcimônia. Já se tornou senso comum explicar o mundo por meio do funcionamento ainda pouco compreendido do que vai no minucioso abismo hoje tido por cerne da matéria, atitude em nada censurável em vista do padrão universal de raciocínio do homem, que não encontrou ainda alternativa eficiente para a lógica causal.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Assim, se admitimos que, embora organismos estudados e descritos na biologia, somos constituídos de substâncias que, por sua vez, derivam das combinações de outras elementares, derivando o comportamento destas da mecânica da estrutura em seus cernes, ditos atômicos, e estes, por fim, funcionando tal e qual o prescrevem os invisíveis efeitos em dimensões ainda menores, chamadas as dos ’quarks’ e similares, ora, então não deve haver dúvida quanto a estar tudo determinado desde esse universo quântico. É natural que de muitos eventos se encontrem as causas em dimensões mais imediatamente observáveis, equivalentes ou mesmo maiores do que a dimensão em que esses eventos se dão. Mas mesmo estas terão sido causadas ou podem ter suas causas atribuídas a essa dimensão ínfima, talvez mais em virtude do hábito do pensamento de acreditar que do menor deriva todo o maior do que do fato de ser precisamente assim que a realidade é.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Dado o repertório de conceitos fundamentais - com os quais se torna possível todo e qualquer raciocinar - ser um e o mesmo para o leigo e para o experimentado cientista (embora utilizado por um e por outro de maneiras distintas), e desde que é a própria ciência a responsável primeira por esta recente ’moda quântica’, nada mais natural que se pense no cientista como o primeiro a estar seguro de ser ’tudo quântico’. Tal não me pareceu ser verdadeiro, entretanto, à leitura de um breve &lt;a href="http://discovermagazine.com/2009/feb/13-is-quantum-mechanics-controlling-your-thoughts/" target="_blank"&gt;artigo&lt;/a&gt; sobre pesquisas interdisciplinares de biologia e física quântica: só agora esses pesquisadores começam a assegurar-se de que somos mesmo determinados pelas atividades inusitadas dum mundo percebido apenas nos sintomas de maquinaria que só outras máquinas são capazes de detectar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Constatar tão tardia certeza por parte da ciência, já passados mais de cem anos da predição da mecânica quântica e mais de oitenta de efetivo aparecimento do seu estudo, causou-me o espanto de quem pilha a si no curso de uma indiscrição ou dos que de súbito se inteiram de a realidade ser inteiramente diversa do que sempre acreditaram. A sensação é comparável - e o digo sem temor de incorrer no menor exagero - á descoberta, em obras de outro gênero literário, do que tornou Bentinho num Dom Casmurro ou de que o amor de Riobaldo não era outro homem. Em que acreditava a ciência antes de certificar-se de que até mesmo o pensamento parece dever-se ao comportamento de quarks, múons e outras subpartículas? Será que, na contramão do que afirmou Laplace, a ciência mais recente ainda tinha Deus por hipótese de causa universal passível de investigação por meio de instrumental ainda tão tosco? Ou esperava ela dar com outro conjunto de eventos com maior grau de probabilidade de ter atribuído a si o status de causa primeira?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Afora o desfrute dessa emoção típica da apreciação de obras da literatura de qualquer tipo, há também aquelas resultantes das especulações privadas em torno à constatação. Em primeiro lugar a de a realidade - a que nos habituamos considerar como ordenada, como um cosmo, e a despeito de com constância experimentarmos eventos inclassificáveis - ter por lastro uma dimensão na qual as ocorrências têm de ser interpretadas, desde esta dimensão vivenciada por nós, como enigmáticas ou contrariadoras do senso comum. Desse viés o tempo parece mesmo operar exumações cíclicas de idéias, como a dos gregos antigos de ser o caos a semente do cosmos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Até o pensamento, em cuja pressuposta ordem somos induzidos a apostar, se de fato organizado, o é por obra de força ou esforço ainda hoje desconhecidos. O &lt;a href="http://discovermagazine.com/2009/feb/13-is-quantum-mechanics-controlling-your-thoughts/" target="_blank"&gt;artigo&lt;/a&gt; mencionado centra-se nas observações do comércio de substâncias no interior das células, de como tornou-se possível flagrar a formação de processos regulares a partir das operações dos quanta, das quais logramos estimar apenas a probabilidade. Começa a ter-se alguma idéia de como o que chamamos de acaso se configura no que cremos ser constância. Em seguida os depoimentos dos cientistas entrevistados migram para especulações na área do funcionamento mental, é claro, visto conhecer-se o papel das interações químicas na constituição de vários de nossos pensamentos, como as emoções, e inclusive os manipularmos com substâncias exógenas já faz algum tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Aponto ao menos mais um dos sentimentos experimentados à leitura do &lt;a href="http://discovermagazine.com/2009/feb/13-is-quantum-mechanics-controlling-your-thoughts/" target="_blank"&gt;artigo&lt;/a&gt; e já referido acima quando se ponderou o desconcerto que pode advir de uma consideração menos parcial do comezinho: não é à toa que a regularidade seja mais assombrosa do que o acaso, já que em aparência é filha deste e em aparência o contraria, embora no momento - e justo pelo mesmo motivo - pareça assombroso que tal nos possa assombrar. Pois começam enfim a ruir as barreiras separando caos e cosmos, coisa que nos é possível realizar desde há muito, já que de há muito estamos de posse dos instrumentos para o fazer (desde, pelo menos, os tempos dos antigos gregos). Além do mais não é de hoje que descobrimos, por exemplo, nossa incapacidade de exprimir com precisão a medida de algo tão prosaico como uma barra de metal, de dizer com a exatidão desejada o momento de ocorrer um fenômeno qualquer e, enfim, de fazer corresponderem as respostas invariáveis fornecidas pelos números e a inquietude das coisas. E pensar, enfim, parece ser tão-só um desejo, o esforço de constituir-se em algo que ele não é, o desejo de escapar da natureza caótica e tornar-se numa quimera que, em face do comportamento mutante de todo o universo, não se sabe o que o inspirou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Rio, 15 de fevereiro de 2009&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Waldemar M. Reis&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-6317797909932261719?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/6317797909932261719/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=6317797909932261719&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/6317797909932261719'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/6317797909932261719'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2009/02/de-literatura-caos-e-pensamento-um.html' title='De literatura, caos e pensamento (um caminho possível entre três temas)'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-6982211518978482907</id><published>2009-02-08T11:04:00.000-02:00</published><updated>2009-06-10T20:26:33.671-03:00</updated><title type='text'>Escatologia pós-bohemiana</title><content type='html'>&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;... e naquele dia mesmo haveria Deus de estranhar alguns dos resultados da Criação. Mais O impressionou o modo de adaptar-se da cadeia alimentar, certas espécies de bichos habituando-se ao sabor da carne de outras.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Não provera Ele, ora, o enlace incontornável, oferecendo-lhes os frutos em troca do transporte das sementes que abrigam para que germinassem noutros lugares? Era preciso ir além? Passar às folhas? Degustar as flores?&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;A um animal apenas, pequeno e delicado, mas não indefeso, concedeu aproximar-se destas e, inclusive, de fartar-se com o seu pólen, desde que auxilia o vento a dispersá-lo sobre suas semelhantes. Eram agora devoradas, mal saíam de botão.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Decerto por se demorarem mais no estômago, as folhagens contentavam os gulosos, muitos sequer dignando-se a erguer o pescoço, consumindo aquelas rasteiras, que ali dispusera com o fito de suavizar-lhes o contato do passo com a pedra.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Generalizado, o hábito de servir-se de partes vitais de outros seres teria um só limite, o da ingestão de indivíduos por inteiro, e daí para a animalada toda olhar-se de través foi passo. Entretanto muitos, incontáveis, alegrava-Se de constatar, permaneciam irredutíveis, resignados a não tornar seu o alimento exclusivo da terra.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;A rigor, tudo, absolutamente tudo sobre a terra servirá para alimentá-la, mesmo enquanto vivos, regalando-a com seus dejetos que legião de animálculos refinam até o estado puro da substância. A ela cabem inclusive os frutos, os esquecidos ou desprezados pelos bichos: são, por assim dizer, o alimento comum.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Mas somente a ela, a terra, são reservados os seres - a ela e ao quanto vive inumado em seu ventre - e somente depois de mortos. Antes disso têm por missão apenas viver, comprazer-se da condição de vivos, assim como Ele próprio, que não tem escolher.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Nisso, pensa, reside a semelhança, a imagem de Si dispersa por tudo quanto há: o imperativo de existir, de persistir, da vida. Pois inevitável é que deixe marca Sua no que cria, nada havendo a ser imitado, de princípio, senão Ele mesmo. Faça-se o diferente, foi o que pronunciou, mas eis que depara ser que, se distinto de Si, o era por meramente ocupar espaço diverso do Seu: o Outro.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Muito tempo se passaria até convencer-Se Deus de que, se Lhe era o Outro infinitamente semelhante, nada obstava serem igualmente numerosas suas diferenças: pouca oportunidade sobrava a Si e ao Companheiro de privarem, dada a faina interminável de criar.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Iniciada, a obra não teria termo, perduraria: com o Outro vem à luz o lugar onde estavam e a percepção recíproca; vem à luz, por conseguinte, a própria luz e com ela miríades de ocorrências derivadas que por vezes O fazem sentir-Se qual mero observador do modo de encadearem-se, mero descobridor das conseqüências do ato único, este, sim, criativo de fato.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Assim teria de ser. Uma questão de... Vontade - foi atalhado. De vontade. Em que, do mundo, não perpassa Tua Vontade, Pai? Por isso, imitando-O, tudo cria ou assim o crê. A bem dizer, re-cria. Mas seja o que for, o faz por querê-lo. E por tal transgridem-se Tuas regras, se é que as há. Por teres multiplicado - diversificado - a Vontade, confinando-a em cada partícula de Tua Obra.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Com insondável humildade meneia a cabeleira e sorri. Também nisto diferiria do Outro: ao menos por ser mais antigo, por ser O Criador, mas certamente por Lhe importar pouco a questão. O que é Ele sem mais nada? Nada, é evidente. Nem Ele próprio. Eis o que foi até criar.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;No entanto, foi Algo, Algo na iminência vertiginosa de nada ser. Algo na ubíqua contemplação de Sua quase nula unidade. Fremia, assim, precipitando-se no abismo sem chão e foi tremente que bramiu o &amp;rsquo;Fiat&amp;rsquo;, do qual jamais se ouvirá o eco pois não existirá confim no qual venha refletir-se. Ainda hoje, passado tanto tempo, apura o ouvido para escutá-lo e admira-se de que tenha assumido diversidade assim de estados, de densidades, a ponto de simular a existência de modos distintos de perceber, como o ver e o tocar, o pressentir.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Já andava longe a aurora do sétimo dia e quando não atentava era como se houvesse silêncio, como aquele quebrado com O Verbo. E então preferia dar-Lhe ouvidos a ser aterrado pela lembrança anterior, mas quase não o reconhecia como o Seu próprio grito. Revisitava assim todo recanto da Obra em busca do motivo e, embora se encadeasse tudo tal e qual determinara em Seu comando único, singularidades, não menos conseqüentes, teimavam em insinuar-se nos interstícios.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Fizera o bom. Concebeu-o para durar todo o sempre. Com seu urro creu banir a dor e constituir uma trama da qual estivesse ela de todo ausente, um mundo de criação pura, onde todo e cada indivíduo permaneceria com a condição de auxiliar os demais a permanecerem: daí a idéia de os frutos serem o alimento, não as sementes, não a folhagem, não os corpos. Mas mesmo isto, a subversão de Seus Desígnios Primordiais, parecia aninhar-se entre estes como se eles próprios foram.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Também isto o impressionou, digo mais, impressionou-o muito, muito mais do que os desvios mesmos: que O desgostasse, mas que fosse, por outro lado, capaz de compreendê-lo, de entendê-lo como um derivatório a mais do Seu próprio ato. E, ainda que não entendesse como o compreendia, pascentou-se com o Seu continuado descanso.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Entretanto, intranqüilo foi o Seu sono. As vagas do &amp;rsquo;Fiat&amp;rsquo; chegavam-lhe agora muito desvirtuadas, tanto que despertou. Contemplando a diversidade, percebeu esparsos alvoroços. Aproximando o olhar, deu com cena inimaginável, mesmo por sua infinita capacidade de criar, já que os bichos, embora caçando-se reciprocamente, não mais o faziam como justificavam: para saciar a fome e por se-lhes terem tornado sápidas as carnes dos semelhantes.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;O Bem, em nome do qual pronunciara o universo, pareceu-lhe por inteiro dissipado. Responsável por tal fora uma criatura nova, aparecida aquando de Seu interminável Repouso Sabatino, criatura singular que, além de matar sem fome ter, dizia fazê-lo para aplacar carências outras, como o agravo e o tédio. Fosse tanto insuficiente, dizia-se ainda feita á imagem e semelhança d&amp;rsquo;Ele, Pai.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Sentiu Deus, então, desejo de rir, como se para distrair certa cólera que, qual a do princípio de tudo, insinuava apossar-se de Si. E foi assim, rindo, que Se voltou para o lado, ainda esboçando num murmúrio o comentario por fazer, quando Se deu conta de estar só. Só é força de expressão, pois rodeava-o tudo quanto criou. Mas não podia referi-lo sem provocar transtornos, um dos quais, chegara a imaginar, o de estimular a vanidade no interlocutor.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Por isso para a Criação reservara apenas os ouvidos. Escutava-a como música e como música a tolerava, compreendia e apreciava. Havendo de dizer, dirigir-se-ia ao Outro, de constituição robusta o bastante para suportar o vigor de Sua voz. Não O encontrou, entretanto. Não O encontrava, a bem da verdade se diga, desde o meio desse interminável Sabá, desde quando Se deu conta dos primeiros desvios do que criou.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Estendeu, então, uma vez mais o olhar para os confins do todo, certo de encontrá-Lo sem demora: foi preciso mais de uma vez ajustar suas lentes para o diminuto, depois para o gigantesco e assim sucessivamente, até admitir que o Outro se dissipara. Tempos estranhos os que se seguiam: os do infinito Sábado à noite.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Por primeira vez cedeu à própria censura: descansara demais enquanto algo na Criação operara o inesperado e indesejável. A Obra tomara rumos próprios e em aparência incontornáveis. Veja-se só, dizia então para Si, como agem essas diminutas e presunçosas criaturas: em seu delírio imaginam-se concebidos à Minha imagem, embora não saibam dizer como sou (naturalmente, pois jamais me viram!), e matam-se em Meu nome, matam-se por achar cada qual saber mais sobre Mim do que os demais. A isto chamam de desagravo.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Parte deles cria ser bom o Deus que supunha conhecer, sendo maus os deuses conhecidos pelos restantes. Mecanismo demasiado simplista, gracejou Ele. À parte má emprestavam imagens e, aproximando o olho, viu Deus nessas faces a Sua própria, mas pintavam-nas quase sempre de vermelho, bem como ao corpo, e lhes apunham chifres, por vezes serpentes e entre as pernas uma invariável cauda.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;E O adoravam! Isto era de fato extraordinário: adorá-Lo. Não fora com esse fim que criara. Quisera apenas companhia, seres que apenas reverberassem a existência, atributo único ao qual devia o &amp;rsquo;Fiat&amp;rsquo; e a Vontade, que O mantinham a distância segura do nada. Descansara, inclusive, nesse sétimo dia, por confiar nas propriedades desse atributo, a principal delas a meta de alcançar ou produzir o bem. Por isso retirara-se.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Mais adiante ouviu-os remoerem suas dores, delas a maior, para Seu assombro, a ignorância: pelo menos possuem alguma ciência de si, refletiu, não são de todo parvos, portanto. Mas a referida ignorância era singular, visto excederem em desejo o conhecimento deles próprios e do suficiente para susterem suas vidas efêmeras. Sequer os satisfazia a presunção de conhecê-Lo, pois nisso criam-se doutores, cada qual com suas convicções dando cabo dos restantes.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Desejam verdadeiramente conhecer a Minha origem, observa e ri entre dentes na ausência do Outro, para quem o diria. Ora, se nem mesmo Eu posso com segurança - e alguma tranqüilidade - dizer donde vim... Donde teriam sacado idéia tão estapafúrdia? Escutou falarem de profetas, em cujos desvarios ouviram mensagens Suas ou dalgum incercessor Seu. O teor, obsessivamente amargo, girava em torno dessa ignorância singular e repetia-se era após era.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Muito O impressionara o quanto sabiam de Si. Natural era que O intuíssem, pois guardavam Sua própria essência, como tudo mais; mas que conhecessem detalhes tantos da Obra e do Criador, incluindo a presunção de Lhe suporem origem, ora, isto era definitivamente insustentável. Ao fim de tais considerações, lembrou-Se de um certo diálogo, entretido não fazia muito, ainda pela manhã, cujo tema foi Vontade e transgressão.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Soube assim que deveria voltar-se, de imediato e ainda que só dessa vez, para onde dera as costas desde o primeiro dia, aonde não queria nem deveria retornar, mas assim mesmo o fez, mesmo sob o risco de pôr a perder a Obra toda: a mera proximidade seria o bastante. Creu não haver perigo em enviar de Si apenas o olho, mas nada viu.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Restou-Lhe então ir até a borda e usar de toda a Sua força para não ser tragado pela voragem. E ali pressentiu, a distância prudente do abismo colossal constrangendo-se sem detença na direção de ponto ínfimo e inatingível afundando-se no nada, a presença de algo, diga-se, de algo criado, pois como que ouviu ressonância do &amp;rsquo;Fiat&amp;rsquo; embrenhando-se no remoinho. Tratava-se de sonoridade singular, a de corpo triturando-se misturada a lamúrias ou gemidos de prazer frívolo: Ele não soube precisar.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Num esforço titânico afastou-se com lentidão, não por tristeza, pois não Se permitia entristecer: por profundo assombro. Sustentáculo da Criação, a Vontade obedecia à sua própria natureza, proporcionando a cada existente a determinação de durar. Esta, por sua vez, deu ensejo aos seres de se valerem de não importa o quê para a cumprirem, transmutando Vontade em desejo. Tal desespero, por fim, fez-se em método, estratégias por cujo intermédio melhor se lograva a duração.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;E de apenas ser, de apenas o desfrute da Criação, chegou-se ao conhecê-la como condição desse desfrute. Mas o que levara o Outro a lançar-se no vazio? Ser como Ele? Ora, isto nem mesmo Deus era capaz de responder. Pois era o Outro como Ele, era-Lhe infinitamente semelhante - embora infinitamente distinto também. Tal não Lhe bastara? Tinha de saber como iniciara, donde viera, quando nem Ele próprio o sabia? Caso o soubesse, é claro, tudo o saberia como de nascença tudo sabe de Si.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Então percebeu Deus que tais pensamentos mitigavam-Lhe o esforço de esquivar-Se do vórtice. Concentrou-Se por um instante e logo estava de volta ao Seu retiro. Considerou uma vez mais aqueles animais presunçosos e litigiosos, crias de Sua cria, era-Lhe evidente agora, e cogitou de emendá-los. Depois pareceu esquecê-los, estirando-Se de novo no catre, donde mirava boa parte do universo: se assim os fez a Vontade, pensou, a Vontade os refará.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Rio, 08 de fevereiro de 2009&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Waldemar M. Reis&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.08cm; MARGIN-BOTTOM: 0.08cm" class="western"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-6982211518978482907?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/6982211518978482907/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=6982211518978482907&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/6982211518978482907'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/6982211518978482907'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2009/02/escatologia-pos-bohemiana.html' title='Escatologia pós-bohemiana'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-17616325974074432</id><published>2008-12-30T14:16:00.004-02:00</published><updated>2010-12-19T21:10:26.523-02:00</updated><title type='text'>Desvendando o Plano Inteligente</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Deus já foi mais simples. É o que ensina a História. Ao menos podíamos imaginá-Lo a partir do que víamos: os bichos, as árvores, o céu, a terra. Há quem sustente, entretanto, que nesse período já tínhamos conhecimento, por certo vago, desse Deus único, primeiro, criador de todas as coisas (inclusive dos deuses imagináveis ou visíveis), mas teríamos preferido deixá-Lo lá, para onde foi depois da faina da Criação. Decerto o fizemos por já intuirmos as dificuldades de concebê-Lo, a mais evidente delas aquela dizendo respeito à Sua origem: os outros, os deuses concebíveis, Seus subordinados, conformavam-se melhor à nossa exigente maneira de imaginá-los, para a qual tudo tem de ter um ponto inicial.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Somos até capazes de imaginar coisas sem fim, como o tempo, por exemplo, bastando associar certos sinais de sua passagem, digamos, os dias, aos dedos das mãos, repetindo o processo sempre que acabarem os dedos contados, ou mesmo associá-los à série numeral, da qual não achamos também o elemento último. Se admitimos que um dia tudo pode acabar, o vazio, além do tempo, recusar-se-á a sair da cena final que imaginarmos. Encontramos problemas, entretanto, para pensar algo sem começo. Isto sempre começará em outra coisa, esta numa terceira, a terceira numa quarta e assim por diante; e no momento de pôr termo a esse processo, no momento de apontar a primeira de todas as coisas, o pensamento não hesita e pergunta: como isto teria começado?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Os primeiros visitadores do Deus único e primeiro não pareciam preocupar-se com tanto. Invocavam-No sem qualquer interesse por sua história e só os descendentes muito tardios destes viríamos acordar para o problema. Jamais o resolveríamos, embora as tentativas nos tenham rendido, entre outras coisas, a ciência, mas também os dogmas. Estes últimos dizem respeito aos limites do quanto é possível dizermos de Deus e passam a incomodar quando usados pela estreiteza de julgamento para coibir iniciativas como a da ciência. Já esta quer somente observar o mundo: admite que tenha sido criado - não pode escapar de conceber-lhe um princípio - e mesmo não a incomoda a idéia de um Criador, mas sua forma de observar parece frutificar sem mesmo tê-Lo como hipótese, segundo o afirmou certo sábio francês.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;O bom cientista, já o sabia o referido sábio, não deve nem pode intrometer-se na alçada dos dogmas: por referirem limitações do pensamento, idéias imunes a qualquer esforço especulativo, sequer se oferecem à contestação (pois como contestar o impensável?). Os dogmas são como portais ao pé de que se vislumbra paisagem além, sendo embora impossível esboçar ao menos um passo nessa direção. Dogmas estão desde sempre em nossas mentes, pode dizer-se que os conhecemos desde quando nascemos e só quando inteirados de que pensamos tomamos ciência deles. No caso de Deus, os dogmas a seu respeito são como os axiomas de qualquer geometria: ou os admitimos como nos são dados, ou não traçamos linha nenhuma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Isto equivale a dizer que nossa idéia de Deus, o primeiro e único, nasce conosco por inteiro, completa e, no entanto, inverificável. Outra forma de concebê-Lo não temos senão admitindo-O como inconcebível, impensável. É-nos igualmente impossível negá-Lo, ao menos enquanto princípio, enquanto origem, pois é preciso pensarmos alguma, da qual viria tudo quanto nos originou. Além disso, tudo mais a dizer-se d’Ele é incerto e, sobretudo, blasfemo. A onipotência, por exemplo: nada garante Seu poder além do &lt;i&gt;fiat&lt;/i&gt;, que pode ter sido mero pontapé de um processo potencialmente imprevisível. Por isso, talvez, tenha-se afastado, deixando aos sub-deuses, mais habituados aos reveses do mundo, o cuidado para com os homens, indivíduos esses muito impressionáveis com a própria impotência. Coisa semelhante se diga da onisciência e da onipresença, caso as possuísse de fato: decerto nos daria maior proteção, atenderia com inteira presteza aos nossos chamados, pois teria idéia precisa e imediata de nossas aflições.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Afirmar Sua inteira perfeição, então, deve soar-Lhe como ácida ironia, em vista de o fazermos por contraste com nossa admitida condição imperfeita: como ter-nos-ia criado assim tão cheios de defeitos, de carências? É dessa maneira que os kamchadalos, povo decerto já extinto da região a nordeste da Sibéria, o Kamchaca, O trataram: Kutka, nome que Lhe deram naqueles confins, só poderia mesmo ser estulto por tê-los posto num mundo de meses gélidos e montanhas intransponíveis. E estultice, para bom entendedor, é eufemismo por trás do qual bondosamente os kamchadalos escondiam atributo ainda menos apreciável, a maldade. Afora o de iniciador da criação, por conseguinte, as restantes qualidades que - até numa atitude sincera - cremos ver n’Ele terminam por transformar-se em graves acusações. Para quem O ama incondicionalmente, portanto, melhor é concebê-Lo assim, quase inqualificável.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;A verve do cientista não poderia permitir-lhe que se imiscuísse em querela dessa monta, se de querela é possível chamá-la. A empresa de compreender Deus, como é evidente, em si mesma é paralisante. Passo nenhum pode dar-se nesse terreno sem risco de vertigens abismais. Eis as razões de a ciência ter-se voltado para os objetos dos sentidos imediatos, deixando Deus em Seu retiro previdente. Mas não se pense que a ciência, embora não O pressupondo em suas observações, não queira chegar a Ele: tudo em seu modo de agir o demonstra, pois tem por meta o achamento do princípio universal, o qual quase involuntariamente tendemos a chamar de Deus. À diferença da atitude religiosa, entretanto, a científica parece desprovida da mesma pressa, como se quisesse construir sua opinião sem prejulgamentos, a partir de somente o que pode sentir, para estar munida, quando diante d’Ele estiver, dos argumentos bastantes para o debate fluido, sem as arestas das emoções.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;E não se pense também que em sua faina prescinda o cientista de emocionar-se. Seria uma tolice caso o admitisse, pois sabe que as emoções são tudo com que conta para investigar o mundo. As emoções são como sentidos internos voltados para o quanto os outros, externos, colhem no entorno. As emoções são como sinais indicando ser o que percebemos bom ou não. E de bem em bem desvelamos os caminhos seguros a serem trilhados. Seja qual for o seu apuro, a ciência é um tecido de bens cuja utilidade primeira é prover-nos da permanência, é permitir-nos durar. Pode tratar-se de mera ilusão, advertem uns obstinados observadores dos atributos de Deus, pode ser que duremos por obra e graça d’Ele somente, e arrolam como prova nossa própria transitoriedade: seja qual for o esforço, seja qual for o refino da ciência, um dia desaparecemos todos. Como se disse há pouco, o cientista não pode também dar ouvidos a semelhante cantilena e assim age como se dependesse apenas de si permanecer sobre a terra. Mesmo porque, caso tenha razão quem o admoesta desse modo, é na própria autonomia que em aparência quer Deus que ele acredite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;A despeito de tanto cuidado, de trilhar seu caminho no encalço do bem, não caminha a ciência por linhas retas, sequer por curvas ou outras quaisquer de alguma previsibilidade. A incerteza também a persegue, sendo possível vê-la mover-se em ziguezague, retroceder e até deter-se por lapsos consideráveis. Às vezes lhe passa pela cabeça ser o mundo interminável, às vezes está certa de sua finitude. Às vezes a paralisa uma dessas considerações, às vezes parece que a excitam quase ao delírio. Entretanto o bom cientista sabe ser este um falso problema: seja qual for a grandeza do mundo, não há um fim possível para a empresa de conhecê-lo, já que isto é tarefa exclusivamente relacional, tarefa de ligar uma coisa com todas e cada uma das demais, bastando ter alguém uma rasa idéia de como se processam as permutações para abrir mão de sequer começar o enunciado do numeral em que a operação resultará. Observando desse viés, percebe o cientista ter trabalho para sempre. Por outro lado, sabe que é possível pôr um fim em sua labuta e esse ponto final se chama Deus, o qual não estaria somente na ponta extrema de uma caminhada imensurável: a qualquer momento pode a ciência dar por terminada sua missão, bastando para tanto usar o nome d’Ele para expressar a causa de seja o que for.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Nesse ponto parece extinguir-se toda a curiosidade que à ciência motivou. Para os bons conhecedores do gênero humano, nada obstante, ocorreria apenas uma mudança de objeto da compulsão do saber. Toda a ciência tomaria então o nome de Psicologia de Deus, já havendo, inclusive, quem a pratique, em grande parte do viés da religião, os restantes desde suas cátedras científicas. Acreditam estes permanecer nos domínios naturais da ciência, mas é bastante possuir-se razoável senso de observação para concluir, como aqui se demonstra, que andam já pelo reino do sobrenatural. Se inquiridos, rejeitarão qualificar o que fazem de anticientífico e mesmo de paracientífico ou de misticismo. Nem quando apresentados os sinais inequívocos de sua inclinação seriam capazes de reconhecê-los como próprios de uma Psicologia do Divino, ciência futura da qual talvez não possuamos ainda as bases suficientes para desenvolvê-la a contento. Por ’bases’ tem-se aqui o tipo de conhecimento cuja verificação apresente consistência mínima, digo, cuja verificação não redunde quase de imediato em paradoxos, em contradições e outros impeditivos paralisantes da ação do pensamento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Passando ao largo do redundante Criacionismo, espécie de investida de maus leitores das fábulas bíblicas contra o ainda pobre mas consistente acervo da biologia depois de Darwin, ao introduzir a Psicologia do Divino tenho em mente uma corrente mais sutil de pensamento, quiçá sorte de polimento dado pelos criacionistas às suas elucubrações de modo a torná-las menos repulsivas aos critérios da ciência. Em tese consiste em afirmar a existência de um Plano Inteligente, à primeira vista parecendo designar a expressão tão-só substituto menos prolixo e de apelo metafórico mais contundente para Sistema de Propriedades Notáveis, como pareceria mais ao gosto científico chamar o mundo. Inteligência, em primeiro lugar, é apenas o nome da medida - demasiado imprecisa, como suas semelhantes - utilizada pelo homem para avaliar a eficiência da sua e da ação de outros seres no mundo. Assim de princípio, observado sem a malícia do polemista, o emprego de ’Inteligência’ na expressão mostra-se em perfeita conformidade com os pressupostos científicos. Mas basta acrescentar que inteligente, segundo o uso corrente do termo, é qualificativo aplicável somente a um sujeito, este entendido como indivíduo dotado de vontade própria e capacitado a responder pelos próprios atos, esteja ou não submetido a um outro: isto feito, configura-se o problema.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Acompanhado como está na expressão por ’Plano’, ’Inteligência’ não deixa dúvida de que quem os utiliza pressupõe um interlocutor, o qual poderia em tese ser inquirido acerca do que planejou. É claro, é possível ainda conservar a atitude científica diante da inteligência de tal plano e continuar reservando-se o prazer de decifrá-lo sem ser necessário lançar mão da menor pista fornecida por quem o elaborou. E pelo jeito é assim que devem proceder os investigadores do Plano Inteligente, ou seremos levados a crer que gozam de privilégio não estendido a nós outros, os menos do que meros mortais. Teriam eles de fato acesso a um canal privilegiado de contato com Ele? Em face do que afirmam só nos resta permanecer na dúvida, pois entre as razões apresentadas para o estabelecimento do novo viés estão, à primeira vista, algumas observações, todas muito criteriosas, do funcionamento geral da vida. Revelariam elas sistemas cuja forma atual resiste à interpretação evolucionista segundo a preconizou Darwin, a saber, que derivariam uns organismos de outros sutil e paulatinamente em resposta às exigências do meio. Tais sistemas só poderiam advir por inteiro e entre eles está o DNA, a essência da vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;O próprio Darwin considerou possível deparar-se com mistérios desse tipo. Chamou-os de Complexidades Irredutíveis, pois não poderiam aparecer senão completos e não lentamente derivados de sistemas quaisquer. Uma visão apressada do quadro induz de imediato à consideração de que também no tempo de Darwin a mentalidade comum relutou em aceitar que nos parecemos com os símios e que outrora a eles nos assemelhamos ainda mais. Foram precisos século e meio de escavações incansáveis para hoje, com o endosso da análise dos genes, aceitarmos o parentesco. A solução estava em encontrar elos a porem em contato pontos descontínuos de uma presumida cadeia. Mas o Plano Inteligente vai além: por mais notáveis que sejam as propriedades do sistema, a pressuposta forma de ele operar, com o uso do acaso, não seria capaz de produzir Complexidades Irredutíveis como o DNA ou o flagelo inusitado de uma determinada bactéria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Neste ponto, ao lado de ’Plano’, ’Inteligente’, ’Complexidade’ e ’Irredutível’, entra em cena ’Acaso’. O acaso, então, não daria origem a Complexidades Irredutíveis. Um filme sobre o tema ilustra muito bem o problema contrastando a rocha talhada ao acaso em contigüidade com as quatro cabeças dos presidentes norte-americanos esculpidas na mesma matéria, ou a ação caotizante do mar sobre uma frase rasgada na areia da praia: ventos e movimentos tectônicos não esculpiriam bustos nem o mar escreveria frases. A ação de uma inteligência - mais ainda, de uma vontade - torna-se clara nos contrastes. A biologia do Plano Inteligente leva-me a concluir que a Criação, se obra genuína de Deus, consumou-se em ao menos duas partes: para a primeira teria concorrido o acaso logo após o &lt;i&gt;fiat&lt;/i&gt; e em seguida, depois de moldadas as montanhas, de aplainadas as praias pela água, retorna Deus à cena resultante e, considerando-a palco ideal para o que concebera então, entrega-se a modelar as Complexidades Irredutíveis. Para o aficcionado dos jogos de simulação do Will Wright eu diria sim, é assim que se joga Sim City, Sim Earth ou Sim Life, embora eu não esteja certo de esse autor ter buscado no novo viés da biologia sua inspiração. Acho mesmo possível ter ocorrido o contrário.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Escuto, depois desse pensar, uma voz conhecida falando-me desde a imaginação, adversando com a consideração de não haver necessidade de invocar diretamente Deus no aparecimento da vida, pois a vida como a conhecemos, certamente obra de uma inteligência, pode dever-se, por exemplo, a ente igualmente criado, quiçá aparecido, sim, das operações do acaso... Embora canhestra, a hipótese merece réplica, como a de que nela mesma se considerou em última instância a existência de um Criador Primeiro, antecessor do criador da vida, ainda que seu instrumento de criação tenha sido o Acaso. E investigações nessa direção, já experimentamos, são fontes de vertigens e paralisações. Além disso, tal ser criado - e nosso criador - estaria para nós no altar reservado ao que chamaríamos de Deus. Seja, enfim, quem tenha sido o planejador da vida, ele teria trabalhado, segundo a biologia do Plano Inteligente, a partir de coisas já existentes. O acaso lhe teria fornecido a matéria sobre que plasmaria sua inteligência. Em suma, traçar do mundo físico a evolução levar-nos-ia à sua origem simples e à transformação paulatina no que hoje contemplamos. Já o caso da vida seria outro, daríamos com o seu artífice, a quem outrossim pouco teríamos a perguntar, visto já sabermos o essencial - as moléculas, o modo de agruparem-se e como se replicam. Ir além disso seria arriscar-se a ter como resposta aquele gênero do consideração que ensaiam os artistas fazer quando inquiridos sobre os motivos para terem realizada sua obra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Como os biólogos do Plano Inteligente, também os físicos, os químicos, os geólogos e, creio, até os evolucionistas empedernidos têm de eventualmente ceder ao puro êxtase em face das maravilhas que desvendam. Em meio às metáforas de que se valem para exprimi-lo certamente estão ’Plano’, ’Inteligência’ e, nas dos mais hiperbólicos, ’Autor’. Isto se deve à inevitabilidade da idéia de um princípio, de um Deus único que, nada obstante aperfeiçoada nos derradeiros milênios, não logrou ainda a forma adequada para sem atritos introduzir-se no discurso científico. Entretanto nada impede que um investigador do mundo o faça, nos momentos de desfrute, quando pausa seu trabalho e se permite mais amplamente contemplá-lo, não raro suscitando hipérboles sintomáticas do seu prazer no que faz. Isto não significa também que a ciência não se construa com metáforas. Para a ciência não há como escapar destas, pois consistem na própria linguagem: metáforas relacionam coisas distantes entre si - no espaço, no tempo ou na constituição - e se validam por haver em comum no que relacionam o suficiente para o estabelecimento de tal relação. Mas do viés científico a metáfora só se consolida quando, mesmo hiperbólica, é amparada por outras metáforas menos ambiciosas e cujas partes guardam assemelhamento maior. De hábito reservam-se as hipérboles para as demonstrações puramente emocionais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Mas há hiperbolismo em ver na vida um plano inteligente? Creio que mais de um, deles o primeiro a inferência imediata de haver um autor. Depois, o que seria a inteligência? Como se mostrou, uma medida da ação eficiente do sujeito no mundo. Assim, se dum lado é plausível a atribuição de inteligência ao criador da vida, pois ele teria agido como todos os sujeitos têm de agir, ou seja, transmutando a matéria com alguma finalidade, doutro lado não me parece adequado atribuí-la a quem criou a matéria, não ao menos nas condições iniciais que a religião costuma supor para o seu trabalho, isto é, o nada. É claro: se inteligência é termo designando a capacidade de operar após o advento do mundo, seria lícito atribuí-la a quem o sacou quando nada havia? E digo mais: se criar designa mais exatamente trazer à existência, seríamos nós, que apenas juntamos o já existente, criadores? Suponho que sejamos apenas inteligentes. Deus, à medida que o intuamos melhor, num tempo muito mais à frente, por certo revelar-se-á detentor de faculdades ainda mais impressionantes do que a da inteligência, faculdades quiçá para sempre incogitáveis, como o é Ele próprio, por nosso singelo aparato cerebral.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Por fim, ’Plano’ é o termo que vem lacrar a estreita relação dessa nova biologia com o nem tão antigo Criacionismo. Associado à impossibilidade de reduzir a complexidade a partes evolvendo, tem-se panorama decerto o mais terrífico para o âmbito do conhecimento em geral e da ciência natural em particular: entes postados cada qual no seu nicho de espaço e tempo reproduzindo-se com variações mínimas no universo de cada espécie sem guardar com os entes de outras espécies qualquer significativa relação. Em vista da irredutível complexidade dos seus respectivos genes e a despeito das assemelhações, sequer homens e chimpanzés teriam derivado de um mesmo ancestral. Nesse passo teríamos de retomar a hipótese de geração espontânea e as demonstrações de Berkeley e Malebranche, até as assimilarmos completamente, voltariam a assombrar o cotidiano universal. Cairia por terra o pressuposto maior da filosofia que, de ’tudo é um’ (segundo interpretou Nietzche a máxima de Thales), teria de enunciar-se ’cada coisa é uma’ (ou melhor, ’cada coisa é cada coisa’): a categoria universal, tão discutida na Metafísica, seria posta de lado, bem como a ciência na forma que a cultivamos, doravante voltada para o particular. Borges rir-se-ia sem a costumeira modéstia, pois só o memorioso Funes, de sua invenção, se habilitaria a dar conta de mundo assim diverso, mundo em que a metáfora não passaria de um delírio e onde cada coisa, incomparável a qualquer outra, teria de ter designação exclusiva.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;’Plano Inteligente’ a mim parece mescla pouco refletida de conceitos mal aplicados e entendidos. Configura-se como recurso da indústria religiosa tencionando ampliar sua dominação de milênios sobre a ciência, a qual seria em aparência infensa a suas ações. Revela-se como sintoma da ignorância dos doutores da religião, que não compreendem o potencial do conceito central em seu poder, o conceito de Deus, incontornável e nada obstante imune a toda investida lógica ou experimental visando demonstrar seja o que for a Seu respeito, inclusive a Sua real existência. Do ponto de vista estritamente científico, ’Plano Inteligente’ só pode representar exclamação do gosto do cientista diante do quanto foi possível descobrir. Caso contrário, deve indicar postura presunçosa da ciência, prestes a cruzar os braços até que encontre o suposto responsável pela criação dos objetos de seu estudo. E se alguns desses cientistas já não O encontraram, quando o fizerem, do diálogo entretido é provável constar uma passagem assim: "o que mais querem vocês? já sabem como funciona, já sabem quem fez; agora, por favor, deixem-me em paz!"&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Rio, 29 de dezembro de 2008&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Waldemar M. Reis&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-17616325974074432?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/17616325974074432/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=17616325974074432&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/17616325974074432'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/17616325974074432'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2008/12/desvendando-o-plano-inteligente_30.html' title='Desvendando o Plano Inteligente'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-1951874955689935983</id><published>2008-10-07T00:51:00.006-03:00</published><updated>2009-03-22T23:41:07.131-03:00</updated><title type='text'>O mundo acabou?</title><content type='html'>&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;E nós temendo, faz poucas semanas, uma hipotética hecatombe iniciada no novo acelerador de partículas. Antes fossem fundadas tais premonições. Ao menos seria catástrofe instantânea, diga-se, inteiramente imperceptível, como asseguram os físicos. Um espírito polêmico sentir-se-ia à vontade para perguntar: não teria ela ocorrido de fato e não viveríamos agora no tão sonhado e temido Além?&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;É impossível responder-lhe com acerto, mas sendo mesmo este o caso, pouco se observa de diferente da vida passada, permanecemos no Purgatório, com a particularidade de alguns de seus aspectos parecerem agora mais veementes: a atmosfera sofre de um certo exagero, com tufões gerando-se em questão de minutos e mantendo-se no ar por dias ou dissolvendo-se logo que transpõem o horizonte, gélidos meios-dias cheios de sol e a bolsa - meu Deus! - a louca bolsa desgrenhando-se em meio à plácida fartura das linhas de montagem e do deslocamento incólume das multidões na densa névoa de Pequim. Sim, continuamos no Purgatório, embora - quem sabe? - tenha-nos mesmo pulverizado a curiosidade da ciência ao produzir mero arremedo do fiat primevo. Continuamos no Purgatório por não existir, talvez, senão Purgatório, misto de abundância - dádiva celeste - e insaciabilidade - sua contrapartida infernal. Talvez seja o caso de o mundo continuar o mesmo depois de acabado (por lhe ser impossível inexistir, segundo afirmou alguma filosofia), apresentando somente uma alteração na intensidade das coisas.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Isto é o suficiente, entretanto, para tirar dos trilhos, além dos cinco básicos, o sexto e mais crucial dos sentidos: o da premonição. E como o provocou uma flutuação quântica, useira e vezeira em inverter a seta do tempo, seus efeitos se fizeram sentir antes mesmo das causas: pressentimos catástrofe, é verdade, mas não a do retorno do mundo ao pó; antevimos a pulverização do quanto pensamos dele, o vasto sistema de valores erguido ao longo dos dois ou três últimos milhares de anos. E então testemunhamos o desvario dessa senhora sobre quem pesou guardar a integridade do castelo de retângulos de papel, discos de metal e cartões em plástico cujo colapso tirou-lhe o tino.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Vendo-a assim, parece não haver dúvidas de que enlouqueceu de vez, mas diante da universal e continuada indiferença para com sua aflição é possível notar um certo exagero em como a demonstra, um tom de encenação (pois mesmo para a loucura são impostos limites). Peregrina nos dias úteis ao redor da Terra que, por girar sem descanso, obriga-a ao cumprimento de jornadas noite adentro, quer, em resumo, cooptar a comoção geral, suscitar o desespero mundial pelo desmoronamento de seu efêmero fortim; quer cumpridos os termos pelos quais nos apalavramos, ver ruir também cada parte do mundo que as peças de seu castelo representam.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Até há pouco não merecia senão a piedade circunstante e por seguidores não tinha mais do que os conhecidos arautos do apocalipse. Mas tamanha é a insistência do desvairado cortejo que se observam, com o passar dos dias, novos adeptos: abandonam seus afazeres para lhe fazerem coro no conhecido bordão com que ora pede, ora suplica, ora exige que tudo pare. Caso sucedam os seus planos, em breve estaremos todos na comitiva e, quem sabe, ajudamo-la a reerguer o edifício de papel, discos metálicos e matéria plástica, recebendo pela tarefa algum soldo, que de pouco ou nada nos servirá até voltarem à ativa engrenagens e arados. Enquanto isso poderemos restaurar outros aspectos saborosos da vida, como a circulação de promessas, essenciais na constituição da certeza de possuirmos algum futuro.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;De momento a reconstrução do mundo oferece ainda pouca vantagem e portanto não há motivo para empreender nada. Além da saciação da fome e da sede, o que se promete a quem nos provê do alimento? Muito pouco, avalia-se. Por que? Por tratar-se, ora, de crise, e de crise do essencial, do pressentimento. Em tempos dela todo o mais perde a importância, inclusive o viver! O mecanismo é simples, lógico, fácil de entender: o futuro só existe para quem é capaz de pressenti-lo, mesmo que sem o esperado acerto, não havendo instrumento tão eficaz no estímulo de pressentimentos quanto as promessas que, mesmo insustentáveis e conseqüentemente descumpridas, mantêm sempre aberto o caminho para as cobranças. E cobros de prometidos são exercícios infalíveis da construção do futuro, mesmo sendo ele rancoroso e triste.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Estão em crise nossos futuros por não sermos capazes de concebê-los de outro modo; projetamo-los muito além do que somos capazes de divisar; há mais promessas do que possibilidades de honrá-las. Crise de futuros só se dá no rastro de crise outra, esta mais séria, mais grave e porventura perene, mas constantemente contornada pelo trabalho incansável de legisladores e com freqüência subestimada enquanto não acomete o pressentimento: trata-se de crise da honra mesmo, sustentada em sua latência pelo pendor humano para o ludíbrio, este gerado pela universal propensão para a indolência, que não pode senão ser controlada, jamais extinguida. Em tempo de incêndios como este pouco se obtém no rescaldo, a não ser a certeza resignada de que praticamente nada se queimou, pois nada havia para queimar senão vaidade insustentável, equilibrada sobre esperteza de tipo efêmero, incapaz de manter-nos convencidos da segurança que inspiram os seus cofres de papel. Tempo promissor, sim, embora as dádivas que anuncia não tenham o apelo das antigas.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Parece que a ciência conseguiu mesmo dar fim no mundo - e isto é tão certo quanto é impossível provar o contrário. Em sendo esta a realidade pós-apocalíptica, prova de a destruição do mundo ser espécie de decaimento em outro semelhante e talvez somente mais atroz, não faltará quem lamente a impossibilidade de ele tornar-se nada.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Rio, 07 de outubro de 2008&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0cm" class="western" align="justify"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Waldemar M. Reis&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-1951874955689935983?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/1951874955689935983/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=1951874955689935983&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/1951874955689935983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/1951874955689935983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2008/10/o-mundo-acabou.html' title='O mundo acabou?'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-591514578369721637</id><published>2008-09-30T06:39:00.013-03:00</published><updated>2010-12-19T20:36:16.969-02:00</updated><title type='text'>Fragmentos 'pré-modernos'</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;A difícil arte da tradução, a lúbrica facilidade da presunção, um texto instigando noutro vernáculo e o impulso de entendê-lo neste que compreendo melhor: os ingredientes de cuja combinação destilaram-se as linhas mais abaixo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Nada obstante os quase duzentos anos de nascido seu autor, desconcertam pela insistente atualidade, tanto que o inculpam de germinar o redundante existencialismo. Alguns propósitos em aparência o obstinaram, ao menos em certos escritos, como a vertigem da alteridade - artifício visando ao distanciamento esperado naqueles que praticam a ciência, mas empregado com a veemência de &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;quem, por sinceridade, não pôde debruçá-la senão sobre si mesmo - e os heterônimos multiplicando-se ao passo que constatava seus desdobramentos&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; próprios, por cujo intermédio procurava seu espírito amoldar-se às extravagâncias morais daquele tempo.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Em vista disto mesclou em vários de seus trabalhos ficção e filosofia, dispondo as personagens como que num labirinto. Parecia querer tornar o conceito à condição originária, mítica, na qual possuiria a concretude do sentimento. Em Kierkegaard raciocina a comoção, enternece a lógica. E a fé provoca, faz tremer...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Temeu e condenou o fracionamento de seu trabalho, deste em particular, de&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; título&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; insólito, "Ou, ou", cujas partes aqui se lançam no limite do acaso. Mas foi capaz de reconhecer-se como origem e estímulo desse mesmo risco, dado o seu pendor quase irresistível para o aforismo.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;A inquieta fraseologia intriga e encanta pelo emprego dos recursos extremos da gramática tendo por intuito evidente fazer cantar a dedução. Utilizaram-se duas versões em inglês, a de David e Lillian Swenson, revisada por Howard A. Johnson, e a de Alastair Hannay.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"O que é um poeta? Um infeliz cujo coração abriga dor profunda, mas cujos lábios são capazes de fazer dos gritos e gemidos que por ali passam música arrebatadora. Sua sorte é como a das infelizes vítimas do tirano Faláris, encerradas em touro de latão, lentamente torturadas por fogo constante; seus gritos atingiriam jamais os ouvidos do tirano, nem terror lhe causariam no coração; soariam, quando escutados, qual doce música. E o povo rodeia o poeta dizendo-lhe: ’Canta para nós outra vez’ - o mesmo é dizer-lhe: ’Possam novos tormentos afligir teu espírito, mas que continuem teus lábios como dantes; pois teus gritos somente nos inquietariam, mas a música, ora, a música é deliciosa’. E vêm adiante os críticos, dizendo, ’Perfeito - como tem de ser, segundo as leis da estética’. Agora, entenda-se que o crítico difere do poeta por um fio; falta-lhe tão-só a angústia no coração e música nos lábios. Eu lhes digo: preferível é guardar porcos que me entendam a ser poeta incompreendido.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"... pois antevejo as inquietações e elas teimam em ficar atrás.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"Tenho coragem, acredito, de duvidar de tudo; tenho coragem, creio, para lutar contra tudo; mas não tenho a coragem de nada saber; nem a coragem de ter - de possuir - nada. Lamenta-se que seja o mundo assim prosaico, que não seja a vida como num romance, no qual as oportunidades são sempre favoráveis. Eu lamento não ser a vida um romance com pais desalmados, tritões e gnomos contra que lutar e princesas para libertar. O que são todos esses inimigos comparados às pálidas, exangues e tenazes formas noturnas contra as quais me bato e a que dou vida e substância?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"O que pressagia? O que trará o futuro? Eu não sei, não tenho pressentimento. Quando se lança de algum ponto fixo, segundo sua natureza, vê a aranha diante de si sempre e apenas o espaço vazio, onde não encontra apoio, por mais que se estique. Assim é comigo: tenho sempre à frente o espaço vazio, indo adiante em virtude da consistência que tenho detrás. A vida tem as pernas pr’o ar, é terrível, intolerável.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"Minha visão da vida carece de todo o sentido. Suponho que um espírito mau me pôs sobre o nariz um par de óculos, uma de cujas lentes magnifica tremendamente tudo, enquanto a outra tem poder equivalente de tudo encolher.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"De todos os ridículos, não há maior, para mim, do que o do ocupado homem de negócios, pronto a cear, pronto a trabalhar. Tanto que, quando vejo pousar uma mosca, num momento crucial, sobre as ventas de um homem de negócios, ou quando o vejo respingado de lama à precipitada passagem dum coche, ou quando bem à sua frente levanta-se a ponte, ou quando cai do teto uma telha, matando-o, rio com vontade. O que faz rir? O que realizam esses apressados? Não são eles como as donas de casa que, desorientadas com seu lar em chamas, salvam os atiçadores? O que mais levam eles do grande incêndio da vida?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"Perguntem-me o que lhes aprouver, mas não me peçam razões. A uma moça perdoa-se a incapacidade de fornecê-las, pois vivem, como se diz, com os próprios sentimentos. Comigo é diferente. Tenho, em geral, muitas e com freqüência mutuamente contraditórias, de modo que por tanto me é impossível oferecer razões. Algo de errado parece haver com causa e efeito, que não se combinam com acerto. Causas tremendas e poderosas por vezes produzem pequenos e irrisórios efeitos, senão nenhum; enquanto ocorre de uma ligeira causa menor resultar em efeito colossal.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"Ninguém volta dos mortos, ninguém jamais veio ao mundo sem chorar; a ninguém se pergunta quando na vida deseja entrar nem quando dela quer sair. "O tempo flui, a vida é uma corrente, diz a gente, e assim por diante. Eu não vejo como. O tempo é imóvel e eu com ele. Todos os meus planos se lançam de volta sobre mim; quando cuspo é em minha própria cara. "Cada qual deve ser um mistério, não só para os outros, mas para si. Estudo-me; quando me canso, á guisa de passatempo acendo um charuto e penso: o Senhor sabe apenas o que supõe ou o que faria de mim.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"Divido o meu tempo assim: uma metade passo dormindo e a outra, sonhando. Nunca sonho enquanto durmo; seria uma pena, pois o sono é o exercício maior do gênio.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"A natureza reconhece a dignidade humana, pois quando se quer manter os pássaros distante das árvores, monta-se algo parecido com um homem, e mesmo essa pouca semelhança, caso do espantalho, é bastante para inspirar aos pássaros respeito. "A melhor prova da miséria da existência é a derivada da contemplação de suas glórias.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"Os homens, em maioria, perseguem o prazer com tal azáfama que logo lhe estão adiante. Guardam-no como à princesa capturada o anão em seu castelo. Um dia, tira uma pestana. Quando acorda, depois de hora, foi-se a princesa. Rápido, suas botas de sete léguas calça e num só passo a deixa para trás."&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Em Kierkegaard - Diapsalmata&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;"Em&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; sendo contrário ao espírito da Irmandade das Vidas Sepultas &lt;em&gt;(&lt;/em&gt;&lt;em&gt;symparanekronomenoi&lt;/em&gt;&lt;em&gt;)&lt;/em&gt; produzir coerência intrínseca ou grandes conjuntos em sua obra, em não sendo nosso propósito erigir uma Babel sobre a qual pode Deus, em sua justeza, descer e lançar destruição, já que, cônscios de ser tal confusão de línguas ocorrência justa, reconhecemos o fragmentário como característico dos que investigam sua verdade e entendemos ser precisamente isto o que a distingue da coerência infinita na Natureza, consistindo a riqueza do indivíduo precisamente em seu poder de fragmentária extravagância, sendo o êxtase do produzir também o do utilizar, não a laboriosa e meticulosa execução, nem a duradoura apreensão do executado, mas a produção e o desfrute dessa luminosa impermanência que para o produtor compreende algo mais do que o esforço completo, visto ser a aparência da Idéia, e que para o receptor, igualmente, contém um excedente, constatando que tal fulguração desperta sua produtividade própria - em vista de tanto ser contrário ao pendor de nossa irmandade (e desde que, de fato, mesmo o período que se vem lendo bem poderia ser tomado por ataque desmobilizador ao insinuante estilo que a idéia intumesce sem atravessar, um estilo a que se confere em nossa irmandade status oficial), então, enfatizando o fato de sequer poder chamar-se de rebelde a minha conduta, em vista do quão frouxa é a consolidação deste período, cujas cláusulas intermediárias se protraem de maneira suficientemente aforística e arbitrária, devo meramente ressaltar que meu estilo ensaiou parecer o que não é - revolucionário.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;"Nossa sociedade necessita renovar-se, renascer, quando se reúne, tendo por fim poder sua atividade interna refazer-se com uma nova descrição de sua produtividade. Descrevamos nosso propósito como empenho em buscas fragmentárias ou na arte de redigir papéis póstumos. Uma obra poética inteiramente acabada não tem relação com a personalidade poética; no caso de escritos póstumos, em sendo inacabados, desordenados, sente-se necessidade de romancear a personalidade. Papéis póstumos são como ruínas; e que lugar assombrado seria mais natural para os sepultados? A arte, então, tem de produzir artisticamente o mesmo efeito, a mesma aparência de descuido e de acidente, o mesmo vôo anacolútico do pensamento; a arte consiste em agradar sem jamais tornar-se de fato presente, de modo que sempre tem algo de passado em si, é presente no passado. Isto já se expressou com o termo ’póstumo’. Tudo quanto o poeta produz, num certo sentido, é póstumo; mas nunca poderia chamar-se de póstuma uma obra acabada, nada obstante possua a qualidade acidental de não ter sido poublicada em vida do poeta. Admito também ser esta a verdadeira característica de toda produção humana como a apreendemos, que é herança, pois ao homem não se permite viver eternamente sob as vistas dos deuses. Uma herança, por conseguinte, é o que chamarei de efeitos produzidos entre nós, uma herança artística; negligência, indolência, eis como chamarei o gênio que apreciamos; &lt;em&gt;vis inertiae&lt;/em&gt;, a lei natural que cultuamos. Com esta explanação compactuo com nossos sagrados costumes e leis."&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Em Kierkegaard - O antigo mote trágico e seu reflexo no moderno&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Rio, 30 de setembro de 2008&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Waldemar M. Reis&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-591514578369721637?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/591514578369721637/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=591514578369721637&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/591514578369721637'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/591514578369721637'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2008/09/fragmentos-pr-modernos.html' title='Fragmentos &apos;pré-modernos&apos;'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-8192397644894457489</id><published>2008-06-01T00:01:00.005-03:00</published><updated>2011-02-01T10:07:10.086-02:00</updated><title type='text'>Para pensar Deus – a natureza de uma idéia recorrente</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Em seu livro tratando de Deus o cientista Dawkins investe principalmente contra a versão de origem judaica da divindade. Mas não prova sua inexistência, para desespero de quem busca esse tipo de informação em publicações do gênero. Sua argumentação, nem sempre consistente, achou por bem concluir que é "praticamente" impossível que Deus exista, ou seja, embora não haja provas cabais dessa impossibilidade, é cabível tratar o assunto como se as houvesse, visto também não se provar o contrário.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Algo há, entretanto, a impedir a conclusão categórica desejada pelo autor, sendo devido, por isso, dar a esse impedimento valor análogo ao de uma prova, embora não se diga com a clareza suficiente do que se trata. E, é possível deduzir, se possui valor de prova, este é deveras baixo, pois também permite que ’na prática’ se possa ter Deus por inexistente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Em algumas partes Dawkins menciona a improbabilidade tamanha de a vida formar-se no universo para enfatizar como somente o processo adaptativo teria proporcionado àquele evento, quase único em toda a duração do cosmo, manter-se e multiplicar-se. Percebe-se pelo argumento que Deus, em sendo ’na prática’ impossível, pode ser tido, ao menos em teoria, como ’muito improvável’ se comparado, por exemplo, à aparição da vida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Mas probabilidade é função do tempo, que mais chance oferece de ocorrer o menos provável quanto mais longo for o período: refiro os eventos praticamente inexistentes, esses de existência muito improvável. À primeira vista parece abuso da lógica traduzir aqui a opinião de ser Deus ’praticamente inexistente’ como a de ser ’muito improvável’ que exista. Entretanto é isto o que quer dizer a ciência em não encerrando o assunto com provas irrefutáveis de não haver deus algum.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;E quando Deus é o tema isto parece mesmo ser o máximo permitido à ciência honestamente concluir: pela muita improbabilidade de sua existência. Muito natural, é evidente, pressupondo-se honesta a ciência (uma ciência desonesta é contradição de termos, obra da estultice), visto ’improvável’ designar literalmente aquilo de que não se possui provas ou para que ainda não se conseguiu produzi-las. Sob esse viés as evidências da aparição da vida não são mais eloqüentes do que as da existência de Deus.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Em síntese, a ciência não é capaz - e desse modo o confessa - de detectar Deus, ou seja, não tem meios de realizá-lo. Deveria, por conseguinte, postergar suas investigações do tema até quando se sentisse melhor habilitada para a tarefa. Isto seria de esperar de qualquer pessoa honesta e ciente da distinção dos significados de improvável e impossível.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Para surpresa geral a ciência se vale, ao contrário, do que se pode chamar de navalha cartesiana, embora empregando-a com propósitos diferentes. Se Descartes, diante da dúvida quanto à existência do mundo, escolhe a negativa, não é por de fato descrer de que ele exista, mas para provar sua existência por intermédio do puro raciocínio, haja ver o esforço das últimas meditações. Assim, numa mostra de presunçosa confiança em si mesma, em face da muita improbabilidade a ciência encerra o assunto concluindo pela impossibilidade ’prática’ de Deus existir, o que, quando não se aventura a alardear de maneira taxativa, procura demonstrar nas atitudes de reserva cética dos seus profissionais.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;’Pouco provável’ não é o mesmo que ’muito improvável’, como se poderia irrefletidamente pensar. Antes de mais, ’muito improvável’ não significa, a rigor, mais do que ’improvável’: o que, dentre tudo quanto é improvável, o seria mais ou menos, ou ainda, o que, dentre tudo de que não se pode provar a existência, oferece mais ou menos provas de existir? O que se exprimiria, nesse caso, modulando a improbabilidade com ’muito’ é, presumo, a confiança da ciência na própria capacidade de encontrar ou produzir provas do quanto decida investigar e de ser na prática inexistente aquilo que não as possui, além da segurança de que tal persistirá ao longo da evolução do conhecimento.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;’Pouco provável’, do seu lado, indicaria existir, sim, ao menos uma prova, por certo não cabal. Como viemos observando, para a ciência não têm valor as tentativas tradicionais de provar a existencia de Deus. Não vê por que, por exemplo, diante do abismo abrindo-se ao questionamento incontornável acerca do princípio de tudo, postular-se um ponto inicial e chamá-lo, talvez precipitadamente, de Deus. Ora, pergunta-se ela, por que parar aí? Por que não continuar a série interminável de perguntas com aquela sobre a origem de tal origem?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;O teísta astuto, usado nas limitações científicas, não perderia a oportunidade de observar a analogia entre sua própria precipitação em postular um fundo para o abistmo de questões acerca do princípio e o uso feito pela ciência da navalha cartesiana. Se é direito avaliar como nula a existência de algo (muito) improvável e com o prognóstico de essa avaliação permanecer enquanto houver ciência, ora, é direito também pôr Deus na origem de tudo, ainda que esta seja de fato inconcebível. Do mesmo modo amputam-se com freqüência as dízimas infinitas do quanto se considera irrelevante para obter-se o grau de aproximação desejado em cálculo que as utilize.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Aliás, a empresa científica seria impossível sem incontáveis reduções. Sendo seu objetivo constante a descrição do mundo, do seu funcionamento, e sendo o descrever o relato das interações de determinados fatos ou objetos, ora, a rigor uma qualquer descrição completa teria de abarcar absolutamente todas as interações, ou ter-se-ia de admitir no universo a existência de coisas que não interagem de modo algum, isto, sim, uma impossibilidade lógica. A descrição da ciência, entretanto, para ser exeqüível tanto quanto útil, tem de eleger um âmbito de interações a serem listadas, além do qual nada é tido por relevante para determinado fim. Caso contrário, nem toda a eternidade bastaria para a descrição de uma partícula, idêntica, se concluída, à descrição da totalidade das coisas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Esse reducionismo, é bem verdade, não invalida a ciência, embora lhe confira considerável grau de imprecisão, aumentável por sua cooperação com as finanças e contra a qual o cientista honesto se bate. Não é incomum o uso de algo cujo conhecimento, por diversos motivos insuficiente, resulta em efeitos imprevistos e, não raro, indesejáveis também.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Assim como nos procedimentos científicos, há no procedimento teológico tão-só a presunção metodológica de evitar, com a designação ’Deus’, a queda interminável no abismo aberto pela questão da origem, em tudo semelhante ao método geométrico, que tem de eleger um entre os infinitos pontos de uma linha, sobre o qual baseará sua demonstração. O problema da teologia, o mesmo de todo ramo do conhecimento, começa quando produz ilações muito particulares e supostamente derivadas desse fundo arbitrário dado ao seu precipício, desse modo incitando ações intoleráveis.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Crendo-se honesta, a ciência não pode bater-se contra a iniciativa teológica, pois esta não é senão a investigação de um pensamento recorrente em toda a história da humanidade. Crendo-se honesta, a ciência teria de bater-se contra certo tipo de teologia, como de fato se bate contra a biologia com pressupostos criacionistas. A bem dizer, bate-se a ciência contra espécie de espantalho quando investe contra os resultados canhestros de uma teologia precária, embora capaz de estimular atos nefastos. Portanto não pode partir para a negação completa da empreitada teológica, em particular por não lhe ser possível tanto, como o demonstra ao estimar a existência de Deus como nula na prática ou ’muito improvável’.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Outro aspecto saliente do debate científico sobre Deus é o da inteligência. Para um evolucionista a inteligência resulta do esforço adaptativo das espécies que a portam, possuindo uma história, ainda que lacunar em tempos atuais. Com efeito não nos parece procedente chamar de inteligente o gene, mas sim o sujeito a quem dá origem. Que a inteligência exulte diante do trabalho genético e mesmo que o utilize para os mais diversos fins, isto não significa haver inteligência nele, nada obstante aja a inteligência como replicador de tudo quanto encontra na natureza, em grande medida lembrando, é mister admitir, a atividade do próprio DNA.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Se considerado desse modo, o assunto se encaminha para a afirmação de que, se de fato princípio, Deus não teria de necessariamente ser inteligente, como diz a teologia, não sendo a intelegência também um traço de que tanto possa a humanidade se orgulhar (e muito menos passível de honestamente atribuir-se a um ser considerado como a suprema origem de tudo). Em fim de contas a inteligência não passa da capacidade - em extremo variada e admirável, admita-se - dentre as tantas promovendo a reprodução de processos encontráveis todos na natureza, algo em boa medida muito comum. Neste ponto o teísta astuto teria de admitir que para Deus seria inútil, se não inconveniente, dizer-se inteligente, pois deve ele ter sacado o mundo do nada, tendo de inventá-lo desde o princípio, algo decididamente impraticável por qualquer inteligência - a qual cria, de modo impressionante, mas sempre a partir do já existente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Em suma, se a inteligência cria (a partir do zero, portanto), então é atributo divino, mas se apenas reproduz, não passa de um dos resultados do quanto iniciou com a criação. Quando se bate com teorias como o criacionismo ou o design inteligente a ciência arremete contra os castelos de cartas de quem muito se admira do fucionamento das coisas, contra mera mostra da vaidade da inteligência. Quando combinado a esse centro, em que, humanos, nos constituímos e cujas capacidades únicas são a de emitir juízos numa gama indo de bom a mau e a de agir em função deles, esse replicador de processos no universo crido como exclusivamente humano, a inteligência, proporciona ocasião para muitos julgamentos positivos desses centros, outrossim ditos ’eus’. E, convenhamos, nada de intrinsecamente pernicioso há em as consciências regozijarem-se com aquilo de que são capazes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;O problema de qualquer vaidade - ou de qualquer coisa - estaria no uso que dela se faz, em particular o de produzir embriaguez inoportuna e, como no caso da inteligência, de incorrer, se não na produção de miragens dos processos na natureza (pois tudo quanto observa quase com certeza é como tal), por certo no emprego duvidoso dos mesmos. Em termos do criacionismo ou design inteligente há neles a combinação de investigação biológica ou cosmológica e de uma versão particular, aquela do ramo judaico-cristão, da intuição (chamemo-la assim) da divindade. Nesse embate a ciência teria com justiça o direito de no máximo perguntar pelos critérios usados para escolher esse e não outro dentre os inúmeros modelos disponíveis de Deus e de enfiada encaminhar, com o auxílio dos instrumentos da lógica (de momento, creio, os únicos a darem conta de semelhante tema), a devida crítica a este e aos demais modelos preteridos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Mas para fazê-lo, tão afastada anda da filosofia (sua única e permamente fonte), a ciência terá de oferecer a mão à palmatória e admitir que carece de meios mais eficientes para detectar provas da existência de Deus. Terá de manter a distinção dos significados de improvável e de inexistente. Terá de convencer-se de que jamais conseguirá apagar do espírito humano a solução que este dá ao problema da origem, pois seria preciso antes convencê-lo a esquecer uma questão que obstinadamente o acossa ao simples pensar. E terá de, por fim, enxergá-la, solução, como de fato é, como mero passo metodológico em tudo semelhante ao dado por ela própria, ciência, quando de fato lhe convém desconsiderar os detalhes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Passo seguinte, questão de método, é o entendimento das razões para tanto interessar ao humano o conhecimento de seus começos ou, dizendo-o de outro modo, é compreender a mecânica de imiscuição de tal interesse no intercurso dos demais pensamentos, muitos dos quais a serviço de ações triviais. A questão da origem se instala em toda iniciativa humana de lidar com a natureza tão-somente por ser limitado o conhecimento: a simples presença de limites no quanto conhece determina de imediato o sujeito a indagar de suas causas e buscá-las, acreditando por hábito que também as têm, o mesmo podendo dizer destas e das demais na progressão infinita.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Depois, admitido como algo inerente à atitude de pensar o universo, o problema da origem suscitaria ainda a investigação da pertinência de solucioná-lo elegendo um ponto no qual interromper a cadeia de origens, chamando-o de a origem primeira, assim como a compreensão da natureza do mesmo, a saber, a compreensão de como ese ponto escolhido torna irrelevante a suposição de seus começos. Pois enquanto origem, seja no sentido de início, seja no de substrato da existência, não havendo outro, Deus terá de possuir ao menos esse atributo, o de ser presença da qual é inútil indagar a origem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Só então é possível debruçar-se sobre a literatura sacra, quando por lume se tem a certeza de que Deus, para sê-lo, tem de oferecer-nos motivos para não nos perguntarmos como se originou. E só então se saberá das versões já oferecidas de Deus quais apresentam esse traço. Caso não as haja, que se empreenda de pronto a dedução dos demais atributos divinos, dos quais não é parte, como já se mostrou, a inteligência - seja tido por começo ou por substrato de tudo, Deus não reproduz nada, pois ele nada possuiria para reproduzir, mas cria: não nos permitamos esquecê-lo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Mas não surpreenda o fato de muito do que disseram sábios e santos se aplicar também ao Deus deduzido. Ele talvez seja onipresente e quiçá onisciente, parecendo inconcebível que seja onipotente, pois a plenipotência acarreta a inação, já que o exercício de qualquer potencialidade reduz a potestade. Um Deus onipotente é um Deus imóvel, puro e absoluto potencial impossibilitado de agir, ou não seria a totalidade o que pode. Portanto a ação, é indiferente como a concebamos, parece ser atributo certo da divindade, que seria muito - e mesmo inifinitamente, embora não totalmente - potente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Também não surpreenda que muitos desses atributos se distribuam por coisas chamadas físicas, aproximando a ciência, que as investiga, da idéia de Deus. Pois ruma a ciência no encalço do divino, quer admita, quer não, e quando o nega é por muito justamente não admitir a possibilidade de detectá-lo tal e qual está nos esboços tendenciosos apresentados pela teologia vulgar. A ciência precisa entender que aos poucos pinta imagem particular de Deus e como tal deve oferecê-la à apreciação geral, mas sem se fazer em religião, sem deixar-se seduzir pela facilidade de dominar, disponível para quem lida com conhecimento assim fundamental.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;É contra a religião e não contra a presença insistente da idéia de Deus que quer bater-se a ciência; é contra o uso malsão feito dessa e de outras tantas idéias fundamentais para se compreender a condição humana e mesmo o universo, como a idéia de fé. Se o que diz a etimologia é verdadeiro, o termo ’religião’ proviria da noção suspeita de religamento, por intermédio de um agente, do indivíduo com a divindade, como se possível fosse estarem estes dois alguma vez desligados.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;A religião deve ter aparecido como as demais formas de dominação, pelos idênticos motivos mesquinhos que retardam ainda a compreensão da condição gregária do ser humano. É cabível cogitar que tenha resultado do assombro produzido por quem melhor conhecia os processos da natureza naqueles que os conheciam menos. Sob esse viés ela não passa de manifestação precoce de patifaria científica, caso se anua sem dificuldades à evidência de que o homem desde sempre observou a natureza e, por conseguinte, bem ou mal, com maior ou menor eficiência, procurou compreendê-la, isto é, praticou ciência, embora sob a denominação genérica de religião.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Parece haver apenas um modo de a ciência não tomar outra vez para si as atribuições da religião: obstinar-se em sua vocação exotérica, pôr-se à disposição de todos sem exceção. Isto não significa dar acesso às novas descobertas, não apenas: o oferecimento de seus resultados a um público como o contemporâneo não tem efeito significativamente diverso da imposição religiosa de dogmas ao vulgo. Significa antes mostrar como somos por natureza determinados a conhecer, como a todo instante, mais ou menos automaticamente, concebemos hipóteses acerca do que nos rodeia e nelas nos apoiamos para agir. Significa mostrar que somos por condição cientistas necessitando apenas de algum crédito e de inteirar-se do básico da ética e da lógica dedutiva para organizar suas intenções.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Só assim todos entenderemos que a existência de Deus não deve ser tratada em termos ’práticos’ pela navalha cartesiana, pois o problema se insinua em pensamentos confinando com a ’prática’, seja lá o que se intente dizer com o termo. Entenderemos também que se o fazemos é por anuirmos à nossa incompetência para dar um fim cabal à questão, protelando-a indefinidamente; e que o ato de adorar o divino, persistindo na história, não passa de mais um aspecto da vaidade da inteligência, semelhante ao exibido nas teorias criacionista e do design inteligente, externado embora de modo negativo, depreciando a nossa em vista da suposta inteligência divinal. Entenderemos, finalmente, o risco contínuo a que nos expomos, o de perpetuar o comportamento religioso e suas conseqüências nefastas, sempre que fazemos da ciência uma prática de poucos em benefício imediato de número ainda menor de indivíduos e aceita pelos demais, o vulgo, em virtude dos efeitos assombrosos que produz, milagres em versão atualizada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Rio, 01 de junho de 2008&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Bookman Old Style;"&gt;Waldemar M. Reis &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-8192397644894457489?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/8192397644894457489/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=8192397644894457489&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/8192397644894457489'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/8192397644894457489'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2008/06/para-pensar-deus-natureza-de-uma-idia_09.html' title='Para pensar Deus – a natureza de uma idéia recorrente'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-7905574853153258909</id><published>2008-05-20T02:25:00.004-03:00</published><updated>2009-02-08T11:40:06.050-02:00</updated><title type='text'>Para pensar Deus – metáfora de humanidade</title><content type='html'>&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;O biólogo Dawkins escolheu para opositor central personagem particularmente frágil: a versão de divindade da tradição judaica. Tal fragilidade se deve a todos os malefícios, de exclusiva responsabilidade dos humanos, praticados em nome dela. E o discurso desse autor parece evitar o reconhecimento dos incontáveis serviços prestados à ética pela invenção abraâmica.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Entre suas teses está a da plena possibilidade de correção de caráter na ausência total de deuses, mas a principal delas parece originar-se na combinação de resultados dos diversos ramos da ciência natural, a saber, a de não ser demonstrável a precedência da inteligência com relação às coisas (ao universo), mas sim como resultante da evolução delas. Sendo a teoria evolucionista critério nevrálgico de sua contestação, seria razoável imaginar-se da parte de Dawkins, ora, o reconhecimento do papel de Javé no processo evolutivo das sociedades humanas ao tempo em que foi proposto como legislador da conduta. Não teria sido o Deus de Israel, enfim, passo necessário no processo de achamento dos princípios éticos?&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Sim, é provável que seja Deus passo necessário na evolução humana e quiçá passível de descarte em tempos atuais, quando cremos ser melhores do que os homens de passado remoto. Feuerbach, há mais de cento e cinquenta anos, já ensejava com rara consistência dizer o mesmo. Mas é igualmente provável, em vista dos percalços da filosofia (sempre às voltas com antinomias atalhando-a em virtualmente toda questão possível de formular-se), que o tema do divino seja de fato incontornável na atitude humana de pensar. A idéia de Deus parece não ser descartável com provas advindas dos métodos das ciências da natureza e o motivo pode ser o de o pensamento - instrumento crucial na iniciativa científica - mostrar-se irreversivelmente contaminado por essa mesma idéia.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Para sugerir a supressão dos cultos à divindade Feuerbach também tinha como respaldo o cientificismo, ainda na infância à época de sua proposta, mas talvez por força do repertório incipiente de certezas da ciência natural de então tenha escolhido como fundamento espécie de psicologia universal, que sacou da própria idéia de deus cunhada pelo homem nas mais diversificadas manifestações culturais que foi capaz de criar. Entre os principais traços da psique humana arrolados por ele destacam-se por certo dois: o sentimento de dependência do indivíduo perante o quanto considera como exterior a si próprio e a antropomorfização da idéia de deus, não raro intermediada por zoomorfizações que, nada obstante, já se haviam sedimentado a partir de antropomorfizações dos comportamentos animais, bem como daqueles dos vegetais: se deuses assumiram as formas doutros bichos é porque o comportamento destes já havia passado pelo crivo da assemelhação com o comportamento humano ou da mera relação de ambos, àquele tempo já consagrada.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Em vista de tal, não é excessivo afirmar que Feuerbach ofereceu ao seu século e ao seguinte paradigma recorrente na formulação de sistemas profundamente marcantes de interpretação de indivíduo e sociedades, como a psicanálise e o socialismo. Desnecessário observar, se não a persistência intocada desses sistemas, ao menos a de sua essência. Pois, ora, num mundo onde o homem presume decifrada, enfim, a alegoria milenar com que costumava referir-se a uma idéia recorrente de seu ato espontâneo de pensar e que designou, entre outros, com o nome de Deus, num mundo como esse só há lugar para a auto-gestão, para a mais pura responsabilidade, tornando assim desnecessários os instrumentos de dominação usados em todo o espectro de suas intensidades para o exercício das governanças. Afinal é do próprio homem a inteira responsabilidade por todos os traços com que foi pintada a divindade, evidência disto sendo as marcas de antropomorfismo em cada um deles.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;A metáfora, possivelmente exclusiva do raciocínio humano, caso aproxime, no ensejo de significar, coisas quaisquer, aproxima-as em primeiro lugar do homem, embora seja mais preciso dizer que opera o reverso, levando as singularidades de nossa espécie a designar existentes tidos como distantes de si em tempo, espaço e idéia. E se em inúmeras ocasiões os três reinos da natureza também carregaram para nós o significado de deus, isto se deu por já estarem carregados da acepção de homem.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;De todos os traços que reconhecemos em nós, decerto como o mais característico elegemos a capacidade de compreender. É possível seguir as transformações a que foi submetido em sua história, por exemplo, Deus de Abraão, de princípio criando uma sua imagem, pura assemelhação, supostamente física (seja como isto possa compreender-se) que, nada obstante, discrepava de si em caráter, por tal não merecendo habitar o Paraíso. Assim, sendo-lhe concedida a aparência do criador, da criatura exige-se em seguida imitar-lhe também o modo de agir, isto não significando inexistir no homem o quanto idealizou em Deus, do contrário: talvez não sendo predominante, mas com certeza existente e, por conseguinte, percebida, elegemos essa parte nossa como objeto em cujo sentido evolvermos. O termos plasmado semelhantes traços num ser de abstrusa superioridade, de paradoxais presença, potência e ciência, justifique-se porventura na forçosa atitude paternal a que nos vemos coagidos no cuidado com a progênie, outra face da condição animal e, mais especialmente, da nossa, humana, que igualmente apusemos a Deus. Sem a imposição todo-poderosa, habituada como estava a humanidade a curvar-se ante o domínio pela força, provável é que a empresa evolutiva da mente como hoje a desfrutamos sequer começasse caso não absorvesse também as atribuições da paternidade.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Do viés evolucionista, por conseguinte, e em se partindo do pressuposto consagrado na filosofia de Feuerbach, o de ser a divindade produto da imaginação humana premida pelos revezes de que se via depender o indivíduo na imposição endógene de sobrevivência, as transformações por que passa a idéia recorrente de origem comum de todas as coisas parece ilustrar, além do processo evolutivo da humanidade no reconhecimento de seus próprios atributos, o papel ativo do homem na seleção daqueles quanto creu condizerem com suas aspirações de desenvolvimento pessoal. A seleção natural parece contar também, ao menos no caso humano, não exclusivamente com fatores exógenos, ou melhor, tudo parece indicar o papel decisivo do sujeito humano na escolha dos instrumentos com que responderia à exigências do meio à volta. Eis porventura uma idéia, se não ausente do darwinismo, por certo esquecida por seus cultores: o traço designado como inteligência não é só auto-referente, mas também dominante e exclusivista na evolução do homem.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Uma análise deste tipo pode outrossim levar novas luzes à tese central de Dawkins, a de o entendimento – a inteligência – ser resultante e não causa do processo evolutivo. Ora, do modo como o compreende, o ser humano o toma como traço distintivo seu, isto significando que o ato de apô-lo a coisas quaisquer – e mais especificamente aos deuses – enquadra-se como mais uma de suas iniciativas de antropomorfização do meio. Inteligente ou não, a mecânica intrínseca do universo trouxe-o de fato a configurar-se como atualmente o observamos, em toda diversidade e complexidade. E que reconheça como diversa e complexa a sua determinação de pensar, pela qual não apenas absorve as coisas ao modo de informação, mas também urde estratégias para lidar de maneira útil com elas, em suma, que o homem associe a capacidade de sua inteligência produzir com a exuberante produção testemunhada à volta, tal não significa existir no meio capacidade igual, assim como tantos outros atributos da humanidade usados para fins análogos.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;E mais do que sintoma de incontido antropocentrismo (termo aqui utilizado com todo o peso que possa conter da idéia de egocentrismo), o uso humano de metáforas sacadas de sua própria condição é antes recurso pelo qual investe na decifração do desconhecido – ou do pouco conhecido – com instrumentos a si familiares, usando-os como medida geral. Desse modo a atribuição da inteligência ao universo deixa de ser uma presunção formulada sem o cabido vagar e com o fito de tão-só tornar procedentes certas ilações em torno à divindade para mostrar-se como unidade métrica pela qual pode o homem expressar e quantificar a exuberância constatada no seu entorno.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Iniciativas semelhantes se apresentaram no correr do tempo desde pelo menos a Antigüidade, como o atestam os sistemas de filosofia atribuídos a Xenófanes e Protágoras, o deste último, através da máxima que faz do homem medida do todo, como que demonstrando o pressuposto central do anterior, de ser o &amp;quot;noûs&amp;quot; princípio universal. E se erro há nisto, é do mesmo gênero do cometido com freqüência compreensível no âmbito das ciências da natureza, a que se é determinado pela imposição indutiva, pela qual somos instados, nem sempre oportunamente, a projetar os resultados obtidos no processamento das informações do passado no presente contínuo descortinando-se à nossa frente. Quase nunca o jogador, papel que assumimos por destinação, pode elaborar o suficiente o próprio lance na urgência com que se acredita premido pelo entorno a responder-lhe os desafios. Pode-se pensar: precipitação milenar essa de atribuir ao mundo ou aos deuses inteligência, poder criador. Sim, deve-se admitir. Mas qual outra maneira apresentaria a bastante eficiência em expressar essa admirável conivência de nossa capacidade abstrata de conceber e a supostamente espontânea geração na natureza? Não há, pelo menos em princípio, erro intrínseco em utilizar-se uma medida em lugar de outra na interpretação da natureza, mas sim nos fins dados ao resultado de tal operação.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Doutro lado e por fim, desnecessário fosse talvez sinalizar para um especialista em processos biológicos a íntima conivência da estrutura autônoma organizando a matéria e sua resultante inteligência humana: talvez não convenha chamar as duas pelo mesmo nome, assim como não é adequado chamar de ser humano os genes em seu interior, senão como recurso poético. E não se despreze, na empresa de compreender os meandros da decifração da natureza pelo homem, a presença do que hoje denominamos poesia, em particular quando as idéias de ciência e sagrado ainda eram uma só. Se definida, de maneira rasa, como a forma de aproximar, em discurso, o quanto no universo é tido por estar demasiado apartado, ou seja, de pôr em relação o que no mundo não parece relacionar-se ou, em suma, de criar metáforas, a poesia tem tomado para si o papel do batedor atrás do qual pode seguir a caravana da ciência no seu ritmo próprio, embora nem sempre cauteloso, como quer fazer crer a quem simplesmente a vê passar.&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Rio, 02 de maio de 2008&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;Waldemar M. Reis&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;&lt;i&gt;Arremate&lt;/i&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;&lt;i&gt;O texto acima apareceu quando eu ainda lia o livro de Dawkins sobre Deus. Veio na forma de reação ante uma seqüência de argumentações intoleráveis, mormente quando formuladas por profissional da ciência. Refere-se, por conseguinte, à parte até então conhecida por mim do trabalho desse cientista, muitas de cujas assunções iniciais são retomadas nos capítulos finais, ganhando apenas maior nitidez, não maior poder de persuasão. Tratou-se, de minha parte, de exercício dedutivo do que seria como um todo a obra a partir do conhecimento de uma de suas seções, talvez a mais substanciosa e significativa, embora não a mais feliz. Deixei-o como o concebi e reservo para este arremate informar que Dawkins, mais adiante no livro e sem o esperado brilhantismo, trata a crença em Deus do viés evolucionista, sim, e conclui ser ela não um dos traços adaptativos, mas manifestação inconveniente de alguns deles. Argumenta com o exemplo da navegação noturna de vespas e outros insetos, que tem por guia os corpos celestes, e o poder mortal exercido pelo fogo sobre esses animais por contarem com semelhante habilidade. Num processo análogo a autoridade divina seria manifestação equívoca da inclinação da natureza humana para o respeito pelos indivíduos mais velhos em vista de sua experiência, do conhecimento que detêm: desse viés Deus é demonstrado como o são as doenças congênitas, ou seja, como desvios, nem sempre inúteis de todo, na rota adaptativa da espécie.&lt;/i&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN-TOP: 0.2cm; MARGIN-BOTTOM: 0.2cm" class="western" lang="en-US" align="justify"&gt;&lt;font color="#000000"&gt;&lt;font face="Bookman Old Style"&gt;&lt;i&gt;Rio, 20 de maio de 2008&lt;/i&gt;&lt;/font&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-7905574853153258909?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/7905574853153258909/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=7905574853153258909&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/7905574853153258909'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/7905574853153258909'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2008/05/para-pensar-deus-metfora-de-humanidade.html' title='Para pensar Deus – metáfora de humanidade'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-7410424869430678308</id><published>2008-04-20T22:18:00.001-03:00</published><updated>2008-04-25T02:57:06.969-03:00</updated><title type='text'>Em virtude de perder outra partida de gamão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Só mesmo o ser humano para deixar-se distrair por algo tão tolo quanto a idéia de Deus. Isto para não falar de toda imperfeição, a despeito das tentativas exaustivas de dar sentido às proposições que a descrevem ou definem. Melhor seria se nos admitíssemos por inteiro incapazes de pensá-la. O resultado invariavelmente tende para um esboço de extrema crueldade, quando não de desmesurada inépcia. Feuerbach, em suas rigorosas demonstrações da natureza fantasiosa, delirante e não menos temerária da noção de Deus, menciona o povo da região siberiana denominada Kamtchaca, para os quais Kutka, seu deus, não passava de desmiolado, única conclusão possível em vista das condições às quais se viam esses indivíduos submetidos pelo criador de todas as coisas: escarpas íngremes, invernos longuíssimos, comida escassa etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto idéia incontornável, pois não há como pensar o princípio de toda a existência sem incorrer nela, Deus é também impossibilidade: se é todo bondade, como querem os cristãos, como pode ter-nos criado, indivíduos imbuídos de necessidade inegociável do bem e lançados num mundo onde não é certeza obtê-lo com a desejada freqüência? Desse viés observa-se que os kamtchadalos procuraram ainda salvaguardar a natureza amorosa de Kutka, preferindo tachá-lo de inepto a reconhecer-lhe a crueldade. Os ateus parecem não condescender menos à idéia do amor divino,  escolhendo negar categoricamente a existência desse ser maior como se preferindo não imprecar contra sua presumida obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seu estado de espírito mais comum a humanidade pende para considerações dessa natureza, não fosse a pertinácia de uns tantos vivaldinos inteirados dos imprevisíveis reveses da natureza a convencer a massa queixosa dos caminhos tortuosos traçados pelo Todo-Poderoso para a consecução do melhor, tanto mais compensador quanto maiores e mais dolorosos tenham sido os percalços até obtê-lo. Diante do prazer ou numa onda de sorte é fácil admitir a bondade divina. São circunstâncias tais, por infelicidade muito raras nas vidas da grande maioria de indivíduos, os sustentáculos da esperança nos momentos de desdita. Enquanto isso os espertalhões cooptam a boa-fé de grandes mentes para a composição de intermináveis tratados que, a despeito de igualmente incompreensíveis, apascentam a turba de esperançosos insatisfeitos, conservando-os à volta e a serviço de seus luxuriantes conciliábulos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande parte desses finórios fala supostamente em nome dos deuses e suas bravatas, em aparência toleradas pelas potestades, só não foram caladas, devo concluir, por divinos e profundos opróbrio, indiferença, ou maldade, isto é, por ignorância infinita. Pode também dever-se à circunstância de deus nenhum existir. Observe-se que aqui não se postula semelhante hipótese: como já se mostrou, o ateísmo é meramente uma forma de perdoar a Deus e Deus, como dizia Descartes, tem de existir, sendo, como é, idéia que não se pode descartar na aventura de indagar o por que de o mundo ser assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente duas atitudes parecem de fato notáveis diante da incapacidade de não pensar Deus: a da blasfêmia continuada ou a da inexorável tolerância. A segunda é mais ampla, servindo tanto a crentes quanto a ateus. Seja talvez a mais inteligente também, visto poupar o indivíduo dos malefícios morais e físicos do uso prolongado do ódio, sendo contra-indicada apenas para os de escassa esperança, pois estimula em certo grau a insensibilidade. Mas como a esperança de todo indiferente é a de algum dia não ter mais de tolerar, tanto melhor será perdê-la o quanto antes, aniquilando-se de vez. Quanto aos esperançosos de cepo mais resistente, ora, que ao menos se poupem de blasfemar e se apliquem mais ao cultivo da indiferença, pois de pouco lhes adiantará dar ouvidos à idéia de Deus martelando-lhes o pensamento, já que ele provavelemente existe, embora não lhes possa responder, seja por embaraço, seja por estar empenhado nos infinitos reparos de sua obra para todo o sempre na iminência do colapso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 20 de abril de 2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Mendonça Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-7410424869430678308?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/7410424869430678308/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=7410424869430678308&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/7410424869430678308'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/7410424869430678308'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2008/04/em-virtude-de-perder-outra-partida-de_20.html' title='Em virtude de perder outra partida de gamão'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-4648916707498820167</id><published>2008-01-01T04:34:00.001-02:00</published><updated>2008-09-30T21:51:40.420-03:00</updated><title type='text'>Nota sobre intolerância e doutrina liberal</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Crença muito difundida no mundo moderno, embora já sustentada de longa data, é a de sermos todos capazes de conviver a despeito das diferenças, a despeito das divergências. Pode alegar-se, é bem verdade, que se trata antes de hipótese justificada na constatação histórica: em vista da fragilidade inerente para sobreviver no meio natural, o gênero humano vem submetendo-se a perene comunidade desde – é suposto – o seu aparecimento, embora não seja possível afirmar com conforto a  permanência de um estado de paz, de bem estar, sequer em dois instantes consecutivos dessa história comunitária. Prova esta de o contato de indivíduos humanos não se ter isentado do traço da intolerância – a despeito da forçosa determinação de convívio trazida na constituição frágil da espécie – ou ser afeito a divergências inconciliáveis que, se não têm o poder de cancelar o contrato social, o tornam em contínuo suplício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, se tomada como se anunciou, como crença, no sentido de profissão de fé, a afirmação de ser possível convivermos não obstante divergirmos, quando posta na boca de quem esteja seguro de possuir as melhores intenções ao dizê-la,  parece pressupor um estado contrário ao observado na associação humana, a saber, de paz, compreensão, enfim, de tolerância. À primeira vista parece sugerir a prática disto mesmo, da tolerância, digo, parece ensejar a constituição de indivíduos permanentemente capazes de relevar o quanto na atitude alheia lhe possa ser infenso, mas não, talvez, o seu aperfeiçoamento com vistas a não empreenderem nada a impedir o bem-estar dos demais. O bom senso nos indicaria tratar-se de ambas as sugestões. O mau treinamento na boa convivência obriga quem sofre suas conseqüências a tão-só tolerar, atitude imprescindível enquanto o uso sistemático da auto-crítica pelos ofensores não a torna desnecessária. Atingido, assim, um estágio generalizado de ações individuais selecionadas, imagina-se que os pontos de dissenso permaneceriam existindo, embora seja igualmente de supor não consistirem em fatores a cobrarem complacência acentuada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A experiência histórica mostra-nos também isto: dentre as divergências há as intoleráveis, as quais o mundo como o conhecemos vem, via de regra, negligenciando, vem fingindo, de um lado, não praticar atos merecedores de grande tolerância – quando não de punição severa – e, de outro, não dar fé daqueles de que são vitimas – numa sorte de indiferença à imitação da estóica, embora prenhe de ressentimentos. Definindo-o de um modo apressado, o divergir constituiria oposição frontal de indivíduos a condições tidas como contrárias ao que é fundamental em suas existências. Tendo-se em conta isto, ou não há entre nós consenso quanto a quais sejam as condições adequadas e mesmo quanto a se consistem de fato em fundamento existencial do indivíduo (disto deduzindo-se a incompatibilidade geral e incontornável de cada um para com os demais), ou a capacidade humana de indulgenciar é demasiado reduzida. Talvez observem-se ambas as situações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excetuando-se as iniciativas pessoais, sobre as quais podem incidir escolhas religiosas, há duas tentativas seculares clássicas de equacionamento do bem-estar comunal experimentadas no correr do último par de séculos ditas, uma, liberal, outra, socialista. A contraposição dos nomes e sua aplicação aos fatos sugerem, a uma abordagem imediata, certa indiferença para com a causa coletiva no primeiro e, no segundo, incompatibilidade de gregarismo e liberdade. O modo de entender o conceito de liberdade é o referencial para o sugerido na oposição dos dois termos: se designa a obediência do sujeito a tudo quanto possa ditar-lhe o desejo a despeito do mal-estar alheio, o liberalismo vem a ser o embate perpétuo de individualidades num meio político de regras demasiado instáveis e o socialismo doutrina cuja missão é o estabelecimento de limites para a atuação pessoal com vistas ao bem geral; mas se liberdade se define como a manifestação de quem, justo por ter na mais alta conta o próprio bem-estar, entende a estreita dependência deste para com o dos seus consociados, então as diferenças entre liberais e socialistas deixam de ter sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um indivíduo livre neste último sentido é, parece-me, tudo quanto pode desejar-se de alguém, mesmo se quem o deseja toma como verdadeiro o primeiro dos significados de liberdade. Muito embora se espere de quem se crê livre desse modo – o primeiro – a firmeza bastante para transigir em face dos excessos previsíveis de outrem compartilhando do mesmo credo, a prática fornece constantemente dados demonstrando a variedade de lindes, nesses professos liberais, para a tolerância das veleidades alheias. Pelo que o liberalismo, embora ensejando pronunciar-se em prol de uma irrestrita liberdade, termina por apor-lhe condições, ainda que de contorno incerto, assim dando margens a variegadas interpretações que o tornam, em realidade, o preceito bárbaro que de maneira tão canhestra tentou aprimorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, o liberalismo pontuado de regras de conduta termina por ser, à primeira vista, justo aquele professado por quem tem na mais alta conta o próprio bem-estar e por tanto cuida do bem alheio por conhecer o quão entremeados este e o seu estão. Mas se termina por incorrer em erros ou em burlas, é por não se constituir sobre tal premissa, a do bem comum em prol do bem individual, antes usando-a como sorte de estatuto provisório cujo fito, nada inocente, é tão-só protelar uma pré-concebida ação livre à moda libertina para quando oportuno for. Por trás da transitória regulação da liberdade, enfim, jaz &lt;i&gt;ad aeternum&lt;/i&gt; a esperança do indivíduo de perfazer atos livres no sentido em que, no fundo, crê, ou seja, a despeito do assentimento dos que a si estão associados. Quanto à oportunidade, ela é, infalivelmente, aquela em que o ato inaceitável passará desapercebido ou em que terá de ser universalmente tolerado, sem alternativa: em suma, todo liberal autêntico, no primeiro dos sentidos apontados acima, é aquele que aguarda a circunstância em que terá poder suficiente para predominar, desse modo desfrutando os seus atos da invisibilidade ou da ostensão próprias de quem os pratica do viés dominante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das espertezas da conhecida doutrina liberal em voga nos meios políticos e econômicos desde pelo menos os confins do século XVII é anuir ao conhecido bordâo reconhecendo oportunidade para todos. Ora, pergunte-se, com razão: oportunidade de que? para que? Para ocupar – ou de ocupar – os postos exclusivos e reservados aos quantos podem gozar da própria liberdade como sói, por sob os disfarces, professar a doutrina liberal. O resultado evidente é a própria realidade na qual estamos imiscuídos, de que falávamos no início, sortida de todo tipo de desentendimento, uma vez todos – ou praticamente todos – terem por desejo maior galgar a pirâmide social ao encontro desse lugar por cujas duvidosas virtudes está-se desde berço seduzido. Quem escapa à sina de tal aspiração é decerto por ser dotado de dose maior de tolerância ou por achar conveniência no lugar, embora ordinário, que ocupa. Destes muitos há que não recusariam, caso se apresentasse graciosamente, a ocasião de ascender: são os oportunistas no sentido lasso e não seria de impressionar se um estatístico mostrasse que existem em proporção muito maior do que a suposta aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Interessante é notar o quão cioso é o homem de sua escalada na descoberta de bens tecnológicos cujo fim, naturalmente, é incrementar o conforto. A despeito de vivermos num tempo de crescimento em progressão geométrica da geração de tecnologia, futurólogos teimam em supô-lo infinito, inesgotável. É de esperar, na medida em que igualmente não tem peias o desejo de bem-estar do indivíduo humano. Ao lado disso, pouco ou nada se espera, ao menos na prática, de aperfeiçoamento da própria natureza do homem, a saber, do seu caráter, de sua capacidade de melhor conviver. Do viés da doutrina liberal, pouco se espere nesse sentido: melhorar a natureza humana seria conspurcá-la, privá-la de seus anseios de liberdade ou, antes, de sua livre manifestação. Uma das pedras de toque do liberalismo, inclusive, é o atestamento e a defesa da diversidade de anseios: nem todos querem o mesmo, razão de muitos estarem satisfeitos onde estão, não necessitando atingir o topo da pirâmide social para sentirem-se plenos. De uma certa maneira têm razão os liberais: quiséramos todos as mesmas coisas e não haveria necessidade de tanta publicidade, de tanta estratégia de mercado direcionando o desejo de muitos para certas coisas. Mas a satisfação a que se referem pode, em grande medida, ser nomeada 'resignação', visto não contarem os resignados com o suficiente para sequer almejarem sair de onde estão e rumarem para um posto imediatamente acima. Se consideradas as condições reais desses lugares pode ter-se uma razoável medida do poder do instinto vital, fazendo os seus ocupantes preferirem ser como são a não serem de modo algum. E, é claro, um bom liberal não deixaria de tirar partido de escolha assim instintiva a lhe proporcionar hordas de mãos laboriosas sustentando a sua privilegiada posição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 01 de janeiro de 2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Mendonça Reis&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-4648916707498820167?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/4648916707498820167/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=4648916707498820167&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/4648916707498820167'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/4648916707498820167'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2008/01/nota-sobre-intolerncia-e-doutrina.html' title='Nota sobre intolerância e doutrina liberal'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-7340902035638127527</id><published>2007-11-06T17:50:00.000-02:00</published><updated>2007-11-10T02:36:13.366-02:00</updated><title type='text'>A pobreza da tirania</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O breve ensaio a seguir lê-se sem sobressaltos, suponho, na ausência do texto que o motivou. Embora referida com insistência, a mencionada crônica é irrelevante em vista do que se deseja aqui mostrar, sucessão muito disseminada de maus hábitos do pensamento ou simplesmente de pensamentos maus, dos quais não é possível inferir-se com a desejada certeza se frutos de uma mente confusa ou se concebidos com o propósito de confundir. O filósofo Berkeley, cuja obra revisito depois de cerca de década de imobilidade na estante, vem ao caso não tanto pela citação (uma das poucas de suas sentenças que não me ocupei de grifar), mas pela maneira de abordar o assunto, que entendi emular.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentando demonstrar a duvidosa eficácia das generalizações na ciência do seu tempo, George Berkeley, ainda contando pouco mais de vinte anos, escreve no parágrafo 108 do &lt;i&gt;'Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge'&lt;/i&gt;: &lt;i&gt;"... é bem possível escrever incorretamente com observação das regras gerais da gramática"&lt;/i&gt;. Pondo de lado considerações acerca do significado e do alcance de sua filosofia incomum, baste-nos, de momento, constatar na citação obviedade e dela extrair outras evidências, digo, enunciados sobre fatos de ordinário observados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando diz &lt;i&gt;"é bem possível"&lt;/i&gt; Berkeley enfatiza até a grande probabilidade de produzir-se nonsense a despeito da&lt;i&gt; "observação das regras gerais da gramática"&lt;/i&gt;, mas deixa em aberto a possibilidade de escrever-se com correção respeitando-se os preceitos gramaticais. O exemplo da escrita, no caso, é usado como metáfora para fazer-se entender perante os usuários das leis gerais da natureza (os filósofos da natureza), esperançosos de delas extrair, confiados na verdade que exibem, previsões inaceitáveis acerca do funcionamento do mundo. Trata-se de erro comum e observável em crônica que venho de ler, tanto no que nela é denunciado quanto no que ali se conclui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A polêmica em torno do aquecimento global, tema inicial do texto, pelo jeito, só tem duas soluções, uma conduzindo à verdade do quanto é dito por uma das duas partes em debate e a outra deixando-nos a todos em perplexidade, ignorantes de qual dos contendores teria de fato razão. A primeira, talvez a mais fácil e quiçá igualmente perigosa, exige que se deixe a circunstância no passo determinado pela produção industrial até a atualidade; que continue, enfim, a exploração desmedida dos recursos finitos do planeta e ao fim de período imprevisível se avaliem as respostas do ambiente. Mas se desejamos continuar incertos quanto aos alardeados malefícios de semelhante comportamento, é bastante tomarmos as providências cabíveis para racionalizar a relação do homem com o meio: sendo provável que estejam suficientemente corretos os preceitos científicos em prol da sustentabilidade, em uma mancheia de gerações teremos a Terra devolvida a um padrão de equilíbrio aceitável e jamais saberemos se ela de fato teria meios de recuperar-se por conta própria dos contínuos acossos dos desejos irrefreáveis, insanos, que viemos alimentando de modo mais pródigo no correr dos derradeiros cento e cinqüenta anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se me perguntam, não titubeio na escolha de jamais saber se os profetas do holocausto do industrial-capitalismo estão certos. Imagino que, por medida de segurança, qualquer indivíduo provido do mínimo bom senso preferiria o mesmo. Não tanto por dar ouvidos à admoestação do filósofo irlandês, digo, por saber que toda ciência, não obstante a elegância e a precisão de suas leis, de sua &lt;i&gt;gramática&lt;/i&gt;, é passível de escrever vaticínios incorretos. O acerto em preferir a via racional do uso de recursos naturais está na evidência de que, se não certamente ao planeta, decerto a nós próprios tornou-se infenso o modo de sobrevivermos. Suspeito de que uma avaliação estatística (que imagino já existente) do quanto o nosso modo de produção nos proporciona de benefícios e malefícios apontará, se muito, para um equilíbrio e, se pouco, para uma freqüência maior dos últimos. Pelo jeito o hedonismo edênico a que pensávamos chegar a passos largos requer ainda muito esforço antes de consumar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensar a querela ecológica fora desse âmbito, qual seja, o de tão-só estimar suas conseqüências evidentes, enveredando, portanto, por avaliações do teor &lt;i&gt;gramatical&lt;/i&gt; dos discursos em oposição de modo a ajuizar-se qual deles é correto, pode denotar em princípio um tipo de má-fé: o de parecer melhor a quem assim discute a matéria o deixar as coisas como estão, ou seja, o costumeiro pagar para ver, com o agravante de a cobrança ser remetida quando o polemista por certo já não estará lá para recebê-la, sobrando para os seus descendentes o honrá-la, atitude grandemente confortável, em particular para quem não conta com descendência, pelo que o pagamento ficará a cargo de quem por azar vier a ocupar seu antigo endereço, ou seja, qualquer um, digo melhor, todos. Se contarmos com o fato de tais discussões se fazerem em espécie de eco das admoestações de ecólogos, geógrafos, sismólogos, meteorologistas, enfim, de toda a sorte de conhecedores especializados numa &lt;i&gt;gramática&lt;/i&gt; por inteiro ignorada pelo ordinário dos homens, a provável má-fé desses discutidores mostra-se dobrada. E triplicada se consideramos tratar-se de pessoas obrigadas ao uso mais cuidadoso do seu tino em vista do ofício de dar a público a melhor notícia do quanto se empregam a conhecer, devendo por isso notar de saída, em se tratando de polêmica entre conhecedores da mesma &lt;i&gt;gramática&lt;/i&gt;, haver nela considerável dose de incerteza, dada a evidência de nem mesmo quem a conhece assim tão bem conseguir dela tirar o consenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como idéia puxa outra, temas como o da ecologia, quando instanciados no mundo de hoje, levam a um sem número de outros que, creio, se perseguidos com pertinácia perpassam todos os assuntos concebíveis numa volta ao mundo titânica, arriscando colher nada no percurso ou mesmo tornar ao ponto de partida e desconhecê-lo por completo. Sendo, como são, existentes lúbricos e andando em bandos, as idéias requerem, no seu trato, atenção excedente, sem a qual agarra-se uma por outra. Como exemplo, tome-se a idéia de indústria, inevitavelmente suscitada na referida crônica – depois de percurso tortuoso por lições elementares de conspiração contra os países africanos – pelo assunto inicial, acerca da sustentabilidade ecológica: o apoio incondicional e hipócrita dado pelos maiores degradadores da superfície terrestre à causa da recuperação do planeta teria como fim conter o progresso industrial de África, cujas riquezas naturais, é de supor no texto, passariam para as mãos dos conspiradores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rigor o termo &lt;i&gt;'indústria'&lt;/i&gt; indica – como é constatável em qualquer dicionário – a habilidade de realizar um trabalho e com o tempo passou a denotar mais aquele realizado com as mãos. O uso disseminado de máquinas deu-lhe o sentido específico pelo qual é entendido hoje em dia. Em princípio nada de errado há com o pendor industrial nosso, nem mesmo com o uso de engenhos quaisquer para a realização de trabalhos custosos e mesmo irrealizáveis para nossas mãos nuas. O emprego de máquinas não é privilégio do lapso dos últimos duzentos anos, mas sim a presença exaustiva delas. Nada de mau, igualmente, nesse uso ostensivo: os apregoadores dum equilíbrio ecológico na certa não concluem por uma supressão da indústria, caso contrário seriam acusados com facilidade de contra-senso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que, entretanto, faz uma propensão natural, a bem dizer, necessária no homem, conspirar contra o bem estar dele? O &lt;i&gt;consumo&lt;/i&gt;, apressa-se em apontar a crônica. Ora, é de perguntar-se, e há de querer-se produzir sem consumir o produzido? Vê-se, assim, nada haver também no consumo, ao menos à primeira vista, a determinar a deterioração do planeta, embora umas palavras adiante o cronista substitua o termo por outro, &lt;i&gt;'consumismo'&lt;/i&gt;, um de cujos sinônimos é a complicada expressão, igualmente mencionada, &lt;i&gt;'inflação de demanda'&lt;/i&gt;. A excessiva aquisição de bens, sim, seria a verdadeira culpada pela degradação do meio, observação cuja obviedade e emprego ostensivo num discurso do nosso tempo remete à esperteza berkeleyana de repetidamente chamar o leitor à auto-observação a fim de comprovar os pressupostos do seu sistema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim como se chega ao consumo via maldades tramadas contra os africanos, retorna-se, na crônica, do consumismo (ali justificado em face dos desejos mais singelos das&lt;i&gt; "pessoas comuns"&lt;/i&gt;) à querela do aquecimento global, classificada com justeza de &lt;i&gt;"farsa obscurantista"&lt;/i&gt;, embora não pelas razões lá apontadas, como já se mostrou. A sensação de inconseqüência nas passagens de um tema para outro é, em certa medida, ilusória e, em outra, demasiado concreta. Há como que um elo faltante, tanto no percurso de ida quanto no da volta, não obstante, como é simples constatar, pressentido pelo cronista como o faria um explorador certo de ser espreitado da floresta por interesses malignos enquanto segue a trilha sem sequer permitir-se, tal o seu pavor, dar em pensamento forma precisa a semelhante ameaça. É ilusória a ausência de ligação entre os temas, então, por de fato haver lá isto que os intermedeia e por o cronista dar por sua presença, embora a torne demasiado concreta sua determinação de não desenvolvê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Refiro, com 'elo faltante', o &lt;i&gt;capital&lt;/i&gt;, denotado nos termos &lt;i&gt;'economista'&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;'custo'&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;'crédito'&lt;/i&gt; (&lt;i&gt;"e por aí vai..."&lt;/i&gt;), empregados na crônica em foco. São, insistindo na metáfora do explorador, o modo de o cronista dar pela presença ocultada do mal nos temas focais do seu escrito e, ao mesmo tempo, de atenuá-lo, interessado como está em chegar incontinente a seu destino: seja qual for o potencial para o malefício do capital, seria ele tratável segundo o mesmo método ecológico aplicável à sustentabilidade e à segurança, à distribuição e ao custo, bem como à segurança e ao crédito. Em suma, se não goza, como o de indústria e o de consumo, de necessidade na natureza do homem e, não obstante, nela arraigou-se de modo tal que parece dali inextirpável, o conceito de capital tem de, ao menos, ser tolerado, assim como todas as suas seqüelas, em particular a &lt;i&gt;poluição&lt;/i&gt; e o &lt;i&gt;crédito&lt;/i&gt;, quer dizer-nos o cronista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é habitual acontecer a quaisquer noções, a de capital conota mais do que se supõe haver denotado quando apareceu. Seja materializada em flechas ou tabuinhas de argila cozidas ao sol, a noção de capital teve e ainda tem por base o conceito de &lt;i&gt;promessa&lt;/i&gt;, não exatamente o de &lt;i&gt;crédito&lt;/i&gt;, pois nem todo prometido é crível. O excedente do escambo teria tido compensação nesses objetos, retidos pela parte à qual menos bens coube na transação. Com o tempo seriam negociáveis segundo o valor neles prometido, prática cuja continuidade obrigava o garante da promessa e, por conseguinte, do crédito, em torno a que, é provável, vem à luz o governo na forma como hoje ainda o entendemos: se antes as lideranças deveriam ser confiadas aos mais sábios, aos mais hábeis na tecedura da sobrevivência, aos melhores conhecedores das armadilhas do meio, após o aparecimento da moeda liderariam os mais espertos, aqueles aptos a forjar acordos e alianças com vistas a proteger a confiança do quanto nela se prometia. O uso da força nessa tarefa, evidentemente, é circunstancial, embora seja pressuposto inevitável, recurso extremo a ser invocado quando outros se vêem esgotados. Fundamental, isto sim, foi decerto inculcar no desejo de todos o objeto dinheiro, fazê-lo mesmo suplantar ali os bens de necessidade imediata e icontornável. Valendo-me do artifício berkeleyano, parece bastante para convencer os incréus do que venho de apontar a sugestão de observarem em si e à volta o modo habitual de considerar o dinheiro, bem como de consultarem na vasta bibliografia desde o aparecimento da escrita, contando as obras puramente literárias e as mais especializadas no assunto, o papel que nelas lhe é dado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente a crença no seu valor foi capaz de ter feito do dinheiro produto de primeira necessidade, reputação de que vem gozando ao longo de milênios. Sou incapaz de conceber outro fator a lhe haver conferido tamanha importância. Entretanto parece não ter sido tarefa amena a de valorizá-lo acima do quanto o homem, por sua condição, tem por grandemente importante. Desnecessário é aqui realizar uma arqueologia das trampas urdidas em torno do objetivo de sustentar esse crédito: outra vez convido o leitor a enumerar e examinar os dispositivos hoje ordinários de manter a primazia da moeda sobre tudo mais quanto é necessário para viver. Ao fim da lista observar-se á a insidiosa presença da força sob seus disfarces mais comuns, variando desde a cessação de uns poucos direitos civis até a supressão da vida, esta última possibilidade menos utilizada pelas administrações públicas hodiernas sob pressão constante de utopismos empenhados em conciliar a natureza do capital e os princípios éticos tidos por eles como os mais puros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E embora denominado capitalista o período compreendendo o recente par de séculos, desde pelo menos o mundo grego, há mais de dois milênios e meio, já se vêem configuradas as características fundamentais do uso perene do dinheiro e várias de suas conseqüências mais drásticas, como a tendência vertiginosa ao acúmulo nas mãos de uns poucos e a noção de classe social que lhe vem atrelada. Se algo de novo é de notar no que hoje entendemos por era capitalista, isto é a aplicação dos princípios produtivos da máquina à indústria financeira: dia a dia vêem-se aperfeiçoados os mecanismos de produção de dinheiro sem o pré-requisito clássico do esforço físico, deles o principal um conjunto inextricável de cálculos cujo funcionamento às vezes assemelha-se mais ao das roletas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se sempre houve o artesão do capital, ou seja, aquele especialista no acúmulo de dinheiro, contamos na atualidade com verdadeiros industriais desse produto. Sim, o capital foi, desde muito cedo, produto cuja forma final tendia a amontoados ou pilhas de tamanhos vários, constituídos de certa classe de objetos, a do dinheiro. Aquele empenhado em obrá-lo era forçado a passar por processo de relativa complexidade envolvendo, às vezes, um sem número de produtos outros, para lograr, ao fim de período mais ou menos longo, o seu montículo de riqueza. Nosso tempo vê fenômeno inédito ocorrer, embora seu germe estivesse desde sempre em latência na idéia de capital: a produção de dinheiro exclusivamente a partir de dinheiro, procedimento impressionante como o seria, por exemplo, obter do barro puro mais barro. É possível mesmo dizer do capital, em meio aos demais produtos, ser singular, pois passível de obter-se a partir de si próprio, sem o cumprimento de sequer uma etapa das que era obrigado a cumprir para multiplicar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo, mantém ainda vínculos sólidos com os demais produtos, preponderando como sempre. Mas é bastante um mero sussurro do lado oposto da Terra para dar mostras de sua fecundidade partenogenética. E se não parece suficiente tamanha versatilidade, pense-se nos mercados onde estão em jogo recursos ainda inexplorados, meramente cogitados, e naqueles da arte, nos quais é posto a nu o fundamento do capital no puro e inescrutável desejo. É o desejo a alavanca por cujo movimento o capital flui, tanto no sentido do acúmulo quanto no da míngua: é bastante estimular a cobiça de outrem por qualquer coisa à exceção do dinheiro para obter-se deste parte substancial do que possui; às vezes nem mesmo é preciso tanto, mas tão-somente distrair o outro pelo estômago ou com pequenas dádivas, à maneira dos cortejadores com insuficientes dotes físicos, que chegam aos seus fins como se em invisível onipresença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dinheiro e engodo são conceitos em permanente cumplicidade, não havendo como obter um sem as artes do outro. 'Preço justo' é genuíno oximoro e, se justificável, o seria nas insondáveis profundezas do desejo sem peias. Exagero? Uma vez mais insto o leitor a realizar, ao menos em imaginação, à guisa de exemplo, a justeza da recompensa pelo provimento a outrem de serviços como a preparação de refeições, a limpeza das residências e a organização dos demais ítens básicos para o funcionamento da vida, sabendo que terá de, ao fim de cada jornada, prover-se dos mesmos por conta própria, em sendo insuficientes o seus ganhos para a contratação de quem os proveja para si. Considere em seguida sua própria capacidade de cumprir o ofício costumeiro e em paralelo cuidar dos demais detalhes de sua vida privada: no caso de ser otimista o prognóstico, desafio-o a ir mais adiante e pôr em prática ao longo de ao menos uma semana o quanto acaba de imaginar. Suponho que, aliado a um potencial abstrativo moderado, a experiência lhe dará uma aproximação razoável do valor da prestação de serviços tais a terceiros. Por fim, medite-se um pouco sobre o que determina a submissão de tantos, em aparência de vontade própria, a semelhantes condições de existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ganhou o engodo, hoje em dia, foros de ciência: seu nome mudou para &lt;i&gt;marketing&lt;/i&gt; e sua face visível - sua tecnologia, por assim dizer - é a &lt;i&gt;propaganda&lt;/i&gt;. Valendo-se das artes guerreiras, destas tomou de empréstimo o conceito de &lt;i&gt;estratégia&lt;/i&gt;, que usa no lugar do clássico &lt;i&gt;procedimento&lt;/i&gt; (científico). Bem se observa, em tais detalhes, a que vêm as ações do mercado: a derrotá-lo, leitor, pois se não contam com argumentos plausíveis para justificar o seu consumo, trazem na manga sortimento de técnicas capazes de induzi-lo, de forçá-lo a transacionar. Os argumentos, desnecessário é destrinçá-los, restringem-se, na quase totalidade, a exacerbar algum modo de sua ambição, em particular a de ver-se incluir na fatia privilegiada dos hedonistas por excelência, esses para quem o mundo tem de mover-se ao compasso instável do que anseiam. Disto para a vaidade é coisa de passo. Quanto às técnicas, inexistindo justificativas convincentes para o que se promete, são de uso mais freqüente na ciência do marketing, manipuladas com proficiência pela publicidade, embora não excedam muito o universo de variações da repetição obstinada de mensagens, desse modo vencendo-o pelo cansaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dado ser praticamente tudo empreendimento, não apenas indústrias, lojas e escritórios, mas também, escolas, governos e mesmo igrejas, empregam todos os preceitos do marketing e as virtudes da propaganda. Têm razão os acadêmicos da mercadologia quando afirmam a antiguidade de sua ciência e mesmo quando, acometidos de arroubos de filósofo ou poeta, identificam mercado e universo. Uma das mais longas e bem-sucedidas campanhas publicitárias de que se tem notícia, costumo observar, foi o movimento de Contra-Reforma lançado pela Igreja Romana em meados do século XVI com o fito de manter sua clientela ignara: em oposição à austeridade do Luteranismo ou à crueza de uma  variação deste, o Calvinismo, a Santa Sé vale-se da exuberância de arquiteturas, afrescos, polifonias, incensos e paramentos cuidadosamente elaborados pela fina-flor da arte à época. Mais de milênio e meio antes o macedônio Alexandre deu continuidade às suas campanhas guerreiras com estratégias bem conhecidas dos marqueteiros, disseminando a cultura helênica pelos quatro cantos do mundo conhecido de então: nós, seus presumidos herdeiros, somos todos bons olhos para semelhante iniciativa; uma questão a responder é se  os submetidos pensaram o mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis, por fim, o que vem retendo-nos onde estamos, como estamos, mais ou menos insatisfeitos, ao cabo de eras intermináveis. Governamo-nos segundo princípios que, se faltos de justificativa, se nos impõem pela mera reiteração. Seu fim maior? O de manter quase todos atrelados à roda de fortuna dos poucos restantes. Mal não há, portanto, em indústria, tampouco em consumo, mas na orientação de tais atividades, a nós inerentes, pelos desígnios de uma compulsão sem sentido. Solução há, naturalmente, e numerosos foram os que a apontaram: deram-lhe múltiplas denominações, expuseram-na de todas as formas concebíveis sem a transtornarem em essência. Houve mesmo quem a demonstrasse com a prática, mas as artes maliciosas da mercadologia de cada época trataram de conspurcar os resultados, sem esquecer de dar fim às evidências, qual o caso das missões jesuíticas em território latino-americano. Antes, porém, o próprio Cristo, os Estóicos (mesmo Marco Aurélio, que ao menos parece pintar-se como vítima da função de imperador a si imposta pelo destino) e, mais modernamente, anarquistas como Godwin e Kropotkin, foram pródigos em mostrar a simplicidade da verdadeira mudança, mero passo que não nos atrevemos a dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que? Ora, não tenho prontas respostas para esse tipo de questão, como na mencionada crônica as tem o seu autor para as que propõe, mas formulo cá umas hipóteses a partir do que acredito serem fatos, como os acima arrolados. Suponho que não renunciamos ao acúmulo privado de riqueza, em primeiro lugar, por puro medo: embora professando em aparência um mesmo e nostálgico anseio edênico permeado das luzes universalmente identificadas como as da igualdade (de deveres e direitos) e da liberdade (no sentido de responsabilidade, auto-gestão e independência), de cuja combinação obtém-se a cor da fraternidade, somos espécie profundamente dividida pelas promessas de potência contidas na idéia de capital e por isso incertos quanto a passo assim singelo ser dado por todos, condição &lt;i&gt;sine qua non&lt;/i&gt; para a instauração do Estado sem fronteiras governado por todos em simultaneidade. Em segundo lugar, em vista do exposto, apesar de estarmos em demasia modelados pela cupidez, avalio que toleramos o &lt;i&gt;statu quo&lt;/i&gt; na esperança de cedo ou tarde desfrutarmos, por pouco que seja, dos mais visados privilégios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo, por outro lado, é não haver passo intermediário. Meio passo, no caso, é passo nenhum, é permanecer onde se está. E nesse pé não há ciência, tecnologia e indústria capazes de proporcionar-nos autêntico progresso: por toda parte vê-se maquinaria, tão-só, a serviço da mesquinharia acometendo-nos faz séculos. Como resultantes, um pseudo-conforto, exclusivamente físico, e a perene insegurança, sendo a esperteza a palavra de ordem, não a sabedoria. Tentar convencer-nos do contrário, em face de tantas evidências, é empresa sob suspeita de má-fé, instrumento da dominação, faces, ambas, da ignorância. Se bem entendi a mensagem do cronista, o grande mal do capitalismo, ser de assombrosa invisibilidade em seu texto, é suscitar tanta crítica, não logrando mostrar, sob tão continuadas invectivas, a coerência que de fato tem. Afinal, ora, não é ele, capitalismo, o promitente erradicador da pobreza tiranizando-nos há milênios? Para o leitor das entrelinhas, entretanto, ali mais vazias do que é de esperar, fica a observação de que uma mera inversão de termos, já desde o título, embora não corrija o curso ou confira mais sentido às palavras que o seguem, expressa o sentimento inevitável ao término de meditação sobre tamanha ausência naquela leitura: quanta pobreza advém das tiranias, em particular das bem administradas e dissimuladas! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 05 de novembro de 2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar M. Reis&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-7340902035638127527?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/7340902035638127527/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=7340902035638127527&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/7340902035638127527'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/7340902035638127527'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2007/11/pobreza-da-tirania_06.html' title='A pobreza da tirania'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-6831714170318327244</id><published>2007-06-19T19:35:00.001-03:00</published><updated>2010-12-20T18:27:16.632-02:00</updated><title type='text'>Filosofia, narcisismo, ética e moral</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Filosofia não é uma ciência. Jamais poderá sê-lo. Se de fato cunhado por Sócrates, em tudo parece condizer o termo com a reputação sobrante desse filósofo, cujo interesse centrou-se no que mais tarde se chamou de Ética, esta, sim, ciência das ciências. Filosofia, como o próprio nome indica, designa tão -só disposição especial do sujeito para fazer ciência. Sua idéia nasce, provavelmente, quando este se inteira de sua condição irrefreável para conhecer, atividade central de sua existência, pouco importa o que de diverso pense fazer, e a incorpora como o amante ao direcionar sua inclinação amorosa para outrem ou mesmo para ninguém em particular, mas a exerça indiscriminada e integralmente por gostar de exercê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filósofo é tão-só quem ama sua disposição inata para o conhecimento e a aplica, seja a um só, seja a muitos objetos, observando-os e entendendo-os de um ou de variados modos. Distingue-se dos demais indivíduos exatamente por esse amar, pois conhecem apenas por serem dessa maneira constituídos. Por outro lado, o filósofo não se mostra em essência diferente de outro humano qualquer: é suficiente admitir que a cada um pode caber afeiçoar-se a uma ou muitas das inúmeras características de que é constituído, podendo amar-se o próprio braço, por exemplo, pela força ou pela forma que apresenta, o próprio nariz, a boca, os olhos, as próprias mãos, os pés e mesmo o corpo por inteiro, a inteligência ou o humor descontraído, a própria honestidade e até a malícia e a vilania de que se é dotado. Embora possa concomitantemente amar uma ou mais de suas partes constitutivas, o filósofo ama sua condição cognoscitiva. Mas ama-a sem hesitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao encarar-se com tal sinceridade um filósofo percebe não passar de mais um dos acometidos de narcisismo, talvez não de um narcisismo integral, pois nem todos são como Alcibíades, cuja beleza física, entretanto, não pareceu comover Sócrates, encantado, como era, com apenas ser filósofo, mesmo porque não via em seu próprio corpo motivos para amá-lo. Mas não devemos esquecer que assim como conhecedores inatos, embora não por necessidade embevecidos com o conhecer, embora não por necessidade filósofos, somos também e em essência narcisistas, temos de amar ao menos uma, se não várias, de nossas características, ou mesmo todas elas, do contrário viver pode tornar-se experiência de todo desaconselhável. Há quem diga ser possível desprezar tudo em si e ainda assim ter vida tolerável, quiçá agradável, quando se aprecia outra coisa qualquer fora de si: nesse caso, entretanto, goza-se ou ama-se esse apreciar mesmo, o qual, sem dúvida, é parte do sujeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filosofar, como se vê, não faz de ninguém um ser especial, mais ou menos louvável do que qualquer outro entre cujas predileções não está o conhecer. Entretanto o seu gozo com o conhecimento, porta aberta que é para a ciência, propicia-lhe o ensejo de tornar-se alguém distinto dos demais, um ser verdadeiramente singular. Isto ocorre quando o filósofo finalmente entende o por que do seu conhecer: conhece para agir, embora também aja para conhecer, embora em certas circunstâncias aja como se em aparência ignorasse o motivo ou a finalidade de sua ação e embora aja e sempre tenha agido, desde sua primeira ação, por ter algum conhecimento, aquele suficiente para ação assim primordial. Sua sabença está a serviço de como se comporta diante das coisas, pois é preciso considerá-las ciosamente, ou arrisca viver em desacordo com elas e mesmo desaparecer, extinguir-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo inerente amor a si o sujeito - um qualquer - tem de saber como coordena suas ações dirigidas ao meio, tem de saber resistir a este e com tal resistência tem de igualmente preservá-lo, pois depende disto para continuar existindo. Em sua afeição pelo conhecimento o filósofo parece mais afeito do que os demais indivíduos a admitir essa interação necessária com o mundo e, claro, a cultivá-la de modo singular, buscando entendê-la cientificamente, ou seja, segundo princípios aplicáveis a uma ampla gama de situações e aceitos mediante provas, ou não lhe merecem a fé. Para tanto inteira-se da necessidade de valer-se de tudo quanto sabe, de todas as ciências que cultivou ou pode cultivar, pois encontrou a ciência por excelência, a ciência de todas as ciências: encontrou a Ética. E quando a encontra, de modo diferente de outros filósofos, cujas sabedorias se aplicam segundo princípios variáveis ou instáveis ou segundo princípios dizendo respeito tão-só ao seu amor a si próprio, o filósofo versado em Ética não pode empregar a sua senão sob os pressupostos inflexíveis dessa ciência máxima, tem de, por conseguinte, comportar-se como o sábio que é, caso contrário mostrará não passar de aprendiz, não passar de um curioso movido apenas por uma paixão qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a todos, queiramos ou não, termina por interessar a Ética, sugere-mo voz que me inteirou também de sermos conhecedores e narcisistas natos. Sim, respondo-lhe, temos todos de estudar Ética, embora não do modo ou com a intensidade de um apaixonado por conhecê-la, não como o filósofo convencido de ser ela a única ciência possível, diante da qual as demais encontram justificativa, mero apêndice que são dela. Diferentemente do Ético, chamemos assim a esse filósofo, nós outros não buscamos perfeição sequer semelhante à que encontra em sua ciência. Seríamos, quando muito, versados numa espécie de sombra desta: pois se conforma em função das múltiplas superfícies sobre que é projetada, sendo variável e volátil como os acordos que propicia, incerta e sinuosa como as justificativas para as ações que enseja, quase que uma para cada sujeito. Enfim, sem amar o conhecer que nos é inerente podemos até fazer ciência, mas por imposição da própria natureza, e tal ciência congênita tenderá, também por necessidade, a algo como a Ética, a um seu arremedo, ética de amadores, não de verdadeiros amantes do conhecimento, ética possível a quem deseja exclusivamente desfrutar a vida sem saber ao certo se por mérito ou mesmo se de fato o faz: e seu nome correto é moral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 19/06/07&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar M. Reis&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-6831714170318327244?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/6831714170318327244/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=6831714170318327244&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/6831714170318327244'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/6831714170318327244'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2007/06/filosofia-tica-narcisismo-e-moral.html' title='Filosofia, narcisismo, ética e moral'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-5336115751248642639</id><published>2007-06-17T22:42:00.002-03:00</published><updated>2007-06-20T22:54:00.686-03:00</updated><title type='text'>Voltas ao mote do Mundo</title><content type='html'>&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;i&gt;Ao desconcerto do Mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os bons vi sempre passar&lt;br /&gt;No Mundo graves tormentos;&lt;br /&gt;E pera mais me espantar,&lt;br /&gt;Os maus vi sempre nadar&lt;br /&gt;Em mar de contentamentos.&lt;br /&gt;Cuidando alcançar assim&lt;br /&gt;O bem tão mal ordenado,&lt;br /&gt;Fui mau, mas fui castigado.&lt;br /&gt;Assim que, só pera mim,&lt;br /&gt;Anda o Mundo concertado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís de Camões&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pobre poeta! Perdido em descaminhos indescritíveis até para sua tortuosa dialética. Foi mau, estupidez, cuidando obter o bem, inalcançável enquanto bom foi. Quiçá melhor faria em continuar passando no Mundo tormentos, do que aventurar-se nos exclusivos contentamentos dos maus. Ovelha em pele de lobo, ignorante de estar nos focinhos, por excelência, o tino de predadores tais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Presunçoso poeta! Oh, porventura quisesse apenas passar-se por bom; até ser mau, naturalmente, pois apenas o bom corre o risco de mau tornar-se. E quem o puniu, finalmente? O mal, por sua desfaçatez de invadir-lhe o território em busca dos prazeres de quem o professa de corpo e alma, ou o bem enciumado? Ora, poeta, o seu castigo não é prova de estar o Mundo, ainda que só para si, concertado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que o Mundo não é como nos fazem crer, poeta, disto já me havia inteirado. Nele é bom quem do mal não tem oportunidade, cabendo-lhe assim tão-só sofrer aquele que outrem lhe faz. Estóico poeta! O mal é para peritos! Estultos sábios de antanho, cavilando do bem pedagogias, quando é para a maldade que carece adestrar-se. Fosse o contrário, não seria o bem saber inato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o mal, em sendo novidade, tem de demonstrar-se, verificar-se, justificar-se! Doutro modo, não se o aprende. Preciso é torcer a bondade de que se vem ao Mundo dotado, contrariá-la com argumentos terríficos, irrefutáveis, inquebrantáveis, e depois testar-se, mostrar-se proficiente. Por isso o castigo, poeta. Foi reprovado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, o mal não admite fraudes. Nem indecisões. Não contemporiza: o mínimo deslize é o retorno ao chão. Uma vez erguido, no entanto, são oceano as retribuições. A começar pela posição, de mestre, para quem os discípulos, literalmente sob os seus pés, são só gratidão. Ora, poeta, não se anoje, ou mostra ter nada aprendido. Lembre do ditado: só a dor ensina. Ensina a ocasião de infligi-la para a instrução de algum coitado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Rio, 17/16/07&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar M. Reis&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-5336115751248642639?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/5336115751248642639/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=5336115751248642639&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/5336115751248642639'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/5336115751248642639'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2007/06/voltas-ao-mote-do-mundo.html' title='Voltas ao mote do Mundo'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-1468198542771057756</id><published>2007-06-11T17:45:00.005-03:00</published><updated>2011-01-20T21:41:39.438-02:00</updated><title type='text'>Livre e abreviada teoria das democracias</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Como pode ser justo um sistema político no qual todos sustentam como insígnias suas mais miseráveis diferenças? A bem da verdade sequer há consenso, na prática, de sermos todos humanos, de necessitarmos basicamente das mesmas coisas ou mesmo de coisas semelhantes. Espalhados pelas manchetes de jornais, exemplos disto só nos convidam a concordar com Churchil, para quem a democracia seria o melhor dentre os piores sistemas de gestão pública.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exageros à parte, estes não podem ser motivos para darmos as costas para o sistema democrático e partirmos em busca de um mais apropriado. E a razão é, pelo menos em princípio, inexistir outro capaz de oferecer ao indivíduo melhor perspectiva de liberdade - como de hábito esta é concebida. Se a história não mente, o ser humano já praticou todos os possíveis métodos de organização comunitária, os quais, valendo-se da lógica mais rasteira, contam-se nos dedos de uma só mão: ou governa um indivíduo, herdando ou não o cargo, ou governam alguns, que igualmente podem ou não transmitir suas funções, ou, por fim, governam-se todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De novo com o auxílio da lógica é possível afirmar que, desconsiderada a quantidade de governantes, é a totalidade da população que outorga a estes as atribuições que têm: em suma, é sempre o povo que governa. O segredo de imperadores e ditadores resume-se em manter a massa em dissensão continuada: é na ciosa administração das desigualdades que reside o poder, assim como é ordinariamente entendido o termo. Um tirano competente jamais delibera contra porções significativas da população. Do outro lado, um povo tiranizado, prova cabal de masoquismo coletivo, nada obstante cuida de moderar os efeitos do jogo político ou perece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poder democrático é passível de descrever-se, segundo é comum entendê-lo hoje, como o exercido por déspotas potenciais coagidos pelas massas, enfim esclarecidas, à negociação. Figuras assim seriam versões políticas de pais benevolentes, não fosse mais forte a vocação para o domínio a transformá-los em sólidos personagens num enredo em que a população, sem o perceber, permanece manipulada. Por isso é mais fácil definir democracia como o padrão de gestão coletiva admitindo variantes ao longo das eras, nas quais os indivíduos participam mais ou menos das decisões de um governo central, tendo-lhe previamente outorgado e continuando a lhe garantir a atribuição de governar. Como se vê, não pode haver motivo para dar-se as costas à democracia em favor de outro sistema, visto não existir a alternativa: melhor do que uma dada democracia só mesmo outra melhor - ou não tão ruim, se quisermos aderir à ironia de Churchill.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A quem está convencido, chegando neste ponto do ensaio, tratar-se tudo de puro non-sense, fica a sugestão de analisar, ainda que de maneira superficial, as evoluções (no sentido dos malabarismos e das acrobacias, segundo definição de Antonio Caetano) das democracias no correr do último século. Em todas é visível a cuidadosa cisão das massas jogadas, assim partidas, umas contra as outras; e mesmo em momentos de maior participação coletiva prevalece ainda a separação em blocos, dos quais sobressaem líderes cuja função mais significativa é a de manter aquela facção centrada no quanto a distingue das demais, forma esta de perpetuarem suas respectivas influências e, tendo na retaguarda contingentes consideráveis de indivíduos, obter determinados privilégios, sempre mais pródigos para si do que para suas bases. Finda a análise, o bom observador terá concebido espécie de imagem tingida de uma única cor em vários matizes e jamais esquecerá de que oligarquias, despotismos e mesmo realezas são partes mais ou menos ativas, mais ou menos fortes, da democracia como até hoje a conhecemos. Tudo, como não poderia deixar de ser, de conluio com a patuléia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A associação de idéias como a de perfeição democrática com educação não é casual. A despeito do grau de conhecimento de distintos membros de uma sociedade, esta se move numa massa de informação cujo nome é senso comum. Tanto mais o senso comum de uma população se aproxima dos níveis de conhecimento ditos de excelência, maior tende a ser a liberdade de cada indivíduo, ou seja, maior tende a ser sua auto-suficiência. Nada mais natural: senso comum é o repositório do saber de uma comunidade, é onde se preservam os meios de esta lidar com seu entorno visando a sobrevivência. E toda política, sendo, como é, arte de administrar ou manipular as massas, tem de lidar, evidentemente, com esse conhecimento rigorosamente acessível a todos, ou não sucede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a educação em quaisquer das modalidades de democracia conhecidas tem de, para manter-se coerente com o princípio de dominação, exercer-se num determinado âmbito, fora do qual torna-se atividade subversiva. Ensinar-se-á, assim, a conservação das instituições políticas vigentes, jamais seu real aperfeiçoamento. Uma mancheia de educadores de aluguel terá torcido os narizes para tais afirmações presumindo que educam para a liberdade, para a livre-iniciativa, portanto, para prover o mundo de gerações cada vez mais aptas a corrigir os desvios do poder público. E de fato é improvável encontrarem-se dois momentos consecutivos quaisquer em que não tenha havido alguma reforma, algum aperfeiçoamento, a despeito de persistirem incontáveis falhas e, o pior, o descontentamento quase universal: mudar é revolver, sendo também condição inescapável das coisas no mundo; e se é imperativo mudar, prescrevem as gestões públicas, que se o faça em pequenos bocados, sutis revoluções que não desandem a ordem coletiva. Formam-se, portanto, pela educação consensualmente tolerada, pequenos revolucionários, indivíduos capacitados a manter ao máximo as condições próximo de certo estado admitido como ideal para a conjuntura vigente. A única razão a manter de pé as democracias como as conhecemos, por quase perfeitas que sejam, parece ser a esperança em cada um de nós de vermo-nos um dia passar pelo funil conduzindo a uma sucessão de privilégios, à imitação dos poucos que nos últimos decênios o viemos fazendo: e tal em nome da renovação, das pequenas e controladas revoluções em cujos finais é possível constatarmos a presença de grupo de atores diferente do grupo anterior, mas desfrutando todos de privilégios idênticos. Por isto são raros os grandes revolucionários, mesmo aqueles praticantes e pregadores da paz, por isso são caçados e suprimidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por força da intuição sabemos todos como de fato tem de ser a melhor democracia: cada qual conhecendo exatamente o que de melhor fazer e, o principal, sem prejuízo de ninguém (uma coisa, na verdade, acarreta a outra, mas não custa reiterar). Como é evidente, tratou-se de intuir  comunidade de sábios, seres imagináveis e mesmo reconhecíveis, mas a quem é impossível imitar, segundo  se crê em consenso. Na raiz de tão insensata crença, entretanto, está um equívoco secular, pelo qual a figura do sábio metamorfoseou-se naquela do indivíduo provido de grande quantidade de informação tornando-o apto a manipular ou dominar o meio ambiente, a natureza, aí incluídos seus semelhantes. Antes, por milênios, o sábio foi, ao contrário, aquele capaz de manipular ou dominar a si próprio, sua natureza pessoal. Uma democracia no limite da perfeição só pode ser praticada, evidentemente, por sábios à moda antiga. Essas democracias 'quase perfeitas' - e, ainda assim, tão insatisfeitas - hoje circundando-nos ou circundadas pelas nossas, a meio caminho da perfeição das primeiras, têm-se mostrado como exemplos de gestão pública abundante em sábios à maneira moderna, entre cujas especialidades está a acurada manipulação de seus semelhantes, sejam estes sagazes ou não. Suas ações estendem-se, não raro, a populações estrangeiras, pelo que não demonstram serem deveras auto-suficientes tais sábios à moda recente, sempre necessitando da exploração de outrem a lhes prover do básico para manter  vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A educação capacitadora de cidadãos em verdadeira liberdade constitui-se antes de princípios éticos do que dos princípios das demais ciências, dois gêneros de princípios que, por sinal, não discrepam um do outro, embora sem os do primeiro tipo os  do último tendam a desgovernar-se em presunção. Com os princípios éticos é possível chegar-se a uma ciência limpa, capaz de extrair do meio apenas o suficiente e sem o concurso de massa de indivíduos manipulada para atender aos fins de outros, poucos. A democracia perfeita, constituída por homens sábios é, por fim, alcançável sem transtorno maior do que uma inflexível boa vontade e já possui mesmo um nome, sendo definida como o federalismo tendo por limite apenas o indivíduo, sua unidade menor. Anarquismo: eis como é intitulado o pacto no qual o homem professa entender que sua liberdade existe em função da fraternidade e, principalmente, da igualdade, conceitos enfim alçados da condição de meras promessas e mantendo distância segura de suas versões professadas pela sabedoria de tipo moderno. Em tal pacto a convicção das partes não oblitera a noção do todo, as dificuldades são resolvidas topicamente - pois são singulares as condições de cada ponto do planeta - e nacionalidade será apenas designação geográfica. O acúmulo de riquezas, em vista do custo, só terá sentido se praticado pela totalidade dos indivíduos e é possível ser-se, quando assim se o desejar ou necessário for, engenheiro, operário, médico, lixeiro, músico, lavrador etc, embora jamais presidente, general, polícia, juíz, pois o pecado não se faz mais perceber tanto a norte quanto a sul do equador. Entretanto são todos - questão de ordem - legisladores, criadores insaciáveis de regras segundo a ocasião, mas orientadas todas por um par de princípios que, a bem dizer, são conhecidos de nascença: produzir o melhor sem prejuízo de ninguém. Fora essa, temos mesmo de contentar-nos com estar em alguma das melhores dentre as piores democracias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 11 de junho de 2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar M. Reis&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-1468198542771057756?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/1468198542771057756/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=1468198542771057756&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/1468198542771057756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/1468198542771057756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2007/06/livre-e-abreviada-teoria-das.html' title='Livre e abreviada teoria das democracias'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-805413519200995687</id><published>2007-05-15T17:42:00.000-03:00</published><updated>2007-08-30T07:07:30.946-03:00</updated><title type='text'>Fides et Ratzinger</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;i&gt;&lt;span&gt;A meu pai, em seus oitenta anos,  no décimo quarto ano de ausência de minha mãe&lt;/span&gt;.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;No princípio, era a confiança. Apenas confiança, mas num sentido do qual você e eu não guardamos mais do que uma noção descorada, confiança em sentido absoluto. Hoje é sentimento atribuído aos parvos, indivíduos dotados da coragem, a eles conferida pela ingenuidade, para confiar cegamente, confiar simplesmente, a priori, quiçá sem garantias. Confiança assim só se deposita, é  natural cogitarmos, em quem de certo a malversará jamais. E de espantar é que tenha havido quem a merecesse ou que tenha alguém acreditado em sua existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, conta-se, teria de fato existido tal sentimento. E veio ele à tona, diz a história, quando um homem e seu clã deixaram para trás o lugar onde nasceram em busca de uma promessa. Foi por nela confiarem que seguiram caminho e de passagem testemunharam a destruição de cidades sem sequer um olhar, a transformação de um dos seus em estátua de sal, entre outras mostras impressionantes do preço de não confiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas são as provas por eles deixadas do quão firme foi sua confiança. Jamais esqueceremos da saga do pai conduzindo o filho à imolação depois de abandonar às portas do deserto um outro, o primogênito, com a mãe, sua antiga concubina, designada por seu Deus para lhe dar a descendência negada pela constituição física de sua esposa e meio-irmã, a quem por duas vezes vendeu em troca da própria vida e por duas vezes restituiu em meio a riquezas incalculáveis. Fraqueza, diriam os incautos, diriam os incréus leitores de sua sina; loucura, completariam. Mas o fariam por não mais confiarem, não no sentido daquela confiança de quem estava seguro de não haver lugar senão para o bem, para o bom, neste mundo de desígnios imponderáveis. Foi suficiente tolerar o peso do revés para que o ventre vetusto da esposa inesperadamente concebesse, para que o filho por dever renegado se tornasse patriarca do povo do deserto, para que um anjo viesse conter o braço antes do golpe do punhal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se não bastassem essas e outras mostras desse confiar (não esqueçamos daquele pai cuja firmeza não se abalou com o decesso de toda a família, a penúria extrema e a temporada no estômago de um cetáceo), como se fossem insuficientes para o entendermos, séculos adiante, ou melhor, livros à frente, a história nos dá um pregador de cujo delírio brota a ambígua noção que doravante orientará a razão, mas também a desrazão, do homem. Em nome dela, fé (como passou a chamar-se a confiança), segundo a definiu Paulo, apóstolo tardio dum Cristo já ressurgido, milhares, quiçá milhões, pereceram sob a acusação de não a possuírem, de não a exercerem: eis um dos mais bem acabados exemplos da demência. Pois como é possível sequer suspeitar de haver quem seja destituído de fé? Como é possível conceber vida sem fé? A estas interrogações entregaram-se os espíritos verdadeiramente lúcidos, embora não dessem com outro meio para evitar os inúteis suplícios senão oferecendo às prováveis vítimas, os supostos destituídos de fé, o objeto sobre que depositarem a que sempre tiveram e que de fato existia, embora não a percebesse o clericalismo irracional, decerto por tratar-se de fé em estado bruto, aliás, como a quis Paulo mesmo, a saber, a espera do que não se pode ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cristo, imagino, dar-se-ia por contente se seus seguidores apenas se inteirassem da fé que sempre possuíram e que sempre possuiriam em sendo viventes, tomando cada qual, em seguida, caminho próprio. Creio, entretanto, ter em mente o Cristo ideal quando assim o digo, o Cristo coerente com a pregação que lhe atribuíram. Não sei se para o mesmo fim posso invocar o Cristo histórico, personagem dia a dia emergindo da pertinácia ou da fantasia de arqueólogos e historiadores, cuja suposta vaidade teria levado ao paroxismo, no breve intervalo em que viveu, a corrompida sociedade desse tempo e cuja recompensa foi inserir-se na história, a passada, com a qual fez coincidir cada um dos seus passos desde que adentrou Jerusalém em lombo de jumento até a crucifixão, e a futura, a habilidade de cujos escribas o tornou em lenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que se daria por satisfeito o Cristo ideal com a contrita diáspora de seu rebanho? Por ser um visionário, como o confirma em boa medida o Cristo histórico assim como o esboçam. O Cristo coerente estaria lasso das invectivas dos poderosos sobre o comum acusando-o de desligado, sua meta seria a de livrá-lo de uma vez por todas desse tribunal insano. Mas desligado de quê estaria o comum? Ora, de sua natureza primeira, de sua essência imaterial, de sua origem na divindade. Não é outra a premissa religiosa, de seja qual for a religião. Mesmo a etimologia do termo, em sua ambigüidade, pende ao fim para delineá-lo como o esforço de fazer tornar o indivíduo ao essencial, em suma, de reatar seus laços com o que não percebem os sentidos nem alcança a razão. Como se possível nos fosse escapar ao incognoscível e ao paradoxo enquanto vivos e conscientes! É verdade: a empresa religiosa padece cronicamente da presunção de estarmos tecnicamente apartados de nossa origem, a despeito de atribuir-lhe poder, conhecimento e presença absolutos. Em sua opinião teria Deus criado o universo e o povoado de criaturas capazes de eventualmente apartarem-se disto que criou, não obstante tudo, absolutamente tudo, seja criação Sua. Em suma, é simples a dedução: para onde quer que tais supostos fugitivos pensem rumar, permanecerão sempre confinados à Sua obra. Enfim, os pressupostos religiosos jamais justificaram ou justificarão as conclusões que deles se retiram e muito menos os atos determinados pelo que se concluiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até onde alcanço, só vislumbro uma causa única para a profissão religiosa: o vício da dominação. E melhor viceja sua semente onde antes adubou a ignorância aterrada com o fado dos viventes. Pois o mundo é útero e túmulo, berço e esquife, palco e cadafalso, saciedade e penúria, de que, mais dia, menos dia, vamo-nos dando conta. Mas se vem à luz com uma imcumbência, uma só, contrariadora da exata metade - a metade indesejada - disto que o mundo é, a incumbência de cá permanecer o quanto possível for. E, não importa o tanto que se perdure, não há quem ou o que cumpra por inteiro a tarefa nem quem ou o que dela deixe dívida: todos o sabemos, intuitivamente; sem qualquer pressa a vida no-lo ensina. Tememos tudo cujos efeitos desconhecemos ou não logramos mensurar, dos eventos da natureza aos pensamentos de terror que estes nos infundem, frente aos quais só duas atitudes se mostram possíveis: a obstinação perquiridora, naturalmente decorrente da incumbência - ou, melhor dizendo, da imposição - de perdurar, e a submissão incontornável aos fatos, cuja continuidade termina por extinguir-nos. A vida é a temporada durante a qual oscilamos entre uma e outra posições e talvez sua duração se relacione diretamente com a eqüidade com que nos mantemos mais na primeira, visto ter a outra a função de mera pausa antes do impulso pelo qual penetramos mais e mais no conhecimento das coisas. E é nesses momentos de dúvida, quando por qualquer motivo se enfraquece a confiança que temos de ter no que somos capazes de saber, é em tais hiatos - por vezes mais duradouros do que desejávamos - que as admoestações religiosas se vêm imiscuir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas ofertas não são de todo despreziveis: convencendo-nos de estarmos desgarrados, acenam a seguir com a reentrada no mundo verdadeiro, segundo o concebem, para tal ofertando-nos o conhecimento total e instantâneo da realidade. Abstenho-me de julgar o teor ou o valor desse conhecimento, pois tal só se mede tendo em vista um sujeito e o quanto isto lhe tem serventia. E de hábito não é raro topar-se com 'religados' cuja vida sucede à sua satisfação, prova esta porventura considerável do valor do que conhecem. Arrisco-me inclusive a reputar tal conhecimento, em essência, o melhor, o único mesmo. Mas recuso conceder-lhe o acabamento às pressas arranjado pelos doutores das religiões para torná-lo palatável ao indivíduo em dúvida profunda, convencido de estar de parte da Criação. Prefiro restringir-me à letra da palavra de Paulo em Hebreus (11:1), para quem a fé é a forma da esperança e a prova do invisível, descartando os objetos que a tradição a ela apôs à guisa de isca para os destituídos de paciência e imaginação. Pois o objeto da fé, da fé que é apanágio de todo vivente e não apenas dos devotos desta ou daquela religião, não se constitui senão na espera que o desvela infinitamente em sua infinita perfeição. Bem aventurados os que não se apressam em pôr no seu lugar qualquer coisa que, no incessante desvelamento, dá à fé a impressão de ser como uma árvore, o trovão, o mar ou as divindades. Pois ela é tudo isto e muito mais, é qualquer coisa, é todas as coisas. Mas só o é por haver quem - por haver um sujeito - a exercê-la, sem o qual é nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fé é a prova de estarmos, desde sempre e enquanto durarmos, ligados com as coisas, ligados nas coisas. É desejo, vontade, indução; é o passo que darei a seguir sem qualquer garantia, mas com a certeza plena de que o darei. Em sua audácia a fé tem mesmo um objeto último, extremo, mas do qual possuímos, quando muito, um nome, Deus, e uns poucos atributos óbvios, embora paradoxais. E de pouco nos servem tais elementos: por certo de estímulos para o exercício mais vigoroso, mais entusiástico, da continuada e imperiosa fé; jamais como justificativas para o antagonismo que o arrebanhamento de homens em torno a cleros distintos costuma suscitar, menos ainda para promover a servidão. A fé nos constitui igualmente, pelo que somos livres e fraternos. É o que vimos descobrindo, ao passar das eras, a despeito da massa ainda orientando sua fé para os objetos impostos por conventículos cujo fito não é outro senão mantê-la submissa. A passos módicos, não obstante, evolvemos, e prova-o o modo como findamos por designar tal objeto maior possível à fé, objeto indivisável por inteiro, mas perpetuamente descortinando-se aos nossos sentidos, mesmo os mais recônditos: Deus, atributo de gênero antes que nome de espécime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Cristo ideal, dizia, satisfar-se-ia com entendermos apenas isto: é impossível 'desligar-nos', não havendo necessidade, por conseguinte, de religamento; só se desligam os decedidos, pois em seus corpos não mais habita a fé, isto que nos mantém aderidos ao mundo; por conseguinte, somos feitos de fé, por cujo intermédio tudo é possível conceber, nada excedendo, embora, a idéia de Deus, cuja propriedade é a de constituir-se enquanto fé houver, enquanto vivo se for. E uma vez aprendida lição assim singela, que tome cada um o seu caminho no mundo, tratando de mantê-la, transmitindo-a às gerações vindouras, de modo que em pouco sejam esquecidos todos quanto fizeram e ainda fazem da fé instrumento de servidão.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Rio, 15 de maio de 2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-805413519200995687?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/805413519200995687/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=805413519200995687&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/805413519200995687'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/805413519200995687'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2007/05/fides-et-ratzinger.html' title='Fides et Ratzinger'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-2953591156845046422</id><published>2007-02-17T02:07:00.000-02:00</published><updated>2007-06-19T06:49:54.013-03:00</updated><title type='text'>Carta a Anônimo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;i&gt;&lt;i&gt;&lt;i&gt;&lt;i&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;A muitos incomoda responder a quem anonimamente lhes fez pergunta ou propôs questão. Não os censuro, como não censuro quem teme estar só nem quem evita a escuridão. Mas devo admitir, por outro lado, que se apoquentam com ninharias, pois o anonimato é apenas uma forma presumida de invisibilidade. Lembra-me a brincadeira infantil de esconde-esconde, em que um dos participantes, inquieto por não ser encontrado de pronto, move-se ruidosamente no esconderijo, indicando para quem o procura - e por acaso está por perto - haver alguém nas cercanias. Se quer terminar logo o jogo, o pegador pode dar ouvidos às pistas e descobrir o impaciente; mas se lhe apraz brincar, em especial com os nervos alheios, pode longamente passearà volta até que o embiocado por si mesmo apareça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Internet tem sido meio grandemente propício para tais entretimentos, a ponto de em muitas circunstâncias ter-se tornado quase irrelevante ou mesmo desaconselhável o uso da identidade verdadeira. No caso presente, salvo raras exceções, tenho escrito até hoje para anônimos, digo melhor, até hoje tenho escrito para praticamente ninguém, como o indica a quase total ausência de comentários aos textos desta página. Não espanta, do contrário, gratifica-me ter quem se prestou à leitura do meu trabalho e ainda por cima cometeu a gentileza de &lt;a href="http://www2.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=7037975950782797221&amp;isPopup=true"&gt;comentá-lo&lt;/a&gt;, não obstante autodenominando-se de forma tão impessoal (o que, no meu entender daria no mesmo se seu nome fosse José dos Santos ou Pedro Silva). É com renovado prazer que lhe escrevo o que se segue, ainda que no futuro possa ele apresentar opiniões inteiramente divergentes das de hoje, dizendo-me, por exemplo, sempre ter concordado comigo, e noutro dia contradiga-se sem acanhamentos: não diferirá, nem assim, do comum do indivíduo, que em verdade é, e o mais das vezes sem o perceber, multidão espremendo-se, acotovelando-se, no espaço diminuto de um só corpo.&lt;/i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;i&gt;&lt;i&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Anônimo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como todos nós, você sabe muito bem o que é bom. E não raro o enunciamos por meio de negações, como você, por exemplo, ao dizer: 'não é bom o totalitarismo'. Concordo consigo: o que temos chamado de totalitarismo é evidentemente abominável. E em obediência à sua condição de vivente é o bom, o bem, aquilo que você busca no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não só com respeito às coisas do mundo você sabe distinguir bem de mal: como qualquer um ou como a maioria de nós, humanos, é provável que você reconheça em si próprio facetas mais plausíveis do que outras, pois afinal você também é uma das coisas do mundo. O que fará, então, com umas e outras? Procurará cultivar o lado condenável e inibir o outro, o bom? Não creio! Espero que não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E já seria excelente para o mundo se apenas você procurasse estimular em si e ao seu redor o que de melhor pode haver. Fico então a imaginar como não seriam as coisas se muito mais gente, ou mesmo todo mundo (eu apreciaria imensamente a circunstância), fizesse o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como nos arvoramos em reformadores da natureza (e tanta vez por motivos nada louváveis como o lucro, por exemplo, que não passa de uma das formas da gula), por que não experimentarmos, ao menos durante um período, reformar certos traços nossos que não podemos qualificar senão como incômodos, deselegantes, inoportunos etc?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E seria melhor, sim, que o fizéssemos em conjunto, todos de uma vez, 'totalitariamente', pois já o fazemos em pequenos grupos há séculos, milênios, e tal estratégia não se tem mostrado de grande eficiência. Mas não pense desta minha alusão à totalidade que eu gostaria de ter alguém obrigando-me a reformar o meu lado menos apreciável. (Tampouco sinto-me confortável quando decido transformar-me em algo melhor e observo à minha volta uma multidão em ladainha dizendo que o bom é fazer justo o contrário.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em minha opinião, é questão de educação. Temos sido educados para este modelo de civilização que se 'aperfeiçoa' a cada dia, embora não pareça propiciar o quanto de bom que promete. Já não conseguimos mais pensar a vida senão a partir de conceitos como competição, crescimento econômico, enriquecimento, lucro etc e já nem mesmo acreditamos possuir uma índole - ou natureza - aperfeiçoável no sentido de torná-la menos voraz, menos egoísta, mais cordial e mais amorosa. A despeito de todas as insatisfações experimentadas, sempre encontramos o problema no outro, sendo o mais passivo 'outro' à disposição o habitat, agora gritando e retorcendo-se, se não por meio de 'duvidosas' mudanças climáticas, por certo por apresentar-se incrivelmente mais sujo, mais devastado, mais infenso a nós próprios, que dele necessitamos para viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se precisamos de melhor educação ou de uma educação em outro sentido, precisamos igualmente promovê-la de forma total. E o 'totalitarismo', nesse caso, tem de ser ou termina sendo voluntário, propiciado por consciências cultivadas no que têm de melhor. Chegar a isto, só educando-nos, e não apenas na escola, pois não somente nela nos educamos, mas educando-nos o tempo inteiro, em qualquer lugar. Somos, afinal, seres 'condenados' a aprender, e isto é uma das poucas coisas, se não a única, que fazemos sem descanso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Detalhe: é preciso que o Estado nos eduque, mas não permita que os seus pelos, tão bem ordenados para a direita, se ericem com mais esta afirmação. O Estado, em verdade, é todos e cada um de nós, não esse bando de senhores engomados e seus guarda-costas (não raro pergunto-me em que outras ocasiões, nesse nosso estapafúrdio sistema de vida, um empregado - não é isso que são para o povo os políticos e outros funcionários do aparelho de governo? - tenha de circular habitualmente sob proteção em virtude das investidas de seus patrões). Como já lhe informei, eu também não gosto de ninguém dizendo-me o que é bom fazer. Quando tenho dúvidas, troco idéias com bons e lúcidos amigos e procuro agir quando estou seguro de não pôr em risco o bem-estar de ninguém. O Estado, nesse caso, é uma corrente de bom senso e ajuda recíproca operando inteiramente à revelia da máquina de governo, seja qual for a orientação dela, e das demais formas de coerção fundadas ou não na febre multiplicativa de dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aconselho a você, que imagino ou espero ser bem jovem, começar do princípio: por Utopia, de More, por exemplo, passando depois para Godwin e em seguida para Proudhon; chegando a Marx, pule-o, esqueça-o, assim como a Engels: há neles coisas interessantes, devo anuir, mas são muito poucas e, não bastasse isso, foram copiadas de outros, como Proudhon; deste, então, vá direto a Kropotkin e não deixe de lado (sendo mesmo indicado começar por ele) o Woodcock, grande expositor das doutrinas anarquistas. A despeito de toda contradição, pois nada no mundo parece escapar dela, trata-se do que há de melhor em termos de concepção de uma vida adequada para o homem segundo as aspirações que vem ele mesmo externando ao longo de milênios. O anarquismo só pode pensar os homens em liberdade (nada parecida com aquela dos 'liberais', já contaminada dessas 'gulas' a serem dissipadas) e todos ao mesmo tempo, para isso invocando suas consciências à ação continuada, de modo a propiciar, mediante uma melhor distribuição de bens e de trabalho, existência mais hedônica, na qual seja possível desfrutar-se do 'si mesmo' para não mais cultivarmos outras dependências, cuja repetição as hipertrofia e as transforma em 'gulas' incontroláveis e imperceptíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como se precisássemos, durante um período relativamente longo, constituir uma sociedade nos moldes daquelas aonde acorrem os dependentes de álcool e outras substâncias tóxicas, de sexo, comida, excesso de amor etc. Para esses e outros vícios cultivados em nossa civilização, muitos dos quais nem tidos como tais, precisamos repetir como os adictos que cotidianamente se livram das dependências mancionadas acima: 'só por hoje não vou lucrar', 'só por hoje não vou devastar', 'só por hoje não vou...'&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de toda a leitura e da adequada prática desses 'mantras', será possível dar boas gargalhadas com o humor negro de propostas, muito em moda nos derradeiros anos, chamadas de &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Anarcho-capitalism"&gt;'Estado mínimo' e 'Anarco-capitalismo'&lt;/a&gt;: no sentido correto, falar de um Estado minimizado é sugerir o extermínio de quem o compôs quando foi apenas Estado, ou seja, nosso extermínio; enquanto 'Anarco-capitalismo'&lt;a href="http://www.daviddfriedman.com/Libertarian/Machinery_of_Freedom/MofF_Chapter_29.html"&gt; pode ser&lt;/a&gt; uma maneira de anunciar o exercício do poder sem intermediários, no caso, sem a máquina de governar, ou seja, é a proposta da tomada do poder pelas grandes corporações, de modo que, agora sem constrangimentos, cada parte num litígio contrate seu próprio juiz ou empresas de segurança concorrentes, é claro, mais ou menos justos ou mais ou menos eficientes segundo o poder aquisitivo de cada cada litigante, e que o salário resulte da 'livre' negociação de patrão e empregados, exatamente como foi o caso até o início do século XX, quando era comum a jornada de catorze a dezesseis horas de trabalho e remunerações que mal pagavam uma cama num quarto coletivo de pensão. Por falar nisso: não deixe de ler Stirner, contemporâneo de Marx cujo anarquismo difere dos demais que mencionei por não ser visionário, no sentido idealista do termo, mas profético - e o nosso tempo não parece medir esforços para adequar-se às suas sombrias antevisões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, eu apenas digo, sem partidos, sem governos. Ou melhor: apenas sugiro. O resto compete a cada um de nós, individualmente, sendo mais proveitoso, caso o façamos, que o seja em totalidade, de uma só vez e o quanto mais rápido, melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Força! E um abraço,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar M. Reis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 17/02/07&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-2953591156845046422?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/2953591156845046422/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=2953591156845046422&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/2953591156845046422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/2953591156845046422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2007/02/carta-annimo.html' title='Carta a Anônimo'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-8895410465980744968</id><published>2007-02-14T06:40:00.000-02:00</published><updated>2007-02-28T01:11:01.652-03:00</updated><title type='text'>Outro comentário</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;i&gt;aposto a outro texto de &lt;a href="http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2007/02/resposta-olavo.html"&gt;Rodrigo Constantino&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;i&gt; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;Prezado Constantino,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É com admiração que testemunho sua bravura num debate inteiramente inútil por diversos motivos, os quais, para não me estender demasiado em enumerá-los, separo em duas classes: pessoas erradas e métodos inadequados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao menos com respeito ao Olavo você já formou opinião mais cabível do que aquela que disse nutrir até há pouco. Também eu o admirei, mas por menos tempo, digo, por duas ou três matérias suas na revista Bravo, creio que ainda nos anos 90. Tinha como razoáveis também dois panfletos seus, dos tempos em que ensinou astrologia, versando - se não me falha a memória - sobre o modo de estruturar o conhecimento na Idade Média.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É precipitado afirmar que ele, Olavo, nada conhece, mas faz tempo tive recusado artigo que enviei para o Observatório da Imprensa, creio que por demonstrar, por intermédio da análise de alguns de seus textos de então, sua progressiva loucura: se não fosse esse o caso, concluí, decerto o 'filósofo' continuava, no meu entender, como membro privilegiado de alguma célula comunista encarregada de contra-informação (sabe-se o quão importante essa atividade é na esfera da política em geral). De muito tempo para cá que os seus textos vêm tendo a clara função de confundir. Do contrário, estarão sendo mesmo a expressão cristalina de pouco equilíbrio mental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu dizia, não é que ele nada saiba: seu problema é como utiliza o que pensa saber, particularmente no assunto filosofia (na política suas teses não passam de piadas que surtiriam o devido efeito nas mãos de alguém com melhor humor). É bastante ler algumas de suas páginas sobre Descartes para se ter uma idéia da confusão que faz. Sua amizade com o saber tem todos os sinais da perfídia, como se fizesse do amigo anteparo para não o vermos, Olavo, como de fato é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respeitante ao tópico método, trago aqui a súmula de uma meditação que faço - na tese em preparo para doutoramento em filosofia - sobre a palavra de Paulo em Hebreus, 11. 1: "a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vêem". Em meu entender, trata-se de definição admirável: sem fé, quer fazer-nos Paulo entender, ciência alguma teria lugar no pensamento do homem. O interesse de apresentá-la aqui está no modo como fé e razão podem ou devem ser encaradas, a partir da definição paulina, como duas facetas, ao que parece, reciprocamente necessárias, de um mesmo fato, a saber, a capacidade cognitiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por pura fé, costumo observar, que você, eu, todos nós, ousamos dizer que daremos o próximo passo, teclaremos a letra seguinte ou convenceremos um dia outrem do que temos por certo, não obstante nada, rigorosamente nada, nos garanta que o façamos: por isso "é o firme fundamento das coisas que se esperam". Em meio ao que esperamos também estão todos os objetos ou fatos obtidos por intermédio da indução, os quais, como insistentemente e bem você tem lembrado, segundo a advertência de  Popper, clamam por refutação: por isso "é o firme fundamento', pois sabemos com firmeza - já nos disse Aristóteles, na Metafísica, 2.II - que embora se esconda, a Verdade (acho o termo um tanto forçado) não logra fazê-lo de todo, ou seja, se não por inteiro, algo dela chegamos a conhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que não é a indução senão "a prova das coisas que não se vêem"? Razão e fé constituem um contínuo e, em vista do quanto conhecemos do mundo e de nossas pretensões quanto ao que no futuro conheceremos, com segurança posso afirmar que fazemos mais uso do âmbito da fé do que daquele da razão. A razão é feudo exíguo e brumoso do qual pouco se pode afirmar sem risco de contradição, de paradoxo. É cercado de terras tidas por intermináveis, incogoscíveis, e cobiçadas por seus habitantes: os domínios da fé. E por mais que o senhor do feudo busque estendê-lo, tem a impressão de mal saír do lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É donde se destila a razão: a fé. A filosofia lhe deu variados nomes, entre os quais tenho especial apreço pelo de 'Vontade', tanto no sentido de Boehme quanto no de Schopenhauer. A despeito de todos os esforços, o melhor racionalismo não conseguiu sequer localizar esse impulso a pôr-nos incontinente para a frente e a fazer-nos supor do mundo mais do que podemos provar, digo, mais do que podemos experimentar com os sentidos (pois as suposições só se provam ao contato imediato com algum sentido, ou melhor, quando o suposto é por fim medido). O cérebro (e creio que não apenas o humano) é literalmente uma máquina de produzir fé. O cérebro e todo o organismo. Nele são armazenadas as sensações obtidas ao contato (sempre suposto, arre! solipsismo insidioso!) com o mundo. Ali o amplo espectro de dados fornecidos pelos sentidos é vertido numa mesma 'linguagem', com a qual lida a mente, constituindo, a partir daí, a consciência e a presunção de futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A razão, por sua vez, só se firma após o erro. Se nos mantemos vivos neste mundo inóspito (nós, que nos desprovemos de tantos de nossos instintos em nome da razão, por demasiado confiarmos nela), se continuamos vivos aqui é graças ao erro de milhões, que pisaram em falso, que se envenenaram por se terem lançado precipitadamente ao que lhes aprazia à vista, que mergulharam para sempre em miragens. É preciso dar o passo, mesmo no escuro, na névoa, e é preciso enfrentar o inesperado por se ter adiantado, mesmo tão pouco. E nada de mau pode acontecer, ou pode acontecer o pior, digo, o melhor, pois em seguida a isto é provável que nada mais venhamos a saber: quando dermos o passo final, sempre levados pela fé (ou pelo que dela se destilou em razão), não nos daremos mesmo conta de o termos feito. E isso me parece bom!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como, então, demolir o continente sem pulverizar o feudo no seu interior? Como, digo mais, conter o irrefreável? O objeto natural sobre que se aplica a fé é Deus. Ele é sua hipótese irrecusável e sua tese irrefutável: daqui, em meio à torrente de causas e efeitos, como não descambar, por pura curiosidade, no precipício onde supomos estar o começo de tudo e como resistir a essa certeza cega de haver um princípio, já que tudo à volta parece-nos principiar e terminar? Afirmar haver-se desfeito da própria fé e viver-se tão-só da razão é uma das mais tristes mostras de impostura já conhecidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desse modo entendo, Rodrigo, a enxurrada de protestos - mesmo os mais atabalhoados, como o do Olavo - e de elogios às suas recentes meditações sobre o ateísmo: quiçá por experiência, os primeiros vieram decerto de quem não suporta imaginar-se destituído de sua fé, enquanto os segundos são coisa de quem sustenta, algo borracho, risonho, portanto, sua dissimulação como se de fato conseguisse manter-se de pé sobre as pernas que lhe foram amputadas... Um já experimentou o delírio entorpecido e ridente do outro e lhe conhece o suficiente os resultados para sequer tolerar imaginá-los sem os experimentar dolorosamente com a memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, que significativa diferença há entre a aplicação da fé aos atributos divinos ou àqueles do cosmo? Em face dos modelos de cosmogonia e cosmologia disputanto no cenário da ciência o estatuto de verdade, só mesmo a fé os sustém perante seus autores confrontados pelas convicções contraditoras da sua. Se fosse suficiente em si ou por si, a razão já teria abolido todo e qualquer debate, como esses, formados à volta de suas opiniões, meu caro Constantino: até o presente toda disputa se dá pela circunstância de cada disputante ter fé na razão (e seus procedimentos de consecução da verdade), não obstante essa fé se sustenha nos argumentos apresentados por cada um deles enquanto não advém argumento em torno do qual se constitua consenso e para o qual então se dirigirá a fé de todos. Assim como a do que seja a divindade, a investigação relativa ao universo suscita idênticas antinomias: perguntar pelo criador de Deus não é, em essência, o mesmo que interrogar-nos sobre o lugar dentro de que se expande o universo? Aliás, é a razão, e não a fé, ela mesma, quem pergunta, pois, como o soubemos por Paulo, a fé apenas afirma, dando-nos "o firme  fundamento" do que esperamos do mundo e a prova do que ainda não conhecemos (vemos) e porventura jamais venhamos a conhecer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de objeto de fácil refutação, a fé deve ser alvo de persistente e difícil interrogação: o problema, como sempre, é o modo de a aplicarmos, de a exercermos, não ela própria. Mas isso é algo dependente da índole de cada indivíduo, coisa que, se mal educada, mal instruída, não importa o que tenha em mente o sujeito, será sempre origem de catástrofes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraço,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Reis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/02/07 &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-8895410465980744968?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/8895410465980744968/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=8895410465980744968&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/8895410465980744968'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/8895410465980744968'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2007/02/outro-comentrio.html' title='Outro comentário'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-7037975950782797221</id><published>2007-02-09T00:38:00.000-02:00</published><updated>2007-02-14T07:26:07.962-02:00</updated><title type='text'>Comentário</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span&gt;&lt;i&gt;Refere o texto que se segue ao 'post' &lt;a href="http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2007/02/o-tmulo-do-fanatismo.html"&gt;&lt;b&gt;O Túmulo do fanatismo&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;, escrito por Rodrigo Constantino no blog de mesmo nome&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Rodrigo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em termos de religião, tenho preferido ir ao que considero a fonte de toda moderna contestação religiosa, refiro L. Feuerbach, cujo método difere substancialmente desse de Voltaire, o qual não passa, em última análise, de copioso inventário de inverossimilhanças na mitologia judaico-cristã. Longe de reduzir o fato religioso a apenas uma obsessiva série de mentiras, o alemão tomava isto como evidência, passando incontinente à investigação das forças psíquicas no homem capazes não de produzir (pois toda religião - ou mito - aparece como a ciência possível a um certo tempo, por cujo intermédio pensa o indivíduo entender o funcionamento do mundo), mas de conservar o pensamento religioso em tempos de progressiva prevalência da razão (o argumento condenatório de Sócrates, por exemplo, é de natureza ético-religiosa: pregação de ateísmo para jovens). Há, portanto, em Feuerbach, algo determinando no homem o impulso a considerar a idéia de um ser por trás de toda e qualquer coisa, invisível aos sentidos comuns e detectado por quiçá esse outro sentido, especial e em verdade somatório dos demais, o pensamento, pelo o qual é-se obrigado ao exame de uma seqüência de causas e seus efeitos a cujo termo inicial se dá, como aos elementos incógnitos nas equações da lógica ou da matemática, um valor subsumido e a ser ulteriormente explicitado. Deus, religião, por fim, seriam necessidades ou provas de certos limites, limites desconfortáveis de nossa capacidade pensante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A guinada de Feuerbach é seminal para o futuro século XX (costumo dizer que Feuerbach o inventou). Sem &lt;i&gt;Preleções sobre a essência da religião&lt;/i&gt; (onde mastiga conceito a conceito do resumidíssimo e, por conseguinte, incompreensível para mentes habituadas a apenas crer, &lt;i&gt;A essência de religião&lt;/i&gt;), sistemas como o de M. Stirner, Marx, Engels, Nietzche, Freud, Eliade etc (quase todos negando-lhe os créditos, observe-se en passant) muito a custo teriam vindo à luz. Destes, poucos o entenderam e os que o fizeram aproveitaram-se de seu quase anonimato no fim do século XIX para se apropriarem da nata conceitual de seu sistema. Mas em vez de praticar o iconoclasmo e varrer do interior dos sujeitos os templos erigidos ao desconhecido (pois não passa disso a definição radical de divino) ou à ignorância, Feuerbach sugere reaproveitá-los em atividade positiva, o amor, em substituição à tradicional religião. Funda-se na evidência de estarmos sós, evidência já batida e rebatida por métodos mais antigos do que o seu, como o de Voltaire, por exemplo, não restando senão unir-nos em torno ao que por simples bom senso tomamos como o melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso esquecer de que o tempo de Feuerbach era pródigo em idéias advindas da nascente nação americana e da equívoca Revolução Francesa. Pensadores como Godwin e outros cuja rotulação houve por bem fixar-se como anarquistas, criam estarem os indivíduos em dívida para com ao menos uma das reivindicações revolucionárias, a fraternidade. Seus sistemas, embora políticos, ou seja, referentes à organização das transações humanas com vistas à subsistência como grei e espécie, para terem sucesso deveriam passar ao largo do que até então - e mesmo até hoje - conseguimos praticar no âmbito da governança. O poder tamanho do Estado, entretanto, convenceu forças naturais como Proudhon e rebentos seus menores - Marx, por exemplo - a imiscuírem-se na política quando, por sorte de debilidade moral, creram ser este o único meio de chegar-se ao estágio libertário do ser humano: minando do interior a organização política vigente. Assim como Godwin, que perambulou nas ruas até morrer (embora fosse genro de Shelley, cuja esposa, Mary, concebeu o monstro Frankenstein, de inocência e ética supra-humanas), Stirner tinha em mente a recusa ao recurso político para a transformação do homem e, a despeito de possuir aparência frágil e de exercer o ofício insuspeito de professor de moças, acreditou num egoísmo extremo (o de Feuerbach elevado a potência incalculável), cujo limite seria o potencial violento do indivíduo, desaparecendo sem deixar vestígios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veja só: quando quis falar de religião,  o iconoclasta Voltaire referiu, por motivos óbvios, o ramo judaico-cristão. Já Feuerbach iniciou pelo mesmo lugar (em seu &lt;i&gt;A essência do cristianismo&lt;/i&gt;) e terminou por mostrar como a extirpação do impulso religioso do homem seria algo como arrancar-lhe os olhos: melhor seria reeducá-lo, redirecioná-lo. Poucos foram capazes de entendê-lo, sendo mais fácil permanecer na via voltaireana, como se dela pudesse sair algo diferente de mais um gênero de fanatismo, o dessa razão iconoclasta. No terreno da fé política ocorre algo semelhante: como na história do boneco de piche, todos os que investem contra a 'esquerda' - filhos que são, em geral, do liberalismo, usado à guisa de rótulo vistoso pela classe mercante do nascente imperialismo inglês, mas que nada ou quase nada de liberdade contém, senão quando se possui o conhecido passaporte financeiro franqueando a entrada do indivíduo nesse mundo - arremetem contra Marx e o fazem com tamanha violência que terminam por grudar-se nele, assim perdendo excelente oportunidade de apreciar mais amplamente o deslumbrante panorama das idéias verdadeiramente libertárias cuja sistematização data mui verossimilmente da &lt;i&gt;Utopia&lt;/i&gt; de More. Esse liberalismo puritano, que perdeu a oportunidade de absorver o purismo dos quaker (vide as quatro primeiras &lt;i&gt;Cartas inglesas&lt;/i&gt; de Voltaire), talvez irritado com a índole oportunista e de caráter duvidoso do barbudo e seu mediador, Engels, ou quiçá intentando desviar-nos a atenção do que considera realmente nocivo para si, fixa-se contra o marxismo quando há, para além da exuberância dum Proudhon (de quem Marx cinicamente roubou as idéias), as maravilhas racionais de um Kropotkin ou o gênio coligidor Woodcock. Em vez de patinar nas obviedades de um A. Smith - o mercado é força da natureza etc - que aprendemos nos cursos secundários de economia (no meu tempo o C. Ap. - UFRJ oferecia a cadeira, além de filosofia e psicologia, entre outras, aos alunos do antigo Curso Clássico ou em Ciências Humanas), em vez de dar vazão ao que de inerente há em leviatãs como o mercado e transformar tudo mais, poluindo, matando, destruindo em função de preservar sua 'voracidade natural', por que não domá-lo e deixar as demais coisas seguirem a sua tendência essencial? Por que domar a macieira para dela obter mais lucro e não educar o impulso a tirar vantagens pessoais de todo o possível, o qual gera o lucro? Por que, enfim, em lugar de domar a natureza ela mesma, não domar a natureza humana, essa verdadeira serpente introduzida no espírito do homem à sua saída do Paraíso (com o seu perdão pela metáfora bíblica)?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 08/02/07&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Reis &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-7037975950782797221?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/7037975950782797221/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=7037975950782797221&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/7037975950782797221'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/7037975950782797221'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2007/02/refere-o-texto-que-se-segue-ao-post-o.html' title='Comentário'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-116249647836598840</id><published>2006-11-02T16:41:00.001-03:00</published><updated>2011-11-10T17:12:35.356-02:00</updated><title type='text'>Discurso liberal</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;a Antonio Caetano&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, meu amigo, é uma maravilha esse mundo liberal! Como indica o próprio nome, é tudo quanto pode alguém desejar: liberdade, direito inalienável com que nascemos e pelo qual nos é permitido fazer o que desejamos de nossas existências, até mesmo errar, se assim for necessário ou acaso apenas assim o queiramos. Pois só se é livre quando é possível escolher, inclusive o pior. Sem ser isso da conta de ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou você preferiria o mundo onde alguém lhe dissesse o que fazer, o mundo sem escolha, pronto e acabado a despeito dos seus anseios particulares? Sendo esse o seu desejo, é bom se apressar: não há mais tantos lugares onde tais experiências são feitas e em breve nenhum restará. Mas não vá, depois, reclamar, pois isso é malvisto por essas bandas, se não impossível. Nem me venha dizer que eu não avisei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos pontos notáveis do liberalismo diz respeito diretamente ao significado mesmo do termo. É-se livre para dar-lhe aquele que se acredita ser o mais cabivel. São possíveis tantas idéias liberais quanto houver de indivíduos a concebê-las, havendo para tal, em aparência, somente o limite da interdição ao aparecimento de novas: em vista dessas premissas, a única proibição tolerável por um espírito francamente liberal só pode ser a de proibir, ao menos e em particular a concepção do que seja a liberdade. Semelhante panorama, como é previsível, se apresenta como a convivência, nem sempre pacífica, tampouco inteligível para a maioria de nós, de idéias em franca oposição, em aberto conflito. E ao liberal autêntico, é natural, não inquieta semelhante composição. Do contrário, nada mais livre do que a profusão, ainda que conflituosa, de convicções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dado o fato de tais juízos dizerem respeito, por necessidade, ao modo idiossincrático de cada indivíduo entender e lidar com a realidade, é de esperar o recurso freqüente às vias de fato na dirimição das divergências. É claro, há regras moderando o uso de tal solução, havendo também um sem número de objeções e de reparos às mesmas, propostos com o fito de conservar o equilíbrio ideal de duas forças contrárias (pois no liberalismo, reiteremos, é-se livre para virtualmente tudo que não cerceie seu princípio seminal, o da liberdade), redundando todos no favor incontornável a uma delas. Eis, ouso afirmar, um dos problemas genuínos enfrentados na experiência liberal do cotidiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correntes mais realistas do liberalismo, entre cujos bordões está o uso da silenciosa ironia num dos cantos dos lábios constantemente dirigida aos liberais afeitos ao idealismo, costumam justificar essa insubmissão das regras a todo esforço corretivo como a emergência da lei natural do mais forte, contra a qual é impossível insurgir-se sem pôr em risco a continuidade do princípio liberal. O indivíduo, evidentemente, é livre para manifestar-se como é, e se a posse de maior força é sua condição originária, nada poderá coibi-la sem o fazer de enfiada com sua própria liberdade. É de esperar que num ambiente de liberdade semelhantes situações sejam contornadas de maneiras igualmente livres, mas uma dessas contingências - talvez só explicáveis nas leis da físicas contemplando o comportamento imprevisível de partículas dispondo-se segundo padrões simples e determinados a despeito de se moverem aleatoriamente - tem produzido a adesão em massa, se não total, dos adeptos do liberalismo à convicção de haver também um equilíbrio intrínseco a essa lei natural do mais forte provendo cada indivíduo de força particular cujo emprego adequado pode levá-lo a superar a de outro semelhante. Assim convencidos, professam ou demonstram o livre direito de cada um ocupar, segundo o uso conveniente das próprias capacidades, as posições mais elevadas - as mais cobiçadas por praticamente todos - na estrutura da sociedade liberal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só mesmo um tolo, é óbvio, escolheria viver num sistema não liberal, seja ele qual for (pois não há, para algumas correntes do liberalismo, senão ele mesmo em oposição a uma profusão de versões inconsistentes do seu contrário, o não liberalismo). Onde mais, senão cá, seria possível prevalecer sobre os iguais, ainda que por período incerto? Onde mais se toleraria a submissão senão onde existe a perspectiva de, algum dia e a depender da própria habilidade, submeter também? Há quem prevaleça por lustros consecutivos e mesmo quem o faça por décadas ou séculos e, não obstante contestados e até combatidos, gozem do merecido respeito dos seus contendores, garantido no princípio liberal. Tornam-se história, exemplo, esperança para gerações de submissos no aguardo de suas horas ditosas de preeminência. São, tais ícones, prova definitiva da liberdade de meios usados para atingir os seus objetivos. Para comprová-lo é suficiente consultar suas biografias, cuja reunião, aliás, é o objeto central da ciência histórica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No cerne do pensamento liberal, é consabido, está a noção de erro. Ali o erro é apresentado como o direito maior ao qual fazemos todos jus. Em particular pela compreensão de que a todo erro cometido num certo âmbito corresponde um acerto noutro. Imperdoáveis, entretanto, são os erros do indivíduo cometidos consigo próprio, tidos como manifestação de incontornável fraqueza e merecendo, quando menos, o escárnio universal. Os demais, todos decorrentes da passividade, são inteiramente compreensíveis, tanto que para designá-los adota-se o eufemismo 'engano', pois os cometeram quem procedeu com acerto para si, induzindo os restantes aos equívocos ditos perdoáveis. Sem errar tornar-nos-íamos inertes, seres desprovidos de qualquer desejo de movimento, fadados à sucumbência, se não pela depressão, decerto pelo suicídio. Motivados pelo temor de semelhante marasmo, há mesmo quem admita o perdão para os erros imperdoáveis como alternativa para evitá-lo. Mas os autênticos pensadores liberais, convencidos do império incontornável da liberdade (pelo que nem mesmo preocupam-se com criar-lhe dispositivos protetores), não reservam para estes desesperados senão o mesmo sarcasmo de canto de boca lançado ao liberalismo idealista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seguir á risca o pensamento desses genuínos liberalistas chega-se à conclusão inelutável de que a consideração de outro princípio fundamental da ética que não o da liberdade,  como o da igualdade, por exemplo (precipitadamente associado a ele no fervor renitente de revoluções), é apanágio dos desprovidos da força, da astúcia ou do poder bastantes para alguma vez acharem-se no ponto mais alto na roda de fortúnio, confinando-se indefinidamente à parte submersa da mesma. É o caso de quem não logra escapar de moto próprio ao erro alheio recaindo sobre si ou de quem erra contra a própria pele. Só estes, segundo essa filosofia, são capazes de imaginar, como o faz quem tem sede no deserto, modelos perfeitos de eqüidade com os quais iludem-se em massa, configurando em seu delírio ameaça suficiente para aqueles cujos poder e habilidades para conservá-lo são congênitos. Tendo conseguido mudar de posição em esforço coletivo, dominando quem antes os submetia,  precebem-se, esses fracos, quase de imediato regidos ainda e de fato pelo princípio liberal, reconhecendo como secundários aqueles outros que os guiaram a prevalecerem, passando de imediato a proceder como é de esperar e, caso não hajam aprendido de sua experiência de ascenção a perspicácia para manterem-se onde estão, descambam de volta nos submundos donde a custo se ergueram. Em vista dos fatos, para o liberalismo realista a conclusão óbvia é a de não haver pensamento outro a refutá-lo nem iniciativa alguma a destituí-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 02/11/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-116249647836598840?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/116249647836598840/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=116249647836598840&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/116249647836598840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/116249647836598840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/11/discurso-liberal.html' title='Discurso liberal'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-116094149038583490</id><published>2006-10-15T16:43:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:08:43.069-02:00</updated><title type='text'>Covardes coragens</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Começo pelo óbvio. O fim da imprensa é a divulgação dos fatos. Em vista disso o seu profissional tem por compromisso levar a notícia a todos. Está implícito no sentido de 'divulgar': tornar público, levar ao vulgo os acontecimentos. Mas o vulgo leitor de um jornal é por demais vário, não só em termos dos seus interesses: alguns são mais capazes de entender certas seções do que outros. Quem é versado em esportes ou artes, por exemplo, pode não se sentir à vontade no caderno de economia e quem o vence com facilidade nem sempre está em condições de ligar as manchetes deste ás da política.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho em mente, quando o digo, não a superfície da notícia, como o negócio milionário de clubes de futebol ou do mercado financeiro e um escândalo no executivo. Refiro, no caso, o que está por trás ou no fundo dela, reservado apenas a especialistas. É preciso conhecer mais do que a história recente, as regras básicas do setor noticiado ou o jargão ali empregado. Além disso deve-se estar inteirado do modo de o jornal como um todo ou de cada uma de suas editorias relacionar-se com cada assunto, se adota uma visão genérica de esquerda, se uma mais específica de um partido ou de um político, se professa para o mercado um liberalismo menos tolerante ou se recebeu comissão pela pressão exercida nas negociações para a venda de um atleta. A consideração de tais detalhes faz dos noticiosos espécies de Nome da Rosa ou Pêndulo de Foucault, concebidos por seu autor para diferentes níveis de compreensão, como o do latinista e o do medievalista, no primeiro, o do ocultista, o do historiador e o do escritor, no segundo, e o do apreciador de histórias policiais em ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma outra analogia, não menos plausível, pode ser feita entre a compra de caudalosos jornais de domingo e a de amplos apartamentos à beira-mar. Imaginemos que alguns proprietários nem cheguem a passar do hall de entrada, enquanto outros ocupem exclusivamente o quarto de empregada, a sala, uma das suites ou a cozinha, já que não sabem senão usar essas áreas específicas, mal trafegando pelas demais sem risco de se perderem. A existência de quem ocupe um imóvel inteiro seria improvável. Assim, querendo desfrutar um pouco mais do que investiu, o morador teria de despender quantia adicional com um tipo de profissional que começaria a se insinuar como erva daninha nos sulcos abertos por esse mercado em sua lavoura: um misto de guia para moradias muito grandes e de facilitador do processo de habitá-las.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso dos jornais, a Internet é o campo propício para vicejarem serviços como esses, onde se encontra, por exemplo, o Observatório da Imprensa, líder no ramo com uma versão televisiva. Os demais não se lhe comparam, resumindo-se a blogs ou sites pouco mais complexos e assinados em geral por jonalistas freelance. Freqüentar essas páginas com a esperança de atinar em profundidade com o fato é em geral experiência ambígua. Você pode dar com a razão de uma mesma notícia ressoar diferentemente nos grandes diários, mas se lhe sobra alguma perspicácia perceberá aos poucos que é vítima de mais uma versão do fato: é suficiente que este envolva um patrocinador desses vigilantes da imprensa, seu editor chefe ou um dos principais articulistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada mais natural, pode alguém objetar: assim caminham as coisas. Fotografado de certo ângulo um aperto de mãos formal de dois inimigos políticos pode dar a idéia de uma troca de beijos e são por vezes inconciliáveis os depoimentos do policial, do bombeiro e do transeunte numa cena de acidente. Haverá sempre um sem número de relatos dum único acontecimento e para isso é que existe tamanha profusão de periódicos: para que se possa construir uma opinião. Quem quiser entrevistar-se com a verdade que os leia todos e, caso consiga, produza disso uma média, que será - aplicando-se a mesma lógica da notícia, que nos trouxe até aqui - a sua média privada, tão-só, nem mais nem menos digna de crédito do que as versões donde foi sacada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De sã consciência é impossível refutar semelhante lição da epistemologia do jornalismo. Observá-la à risca é, por outro lado, conceder demasiado espaço para a má-fé circular com o crachá roubado ao ponto de vista legítimo. Sinal inconfundível disso é o tom presunçoso das matérias que, a despeito de não disfarçarem a ciência das parcialidades de seus focos, empregam de cabo a rabo o tom categórico onde a rigor deveriam usar a hipótese ou quando a utilizm fazem dela instrumento de ironia e de equívocos deliberados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O aperfeiçoamento  e  a criação de meios de comunicação vem propiciar ainda mais espaço para essa zona cinzenta da ética jornalística. De modo que, se cumpre o compromisso de divulgar, de pôr o fato à disposição de todos, o periodista sente-se livre para descumprir outro, inerente ao anterior, o de noticiar com verdade. Isto o põe no papel de agente num instrumento cuja força se posta em pé de igualdade com a dos poderes constituídos da coisa pública. Hoje é comum chamar a imprensa de 'quarto poder', estando em seu âmbito de ação - propiciado pelo direito constitucional à expressão livre - a afronta aos outros três. No rótulo, visivelmente pretensioso, a insinuação da cumplicidade com o vulgo vivendo à mercê da instabilidade subsumida na máquina republicana em perene aperfeiçoamento dos seus mecanismos. Na prática, o observador atilado reconhecerá mesmo uma ação em quadrilha no teatro do enfrentamento de legislativo, executivo, judiciário e imprensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao menos como medida cautelar a conjectura de calúnia deve ser igualmente aplicável ao que se diz aqui. De saída por não haver-se mostrado, até o momento, uma prova sequer das acusações feitas, persistindo-se num discurso de caráter demasiado genérico tanto para ser refutado quanto para ser aplicado sem revisão à realidade, que é demasiado fluida. Ademais, a prova a ser apresentada a seguir merecerá, em vista do modo como foi obtida, toda cisma dos espíritos convencidos da sagrada prerrogativa da verdade: um arquivo de texto anexado à mensagem de um amigo em cujo corpo lia-se apenas 'sem comentários'.  Confesso que, a despeito do consabido desafeto do meu amigo pelo governo, não decidi até agora se seu comentário omisso referia a adesão ao conteúdo do anexo, uma carta&lt;a href="http://www2.blogger.com/post-edit.g?blogID=7735935&amp;postID=116094149038583490#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; trazendo revisão da trajetória do presidente - desde os tempos de sindicalista - sob o viés da idéia de covardia, se apontava o evidente equívoco da autora, a ser explicitado mais à frente, ou se expressou a reserva que vem merecendo esses textos disseminando-se pela Internet, assinados por quem lhes recusa a autoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salvo por esta última consideração, de fato desabonadora, a carta é impecável no que concerne às duas anteriores: trabalha com fatos de domínio público que de muitas maneiras ensombrecem a biografia de Lula e de forma ingênua é também a confissão de crime não menos grave do que os alegados ao longo da acusação. A escrita fluida, em tom indignado, não se acanha de pôr à mostra o que se lançou sob a mesa de negociações de dois dos quatro poderes até o rompimento do seu contrato. É como o cônjuge que, no acicate de uma rusga doméstica, lançasse sobre o outro toda a bile acumulada em anos de seguida  transigência. Se a origem e a autenticidade do documento são incertas ou muito provavelmente ilegítimas, salva-o do descrédito absoluto o que contém. E ainda que se  o considere como peça ficcional, é emblemático de circunstância corriqueira, embora nem sempre tratada com a devida sinceridade ou coragem. Afinal é preciso haver dose suplementar desta em quem assina a confissão de sua parte num crime público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo a autora, somos todos covardes, mas o plural do pronome indica a classe jornalística. Coragem mesmo só a do presidente: que editou medidas de exceção "para deixar na impunidade banqueiros que cometem crimes diários..." e para " castrar a informação que diz ao povo que seu tesoureiro de campanha passou dos limites...", "que apesar de suas limitações intelectuais sai por aí dizendo que Napoleão foi à China, fato que nem a criativa e rica literatura de cordel registra, e que a  Namíbia nem parece África porque é limpinha" e "que mesmo depois de ter enganado 53 milhões de pessoas prometendo mudanças para deixar nosso povo menos miserável, ainda pretende ficar no poder por muito tempo". Mas antes de tecer esses 'elogios' finais ela atingiria o ponto crucial do argumento, referindo-se à sua classe profissional: "somos covardes porque douramos sua biografia, colaborando para que o senhor conquistasse  o posto máximo de nosso País e hoje não pedimos desculpas ao povo brasileiro porque criamos um ídolo de areia".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, perguntei-me (ainda perplexo, ao terminar a leitura desse bom texto escandido em brados duma indignação mestiça, tão brasileira), quais seriam os álibis na defesa ou os atenuantes na condenação de réu confesso de falsidade ideológica? Considerei em seguida a possibilidade de lhe serem concedidos os prêmios por delação assim completa, que não omitiu sequer um nome. Pensei, por fim, no destino condescendente de hábito oferecido pelos integrantes dos poderes àqueles seus pares apresentando desvios da norma que obriga a bem ensaiada insinceridade de suas funções. Há coisa de um ano um parlamentar ofereceu-se ao suplício público pretendendo arrastar consigo todo o legislativo e com ambíguo heroísmo propiciar-nos sua desinfecção. De seus propósitos, em grande parte frustrados, vem persistindo incólume, segundo parece, ao menos um: o de não ter sido em vão o seu sacrifício. Quanto à jornalista, poderia ter-se restringido em sua carta aberta às 'coragens' do presidente, omitindo as covardias de sua classe profissional, em maioria já inencontráveis nos labirintos da curta memória nacional. No entanto, listou-as todas, redimindo-se a exemplo do legislador cassado. Para terminar, faço público um único desejo: o de que essa moda pegue!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 15/10/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Reis &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="http://www2.blogger.com/post-edit.g?blogID=7735935&amp;postID=116094149038583490#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;Encontrei no Google o endereço da carta, no blog da jornalista &lt;a href="http://www.memeliamoreira.com/2004/08/covardias-carta-ao-presidente-lula.html" target="_blank"&gt;Memélia Moreira&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-116094149038583490?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/116094149038583490/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=116094149038583490&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/116094149038583490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/116094149038583490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/10/covardes-coragens.html' title='Covardes coragens'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-116025492809778103</id><published>2006-10-07T18:02:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:08:21.317-02:00</updated><title type='text'>Execrável Matriz Ancestre</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A imaginação comum fez da trilogia Matrix espécie de herdeiro de Admirável Mundo Novo. Em vários pontos os dois argumentos se parecem, podendo dizer-se que o da primeira é descendente legítimo de idéias no segundo, embora gerado sob os influxos de forças semelhantes àquelas que desnaturaram gerações sucessivas em Hiroshima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A despeito de as novidades da Genética no correr da última década fazerem inegável eco à fábula de Huxley, a hipótese de gerar humanos em laboratório, assombrosa até o terceiro quartel do derradeiro século, já merece hoje os olhares complacentes da mulher moderna, visivelmente avessa a concatenar os percalços da maternidade com a crescente paleta de ocupações a seu dispor. Mas ainda inquieta, à vista dos rumos tomados pela sociedade, a solução dada no livro à especialização das funções de cada indivíduo no tecido social, fincando-a profundamente em sua condição física. Eis por que se qualificou de admirável semelhante mundo: pela circunstância de, em sendo de fato execrável, sê-lo de modo tão perfeito que ninguém se dá conta (pois não o pode).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Matrix não se faz por menos. Vive-se numa sociedade livre, digo, na qual é possível escolher como e em que se atua, embora tal não passe de ilusão, de realidade meramente virtual, existindo o indivíduo em estado não menos vegetativo do que aqueles no romance do inglês. Pouca diferença há, convenhamos, entre permanecer imerso numa variante de líquido amniótico em útero metálico e possuir no sangue a tolerância a concentrações letais de substâncias permitindo o trabalho na indústria química, entre sonhar em sono perpétuo um mundo perfeito e fazer parte de outro que não se é capaz de entender em virtude de sua programação sócio-biológica, ou entre existir apenas enquanto se possui energia bastante para suprir a carência de máquinas superpotentes e nascer com uma expectativa de duração calculada em função de sua utilidade num mecanismo social estático e inextinguível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato de as duas histórias serem ambientadas no futuro não esconde de um observador imparcial ao menos dois eufemismos, ironias típicas do fazer literário. De saída, entrevê-se em ambas advertência: a despeito das melhores intenções estaríamos conduzindo o mundo ao paroxismo pelo abuso de conceitos como o de ordem social, na obra de Huxley, e por excessiva idealização do papel da máquina  na vida humana, em Matrix. Menor ingenuidade permitiria descortinarmos intenção menos benévola nas condições hodiernas para a ocorrência futura de semelhantes panoramas e levar-nos-ia à admissão de que estes, sim, são objetos de nosso desejo faz tempo: sempre quisemos, cada um de nós, um mundo bem ordenado, com todos ocupando os lugares que lhes cabem, mas desde que tenhamos garantido, individualmente, algum privilegiado para nós, é claro. Em seguida, considerando-se a natureza hiperbólica de toda metáfora, conclui-se que as duas obras são retratos atenuados da realidade e não de um desejo ocluído por nossa auto-complacência. Temos vivido, desde sempre, seja num execrável Mundo Novo, experimentando em nossos corpos todas as limitações - em maior parte despercebidas, embora não indolores - impostas pelo funcionamento da sociedade, seja num universo virtual donde não atinamos para nossa verdadeira condição dormente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tecnologia espetaculosa, em ambos os casos, é irrelevante: sempre possuímos a suficiente para manter nossa realidade como tal ao longo de séculos. Haja ver, por exemplo, a ferramenta por excelência do controle recíproco de um indivíduo por outro, refiro a educação, pela qual se é levado a restringir paulatinamente, desde a infância, o crédito por natureza outorgado às  potencialidades pessoais. O ato de ensinar tem-nos oferecido um modelo de mundo demasiado inflexível, particularmente em aspectos cuja organicidade é necessária (o caso, entre outros, da opulência material, sempre canalizada para um número restrito de beneficiados), enquanto em outros o que é por natureza inamovível toma-se por mercadoria de valor incerto, variável conforme a oportunidade (caso dos princípios - éticos - na raiz de toda relação do indivíduo com o meio). Na origem de semelhante inversão está o entendimento equívoco da idéia de individualidade, em constante promiscuidade com a de egoísmo. E tal ocorre pela incapacidade generalizada de resistirmos à ocasião de em detrimento de um semelhante valermo-nos do mesmo para atingir fins tidos à primeira vista como benéficos. Resulta daí um mundo de fixidez errônea, no qual idéias intuitivamente tidas como boas, como a de solidariedade, cumprem função exclusiva de meras figuras de retórica por cujo intermédio é impossível inteirarmo-nos de nossa condição real. É como a droga chamada soma, na sociedade huxleyana, ingerida ao sinal da menor angústia (essa porta sempre aberta à perscrutação do indivíduo em sua relação com o meio): quando inquietados recorremos sempre à esperança de uma vida mais justa, do entendimento racional e, por isso mesmo, afetuoso entre os membros da comunidade, de algum dia lograrmos enunciar com precisão os princípios lastreando todos esses nobres e belos anseios. E perdoe-me o leitor que aqui tenha vindo em busca de semelhantes consolos por não lhe ser oferecido sequer um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 7 de outubro de 2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Reis&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-116025492809778103?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/116025492809778103/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=116025492809778103&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/116025492809778103'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/116025492809778103'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/10/execrvel-matriz-ancestre.html' title='Execrável Matriz Ancestre'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-115857431922407952</id><published>2006-09-18T07:03:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:07:12.495-02:00</updated><title type='text'>Melancolia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A idéia de depressão traz a mim a lembrança de uma charge, se não me engano, do Sempé, monumentalmente estampada em duas páginas de um número dedicado à literatura latino-americana da antiga revista Status. No traço descuidado e sujo típico da caricatura do século XX, mas nem por isso feio ou ininteligível como o foram muitos da sua espécie, divisavam-se, do alto, blblioteca ocupando todas as paredes de um enorme salão obscurecido e, quase perdidos na imensidade da detalhada garatuja, duas personagens assentadas sobre poltronas fartas. Apenas uma delas fala e discorre sobre os seus motivos para evadir-se da depressão, a frivolidade dos quais  a deprime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou de opinião que o deprimido só tem mesmo solução para o seu mal na folia - com o perdão pelo galicismo, mas ele ilustra suficientemente bem uma face do comportamento que a moderna psiquiatria diagnostica como doença bipolar. Nos termos de Sempé, dir-se-ia que o doente adere aos motivos inconvicentes ou permanece melancólico, pois não os há de outro tipo. E tal adesão só se verifica quando o sofrente o faz com todo o seu ser, digo, de modo frenético, estado cuja duração é medida na razão direta de sua resistência física: se o sujeito tem sorte, há falência orgânica; se não, um repouso temporário é o prelúdio para, caso encontre motivo, retomar o desvario ou, no caso contrário, intoxicar-se outra vez com a bile negra. Afora essa, à inteira disposição de espíritos menos exigentes ou mais necessitados, há soluções mais demoradas, da ordem das terapias propriamente ditas, e que requerem, se não maiores refinamentos, por certo boa dose de determinação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho alguma experiência no assunto, claro, como padecente e, de quando em vez, como leitor de doutas opiniões na matéria. Conheço a envolvente gravidade das razões depressivas, bem como a trivialidade exasperante das que as combatem (assim vistas do viés de quem se deixou convencer pelas anteriores). É efetivamente impossível escapar ao assédio das primeiras quando se sobrevive um pouco ao corte do cordão umbilical (não estou sendo hiperbólico, visto o corpo recém-nascido, a descoberto dos cuidados automáticos do organismo materno, já ser provido do arcabouço sensorial na raiz do fato depressivo, pelo qual tem de, doravante, chorar quando tem fome ou frio, ao menos). Entretanto, talvez em virtude do período de formação do indivíduo, ao longo do qual constitui e consolida essa parte sua mais afeita aos motivos depressores, falo da razão, só quando adulto virá discernir dos demais sabores à sua disposição o amargor característico desse mal, dar-lhe-á um nome e perceberá que sua saída está em abrir mão disso que lhe concedeu a maturação, em retornando a um estado mais próximo do inicial, grandemente desconfortável quando se está em contato com quem não reconhece ou aprova essa via terapêutica. Há quem, como eu, encontre modos aceitáveis do viés da sociedade de alternar a inexorabilidade da tristeza com uma atividade física radical, no caso, um esporte, mas há quem encontre solução em exasperar-se com os entes queridos até as vias de fato ou com os opositores numa tribuna e quem consuma drogas ou se exaura em sexo para não se entregar ao fim decerto o mais lamentável reservado a um vivente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além do padecimento de intermitentes depressões, minha experiência na área tem sido larga como testemunha de crises alheias. Uma destas arrastou-se por anos, cerca de doze, mas eu a assistia demasiado próximo para só lhe extrair os ensinamentos mais de década depois. Tratou-se de um construto cuidadoso, muito bem justificado (pois era indivíduo de enorme inteligência quem o fez) e cuja raiz se alimentava do truísmo que, não obstante de presença insidiosa em todos os instantes da vida, só à razão maturada caberá defini-lo assim: há sentido, sim, pois correm as coisas umas com as outras, umas após as outras, em diversos encadeamentos, sendo impensável negá-lo; mas não há finalidade, justo em virtude desse mesmo encadear-se de coisas, ou seria preciso estabelecer aí um ponto terminal (algo que, diga-se &lt;i&gt;en passant&lt;/i&gt;, é preciso tanto coragem quanto desespero bastantes para fazer!). Em suma, nesta, cruamente demorada, tanto quanto nas demais depressões, passageiras ou não, a que assisti, reduziam-se os sintomas à simples formulação do efêmero. Em aparência noção excessivamente geral para dar conta da diversidade de melancolias, é suficiente considerar-se o que lhes serve de estopim, os aliciantes motivos no cerne dos quais esconde-se ao menos um 'não': 'não é possível', 'é inviável', 'não consigo', 'não deu'...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A depressão ataca fundo a segunda das virtudes teologais, a esperança, a qual não passa do modo de a primeira, a fé, manifestar-se. Em meu entender, fé é instinto sem o qual a idéia de vida não se consuma: estar vivo é o mesmo que ter fé, que é o dar o passo sem a certeza de sê-lo possível ou o continuar por continuar, por ser assim que se foi feito, para a continuidade. Já a esperança é a presunção de que o passo a ser dado possa ter finalidade outra que não o dar o passo mesmo: a esperança é como a cenoura pendurada à frente do burro por quem o monta. Pois bem, e o deprimido é aquela montaria que entende ser impossível morder a isca, aliás, já nem a considera como tal, mas como a fonte de seu tormento: e então empaca. Justo aqui melancólico e eufórico se separam, digo, é precisamente no modo de agir diante da cenoura que o eufórico pode desfrutar da graça efêmera da folia: basta acreditar - ou mesmo fingi-lo de si para si - que, sim, é possível alcançá-la, pois, ora, é de fato mais agradável essa crença do que a contrária. E, como que por milagre, assim pensando o nosso burrico é capaz de fazer-se em alazão, embora com tal arroubo arrisque surpreender seu montador, derrubando-o e à cenoura, a qual poderá, finalmente, ser degustada, mas ao custo da decisão previsível do dono de não usar tão cedo da artimanha, pelo que ao burrinho folião as cenouras parecerão mais apetitosas quando eternamente diante dos olhos do que eventualmente dentro do estômago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O deprimido obstinado tem uma de duas sentenças: aguardar que nada em si ouse o passo seguinte, o último dos quais será dado pelo coração, ou estabelecer uma data para sair de cena (conheci alguém que elaborou o enredo exato para convencer a enfermeira a levá-la ao terraço do prédio, donde se lançou). A última alternativa, é bem verdade, um deprimido convicto das razões de o ser a rechaça com a alegação de que nela encontrou-se ao menos uma esperança e se a fisgou como fez o burro com a cenoura, com a vantagem de essa estar envenenada, poupando-o da futura decepção pela ausência provável de mais iscas. Mas o deprimido convicto também não escapa às próprias críticas, pois no fundo espera que, morta a esperança, morra-lhe de imediato a fé (sim, não é a esperança, mas a fé a última a morrer, visto que o sistema basal parece insistir em seu trabalho meramente orgânico quando à consciência faltam objetos que esperar). Ao &lt;i&gt;soi disant&lt;/i&gt; deprimido autêntico (como o da charge do Sempé), no entanto, não se pode imputar a infidelidade aos princípios, reconhecidamente universais, de sua depressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal acusação se aplica do mesmo modo aos que escolhem a euforia: são rigorosamente fiéis aos motivos que os agitam, motivos esses, reitere-se, idênticos àqueles do melancólico e tão prosaicos como uma cenoura. Está livre de erro, portanto, a ciência médica ao vê-los como faces de uma mesma moeda compulsivamente lançada ao ar. E sustentarem-se como tais, eufóricos e deprimidos, é questão da resistência orgânica de cada qual, devendo o estado de um ser substituído pelo estado oposto enquanto o corpo o permitir. Há, não obstante, um modo de evadirem-se desse jogo, existindo quem o faça como que por natureza, embora o comum seja topar com quem o conseguiu em longo e continuado esforço. Trata-se de estado intermédio, não estático, tampouco eqüidistante de tristeza e folia por isso mesmo: quem nele se encontra não se torna imune a uma ou à outra, sendo capaz de experimentá-las alternadamente como qualquer indivíduo, mas com o privilégio de não se ver enredado por nenhuma. Chamam-no de indiferença, frieza e insensibilidade, havendo também quem escolha formas menos parciais de nomeá-las, como beatitude, ataraxia, nirvana e satori, e quem aprecie as designações oriundas da clínica psicoterápica, dizendo que se está em alta, que se tem o passe, ou da clínica psiquiátrica, onde o alcunham de dopagem. À exceção dos pacientes psiquiátricos, aos quais em sã consciência não se pode atribuir a experiência de alguma emoção, aqueles cujas imunidades à bipolaridade foram conseguidas por esforço próprio experimentam uma dificuldade singular: a de conservarem-se como estão, pois permanecem à mercê das forças que tangem para lá e para cá deprimidos e eufóricos, sendo por elas testados sem pausa, a ponto de terem de habituar-se a viver em dúvida quanto a terem ou não conseguido o que pretendiam, considerada melhor do que a certeza, que lhes acarretaria presunção ou frustração e os conduziria de volta à roda de excitação e infortúnio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As fórmulas para aí se chegar são variadas, havendo particular predileção pelo divã psicoterápico e pelas práticas originadas em culturas asiáticas, entre as quais a meditação, sem falar nas farmacopaicas, legais ou não. O espírito cristão, por outro lado, desperdiça hoje, resultado da ignorância apondo toda sorte de estapafurdice à singeleza da doutrina original, as propriedades balsâmicas da caridade, terceira das virtudes teologais, indo buscar na compaixão budista sucedâneo eventual, com a desvantagem de esta não se encontrar tão imiscuída nos códigos de sua cultura quanto a outra. Pondo outra vez de lado as conotações de teor místico ou religioso, parece-me evidente que, assim como a esperança é a fé provida de objeto, a caridade vem a designar o objeto mesmo a nutrir (a dar corpo a) a esperança. Entendido como apenas outro nome para esmola, o termo caridade tem servido a cada dia menos como auxílio para se atingir a beatitude, o estado para além de bem e mal. Observando-se, entretanto, alguns dos seus significados anteriores, encontra-se ali a idéia de 'caro', designando tanto preço alto quanto afeto, sendo a dádiva, em particular a monetária, um modo relativamente eficiente de o indivíduo demonstrar, na esfera social, o presumido cultivo desses dois valores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso, acredito, reside o maior entrave do sujeito à solução de sua durável condição bipolar, visto parecer o mesmo para o seu semelhante que ele de fato a tenha superado ou que apenas o aparente. O recurso às drogas legais recende um pouco a essa idiossincrasia social, restaurando a tranqüilidade do meio - o grupo - e do indivíduo enfermo, embora sem qualquer controle deste sobre seu novo estado e a um preço ainda desconhecido em termos orgânicos. (Essa observação ajuda a entender o porque de a religião ter sido refinada como sorte de opiáceo popular.) A considerar a tendência orientando toda iniciativa em nosso já bem sedimentado hedonismo tecnológico, por meio do qual o homem não mais necessitará demover de moto próprio qualquer obstáculo de seu caminho, é provável que em breve tenhamos de receber a primeira geração de seres geneticamente planejados sem propensão alguma à melancolia. E parece natural que os queira também imortais, como se demonstrasse a ciência, por intermédio de seus admiráveis artefatos, a ingênua crença de o nirvana - o paraíso - ser mesmo aqui, bastando apenas povoá-lo de quem o tolere indefinidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 17de setembro de 2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-115857431922407952?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/115857431922407952/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=115857431922407952&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/115857431922407952'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/115857431922407952'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/09/melancolia.html' title='Melancolia'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-115610459358516763</id><published>2006-08-20T17:07:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:07:42.317-02:00</updated><title type='text'>O que dizer de Bertold?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Personagens para quase-atores: o corpo é a parte visível do fantoche, em cujo interior a mão do texto atua. Por vezes o boneco se insurge contra o que o anima, por outras ri-se de sua vida fajuta, canta e suspende com sarcasmo o próprio roupão em cumplicidade com a platéia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cenas para quase-público: ninguém se convence mesmo de o boneco ser alguém. Tampouco se quer senão resvalar no real, fazer pouco dele, atitude única cabível à massa de impotentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verdades para quase-crenças: dali, distando umas poucas portas do restante do mundo, quem acreditaria nessas falas que não dizem muito, quem ousaria dar fé de sua frágil mensagem se, passada a farsa, retornarão todos para suas casas, passando por calçadas, miseráveis, meliantes, rufiões, sacerdotes, ou no interior de ônibus e táxis observando automaticamente manchetes sangrentas, coexistindo em inevitável harmonia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 20/08/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-115610459358516763?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/115610459358516763/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=115610459358516763&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/115610459358516763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/115610459358516763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/08/o-que-dizer-de-bertold.html' title='O que dizer de Bertold?'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-115554323194873358</id><published>2006-08-14T04:51:00.001-03:00</published><updated>2007-02-09T20:09:44.648-02:00</updated><title type='text'>Estado paralelo: nota sobre o sumiço de um conceito</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A imprensa anda esquecida de uma expressão que utilizou largamente há coisa de ano, mais ou menos: 'Estado paralelo'. Creio não ser essa uma questão de memória, algo de que ela não carece, em especial nos momentos de maior inconveniência, ou melhor, nos momentos convindo com o seu propósito máximo, o de ganhar a atenção do público pelo uso do escãndalo, da celeuma, em suma, em detrimento da reputação de alguém ou de algo que, não raro, faz por merecê-lo. Pois bem, a curiosidade é aguçada pelo misterioso e recente desaparecimento do conceito, quando seu cabimento, ao menos de acordo com a acepção a ele dada inicialmente, parece maior em vista da circunstância. O extremo poder e a afinada tática dos grupos pondo em xeque o &lt;i&gt;establishment&lt;/i&gt;, enfim, justificam, quando não exigem, o retorno às manchetes da mencionada expressão, embora ande ausente mesmo do corpo de reportagens, matérias e editoriais concebidos em tamanho e forma para desviarem o interesse ou a atenção do leitor e onde costumavam esconder-se os usos de uma já antiga e desusada subversividade, hoje ocupando os assentos antes ocupados por seus perseguidores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em conversa com os meus botões ponho-me a especular sobre a natureza de semelhante sumiço e, dando azo ao já tênue espírito científico restado em mim, concebo as hipóteses a serem dirimidas ou verificadas ao longo da investigação. Ocorre-me de primeiro a suspeita de os usuários da conjunção de termos haverem anuído a alguma criteriosa recomendação saída dos gabinetes governamentais apontando-lhes, por um lado, o visível disparate e, por outro, o risco do largo emprego da mesma. Em seguida obriga-me o rigor da ciência considerar a possibilidade de, surpreendentemente, terem-se dado conta os jornalistas da extrema amplitude de sua significação, pelo que findariam contrapondo ao tradicional, grego, novo modelo geométrico cuja consistência não estão habilitados a demonstrar. Por fim, quer por falta de imaginação, quer pela debilidade de minha ciência, as conjecturas acima pareceram-me suficientes na ocasião e, caso não esgotem a matéria, constituiriam suas sucessoras no correr do exame.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que oriunda de outra fonte que não a governamental, a sugestão de suprimir o uso imoderado da noção de Estado - ou Poder - paralelo se mostra de pleno cabimento, além de evidente, pelo que não me furto à imaginação de haver-se originado na própria autocrítica dos profissionais de imprensa (não obstante custe-me acreditar que sejam dados a arroubos semelhantes da contrição).  A razão de tal, caso não haja o leitor atinado ainda, é o fato de um Estado, seja qual for, desprezada a sua localização em uma das infinitas paralelas possívels num teórico plano euclideano, manifestar-se em princípios ou em estrutura de modo uniforme, isto é, constituindo os mesmos poderes aos quais costumamos assentir (nem sempre de bom grado, diga-se de passagem!), incluso este mais hodiernamente reconhecido como o quarto deles, com o que o jornalismo estaria, em suas invocações da idéia, considerando hoste igualmente numerosa de símiles opositores que, por não se manifestarem abertamente, reclamam, se pouco, grande cautela na abordagem. Motivo análogo teria o governo, nesse caso relativo a si mesmo, para a indicação, donde se deduz o que pensa da própria solidez, suas bases, seu alcance. Pois qual poder se aquieta frente à consideração de medrar no interior do que o suporta pelo sufrágio - aos próprios pés, portanto - concorrente do qual não possui a visão sequer pouco nítida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda das hipóteses mostra-se pouco verossímil se comparada com a anterior. Esta afirmação se faz em vista do escasso pendor analítico necessário para o exercício do jornalismo, não obstante os esforços de seus profissionais em extraírem minérios imaginários desse veio efetivamente ausente de si. É provável, entretanto, haver existido algum obscuro colunista de ciência a lhes alertar para as implicações do conceito de Estado paralelo, cuja observação os conduziria, se não ao paradoxo, decerto ao revisionismo sem termo, à imitação do científico. E nada causa tanta espécie ao jornalista quanto avaliar as conseqüências, para lá de uma ou duas encadeadas às pressas, de seja o que for, sem falar, naturalmente, na série de causas, tão aferrado está a esse eterno presente seu, cujo nome genérico é &lt;i&gt;'o fato'&lt;/i&gt;. Na certa auxiliado pelo mencionado cronista da ciência ou por algum lingüista de plantão, entreviu a rede inefável de conceitos a que se pode aceder partindo-se da acepção para a qual a expressão foi cunhada, a de um poder estabelecido quando da ausência ou inexistência de poder outro a sobrepujá-lo, ou melhor, a daquele poder estabelecendo-se em simultaneidade, equivalência e em detrimento de um outro concebido como 'oficial'.  Entendeu assim a série de admissões a que era forçado tendo partido daí, como a de serem todos os outros Estados do mundo, quaisquer, litigantes ou não, reciprocamente paralelos, não apenas aquele contemplado na singeleza da acepção primeira que procurou dar à expressão. Fosse, então, tomar aqueles como toma este, sendo, como são, todos Estados, o poder jornalístico em geral deveria incitar os demais poderes dos seus respectivos Estados a darem tratamento equivalente ao dado ao Estado paralelo - na primeira acepção - aos restantes Estados, pelo que é fácil deduzir que estaríamos em condição de guerra constante (situação em pouco diferindo da usual entre os homens), haja ver os males e desconfortos em quantidade infligidos reciprocamente pelos Estados, em particular os cognominados oficiais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ademais, seguindo-se à risca a definição acima de Estado paralelo, leva-se adiante a meditação do alcance real do poder dum governo qualquer. O cronista científico deve ter conduzido o seu colega de redação aos labirintos dessa especulação, demonstrando-lhe, por exemplo, o quão pouco das deliberações governamentais adentram o seu lar enquanto em consenso os seus membros não o permitem. Quantos delitos - deve ter-se perguntado, abismado, o jornalista - abrigam-se sob os escombros de famílias inteiras sem sequer serem supostos por executivo e judiciário, fazendo de cada clã espécie de Estado independente e não menos infenso ao oficial? E no seio de cada célula familiar, continuaria questionando, quantas sedições, silenciosas ou não, estariam neste momento minando os pátrios poderes? Aliás, ajunto eu aqui outra às questões do jornalista, entre os mesmos poderes constituídos (em meio aos quais o aludido 'quarto'), quão mutuamente insurgentes e de modo aberto, franco, não se mostram eles? A rigor seríamos, conclui assim nossa personagem, cada um de nós, indivíduos, ou cada aglomerado dos mesmos, Estados semi-independentes, como os demais (se não fazemos vista grossa a certas evidências), significando isto estarmos parcialmente insertos nos variados âmbitos de poder no nosso entorno, acarretando tal na admissão de que o qualificativo 'paralelo', levado a mostrar os extremos de sua significaçâo, termina por condizer com outro, em aparência incompatível consigo, o de 'concêntrico': a nova geometría jornalística terminaria por atracar em portos inóspitos a espíritos menos usados na tolerância e no proveito da polissemia e da contradição, como têm de sê-lo os dos verdadeiros geômetras e homens de ciência em geral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante do exposto, tornam-se claros os motivos de minha prévia descrença nesta derradeira hipótese, a cuja formulação obrigou-me a suposição suplementar da existência de alguém a elucidar para o jornalista o alcance de sua criação. Além do mais, minha inclinação para as duas primeiras - não consigo elaborar conjecturas excedentes - parece-me consonante com o puro espírito dos poderes estatais (digo, desses oficialmente constituídos), para o qual é mais confortãvel, quando lhe faltam as armas num determinado confronto, a recusa em exergar o inimigo que, sendo também de natureza estatal, segue os ditames da mesma cartilha, antes desconfiando que empregando todos os meios de que dispõe para subjugar ou destruir o contendor. Afinal, como se constituiria o plano se nele não fossem supostos pontos espremendo-se e de quando em vez unindo-se em linhas cercando ou cerceando seus semelhantes e mesmo em outras que, a despeito de conhecerem a existência de linhas iguais bem ao lado, nunca as encontram, sequer no infinito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 14 de agosto de 2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar M. Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-115554323194873358?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/115554323194873358/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=115554323194873358&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/115554323194873358'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/115554323194873358'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/08/estado-paralelo-nota-sobre-o-sumio-de_14.html' title='Estado paralelo: nota sobre o sumiço de um conceito'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-115520743766836130</id><published>2006-08-10T07:55:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:10:12.286-02:00</updated><title type='text'>Quase tudo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O que dizer? Todo o passível de dizer-se é por demais óbvio e repeti-lo, se não inútil, é decerto aviltante. Aviltante para quem diz, aviltante para quem lê. Para quem lê, por razões evidentes: é colocar-lhe diante espelho de reflexo cristalino o bastante para ali enxergar a própria deformidade, circunstância insustentável. Para quem diz, porque diz, porque dizê-lo é prova suficiente de tolerar em boa medida a imagem grotesca impingida ao outro no espelho - do contrário lhe daria as costas - enquanto desfruta do verso do mesmo, no qual nada se reflete; e é prova direta de ser essa tolerância assentimento ao quanto produz semelhante aberração, o embate interno de dever e desejo. E é tamanho o aviltamento, tão universal, que o da face vítrea acredita olhar tão-só através de janela donde vê não a si, mas quem lhe apresenta e segura o objeto revelador, enquanto o outro sequer suspeita de, caso se atrevesse a olhar o lado refletor, ali dar com visão horrenda que jamais admitiria como sua. Dizer, enfim, por pouco que seja, é dar seqüência à comédia cuja renitência só faz irritar. Melhor seria calar, ou melhor, nada escrever, apresentar aqui o já clássico manifesto da arte moderna da protestação, um espaço em branco, ícone do vazio tanto quanto índice do todo: tudo dizer dizendo nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois não conhecemos o certo? Não nascemos - como o afirmava e demonstrava um sábio antigo - dotados do sentido para ele? Aliás, não nascemos com os sentidos para o localizarmos perenemente, para o perseguirmos até o obtermos? E é tanto verdade que dele falamos o tempo inteiro, em geral na forma de cobrança a outrem que, por seu lado, não sabe fazer diferente conosco. Em nome disso, correção, chega-se, já entrevistas desde o dedo em riste e desde mesmo uma ponderosa argumentação, quase sempre às vias de fato quando se possui os instrumentos necessários para chegar-se de fato às vias, sempre. Não faço aqui má antropologia, chula interpretação da ciência arqueológica, mas mera observação das ocorrências corriqueiras cujos relatos reiteram à agonia a condição universal de enredamento dos indivíduos: estamos montados, amontoados, uns sobre os outros numa espécie de pirâmide impossível, reciprocamente abaixo de quem está embaixo, acima de quem está por cima, de tal modo, num tão inefável equilíbrio que, é bem verdade, a ausência de muitos nem sequer se faz notar. Entretanto, não é preciso estar fora da teia ou mesmo em vias de ser dela extirpado para se experimentar em imaginação o sentido disso. E ainda assim brincamos do jogo perene do desterro alheio mesmo em vista do risco de em algum momento sermos nós os desterrados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não acreditamos em promessas que jamais nos fez a senda civilizatória: elas eram mesmo consenso, estiveram sempre embutidas na misteriosa força tornando-nos grei. São parte de sua lógica, são evidentes. Por isso tão grande o protesto, tão silencioso deve ser. Sendo preciso continuar e, continuando sem mesmo saber por que é preciso, sendo imperativo gozarmos de alguma coerência, justificamos: é a natureza. Embalde nos esforçamos por nos mantermos de parte dela, em nicho seguro donde, atingido o átimo da compreensão, no instante do completo entendimento, proclamar-nos-íamos redimidos desse prolongado pecar: mas dalgum injustificável modo ela se imiscui no trabalho incerto de nossos teares e, apropriando-se da urdiduta para sempre incompleta, no limiar de completar-se, ali aplica sua leis. A natureza tem leis irrevogáveis, misteriosamente promulgadas, executadas com rigor. São observadas em quaisquer partes do seu reino e desafiam os propósitos mais obstinados de sequer revisá-las. Em compensação, conferem impunibilidade a quem as observa e tranqüilidade às respectivas consciências : a despeito de todo ideal, somos - da primeira à última instância - cidadãos do mundo, garanta-se nele quem souber ou puder. Pecadores? Sim, mas sem culpas! E sem vontade também!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como dizia, não faço pífia antropologia nem pior arqueologia: não começamos essa milenar história com anseios por justiça, pois sequer a conhecíamos, mas por mera fraqueza, por temermos a inconstância dos céus e a fome das feras, a fúria do mar e a sanha da terra. E então, enredados uns aos outros, em presumida segurança, sonharíamos a equanimidade, a óbvia e translúcida equanimidade emanando da própria teia, de que somos o fio, onde nos guardamos do inevitável para apenas o assistirmos - impotentes, fracos como só nós - exercer a sua lei. A natureza de que pensamos fugir sabe assomar do interior da horda humana, nela reinstaurando a noite, a selva, o vendaval e o maremoto, fazendo dum indivíduo o raio e de outro sua vítima, dum terceiro as fauces e do quarto a carniça, no conhecido espetáculo em que o consolo é não termos culpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sugeri, deveria ter dito nada, mas disse: pouco. E pouco, entre nós, é quase tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 10 de agosto de 2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar M. Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-115520743766836130?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/115520743766836130/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=115520743766836130&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/115520743766836130'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/115520743766836130'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/08/quase-tudo.html' title='Quase tudo'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-114953653997376101</id><published>2006-06-05T16:40:00.000-03:00</published><updated>2007-02-28T01:23:56.657-03:00</updated><title type='text'>Volta a um mote</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;"Respondendo a seu mail, eu agi. Se "escolhesse" nada mais responder, estaria igualmente agindo? Olhe que essa linha de pensamento leva longe. Pelo menos até o deserto, com uma pedra para sentar em cima, à maneira do famoso ermitão." (Humberto Marini)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O deserto é para onde se dirigem, com certeza, os verdadeiros seres pensantes. E de lá jamais sairão, não por culpa da vastidão, de fato incomensurável, mas por vontade própria ou por instinto de sobrevivência, pois se trata do seu habitat.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua esperança - ou seu desejo - é o de chegar ao menos a um oásis, ainda que aí só encontrem poça d'água, nenhuma vegetação, visto ser incerta a presença de sequer nichos assim parcos nesses exílios do espirito. Pois tais eremitas sabem que, existindo algum, há boa chance de haver outros, às vezes luxuriantes, entenda-se, dessa luxúria que só o contraste com a aridez faz ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas dão-se por satisfeitos se concebem uma miragem, aliás, sua maior cobiça, já que miragens, ao contrário dos oásis, nunca ficam para trás quando é imperativo seguir caminho e jamais se apresentam mirradas: estarão sempre a certa distância dos olhos e figuram o paraíso almejado onde seu vagar teria fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorte terá algum se der com algo como uma pedra para sentar-se, o que, com certeza, só fará por instantes, uma vez que estará muito quente ao longo do dia e muito fria à noite. Seu propósito, entretanto, é tão arraigado que mesmo desdenha da possibilidade de descanso, inclusive nas horas intermediárias do crepúsculo e do amanhecer, quando é amena a temperatura e pode parar brevemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo doutos, estão advertidos das incertezas dos céus e inteiramente aptos a caminhar por linhas retas à mercê duma estrela, o que muitos fazem, embora preferindo andar em círculos: primeiro, em vista da perfeição da forma, sentimento inexplicável que os compraz; depois, por fiarem-se no mapa em que se demonstram a imobilidade, a finitude e a redondez do mundo inteiro, pelo que conhecem a impossibilidade, caso existisse o movimento, de chegar-se a outro ponto senão aquele onde já se encontram (e não obstante seguem caminhando, decerto por ato reflexo, pois não crêem mesmo que de fato o fazem); enfim, movem-se em círculos por conhecerem que toda reta possuindo mais de dois pontos é fragmento de arco cujo raio é imensurável, preferindo alguns trilhar curvas finitas a entregarem-se à aventura de jamais reverem o lugar donde partiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, não sendo poucos tais caminhantes, admira que jamais se cruzem os seus caminhos - há quem suponha existirem tantos desertos quantos são seus ermitães, desertos paralelos que, como se acredita, se tocam no infinito. No entanto, é comum conversarem, mas nada se vê à sua frente. E em tais monólogos, em verdade diálogos partidos ao meio, prevalece de hábito a discórdia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 05/06/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Mendonça Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-114953653997376101?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/114953653997376101/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=114953653997376101&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/114953653997376101'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/114953653997376101'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/06/volta-um-mote.html' title='Volta a um mote'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-114489647567792905</id><published>2006-04-12T23:27:00.000-03:00</published><updated>2007-02-14T06:56:30.559-02:00</updated><title type='text'>Depois de ler 'Carta de um pai morto para seu filho'</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span&gt;&lt;i&gt;(clique &lt;a href="http://www.cafeimpresso.com.br/Cronicas/2006/060410.htm"&gt;aqui&lt;/a&gt; para ler ou &lt;a href="http://www.cafeimpresso.com.br/Audios/060410.mp3"&gt;aqui&lt;/a&gt; para ouvir a crõnica)&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A literatura permite certas ambigüidades que a psicanálise tem como tratáveis - e entenda-se por 'tratável' (em termos psicanalíticos) algo dentro do limite da anedota na qual o paciente, findo o tratamento, não se diz curado do seu mal, circunstancialmente uma incontinência urinária noturna, mas vive tranqüilo, tranqüilo. O escritor, como todo artista, talvez embaído por um tosco romantismo, não pode dar-se o luxo de sequer desejar a cura, pois é da 'doença' - assim designada do viés psicanalítico - que vive a sua obra. Imagine-o tranqüilo diante das próprias inquietações e verá fugir todo o seu ânimo de combinar duas sílabas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada qual com o fardo patológico que a natureza lhe reserva: o mal do músico, por exemplo, tem uma substancialidade intangível para o comum das pessoas, sendo espécie de purgatório de resmungos, súbitas vociferações, murmúrios e interjeições insinuadoras cobertas de segundas intenções, assemelhando-se aos males de pintores, escultores e mesmo de fotógrafos e cineastas ditos 'abstracionistas', os quais também carecem, como o do músico, da espessura contida no mal dos artistas figurativos, a da representação (os abstracionismos a recusam peremptoriamente e  não, possivelmente, de fato, pretendendo-se 'presentações'). Se o figurativismo faz padecer o artista por assemelhar-se com o mundo, a literatura, de todas as artes, produz os piores enfermos, pois lida com o signficado, o qual  inclui a parecença, sendo seus instrumentos aqueles que mais intimamente lidam com as questões comezinhas da vida, como amor, respeito, prazer, dor, como se o significado, sob a tutela das palavras, se fizesse em tentáculos em contato permanente com esses sentimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se quer escapar de adoecer, o escritor faz como os abstracionistas, imaginando mundos impensáveis, realidades monocórdicas. Pois a palavra não é como a pincelada: cada qual é em si um objeto pronto a remeter-nos a outro em alguma parte do mundo. Abstracionismo maior com as palavras só mesmo cindido-as em sílabas soltas, mas assim perdem a capacidade representativa, degenerando em música pura ou nos grafismos dos concretistas. Se quer permanecer literato, o escritor tem de lidar, o mais das vezes, com a própria carne, tem de suportar nela o remeximento das palavras fuçando-a além do limite da dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob esse prisma até o dadaísmo é realista. Mesmo os fantasistas, os fabulistas, o são. Qorpo Santo e Ionesco seriam parodistas do real, mas tiveram de lidar com objetos definíveis, e como as definições se fazem por cotejo das coisas, pela evidencia - fraca, embora - de que uma não é a outra, permaneceram eles no domínio do mundo, cuja epifania é a materialidade ela mesma. A literatura jamais perdeu o poder de invocar, herdado do mito, assim como as artes representativas ou figurativas. Tembém a música e os demais abstracionismos, entre os quais, possivelmente, a dança, conservaram propriedade mítica, no caso, a da evocação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser um satirista, mas se o é com palavras, remete sempre ao mundo como ele é, pois é impossível criar outro, impensável, inefável, sem fundá-lo n'algo já conhecido. Estará, portanto, manejando com o perigo e fatalmente, se não o faz por deslize, embute em toda palavra marca ambígua que pinta num sorriso a dor. Só a madurez, exercício obstinado, permite passear-se com leveza pelos caminhos acidentados do dizer, quando, do contrário, a dor é pintada num sorriso sem outra razão senão a de serem ambos fatos corriqueiros, pelos quais devemos todos passar se subsistimos além de certo prazo e que, dada a recorrência, já não abrasam tanto a pele ao contato. Não significa isso que o autor curou-se do mal das palavras ou que, ainda enfermo, se mantém indiferente e tranqüilo, como o analisado da anedota acima. Não. Não pode abrir mão da inquietude, seja ela qual for. Mesmo quando maduro, ao escritor inquietará a inocuidade do que antes era desassossego. Pois, como qualquer artista, ele vive das emoções intensas, e delas apenas, com a diferença de serem mais reais, mais sérias e talvez mais vívidas do que aquelas manipuladas pelos demais criadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 12/04/06&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-114489647567792905?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/114489647567792905/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=114489647567792905&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/114489647567792905'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/114489647567792905'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/04/depois-de-ler-carta-de-um-pai-morto.html' title='Depois de ler &apos;Carta de um pai morto para seu filho&apos;'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-114454693143670617</id><published>2006-04-08T22:38:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:11:41.391-02:00</updated><title type='text'>A prece e o mal</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Vi a matéria, primeiro, no 'Monde', mas percebi que a notícia saíra também em outros jornais estrangeiros como o N. Y. Times e em ao menos um brasileiro. Para entender semelhante repercussão é preciso considerar dois fatores: a ausência de novidade mais significativa no último número do The Aamerican Heart Journal - referência americana no assunto (e fonte privilegiada de reportagens que consolam e aturdem a massa de hipocondríacos em que nos transformamos a cada dia) - e a oportunidade de protesto contra os cerca de dois milhões e meio de dólares gastos numa pesquisa de premissas de duvidosa relevância no cenário contemporâneo da medicina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só desse modo entendo a razão de os noticiosos tratarem com certo destaque uma &lt;a href="http://www.lemonde.fr/web/article/0,1-0@2-3244,36-758936,0.html"&gt;investigação científica cuja conclusão sugere ser nociva a prece&lt;/a&gt;: assim seduz o título da matéria. Indo mais adiante, percebe-se que a reza má seria não toda nem qualquer uma, mas aquela enfocada no experimento, a endereçada aos doentes, especialmente àqueles em processo ou em esperança de cura e que sabem da antemão estar alguém pedindo aos santos por si. Até aqui, nada mais espantoso e nada mais natural: espanta, em primeiro lugar, que se tenham submetido seres humanos reais a tal investigação; depois, parece verossímil a ocorrência de piora e até de morte quando um enfermo se dá conta de o seu estado ser grave o bastante para reclamar o uso de instrumento vulgarmente conhecido pelo seu emprego em momentos de desespero. Não esqueço um agravante dando toque negro ao inequívoco espírito mordaz da investigação: todos os voluntários eram cardíacos na iminência de intervenção cirúrgica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se, como é visível, de uma experiência pertencente mais ao domínio da psicologia do que ao da medicina propriamente dita, muito embora seja notória a intrînseca dependência das duas ciências. Dos três grupos de voluntários envolvidos obteve os piores resultados somente aquele cujos pacientes souberam que seriam de fato objetos de prece, equivalendo-se os resultados dos outros dois. Destes, apenas um não recebeu efetivamente os duvidosos préstimos da oração, embora todos os pacientes de ambos soubessem da possibilidade de serem rezados. À guisa de conclusão parcial pode-se dizer que a incerteza de ser alvo de prece é melhor do que a certeza, ou ao menos é tão boa quanto não o ser (pois não se orou pelos doentes de um dos grupos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Custo, escopo, cobaias: fosse isto insuficiente, o jornal francês conclui informando que o patrocínio veio de uma fundação religiosa, a John-Templeton! Verdadeiro tiro no próprio pé? Ou a John-Templeton, suspeitando da eficácia desse serviço tão antigo quanto a civilização, o da oração pelos enfermos, estaria financiando sua extinção? Antes tarde do que nunca: as preces foram ditas por comunidades cristâs. E,  para finalizar, um atenuante: as mortes foram percentualmente iguais em todos os grupos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, em vista do modo como se procedeu à pesquisa, se não é possível afirmar a absoluta nocividade da prece, pois ela não se provou mortal, reafirma-se a observação, desde sempre parte do senso comum, de que a sua necessidade indica o esgotamanto dos meios ditos meramente humanos na solução de um problema e, conseqüentemente, situação desesperadora, informação esta danosa para quem é questão a saúde, em especial a cardíaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não foi este o único golpe sofrido hoje pela religião: um outro diz mais diretamente respeito à fé cristã. Refiro o anúncio, em virtualmente todos os jornais do planeta, &lt;a href="http://www9.nationalgeographic.com/lostgospel/index.html"&gt;do completo restauro e tradução do Evangelho de Judas&lt;/a&gt;, texto do primeiro cristianismo, de que já se tinha notícia pela menção no Contra os Hereges de Irineu de Lyon. Um Jesus sarcástico emerge dos diálogos no Evangelho, pronto a gargalhar em face das dúvidas e questões dos apóstolos, capaz de estimular-lhes a raiva e eleger Judas como o obreiro maior de sua própria paixão, desse modo oferecendo-lhe o conhecimento do "mistério da traição" (segundo expressão do próprio Irineu).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se histórica ou não, a circunstância é certamente decorrência natural da consabida presciência do Cristo no que respeita a própria sina: seria 'traído', imolado e ressucitaria, para tanto havendo necessidade de 'traidor' e imolador, sem os quais os mistérios da crucifixão, da morte e da ressurreição nos seriam ignorados. O sacrifício no Calvário e a subseqüente redenção da humanidade seriam impossíveis sem um 'lado podre' a cumprir o seu papel, tornando-se este, por isso mesmo, agente do bem, ou melhor, do bem maior. E alguma voz, ao menos por uma questão de coerência, haveria de levantar-se sobre o problema ainda cedo na formação da cristandade, o caso do Evangelho de Judas. Ecos seus se escutam no século XX, na obra de Borges, que usou do tema e de variações em alguns contos e ensaios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O leitor atilado decerto já percebeu que a predestinação de Judas para a maldade, assim coadjuvando um bem tido e havido como supremo, é variante de outro problema, clássco desde o judaísmo, o da onisciência divina em face do mal. A sua solução mais difundida alega o livre arbítrio, supostamente dado a nós por Deus, pelo qual estaríamos habilitados a seguir tanto a virtude quanto o vício. Mas, como é sabido, a própria noção de onisciência acarreta a anulação dessa outra, a do livre arbítrio, agravando-se desse modo a questão: se nos indigna saber que Ele conhece com antecedência o advento do que nos aflige, o mal, e não o evita, sendo Todo-poderoso, o que dizer de Sua passividade em face do conhecimento prévio de nossas más escolhas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a idéia de Deus não se reconciliar com a de mal, suponho, a pergunta acima permanecerá sem resposta. No entanto, o próprio Demiurgo apõe às Escrituras de Seus profetas breves pistas de Sua &lt;i&gt;natureza inconcebível&lt;/i&gt;, uma das quais encontrei coligida pela Loucura no elogio que lhe dedicou Erasmo de Roterdam: decreta Ele, em Isaías, que confundirá a &lt;i&gt;sabedoria dos sábios&lt;/i&gt; e reprovará a &lt;i&gt;prudência dos prudentes&lt;/i&gt;, donde se conclui que jamais Se fará conhecer e que o Seu eleito é o imprudente, o parvo. Da cita a erasmiana Moria retira, segundo sua natureza, naturalmente, as mais encantadoras lições. Os episódios da tentação de Adão e da torre de Babel sugerem o mesmo: em ambos fica a lição de o conhecimento da Verdade ser-nos impossível, todo esforço nessa direção passível de castigos como a expulsão do Paraíso ou a incompreensão recíproca dos homens e a diáspora. Não foi casualmente que um cristianismo mais rasteiro fez do néscio o fiel típico, exemplo de uma almejada fé espontânea, aparecida sem o concurso do intelecto. Hordas de santos e doutores da igreja concordaram em que somos e seremos sempre ineptos diante da possibilidade de conceber o Criador, caso de Douta Ignorância de Nicolau de Cusa. O Evangelho de Judas não deixa de iterar a fórmula, num diálogo em que Jesus diz aos discípulos: "Como me conheceis? Em verdade, eu digo, geração alguma do povo em meio a vós conhecer-me-á."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível traçar um perfil teológico da humanidade usando o problema como eixo: em torno a ele dividimo-nos entre aqueles que crêem a despeito das adversidades da fé - grupo compreendendo os que tomam a si próprios por ignorantes de Deus - e aqueles revoltosos, na verdade mais pios do que os primeiros, pois preservam tão ciosamente a idéia de Deus associado irreversivelmente ao bem que mais justo lhes parece renunciar a essa idéia mesma a ter de admitir Deus como fonte ou veículo do mal. Sob esse prisma o ateísmo seria a mais radical manifestação do teísmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dimensão paradoxal da fé cristã mereceu tantas análises quanto é possível à questão. O teólogo e filósofo Kierkegaard ensaia a sua na forma de extensa meditação sobre a passagem em que Abraão é intimado a sacrificar Isaac: ali defende a condição privilegiada do Pai da Fé relativamente à dimensão ética (ou moral), à qual fere com o seu silêncio ao longo do preparo para a imolação e do percurso até o local onde ela se daria, ou seja, o fato de Abraão ter como lastro uma solicitação divina o isentaria das obrigações éticas e morais, como o prestar contas de seus atos ao menos aos membros mais próximos da comunidade, familiares e amigos, e mesmo das obrigações estéticas, como o desafogo de sua angústia; pois a instrução divina o poria em 'relação absoluta com o absoluto', acima, portanto, do quanto diz respeito ao mundo inteligível, ou o 'geral', segundo a terminologia do filósofo. Já Nicolau de Cusa leva o debate para o âmbito da epistemologia,  justificando nossa ignorância da natureza divina na evidente incomensurabilidade do nosso pensamento, finito, e da infinitude de Deus. No século XVII Jacob Boehme pintará uma cosmologia panteísta na qual um vórtice centrífugo - ali chamado, entre outros nomes, de Vontade - aparta-se de outro, centrípeto, ou Desejo, também alcunhando o primeiro de Manifestação ou Deus e o segundo de 'sem-fundo' e Inferno, mas eventualmente denominando o conjunto inteiro como Deus, donde se infere que, para o filósofo, Este não só proviria do mal como também o incluiria em sua natureza: na cosmogonia bohemiana Deus escaparia de si próprio, enquanto Desejo, fazendo-se Vontade e originando assim o mundo, modelo este de universo, segundo pondero, um dos melhor concebidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em dias atuais o aparecimento de notícias como essas é sugestivo: de um lado, um experimento estatístico, como de hábito o são os da ciência, demonstra de forma algo complicada o óbvio (é desagradável saber-se desenganado a ponto de necessitar da oração, que se mostra, entretanto, inteiramente inútil de acordo os dados da pesquisa); doutro, um Evangelho gnóstico lembra-nos de noção não menos conhecida de nossa intuição, exortando-nos a reconsiderar o mal num enredo que acreditamos protagonizado pelo bem e a nossa inamovível ignorância quanto à Verdade de Deus, pouco importa o quão sábios sejamos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desnecessário é listar o quanto em nosso tempo se põe como campo onde fertilizar a certeza gnóstica de não vivermos num mundo bom: para conhecê-lo é suficiente continuar folheando as seções de política e economia dos jornais ou freqüentar cultos religiosos. A visão da atualidade é porventura o melhor retrato já produzido do mundo abastardado dos gnósticos, onde efetivamente vivemos, mundo originado em erro cuja causa é o desejo de saber, Sophia, resultando em seu húbris desenfreado e, não obstante, permanentemente contrário às aspirações do homem. Mas como o saber não produz senão a si próprio, sendo apenas potencial para a produção dos demais artefatos, é um artesão, o Demiurgo, quem cria a materialidade, essa espécie de imitação de Pleroma, nome do universo do Deus primordial. Isto feito, proclama-se o Demiurgo, nesse seu novo e falso reino, o único Deus existente. Cristo, ou a salvação, segundo o evangelhista, adviria não deste, mas daquele universo primordial para auxiliar-nos, por compaixão, em nossa emigração para o lugar de origem, o lugar do sumo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Intentando instaurar o cristianismo como religião autônoma, muitos dos primeiros teólogos da nova seita buscaram distanciá-lo do judaísmo e mesmo opô-lo a este. Para tanto descartaram de saída o Antigo Testamento, partindo dos Evangelhos canônicos, desvenvolvendo, inclusive, traços do que a partir do século XIX se chamaria &lt;i&gt;anti-semitismo&lt;/i&gt;: o Deus desse Éon - ou nosso universo - é o Deus de Israel (assim pregava Basilides, filósofo e teólogo do segundo século da era cristã), divindade esta favorável, portanto, a tudo quanto diz respeito a esse povo e à sua terra e causadora de toda sorte de entraves a todos os envolvidos com as questões judaicas, muito embora não poupando eventualmente nem os próprios judeus. As exegeses de vários desses primeiros cristãos, muitas vezes conduzindo a hipéboles intoleráveis ao espírito religioso da época, foram acusadas de heresia e convenientemente banidas dos ensinamentos usuais, embora hajam contribuído significativamente com estes, ao menos no apontar-lhes certas inconsistências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, o gnosticismo parece ter sido espécie de guardião da coerência para o cristianismo nascente, prevenindo sua imobilização, comum a toda nova crença, num pietismo leigo, promovendo o seu elo com as principais correntes de pensamento vigentes à época, como platonismo e estoicismo. Procurou mostrar aos novos crentes a inexistência de garantias da intrínseca bondade do mundo nos escritos judaicos e, extirpando o Messias dessa tradição, dava-lhes a noção e a esperança do bem verdadeiro, assim como o entendia o mundo helênico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cristão futuro, entretanto, escolheria a via da omissão ou da hipocrisia. E se hoje dizemos habitar um mundo erigido segundo preceitos de linhagem judaico-cristã, tal afirmação desvela-nos uma realidade onde o mal, tão ciosamente escondido ou providencialmente desdenhado ao longo de milênios, mostra-se agora explícito e apadrinhado por justificativas morais, éticas e mesmo lógicas que a filosofia ainda não soube conciliar. Pessoalmente, não creio que, desse ponto de vista, algum dia haja sido muito diferente a realidade: o mal sempre se exerceu sobre o quinhão que lhe cabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, entretanto, uma particularidade deste nosso momento, em pleno 2006: já não concebemos salvação! Não, ao menos, aquela arquitetada no gnosticismo. Não somos mais engenhosos e ingênuos o bastante para tecer a solução do insolúvel: o habitarmos um mundo diverso do que desejamos, consolando-nos com a idéia de outro melhor anunciado pelo seu messias. Pois a salvação do gnóstico está dentro de si, na certeza de existir o lugar ideal, compatível com os seus anseios, a qual é, como a Idéia platônica, espécie de marca de proveniência ou de origem atestando o seu pertencimento primeiro a esse lugar, Pleroma, onde está o verdadeiro Deus, em verdade espaço emanado de Si. Do nosso lado, não conseguimos reconhecer em nós qualquer idealidade por que nutrir esperanças, pois talvez já nutramos incomensurável paixão por este mundo que criamos, mundo de certos confortos, mas também de finanças, de política, religiões (ainda!) e o que tudo isto implica, assim não vislumbrando alternativa melhor ao que já nos é oferecido e prometido: nosso paraíso é o aqui e o agora, o qual, por discrepar do que verdadeiramente desejamos, é também nosso inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conjugados na imprensa às catástrofes e aos crimes, os dois achados da ciência assumem nota sombria. Rezar é tanto inútil quanto daninho, enquanto o mundo permanece o mesmo, aqui, diante de nós, adverso, intolerante, inclemente, sem esperanças em si. Quanto à marca distintiva fazendo de nós - e de boa parte dos seres vivos! - entes direcionados para o autèntico bem (bem ausente, não obstante, de onde habitamos), dela é possível afirmar-se, com incerta ironia, que, se de fato a possuímos todos, seria isto a melhor prova de que não faltam ao Inferno, de fato, as boas intenções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 06/04/06&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar M. Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-114454693143670617?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/114454693143670617/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=114454693143670617&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/114454693143670617'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/114454693143670617'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/04/prece-e-o-mal.html' title='A prece e o mal'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-114387687197177899</id><published>2006-04-01T04:31:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:12:02.147-02:00</updated><title type='text'>Se a arte preconiza a ciência, esta a mediocriza!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;As grandes idéias, de primeiro, aparecem nas mentes dos loucos; éons mais tarde fermentariam os cérebros dos artistas, para só então, após período semelhante, acossarem os filósofos, quando partem, depois de ali maturarem longamente, para a iluminação dos cientistas, assim podendo, no tempo devido, tornarem-se utilidade quando finalmente chegam aos tecnólogos, os inventores. Esse é, em essência, o conteúdo de um ditado - nada popular, por sinal - a mim transmitido por alguns de meus conhecidos especializados em misticismos de toda ordem. Guardei-o por espelhar, em sua medida, boa dose de verdade, se não toda ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom exemplo de sua procedência, por acaso, pode ser encontrado na música, cuja notação tradicional, iniciada nos tempos do cantochão e aperfeiçoada nos meandros da polifonia, é uma antevisão das famigeradas 'coordenadas cartesianas', nas quais espaço e tempo são descritos pelos eixos 'y' e 'x', respectivamente: o espaço da música foi tacitamente tido como a variação de altura dos sons, desde o mais grave até o mais agudo possíveis ao nosso ouvir, e o tempo, bem, o tempo continua sendo ele mesmo, correndo na pauta da esquerda para a direita, enquanto as sucessivas sonoridades servem-nos de pontos de referência. A história tem sido pródiga em apresentar exemplos semelhantes, os quais - seja por bem da brevidade, aqui, seja por indolência pessoal da memória - deixo ao leitor listar e quando muito faço menção a Jules Verne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se parece exeqüível o projeto de arrolar artistas prenunciadores de idéias que mais adiante iluminarão filósofos e cientistas, forjar uma relação dos loucos antecessores dos primeiros parece-me, de antemão, impossível. Bastante para compreendê-lo é observar como ainda hoje é tratada a loucura, os seus padecentes sendo relegados, quando menos, ao oblívio ou, em casos omissos, a um breve registro em jargão médico donde não se entrevê traço algum do que realmente pensaram. Uma amenidade: os brasileiros privamos da nacionalidade de Joaquim José de Campos Leão, o Qorpo Santo, louco (monomaníaco, segundo a psiquiatria do século XIX) ou artista, criador do teatro do absurdo, gênero que, no correr do último século, fez sensação na pena genial de um romeno naturalizado francês, Eugene Ionesco. Trata-se, se tal, de caso explícito de idêia transitando em cabeça de louco antes de o fazer na de artista. Mas Qorpo Santo, pelo jeito, situa-se nessa zona cinzenta entre demência e engenho aonde são lançados centenas de casos como o seu pela nossa confusa crítica de arte, a qual finda por habilitar, mais do que como simples artistas, como verdadeiros gênios, inúmeros habitantes dessa região: veja-se, por exemplo, o caso de Basquiat.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, se não é fácil ou comezinho assistirmos aos trânsitos de idéias de artistas a filósofos, menos ainda o é vermo-las chegarem aos primeiros vindas dos loucos. Já a passagem feita da mente filosófica para as propriamente ditas cientîficas é fenômeno ordinário, bem documentado em anais intermináveis de academias, e ainda mais o são as passagens subseqüentes, de cientistas para inventores (ou tecnólogos) e destes para o produto mesmo de sua invenção. Assim, abstenho-me também de listá-las e passo, incontinente, ao cerne da questão: trata-se da memória do gênio porventura maior das letras deste último século, cujo investimento no ramo fantástico da literatura se vê reduzido à mera verossimilitude por descobertas da mais recente neurologia. Foi criador de entidades estranhas, como livros inexistentes, biblioteca infinita (um de cujos volumes contém todos os demais), heróis por traição e estratagemas oníricos, todas creio, inimitáveis por quaisquer ciências por virem. Assim, não se-lhe pode imputar o epíteto de prógono, como se o fez a Verne ou aos mais recentes Raymond (do Flash Gordon) e Asimov, este último de sólida formação científica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O entendedor - e não apenas o bom - já tem em mente o nome de Borges, naturalmente, e a sua invenção ora posta em xeque é personagem de verossimilhança, em princípio, algo esquiva, como convém ao fantástico. O campesino Funes, jovem e analfabeto, possuía a singela habilidade de conhecer com precisão a hora. Depois de cair dum cavalo torna-se inválido, recolhido ao leito, adquirindo também o estigma improvável da memória total, lembrando em detalhes de cada instante de todos os seus dias. A etiologia do fenômeno, bem como outros traços do protagonista, parece, Borges os tira da sua própria vida, da qual se conta ter-se dedicado à narrativa ficcional, antes produzindo em poesia e ensaio, depois de acidente em que bate fortemente a cabeça numa janela semi-aberta ao descer escadas, ficando por semanas entre a vida e a morte. Se em sua prostração Borges busca recobrar, com o exercício ficcional, a habilidade narrativa que supunha perdida com o trauma (escreveu, parece, o Menard nesse período), Funes, durante a sua, aprende várias línguas, entre as quais o latim, esta em poucos dias e com o testemunho do narrador da história, que lhe empresta ele mesmo não mais de dois livros e um dicionário, nutrindo irônica dúvida quanto a ser possível ascender ao idioma de Plínio com semelhantes instrumentos. Como é imaginável em alguém desprovido de bloqueios mnêmicos, Funes usava explorar à vertigem a habilidade, povoando sua solidão de sistemas numerais e linguagens em que cada número e cada ente mundano possuíam nomes exclusivos (projeto tido por inviável por Locke e outros filósofos, acrescenta o narrador), também de recitações de páginas já lidas e da reconstrução pontual de alguns de seus próprios dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maravilhosa fantasia borgiana, que muito tem consumido de tinta em exegeses ávidas de lhe encontrar as implicações, passa agora, com o advento das &lt;a href="http://www.estadao.com.br/ciencia/noticias/2006/mar/31/321.htm?"&gt;recentes descobertas da neurologia de par com a genética&lt;/a&gt;, ao status de mera verossimilhança. Irineu Funes torna-se, quando muito, o primeiro caso numa estatística que tende a aumentar com os avanços da reengenharia do genoma, cujo dossiê já conta com duplicatas de ovelhas e vacas, plantas infensas a pragas de todo tipo ou com características animais, entre outras aberrações impensãveis por um Bosch ou um Dali. Observou-se que a ausência de um gene, retirado em princípio aos camundongos, fá-los reterem por tempo além do normal informações de outro modo voláteis. Como o sabem os neurologistas (e bem pontuou Borges em sua elegia ao memorioso Funes), o esquecimento é sorte de defesa, sem o que seríamos qual o personagem do conto, talvez sem a sua tranqüilidade, sem o seu assombro extático. Tencionando atalhar a cura de males como o de Alzheimer, a ciência investe em explorar mais este dado, do qual sairá certamente mais hábil em impingir-nos outra geração de monstros apenas concebíveis, como o foi Irineu Funes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o atual golpe não foi desferido somente contra a condição humana, mas contra a fantasia também, relegando algo apenas imaginável ao rol das coisas possiveis. O mesmo, creio, vêm sofrendo a literatura de Verne e a loucura de Munchausen. Entretanto, ainda resta para todos esses, e em especial para Borges, o epíteto de precursores (este por certo preferiria o de áugure). Perdido o ineditismo de Funes, fica a espantosa intuição do seu criador para conceitos nascituros sessenta anos mais tarde em longas sessões de observação de eventos medidos com precisão por instrumentos e cálculos, conceitos sobre os quais saltou, indo diretamente às respostas. As pancadas, as grandes, é sabido ns literatura médica, de hábito produzem esquecimento, quando não a invalidez permanente. No personagem borgiano elas produziram hipertrofia da lembrança e no autor a habilidade de propor argumentos fantásticos. Resta saber o quão profundamente se enraizam tais traumas, se de fato provocam as tão temidas e ansiadas mutações genéticas como, sabemos, o fazem as radiaçóes ditas atômicas, às quais já somos expostos, com finalidades curativas ou não, desde antes de Hiroshima (no laboratório dos Curie, por exemplo). Meu temor é o de que a ciência venha a confirmar mais esse passo do argentino em sua criação, propondo aos aspirantes a uma memória total um acidente semelhante ou, mais pragmaticamente, uma surra bem dada. Algum efeito deve surtir, tornando inesquecível ao menos o tratamento ele mesmo, pois, como também diz um ditado, por sinal, bem popular: 'quem bate, não lembra, quem apanha, não esquece'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 01 de abril de 2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar M. Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-114387687197177899?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/114387687197177899/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=114387687197177899&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/114387687197177899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/114387687197177899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/04/se-arte-preconiza-cincia-esta.html' title='Se a arte preconiza a ciência, esta a mediocriza!'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-114046901555155298</id><published>2006-02-20T17:54:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:15:57.674-02:00</updated><title type='text'>Reabilitando o prazer</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;i&gt;a Antonio Caetano&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mitos como os de Cristo e Buda se erguem da idéia de sofrimento. Sem este nada teriam a dizer-nos. São, de uma maneira geral, exemplos de modos de lidar-se com a dor. Além desta, assemelham-se também de outras maneiras, como na noção de que o puro bem-estar é possível apenas fora do mundo material assim como o entendemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos dois, Cristo parece ser o exemplo mais drástico, preconizando a dolorosa destruição da carne, exacerbação porventura indicativa da crença de o prazer absoluto vir após o somatório de sofrimentos cujo termo é a morte. Por seu lado, Buda aponta senda mais amena, mas não sem antes ter experimentado vias nada gozosas, no fim das quais dá com o caminho da moderação, onde é possivel desfrutar, ainda sob a forma carnal, ao menos parte do sumo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À primeira vista pensa-se identificar traços comuns entre a via crística e a profissão estóica, filosofia desenvolvida numa Atenas dominada pelos pensamentos de Platão e Aristóteles, confinados em escolas às quais não tinha acesso o povo, em grande parte, como sempre, excluído. O parentesco entre cristão e estóico, embora desdenhado por este último, se faz na medida em que o estoicismo é vulgarmente entendido como inteiramente tolerante à dor, entendimento esse prematuro pois ignorante da noção de 'ataraxia', de hábito definida como indiferença tanto ao sofrimento quanto ao prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por compreender que um dos termos de uma dualidade suscita por necessidade o outro, o estóico, em suma, ensaia buscar algo para lá de bem e mal. Entretanto, atentando-se à circunstância de não possuírmos, em nossa condição de existência, instrumentos conceituais imunes à dualidade, pouco ou nada se poderia inferir do paraíso do estoicismo, o qual parece constituir-se com o terceiro que a lógica excluiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo após o advento dos sistemas de lógica modal e paraconsistente, o entendimento tem funcionado dentro de incontornável arcabouço dual. O primeiro, fruto da colaboração das escolas estóica e megárica, insere no modelo clássico a variante temporal, enquanto o segundo avançou, em grande parte, depois das explorações geométricas não-euclidianas, nas quais conceitos como o de plano, por exemplo, são cambiantes. Em comum têm a não observância de axiomas da lógica clássica, a qual se funda na lei da não-contradição, dando como inclusos - ou válidos - os valores 'verdadeiro' e 'falso', pondo de lado sua combinação - 'verdadeiro e falso' ou 'não-verdadeiro e não-falso'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas lógicas fundadas nos dois outros modelos, embora se inclua a contradição ('verdadeiro-falso'), algo, por ser considerado não válido, termina sempre por ser afastado dos seus contextos, desse modo constituindo-se possibilidade semelhante de consistência, a qual se dá, enfim, no dualismo resultando desse afastamento. No caso dos sistemas paraconsistentes é recusado o axioma do terceiro excluso do modelo arstotélico (ou melhor, eleata), funcionando isto como espécie de divisor de águas, a saber, como constituidor de ambiente do mesmo modo dual onde trabalham essas lógicas. O esforço de constituir modelos das coisas do mundo, pelo jeito, parece não escapar ao esquema dualista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estado de indiferença do estóico, então, caso possa ser entendido como alusivo a uma admitida contradição, estará do mesmo modo submisso ao arcabouço da dualidade na medida em que opõe o 'reino do bem e do mal' a esse outro onde não há 'nem bem nem mal'. A meta estóica, entretanto, assim como as do cristianismo e do budismo, é a de poupar-nos do sofrimento, disso não restando dúvidas à leitura de dois dos clássicos sobrantes dessa escola: Epicteto e Marco Aurélio. O artifício de subrepujar o bom e o mau parece indicar, então, a procura de outro gênero de bem, presumidamente intangível na condição material em que existimos, mas um bem, assim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo parece, somos universalmente levados por ascetismos e filosofias a admitir o sumo bem como algo fora do mundo manifesto aos cinco sentidos clássicos. Nos três exemplos citados, o primeiro, cristão, opta por submeter-se e vivenciar em sua totalidade o sofrimento, o mal, como portal a ser franqueado rumo à bem-aventurança, enquanto a filosofia estóica pesquisa técnicas de desdém da dor, ainda que tenha de, para isso, abrir mão também do prazer advindo dos sentidos. O budista, por fim, busca meios de, não sacrificando a carne, desfrutar dos gozos possíveis a esta, bem como daqueles que supostamente a extrapolam. Em resumo, cristianismo busca a expiação entregando-se às sevícias do mal, estoicismo parece suportá-las em nome do bem maior e budismo as evita ou, quando menos, trata de não enfrentá-las diretamente em quaisquer níveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disto resta-nos, herdeiros de pensamento e ascetismo de linhagem européia, uma oposição de ordinário tomada por inquestionável: a de prazer e bem. Creio ser com Sócrates que ela se torna explícita: de primeiro em vista do assombroso domínio desse filósofo sobre as suas faculdades materiais, repisado no quanto a história preservou de sua biografia; e depois nos próprios ditos a ele atribuídos (dos quais não se pode afirmar a absoluta autenticidade), bem como nas sucessivas exegeses que sobre isto se produziu. Sabe-se que dentre os epígonos do socratismo encontra-se o cirenaísmo, doutrina da fruição total dos prazeres possíveis, cuja moderação foi dar-se na voz de Epicuro, enquanto o estóico Zenão de Cicio e seus sequazes constituíram-se em opositores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio haver uma observação acerca de como se conforma tal oposição - a de prazer e bem - capaz de desfazer a certeza de ser ela irretorquível, bem como de instruir sobre como se separam duas dimensões tidas rotineiramente como idênticas, a saber, a da ética e a da moral. Trata-se de observação simples, já enunciada quando há pouco se comentou a 'ataraxia' dos estóicos, essa indiferença a prazer e dor cuja meta é decerto a obtenção de prazer maior. Sim, prazer, pois não há como entender o bem, seja qual for, sem a noção de prazer. Ou não seria o bem detectado como um tipo de prazer e todo prazer indício de algum bem? Negar essa pergunta, naturalmente, é dizer que o desfrute de um bem pode ocorrer como uma sensação de absoluto desprazer ou que os gozos podem ser fruto do mal: só os mazoquistas, ora, nutrem esse tipo de opinião, sendo, como são, seres cujo bem-estar se dá com tudo que para os demais seres é abjetivo, mas nem por isso se faz possível duvidar de ser esse seu um prazer de fato. Assim, seja qual for a origem de um bem, para um dado sujeito este será sempre percebido como prazer, do qual se pode dizer ser o sentido para o bom, o sentido para o bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de prosseguir, cumpre frisar que a idéia de prazer, assim como a de bem, pressupõe, por necessidade, uma terceira, a saber, a de um sujeito, indivíduo um de cujos atributos é a consciência (seja isto o que for). Só ao sujeito é dado sentir e manifestar a sensação do bem, a qual dirá respeito, por necessidade, ao mesmo, ainda que refira o bem - ou mal - de outro sujeito ou de qualquer objeto. E tal ocorrerá, por fim, mediante sorte de identificação do primeiro sujeito com o segundo ou com este último objeto, identificação esta que o induz a assumir coisas externas a si como suas, podendo emitir a seu respeito juízos como 'bom' e 'mau', do modo como o faz com o que considera inerente a si ou interno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, no entanto, prazeres circunscritos à singularidade de um dado sujeito o bastante para se mostrarem dolorosos para seus semelhantes, prazeres estes egoístas. Outros há, também, equanimemente distribuídos entre muitos ou entre todos os indivíduos. Suspeito ser a essa dicotomia, a de prazer egoísta e prazer partilhado, a que se refere a oposição de prazer e bem, associada diretamente à anterior. Ocorre tal pelo fato de se nos mostrar mais sólido e durável o desfrute do bem comum, pois o bem egoístico, quando infenso ao bem alheio, costuma suscitar reações - salvo na circunstância de vir a prejudicar sectários do cristianismo e do estoicismo, por exemplo, cujas doutrinas primam pela tolerante absorção de todo mal a eles infligido. Assim, 'prazer' - no contexto da citada oposição - termina a serviço de designar o bem egoístico, enquanto 'bem' guardaria a idéia de desfrute universal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Etimologicamente falando, ética e moral referem-se a um só objeto,a saber, hábito ou costume, embora seja usual ver o primeiro termo significando também 'modo individual de ser', 'maneira idiossincrática de manifestar-se', enfim, 'caráter'. Bons dicionários são pródigos em notar, já desde o grego clássico, a diferenciação das formas 'éthos' - para 'hábito', 'costume', traduzido para o latim como 'mos', 'moris' - e 'êthos' - na acepção de 'caráter'. Sendo esse o caso, a forma 'ética', pronunciada com 'e' aberto, referir-se-ia ao que entendemos como 'moral', enquanto a outra, com o 'e' fechado (êtica?), parece faltar ao vocabulário para designar com acerto a disciplina filosófica interessada no estado apriorístico da manifestação do indivíduo, de seu caráter ou idiossincrasias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A divisão acima não esconde a suspeita de cada existente possuir seu modo particular de ser e de estar com os demais, assim manifestando-se. Revela ainda o comércio dos seres como algo cuja ocorrência modifica, oculta ou mascara - tanto para melhor quanto para pior - o que cada qual é em si mesmo. Nada mais natural, então, estabelecerem-se ciências particulares: para o ramo dos indivíduos (entre os quais o universo, ele mesmo), investigando o potencial de todos e de cada qual para a melhor ação, e para o ramo do coletivo, estudando a sociedade, o ecossistema, os espaços sideral e subatômico, isto é, observando como o potencial para o melhor de toda e de cada coisa (inclusive o próprio universo!) se exerce na totalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro tipo corresponde à aqui chamada 'êtica' e o segundo às ciências da natureza, cuja meta é constituir tecnologia para interferência maior e mais eficaz nos processos do mundo. Assím a êtica, suposto nome da disciplina geral de Espinosa, investiga o relacionamento possível dos existentes, ao passo que moral - ou ética - preocupa-se com, de posse do conhecimento fornecido pela anterior, dar efetividade a esse relacionar-se, ou seja, interessa-se em como manipulá-lo de modo a pô-lo a funcionar o mais próximo possível do ideal. Em resumo, uma olha o mundo a partir da idealidade, enquanto a outra trata de fazê-lo andar segundo certos interesses ou pressupostos nem sempre em sintonia com os preconizados na anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto entendido, tem-se que, em termos ideais, a incompatibilidade de prazer e bem é inverificável, caso se admita, como acima se expôs, ser o prazer o sintoma de haver-se tangido de algum modo o bem. Afirmar a existência de um bem que não suscita qualquer satisfação, convenhamos, é absurdo. Recorde-se, entretanto, a noção de bem geral, bem coletivo: através ela parece verossímil a admissão de ser o bem, o absoluto bem, o bem cabal, substãncia entre cujas propriedades está a da divisibilidade que, como a da matéria, lhe altera as proporções. Na partilha do bem entre os seres, demonstra-o a prática, cada uma de suas porções tem efeito diminuído, deixando em parte a descoberto quem se vale de cada uma delas. Em outras palavras, um bem desfrutado coletivamente é sempre menor para o indivíduo do que o seria caso este desfrutasse sozinho de sua totalidade. De um mal, ao menos, se está livre ao se compartir o bem: do protesto alheio pelo que acredita possuir a menos e de seus desdobramentos. E por isso se usa dizer do bem coletivo ser o melhor e o mais seguro, o que deve ser verdade, na medida em que todo o bem possível está ali, embora aos pedaços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bem compartido, portanto, parece guardar alguma coisa de insatisfatório para o indivíduo, o qual, caso deseje fruir de sua totalidade sem ferir a fruição dos demais indivíduos, deve aprender a desfrutá-lo na satisfação geral, a de cada um e de todos, entendendo que, fossem quaisquer as circunstâncias, lhe caberá sempre e apenas uma parcela do quanto deseja. E, como tanto ocorre no mundo, os prazeres nem sempre se conjugam ou se somam, devendo ser gozados, em grande parte, separadamente, obrigando-nos então a escolher algum ou alguns deles a cada circunstância. Talvez apenas nesse derradeiro aspecto prazer e bem estejam transitoriamente em desalinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, para se chegar a tal noção, como é visível, necessário é andar em meio aos raciocínios cujos percalços podem tirar o norte do melhor explorador de argumentos. Partiu-se, não obstante, de observação simples e evidente, a saber, a de que o prazer é o sintoma do bem, não podendo ser outra coisa, e concluiu-se pela eleição dos prazeres (ou bens) ou pela moderação no desfrute dos mesmos, de modo a comparti-los com os demais indivíduos, o que, na medida da tolerância de cada um, precipita a oposição dos dois conceitos. Eticamente falando, nada há a incompatibilizá-los, em verdade sendo um causa do outro. Em termos da moral, entretanto, cuja tarefa é proporcionar, a despeito da idealidade, realidade melhor em prazo viável para que se a desfrute no exíguo tempo de existência dos homens, a incúria parece justificar-se na pressa de estabelecer o paraíso possível. E, como faria qualquer governante, tirânico ou não, a moral põe na rua suas armadas, no caso, os preceitos, valendo-se inclusive de tons sentenciosos, tão caros aos autores de tragédias, para fazer-nos crer que o bom, não raro, é doloroso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/02/06&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar M. Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-114046901555155298?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/114046901555155298/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=114046901555155298&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/114046901555155298'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/114046901555155298'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/02/reabilitando-o-prazer_20.html' title='Reabilitando o prazer'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-113906619103487189</id><published>2006-02-04T13:16:00.000-02:00</published><updated>2007-02-09T20:15:48.973-02:00</updated><title type='text'>Borges nas sombras</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;É estranho o jogo de 'Borges à contraluz'. De saída, o confronto de uma algo singela e por vezes discretamente insinuante Estela Canto com outra, muitíssimo mais velha e remendada com tinta, laquê, muito pano, colares, anéis e brincos. Tanto uma quanto a outra fazem as vezes da bem-amada: a primeira, em fotos de 1945, parece ainda pesquisar essa frente do recente feminismo, embora já teorizando sobre a variante que escolheu para si, a de mulher livre e sexualmente satisfeita; enquanto a segunda presta contas, ao cabo de décadas, dessa escolha admitindo secretamente que o amor poderia ter-lhe sido bem mais generoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é difícil ver no livro uma mulher 'mordida', decerto por erro próprio, ao avaliar o potencial de 'glória' oferecendo-se aos seus pés e 'garfado' trinta anos depois por Maria Kodama. Algumas fofocas: disse Esther Vásquez - a outra biógrafa do Borges, também sua amiga, colaboradora e ex-musa - que 'la' Canto foi vista 'bebida' e rogando impropérios de amor traído na porta Biblioteca Nacional argentina ao então diretor do estabelecimento; para Vásquez 'la' Canto quis muito os cachês do poeta, como a primeira esposa, Elsa, que além do mais os roubou todos (o Prêmio Formentor, que dividiu com o Becket, junto!); tanto Vásquez quanto Woodall (James, autor inglês de uma terceira versão do biografado) insistem no mau gosto do trabalho da Canto, a qual, como que por instinto de defesa, deixa claro desde a Introdução não haver composto uma biografia no sentido restrito, mas um relato do que viveu com o poeta e do qual não poderia excluir incursões mais íntimas - dada a natureza múltipla da relação - e, naturalmente, suas observações e análises quase psicoanalitico-feministas. Como se vê, a luz prometida desde o título é 'contra', disso resultando imagem destoante daquelas tidas como boas, seja pela nitidez, seja pela poesia. Além de mistério, é possível entrever sensualidade na sugestão da Canto, o que, não obstante, é paulatinamente rechaçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, é bom encontrar ali um Borges mais humano do que o dos outros dois trabalhos. Ainda não conheço o do uruguaio Monegal, a quarta biografia do argentino, também seu amigo e especialista em sua obra, mas creio que o enfoque seja, no bom sentido, acadêmico (tenho uma antologia borgesiana do Monegal, que me pareceu correta). Em Woodall e Vásquez há uma certa idealização, no primeiro, em vista da distância, no tempo e no espaço; já na segunda há alguma humanidade, aquela do ângulo da amiga dedicada, colaboradora e ex-desejada do grande mestre, além de ser muito, muito mais nova do que ele. O Borges de Canto mostra-se ainda mais frágil que o dos demais: foi de fato criado para ser literato, projeto que a mãe continuou tocando após a morte do pai, e quando saía à noite ligava para casa de hora em hora para manter D. Leonor a par de onde e com quem estava; beijava mal e não sabia tocar; sua mão parecia não ter ossos quando cumprimentava; era pálido e gorducho, mas alto; apaixonava-se ridiculamente, como um cavaleiro medieval na imaginação do século XIX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em suma, Estela 'fala demais': a partir de sua mágoa pinta sua versão verossímil de um sábio, um pouco como Xenofonte e mesmo Aristófanes nos apresentam um Sócrates certamente mais prosaico que o dos diálogos. Não passa, no fundo, de uma grande fofoqueira recebendo-nos, toda emperiquitada, 'para un té en su casa'. Promete algumas vezes falar de 'O Aleph', conto que o poeta lhe dedicou, e nem possui mais o manuscrito, presente valiosíssimo que o então diretor cego da Biblioteca Nacional argentina também lhe ofereceu, negociado com um colecionador. Mas só comenta o relato lé pelo fim do livro, além de outros três ou quatro tidos por ela como emblemáticos da mente borgesiana. O tom dos comentários é fortemente sabido às artimanhas freudescas e, se não faz suficiente psicanálise, menos ainda faz de teoria literária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mexericos 'cantianos' - ou seria melhor dizer 'cantescos'? - perdem, aqui e eli, como é habitual no calor desse tipo de narrativa, a compostura presumida em sua autora, premiada romancista para quem o romance é planura, carecendo, por natureza, de clímax, o qual seria próprio do relato curto. É bem possível que, ao urdir sua 'teoria' do romance, 'la' Canto jamais tenha escutado nomes como Machado de Assis, Pirandello e Balzac, degredando-se voluntariamente nas infinitas planícies dum Proust ou nos planaltos escarpados de Mann... Seu Borges é, por conseguinte, contumaz depreciador e leitor improvável de romances, mesmo dos tantos aludidos em seus contos, ensaios e poesia. Seria, portanto, culpado de uma das mais prosaicas imposturas intelectuais, aquela de dizer-se leitor do que apenas conhecia 'de orelhas'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais para o fim do trabalho a autora reabilita a imagem do biografado, ou melhor, a torna mais condizente com aquela, exautivamente divulgada, de sua vetustez, imagem idealizada concebida não só nos esforços dos editores como também na faina do argentino em suas palestras e derradeiros trabalhos. O quanto o consagrou foi, no entanto, concebido antes, em sua maturidade ambígua, parecendo restar-lhe, nesses derradeiros decênios de vida, tão-só passear as jóias que lapidou no passado, exibindo os mais variados ângulos do seu brilho. De fato, não é incomum que na obra tardia nostalgicamente se debruce um autor sobre sua produção primeira, tampouco são raros os que se vêem inexoravelmente atados a uma única fórmula até morrerem. Poucos, entretanto, o fazem como o portenho e não é à toa que trabalhos como 'O Aleph' sejam considerados como chaves para a compreensão de toda sua produção: o objeto 'mágico' ali descrito enseja a visão de tudo no mundo tal qual cada conto, ensaio ou poema seus são, em última análise, perspectivas diferentes dum mesmo cerne, o qual é ele mesmo, Borges, em seu perene assombro em face duma existência que o tornou quase imaterial, coibindo-o à renúncia de parte significativa de sua condição corpórea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'Borges à contraluz', enfim, pode ser tido como o sítio onde soem combinar-se as diversas mesquinharias, como a dessa velha dama a quem outrora recusou amar antes do casamento aquele que admirava embora não o desejando sexualmente, e como a nossa, mesquinharia de admiradores sabendo a escrevinhadores que se consolam da mortal condição nas desventuras comezinhas de quem, um dia, logrou urdir a própria imortalidade. O 'té' de 'la' Canto é a ocasião 'par excellence' do confronto de mediocridades variadas que, a despeito de consabidas e toleradas, refestelam-se em longas risadas a bochechas intumescidas e dentes postiços empastelados de bolacha molhada. E é desejando compensar-nos de suas alusões incontinentes que a escritora nos oferece provas tidas e havidas como cabais, abrindo-nos, lá para o meio do livro, o seu correio íntimo, donde nos saltam Borges inesperados, em fotos e em caligrafia, ingênuos e ordinários em grande parte, dos restantes sobressaindo este, mais condizente com aquele das obras completas e, não obstante, trescalando Pierre Menard como se, esquecido de si mesmo, 'Georgie' se inventasse para esse amor da meia idade: "No sé qué lo ocurre a Buenos Aires. No hace otra cosa que aludirte, infinitamente".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio 31/01/06&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Waldemar Reis&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-113906619103487189?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/113906619103487189/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=113906619103487189&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/113906619103487189'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/113906619103487189'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2006/02/borges-nas-sombras.html' title='Borges nas sombras'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-112768176742619840</id><published>2005-09-25T17:56:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:15:42.614-02:00</updated><title type='text'>Notícia da eternidade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;i&gt;a Humberto Marini&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem-vindo ao meu lugar, forasteiro (digo isto como se possível fosse visitarem-nos forasteiros ou mesmo como se os hovesse)! Faz pouco soube designá-lo: antes achava morar noutro, onde moraríamos todos (caso pudesse existir semelhante lugar!). Um vizinho, então, achando-me perdido e vagueando por essas ruas pouco iluminadas, contou-me ser este onde viviamos tão-só um mundo, havendo possivelmente quem vivesse noutros que, por nos serem incogitáveis, são também invisíveis. Disse-me assim o nome de nossa morada e ensinou-me a suportá-la não obstante a sombra do espectro de inimagináveis outras que, reitero, nos são como que supostas ou pressentidas: haveria melhores, é bem verdade ou é bem possível, mas a esta fomos reservados, restando-nos o exercício da tolerância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer saber como ele o fez, como afastou-me de tal ilusão? Conto-o brevemente: pôs-me diante dum espelho. Eu já estivera diante de um, naturalmente, mas o meu vizinho me instruiu, com seu gesto banal, da maneira de exergar-me. E não apenas à aparência física, mas a tudo quanto com ela produzi. Assim, embora reflexa, li não somente a minha silhueta, mas também tudo que fiz, como o que pensei e escrevi e, com surpresa, reconheci-lhe sentido, inconfundível como o dos tantos feitos deste lugar. Em meio ao assombro, ouvi-o dizer: é o século XIX; é onde estamos; tempo promissor donde jamais se sai. Confesso, não entendi: estaríamos no século XXI, repliquei, ou seríamos loucos, seja ele, seja os que assim acreditávamos. Com um sorriso catou um graveto e riscou no chão a cifra romana: tratava-se, evidentemente, dum jogo combinatório dos três algarismos, permutação simples na qual se apelava alguma vez para o recurso da supressão, causando profundo frenesi no jogador, que pode acreditar, durante o qual, habitar também o século XX. Em tais delírios os adictos dessa jogatina se entregam a práticas duvidosas como a amputação de partes dos seus discursos e a transcrição de sua palra tartamuda, entre outras barbaridades, tudo tencionando trasladar-se para lugares mais modernos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu caso, entretanto, era diverso: por isso decidiu ajudar-me o meu vizinho, pois em tudo eu seria um morador consciente e consciencioso deste nosso século, visto que sempre possuíra, a bem da verdade, os traços congênitos de seus nativos mas, decerto pelo influxo da amência geral, vivia entorpecido. Abertos os olhos, vejo-me transportar para cá, onde sempre estive sem me dar conta e onde sou membro de classe ínfima, a elite, por assim dizer, esta dos que nos admitimos como nativos deste século. Loucos, excêntricos, eis como nos chamam - menciono apenas as alcunhas sabendo a eufemismo. Têm-nos os demais, esses iludidos com a permuta das cifras romanas, como vagabundos orgulhosamente ostentando seus densos andrajos, embora vistam-se eles de quase nada ou menos, segundo os obriga, aliás, sua condição de desterrados: a maioria não compensa acordar ou nem mesmo é possível tanto, cabendo-nos tolerá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então recordei: um grosso volume admoestando a nos precavermos contra a idéia de Deus; outro, em resposta ao anterior, ensina a liberdade pelo exercício do violento egoísmo; num terceiro fala de si um autor que leu muito o segundo, acorrendo-me também alguma música e outro tanto de imagens, tudo urdido por autênticos habitantes do século XIX. E entendi então haver jamais saído dele, embora alguma vez eu jure estar duzentos anos depois. Entretanto, basta uma mensagem do  meu vizinho, agora amigo e correspondente, para me pôr a par da realidade. Acredita ele ser cidadão do século, mas de vontade própria, referindo haver despertado para este sem ajuda. Como grande parte de nós, criou-se cidadão do século passado, perdão, do século XX, havendo vivido por mais de quarenta anos as supostas idiossincrasias deste, as principais ou mais nefastas, como a barbárie do mercado e a compulsão da notícia, quando decidiu pôr termo a semelhante ilusão isolando-se da algazarra geral no labirinto de estantes e livros que construiu para si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Promessas, disse-me um dia, não se escapa às promessas. Uma vez prometido, há-de cumprir-se, ou tudo fica como está. Olhe, apontou-me ele a praia em arco, observe onde começa: há quem chame aquele ponto de século XVIII; ledo engano! Trata-se já do XIX, continua: século estranho, esse, não? Nasce prematuramente, adianta-se aos saltos sobre o leito de morte do seu predecessor, que não pode senão guardar, olhar febril de agonizante, o rio de sangue aberto na intempestiva aparição do novo tempo equilibrando-se sobre cabeças decepadas e parecendo zombar de suas expressões desfiguradas enquanto promete: liberdade, igualdade, fraternidade. Arguto prometer esse de quem intenta perpetuar-se no comprometimento com o impossível! E na esteira dessas, anunciou infinidade de outras promessas, naturais decorrências das anteriores, todas irrealizáveis. Entre elas, a do fim do tempo, o encontro do eterno presente, a abolição da história, sintoma inequívoco da sua pretendida imortalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje compadeço-me da horda de vagabundos (vejo-os agora como de fato são!), construindo em seus delírios tempos mortos ou hipotéticos: já topei com supostos habitantes do Renascimento, bem como com outros de séculos impossíveis povoados de milagres - tais como impressionante tecnologia - em substituição a tudo quanto neste nosso século não é possível resolver. Eu continuo onde estou: tenho por vizinhos um senhor de barba que em seus escritos saca do amor em substituição à divindade, outro que entende à sua maneira o termo 'egoísmo', repetidamente presente no que escreve o anterior, e um terceiro que, verdadeiro 'louco de Deus', acredita ser os outros dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu amigo? Mora não muito distante, ao lado de um estranho gordote, falastrão bem-intencionado cujo hábito de antecipar suas invenções em festas não o torna menos freqüentado pelos leitores, e doutro, obscuro, cuja meta, à imitação do primeiro, é recriar o mundo numa mancheia de livros atados entre si pelo trânsito de alguns personagens em certos volumes. Não, o meu amigo não acredita nessa balela de fim dos grilhões, das diferenças e da cizânia, tampouco na fanfarronice de término da história. Não crê também na existência de outras promessas pensáveis e por isso vive tranqüilo, resignado em seu endereço neste tempo sem fim.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-112768176742619840?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/112768176742619840/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=112768176742619840&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/112768176742619840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/112768176742619840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2005/09/notcia-da-eternidade.html' title='Notícia da eternidade'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-112615589451921888</id><published>2005-09-08T02:04:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:15:16.814-02:00</updated><title type='text'>Pelo exercício do conceito sexual</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Faz algum tempo, li num artigo sobre o século XX - se não me engano, no caderno de cultura da Folha de S. Paulo, por volta da virada do presente século - que um dos sintomas do seu nascimento, desse modo pondo fim a certas idiossincrasias do anterior, foi percebido ainda na primeira década, quando um intelectual inglês, de cujo nome não me recordo agora, em visita a Virgínia Woolf, pergunta-lhe apontando para uma pequena nódoa em seu vestido: "Sêmen?". O desbocamento em todos os assuntos, segundo o autor do tal artigo, em particular neste sexual, seria uma das marcas do século da psicanálise. Foucault tem opinião semelhante: ao abrir um de seus trabalhos diz que nunca se falou tanto e tão abertamente sobre o tema. Já a Bataille incomoda a leviandade predominante no trato do assunto, merecedor, segundo ele, da mais séria abordagem. É notório o abuso do tom satírico ao se falar de sexo e isso se deva talvez ao encontro, nesse terreno de expansão do desejo, de alguns dos mais baixos e condenáveis sentimentos possíveis a nós humanos, como a inveja e a cobiça, os quais acredita-se atenuar com a ironia e com os restantes recursos usados pelos satiristas para, do contrário, exacerbar seu desprezo. À guisa de caução para o parcimonioso leitor, desde já asseguro que não me darei aqui a semelhantes excessos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há coisa de uns dias recebi mensagem particularmente rica em opinião sobre o tema, a alguns de cujos pontos aporei comentários. Como é natural, alternam-se, no assunto, dois de seus aspectos fundamentais, concernindo ao ato sexual como pura obtenção de prazer e à sua conseqüência mais comum, a procriação, não podendo ficar de parte considerações sobre os chamados 'desvios', outrossim modernamente alcunhados de 'opções', relativos à prática do sexo. Este derradeiro ponto é, talvez, o destino recorrente da maior parte dos apodos da moral ainda vigente, sendo por isso campo por excelência para reflexão de conceitos cruciais como prazer, bem e finalidade. O objetivo aqui é mostrar que os pressupostos do escárnio desses e doutros comportamentos sexuais, bem como do enaltecimento dos aspectos e condutas ditos corretos, são faltos justo por usarem de modo licencioso os referidos conceitos, os quais, à imitação de nós humanos, são como que dotados de orientação própria no que respeita seus recíprocos relacionamentos, sendo, por isso, igualmente intolerantes a imposições exógenas nesse mister.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo por uma dúvida prosaica, relativa a fórmula recorrente na justificativa da idéia clássica de mulher e homem serem feitos um para o outro, enunciada na mensagem como a "forma de encaixe" forjada pela natureza para ambos: não estou seguro quanto a gozar esta da precisão desejada. Minha incerteza se pauta na observação da quantidade de casais que literalmente não 'encaixam', não obstante muitos decidam manter seu entrosamento nos demais aspectos da união, às vezes mesmo sem buscarem compensações extraconjugais (circunstância, segundo se pensa,  mais rara hoje em dia). Infelizmente a natureza nem sempre atenta para certos critérios no controle da qualidade em sua produção e os fatos me fizeram ver que o 'encaixe' de homem e mulher não raro se parece àquele de chaves que até servem em fechaduras para as quais não foram cortadas, embora não façam mover a lingüeta, sendo freqüente resultar desse tipo de experiência danos irreparáveis em ambas as partes. (É natural, em vista da presença do inusitado no mundo, que não se desprezem outrossim as surpresas de, nessas circunstâncias, certos fechos se abrirem!) Pondo aqui de parte a função reprodutiva, a única, em minha opinião, pela qual a reciprocidade dos sexos pode ainda ser afirmada (pois em breve a biologia deve alcançar seu "Admirável Mundo Novo" e assim liberar as mulheres dos percalços da gestação), a metáfora do funcionamento de chaves e fechos refere tão-só o puro desfrute do casal. Destarte, sendo o objetivo 'encaixar' e não reproduzir-se, a solução é a contínua busca, pelo que se entende ao menos uma das razões para tamanha difusão da troca de pares, o que o autor da supradita mensagem lamenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mesma maneira custa-me admitir outra de suas idéias, muito comum na zoologia, a de "divisão de trabalho" dos pais na reprodução, tanto a animal quanto a humana. Uma certa urbanidade se criou e ainda se emprega entre os homens na tentativa de remediar mais este lapso na obra natural, em geral na forma de admoestações que, não resultando eficazes, dão lugar a coações de modo manter agregada a célula familiar. Entretanto, seus efeitos nem sempre excedem os de uma relativamente elaborada teoria, senão quando circunstâncias externas de diversos tipos se impõem, como as leis, por exemplo. Creio mesmo ser contra essa 'divisão de trabalho', insidiosamente imitada no Estado, que se erguem protestos como a liberação feminina e o inexato comunismo. A olhar do ponto de vista da perpetuação da espécie, não estou certo de a existência ser uma dádiva, em particular para o sexo frágil, exceto, talvez, para as fêmeas de espécies como a do cavalo marinho, que se desincumbem dos fetos em (des)favor dos companheiros ainda no começo das gestações, ou para alguns indivíduos humanos - ao que parece, em franco processo de extinção - dotados do suficiente talento para desdenhar das demais dimensões da vida que intensificam os rigores da procriação e dedicarem-se com todo o vigor à prole. Tudo isto parece explicar o empenho civilizacional nosso em fazer da reprodução, mediante tecnologias várias, uma escolha cuidadosa ou abjeto descuido, e não mais o risco insidioso e praticamente certo a que se estava submisso pelo desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noutra de suas afirmações, a de que "homem e mulher foram feitos pela natureza um para o outro" (cujas provas, parece, foram os motes dos comentários nos dois parágrafos acima), em duo com a execração, pouco anterior, da "fusão e confusão dos sexos" (seja lá o que se quis dizer com isto!), ressona o meu correspondente indisfarçável objeção às práticas sexuais alternativas, ditas no passado (e, pelo jeito, hoje ainda) 'contra a natureza' ou, como quiseram os ingleses, 'vício grego'(!). Ocupei-me da matéria num dos contos de livro meu, 'Borges falsos', intitulado 'Unhappy endings'. Finalizada há pouco mais de cinco anos, a história me veio à cabeça quando eu contava coisa de vinte um, vinte e dois anos ('brinquei' de escrever 'Borges falsos' por cerca de vinte anos): de início havia apenas a idéia de narrar a perseguição feita por um enciumado empresário a um pobre ator cuja vida o empurrava sorrateiramente para circunstâncias onde a questão sexual preponderava; entre outros elementos, eu possuía a paixão vingativa do produtor, sua suspeita do envolvimento amoroso de Bron - o protagonista - com outro jovem ator, Dan, inconfirmável em vista de presença feminina, a amiga atriz Mag, e a improvável existência de filme, feito por Bron, inconcluso e desaparecido, no qual envolviam-se grandes personalidades do mundo cinematográfico expondo o que de mais íntimo lhes ditava o desejo (em verdade uma metáfora da autobiografia daquela famosa cronista hollywoodiana do princípio do século passado, cujo nome esqueci); o tratado científico sobre sexualidade, todo concebido em sorumbático e voluntário isolamento, ocorreu-me anos depois quando, buscando comentar a possível preferência 'anti-natural' de Bron, não encontrei um só argumento, dentre os tradicionais, que lograssem condená-la necessária ou suficientemente, pelo que decidi recorrer, do contrário, ao elogio: trata-se, segundo o tratadista, de artifício - encontrado em espécies tidas como mais evoluídas - usado para esquivarem-se da reprodução e desfrutarem apenas do prazer do coito. E ainda hoje examino e reexamino os argumentos apenas para constatar, com assombro, que não há, mediante o uso do bom senso, como proscrever a 'libidinagem grega', em quaisquer de suas modalidades, falo da masculina e da feminina, bem como diversas modalidades outras outrossim ditas perversões sexuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se de questão, eu diria, puramente estética, ou seja, de gosto, e talvez por isso mantida, seja por opositores, seja por apreciadores, com fervor e gana só encontráveis nas grandes torcidas de futebol ou nos radicalismos patrióticos. Permita-me o leitor esticar o assunto um bocado mais, pois é, como outros, de vital importância na atual constituição de cidadania, sendo necessário chegar-se a posição justa - e o quanto antes - de modo a aplacarem-se os comportamentos restritivos, nefastos para a consecução de justiça social (não recordo de outros exemplos no momento, mas não esqueçamos de Turing que, depois de salvar a Inglaterra com sua invenção, decodificando a infernal criptografia dos nazistas, foi sentenciado a 'tratamento' hormonal depois de julgado culpado de homossexualismo e por isso levado a sucessivas depressões que desembocaram no seu suicídio quando contava pouco mais de quarenta anos: a ciência da computação - sem falar na dignidade humana e seus pressupostos centrados no indivíduo - certamente perdeu tempo precioso com o seu desaparecimento!).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo impossível ou muito cruel a contenção ou o redirecionamento de semelhante impulso em alguns humanos, a moderna 'correção política' houve por bem justificá-lo, seja como mal congênito e incurável, restando votar aos seus portadores a compaixão (a qual, em termos de Estado, termina por ganhar formas inusitadas como carteirinhas de incapacitado, passes de ônibus e pífias pensões vitalícias, sem falar nas campanhas em prol da criação de ocupações para os 'inválidos', assim 'relevando' suas capacidades sobrantes), seja, de outro lado (o que parece ser o mesmo), como um dos aspectos, embora canhestro, da normalidade. Ambas as justificativas passam por dois caminhos, mas não necessariamente ao mesmo tempo: um, dito 'científico', centralizado pela biologia e pela psicologia, e outro puramente argumentativo, pelo qual se podem burilar os dados obtidos no anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como exemplo do primeiro caminho, o científico, passo à anedota a seguir: fui assinante, por mais ou menos dois anos, da revista de vulgarização da ciência "Superinteressante" (que hoje bem mereceria os prefixos 'hipo' ou 'des'). Pois bem, num dos números que recebi em casa havia na capa uma foto - pura provocação - de dois leões 'namorando', a primeira de uma seqüência - nada devendo aos ensaios de revistas pornográficas - exposta no interior da publicação. O atrevimento suscitou, na edição seguinte, enxurrada de cartas de pais aviltados e, pelos tom e ameaças, verdadeira onda de cancelamento de assinaturas também. A intenção dos editores era relevar extensa resenha dum livro de autor americano, recentemente lançado em tradução brasileira, volumoso estudo sobre homossexualismo animal, em que se incluía a longa e pudica relação da ciência com as evidências da prática entre os irracionais, observada e relatada (se bem me recordo) desde fins do século XVI e ciosamente ocultada do conhecimento público, sendo a Inglaterra, ao que parece, a campeã de sonegações da matéria. A reportagem, muito bem-humorada, por sinal, era demasiado condimentada para os paladares mais comezinhos, pois 'tirava do armário' desde zebras, ursos polares (principalmente as fêmeas), cães, passando pelos leões, por incontáveis pássaros(!) e chegando - pasme! - à mosca da fruta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De minha parte, inspirei-me para uma carta à redação da revista mostrando que se a exuberante reportagem e, aparentemente, o livro buscavam justificar a 'naturalidade' do sexo entre iguais na humanidade, o faziam como nos laboratòrios farmacêuticos, onde antes de testar remédios em gente experimentam-nos em porcos, preás, cachorros, gatos e ratos, como se constituissem assim razão necessária para o sucesso dos medicamentos contra as mazelas humanas (é por essas e outras práticas e convicções - eu preferiria chamar de superstições - que a ciência nos tem entupido de química por diversos meios e hoje estouramos de alergias etc 'sem sabermos ao certo por que'): em suma, melhor fizeram os ingleses, sempre bons em questões de lógica, omitindo, embora por pudicícia, suas observações, do que teria feito o biólogo e escritor americano e, com certeza, o fez o articulista da 'Superinteressante', procurando demonstrar a naturalidade do homossexualismo humano por intermédio do animal. Não obstante a exravagância lógica da revista ou do autor resenhado, a iniciativa serve para mostrar a amplitude da questão, dando ensejo a perguntas mais profundas sobre o que podemos de fato conhecer dos desígnios (caso de fato os haja) da Grande Mãe, a Natureza!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema, entretanto, parece encontrar melhores respostas na pura argumentação e, se não pode almejar a demonstração da naturalidade do homossexualismo, sonhada no polpudo livro ou na fantasia de quem o sumariou, ao menos faz com que opositores e simpatizantes se resguardem dos perigos de reputar os juízos que fazem dessa prática sexual como probatórios de suas intrínsecas torpeza ou pureza, passando assim a listá-los não mais entre os científicos, mas entre juízos outros, como os feitos das obras de arte ou dos afetos e desafetos, os chamados juízos estéticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar (se desse modo pode-se enunciar a idéia), o Universo parece interessar-se tanto pelo que conceituamos como 'criação', quanto pelo que entendemos como 'destruição': os indivídos - criados, portanto - susbistem por um dado tempo e de acordo com certas condições, após o que desaparecem; uns, em aparência, perduram ao sabor do acaso (ou por causas desconhecidas para nós), enquanto outros, providos do que se chama de consciência, a qual se manifesta de muitas formas, parecem escapar ao acaso (ou às causas desconhecidas que os destruiriam) e perdurar em razão da administração de certos recursos seus e do meio de que são parte. E perduram os indivíduos, seja sigularmente, seja enquanto partes de indivíduo maior, assim preservando-se a espécie (o indivíduo composto de indivíduos), a qual só perdura enquanto se preservem os elementos que a compõem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meu entendimento, o indivíduo quer preservar-se: é dotado de egoísmo, na acepção de Feuerbach, para quem o termo significa algo como o instinto de auto-preservação, cuja expressão máxima e metafórica tem sido a capacidade de alimentar-se, em torno da qual todas as outras manifestações do tal instinto concorrem. E quanto à espécie, sendo indivíduo também, exerce ela seu egoísmo em cada um e em todos os indivíduos que contém, manifesto no conhecido impulso sexual. Este foi o cerne, aqui exposto por outros caminhos, do breve comentário à fictícia obra final de Bron Elland, o protagonista do conto 'Unhappy endings'. Hoje não me espanta mais o 'insight', pois a cultura já o havia tido faz muito, guardando-o na conhecida metáfora de sexo como apetite: o sexo como o 'apetite da espécie'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cotejo de fome e anelo sexual esconde mais do que a semelhança de ambos enquanto impulsos à preservação de indivíduo e espécie. Observe-se que tradicionalmente é a apetência usada para simbolizar a lascívia e não o contrário. Talvez só no século XX - por volta do seu último quarto - o termo 'tesão', originalmente indicativo de desejo de sexo, tenha sido usual para exprimir gosto extremado por artigos alimentares, bem como por coisas diversas relativas a outros sentidos que não o paladar. Sintoma de nossos tempos, uma de suas idiossincrasias, tempos de desbocação e de desmedidas liberdades outras: em lugar de tampar o sexo com o estômago, é agora este que é 'tampado' pelo anterior. Nada mais correto do viés da moral vigente, a qual prescreve a amiudada prática sexual de modo a conferir plenitude à existência do indivíduo, enquanto a gulodice, de tradicional signo de egoísmo e desperdício, vê-se agravada pela nota de auto-destruição dos seus adictos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal aproximação dos dois aparelhos, o digestivo e o conceptivo, abre caminho também para outras analogias igualmente fáceis e, não raro, perigosamente errôneas. Entretanto, procuro restringir-me às evidências e destas inferir o que permite o bom senso. Se o ato de comer indica a preeminência da auto-preservação, ele pode promover, no entanto, justamente o contrário, à revelia do instinto: desnecessário é listar aqui os males advindos de hábitos alimentares. A intenção de sobrevivência, entretanto, creio continuar incólume na experiência da gula. Tenho a impressão de que o caso se dá pelo sentido que orienta o mencionado instinto, o sentido do bom, no caso denotado no prazer advindo do paladar. Desde os tempos de Aristipo e sua pregação do desmedido gozo das sensações não podemos nos afastar muito da noção de ser o prazer um dos sintomas, em nós, de haver-se tangido de algum modo O Bem. Mesmo após a moderação operada por Epicuro nas convicções cirenaicas e a grave oposição das idéias de Prazer e Bem proposta pelos estóicos, certos comportamentos, como o masoquista, se inteligíveis, o são pela via que compatibiliza estes dois conceitos: ou a virtude da indiferença (ataraxia) dos estóicos não é um modo de obter-se prazer a despeito, muitas vezes, dos desprazeres da carne, sendo por isso um bem não muito distante do almejado no masoquismo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós humanos, seres com impulsos também filosofais, intuímos a existência d'O Bem, o absoluto, e se não me ocupo aqui de refutá-la, ponho, em troca, a dúvida quanto a ser possível desfrutá-lo, ao menos com o tanto de conhecimento de que dispomos. Ocorre de a busca d'O Bem, no nosso plano comezinho, suscitar contradições como a observada, por exemplo, entre o paladar, localizado na língua, esta parte da boca que freqüentemente causa indisposições no funcionamento de outros órgãos trabalhando no processamento dos seus excessos, e o bem estar geral do indivíduo; assim também acontece com os intestinos, cujo prazer, digo, bom funcionamento, pode destoar do que sentem língua, boca e mesmo estômago. (Observemos que uma das determinações da ciência tem sido o urdimento de alimentos perfeitos, digo, saborosos, nutritivos e de fácil assimilação, em suma, produtos cujo desfrute, mesmo desbragado, não oferece dissabores.) Assim, embora degustar algodão-doce esporadicamente não cause ao sujeito saudável maiores danos, o consumo imoderado de alimentos ditos 'corretos' como as frutas pode, ao contrário, daná-lo por inteiro. Disto tira-se o quê? Que o instinto de auto-preservação instanciado, neste caso, na fome, tendo por guia, entre outros, o paladar (pois há também, por exemplo, a duvidosa sensação estomacal de insaciabilidade), não está direcionado com precisão absoluta para o seu suposto fim, ou seja, o de manter o indivíduo vivo e bem. E por mais austeridade de que use um sujeito à hora do comer, não estará obedecendo menos a essa determinação hedónica, pois há quem sinta prazer - ou aprenda a senti-lo - em três colheres diárias de arroz integral, legumes crus - sem mesmo o sal - e água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa análoga se passa com o desejo de sexo e, acredito, como no indivíduo fala mais alto a sobrevivência de si próprio do que a da espécie (haja ver, por exemplo, a proliferação de 'medéas' e outros tantos monstros que se desfazem de maneiras não menos dolorosas de suas proles), o impulso sexual tende a ser ainda mais indeterminado: pois ele não ameaça objetivamente o sujeito, o indivíduo ele mesmo, mas algo que, o mais das vezes, nem intui, falo do conjunto de todos os indivíduos ao qual pertence. E, sabemos, assim como a fome - a verdadeira - é saciável com um bocado d'água misturado a um pó mal imitando o sabor de frutas e tido como grandemente infenso à saúde, a pulsão do sexo pode ser satisfeita de modos não menos ilusórios, sendo comum o uso de instrumentos diversos - quando as próprias mãos do indivíduo não lhe parecem mais atraentes - e mesmo a ingestão de substâncias cujos efeitos podem tanto mitigar quanto potencializar o referido desejo. Nessas circunstâncias fica evidente estar fora de cogitação para o sujeito a obediência à nota oculta, a da perpetuação da espécie, no estado de inquietude que se apressa em aplacar. E caso não o tenham instruído do fato, tenho cá minhas interrogações quanto à duração de sua ignorância do resultado da cópula de indivíduos de sexos opostos (esta é, aliás, uma das hipóteses mais recentes da antropologia, a de haver o homem compreendido a procria da observação do comportamento dos animais em cativeiro, antes do que - antes da pecuária, portanto - a reprodução humana se dava ao sabor da promiscuidade geral).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os adeptos da hipótese teleológica aposta à natureza como um todo deveriam perguntar-se acerca das razões de a multiplicação de nós humanos não ser determinada de forma incontornável, como parece ser o caso entre peixes e outros tantos animais. Quais os motivos, em termos de um suposto plano universal, para seres gozando de fertilidade serem faltos do que a torna útil (isto é, do desejo pelo sexo oposto), enquanto outros, cuja orientação sexual é tida como correta, são estéreis? Desvios, defeitos: eis dois modos de justificar as ocorrências, fáceis e pautados pela presunção de se conhecerem os desígnios da natureza. Assim abrem mão, esses entendedores do finalismo, de tornar mais consistente sua ciência testando ao menos a suposição de serem tais 'desvios' e 'defeitos' partes do projeto natural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após tantas voltas, chega-se, em aparência, ao ponto de partida, no qual o 'vício grego' é investido de nota negativa: trata-se, em resumo, dum suicídio da espécie. Por outro lado, levando-se em conta a ausência de finalismo - ou de intenção - nos processos do mundo, tanto criação - e preservação - quanto destruição lhe são indiferentes, ou melhor, lhe são necessários, pois algo só se cria a partir da destruição de outra coisa. Não obstante trata-se, do ponto de vista da preservação da espécie, de séria e consistente objeção à prática homossexual, não sendo poucos os seus adeptos a optarem por vida dupla, na qual dão rédeas a certos desejos, dum lado, enquanto cumprem seu dever para com a comunidade, doutro. Mas trata-se de objeção extensiva, como acima se apontou, a indivíduos inteiramente 'sãos' e produtivos em todos os aspectos exceto o da descendência, isto é, os indivíduos estéreis. Nos dois casos, portanto, a contestação se faz possível apenas do ângulo social ou daquele da espécie, assim parecendo justificar-se a obstinação de recuperar os indivíduos vitmados por tais desvios. O mesmo se aplicaria - e de fato se aplica - aos indivíduos insexuais. A comunidade, no caso, outorgar-se-ia o poder de exigir descendência de cada um dos seus membros e, não havendo força natural bastante para compensar semelhante multiplicação, em breve seríamos mais numerosos que os microorganismos que nos ameaçam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se consideramos a convicção cirenaica de ser o Prazer individual a mola-mestra do conhecimento e, em lugar de o opormos ao conceito de Bem, intuirmos que este já se constitui no primeiro e só se tornará mais amplo (ou tendente ao absoluto) na medida em que os diversos prazeres experimentados sejam cotejados e reciprocamente moderados, equilibrados, saltará ante os nossos olhos a pergunta: qual a razão, enfim, de a grei não motivar suficientemente todos os seus constituintes para perpetuá-la a despeito dos gostos particulares e mesmo das inclinações mais irresistíveis? Dizendo-o de outro modo: qual a razão de falar mais alto o sentido de preservação indivídual, instanciado em cada um e todos os prazeres, do que o de perpetuação da espécie (atividade esta em vários aspectos contrária e mesmo infensa ao indivíduo)? E quanto a esse prazer, cuja busca deveria redundar na procria: qual a razão de ele eventualmente desviar-se de sua suposta finalidade? Uma resposta tentou Bron Elland, o protagonista de 'Unhappy endings', na conclusão de sua obra de ciência: a busca do orgasmo não passa de isca na armadilha da reprodução de animais para os quais é fatigante a manutenção da prole, enquanto as ditas perversões sexuais e os artifícios contraceptivos seriam modos de se obter o petisco sem pagar o seu preço. Para o ator e tratadista fictício muitos aparelhos - se não todos - dos organismos animais têm ao menos duas funções, uma das quais exclusiva e principalmente hedônica, ou seja, empenhada no desfrute de algum tipo de prazer, isto que, no dizer dos seguidores de Aristipo, é definido como aquilo cuja busca é motivada por isto mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muitos mais aspectos a serem considerados na compreensão da etiologia do 'vício grego', tais como o invocado por teorías de viés psicológico, enfatizando o apreço pelo próprio corpo e pela gama incalculável de sensações desfrutadas com o mesmo, dos quais se tem conhecimento prioritário e direto. Só isto acarretaria uma torrente de argumentos, entre os quais aqueles enfatizando a heterossexualidade humana como resultante de aprendizado, embora, creio, pouco acrescentasse à presente discussão. Enfim, a consecução de um mundo mais de acordo com o que alguns de nós crêem ser o natural ou o inerente a si e aos seus semelhantes só parece possível do viés de uma moral tendo como pressuposto a necessidade de procria. Entretanto, não parece ser este o caso quando a população do planeta é medida em muitos bilhões de inidivíduos, grande parte dos quais, inclusive, votando suas vidas ao extermínio recíproco. E antes de pôr em questão os prazeres pessoais creio ser prioritário revisar a moral à qual ofendem, pois prega ela o bem geral de todos os homens e, doutro lado, faz vista grossa para sua destruição mútua: ora, olhada assim, trata-se a vida, pelo jeito, de pura brincadeira, mero jogo de apostas, e, como sabemos, nisto colocam fichas quem as tem e quer.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-112615589451921888?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/112615589451921888/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=112615589451921888&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/112615589451921888'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/112615589451921888'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2005/09/pelo-exerccio-do-conceito-sexual.html' title='Pelo exercício do conceito sexual'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-112192501176077431</id><published>2005-07-21T02:48:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:15:04.111-02:00</updated><title type='text'>Da evolução de cães e gatos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Dada a convivência conosco, ao que tudo indica, voluntária, é de supor que cães e gatos devem seguir-nos e, talvez num período muito curto, atingir grau semelhante na corrida evolutiva. Decerto nos estudam e, cada qual ao seu modo, criam pacientemente as condições de suas escaladas: é suficiente observar-lhes as escolhas, dentre tudo quanto lhes oferecemos, para o concluirmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Nem os símios, apontados pela genética como nossos primos e, devido à semelhança orgânica, mais dotados para imitar-nos o comportamento, parecem interessados no que insistentemente tentamos ensinar-lhes, demonstrando preferência pela vida silvestre. Talvez as condições de seu aprendizado, o mais das vezes estabelecidas com a objetividade dos profissionais da ciência e na frieza dos laboratórios, estejam longe das ideais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   De outro lado, não sendo também menos vítimas do experimentalismo científico, os nossos estimados bichos domésticos desfrutam de pedagogias mais amenas, a começar pelas 'salas de aula', instaladas nas próprias habitações de seus instrutores. Em resposta, não obstante lhes dedicarmos cuidados quase idênticos, obstinam-se cânidas e felídeos em desenvolver hábitos radicalmente distintos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Já tive convivência estreita com uns e outros, alternadamente, em diversos períodos de minha vida, quando morei em casas com espaço bastante para que exercessem suas idiossincrasias. Bem conheço, portanto, os paradoxos da afeição excessiva dos totós e da circunspeta indiferença dos bichanos, mas só ontem, cruzando num intervalo de meia hora o poodle e um sedentário gato bicolor de dois vizinhos, dei-me conta disso ao tempo em que era atravessado pela suspeita de cumprirem as duas espécies projeto milenar de aproximação e apropriação de tudo quanto humanos vimos construindo, cada qual, entretanto, consoante objetivo exclusivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A efusiva receptividade do cãozinho ao me ver, irrefreável - a despeito da coleira e dos ciúmes do dono - e não menos inconveniente, enlameando-me a roupa, contrastava com o obeso desinteresse do felino pela aproximação da minha mão previamente banhada, digo, livre de odores indesejáveis, mal se dignando a me dirigir o focinho e, sem alterar o passo lerdo e leve, seguir seu caminho. Tendo em conta a notável comunicação das duas espécies com a nossa, bem como a progressiva adaptação de ambas a costumes e habilidades tidos antes como exclusivamente humanos (banhos, tosas, perfumes, shampoos, alimentos processados, manejo de alguns instrumentos como portas, botões etc), concluí que esses bichinhos evoluem na nossa esteira e por opção própria - ou já teriam ganho mundo faz tempo! Mas haverá ao menos uma diferença fundamental entre as possíveis civilizações futuras de cães e gatos: os primeiros, pelo jeito, seguirão à risca o padrão que lhes ensinamos, enquanto os outros certamente não incorrerão nos mesmos erros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Waldemar M. Reis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Rio, 10 de maio de 2005&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-112192501176077431?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/112192501176077431/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=112192501176077431&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/112192501176077431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/112192501176077431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2005/07/da-evoluo-de-ces-e-gatos.html' title='Da evolução de cães e gatos'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-111300186290744752</id><published>2005-04-08T20:07:00.001-03:00</published><updated>2007-02-20T03:57:38.959-02:00</updated><title type='text'>Sobre o Deus humilíssimo de IsraelouDa absoluta humildade como atributo divino(Modesta contribuição à ética judaico-cristã)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O monoteísmo, particularmente o judaico-cristão, na medida em que sob o manto da unicidade pode esconder-se divindade de muitas faces, é designação algo enganosa. 'Muitas', aqui, pode bem significar 'ao menos duas', pois a diversidade constitui-se de indivíduos em oposição recíproca cujas individualidades são garantidas no fato de serem inconciliáveis. E dizer 'em oposição' acarreta admitir que o bom para um lado é mau do outro. No caso do Deus de Israel, as Escrituras feitas em Seu nome são pródigas em apresentá-lo seja como o pai generoso (proporcionando a suas criaturas o Éden, advertindo Noé do dilúvio, guiando Abraão a Canaã e Moisés em fuga do Egito), seja como entidade tirânica, digo, cujas deliberações, ao menos na superfície, mostram impenetrável obscuridade (vejam-se os episódios de Babel, do sacrifício de Isaac e das desventuras de Jó). Diante desse quadro, o crente ou seguidor tem uma de duas soluções: empregar seu entendimento na compatibilização de todas as faces ou eleger uma delas como sendo a verdadeira. As várias seitas acompanhando a evolução da religião judaica, entre elas a cristã, bem como os trabalhos de filósofos tão diferentes quanto Maimônides, Descartes, Espinosa e Kierkegaard podem ser demonstrados como esforços de conciliação dos aspectos conflitantes da divindade, enquanto boa parte das iniciativas catequistas do catolicismo, por exemplo, sabe mais à segunda solução, omitindo o tanto quanto possível o lado tremendo - ou em aparência paradoxal - do Todo-poderoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pequeno ensaio a seguir pode aparentar, a uma abordagem ligeira, uma escolha da segunda via, a da omissão do quanto é descômodo na divindade para espíritos menos firmes em face das rigorosas exigências da fé judaico-cristã, embora tenha sido composto com a intenção de filiar-se aos exercícios similares da primeira, a via da compatibilização. Como é natural, a opção conciliadora tende, quando praticada por sectários, a atar seus argumentos com o laço do bem, digo, demonstrando a face intolerável ou inadmissível de Deus como necessariamente boa em vista de suas finalidades. A despeito de enunciar-se como se na voz de um crente, artifício da retórica, o discurso aqui não tem como meta hipostasiar o divino, mas apresentá-lo como mediador das relações humanas, estas cujo eixo, tomando de passagem um conceito de Feuerbach, é o egoísmo, entendido de modo abreviado como "instinto de conservação" ("Preleções sobre a essência da religião" - preleção sétima), o qual, convenientemente refreado e entremeado a noções como a de espécie e comunidade, articula o conceito de Deus como pura Ética.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;       ***&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt; No breve capítulo sobre Moisés Mendelssohn, em seu 'O pensamento judeu no mundo moderno', Leon Roth recorda a convicção deste - e, segundo parece, de boa parte dos pensadores judeus - quanto ao fundamento da religião judaica ser não a fé, mas a ação, invocando a lei mosaica, que descreve como um persistente "tu farás". Um dos recorrentes preceitos do catecismo judaico, entretanto, é a observação de que 'fé não se impõe', ainda que por ordem divina. Parece tratar-se, isto, de super-interpretação, ou melhor, de polimento à retórica dos legisladores e profetas das Escrituras, estas cujo primeiro mandamento - 'Amarás a teu Deus sobre todas as coisas' - soa como evidente imposição da fé e, em virtude da relação tradicionalmente estabelecida entre este conceito e o de amor, soa também como imposição deste último. Pela mesma razão o mencionado ato impositivo pode suscitar problema adicional: o de ser possível amar-se algo em que não se deposita fé, problema este cuja meditação pode ajudar-nos a conciliar a idéia de aproximação livre e espontânea da fé com a da evidente intenção de impô-la na retórica do Decálogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A inversão dos termos focais da questão parece propor uma outra abordagem, mas resulta, em verdade, numa melhor compreensão do que porventura teriam em mente os exegetas da Torá: é possível ter-se fé nalgo a que não se ama? Respondendo à pergunta, o justo diria: não é possível, ou a fé se reduziria à mera constatação de existência, pois constato, por exemplo, a presença do mal no mundo e não o amo, ou melhor, devoto-me a evitá-lo e não apenas circunstancialmente; em suma, devoto-me a bani-lo de todo, absolutamente, do meu convívio, sendo nisto, na minha luta contra o mal, que tenho fé. Pois posso definir minha vida - continuaria o justo - como incansável sublevação na direção do bem, a princípio o bem circunscrito a mim próprio, visto ser eu quem o julga como tal, como bem, tendo de ser ele, de algum modo, bom para mim, devendo em seguida esse bem pessoal ser redesenhado pela experiência como em perfeita conivência com os demais bens pessoais com que me defronto ao longo da vida, os bens para lá do meu. É o bem que amo e a isto não fui obrigado, nem sequer convidado: não está em mim senti-lo de outro modo, assim como não escolhi detestar o mal. Minha fé - finaliza ele - não pode ser uma mera crença, um mero assentimento, quanto à existência disto ou daquilo, mas uma crença no que espero; e não devo esperar senão o bom, o melhor, ou não faz sentido o viver, o qual, caso do mundo eu esperasse o pior, seria mau, desesperador. Alguém sem fé, a saber, sem crer no advento do melhor, está por certo aniquilando-se, morrendo. Aliás, qualquer medicina, vista através deste prisma, é uma restauradora da fé, desta cuja mais modesta ou ínfima expressão é a permanência do bem presente, o qual é o melhor possível quando a infinitamente progressiva melhora que desejo não se mostra de pronto viável. A condição do vivente é, pois, a do amor ao bem, na qual estão implícitos a procura e o cultivo permanentes deste, sintomas que são da esperança do bem-estar enquanto viver. O amor ao bem e a esperança de nele estar constantemente são sentimentos indissociáveis, podendo por isso ser chamados com o nome único de fé, a qual, como se mostrou, não é escolha, mas modo de ser do indivíduo, não podendo, por isso, lhe ser cobrada, uma vez que já é, já está em si, voltada para tudo quanto, do ponto de vista de sua consciência, é bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que estaria, então, tentando dizer-nos o Deus de Moisés quando enuncia "Não amarás senão a Mim"? Em vista de Suas presumidas Onisciência e Onipotência seria vão - ou blasfemo - supormos uma exigência, uma cobrança Sua de algo que já existe, que é operante em cada um de nós e, acima de tudo, que é (parte de) Sua criação. Tendo-se em conta ser Ele o Deus tornado oculto aos homens por obra do pecado original, com o qual condenam-se à própria sorte, Sua reaparição toma o caráter de revelação, pois esteve ausente da memória humana por gerações, ao tempo em que prevaleceram outras religiões. Dada a condição de fé de que nos dotou, entretanto, fazia necessário, em Seu retorno, que Se reapresentasse a nós, então desavisados de sua existência, como algo passível de merecer amor e esperança, norte único a que estamos, humanos, voltados. Mais ainda, era necessário que Se-nos mostrasse como o próprio Bem, o Bem Ele mesmo, à diferença das outras divindades constantes dos ritos politeístas, entre cujos atributos poderia estar o mal. Assim o "Não amarás senão a Mim" soa como se enunciasse, não ordem, mas premissa (ou promessa), vindo a ser os demais mandamentos expressos do mesmo modo, isto é, como comandos de ações cujo cumprimento nos fornece as justificativas para que O amemos sobre as demais coisas: apenas seguindo as regras de uma 'moral prática', como a chamou Roth, ou simplesmente da Sua 'moral', poder-se-á amá-Lo e esperá-Lo; em uma palavra, tê-Lo como objeto da fé. Creio que assim se pode bem compreender o preceito judaico da espontaneidade da fé e da certeza de em essência esta religião ser uma moral, uma moral cuja profissão pavimenta o caminho para o maior de todos os bens, Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mandos divinos como um todo, no modo de formularem-se, deixam entrever também as vias da humildade e da extrema benevolência - pilares do movimento ebionita, um dos modos de interpretação, entre os judeus, da Torá - às quais se deram traços majestáticos - humildade e benevolência todo-poderosas: "Não amarás senão a Mim porque sou o Supremo Bem, com o qual te defrontarás quando e somente quando agires segundo Minhas recomendações". Eis uma súmula possível do quanto pode conter o primeiro mandamento. Com divina modéstia Se-nos mostra Ele como o Bem Maior, passo extraordinário para uma divindade (da qual se pressupõe usualmente a imposição, a subjugação, a soberba), mas necessário para que nossa fé se-Lhe volte espontaneamente e não por intermédio dos artifícios do medo, fornecendo-nos também a chave para que O compreendamos: a correta atitude, a qual cabe a nós tomar, naturalmente: cabe a nós ir ao Seu encontro, o que não é pouco, haja ver termo-nos distanciado de Si com o pecado de Adão. Pois o Bem, enfim e felizmente, torna-se palpável por intermédio dos nossos atos; está em nós mesmos, como sempre esteve, e não em algo externo e distante, intangível: prova de estar Deus - de sempre ter estado, sem que nos déssemos conta - em nós. E este é o motivo de manifestar-se Sua humildade de modo assim paradoxal (como é hábito, creio, supor-se de toda manifestação divina): Deus só é percebido como o Bem Maior quando se age segundo Sua determinação e esta só deve ser seguida por reconhecermos n'Ele, origem desse Bem, O Melhor, soando a fórmula como petição de princípio, um dos modos consagrados, aliás, de se definir a fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto acarreta algo de muito grave para a consciência da condição humana, a saber, a prova cabal de que, estejamos embora direcionados única e exclusivamente para o Bem, nós persistamos em buscá-lo de maneira mesquinha, egoística. Antes do estabelecimento de uma moral através da rigorosa regulação dos costumes, a  proposta do Decálogo parece ser a de mostrar, a partir de um retrato do incontornável egoísmo humano, os limites individuais a serem respeitados para não se romperem as amarras do amor coletivo, isto é, da solidariedade e, em conseqüência, da esperança do prolongado Bem. É evidente o quanto de benevolência ali se espera de nós humanos, em resumo, que vejamos respeitadas por nossos semelhantes todas as nossas posses, instanciadas em particular nas masculinas, visto ele ter sido pronunciado diante de uma sociedade em cujo centro estava (como ainda está) a figura do homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como o apreço a si próprio, em vista dos incontáveis matizes assumidos pela índole humana, não parece circunscrever-se exclusivamente aos limites desenhados nas Tábuas da Lei, a moral mosaica soará como destituída de sentido em meios cujos costumes fossem diferentes. E o acaso foi pródigo em confrontar os descendentes de Abraão com os mais variados hábitos acotovelando-se num espaço geográfico relativamente exíguo e, o pior, em condição de desvantagem. Desde o seu aparecimento, com a busca de Canaã, a terra prometida, o povo judeu cumpre sina de desterro, esse primeiro de vontade própria e os demais por subjugação. O cosmopolitismo judaico é quimérico: como o óleo na água, os judeus não se diluem na comunidade que os submete e, a despeito dos esforços mais cruéis, podem fracionar-se indefinidamente, até quase a invisibilidade, voltando a reunir-se na superfície com a calmaria. Se não com o intuito de conversão dos seus dominadores, as inúmeras leituras da Torá, como por exemplo as de fariseus, saduceus, ebionitas e essênios, parecem ter tido como fim ao menos atenuar, do lado mais fraco, o dos seus fiéis, as discrepâncias da convivência forçada com outras culturas. Não obstante a variedade de seitas que produziu, a moral judaica resiste, heroicamente encastelada em seus princípios cuja síntese é tida como a bem conhecida fórmula 'não farás ao teu semelhante o que não desejas para ti mesmo'. Entretanto, tal síntese pode parecer demasiado vaga, uma vez que a índoles muito tolerantes se permitiriam práticas imperdoáveis dum viés menos indulgente como, por exemplo, a implícita na idéia - muito em voga na atualidade - de amorosamente ninguém ser de (pertencer a) ninguém: o não ciumento poderia, mantendo-se fiel ao preceito, pressupor em seus semelhantes o mesmo desprendimento e assim provocar situações insustentáveis. Uma versão mais rigorosa da mesma fórmula seria, portanto, 'não farás ao outro nada que exceda sua tolerância', com o que a ética judaica poderia atravessar fronteiras e, respeitadas as particularidades das culturas estrangeiras, sonhar com o sucesso do estabelecimento das bases para um mundo de paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diferindo das demais seitas aparecidas do judaísmo em aspectos cruciais, como o propósito perene da doutrinação e, principalmente, o reconhecimento de um Messias, o cristianismo foi a que melhor ganhou o mundo e, neste, o poder temporal, jamais desfrutado em tal magnitude pelo judaísmo fora de Israel. O preceito do 'oferecimento da outra face', espécie de pilar da doutrina cristã, é a tradução hiperbólica da ética judaica sintetizada acima: a tolerância alheia jamais será excedida se a individual for incessante. Inspirado no relato da crucifixão, sua força está no exemplo, pois resulta do testemunho do ato em que Deus, pressuposto na figura de Seu filho, responde a uma agressão oferecendo-se a outra. Como toda ciência, a Ética se constitui enquanto relato dos recursos encontrados na realidade para que o indivíduo efetive determinadas ações e só se mostra válida quando estas últimas se consumam. Admitido isto, o preceito crístico assume importância dobrada: primeiro, por ser aduzido da circunstância, dum fato, ao contrário do Decálogo, oferecido à moda teórica, ou seja, como propostas de ações; segundo, por ser o próprio Deus, por intermédio de Seu representante máximo no reino dos homens, a dar mostra de infinita humildade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pressentida em outras religiões, quiçá em todas, a idéia de um Deus único presidindo o ato criador do universo parece inevitável no âmbito da compreensão humana da realidade. Como o mostra Eliade, a biografia habitual do demiurgo o pinta como divindade aposentada, retirada da cena mundana quando está concluída a criação, delegando a administração desta a deidades secundárias, às quais têm acesso os rogos humanos. O caso do Deus de Israel é outro, estando Ele sempre presente, ainda que por intermédio de uns poucos eleitos, Seus profetas, vindo a assumir Sua condição abscôndita com o advento do cristianismo, que tem como intermédiários Jesus e o Espírito Santo, os quais constituem, por sua vez, seu séquito de intercessores, este integrado por santos e mártires dos mais variados matizes. A despeito de sua condição divina e dos poderes de que esteve investido, Cristo foi incessantemente descrito como homem, nascendo, vivendo e, o mais importante, sofrendo e morrendo como tal. Também é humano o segundo escalão da cristandade, ou seja, é constituído de seres que, em suma, experimentaram o chamado busílis da condição humana: sofrimento e morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o teólogo impregnado da angústia característica dos que tomam à letra a natureza perecível da matéria, os Evangelhos são a recíproca legítima à revelação, feita no Gênese, de haver sido o homem concebido à imagem e semelhança de Deus: com o advento do Messias é o próprio Deus quem Se submete à efemeridade inerente ao homem, quem se faz semelhante a este. Quando, entretanto, se substiui a tragédia pelo drama, quando o paradigma de humanidade, em lugar de dor e finitude, é tomado como a necessidade do Bem e a humildade é oferecida como meio de satisfazê-la, percebe-se então que a temática da semelhança de homem e Deus ou vice-versa - ou ainda, a estreiteza do relacionamento de ambos - é persistente nas Escrituras. Muito antes do advento do Cristo tem sido o Deus de Israel humildemente solidário com Sua obra máxima, equipando-a, nas entrelinhas dos Seus ensinamentos, com o suficiente para o retorno ao Éden, não talvez o original, mas aquele possível aos já advertidos da presença, no mundo, de Bem e Mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio, 08/04/05&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt; Waldemar Reis&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7735935-111300186290744752?l=txtpub.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://txtpub.blogspot.com/feeds/111300186290744752/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7735935&amp;postID=111300186290744752&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/111300186290744752'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7735935/posts/default/111300186290744752'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://txtpub.blogspot.com/2005/04/sobre-o-deus-humilssimo-de-israelouda.html' title='Sobre o Deus humilíssimo de Israel&lt;br&gt;ou&lt;br&gt;Da absoluta humildade como atributo divino&lt;br&gt;&lt;br&gt;(Modesta contribuição à ética judaico-cristã)&lt;br&gt;&lt;br&gt;'/><author><name>Waldemar M. Reis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18043615574386490438</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_yXEjAgOC1WY/SOcvtYi41-I/AAAAAAAAAAU/k-hKo7jDEbo/S220/Cap0015.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7735935.post-111065224647184856</id><published>2005-03-12T15:30:00.000-03:00</published><updated>2007-02-09T20:16:11.092-02:00</updated><title type='text'>Breve e estéril discussão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;i&gt; "Mas, o mais importante, sempre, é fugirmos das formas estáticas, cediças, inertes,  estereotipadas, lugares-comuns, etc. Meus livros são feitos, ou querem ser pelo  menos, à base de uma dinâmica ousada, que, se não for atendida, o resultado será  pobre e ineficaz. Não procuro uma linguagem transparente. Ao contrário, o leitor tem de ser chocado, despertado de sua inércia mental, da preguiça e dos hábitos. Tem de tomar consciência viva do escrito, a todo momento. Tem quase de aprender novas maneiras de sentir e de pensar. Não o disciplinado — mas a força elementar, selvagem. Não a clareza — mas a poesia, a obscuridade do mistério, que é o mundo. E é nos detalhes, aparentemente sem importância, que estes efeitos se obtêm. A maneira-de-dizer tem de funcionar, a mais, por si. O ritmo, a rima, as aliterações ou assonâncias, a música 'subjacente' ao sentido — valem para maior expressividade.&lt;br /&gt;(...)"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Guimarães Rosa, em carta a Harriet de Onís, de 4 de novembro de 1964)&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não digo que seja condenável a procura da escrita dúctil, mais amolgada ao pensamento e à fala comu
