sábado, março 17, 2018

A saída é para fora!

A tragédia está na certeza de que a revolta e o luto justos por mais esta morte renovam a munição de um dos lados nessa guerra sem fim, em outros termos, ampliam a perspectiva de mais mortes, que municiam os justamente revoltados e enlutados por elas, fazendo novos mortos, e assim para sempre nesse ciclo tão antigo quanto esta civilização.

Tudo em nome do controle do mecanismo de controlar gente, a cuja permanência se tem anuído por mera habituação, uma vez que já se nasce sob sua influência.

O fato de haver quem o critique tem sido em grande medida irrelevante para alimentar o suficiente desinteresse por controlá-lo e o consequente fim da conflagração: ainda são muito poucos os que compreendem a inutilidade de se batalhar pelo que não comporta alterações que o desviem de fazer aquilo para que foi engendrado.

Além de não haver como consertá-lo, porque não há conserto para o que não apresenta disfunção e tem servido muito bem aos propósitos que lhe justificam existir, não se presta também a servir na transição para o próprio fim (como podem até se prestar alguns de nós a cavar a própria cova antes de executados).

É como diz a ladainha dos que o defendem, que ademais da franqueza crua são provavelmente os únicos, à exceção de quem não vê sentido em cotrolar gente seja como for, a dizer sem rodeios a verdade: adapte-se a ele ou pereça ou, caso encontre algum buraco fora de sua influência, transfira-se para lá, abandone-o; porque sob sua alçada o jogo é consabido e em vista das regras é muito mais provável ser imensamente maior o número de perdedores do que o dos que ganham.

Desistir deste Estado que existe para o manejo das finanças, que por sua vez são incapazes senão de malversar a distribuição de riqueza, não é desistir do Estado no sentido essencial, pois Estado é o que carrega consigo todo grupamento de indivíduos ao meramente interagirem.

Abandonar o Estado financeiro, única alternativa dos que o crticam com sinceridade, é em princípio devolver a noção de valor à condição original, a de derivar do diálogo de necessidade e esforço - ou trabalho - para obter aquilo de que se necessita, e reaprender a lidar com ela sem intermediário, assim como é abrir mão de esperar que seja possível encontrar a equivalência justa do que é trocado, que só existe se imposta, ainda que sob a ilusão de resultar de acordo.

Abandonar o Estado financeiro é, portanto, reingressar no esquecido universo do compartilhamento do que é necessidade universal e, em consequência, responsabilidade de todos, deixando para trás, também, líderes, guerras e seus mártires.

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Ainda 'a liberdade'

"Liberdade de escolha" ou "liberdade para escolher": continuo ouvindo a cantilena sem ser capaz de fazer dela sentido. Afinal não é toda escolha orientada por um critério (que pode até set o 'uni-duni-tê') além de ter por finalidade livrar quem a faz de algo (ou melhor, de uma necessidade)? A liberdade seria então uma consequência - ou uma expectativa - da escolha, e a escolha, por sua vez, seria sempre determinada por uma pressão, a pressão de que o sujeito que escolhe quer ver-se livre e de que se livrará se a escolha for acertada.

A circunstância de alguém tolher uma dada escolha de outrem é comum, além de ser sinal de que este indivíduo tem de fazer, antes desta, uma outra escolha, a que vai livrá-lo de ser tolhido - ou de quem o tolhe!

terça-feira, janeiro 23, 2018

... para lembrarmos de agora, de quando ainda não somos inteiramente coisas

'Bernays inventou a propaganda, Lippmann, o consenso'. É o que se lê num ensaio muito interessante, 'O seducionismo de Edward Bernays e a entrega da humanidade', de autoria de Gustavo Gollo, publicado no GGN. Muito interessante, mas não a inteira verdade. Entretanto longe de se tratar de ou de tentar ser mais uma na enxurrada de 'notícias falsas' ('fake news'), de cuja existência passamos a nos inteirar recentemente, em si o texto de Gollo evidencia ao menos um dos elementos da cultura da massa (e do senso comum, por conseguinte) que propiciam e facilitam a absorção das 'fake news' pelos indivíduos, e que identifico como o esquecimento da História e - ou - o desprezo por ela.

Como e quando impérios gigantescos se mantiveram por séculos ou milênios desde a Antiguidade sem o favor de propaganda e seu resultado almejado, o consenso? Ah, lembra alguém ao lado, e quanto à violência, às guerras, em suma, à coerção pela força? É evidente que estas tiveram e têm seus lugares cativos na permanência das dominações, mas vamos concordar que do ponto de vista do dominador faz pouco sentido sair dizimando opositores sem antes tentar 'seduzi-los' (termo bem utilizado por Gollo) para as vantagens de se submeterem de vontade própria. Coerções por força geram submissão forçada, evidentemente, cuja manutenção tem custo nada baixo, sem falar nas perdas que em geral ocasionam, desperdício evidente de força de trabalho do viés de quem dela quer tirar partido privado, se antes não se tentou a via da sedução, o consenso via propaganda.

Igual a tudo quanto se apóia nas capacidades linguísticas, a propaganda não escapa de valer-se de argumentos, mas sua inerente urgência por resultados e o público diversificado a que tem de remeter-se tornam proibitivo o megulho mais aprofundado da argumentação, tornando-a capenga ou inteiramente ininteligível, mas sobrevivendo em virtude de ser reiterada ad nauseam, recurso que fez da propaganda a fama. Esta maneira de descrevê-la - incontornavelmente vinculada à argumentação - deixa a sugestão de a propaganda não veicular de necessidade ideias tolas, suspeitas ou nocivas: o problema, entretanto, está em que mesmo veiculando algo bom ou perfeitamente razoável, a propaganda o faz superficialmente, tem de o fazer assim, de modo que o consenso criado é frágil, sujeito a dissolver-se diante de outra onda repetitiva de ideias. Exemplos disso que de imediato me vêm à cabeça seriam duas revoluções, uma considerada universalmente (assim acredito) 'boa', a outra bem vista pela parte - digamos - 'progressista' da população: as revoluções Francesa e Russa, respectivamente, ambas germinadas á base de propaganda, a da primeira urdida ao longo de décadas do chamado Iluminismo em sua inerente crítica ao poder sempre crescente da aristocracia, a da segunda preparada durante ao menos década e meia e ao custo de um punhado de 'revoluções' menores e de resultados mais precários. Desnecessário seria dizer, mas dizendo-o, nada obstante: pouco ou nada delas sobrou nas ondas subsequentes de repetições de ideias que ainda hoje as conspurcam, distorcem, vilipendiam.

Bernays, Lippmann e, não esqueçamos, Goebbels, se algum serviço prestaram nesse contexto, foi o de darem nomes a esse fenômeno e de o adequarem aos então novos modos de torná-lo viáveis, como a imprensa, o rádio, a televisão etc. Quanto ao conteúdo, a 'propaganda' do século XX não poderia distinguir-se essencialmente da 'influência' que, por bem ou por mal, durante os dois últimos milênios o cristianismo - por exemplo - vem exercendo sobre seus seguidores, tornando-os em sorte de casta de consumidores da variedade enorme de produtos que oferece, desse modo enriquecendo como qualquer outro super-empreendimento capitalista. (Que não se leia nesta derradeira sentença qualquer julgamento quanto à consistência - por assim dizer - da doutrina cristã, e sim a inteiração de que a propaganda por cujo intermédio se disseminou por certo formou seguidores pouco advertidos do que ela de fato é.)

Mas, como se mostrou, tudo isto se consuma no terreno das ideias, campo em extremo mutável e frágil e no qual é possível imprimr-se qualquer coisa que simule fazer sentido - além do que efetivamente teria sentido - e que, por conseguinte, é passível de substituição por outra coisa cujo esforço para imprimi-la aí seja repetido o bastante. Ideias são capazes de acurralar manadas inumeráveis, mas não pelo tempo suficiente para extrair destas o que de interesse é para quem torna as anteriores em propaganda. E é no empenho de contornar essa limitação que o nosso tempo dá sinais de gestar algo próximo de genuína novidade nos termos da História. Os elementos, no caso, parece, são os mesmos, isto é, coação via ideias - propaganda - e coerção pela força, uma entrando em cena quando a outra falha, tradicionalmente utilizadas nesta ordem se o dominador faz uso da própria inteligência. A provável novidade (e escrevo 'provável' por possivelmente carecer da informação histórica concernente) seria a combinação desses elementos num mesmo gênero de veículo a ser (na verdade, já sendo) implantado em tudo quanto nos cerca e é útil, nisto inclundo-se os nossos pŕoprios organismos - e em muito breve via solução genética: o chip.

Formar consenso, uma vez esteja tudo conectado na preconizada rede mundial de coisas, será problema concernindo exclusivamente à química, bem como à física das adequadas emissões de estímulos para gerar diretamente na argamassa neuronal o que por eras acreditamos estar sob algum - quase sempre precário - controle pessoal, como certas emoções e, principalmente, a capacidade de raciocinar. Desse viés, acredita-se, não haverá mais possibilidade de dissenso, o que parece pôr por terra a necessidade de uso futuro da coerção pela força. Ledo engano, entretanto, o de quem supuser esse assunto encerrado por aí: primeiro, porque é verossímil admitir que o poder de controlar química e fisicamente vários ou todos os aspectos do pensamento dum indivíduo inclui a capacidade de 'desligá-lo' e, segundo, porque a possibilidade de incômodo causado por algum de nós a quem se propõe dominar-nos não se restringe ao discordarmos do que pensa, podendo advir também de nossa singela presença, sempre que considerada intolerável ou somente dispensável. E isto sem mencionar a violẽncia em si que é o controle de um indivíduo por outro, seja de que forma for, em especial dessa, a de manejá-lo desde as entranhas. Consenso e coerção pela força, enfim, tornam-se uma coisa só, é provável que, entre outras formas, sob a da pílula.

Por fim e por sorte o sucesso desse projeto monumental de 'coisificar-nos' junto às geladeiras, automóveis, computadores, brinquedos e o que mais for só terá lugar depois do que terá de ser - ou já vem sendo - o derradeiro esforço propagandístico via meios tradicionais, isto é, valendo-se da repetição exaustiva de ideias pouco claras para produzir influência sobre os indivíduos, que além de última deverá ser a maior campanha publicitária de todos os tempos, dirigida a convencer-nos à ingestão da tal pílula. Por azar, entretanto, os criadores de tal camṕanha têm uma determinada vantagem que por certo lhes poupará milhões em dinheiro, vantagem que vimos lhes oferecendo pouco a pouco ao longo desses cerca de seis milênios de História escrita e que se evidencia particularmente durante o século XX, mais especificamente com a criação e a universal aceitação da geringonça a que demos o nome de 'controle remoto'. Por meio dele pudemos sonhar a concretização de espécie de delírio coletivo, é quase certo derivado de alguma forma degenerada de compreender o sentido de 'idealismo' (o utilizado na filosofia), delírio de o controle do mundo com toques de nossos dedos ser o prenúncio de que em breve o controlaríamos de modos mais sutis, como o mero pensar: no fundo é como se almejássemos abdicar do todo que entendemos por trabalho físico, passando a desfrutar de vida exclusivamente 'espiritual', coisa que ao longo das eras vimos atribuindo a deuses e mortos.

Expressão hiperbólica da 'lei do menor esforço', essa descrição da compulsão de nossa cultura - hoje, na prática, mundial - por delegar a seja quem ou o que for os restantes encargos da condição de viventes pode não estar nada distante da realidade. É nela que se sustenta, além dos aspectos insanos da corrida tecnológica, o modelo quase universal de sociedade dividida em governados e governantes, por exemplo, em que aspectos cruciais das vidas dos cidadãos são transferidos, quase sempre de iniciativa própria, a punhado de indivíduos. E é por ela que se faz irrecorrível o sucesso da mencionada derradeira campanha publicitária para cedermos a 'outrem' os últimos e mais recônditos direitos dentre os poucos de que viemos dotados desde o útero, já que o chip do marcapasso dependerá em breve de algo - é provável que d'o algoritmo' - nalgum ponto da rede para o adequado funcionamento, assim como a dose certa de insulina e o monitoramento celular sem pausa para prevenção de doenças, sem falar nas trajetórias dos automóveis (agora mais 'auto' do que jamais), da vigilãncia amorosa dos entes queridos, da comida no refrigerador e por aí vai. Considerado o que por eras elegemos como 'indispensável', tudo indica haver desta vez os argumentos mais convincentes para sermos por fim eximidos também da quase obsoleta necessidade de argumentar.

terça-feira, agosto 01, 2017

Filosofia de botequim: "a vida é uma tragédia". Você pode rir da vulgaridade do pensamento, e desse modo estará alinhando-se aos que o levam a sério, embora fazendo o possível para que a vida pareça mera farsa. Darão com os burros n'água: com ser fiel ao texto que segue a vida é implacável. Parece mesmo mais afeita aos que duvidam de sua tragicidade ou a acham insuficiente e por isso prodigalizam horrores com o cinismo de quem improvisa 'cacos' - e às gargalhadas - para animar o que acreditam não passar de reles comédia.

quarta-feira, julho 26, 2017

O lugar de justiça e liberdade na saga dos inclementes

Uma das belezas de Game of Thrones, perdida junto às demais por quem se recusa a acompanhar a série acreditando tratar-se de exercício primário do teatro da violência, é a percepção de sua espessura para além da violência mesma, sobre a qual e exclusivamente, aliás, tal espessura é possível - ou se justifica - construir-se. Trata-se da saga em que parece procurar seu lugar na humanidade a Justiça, de início aparecendo acomodada num feudo no Norte gélido, regido pelo clã dos Stark, sendo em pouco desalojada dali à medida em que são sistematicamete dizimados quase todos os membros dessa família. Daí em diante é como se tentasse ela, Justiça, retornar ao espírito humano por quaisquer passagens que julgue disponíveis e consequentes, transmutando-se ora em estratagemas de usurpação, ora em efêmera moral religiosa e, com maior frequência, em vingança sumária, sem que, naturalmente, tenha sucesso. Aqui e ali, entretanto, é possível ver-se lampejos de sua natureza autêntica nos Stark sobreviventes em sua faina de acresecentar um dia a mais a suas existências, num nobre enjeitado por ser anão e que, obrigado por isso a trilhar vias mais exíguas do que as dos demais, é instado a abrigá-la intermitentemente, e finalmete no aprendizado de uma princesa banida, usada pelo irmão em troca de alianças que o conduzissem ao trono máximo de onde caiu - assassinado - seu pai, mas que soube como que esculpir num destino de aparência inflexível sua ascensão a rainha de povos díspares e a postulante de peso do trono usurpado.

Daenerys faz de si o perfil da monarca que se pode dizer justa ou, ainda, o perfil assumido por qualquer forma de poder de um indivíduo sobre outro que decida manter-se à maior distância possível do despotismo. É a linha de conduta que escolheu desde quando apareceu nessa história, construindo relação de amor, de confiança, com o marido, a quem foi dada em troca dos exércitos que comandava, chefe tribal mais propenso ao afeto por sua montaria do que pela figura feminina. Destruída a tirania do irmão e tornada viúva, inclusive tendo perdido o filho, herdeiro, e a posição na tribo, vê realizar-se sorte de profecia em que sobrevive ao fogo onde também são chocados os ovos de três criaturas intratáveis, selvagens, três dragões, dos quais se torna como que mãe. A nova relação lhe proporciona o comando de um dos maiores exércitos nessas terras, falanges de escravos condicionados a suportar com bravura e indiferença o horror além de todos os limites no campo de batalha: numa transação a princípio de compra, em que daria pelos guerreiros um dos dragões, Daenerys trai os escravagistas e decreta a liberdade dos soldados, convidando-os em seguida a seguirem-na em seu projeto por um mundo livre. Usa o novo poderio militar para libertar de oligarcas locais populações inteiras e para reformar as tradições espúrias dessas terras, como as chacinas rituais, ao passo que constitui o suficiente em alianças para a travessia do mar separando-a do trono que tem por meta tomar.

Com sutis variações, essa é a tônica da campanha de Daenerys, seu propósito complexo e inflexível: tornar-se poder absoluto, mas não por mérito da força, que reserva exclusivamente para destruir seus inimigos, os inimigos da liberdade, e sim por força de ela própria se fazer encarnar pela liberdade e desse modo ganhar a confiança e a adesão de todos quanto querem e precisam extinguir a tirania. Daenerys encarna uma ideia capaz de mover hordas, a de se porem ao seu lado de livre vontade. Seu poder se estabelece não exatamente enquanto ligação externa, dela para com o outro, mas no interior mesmo deste, em sua consciência, o que ela demonstra seguidamente ao reafirmar perante todos a possibilidade permanente de cada qual decidir deixá-la com a garantia de jamais ser molestado pela decisão. No entanto, como todos em Game of Thrones e por certo não somente lá, execra a traição, que parece ter por análogo da escravização (no que tem razão), punida nos mesmos moldes. É nesse contexto que dialoga com personagem inusitado, Varys, eunuco e mestre-espião a seu serviço cuja lealdade põe então em dúvida e à prova por ter servido os usurpadores do seu reino e assassinos do seu pai depois de tê-lo servido. Varys defende-se narrando sua condição original de criança do povo submetida a todo tipo de sevícia até chegar aonde está na escala social, em que lhe cabe obedecer ordens enquanto urde o quanto pode em defesa do mesmo povo donde saiu, meta que tem por sagrada. Varys é sinuoso, escorregadio como poucos em Game of Thrones: sua história parece convencer Daenerys, que por ser quem é ou quem se propôs ser tem de acatar a defesa do espião enquanto não provada em contrário, o tipo de confiança que na saga é sentença de morte para inúmeros. Sua saída dessa zona de risco, no entanto, não foi senão magistral: pede ao eunuco que jure lhe dizer a verdade com a mesma franqueza de então quando julgar que ela, Daenerys, está em erro, jurando em seguida queimá-lo vivo se algum dia a trai.

No permanente pesadelo da política em Westeros Daenerys é constraste marcante, inclusive com os Stark, os bons senhores, mas senhores, nada obstante. A Justiça parece encontrar nela espécie de assento permanente de onde pode reinar sobre o mundo com eficiência absoluta. A jovem rainha não parece ter por inimigo ninguém ou nada, senão a tirania, a subjugação, decerto a maior - se não a única - forma de injustiça. Talvez por isso não faça inimigos: mata-os todos ao encontrá-los, caso não veja motivos para submeter algum a suplício temporário à guisa de exemplo. E por isso se deixa acompanhar só por quem a segue de vontade própria: fazer servos ou escravos seria fazer inimigos. Em várias ocasiões e, de modo mais explícito, no diálogo com Varys mostra a desimportância de sua pessoa em comparação com o que esta representa ao sugerir que entretém relação de iguais com quem a segue em virtude dessa ideia - a de liberdade. Seu poder primeiro se resume à imunidade ao fogo, de que deriva outro poder básico, sua relação com as três bestas ígneas cuja fidelidade se estabelece nos mesmos moldes da que obtém dos humanos. Trata-se de poderes de que dispóe a todo momento e que a um só tempo são a proteção possível para si, ou para a ideia que emula, e para quem, seguindo-a ou não, não fira a liberdade. Daenerys parece saber que são as ideias o que os humanos necessitam seguir, embora acreditando seguirem pessoas. Num mundo cego para a possibilidade de auto-determinação dos indivíduos comuns como o de Westeros, sabe também que para eles não fará sentido ordenar ou sugerir que sejam - que sigam - todos livres, como se fosse ainda inepta a capacidade de abstraírem, necessitando de alguém - mais do que algo - que saiba dar vida aos conceitos que apenas vislumbram. Os perigos dessa associação de ideias a personagens são enormes, mesmo em se tratando de ideia como a de liberdade, e é provável que, prevenindo isto, mais do que um guia ou mão condutora para uma liberação a ser lograda adiante no tempo, a Mãe dos Dragões tenha decidido ser ela própria a liberdade presente, com que todos à volta têm a oportunidade de interagir.

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Gênese de um desejo concedido

Pensava demais, a velocidade exagerada - ou por que mais estaria o relógio parado, há tantas ideias, a cinco para o almoço? Na certa o cansaço acelerava o corpo para não dormir com a memória no automárico sob a voz do treinamento que só agora, na hora errada, é capaz de lhe tirar o sono: pois tem de haver com efeito alguma honra no privilégio de ter confiada parte no projeto singular, histórico, monumental, legada por linhagem de escolhidos ocupando aquele birô entre birôs e birôs no átrio da ala sudeste, inquietos mas resignados à ignorância de para que raios servia ou importava o que faziam - justo como também não conseguia ser.

Cifras e siglas que copiava de cartões em cartolina descoloridos para livrórios de capa marmorizada nada lhe diziam, nem a mais ninguém, salvo ao último ocupante da mesa cinco a noroeste da sua, a julgar pelo conteúdo dos aviõezinhos e bolas de papel amassado com ilações perigosas e até declaração de amor - imagine-se! - que por descuido iam pousar nas suas imediações. Além de evitar perguntas, o bom-tom sugeria dizer que fora transferido, aliás, como todos, incluídos os de comportamento comedido - transferências para 'nunca mais'.

Faz pouco reuniam-se excitados e esperançosos à volta do superintendente para brindar com água, no silêncio dos copos descartáveis, a conclusão de algo como 63% da etapa 703BN-4 da meta anual de sua seção. No tempo restante resignou-se à luta sem pausa contra dormir e o embaçamento do pince-nez ao ritmo de entrada e saída dos cartões transferidos letra por letra para o registro até soar o recesso.

Olha sem expectativas a chávena com a dormideira que não lhe silenciará a voz do treinamento até o primeiro galo, quando então, é possível, cochilará, tenso por lembrar do despertador armado para daí a hora e pouco. Uma barata lhe rói o sapato sob a cama. Decide ignorá-la, mantendo os olhos semicerrados, pois avalia o quão afortunada é por não precisar saber por que o faz, a relevância disto para algum objetivo maior. E é como se sonhasse, sem se dar conta, que deseja intensamente aquela felicidade.

De igualdade e justiça que o dinheiro pode prover

A continuada birra minha com o uso - em qualquer contexto e em particular no das 'inexatas' ciências sociais - de expressões como 'mais justo' e 'mais igual', além de suas variantes deprimentes 'menos injusto' e 'menos desigual'. Conspurcam os conceitos 'justeza' - ou 'justiça' - e 'igualdade', que por definição não comportam modulação e só podem ser afirmados ou negados, e o fazem, nas questões sociais, a serviço da conservação do statu quo capitalista, dando a impressão de o capitalismo ser amenizável por mais do que períodos breves: desnecessário ser especializado em História para chegar a tal conclusão, bastando haver alguma memória das alternâncias vividas em períodos de quinze ou vinte anos.

Na raiz desse uso indevido - que vem caracterizando a opção do indivíduo pela esquerda do espectro político - está a expectativa sempre renovada de salvaguardar a funcionalidade do dinheiro, embora 'disciplinando-o', enquanto depositário da ideia não menos distorcida de liberdade que a antiquíssima doutrina liberal vem impingindo-nos com sua propaganda faz séculos. Persistirá a impressão de que o dinheiro é somente outra vítima do mau uso enquanto o seu emprego passar por modo particular de exercer o livre arbítrio, ou seja, enquanto sobreviver a ilusão de ser possível a escolha incondicionada, por assim dizer, livre de quaisquer constrangimentos, quando na verdade se escolhe premido pelo imperativo do bem, pela determinação de obter o bom, embora em grande medida se ignore como o fazer.

Essa concepção de liberdade de escolher é a mesma a orientar quaisquer jogos de azar, em que se faz lance ao acaso e se tolera - quando possível - o mau resultado, sendo útil exclusivamente para donos de cassino e quem faz fortuna com vender. Trata-se, pois, do que há de pior ou é veementemente contraindicado para a natureza humana, que é em essência conhecer e, por conseguinte, ver-se lvre - sim, mas - da sua condição inicial de indizível ignorância. De modo que não haveria liberdade a priori, mas a posteriori, a ser conquistada sobre a ignorância e ad aeternum, pois é suposto que sempre se estará ignorando algo.

Em vista disso é de imaginar que o dinheiro, quando empregado por indivíduos empenhados em lutar sem pausa contra a tirania da própria ignorância, possa ser parte de um mundo autenticamente virtuoso (e não de um apenas 'mais virtuoso'). Se tal virtude, então, está no que se entende por 'justo' ou por 'igualdade de oportunidades', é de supor que a exata distribuição de dinheiro - num hipotético e cristalino universo da carochinha, concedamos - será contribuição apreciável na consecução da justiça. Neste caso, entretanto, que propósito ou sentido há em continuar usando-o? Vê-se por aí o que vai no espírito de quem se tem por 'à esquerda' no espectro político e concebe distibuição apenas 'mais justa' ou 'mais igual' disto que por natureza própria deixa de ter propósito ou sentido quando os significados de  'justiça' e 'igualdade' são preservados.

sábado, dezembro 03, 2016

Ao ler, 'cante' para entender.

Certa musicologia tem prazer particular em tratar da 'retórica da música'. A intenção evidente é cercar por mais este lado a descrição de uma impressão persistente do ouvinte de música, a de que se veicula nela uma mensagem, como sugere Schopenhauer: "A música é um exercício de metafísica que se ignora, durante o qual o espírito não sabe que filosofa."

Definir ou descrever seja o que for, atividade inevitável e corriqueira que não é preciso ser-se filósofo, cientista, lexicógrafo ou enciclopedista para realizar, é uma das grandes armadilhas do pensamento: acreditando que se fala em determinado objeto ou fato, fala-se na verdade no que se relaciona a ele, o que em teoria seria rigorosamente tudo mais, verdade assombrosa, embora contornável pela escolha do que se estima ter relação mais estreita ou direta com o que se descreve ou define. (Ao falar-se de uma cadeira, por exemplo, tem-se subconsciente e automaticamente em consideração seus mais imediatos constituintes e cujos nomes ou definições, por sua vez, referem 'coisas' ou ações mais distantes dela, como 'pernas', 'braços', 'encosto', 'assento', o material de que é feita, onde ela está, e sem os quais sua noção como um todo não faria sentido. Mais distantes do universo privado da cadeira - e por isso menos considerados em sua definição corriqueira, mas nem por isso livres de serem invocados se necessário - estão o endereço onde a puseram, sua posição relativa a outros objetos, numa lista interminável que, a depender do uso que na linguagem se faz dela, pode incluir sua constituição atômica e as estrelas mais distantes.)

Justo e natural, assim, que se aproxime a língua falada da música, ou seja, que se descreva uma por intermédio da outra, porque afinal, na prática, mais do que próximas, são indistinguíveis, não fosse havermos estabelecido correspondência entre isto que se canta ao falar e as ideias de coisas quaisquer, o significado - o qual inclui até o que é falado, ou seja, palavras e frases (como quando se diz "o termo 'tal'", "a frase anterior", por exemplo). Revogue-se essa correspontdência, isto é, retire-se da fala a espessura semântica que lhe apusemos e eis que resta somente o som de vogais e consoantes percorrendo de agudo a grave a extensão da voz em ritmos e andamentos diversos: pura música.

O emprego do termo 'retórica' em música parece à primeira vista hiperbólico, presumiria demais, como por exemplo a presença de espessura semântica amplamente compartilhada por quem a usa, análoga à da linguagem falada. Há, de fato, algum significado imposto à música, semelhante ao da fala, mas é relativamente insignificante se comparado a este, em particular quanto à sua porção não especializada, não técnica, como o que refere ritmos (samba, fado), estilos (sertanejo, clássico), certas formas (rondó, prelúdio, sinfonia) etc. O vocabulário técnico não é muito maior, e além disso não se trata tanto de uma autêntica espessura semântica semellhante à da linguagem falada quanto de um estratagema da língua para referir certas configurações musicais (compasso binário, cambiata, retardo, meio-cadência e incontáveis outros).

Quanto aos termos empregados para exprimir o que se sente ao ouvir música, até podem constituir volume considerável e haver algum consenso a seu respeito, mas as controvérsias que acarreta compreendê-los como expressões de uma retórica da música já desestimularam a teoria há uns dois milhares e meio de anos, quando em definitivo Aristoxeno pôs de lado as 'musicologias' platônica e aristotólica, pensadas sobre um presumido etos da músca, ou seja, sobre os sentimentos que por suposto ela sugere. A rigor, como se percebe, antes de constituírem alguma espessura semântica da música, são os diversos aspectos da música, inclusive os semânticos, que constituem a espessura semântica desses termos: para o ouvinte a música com efeito evoca ou pode evocar significados oriundos de outras fontes, em particular da língua).

A 'retórica' a que a musicologia refere, de fato denotada em termos de imagens, sentimentos e sensações nem sempre consensuais do ouvir música, é algo intrínseco ao que Aristoxemo se propôs a investigar: o próprio código musical, como ele se organiza segundo exclusivamente os paradigmas ou propriedades que se admite ter o som - duração, altura, intensidade e timbre - e nesse sentido inaugurou a hoje chamada musicologia sistemática. Desse viés e se de fato pertinente falar-se numa 'retórica da música', seria como - dizendo-o de um modo não menos retórico - o diálogo estabelecido entre quem a cria e as propriedades gerais do som acrescidas da que caracteriza o chamado som musical e ignorada em teoria ao tempo de Aristoxeno.

Os sons resultantes são uma parte um tanto nebulosa da teoria acústica, em princípio associados à constituição do timbre e certamente presentes em todo e qualquer evento sonoro, embora não como se apresentam no som musical, em que sua disposição peculiar é evidenciada. A uma análise precipitada o som musical pode parecer mais do que indício do idealismo platônico relativo às formas geométricas, por ser usualmente produzido por instrumentos cujas estruturas se aproximam das mais simples dessas formas, como 'cilindros' (os tubos), 'retas' (as cordas), 'segmentos de plano' (plaquetas e superfícies regulares percutidas) etc. E os sons que produzem, com o deslocamento de moléculas que lhes estão próximo, podem ser descritos como espécie de reprodução ou propagação dessas formas no entorno.

Nesse contexto, o das formas geométricas simples, o som produzido a partir delas parece também desafiar a compreensão comezinha do que seja matéria: as cordas, com que de hábito o fenômeno é demonstrado, apresentam padrôes vibratórios superpostos, se assim é possível referir o fenômeno, em que vibram simultânea e 'independentemente' tanto a corda por inteiro quanto cada uma de suas divisões segundo a série de números inteiros positivos. A resultante, ou série harmônica, é aglomerado de sons, em teoria infinito, dispostos segundo proporções (isto é, numericamente exprimíveis) relativamente às quais se estruturam as escalas e os acordes no fazer da música.

Os harmônicos são na realidade o principal interlocutor do criador de música, enquanto as demais quatro propriedades - duração, altura, intensidade e timbre - seriam como os padrões organizando a língua por cujo intermédio o compositor e harmônicos se comunicam. O diálogo, em si, não se distingue muito dos que travam dois sujeitos quaisquer, girando ao redor de endossos e contestações recíprocas do que se argumenta ou propõe, ao longo do que prevalece, em termos mais tradicionais, a estrutura básica dos harmônicos, paradigma que mormente a música erudita do século XX se empenhou em subverter.

Isto não significa dizer que não se faz música senão com som musical, mas sim que as feitas exclusivamente com outros sons tendem a consistir em diálogo distinto, porque o aglomerado de sons resultantes não permite que se evidenciem, como no som musical, aquelas proporções representadas pela série numérica de inteiros positivos: usando outra vez de uma figuração por assim dizer 'retórica', haveria como que monólogo, antes que diálogo, do criador frente aos sons ditos 'não musicais', presumivelmente devido à quase impenetrável complexidade dos aglomerados dos sons resultantes, pelo que prevalece o emprego como que livre das quatro propriedades restantes do som - duração, altura, intensidade e timbre. (E é provável ser este o motivo de John Cage, ícone da música erudita do século passado, ter afirmado que a percussão, em especial essa utilizando materiais não produtores de som musical, seria essencial na transição da música tradicional para a música do futuro.)

Em ambos os casos, em que se utiliza e em que não se utiliza o som musical, a habilidade humana tem produzido trabalhos contendo invariavelmente o que se vem exprimindo com 'retórica'. E tal não redunda em pouca coisa. Organizar sons sem presumida espessura semântica - no caso, a arbitrariamente atribuída, como se dá com as palavras - acarreta produzir com o encadeamento diversificado deles o significado que, a princípio tido por simples, é poderoso o suficiente para orientar o ouvinte ao longo de ´périplos' invisíveis, oferecidos exclusivamente à audição. Objetos como início, meio e fim, por exemplo, referentes não só a uma peça de música como um todo, mas a cada uma de suas partes, além de tensão e distensão, encontram-se entre os básicos nessa semântica e com os quais são construídos outros, comuns ou não a obras e estilos.

Enfim, o discurso musical eficiente é aquele em que se foi capaz de produzir a orientação bastante para nele o ouvinte encontrar certo sentido. É verdade que podemos definir o pensamento - e decerto não somente o nosso, humano - como autêntico farejador de sentidos em tudo no mundo: somos capazes de ouvir música nos sons dos pássaros e, entre incontáveis circunstâncias mais, em gotas caindo sobre superfície d'água, embora seja também verdade que sabemos distinguir entre essas e a música produzida por outro humano - se assim este o quis, é evidente.

De volta ao discurso das palavras, percebe-se agora que enquanto som elas já são o que se chamaria de discurso, já produzem ou oferecem o suficiente para com elas se elaborarem múltiplos sentidos, sentidos que por certo interferem ou dialogam com os significados apostos (os oriundos de fontes como a língua), na medida em que é suposto estes prevalecerem, por isso não sendo coisa lá muito simples fazer poesia, e infinitamente mais difícil a poesia boa. Coordenar a coerência sonora da linguagem verbal com os ditames do significado do que se intenta dizer é trabalho em pouco distinto do compor sinfonia, formular em matemática ou em lógica, equacionar em física e menos ainda se é o caso de um Schopenhauer, citado acima, de um Borges, de um Pessoa, em que não se abdica nem por um instante da música no engendramento de pensamentos de enorme complexidade.

Mesmo os discursos ou textos mais banais, etretanto, não podem, ainda que o quisessem os autores, abrir mão da espessura sonora porque as línguas se organizam em torno dela. Hoje temos o favor da pontuação - infelizmente nem sempre aceito de bom grado por todos que escrevem - para prover de maior número de combinações expressivas a escrita e de orientação mais eficiente a leitura, coisa com que não contavam as línguas até recentemente, salvo quando faladas, em vista dos limites do fôlego, sem falar na própria organização sonora, que impõe cadenciamento. Muitas das dificuldades na interpretação de textos antigos se devem à ausência de pontuação ou a alguma insuficiente, irregular. Seus contemporâneos decerto não viam nisso inconveniente e por motivo preciso: estavam mergulhados no cadenciar da fala de seus tempos. Nada mais acurado, pois, para testar o poder da música inerente ao falar do que oferecer para leitura de improviso um texto qualquer a quem não treinou para o desafio. Por mais coerente e trivial que seja a urditura do que lê, tropeços, entonação equivocada, pausas inusitadas e outros inconvenientes terminarão, é provável, por fazer do texto nonsense puro.

Isso remete a certo procedimento da educação para a língua que se usava nos meus tempos de colégio, pequenos vexames individuais passados em sequência a cada vez que nos mandavam ficar de pé e continuar a leitura donde parara um colega até que outro nome fosse designado para seguir de onde pararíamos. Hoje - lugar comum dizer - não canso de agradecer por esse 'suplício', assim como pelo das aulas de solfejo (ao compasso de um lápis ferindo a mesa e da mestra vocalizando nossos equívocos - "a ligadura, fulaninho", "aí é staccato, sicrano"), em ambos os casos, no fundo, quase a mesma coisa: era preciso aprender a cantar o texto lido para lhe extrair o sentido. E hoje, em vista do que ouço dizer depois da apreciação de algum escrito, é com algum horror que suponho ter alguém deparado ali silêncio mortal. Para concluir: não parece mais tão acertado, quanto se acreditou, falar em uma 'retórica da música' depois dessas considerações, embora dizer o contrário, ou seja, 'música da retórica', a despeito de em aparência inusitado, passa a fazer todo o sentido - enfim, é por ser música que a fala é retórica e não por ter algo da fala que a música faz sentido. A música, ao que tudo indica, apareceu primeiro, falando do que vai dentro de si mesma, do que se move em suas entranhas.

quinta-feira, novembro 24, 2016

Relaxe e pense: é melhor do que implicar.

"Mas isso é discussão filosófica profunda. Não cabe num papo informal." - é o que canso de ler em incontáveis variações nos fóruns Internet afora. Eis como entendo a frase:

Eu usaria a expressão 'discussão conceitual' no lugar de 'filosofia', que não parece cair bem aí. Porque 'filosofia' significa o prazer de pensar como os conceitos se relacionam entre si, não mais. Enfim, significa o prazer de realizar isso que por natureza fazemos, mesmo sem querermos. Como - exemplo bem 'concreto' para não deixar dúvidas do que quero dizer - defecar: não há quem não o faça (até onde sei) e desses há quem desfrute em detalhes o momento, embora em maioria o toleremos e a contragosto, quase sempre reiterando para si o desprezo por esse aspecto 'animal' de nossa condição - aliás, aspecto altamente informativo do quanto nos vai por dentro sem que disponhamos de muitos outros meios de o detectar e pelo que mereceria o devido apreço.

O mesmo ocorre com pensar sistematicamente os conceitos: é da nossa natureza especular sobre os sinais do que outrem está pensando sobre nós, se um conjunto de fatos indica a ocorrência prévia de outros ou, mais 'atrevidamente', seus desdobramentos fututos etc etc etc. Sem isso seríamos o que acreditamos serem as pedras e a esse respeito só há um punhado de alternativas: fazê-lo bem ou mal e gostar ou não de o fazer, que se combinam em pares, o mais comum dos quais esse resultando mal por pura má vontade.

E antes que esqueça: a questão da 'profundidade'. Alguém uma vez disse ter encontrado Einstein perambulando, perdido pela universidade, sem saber se vindo de uma aula ou indo dá-la. Coisa semelhante ocorria com Platão, segundo seu discípulo Aristóteles, mas no universo dos conceitos, ignorando com frequência se ia ao encontro dos mais básicos, os fundamentais ou axiomáticos (autoevidentes), ou se enveredava na direção dos mais complexos. O pensamento sistemático tem disso: depois de mergulhar nele é comum não se ter ideia clara de a qual profundidade se está, o que é provável apavorar muita gente, pois não se tem escolha senão a de nadar (já que se nasce e se morre à deriva nesse oceano), e em desespero esse pessoal põe-se a se debater.

sábado, novembro 19, 2016

Relativo a quê?

O rastro do einsteiniano é seguido a certa distância por outro relativismo nada afeito a cálculos numéricos e menos ainda aos que recomenda a lógica. Trata-se de espécie parasitária que sem vexar-se deriva da vetusta constatação de tudo ser relativo a única objeção de que se vale para seja o que for: "mas isto é relativo!"

Hoje se sabe que o verdadeiro trabalho de Einstein foi o de extrair consequências inusitadas de umas tantas proposições de Galileu, filósofo cujo tino levou-o a ajuntar ao nascente método científico isto que o mediano estudante de metafísica, sendo aplicado o suficiente, faz milênios compreendeu: tudo quanto se conhece ou é passível de conhecer-se está ou tem de estar relacionado a outra coisa, em suma, o bom e velho dito 'tudo é relativo'.

Mesmo os espíritos sob voto de indigência são capazes de entender que um tijolo, por exemplo, não existe nem pode existir, isto é, não é compreendido nem pode o ser sem que se tenha em conta a matéria de que é feito, a forma sob que se apresenta e, entre incontáveis propriedades outras, a finalidade para que se o concebeu. É imprescindível considerar
também as relações que mantém com objetos mais abstratos como espaço e tempo, ou seja, que é relativo ao lugar onde o encontramos, ali tendo de permanecer o suficiente para, além de propriamente existir, tomarmos conhecimento de que existe.

Se algo de inédito fizeram Galileu e Einstein quanto ao tema, foi trazer de volta à memória coletiva, aí mantendo-a ao passo em que a exploravam, observação igualmente multimilenar e a cuja evidência pensamentos tão díspares como os de milésios e eleatas tiveram de anuir: a de que o objeto de conhecimento é também e necessariamente relativo àquele que o conhece e não só quanto aos respectivos pontos ocupados no espaço e no tempo, aspecto de maior interesse para a física, mas também quanto a tudo que já conhece o observdor. Enfim, além do ponto de vista propriamente geométrico - e temporal - há aquele que se pode chamar de epistemológico, cultural ou de seja como convier à ocasião.

É justo dessa observação, que para lá de sua evidência tem sido fonte donde a imaginação vem derivando paradoxos e outras singularidades que a extasiam ao considerar a natureza, que o relativismo rasteante se vale em sua permanentemente inane condição, apondo a tudo quanto se diga seu único mantra:"mas isto é relativo." Quanto ao que intenta com a insistência no dito, à primeira vista parece incerto, ou ainda, seria até relativo, como admite ao conceder em jogar com o próprio brinquedo, ou seja, até o mantra, ele mesmo, não é absoluto.

A uma análise ainda que sumária, entretanto, suas intenções não poderiam mostrar-se mais singelas, nem mais frágil pareceria sua artimanha, esta sustentada apenas no silêncio anuente de seus alvos: quer dizer apenas que não concorda com seja o que lhe disseram e quanto ás razões, os motivos para tal, bem, fica por dito o não dito, do que se deduz o óbvio: está em ponto exclusivo no espaço, tem exclusivo 'background', por conseguinte não sendo o outro, nem podendo pensar ou julgar como ele. Desnecessário observar, mas já observando que a depender dele, relativismo de rasto, o conhecimento, assim com o entendemos, seria impossível porque não compartilhável e, por isso, não testável frente ao de outrem, a cada qual de nós cabendo saber do mundo o quanto o permitirem a circunstância e a duração da vida.

O relativismo da física preconiza de fato a validade da visão - ou teoria - singular, obtida sob condições que serão de necessidade únicas para todo o sempre, entretanto sem esquecer de que são muitas, infinitas, as singularidades, de que não estão isoladas, incomunicáveis, uma vez que são parte do mesmo continuum que chamamos de universo, e de que vêem - teorizam - umas as outras, assim completando-se no que seria a visão - teoria - consensual do todo (espécie de epifania exclusiva de quando se sonha). Por esse prisma é possível adiantar, primeiro, que além da quimérica visão da totalidade é provável que apenas a relatividade do conhecimento seja absoluta e, segundo, que se com seu mantra o relativismo rasteiro quis somente dizer de seja o que for, exceto essas duas coisas, que não se trata de absoluto, nada mais indicado do que anuir com o silêncio à óbvia verdade da afirmação, mas em caso contrário é mister ter sempre na ponta da língua a pergunta: 'relativo a quê?'

segunda-feira, outubro 31, 2016

Pontas de virtude

a Imna

Em cinco pontos uma parábola dá lição breve de ética valendo-se de um lápis. Como ele, então, a) não seríamos autônomos, mas guiados por uma mão - no caso, a de Deus, evidentemente; b) precisamos ser eventualmente 'apontados' para funcionar a contento, ainda que com isso ocorra desgaste; c) o que 'escrevemos' - ou, segundo o proposto em a), seria o que se 'escreve' conosco? - deve ser passivel de rasura, não havendo mal em emendar o erro; d) somos o conteúdo, não o que o envolve: e) tenderíamos a vincar o lugar por que passamos, deixamos marcas, sendo preciso cuidar para que sejam as melhores.

De saída o ponto a) contradiz c) e e): um lápis não é de fato responsável por nada que se faça dele ou com ele. Mas a contradição na metáfora ilustra as dificuldades que surgem ao se propor o problema da origem - ou da Criação - como obra em progresso, sugerido na imagem da mão e sua ascendência absoluta sobre o lápis e o que com ele se produz. Desse viés Deus estaria perpetuamente criando, inclusive por intermédio do que já criou: a ideia de onipotência divina sofre aqui um revés com a sugestão de eventualmente necessitar Deus de intermediários - de se valer de instrumentos - para o que cria, caso não se justifique que o faria por puro desfrute, ou seja, apenas porque pode. Não deixa de ser também uma eloquente defesa do homem pelos incertos resultando de tudo quanto inventa e faz, como a tecnologia e seus reveses.

Os pontos c) e e) trazem outra evidente crítica, desta feita no que tange a como concebemos Deus quanto ao atributo 'perfeição', por certo o mais importante: ainda que guiados pela mão divina, erros são produzidos. Dessa perspectiva Deus é mostrado como, a despeito de imperfeito, moderadamente cauto, tendo-nos feito como o lápis, cujos riscos podem ser apagados, embora não os vincos que obrigatoriamente deixaria.

Mas justo por estarem em contradição com o ponto a), c) e e) podem ser entendidos independentemente ou à revelia dele: assim aparecemos como aqueles a quem - por 'escreverem' como os lápis - é dada a chance do emendar os próprios erros e a quem se recomenda o cuidado com o que mais dura do tanto que produziu, que são as marcas ou os vincos deixados nos lugares por que passamos. À diferença da ideia do risco, a do vinco o sugere como resultado não intencional, embora inevitável, da escrita, o que a experiência com os lápis contraria, uma vez que também há vincos intencionais, assim como é possível com algum empenho não vincar ao escrever com eles. De modo que, do ponto de vista do sujeito em pleno gozo de sua volição (ou não guiado por mão divina), a recomendação de cuidado para com as marcas que deixa pode referir também a passagem incólume do sujeito pela existência, se assim desejar e lograr, deixando de si o mínimo ou mesmo nada.

b) e d) tratam do que se dira estrutural ou essencial da existência do indivíduo, em contraste com o que ele produz, objeto de c) e e), correspondendo a uma visão mais realista, ainda que pouco  auspiciosa da vida. O corpo é o involucro de madeira e a alma, o grafite, enquanto a ponta seria a parte da alma em contato direto com o mundo, que nele atua, modiicando-o ao produzir coisas. Entretanto ocorre de o uso desgastar a ponta, tornando imperfeito o que produz: a solução é então afilá-la, procedimento necssário à boa qualidade do produzido, mas danoso para o lápis como um todo, reduzindo progressivamente seu tamanho até a inutilidade, quando então manuseá-lo será penoso ou impossível.

A metáfora parece bem apanhada, exceto por um ponto crucial: se por motivo central a parábola tem o estimulo à realização de obras virtuosas e se estas se fazem por intermédio da parte atuante da alma quando - e somente quando - está em condições de o fazer, então tanto o uso da virtude quanto o seu aprefeiçoamento seriam as causas ou, no mínimo, estariam na raiz da degradação física do indivíduo, conclusão que, apesar de um tanto inesperada, nada tem de absurdo. Visto desse viés o ponto não faz da virtude prática convidaditva.

Com efeito parece não haver objeção eficiente à constatação de ser, sim, no esforço de corresponder às demandas do mundo que aos poucos o indivíduo se desgasta. E esse esforço pode ser dito, em tese, como o emprego de alguma virtude, como ação virtuosa, não de necessidade uma do tipo que a parábola quis referir, isto porque mesmo o ato egoístico - ou malévolo no pior dos sentidos - contém lá sua virtude, em particular se resulta, se é eficiente. Mas seja qual for o caso, em verdade o uso da virtude seria no mínimo duplamente danoso, por depender ela de ser exercitada - ou esmerilhada como a ponta do lápis - antes de usada com sucesso.

Quando criança e, claro, sem a minima ideia de décadas à frente vir a tomar conhecimento assim tardio da parábola do lápis, intrigavam-me ou afligiam-me em certos estojos, em geral de meninas, alguns exemplares colecionados de lápis reduzidos ao que se poderia chamar, em termos de suas dimensões, de inteira miséria, embora apresentassem as pontas notavelmente bem feitas. Uma ou outra de suas donas, como se querendo justificar tê-los guardados, de quando em vez se exibia com um desses coitados em exercícios de caligrafia, a despeito do esforço exigido para o feito.

Lembrar deles agora, depois de inteirado de sua metafórica ontologia, é acordar uma certa tristeza, a de entender que aquelas virtuosas pontas foram as últimas na sua condição de lápis, que refazê-las depois de gastas seria extirpar o que resta da madeira ao redor do grafite. Talvez não fosse à toa, por exibicionismo tolo, que os usassem até o final aquelas meninas, mas por espécie de caridade que os tirava do esquecimento naqueles depósitos diminutos, livrando-os da tragégia de por tempo indeterminado serem virtuosos apenas em potência. Como é de imaginar, havia também uns suportes em plástico com o comprimento normal dos lápis, em que eram encaixados os cotocos, exceto aqueles ínfimos, cujas donas, parecendo adivinhar o que representavam, os tomavam então com as pontas dos dedos e, sem fazer caso do transtorno, caprichavam na letra.

sábado, julho 16, 2016

Pensamentos em economia

Intróito


Antes de mais: sem essa de achar que não tenho direito de pensar economia, já que, músico, não me intrometo quando você pensa música, o que sempre faz ao por alguma para tocar ou ao falar de suas preferências. Como usuário ou agente inescapável do mercado é inevitavel que o pense, ainda que não como economista, o que é certamente uma vantagem, na medida em que minha opinião não precisa agradar a gregos ou troianos em troca de me sustentarem, o que se entenderá melhor a seguir.

Interlúdio


Como é legivel, humor, se algum, no cáustico, paciência, no vermelho. No fundo, gosto de abordar o tema, mas do viés do aborrecimento, da zanga, pois é sem dúvida o que melhor lhe cai. Assim, se acha que perde tempo em continuar lendo, pare de achar e não o perca ainda mais.

O assunto ele mesmo


Balela isso de dizer que dinheiro precifica coisas, arbitra para elas valores que alguma vez tiveram relação com o que intrinsecamente valem. Valor intrínseco é atributo circunstancial, ainda que a memória o retenha por precaução, e diz respeito à saciedade ou satisfação de necessidade, ainda que tola. Não há no mundo como quantificá-lo com um cardinal impresso em moeda: o que agora vale o próprio avassalamento, depois de saciada a necessidade pode chegar a valer nada ou mesmo a causar repulsa - valor negativo.

O que se precifica, em realidade, é a energia humana, em particular a produtiva, expressa grosso modo no preço do que se produziu. Por modulador dessa valoração tem-se outra forma de energia, a volitiva ou desiderativa, em razão direta do aumento dos preços: assim, se você precisa demais dum salário e deixa isso patente, esteja certo de que obterá menos do que pretendia e sob a impressão de que lhe fazem favor, podendo também obter nada, isto porque seu extremado desejo permite ao empregador superestimar o próprio dinheiro, com que lhe pagará, se for o caso, sem falar em que no restante do mercado o seu ganho terá valor igual ao dos ganhos dos restantes indivíduos, se não menor, a depender sempre do tamanho de seu desejo, é claro.

Outra: é evidente que o mercado está sujeito a influxos como o da sazonalidade, por exemplo, mas bem menos do que nos fazem acreditar. Na verdade em economia as estações correm ao sabor da oportunidade de ganhos maiores, o tempo aí tem estado sob controle humano há milênios sem que para tanto se tenha necessitado de outra tecnologia senão a movida a energia humana, essa do trabalho e, neste caso, principalmente a do desejo. Nunca houve no mercado outra tração além da humana, mesmo porque é ela o que dá sentido à tração animal e à da máquina, que em si mesmas valem nada.

Cenário de outra ação este não é senão a do escravagismo, seja ao modo esclarecido, seja ao dissimulado. Leis que tipificam as chamadas 'condições análogas à da escravidão' não passam de outra balela, a que visa exclusivamente conter os adeptos mais afoitos da forma esclarecida de escravizar, que dela se aproximam simulando a maneira dissimulada a que, via de regra, os demais nos submetemos: parece mesmo que assalariam, mas forçam o trabalhador a consumir a preços imorais e impagáveis o que tão só lhe permite não morrer, condenando-o a débito em crescimento perpétuo. Por função precípua teriam essas leis a de evitar que abusos do gênero, correndo frouxos, terminem por despertar a analogia posta para dormir em nossas imaginações desde quando se aboliu a escravatura descarada, imaginações em tempos de Direitos Humanos, pondo-nos assim a compreender a mecânica da escravidão dissimulada.

Não se engane: não é por estar nas galés, na lavoura ou puxando blocos de pedra na construção das pirâmides que se caracteriza o escravo, que pode até desfrutar do conforto de servir à mesa, de cuidar das crianças da casa, ou do pecúlio modesto que lhe concedem em troca de alguma confiabilidade, de certa conivência. Aliás, vale o lembrete: escravo é aquele que quer muito algo, embora muito pouco disso mesmo. Em outros termos: quer viver, não lhe importando como.

sábado, abril 30, 2016

Esboço de crítica estóica à moral neoliberal

É preciso continuar lembrando aos picados, entre outras, pela ideia de liberdade assim como a manipula a doutrina neoliberal, que o poder de escolha, indício maior - segundo esses ideólogos - de ser livre quem o tem, denota ignorância, talvez a mais profunda e elementar. E isto por uma simples razão: se o indivíduo de fato sabe o que é certo, inequivocamente certo, é evidente que não tem escolha e, em consequência, não há liberdade alguma nesse sentido, o pregado pelo neoliberalismo.

Insisto no meu exemplo batido, o do mate em três diante do qual estariam o diletante e o mestre enxadrista: o primeiro tem boas chances de desperdiçar a oportunidade por ver na disposição das peças apenas profusão de movimentos a serem escolhidos, enquanto o outro não poderá evitar de mover a peça que desencadeará o mate inevitável, salvo entenda haver proveito em empatar ou perder a partida. Um se encanta com as possibilidades de ação à sua escolha, o outro só enxerga um movimento porque tem em vista o melhor na circunstância e sabe não haver outra coisa a fazer nela; um sabe, o outro ignora e pode malversar a oportunidade - e principalmente contra si. Em suma, nestes termos ‘liberdade (de escolha’ - é claro) denota apenas ignorância daquilo cujo resultado o torna incontornável, sem rivais, sem alternativas, o que não acarreta proscrevê-la, pois é evidente que ela sempre existirá enquanto o indivíduo não conhecer o que não tem alternativas, o que também não implica, por sua vez, tê-la por algum tipo de vantagem, por algo de que se possa vangloriar-se por se estar à sua mercê: ao contrário.

Mas, excluídas situações especiais ou extremas, quase nunca a circunstância determina como sendo a melhor a solução resultando em ganhador e perdedor, como é próprio de jogos como o xadrez e muito frequentemente, segundo os neoliberais, do chamado 'mercado', havendo inclusive alguma teoria sugerindo ser mais adequada a saída pela colaboração, seja qual for.a disputa: no go, por exemplo, o grande mestre ê reconhecível por privilegiar essa linha de ação colaborativa, a qual se reflete na configuração final do tabuleiro, de inegável excelência em termos estéticos - uma partida desse jogo que resulte em disposição desarmônica de peças deixou patente ter sido violenta, terem os contendores visado a vitória crua antes que o jogo, antes que sua beleza e prazer.

Não sendo sempre contornáveis as situações de ganho e perda, parece ser, pois, evidentemente desnecessário que sem motivos claros se as enfatize, provoque, desencadeie e, menos ainda, que se as torne em motivo de regozijo, como parece ensinar o privilégio do estético no jogo do go. É preciso lembrar que em fim de contas somos todos favas contadas na batalha de que nenhum de nós tem sido capaz de desertar, a batalha por manter-se vivo, em que dia a mais, dia a menos, estaremos sem exceção derrotados - e da lógica que esse destino determina talvez só escape o suicida, evidentemente por ter mudado de lado nessa guerra. E em vista de desfecho assim universal e inevitável parece pouco perspicaz tirar dele outro proveito senão a compaixão, termo que em seu sentido estrito descreve tão-só a constatação de estarmos todos na mesma balsa montada com os destroços dum naufrágio que não vimos, não percebemos e em que quiçá sequer estivemos, a despeito de sem dúvida sermos seus náufragos e de não haver terra à vista no horizonte oceânico.

Ao postular indevidamente como 'liberdade' o poder de escolher do indivíduo inebriado com a profusão de possibilidades sobre as quais exercê-lo e sem estar previamente advertido do dever de manter sob constantes revisões os critérios orientando sua escolha caso esteja entre suas preocupações prevenir desastres, o neoliberalismo escancara porta já perigosamente aberta para o egoísmo, essa que antes dá no atoleiro em que são retidos os de cepa menos resistente: aí chafurda quem tende a fazer do drama da balsa de náufragos a tragédia duma ‘balsa da Medusa’. Porque em essência o egoísmo não passa da manifestação numa consciência da propriedade do ser que propicia a individuação, que permite à consciêcia conhecer e reconhecer as individualidades e o quanto as sustenta, não lhe aparecendo o mundo, por isso, como massa indiscernível - e em que é de supor incogitável ser capaz de sobreviver. O egoísmo é a teoria de si que produz cada consciência no afã de subsistir, de permanecer (no tempo, portanto), consistindo então em instrumento antes de em arma. E é exclusivamente o conhecimento sempre mais aprofundado do que proporciona à consciência a sobrevida o fator a garantir ao egoísmo a condição instrumental - é somente na medida do entendimento de que se existe numa rede de proporções inestimáveis cujos membros têm todos papel crucial na existência ou permanência de cada um dos demais e a despeito de certas consequências nem sempre aceitas sem contragosto, como a inevitabilidade do morrer, e que em aparência alteram em nada a justeza desse entretecimento de individualidades. O egoísmo instrumental confere ao indivíduo consciente a capacidade de reconhecer tudo mais como partes imprescindíveis de si mesmo: continua ‘amor-próprio’, sim, mas de abrangência universal.

Daí ser fácil de ver por que ao invés de objeto do domínio que se chamou ‘transcendente’ (se ideia de tal é sequer pensável), ou o reino do chamado ‘místico’, a compaixão é, ao invés, matéria do imanente, o reino do que se denomina ‘humanístico’, ‘ético’, ‘político’ etc: o ‘compartilhamento do mesmo páthos’ não pode ser ato ocasional, intermitente, sem que se denote dessa infrequência ignorância grosseira, sem que se negue sua condição de dever de conceder direitos a quem de direito for e sem que se o transforme em coisas como a ‘caridade' assim como o senso comum a compreende. Introduzir nesse contexto a ideia de escolha, então, não é senão submeter-se ao barbarismo de cogitar haver alternativa ao egoísmo instrumental de viés universalista, de cogitar de o contrário dele trazer algum proveito para quem ou o que seja.

Se definível de modo sério ou que a torne em conceito relevante, a liberdade o seria, ainda que de forma tíbia, como a desincumbência de dever cumprido, definição um tanto inquietante na medida em que confere ao dever conotação negativa de estorvo, entrave, o que de necessidade não é. Vê-se portanto que em sua acepção forte ‘liberdade’ só pode traduzir o desvencilhamento do quanto estorva, entrava, só pode referir a supressão do que escraviza. Assim o entendeu um dos mais admiráveis pensadores e um dos meus preferidos, o estóico Epicteto, que foi inclusive escravo na Roma Imperial do primeiro século desta era, sendo só por isso credível tratar-se de autoridade na matéria, não bastasse o cabedal do estoicismo de que foi herdeiro.

terça-feira, março 22, 2016

Um dos encantos de ler Epicteto

... é entender que a filosofia é pura ética, no sentido de ser em ética que ela se resolve e se consuma. Depois de empenhar-se em superar os problemas em que tropeça por estar no mundo, agrupando-os sob rótulos como os de metafísica, lógica, ontologia, cosmologia e tantos mais, ela - filosofia - tem de  enunciar como o seu sujeito, o indivíduo que a possui e processa, pode ou deve estar no universo: resulta a filosofia, então, em ética.

Em Epicteto a ética preside, incontestada, e tem por critérios o que se expõe na estética, apenas porque estar no mundo tem de ser bom, ou perde o sentido. E tudo mais nessa obra é apêndice para justificar ou demonstrar a ação adequada, não necessariamente a acordada, ou moral, a ditada pela pressa que tem a comunidade humana de funcionar, ainda que não a inteiro contento. Assim, metafísica, ontologia, lógica, cosmologia, quando ali aparecem, é como apostos, separados por vírgulas do conteúdo principal, desse modo reafirmando também o propósito estóico de não interferir além do necessário na máquina do mundo - propósito este desvirtuado por Descartes, do que se redimiu ao compor capítulo inteiro de intuições errôneas a respeito das coisas, pois seu racionalismo, de raiz estóica, seria jamais capaz de as compreender, ou não, ao menos, sem parceria com o empirismo.

O estóico quer, antes, modular seu sujeito, propósito este afinado com o fim da ética e internado no indivíduo com os critérios estéticos, que não passam de atribuições, de mera rotulação do que está no entorno visando o desfrute das ideias que este suscita. É por intuir o bom no mundo que encontra o estóico a moderação nos atos, o auto-domínio, pois é mister deixar ao máximo como está a arrumação que aqui achou ao chegar, pois é assim que aprendeu a desfrutá-las. Neste ponto o estóico não esconde ser na verdade uma espécie de hedonista, pois o que o conduz à ética não pode ser diferente de algum prazer que, por sua vez, é o simples sinal ou sintoma do contato do sujeito com algum bem.

sábado, setembro 05, 2015

Pelo religamento com o mundo - reinstanciando Feuerbach

A etimologia antiga, descontadas as divergências, é unânime quanto ao sentido de religião, o de 'reunião', que tanto pode referir o agrupamento de fiéis quanto a ligação destes com os objetos de suas fés. O termo sugere, portanto, a recorrência da união ou ligação, de que se deduz que a ocorrência primeira ou anterior de ligação ou união se tinha desfeito.

O sentido de reunir com a divindade não é precisamente o mesmo de reunir para cultuar um deus. Entretanto os dois partilham, em princípio, ao menos a possibilidade circunstancial de em ambos a ação de um intercessor não ser essencial, pois é igualmente factível que indivíduos voltem a reunir-se com ou para o divino por conta própria ou estimulados por outro indivíduo. O modus operandi religioso comum, nesse caso, é eloquente em admitir a intercessão como  estopim para o religamento, seja qual for a natureza deste, fugindo exclusivamente à regra, ao que parece, o movimento dos tremedores, mais conhecidos por quakers, que no entanto admitem possuir um celebrante, único e onipresente nos ritos, ainda que somente descrito e biografado no Novo Testamento.

Assim o sentido clássico assumido nesse livro - o de pastor à frente do rebanho cuidando para não se desgarrarem as ovelhas e não descuidando de incorporar a ele uma ou outra que por acaso encontre vagando solitária - é preciso. A intercessão se dá por o grupo concordar tanto em que os seus indivíduos são incapazes de por si inteirar-se dos desígnios do divino quanto em que o intercessor de fato se comunica privilegiadamente com o além. E se a intervenção é autorizada, outorgada, isto se dá por se ter provado sua eficácia, a qual naturalmente deriva da verificação de fatos tidos por irreprodutíveis ou 'incausáveis' pelo comum nas assembléias, sendo por tal classificados em meio às taumaturgias.

A taumaturgia é ideia imbuída de extremos, um dos mais acentuados o da assumida ignorância incontornável de quem reconhece milagre no que outrem produziu. Em grande medida a religião não está só quanto a este aspecto, tendo ao seu lado a dupla ciência e tecnologia. Em vista do que têm proposto estas duas, mesmo o indivíduo com formação intelectual mediana não é capaz de esquivar-se de ao menos tratá-las como se milagres operassem, não sendo difícil deduzir disso o modo de encará-las dos de formação inferior.

Premida mesmo por essas duas inevitáveis companhias, cujo apelo se faz exclusiva ou mormente aos cinco sentidos para os desprovidos do intelecto bastante para compreendê-las, a taumaturgia propriamente dita, em seu habitat, religioso, busca apelar para o emocional, uma vez obstruídas também todas as vias para compreendê-la pela razão, assessorando-se de morais específicas, bastante distintas umas das outras, mas comungando exclusivamente, como lhes dita o nome comum, no serem hábitos, atitudes, que se reproduzem sem que se os questionem, pelo que tendem a manter-se a distâncias consideráveis de princípios tidos por universais reunidos no que se convencionou chamar de ética.

Religiões são por natureza morais, não necessariamente éticas. Podem ser tidas por éticas enquanto suas assertivas não são postas sub judice, embora tendam a conservá-las intactas, desse modo deixando para a ética a tarefa para que adrede se fazem incompetentes. Eventualmente até apressam o passo, chegando a dar as mãos à outra, quando não é raro ocorrerem protestos acentuados e mesmo cisões, como é em parte o que se testemunha ao redor de posturas como a de Francisco, o Papa, e mesmo de uns outros poucos intercessores, até mais moderados, de denominações religiosas diversas.

A ética tem dupla desvantagem para os afeitos ao exercício exclusivo do emocional: requer algum preparo intelectual e não provê propriamente milagres, senão depois de muito trabalho e ainda que por inteiro ao alcance de qualquer um. Em geral é perfeitamente dedutível da análise de situações corriqueiras, embora só a compreenda quem tende à rigorosa honestidade para consigo próprio, honestidade beirando não raro a crueldade. Não pode, portanto, ser absorvida por quem, não tendo escolha - como qualquer outro - senão admitir-se mortal, procura consolo num pecúlio moral que lhe garanta ao menos descanso eterno, a mais segura das distâncias do que se cogita ser a danação.

O movimento da religião para a ética pode sem exagero ser tomado por salto sobre abismo pois é exigido do sujeito que momentanemente, ao menos, esqueça de si, do terror próprio do depois, quando quiçá nada mais será (e nada ou ninguém o garante em contrário exceto os intercessores que o ligam ou religam com o quanto é incapaz de ver por si). Saltar da religião para a ética acarreta dispor-se a considerar ou reconsiderar o mundo, mas não como entrave à espiritualidade ou como certame para gozá-la em maior grau depois de tê-lo vencido. Pois a ética, muito ao contrário do que acreditam espíritos ainda penetrados do religioso em demasia, tem por guia o sentido para o bom, como diz o estóico Epicteto, sentido que se materializa no prazer, sensação com que chegamos ao mundo equipados e aqui jamais nos fartamos de acurá-la. A ética tem sido a única maneira de honrar o desfrute dessa sensação, nada obstante as diferenças havidas entre os sujeitos, diferenças cuja razão se funda tão-só na observação singela de não ocuparmos todos em simultaneidade o mesmo ponto no espaço.

Tendo uma vez pousado na ética, tendo firmado aí os pés, não será de admirar que o indivíduo antes religioso tenda a desvestir-se deste passado, sendo entretanto muito comum quem aceite carregá-lo qual fardo que com o tempo, caso se persista no caminho, vai deixando para trás o que de danoso e inessencial tem, assumindo o sujeito a leveza do agnóstico quanto ao que será de si quando não mais for o que então é. Ao escolher a ética como via depois de ter seguido a religião o sujeito opera, no sentido inverso do que seguia, religação igualmente, mas desta feita com o mundo ele mesmo, com o sensível, mais afinada, inclusive, com um pressuposto compartilhado por quase todas as religiões, que é o de ser boa a divindade, pelo que não terá ela criado senão o bom, isso com que está afinado também o sentido maior nosso, suas criaturas sencientes.

Acreditar no contrário é viver paradoxo, caso não se possua a franqueza que tiveram para assumi-lo os kamchdalos (segundo os menciona Feuerbach em suas Preleções sobre A Essência da Religião), franqueza por suposto única em toda a história da humanidade: fiéis à concepção religiosa de mundo como entrave por excelência, não propriamente entrave ao espiritual, pintaram os kamchadalos Kutka, seu deus, como estúpido à guisa de única explicação plausível para serem dados à luz em meio a montanhas inexpugnáveis, invernos intoleráveis, a despeito de mês ou pouco mais de tempo ameno, como a dizerem-se, sem rodeios, mais inteligentes que o próprio criador e nas entrelinhas lhe votarem, inclusive, compaixão. Desse modo instanciavam (ao lado do sentido de bem e sua sensação, a de prazer) outro pilar da ética mesma, ou seja, a certeza de que o mal, sendo em essência juízo, se provocado por outrem e ainda que intencionalmente, é sempre sintoma de erro, sendo errar impossivel para quem é suposto saber, conhecer tudo. Em miúdos, para a ética e os religiosos do Kamchaka, bem como para uns bons cristãos, o mal é fruto invariável da ignorância.

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