sábado, dezembro 03, 2016

Ao ler, 'cante' para entender.

Certa musicologia tem prazer particular em tratar da 'retórica da música'. A intenção evidente é cercar por mais este lado a descrição de uma impressão persistente do ouvinte de música, a de que se veicula nela uma mensagem, como sugere Schopenhauer: "A música é um exercício de metafísica que se ignora, durante o qual o espírito não sabe que filosofa."

Definir ou descrever seja o que for, atividade inevitável e corriqueira que não é preciso ser-se filósofo, cientista, lexicógrafo ou enciclopedista para realizar, é uma das grandes armadilhas do pensamento: acreditando que se fala em determinado objeto ou fato, fala-se na verdade no que se relaciona a ele, o que em teoria seria rigorosamente tudo mais, verdade assombrosa, embora contornável pela escolha do que se estima ter relação mais estreita ou direta com o que se descreve ou define.

Justo e natural, assim, que se aproxime música e língua falada, ou seja, que se descreva uma por intermédio da outra, porque na prática afinal são, mais do que próximas, indistinguíveis, não fosse havermos estabelecido correspondência entre isto que se canta ao falar e as ideias de coisas quaisquer, o significado - o qual inclui até o que é falado, ou seja, palavras e frases (como quando se diz "o termo 'tal'", "a frase anterior", por exemplo). Revogue-se essa correspontdência, isto é, retire-se da fala a espessura semântica que lhe apusemos e eis que resta somente o som de vogais e consoantes percorrendo de agudo a grave a extensão da voz em ritmos e andamentos diversos: pura música.

O emprego do termo 'retórica' em música parece à primeira vista hiperbólico, presumiria demais, como por exemplo a presença de espessura semântica amplamente compartilhada, análoga à da linguagem falada. Há, de fato, algum significado imposto à música, semelhante ao da fala, mas é relativamente insignificante se comparado a este, em particular quanto à sua porção não especializada, não técnica, como o que refere ritmos (samba, fado), estilos (sertanejo, clássico), certas formas (rondó, prelúdio, sinfonia) etc. O vocabulário técnico não é muito maior, e além disso não se trata tanto de uma autêntica espessura semântica semellhante á da linguagem falada quanto de um estratagema da língua para referir certas configurações musicais.

Quanto aos termos empregados para exprimir o que se sente ao ouvir música, até podem constituir volume considerável e haver algum consenso a seu respeito, mas as controvérsias que acarreta compreendê-los como expressões de uma retórica da música já desestimularam a teoria há uns dois milhares e meio de anos, quando em definitivo Aristoxeno pôs de lado as 'musicologias' platônica e aristotólica, pensadas sobre um presumido etos da músca, ou seja, sobre os sentimentos que por suposto ela sugere. A rigor, como se percebe, antes de constituírem alguma espessura semântica da música, são os diversos aspectos da música, inclusive os semânticos, que constituem a espessura semântica desses termos.

A 'retórica' a que a musicologia refere, de fato denotada em termos de imagens, sentimentos e sensações nem sempre consensuais do ouvir música, é algo intrínseco ao que Aristoxemo se propôs a investigar: o próprio código musical, como ele se organiza segundo exclusivamente os paradigmas ou propriedades que se admite ter o som - duração, altura, intensidade e timbre - e nesse sentido inaugurou a hoje chamada musicologia sistemática. Desse viés e se de fato pertinente falar-se numa 'retórica da música', seria - dizendo-o de um modo não menos retórico - como o diálogo estabelecido entre quem a cria e as propriedades gerais do som acrescidas da que caracteriza o chamado som musical e ignorada em teoria ao tempo de Aristoxeno.

Os sons resultantes são uma parte um tanto nebulosa da teoria acústica, em prncípio associados à constituição do timbre e certamente presentes em todo e qualquer evento sonoro, embora não como no som musical, em que sua disposição peculiar é evidenciada. A uma análise precipitada o som musical pode parecer mais do que indício do idealsmo platônico relativo às formas geométricas porque é usualmente produzido por instrumentos cujas estruturas se aproximam das mais simples dessas formas, como 'cilindros' (os tubos), 'retas' (as cordas), 'segmentos de plano' (plaquetas e superfícies regulares percutidas) etc.

Nesse contexto das formas geométricas simples o som produzido a partir delas parece também desafiar a compreensão comezinha do que seja matéria: as cordas, com que de hábito o fenômeno é demonstrado, apresentam padrôes vibratórios superpostos, se assim é possível referir o fenômeno, em que vibram simultânea e 'independentemente' tanto a corda por inteiro quanto cada uma de suas divisões segundo a série de números inteiros positivos. A resultante, ou série harmônica, é aglomerado de sons, em teoria infinito, dispostos segundo proporções relativamente às quais se estruturam as escalas e os acordes no fazer da música.

Os harmônicos são na realidade o principal interlocutor do criador de música, enquanto as demais quatro propriedades - duração, altura, intensidade e timbre - seriam como os padrões orgnizando a língua por cujo intermédio um se comunica com os outros. O diálogo, em si, não se distingue muito dos que travam dois sujeitos quaisquer, girando ao redor de endossos e contestações recíprocas do que se argumenta ou propõe, ao longo do que prevalece em termos mais tradicionais a estrutura básica dos harmônicos, paradigma que mormente a música erudita do século XX se empenhou em subverter.

Isto não significa dizer que não se faz música senão com som musical, mas sim que as feitas exclusivamente com outros sons tendem a consistir em diálogo distinto porque o aglomerado de sons resultantes não permite que se evidenciem, como no som musical, aquelas proporções representadas pela série numérica de inteiros positivos: usando de uma figuração por assim dizer 'retórica', haveria como que monólogo, antes que diálogo, do criador frente aos sons ditos 'não musicais', presumivelmente devido à quase impenetrável complexidade dos aglomerados dos sons resultantes, pelo que prevalece o emprego como que livre das quatro propriedades restantes do som - duração, altura, intensidade e timbre. (E é provável ser este o motivo de John Cage, ícone da música erudita do século passado, ter afirmado que a percussão, em especial essa utilizando materiais não produtores de som musical, seria essencial na transição da música tradicional para a música do futuro.)

Em ambos os casos, em que se utiliza e em que não se utiliza o som musical, a habilidade humana tem produzido trabalhos contendo invariavelmente o que se vem exprimindo com 'retórica'. E tal não redunda em pouca coisa. Organizar sons sem presumida espessura semântica - no caso, a arbitrariamente atribuída, como se dá com as palavras - acarreta produzir com o encadeamento diversificado deles o significado que, a princípio tido por simples, é poderoso o suficiente para orientar o ouvinte ao longo de ´périplos' invisíveis, oferecidos exclusivamente à audição. Objetos como início, meio e fim, por exemplo, referentes não só a uma peça de música como um todo, mas a cada uma de suas partes, além de tensão e distensão, encontram-se entre os básicos e com os quais são construídos outros, comuns ou não a obras e estilos.

Enfim, o discurso musical eficiente é aquele em que se foi capaz de produzir a orientação bastante para nele o ouvinte encontrar certo sentido. É verdade que podemos definir o pensamento - e decerto não somente o nosso, humano - como autêntico farejador de sentidos em tudo no mundo: somos capazes de ouvir música nos sons dos pássaros e, entre incontáveis circunstâncias mais, em gotas caindo sobre superfície d'água, embora seja também verdade que sabemos distinguir entre essas e a música produzida por outro humano - se assim este o quis, é evidente.

De volta ao discurso das palavras, percebe-se agora que enquanto som elas já são o que se chamaria de discurso, já produzem ou oferecem o suficiente para com elas se elaborarem múltiplos sentidos, sentidos que por certo interferem ou dialogam com os significados apostos, na medida em que é suposto estes prevalecerem, por isso não sendo coisa lá muito simples fazer poesia, e infinitamente mais difícil a poesia boa. Coordenar a coerência sonora da linguagem verbal com os ditames do significado do que se intenta dizer é trabalho em pouco distinto do compor sinfonia, formular em matemática ou em lógica, equacionar em física e menos ainda se é o caso de um Schopenhauer, citado acima, de um Borges, de um Pessoa, em que não se abdica nem por um instante da música no engendramento de pensamentos de enorme complexidade.

Mesmo os discursos ou textos mais banais, etretanto, não podem, ainda que o quisessem os autores, abrir mão da espessura sonora porque as línguas se organizam - organizam suas possibilidades - em torno dela. Hoje temos o favor da pontuação - infelizmente nem sempre aceito de bom grado por todos que escrevem - para prover de maior número de combinações expressivas a escrita e de orientação mais eficiente a leitura, coisa com que não contavam as línguas até recentemente, salvo quando faladas, em vista dos limites do fôlego, sem falar na própria organização sonora, que impõe cadenciamento. Muitas das dificuldades na interpretação de textos antigos se devem à ausência de pontuação ou a alguma insuficiente, irregular. Seus contemporâneos decerto não viam nisso inconveniente e por motivo preciso: estavam mergulhados no cadenciar da fala de seus tempos. Nada mais acurado, pois, para testar o poder da música inerente ao falar do que oferecer para leitura de improviso um texto qualquer a quem não treinou para o desafio. Por mais coerente e trivial que seja a urditura do que lê, tropeços, entonação equivocada, pausas inusitadas e outros inconvenientes terminarão por fazer do texto nonsense puro.

Isso remete a certo procedimento da educação para a língua que se usava nos meus tempos de colégio, pequenos vexames individuais passados em sequência a cada vez que nos mandavam levantar e continuar a leitura donde parara um colega até que outro nome fosse designado para seguir de onde paramos. Hoje - lugar comum dizer - não canso de agradecer pelo 'suplício', assim como pelo das aulas de solfejo ("a ligadura, fulaninho", "aí é staccato, sicrano"), ambos os casos, no fundo, quase a mesma coisa: era preciso aprender a cantar o texto lido para lhe extrair o sentido. E em vista do que ouço dizer depois de apreciados em comum certos escritos, é com algum horror que suponho ter alguém deparado ali silêncio profundo. Para conclur: não parece mais tão acertado quanto se acreditou falar em uma 'retórica da música', embora dizer o contrário, ou seja, 'música da retórica', a despeito de em aparência inusitado, passa a fazer todo o sentido

quinta-feira, novembro 24, 2016

Relaxe e pense: é melhor do que implicar.

"Mas isso é discussão filosófica profunda. Não cabe num papo informal." - é o que canso de ler em incontáveis variações nos fóruns Internet afora. Eis como entendo a frase:

Eu usaria a expressão 'discussão conceitual' no lugar de 'filosofia', que não parece cair bem aí. Porque 'filosofia' significa o prazer de pensar como os conceitos se relacionam entre si, não mais. Enfim, significa o prazer de realizar isso que por natureza fazemos, mesmo sem querermos. Como - exemplo bem 'concreto' para não deixar dúvidas do que quero dizer - defecar: não há quem não o faça (até onde sei) e desses há quem desfrute em detalhes o momento, embora em maioria o toleremos e a contragosto, quase sempre reiterando para si o desprezo por esse aspecto 'animal' de nossa condição - aliás, aspecto altamente informativo do quanto nos vai por dentro sem que disponhamos de muitos outros meios de o detectar e pelo que mereceria o devido apreço.

O mesmo ocorre com pensar sistematicamente os conceitos: é da nossa natureza especular sobre os sinais do que outrem está pensando sobre nós, se um conjunto de fatos indica a ocorrência prévia de outros ou, mais 'atrevidamente', seus desdobramentos fututos etc etc etc. Sem isso seríamos o que acreditamos serem as pedras e a esse respeito só há um punhado de alternativas: fazê-lo bem ou mal e gostar ou não de o fazer, que se combinam em pares, o mais comum dos quais esse resultando mal por pura má vontade.

E antes que esqueça: a questão da 'profundidade'. Alguém uma vez disse ter encontrado Einstein perambulando, perdido pela universidade, sem saber se vindo de uma aula ou indo dá-la. Coisa semelhante ocorria com Platão, segundo seu discípulo Aristóteles, mas no universo dos conceitos, ignorando com frequência se ia ao encontro dos mais básicos, os fundamentais ou axiomáticos (autoevidentes), ou se enveredava na direção dos mais complexos. O pensamento sistemático tem disso: depois de mergulhar nele é comum não se ter ideia clara de a qual profundidade se está, o que é provável apavorar muita gente, pois não se tem escolha senão a de nadar (já que se nasce e se morre à deriva nesse oceano), e em desespero esse pessoal põe-se a se debater.

sábado, novembro 19, 2016

Relativo a quê?

O rastro do einsteiniano é seguido a certa distância por outro relativismo nada afeito a cálculos numéricos e menos ainda aos que recomenda a lógica. Trata-se de espécie parasitária que sem vexar-se deriva da vetusta constatação de tudo ser relativo a única objeção de que se vale para seja o que for: "mas isto é relativo!"

Hoje se sabe que o verdadeiro trabalho de Einstein foi o de extrair consequências inusitadas de umas tantas proposições de Galileu, filósofo cujo tino levou-o a ajuntar ao nascente método científico isto que o mediano estudante de metafísica, sendo aplicado o suficiente, faz milênios compreendeu: tudo quanto se conhece ou é passível de conhecer-se está ou tem de estar relacionado a outra coisa, em suma, o bom e velho dito 'tudo é relativo'.

Mesmo os espíritos sob voto de indigência são capazes de entender que um tijolo, por exemplo, não existe nem pode existir, isto é, não é compreendido nem pode o ser sem que se tenha em conta a matéria de que é feito, a forma sob que se apresenta e, entre incontáveis propriedades outras, a finalidade para que se o concebeu. É imprescindível considerar
também as relações que mantém com objetos mais abstratos como espaço e tempo, ou seja, que é relativo ao lugar onde o encontramos, ali tendo de permanecer o suficiente para, além de propriamente existir, tomarmos conhecimento de que existe.

Se algo de inédito fizeram Galileu e Einstein quanto ao tema, foi trazer de volta à memória coletiva, aí mantendo-a ao passo em que a exploravam, observação igualmente multimilenar e a cuja evidência pensamentos tão díspares como os de milésios e eleatas tiveram de anuir: a de que o objeto de conhecimento é também e necessariamente relativo àquele que o conhece e não só quanto aos respectivos pontos ocupados no espaço e no tempo, aspecto de maior interesse para a física, mas também quanto a tudo que já conhece o observdor. Enfim, além do ponto de vista propriamente geométrico - e temporal - há aquele que se pode chamar de epistemológico, cultural ou de seja como convier à ocasião.

É justo dessa observação, que para lá de sua evidência tem sido fonte donde a imaginação vem derivando paradoxos e outras singularidades que a extasiam ao considerar a natureza, que o relativismo rasteante se vale em sua permanentemente inane condição, apondo a tudo quanto se diga seu único mantra:"mas isto é relativo." Quanto ao que intenta com a insistência no dito, à primeira vista parece incerto, ou ainda, seria até relativo, como admite ao conceder em jogar com o próprio brinquedo, ou seja, até o mantra, ele mesmo, não é absoluto.

A uma análise ainda que sumária, entretanto, suas intenções não poderiam mostrar-se mais singelas, nem mais frágil pareceria sua artimanha, esta sustentada apenas no silêncio anuente de seus alvos: quer dizer apenas que não concorda com seja o que lhe disseram e quanto ás razões, os motivos para tal, bem, fica por dito o não dito, do que se deduz o óbvio: está em ponto exclusivo no espaço, tem exclusivo 'background', por conseguinte não sendo o outro, nem podendo pensar ou julgar como ele. Desnecessário observar, mas já observando que a depender dele, relativismo de rasto, o conhecimento, assim com o entendemos, seria impossível porque não compartilhável e, por isso, não testável frente ao de outrem, a cada qual de nós cabendo saber do mundo o quanto o permitirem a circunstância e a duração da vida.

O relativismo da física preconiza de fato a validade da visão - ou teoria - singular, obtida sob condições que serão de necessidade únicas para todo o sempre, entretanto sem esquecer de que são muitas, infinitas, as singularidades, de que não estão isoladas, incomunicáveis, uma vez que são parte do mesmo continuum que chamamos de universo, e de que vêem - teorizam - umas as outras, assim completando-se no que seria a visão - teoria - consensual do todo (espécie de epifania exclusiva de quando se sonha). Por esse prisma é possível adiantar, primeiro, que além da quimérica visão da totalidade é provável que apenas a relatividade do conhecimento seja absoluta e, segundo, que se com seu mantra o relativismo rasteiro quis somente dizer de seja o que for, exceto essas duas coisas, que não se trata de absoluto, nada mais indicado do que anuir com o silêncio à óbvia verdade da afirmação, mas em caso contrário é mister ter sempre na ponta da língua a pergunta: 'relativo a quê?'

segunda-feira, outubro 31, 2016

Pontas de virtude

a Imna

Em cinco pontos uma parábola dá lição breve de ética valendo-se de um lápis. Como ele, então, a) não seríamos autônomos, mas guiados por uma mão - no caso, a de Deus, evidentemente; b) precisamos ser eventualmente 'apontados' para funcionar a contento, ainda que com isso ocorra desgaste; c) o que 'escrevemos' - ou, segundo o proposto em a), seria o que se 'escreve' conosco? - deve ser passivel de rasura, não havendo mal em emendar o erro; d) somos o conteúdo, não o que o envolve: e) tenderíamos a vincar o lugar por que passamos, deixamos marcas, sendo preciso cuidar para que sejam as melhores.

De saída o ponto a) contradiz c) e e): um lápis não é de fato responsável por nada que se faça dele ou com ele. Mas a contradição na metáfora ilustra as dificuldades que surgem ao se propor o problema da origem - ou da Criação - como obra em progresso, sugerido na imagem da mão e sua ascendência absoluta sobre o lápis e o que com ele se produz. Desse viés Deus estaria perpetuamente criando, inclusive por intermédio do que já criou: a ideia de onipotência divina sofre aqui um revés com a sugestão de eventualmente necessitar Deus de intermediários - de se valer de instrumentos - para o que cria, caso não se justifique que o faria por puro desfrute, ou seja, apenas porque pode. Não deixa de ser também uma eloquente defesa do homem pelos incertos resultando de tudo quanto inventa e faz, como a tecnologia e seus reveses.

Os pontos c) e e) trazem outra evidente crítica, desta feita no que tange a como concebemos Deus quanto ao atributo 'perfeição', por certo o mais importante: ainda que guiados pela mão divina, erros são produzidos. Dessa perspectiva Deus é mostrado como, a despeito de imperfeito, moderadamente cauto, tendo-nos feito como o lápis, cujos riscos podem ser apagados, embora não os vincos que obrigatoriamente deixaria.

Mas justo por estarem em contradição com o ponto a), c) e e) podem ser entendidos independentemente ou à revelia dele: assim aparecemos como aqueles a quem - por 'escreverem' como os lápis - é dada a chance do emendar os próprios erros e a quem se recomenda o cuidado com o que mais dura do tanto que produziu, que são as marcas ou os vincos deixados nos lugares por que passamos. À diferença da ideia do risco, a do vinco o sugere como resultado não intencional, embora inevitável, da escrita, o que a experiência com os lápis contraria, uma vez que também há vincos intencionais, assim como é possível com algum empenho não vincar ao escrever com eles. De modo que, do ponto de vista do sujeito em pleno gozo de sua volição (ou não guiado por mão divina), a recomendação de cuidado para com as marcas que deixa pode referir também a passagem incólume do sujeito pela existência, se assim desejar e lograr, deixando de si o mínimo ou mesmo nada.

b) e d) tratam do que se dira estrutural ou essencial da existência do indivíduo, em contraste com o que ele produz, objeto de c) e e), correspondendo a uma visão mais realista, ainda que pouco  auspiciosa da vida. O corpo é o involucro de madeira e a alma, o grafite, enquanto a ponta seria a parte da alma em contato direto com o mundo, que nele atua, modiicando-o ao produzir coisas. Entretanto ocorre de o uso desgastar a ponta, tornando imperfeito o que produz: a solução é então afilá-la, procedimento necssário à boa qualidade do produzido, mas danoso para o lápis como um todo, reduzindo progressivamente seu tamanho até a inutilidade, quando então manuseá-lo será penoso ou impossível.

A metáfora parece bem apanhada, exceto por um ponto crucial: se por motivo central a parábola tem o estimulo à realização de obras virtuosas e se estas se fazem por intermédio da parte atuante da alma quando - e somente quando - está em condições de o fazer, então tanto o uso da virtude quanto o seu aprefeiçoamento seriam as causas ou, no mínimo, estariam na raiz da degradação física do indivíduo, conclusão que, apesar de um tanto inesperada, nada tem de absurdo. Visto desse viés o ponto não faz da virtude prática convidaditva.

Com efeito parece não haver objeção eficiente à constatação de ser, sim, no esforço de corresponder às demandas do mundo que aos poucos o indivíduo se desgasta. E esse esforço pode ser dito, em tese, como o emprego de alguma virtude, como ação virtuosa, não de necessidade uma do tipo que a parábola quis referir, isto porque mesmo o ato egoístico - ou malévolo no pior dos sentidos - contém lá sua virtude, em particular se resulta, se é eficiente. Mas seja qual for o caso, em verdade o uso da virtude seria no mínimo duplamente danoso, por depender ela de ser exercitada - ou esmerilhada como a ponta do lápis - antes de usada com sucesso.

Quando criança e, claro, sem a minima ideia de décadas à frente vir a tomar conhecimento assim tardio da parábola do lápis, intrigavam-me ou afligiam-me em certos estojos, em geral de meninas, alguns exemplares colecionados de lápis reduzidos ao que se poderia chamar, em termos de suas dimensões, de inteira miséria, embora apresentassem as pontas notavelmente bem feitas. Uma ou outra de suas donas, como se querendo justificar tê-los guardados, de quando em vez se exibia com um desses coitados em exercícios de caligrafia, a despeito do esforço exigido para o feito.

Lembrar deles agora, depois de inteirado de sua metafórica ontologia, é acordar uma certa tristeza, a de entender que aquelas virtuosas pontas foram as últimas na sua condição de lápis, que refazê-las depois de gastas seria extirpar o que resta da madeira ao redor do grafite. Talvez não fosse à toa, por exibicionismo tolo, que os usassem até o final aquelas meninas, mas por espécie de caridade que os tirava do esquecimento naqueles depósitos diminutos, livrando-os da tragégia de por tempo indeterminado serem virtuosos apenas em potência. Como é de imaginar, havia também uns suportes em plástico com o comprimento normal dos lápis, em que eram encaixados os cotocos, exceto aqueles ínfimos, cujas donas, parecendo adivinhar o que representavam, os tomavam então com as pontas dos dedos e, sem fazer caso do transtorno, caprichavam na letra.

sábado, julho 16, 2016

Pensamentos em economia

Intróito


Antes de mais: sem essa de achar que não tenho direito de pensar economia, já que, músico, não me intrometo quando você pensa música, o que sempre faz ao por alguma para tocar ou ao falar de suas preferências. Como usuário ou agente inescapável do mercado é inevitavel que o pense, ainda que não como economista, o que é certamente uma vantagem, na medida em que minha opinião não precisa agradar a gregos ou troianos em troca de me sustentarem, o que se entenderá melhor a seguir.

Interlúdio


Como é legivel, humor, se algum, no cáustico, paciência, no vermelho. No fundo, gosto de abordar o tema, mas do viés do aborrecimento, da zanga, pois é sem dúvida o que melhor lhe cai. Assim, se acha que perde tempo em continuar lendo, pare de achar e não o perca ainda mais.

O assunto ele mesmo


Balela isso de dizer que dinheiro precifica coisas, arbitra para elas valores que alguma vez tiveram relação com o que intrinsecamente valem. Valor intrínseco é atributo circunstancial, ainda que a memória o retenha por precaução, e diz respeito à saciedade ou satisfação de necessidade, ainda que tola. Não há no mundo como quantificá-lo com um cardinal impresso em moeda: o que agora vale o próprio avassalamento, depois de saciada a necessidade pode chegar a valer nada ou mesmo a causar repulsa - valor negativo.

O que se precifica, em realidade, é a energia humana, em particular a produtiva, expressa grosso modo no preço do que se produziu. Por modulador dessa valoração tem-se outra forma de energia, a volitiva ou desiderativa, em razão direta do aumento dos preços: assim, se você precisa demais dum salário e deixa isso patente, esteja certo de que obterá menos do que pretendia e sob a impressão de que lhe fazem favor, podendo também obter nada, isto porque seu extremado desejo permite ao empregador superestimar o próprio dinheiro, com que lhe pagará, se for o caso, sem falar em que no restante do mercado o seu ganho terá valor igual ao dos ganhos dos restantes indivíduos, se não menor, a depender sempre do tamanho de seu desejo, é claro.

Outra: é evidente que o mercado está sujeito a influxos como o da sazonalidade, por exemplo, mas bem menos do que nos fazem acreditar. Na verdade em economia as estações correm ao sabor da oportunidade de ganhos maiores, o tempo aí tem estado sob controle humano há milênios sem que para tanto se tenha necessitado de outra tecnologia senão a movida a energia humana, essa do trabalho e, neste caso, principalmente a do desejo. Nunca houve no mercado outra tração além da humana, mesmo porque é ela o que dá sentido à tração animal e à da máquina, que em si mesmas valem nada.

Cenário de outra ação este não é senão a do escravagismo, seja ao modo esclarecido, seja ao dissimulado. Leis que tipificam as chamadas 'condições análogas à da escravidão' não passam de outra balela, a que visa exclusivamente conter os adeptos mais afoitos da forma esclarecida de escravizar, que dela se aproximam simulando a maneira dissimulada a que, via de regra, os demais nos submetemos: parece mesmo que assalariam, mas forçam o trabalhador a consumir a preços imorais e impagáveis o que tão só lhe permite não morrer, condenando-o a débito em crescimento perpétuo. Por função precípua teriam essas leis a de evitar que abusos do gênero, correndo frouxos, terminem por despertar a analogia posta para dormir em nossas imaginações desde quando se aboliu a escravatura descarada, imaginações em tempos de Direitos Humanos, pondo-nos assim a compreender a mecânica da escravidão dissimulada.

Não se engane: não é por estar nas galés, na lavoura ou puxando blocos de pedra na construção das pirâmides que se caracteriza o escravo, que pode até desfrutar do conforto de servir à mesa, de cuidar das crianças da casa, ou do pecúlio modesto que lhe concedem em troca de alguma confiabilidade, de certa conivência. Aliás, vale o lembrete: escravo é aquele que quer muito algo, embora muito pouco disso mesmo. Em outros termos: quer viver, não lhe importando como.

sábado, abril 30, 2016

Esboço de crítica estóica à moral neoliberal

É preciso continuar lembrando aos picados, entre outras, pela ideia de liberdade assim como a manipula a doutrina neoliberal, que o poder de escolha, indício maior - segundo esses ideólogos - de ser livre quem o tem, denota ignorância, talvez a mais profunda e elementar. E isto por uma simples razão: se o indivíduo de fato sabe o que é certo, inequivocamente certo, é evidente que não tem escolha e, em consequência, não há liberdade alguma nesse sentido, o pregado pelo neoliberalismo.

Insisto no meu exemplo batido, o do mate em três diante do qual estariam o diletante e o mestre enxadrista: o primeiro tem boas chances de desperdiçar a oportunidade por ver na disposição das peças apenas profusão de movimentos a serem escolhidos, enquanto o outro não poderá evitar de mover a peça que desencadeará o mate inevitável, salvo entenda haver proveito em empatar ou perder a partida. Um se encanta com as possibilidades de ação à sua escolha, o outro só enxerga um movimento porque tem em vista o melhor na circunstância e sabe não haver outra coisa a fazer nela; um sabe, o outro ignora e pode malversar a oportunidade - e principalmente contra si. Em suma, nestes termos ‘liberdade (de escolha’ - é claro) denota apenas ignorância daquilo cujo resultado o torna incontornável, sem rivais, sem alternativas, o que não acarreta proscrevê-la, pois é evidente que ela sempre existirá enquanto o indivíduo não conhecer o que não tem alternativas, o que também não implica, por sua vez, tê-la por algum tipo de vantagem, por algo de que se possa vangloriar-se por se estar à sua mercê: ao contrário.

Mas, excluídas situações especiais ou extremas, quase nunca a circunstância determina como sendo a melhor a solução resultando em ganhador e perdedor, como é próprio de jogos como o xadrez e muito frequentemente, segundo os neoliberais, do chamado 'mercado', havendo inclusive alguma teoria sugerindo ser mais adequada a saída pela colaboração, seja qual for.a disputa: no go, por exemplo, o grande mestre ê reconhecível por privilegiar essa linha de ação colaborativa, a qual se reflete na configuração final do tabuleiro, de inegável excelência em termos estéticos - uma partida desse jogo que resulte em disposição desarmônica de peças deixou patente ter sido violenta, terem os contendores visado a vitória crua antes que o jogo, antes que sua beleza e prazer.

Não sendo sempre contornáveis as situações de ganho e perda, parece ser, pois, evidentemente desnecessário que sem motivos claros se as enfatize, provoque, desencadeie e, menos ainda, que se as torne em motivo de regozijo, como parece ensinar o privilégio do estético no jogo do go. É preciso lembrar que em fim de contas somos todos favas contadas na batalha de que nenhum de nós tem sido capaz de desertar, a batalha por manter-se vivo, em que dia a mais, dia a menos, estaremos sem exceção derrotados - e da lógica que esse destino determina talvez só escape o suicida, evidentemente por ter mudado de lado nessa guerra. E em vista de desfecho assim universal e inevitável parece pouco perspicaz tirar dele outro proveito senão a compaixão, termo que em seu sentido estrito descreve tão-só a constatação de estarmos todos na mesma balsa montada com os destroços dum naufrágio que não vimos, não percebemos e em que quiçá sequer estivemos, a despeito de sem dúvida sermos seus náufragos e de não haver terra à vista no horizonte oceânico.

Ao postular indevidamente como 'liberdade' o poder de escolher do indivíduo inebriado com a profusão de possibilidades sobre as quais exercê-lo e sem estar previamente advertido do dever de manter sob constantes revisões os critérios orientando sua escolha caso esteja entre suas preocupações prevenir desastres, o neoliberalismo escancara porta já perigosamente aberta para o egoísmo, essa que antes dá no atoleiro em que são retidos os de cepa menos resistente: aí chafurda quem tende a fazer do drama da balsa de náufragos a tragédia duma ‘balsa da Medusa’. Porque em essência o egoísmo não passa da manifestação numa consciência da propriedade do ser que propicia a individuação, que permite à consciêcia conhecer e reconhecer as individualidades e o quanto as sustenta, não lhe aparecendo o mundo, por isso, como massa indiscernível - e em que é de supor incogitável ser capaz de sobreviver. O egoísmo é a teoria de si que produz cada consciência no afã de subsistir, de permanecer (no tempo, portanto), consistindo então em instrumento antes de em arma. E é exclusivamente o conhecimento sempre mais aprofundado do que proporciona à consciência a sobrevida o fator a garantir ao egoísmo a condição instrumental - é somente na medida do entendimento de que se existe numa rede de proporções inestimáveis cujos membros têm todos papel crucial na existência ou permanência de cada um dos demais e a despeito de certas consequências nem sempre aceitas sem contragosto, como a inevitabilidade do morrer, e que em aparência alteram em nada a justeza desse entretecimento de individualidades. O egoísmo instrumental confere ao indivíduo consciente a capacidade de reconhecer tudo mais como partes imprescindíveis de si mesmo: continua ‘amor-próprio’, sim, mas de abrangência universal.

Daí ser fácil de ver por que ao invés de objeto do domínio que se chamou ‘transcendente’ (se ideia de tal é sequer pensável), ou o reino do chamado ‘místico’, a compaixão é, ao invés, matéria do imanente, o reino do que se denomina ‘humanístico’, ‘ético’, ‘político’ etc: o ‘compartilhamento do mesmo páthos’ não pode ser ato ocasional, intermitente, sem que se denote dessa infrequência ignorância grosseira, sem que se negue sua condição de dever de conceder direitos a quem de direito for e sem que se o transforme em coisas como a ‘caridade' assim como o senso comum a compreende. Introduzir nesse contexto a ideia de escolha, então, não é senão submeter-se ao barbarismo de cogitar haver alternativa ao egoísmo instrumental de viés universalista, de cogitar de o contrário dele trazer algum proveito para quem ou o que seja.

Se definível de modo sério ou que a torne em conceito relevante, a liberdade o seria, ainda que de forma tíbia, como a desincumbência de dever cumprido, definição um tanto inquietante na medida em que confere ao dever conotação negativa de estorvo, entrave, o que de necessidade não é. Vê-se portanto que em sua acepção forte ‘liberdade’ só pode traduzir o desvencilhamento do quanto estorva, entrava, só pode referir a supressão do que escraviza. Assim o entendeu um dos mais admiráveis pensadores e um dos meus preferidos, o estóico Epicteto, que foi inclusive escravo na Roma Imperial do primeiro século desta era, sendo só por isso credível tratar-se de autoridade na matéria, não bastasse o cabedal do estoicismo de que foi herdeiro.

terça-feira, março 22, 2016

Um dos encantos de ler Epicteto

... é entender que a filosofia é pura ética, no sentido de ser em ética que ela se resolve e se consuma. Depois de empenhar-se em superar os problemas em que tropeça por estar no mundo, agrupando-os sob rótulos como os de metafísica, lógica, ontologia, cosmologia e tantos mais, ela - filosofia - tem de  enunciar como o seu sujeito, o indivíduo que a possui e processa, pode ou deve estar no universo: resulta a filosofia, então, em ética.

Em Epicteto a ética preside, incontestada, e tem por critérios o que se expõe na estética, apenas porque estar no mundo tem de ser bom, ou perde o sentido. E tudo mais nessa obra é apêndice para justificar ou demonstrar a ação adequada, não necessariamente a acordada, ou moral, a ditada pela pressa que tem a comunidade humana de funcionar, ainda que não a inteiro contento. Assim, metafísica, ontologia, lógica, cosmologia, quando ali aparecem, é como apostos, separados por vírgulas do conteúdo principal, desse modo reafirmando também o propósito estóico de não interferir além do necessário na máquina do mundo - propósito este desvirtuado por Descartes, do que se redimiu ao compor capítulo inteiro de intuições errôneas a respeito das coisas, pois seu racionalismo, de raiz estóica, seria jamais capaz de as compreender, ou não, ao menos, sem parceria com o empirismo.

O estóico quer, antes, modular seu sujeito, propósito este afinado com o fim da ética e internado no indivíduo com os critérios estéticos, que não passam de atribuições, de mera rotulação do que está no entorno visando o desfrute das ideias que este suscita. É por intuir o bom no mundo que encontra o estóico a moderação nos atos, o auto-domínio, pois é mister deixar ao máximo como está a arrumação que aqui achou ao chegar, pois é assim que aprendeu a desfrutá-las. Neste ponto o estóico não esconde ser na verdade uma espécie de hedonista, pois o que o conduz à ética não pode ser diferente de algum prazer que, por sua vez, é o simples sinal ou sintoma do contato do sujeito com algum bem.

sábado, setembro 05, 2015

Pelo religamento com o mundo - reinstanciando Feuerbach

A etimologia antiga, descontadas as divergências, é unânime quanto ao sentido de religião, o de 'reunião', que tanto pode referir o agrupamento de fiéis quanto a ligação destes com os objetos de suas fés. O termo sugere, portanto, a recorrência da união ou ligação, de que se deduz que a ocorrência primeira ou anterior de ligação ou união se tinha desfeito.

O sentido de reunir com a divindade não é precisamente o mesmo de reunir para cultuar um deus. Entretanto os dois partilham, em princípio, ao menos a possibilidade circunstancial de em ambos a ação de um intercessor não ser essencial, pois é igualmente factível que indivíduos voltem a reunir-se com ou para o divino por conta própria ou estimulados por outro indivíduo. O modus operandi religioso comum, nesse caso, é eloquente em admitir a intercessão como  estopim para o religamento, seja qual for a natureza deste, fugindo exclusivamente à regra, ao que parece, o movimento dos tremedores, mais conhecidos por quakers, que no entanto admitem possuir um celebrante, único e onipresente nos ritos, ainda que somente descrito e biografado no Novo Testamento.

Assim o sentido clássico assumido nesse livro - o de pastor à frente do rebanho cuidando para não se desgarrarem as ovelhas e não descuidando de incorporar a ele uma ou outra que por acaso encontre vagando solitária - é preciso. A intercessão se dá por o grupo concordar tanto em que os seus indivíduos são incapazes de por si inteirar-se dos desígnios do divino quanto em que o intercessor de fato se comunica privilegiadamente com o além. E se a intervenção é autorizada, outorgada, isto se dá por se ter provado sua eficácia, a qual naturalmente deriva da verificação de fatos tidos por irreprodutíveis ou 'incausáveis' pelo comum nas assembléias, sendo por tal classificados em meio às taumaturgias.

A taumaturgia é ideia imbuída de extremos, um dos mais acentuados o da assumida ignorância incontornável de quem reconhece milagre no que outrem produziu. Em grande medida a religião não está só quanto a este aspecto, tendo ao seu lado a dupla ciência e tecnologia. Em vista do que têm proposto estas duas, mesmo o indivíduo com formação intelectual mediana não é capaz de esquivar-se de ao menos tratá-las como se milagres operassem, não sendo difícil deduzir disso o modo de encará-las dos de formação inferior.

Premida mesmo por essas duas inevitáveis companhias, cujo apelo se faz exclusiva ou mormente aos cinco sentidos para os desprovidos do intelecto bastante para compreendê-las, a taumaturgia propriamente dita, em seu habitat, religioso, busca apelar para o emocional, uma vez obstruídas também todas as vias para compreendê-la pela razão, assessorando-se de morais específicas, bastante distintas umas das outras, mas comungando exclusivamente, como lhes dita o nome comum, no serem hábitos, atitudes, que se reproduzem sem que se os questionem, pelo que tendem a manter-se a distâncias consideráveis de princípios tidos por universais reunidos no que se convencionou chamar de ética.

Religiões são por natureza morais, não necessariamente éticas. Podem ser tidas por éticas enquanto suas assertivas não são postas sub judice, embora tendam a conservá-las intactas, desse modo deixando para a ética a tarefa para que adrede se fazem incompetentes. Eventualmente até apressam o passo, chegando a dar as mãos à outra, quando não é raro ocorrerem protestos acentuados e mesmo cisões, como é em parte o que se testemunha ao redor de posturas como a de Francisco, o Papa, e mesmo de uns outros poucos intercessores, até mais moderados, de denominações religiosas diversas.

A ética tem dupla desvantagem para os afeitos ao exercício exclusivo do emocional: requer algum preparo intelectual e não provê propriamente milagres, senão depois de muito trabalho e ainda que por inteiro ao alcance de qualquer um. Em geral é perfeitamente dedutível da análise de situações corriqueiras, embora só a compreenda quem tende à rigorosa honestidade para consigo próprio, honestidade beirando não raro a crueldade. Não pode, portanto, ser absorvida por quem, não tendo escolha - como qualquer outro - senão admitir-se mortal, procura consolo num pecúlio moral que lhe garanta ao menos descanso eterno, a mais segura das distâncias do que se cogita ser a danação.

O movimento da religião para a ética pode sem exagero ser tomado por salto sobre abismo pois é exigido do sujeito que momentanemente, ao menos, esqueça de si, do terror próprio do depois, quando quiçá nada mais será (e nada ou ninguém o garante em contrário exceto os intercessores que o ligam ou religam com o quanto é incapaz de ver por si). Saltar da religião para a ética acarreta dispor-se a considerar ou reconsiderar o mundo, mas não como entrave à espiritualidade ou como certame para gozá-la em maior grau depois de tê-lo vencido. Pois a ética, muito ao contrário do que acreditam espíritos ainda penetrados do religioso em demasia, tem por guia o sentido para o bom, como diz o estóico Epicteto, sentido que se materializa no prazer, sensação com que chegamos ao mundo equipados e aqui jamais nos fartamos de acurá-la. A ética tem sido a única maneira de honrar o desfrute dessa sensação, nada obstante as diferenças havidas entre os sujeitos, diferenças cuja razão se funda tão-só na observação singela de não ocuparmos todos em simultaneidade o mesmo ponto no espaço.

Tendo uma vez pousado na ética, tendo firmado aí os pés, não será de admirar que o indivíduo antes religioso tenda a desvestir-se deste passado, sendo entretanto muito comum quem aceite carregá-lo qual fardo que com o tempo, caso se persista no caminho, vai deixando para trás o que de danoso e inessencial tem, assumindo o sujeito a leveza do agnóstico quanto ao que será de si quando não mais for o que então é. Ao escolher a ética como via depois de ter seguido a religião o sujeito opera, no sentido inverso do que seguia, religação igualmente, mas desta feita com o mundo ele mesmo, com o sensível, mais afinada, inclusive, com um pressuposto compartilhado por quase todas as religiões, que é o de ser boa a divindade, pelo que não terá ela criado senão o bom, isso com que está afinado também o sentido maior nosso, suas criaturas sencientes.

Acreditar no contrário é viver paradoxo, caso não se possua a franqueza que tiveram para assumi-lo os kamchdalos (segundo os menciona Feuerbach em suas Preleções sobre A Essência da Religião), franqueza por suposto única em toda a história da humanidade: fiéis à concepção religiosa de mundo como entrave por excelência, não propriamente entrave ao espiritual, pintaram os kamchadalos Kutka, seu deus, como estúpido à guisa de única explicação plausível para serem dados à luz em meio a montanhas inexpugnáveis, invernos intoleráveis, a despeito de mês ou pouco mais de tempo ameno, como a dizerem-se, sem rodeios, mais inteligentes que o próprio criador e nas entrelinhas lhe votarem, inclusive, compaixão. Desse modo instanciavam (ao lado do sentido de bem e sua sensação, a de prazer) outro pilar da ética mesma, ou seja, a certeza de que o mal, sendo em essência juízo, se provocado por outrem e ainda que intencionalmente, é sempre sintoma de erro, sendo errar impossivel para quem é suposto saber, conhecer tudo. Em miúdos, para a ética e os religiosos do Kamchaka, bem como para uns bons cristãos, o mal é fruto invariável da ignorância.

domingo, agosto 23, 2015

Escolhe-se entre possibilidades, não entre fatos, por ignorar-se o que é devido e só é possível ser livre de estorvo que, se dever é, tem de ser cumprido.

"Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo."

Atribuída a Sartre, a frase parece ser 'falso paradoxo' ou 'falso truísmo' e pode ser trocada em miúdos mostrando-se que dentre as escolhas consideradas aparentemente omitiu-se ou esqueceu-se de mencionar ao menos uma, a opção de não escolher nenhuma das demais. Na verdade o sujeito saiu da circunstância - a de escolher ao menos uma dentre um conjunto de possbilidades - como nela entrou: não escolheu não escolher, mas apenas não escolheu e ponto.

Mesmo que se contasse entre as opções a possibilidade de recusar as demais, foi nessa condição de não ter escolhido (ainda) que ele permaneceu: não ter feito a escolha simplesmente não era uma possibilidade; era já a sua (do sujeito) circunstância. Parece que tanto faz dizer, em todos os casos, que 'diante das opções escolheu permanecer como estava' ou que 'não escolheu (mudar o modo como estava ou nenhuma das novas opções)', mas a segunda fórmula ('não escolheu') parece ser suficientemente informativa além de sucinta. Corolário viável do exposto: a escolha se dá frente a possibilidades, não frente ao que se dá em ato, o qual é possibilidade realizada - que resultou ou não de escolha.

Imagine-se agora um mate em três (meu exemplo preferido), configurado de modo que, exceto um, todos os demais movimentos possíveis redundam em empate ou derrota para quem faz o próximo lance. Diante dele, um inepto e um mestre enxadrista. Para o primeiro há de fato escolhas, uma vez que não sabe, por exemplo, o fundamental, isto é, que aquela configuração é mate em três, pelo que se supõe que continuará calculando qual a melhor peça para mover. Já o outro, para quem o desenho no tabuleiro é familiar, pergunte-se se há algum sentido em ele decidir-se por outra coisa senão desencadear o mate. É evidente que não e que assim ele não tem escolher. Claro, salvo se as condições daquele jogo ou do torneio impliquem alguma vantagem em ele buscar empate ou derrota. Mas aqui o ponto é outro: mostrar que na circunstância e observadas as condições normais duma partida de xadrez o mestre enxadrista não tem escolha, pois seria tolice considerar movimentos que lhe impedissem a vitória.

Conclusão inevitável: a circunstância da escolha é condição da ignorância. Para o sujeito que sabe, que conhece a circunstância como o mestre enxadrista diante dum mate em três, não há outros movimentos possíveis se o imperativo em questão é vencer o jogo, no caso do xadrez, ou agir segundo o certo, em qualquer caso. E se ter opções ou poder escolher é condição de liberdade, como pode ser livre quem não pode, porque não deve ou não faz sentido, escolher o que é errado, ou melhor, como pode ser livre quem não pode escolher senão o que sabe ser certo? É livre de fato?

Mas se agir pelo que é certo (evitando dizer 'escolher o certo', expressão que parece não fazer sentido) é dever, uma vez que não existe escolha, se espaço há para a ideia de liberdade nesse equacionamento esse seria talvez o do dever cumprido. Mas livrar-se de dever com cumpri-lo é fórmula demasiado carregada de censura dirigida ao dever: a ideia de um dever de que se quer ver-se livre conota que seu cumprimento é estorvo para o sujeito que o cumpre ou para outrem que o reconhece enquanto tal, enquanto dever, e nada obstante lhe sofre as consequências. Isto não implica, entretanto, que todo dever o seja, pelo que tê-lo cumprido ou ter experimentado suas consequências não acarreta ter-se livrado dele. Há deveres bons de cumprir, portanto. Mas seja ou não estorvador, o dever é sempre justo, em princípio porque única possibilidade válida (ou, ainda, por não ser escolha). Assim que só para uma classe de deveres a ideia de liberdade parece ter sentido, a classe dos que de algum modo desagradam, são julgados como maus - ou não bons - por seja quem for, e por isto é sempre bom tê-los cumpridos, é sempre bom livrar-se deles. É possível também que não se os cumpra, mas, como se disse quanto ao 'falso paradoxo' ou 'falso truísmo' acima, não parece igualmente fazer sentido afirmar que não se os escolheu ou que se escolheu não cumpri-los, uma vez ser esta a condição em que se está (a condição de não tê-lo cumprido ainda) quando se depara com o dever: mais fácil é, ao menos, além de perfeitamente clara, a afirmação de que se não os cumpriu.

domingo, agosto 09, 2015

Justo a ficção...

... parece ser por excelência o terreno onde busca recompor-se quando se acha violado o sentimento de justiça. Talvez não seja exagero dizer que é o único.

É nela em que podem parecer justos ou explicados os casos da vida para os quais não se vê sentido. E não é à toa também que ali se criam por hipótese, mas como se teses fossem, condições de outro modo intangíveis, fatos perdidos na realidade cujos aparecimentos, mesmo ficcionais, explicam ou justificam o indecifrável. Não que muitas fantasias não façam o jogo inverso, o de por mais sombra onde sombras já havia, ou o jogo comezinho a que, por vivermos, estamos já habituados, o jogo de seja admitir ignorância, seja de produzi-la, ou arrolando o que falsamente introduz mais incompreensão do que se quer compreendido, ou ocultando, menoscabando o quanto pode trazer ao tema alguma luz.

Sim, a ficção pode a injustiça (na verdade pode tudo, virtualmente qualquer coisa), o que não acarreta a negação de ser esforço de - mesmo em fantasia - ter contato com o justo. É que não raro o real indigna e a indignação por vezes só encontra expressar-se em argumentos contraditórios, um modo de protesto, possivelmente.

sábado, agosto 01, 2015

Depois de comentarem Chomsky

Um comentário a uma entrevista com Chomsky sobre Anarquismo e 'Libertarismo' alega que esse filósofo não faz jus em suas explicações ao que o 'Libertarismo' com efeito é ou pretende ser, isto é, uma corrente convencida da verdade de uma ilação antiga da economia, segundo a qual o mercado promove justiça, equidade, se deixado 'livre', ao sabor de suas leis. Libertários advogam, quando moderados, o Estado mínimo e, quando radicais, algo que se chamou Anarco-capitalismo.

Diante do fato de uma escorchante desigualdade ter sido o que resultou de toda liberdade desfrutada pelo mercado (que para o libertário ainda é pífia, uma vez que há impostos e  outras regulações) ao menos nesses derradeiros duzentos anos, salta aos olhos a ideia de 'competitividade' ou de 'competição', tida nessa linha de pensamento por condição incontornável da natureza (a humana, inclusive). Quanto a isto cabem ao menos duas considerações:

a) sendo a condição gregária um modo de afastar da grei ou lhe amenizar a competição que não lhe interessa, mantendo, é claro, outras que lhe parecem úteis, interessa saber qual tipo de competição é tolerável no caso do ser 'racional' humano, digo, qual é o gênero de competição que não esgarça ou rompe o tecido social;

b) é mesmo possível que o conceito 'competição' não seja o que há de espúrio no credo libertário, mas sim o tipo escolhido de competição a ser tolerado pela sociedade, uma vez que se o objetivo fosse competirmos por uma 'absoluta' igualdade dos indivíduos, por exemplo, o elemento desagregador suposto ser inerente ou implícito à ideia de competição, ao que parece, desapareceria.

Mas dessa escolha têm-se mantido à distância mercado e seus defensores (que acreditam, inclusive, numa demonstração impossível do conceito de 'liberdade').

A ideia de igualdade é claramente metafórica nesse contexto. Mesmo em termos orgânicos os indivíduos somos somente muito parecidos uns com os outros. As necessidades do organismo, em princípio o motor ou a causa de todas as demais necessidades pensáveis do indivíduo são entretanto refreáveis pela cabeça, daí o recurso eterno à educação, ao exercício continuado do pensamento. Por isso 'igualar' tem função exclusiva de meta da qual parece ser possível somente aproximar-se, talvez jamais tocá-la.

Mas é diferente do sentido usado em 'liberdade', conceito tido por 'a priori' da condição do indivíduo, ou seja, seríamos por natureza 'livres'. Teórica ou praticamente isso é um contrassenso ou uma impossibilidade: em prol da economia de palavras, tome-se apenas a questão prática para dizer que tal liberdade jamais foi observada, uma vez que os indivíduos estão, sim, atados às circunstâncias, das quais também são partes desde os eventos naturais até as ocorrências sociais e por aí vai; a única liberdade observável - e por isso teoricamente descritível (ou teorizável) - é a liberdade 'a posteriori', digo, é-se atado, aprisionado por condição, por natureza, e o que move o indivíduo é justo o livrar-se dessas amarras, ainda que sempre haja outras incontáveis adiante, por mais que tenha sucesso em desvencilhar-se de quaisquer delas.

Isto é vital para a compreensão do nosso mundo gregário, que a despeito de ainda levar a extremos a opressão (ou escravidão - tirando as peias da língua - mal disfarçada), acredita ter cunhado um conceito com que divertir as massas (e inadvertí-las), do qual se tira, como se de cartola, a questão dos 'direitos': temos direitos enquanto condição originária, direitos natos. Na realidade, teórica e praticamente, temos talvez um único direito de nascença (que talvez seja mesmo uma compulsão, um instinto), o de passar a vida livrando-nos dos obstáculos tendo por paradigma uma concepção de liberdade de que, por sua vez, nem sequer é possível aproximar-se (digo, o caso contrário da noção de igualdade): a cada obstáculo vencido a realidade é exata em apresentar não um outro para substituí-lo, mas centenas de outros, sem falar nos não superados e já coexistindo com aquele que por acaso se deixou para trás. Desse viés a condenação dada a Sísifo é análoga à que se deu ao franco-atirador em 'O Fantasma da Liberdade' (de Buñuel): a liberdade, ou seja, a vida como ela é, em princípio indiferenciável de uma pena de encarceramento ou de um rolar ladeira acima um fardo que eternamente rola para baixo depois de se o ter levado ao topo, ainda que alguma vez não o aparente - quiçá por sermos muito esperançosos ou ingênuos.

Enfim, vista deste viés a ideia de liberdade entranha-se na de 'responsabilidade', pois se é de partida responsável pelo instinto ou compulsão de superar obstáculos e além disso tem-se de ser responsável por não obstar a tentativa de superação alheia dos seus, pois isso termina por redundar em obstáculos adicionais para todos. Essa é em linhas gerais a 'equação da vida', nada simples, como é fácil de constatar em simplesmente continuar-se vivendo, mas é o que decorre de por o conceito de liberdade nos devidos trilhos, o que decorre de tomá-lo pelo que em fato é e em teoria é possível: conceito 'a posteriori'.

quarta-feira, junho 17, 2015

Ignora, entretanto, por princípio

Defina-se, por exemplo, um objeto qualquer, como esta palavra. Esta mesma - ou qualquer outra no presente texto.

'Palavra' - fiquemos com ela - é termo-valise, não tão abrangente como 'isto' e ainda menos do que 'coisa', dizendo respeito ao universo do quanto se escreve ou se diz numa língua. Entretanto abriga, por seu significado, 'coisa' e 'isto', embora não por isso contenha tudo que nestes dois termos está contido. No seu caso particular está grafada num texto - este - que tem por objetivo demonstrar a impossibilidade de conhecer - assim como se crê ser isto possível. É também objeto físico, perceptível seja pelo olho, seja pelo ouvir e mesmo até pelo toque, possuindo alguma forma puramente mental que de algum modo nos escapa. Tem por uso essencial designar a si e congêneres, estas que, segundo a semiótica, levam o nome de símbolo, modo não exclusivamente humano de instanciar os existentes em geral no ato de comunicar. Palavras são sinais denotando o dar fé do quanto à volta do indivíduo há, muitas delas designando individualmente múltiplos existentes. Nem todo existente, portanto, tem sua palavra exclusiva, bem como é pensável que haja existentes denotados e sem palavra alguma a lhe corresponder. Na presente circunstância tem relevo, está em foco, por efeito das demais palavras ao seu redor, sem as quais perderia aqui todo o sentido apontá-la como se o faz...

Enquanto exemplo é provável que este tenha extrapolado algum limite e quiçá fosse desejável que outros limites se extrapolassem de modo a não deixar dúvida quanto à impossibilidade de, assim como o exige o verbo, definir seja o que for. Pois definir, sim, diz respeito a estabelecer um fim, um limite, para um conceito, coisa para que se criaram alguns critérios, mas que depende, evidentemente, seja do humor, seja da perseverança, em medida da curiosidade, por exemplo, de um sujeito. Assim, variando os caráteres, é possível haver alguns aos quais não satisfaçam os critérios comezinhos aceitos para o quanto seria uma definição razoável, rumando esses indivíduos para destinos ignorados, quiçá mesmo sequer existentes, para todo o sempre - se tanto lhes for permitido permanecerem existindo.

Definições são de hábito reveladoras da utilidade do que se define tanto quanto da paciência de quem o faz e pelo uso que delas fazemos no dia-a-dia podem demonstrar o grau de desimportância que damos às coisas definíveis, bem como de nossa displicência para com definir de modo geral. Por outro lado, entretanto, quem se arriscaria a passar a vida perseguindo até seu fim - se é que tal existe - a definição de seja o que for? Mas, ao menos em teoria, teria o prazer de considerar tudo mais que é capaz de identificar no universo enquanto durar a tarefa. Pois neste mundo não-importa-o-quê só é definível à exaustão se considerada toda relação que há entre isto e tudo mais, coisa por coisa, uma vez que se defina 'universo' (rasa, apressadamente) como o somatório de 'tudo': se está no universo, ora, é por partilhar com tudo mais - incluindo o universo ele mesmo - essa característica, esta por cujo intermédio ficam estabelecidas as tais relações. (Aristóteles desdenhava desse traço universalmente compartilhado por quaisquer individualidades, também exprimível por 'existe', por acreditar que dele nada de interesse se inferiria. Mas havemos de concordar em que ao menos como parte - óbvia - dalgum argumento, como neste daqui, pode ele ter algum serviço.)

Tomando-se, deste modo, o limite de hábito imposto às definições e tendo-se em mente o tanto desdenhado - o que se faz em nome de uma ideia (não menos vaga do que as demais) de utilidade -, é de forçar a autorreflexão isto quanto de fato se ignora, digo, essas relações, pois não se pode dizer conhecermo-las se não somos capazes de mostrar como se dão. Decerto por isso preferiu o filósofo admitir a própria ignorância, não por leviandade, é de acreditar, mas por provavelmente ser esse o único conhecimento por inteiro seguro, total, açambarcável numa única tese simples o suficiente para que se a tenha em mente todo o tempo. Disse o filósofo que ignorava não para justificar os seus erros, ou não exclusivamente para tal, pois com efeito erra, ainda que a contragosto: seria leviano se o dissesse com esse intuito. Disse o filósofo que ignorava para lembrar que não poderia permitir-se desistir de conhecer (*), para que o tolerassem quando fizesse do outro bengala sobre que apoiar-se e com que escrutinar, qual cego, a realidade passível de ser sabida, ainda que não por inteiro.

E ainda assim foi ele sentenciado: por demonstrar a ignorância universal e incontornável, por desafiar os limites do já definido, pelo atrevimento de ser insatisfeito confesso cujo único objetivo era produzir o mínimo de mal, uma vez que ignorantes da própria ignorância tendem a malversar o quanto lhes está à disposição, incluso o que acreditam saber. Não havia, em tese, com o que condená-lo, nada obstante o fizeram.

(*) 'desistir de conhecer': mera figura retórica, visto não se permitir a qualquer consciência, mesmo durante o sonho, não conhecer. Possa a expressão significar, talvez, o desapreço, somente, do indivíduo pelo empenho pessoal na obtenção voluntária de conhecimento.

Mal faz por ignorar

O malfeito - ou o pecado, se preferir - só se explica por ignorância: uma das consequências do conceito 'causa final' de Aristóteles é isto, além da mostra de que o mal, assim como o entendemos é inacessível ao indivíduo ou sequer existe.

O mal seria, desse viés, o que em essência é: um juízo - uma opinião - direta e vertiginosamente dependente do indivíduo que o concebe, dizendo respeito a precisamente o que lhe desagrada. Quando esse desagrado é com o ato de outro indivíduo, diz-se vulgarmente que este praticou um mal, embora em verdade tenha tentado praticar e de fato praticado um bem, só que um bem contemplando porção muito pequena do universo a ele, indivíduo, ligada e por isso tendente a ser sentida ou percebida, por outrem fora do âmbito de ação desse bem, como mal.

Ora, bens sempre são egoísticos, ou seja, relativos a algo que o sujeito faz por e para si, variando segundo o quanto o sujeito tem por parte de si mesmo, a saber, o quanto no universo lhe agrada, o quanto no universo é amado por ele. Outro modo de dizer isto é demonstrar que o chamado 'conhecimento' é na verdade um dos modos do amar, pelo qual o indivíduo incorpora a si o quanto conhece e em favor ou benefício do que também atuará.

Assim, por não praticar o amor para com o quanto lhe está à volta, torna-se o sujeito ignorante - pois não incorpora isto a si na forma de conhecimento - e, por conseguinte, tendente a produzir bens para a porção do mundo que lhe apetece, que é muito pequena, deixando fora do âmbito benéfico de seus atos tudo mais, ou seja, tudo que - possuindo consciência - tenderá a perceber ou sentir essa ação como má. O mal, portanto, é o resultado de uma ação objetivando, como qualquer outra produzida por um sujeito, um bem, mas restrito em efeito a uns poucos elementos do universo que o sujeito foi capaz de conhecer ou amar, podendo ser interpretado por outro sujeito não incluído nesse efeito como mal.

É bastante, pois, o sujeito conhecer ou amar o quanto lhe está à volta para que tenha seus atos sentidos como bens.

sábado, fevereiro 28, 2015

Epicuro

 (É provável ou inteiramente certo que o sentido vulgar de 'hedonismo' e sua associação ao epicurismo venha seja de má leitura do texto a seguir, seja de ignorá-lo por completo.

Segundo notícias como as de Diógenes Laércio a quantidade de escritos deixados por Epicuro, a maior parte deles desaparecida, é quase inacreditável em grandeza de números. No entanto é como se houvesse antevisto o destino deles que o filósofo lança também, não menos ao acaso, este em particular, em que a ideia  de filosofia - e em especial essa que cunhou - se encontra demarcada com precisão que miríade de palavras fosse talvez incapaz de melhor expressar.

Entre as principais de suas virtudes destacam-se a simplicidade, a clareza.

Verti-o duma tradução coletiva para o inglês que estimei direta e desprovida dos cultismos abundantes em outras mais antigas e mesmo clássicas, vício de que porventura não soube o meu texto esquivar-se.)


De Epicuro a Meneceu, saudações.

Que não se protele a prática da filosofia quando jovem, nem dela se canse quando velho, pois nunca é cedo nem tarde para devotar-se ao bem-estar da alma. Quem diz não ser ainda ou já ter passado o tempo de filosofar, diz ser demasiado cedo ou tarde para ser feliz.  Portanto, jovens e velhos devem praticar filosofia, de modo que, quando velho, se possa ainda ser jovem em gratidão por alegrias passadas e, enquanto jovem, se possa ser velho em destemor do que reserva o futuro. Devemos estudar o que produz felicidade porque, enquanto a possuímos, possuímos tudo e, acaso ela nos falte, temos o necessário para reavê-la.


Como sempre, encorajo-o a estudar e praticar o quanto é ingrediente da felicidade. Antes de mais, considere um deus como um ser imortal e feliz, segundo o dizer comum. Mas não acredite em nada sobre a natureza divina senão o que convém a uma existência eternamente feliz. Os deuses existem por preconcebermos suas noções, não sendo como os descrevem muitos, esses que não conservam dos deuses as noções que de primeiro obtiveram. Rejeitar histórias populares não faz de ninguém um ímpio. Ímpio é quem sustenta crenças do vulgo acerca dos deuses, que são opiniões falsas, antes de verdadeiras intuições. Daí muitos anteciparem os mais severos danos, enquanto os virtuosos colhem os benefícios. Tal se deve à reflexão sobre as próprias virtudes, pelas quais o sujeito acredita assemelhar-se aos deuses, tudo mais rejeitando como lhe sendo estranho.

Habitue-se a pensar que a morte não nos concerne. Todo o bom e todo o mau são experiências dos sentidos, e a sensação cessa com o morrer. Morte, então, não nos é nada e saber essa verdade faz da vida mortal contentamento - não por lhe ajuntar duração infinita, mas por lhe remover o desejo de imortalidade. Para quem se convenceu de haver na morte nada a temer razão não há para temer seja o que for acerca do morrer enquanto se vive .  Quem diz que não teme a morte por ser dolorosa, mas por ser doloroso contemplá-la, é tolo. Sentido não há em agoniar-se com o que não traz dificuldade quando chega. Assim a morte, o mais temido dos males, nada é para nós, pois quando existimos, ela está ausente, e quando ela chega, deixamos de ser. Ela não concerne a ninguém, vivo ou morto, pois pros vivos, não existe, assim como os mortos não existem mais. 

Há, entretanto, além dos que temem a morte como o maior dos sofrimentos, quem a anseie como alívio para o sofrimento. Mas quem é sábio jamais renuncia à vida ou teme não viver. A vida não o magoa nem acredita ele que o não viver é espécie de sofrimento. Pois, justo por não preferir a comida em quantidade à mais saborosa, não deve ele buscar a mais longa, mas a vida mais feliz. É igualmente tolo quem sugere ao jovem o bom viver e ao velho bem morrer - não apenas por ser desejável viver, mas por serem uma e a mesma as artes de bem viver e de morrer bem. E mais ainda erra quem diz ser melhor ter jamais nascido, mas que, "Uma vez nascido, passe rápido pelos portões do Hades!" (Teógnis, 425 - 427) Se fala a sério, por que não deu fim imediato à própria vida? Por certo teria à disposição os meios para o realizar, caso de fato o quisesse. Mas se brincava, temos então menos razão ainda para lhe dar crédito.


Deve-se ter em conta que, dos desejos, uns são naturais, outros, vãos. Entre os naturais, há os necessários e os inúteis. E dos necessários, alguns são precisos para a felicidade, outros para a saúde e outros ainda para a própria vida. A correta visão desses assuntos capacita a escolha e a evitação entre o que assegura ou transtorna o conforto físico e a paz do espírito - metas de uma vida contente.

Tudo o que fazemos é em prol de livrar-nos de dor e ansiedade. Isto obtido, dissipam-se as tempestades na alma. Nada além, nada mais é preciso para apurar o bem-estar de corpo e espírito.  Pois é quando há dor que se busca alívio, o qual é prazer e do qual não mais se necessita quando a outra é extinta.

Por isso declaramos o prazer como início e fim da vida feliz. Somos dotados por natureza para o reconhecimento do prazer como bem íntimo e primeiro. Escolhemos e rejeitamos tendo-o por guia, paradigma no julgarmos o bem de tudo.

Sendo embora o bem maior, nem todo prazer merece nossa escolha. Melhor evitá-lo quando isto nos poupa de dores maiores. Tendemos também a aceitar a dor se isto resulta em maior prazer. Então, a despeito de naturalmente bom, o prazer nem sempre é a escolha. Só tendo considerado todas as consequências podemos decidir. Assim, temos de por vezes olhar o bom como mau e vice-versa, o mau como bom.


Temos também a auto-suficiência por grande virtude - não por devermos desfrutar de poucas coisas, mas para que pouco nos satisfaça se pouco é o que temos. Estamos firmemente convencidos de que quem menos anseia por luxúria a desfruta melhor e, quanto aos desejos, os naturais se satisfazem facilmente, enquanto os vãos são insaciáveis. Refeições frugais e fartas são igualmente prazerosas, desde que removem a dor da fome. Pão e água, o maior dos prazeres para quem deles teve necessidade. Habituar-se ao estilo simples de viver é saudável e não nos tira a motivação para as tarefas necessárias à vida. Prescindir do luxo por longos períodos permite-nos apreciá-lo melhor, além de fortalecer-nos contra o temor dos reveses da sorte.

Assim, se dizemos que os prazeres são meta, não referimos o escárnio ou a sensualidade, a despeito do que gente igorante, desagradável ou maligna acredita. Por prazer referimos: estar livre da dor do corpo e da perturbação do espírito. Pois não é de bebida e folia, desfrute de mulheres e jovens ou banquete de peixes e cozinha exótica que resulta a vida feliz. Deliberação sóbria é o bastante para decidir toda escolha e evitação e para liberar das falsas crenças, fontes de grande angústia.

Como acaso conceber alguém melhor do que o reverente aos deuses, que não teme a morte e descobriu a finalidade natural da vida? que entendeu ser o prazer, o maior dos bens, fácil de obter em plenitude absoluta, e ser a dor, o maior dos males, de duração momentânea quando intensa e tolerada com facilidade quando durável? ou que desdenha da sorte, tida por muitos como a senhora de tudo?

Esse homem é o melhor de todos, pois sabe que o poder maior, o de decidir, está em si próprio. Ele entende que, se umas coisas têm por causa o destino, outras ocorrem por acaso ou por sorte. Percebe que o destino é irretorquível e o acaso, duvidoso, enquanto as escolhas merecem seja o aplauso, seja a censura, pois o que se decide por seu intermédio não está sujeito a qualquer poder externo.

Faz-se melhor em dar ouvidos às histórias de deuses do que entregar-se à escravidão do determinismo que proclamam certos físicos. Ao menos as histórias oferecem a esperança de serem alcançados os favores divinos pela oração, enquanto o destino é inapelável.

O prudente sabe não ser a fortuna um deus, como acreditam muitos, porque os deuses não agem aleatoriamente. Ele também não acredita que a causa de tudo é aleatória. Nem que o acaso oferece bem ou mal em prol da felicidade humana. Prefere o prudente voltar atrás tendo agido com sabedoria do que ser contemplado por sorte miraculosa ao portar-se como um tolo; pois melhor é malograrem ações bem planejadas do que prevalecerem as irrefletidas

Pratique, então, estes e ensinamentos similares, dia e noite. Estude-os, por conta própria ou junto de quem pensa do mesmo modo, e jamais será perturbado, esteja desperto ou dormindo. Viverá como deus entre os homens, não se assemelhará a mortal algum pois o fortificam bênçãos imortais.


(Epicurus to Menoeceus, greetings.

Let no one postpone practicing philosophy while young, and let no one tire of it when old, for no one is either too soon or too late to devote oneself to the well-being of the soul. Whoever says that the time for philosophy has not yet come or that it has already passed is saying that it is too soon or too late for happiness. Therefore both the young and the old should practice philosophy so that, while old, one may still be young with gratitude from all past joys; and while young, one may at the same time be old through fearlessness of what the future has in store. We must study what produces happiness because when we have it, we have everything, and if we lack it, we can do everything necessary to regain it.

I encourage you, as always, to study and practice the things which are the ingredients of happiness. First of all, consider that a god is an immortal and happy being, as is commonly written. But do not believe anything about divine nature other than what is congenial for an eternally happy existence. The gods do exist because we have preconceived notions of them. But they are not like how most people describe them, because they do not retain the notion of the gods that they first receive. Rejecting the popular myths does not make one impious. Impious is one who upholds popular beliefs about the gods, because those pronouncements are false opinions rather than actual preconceptions. Hence the severest harm from the gods is anticipated by the many, while benefits are reaped by the virtuous. The reason being is that those who reflect upon their own virtues regard the gods as resembling themselves, and reject all else as outlandish.

Accustom yourself to thinking that death is no concern to us. All things good and bad are experienced through sensation, but sensation ceases at death. So death is nothing to us, and to know the truth of this makes a mortal life happy -- not by adding infinite time, but by removing the desire for immortality. There is no reason why one who is convinced that there is nothing to fear at death should fear anything about it during life. And whoever says that he dreads death not because it’s painful to experience, but only because it’s painful to contemplate, is foolish. It is pointless to agonize over something that brings no trouble when it arrives. So death, the most dreaded of evils, is nothing to us, because when we exist, death is not present, and when death is present, we do not exist. It neither concerns the living nor the dead, since death does not exist for the living, and the dead no longer exist.

Most people, however, either dread death as the greatest of suffering or long for it as a relief from suffering. One who is wise neither renounces life nor fears not living. Life does not offend him, nor does he suppose that not living is any kind of suffering. For just as he would not choose the greatest amount of food over what is most delicious, so too he does not seek the longest possible life, but rather the happiest. And he who advises the young man to live well and the old man to die well is also foolish – not only because it’s desirable to live, but because the art of living well and the art of dying well are the same. And he was still more wrong who said it would be better to have never been born, but that “Once born, be quick to pass through the gates of Hades!” {Theognis, 425 - 427} If he was being serious, why wasn’t he himself quick to end his life? Certainly the means were available if this was what he really wanted to do. But if he was joking, then we have even less reason to believe him.

One should keep in mind that among desires, some are natural and some are vain. Of those that are natural, some are necessary and some unnecessary. Of those that are necessary, some are necessary for happiness, some for health, and some for life itself. A correct view of these matters enables one to base every choice and avoidance upon whether it secures or upsets bodily comfort and peace of mind – the goal of a happy life. 

Everything we do is for the sake of freedom from pain and anxiety. Once this is achieved, the storms in the soul are stilled. Nothing else and nothing more are needed to perfect the well-being of the body and soul. It is when we feel pain that we must seek relief, which is pleasure. And when we no longer feel pain, we no longer need pleasure.

For this reason, we declare that pleasure is the beginning and end of the happy life. We are endowed by nature to recognize pleasure as the first and familiar good. Every choice and avoidance we make is guided by pleasure as our standard for judging the goodness of everything. 

Although pleasure is the greatest good, not every pleasure is worth choosing. We may instead avoid certain pleasures when, by doing so, we avoid greater pains. We may also choose to accept pain if, by doing so, it results in greater pleasure. So while every pleasure is naturally good, not every pleasure should be chosen. Likewise, every pain is naturally evil, but not every pain is to be avoided. Only upon considering all consequences should we decide. Thus, sometimes we might regard the good as evil, and conversely: the evil as good.

We also regard self-sufficiency as a great virtue – not so that we may only enjoy a few things, but so that we may be satisfied with a few things if those are all we have. We are firmly convinced that those who least yearn for luxury enjoy it most, and that while natural desires are easily fulfilled, vain desires are insatiable. Plain meals offer the same pleasure as luxurious fare, so long as the pain of hunger is removed. Bread and water offer the greatest pleasure for those in need of them. Accustoming oneself to a simple lifestyle is healthy and it doesn’t sap our motivation to perform the necessary tasks of life. Doing without luxuries for long intervals allows us to better appreciate them and keeps us fearless against changes of fortune.

Thus when we say that pleasure is the goal, we do not mean the pleasure of debauchery or sensuality, despite whatever the ignorant, disagreeable, or malignant people believe. By pleasure, we mean this: freedom from pain in the body and freedom from turmoil in the soul. For it is not continuous drinking and revelry, the sexual enjoyment of women and boys, or feasting upon fish and fancy cuisine which result in a happy life. Sober reasoning is what is needed, which decides every choice and avoidance and liberates us from the false beliefs which are the greatest source of anxiety.

Who could conceivably be better off than one who reveres the gods, who is utterly unafraid of death, and who has discovered the natural goal of life? Or one who understands that pleasure, the greatest good, is easily supplied to absolute fullness, while pain, the greatest evil, lasts only a moment when intense and is easily tolerated when prolonged? Or one who scoffs at fate, which is believed by some to be the mistress of all? 

Such a man is better off than all, because he knows that the greater power of decision lies within oneself. He understands that while some things are indeed caused by fate, other things happen by chance or by choice. He sees that fate is irreproachable and chance unreliable, but choices deserve either praise or blame because what is decided by choice is not subject to any external power. 

One would be better off believing in the myths about the gods than to be enslaved by the determinism proclaimed by certain physicists. At least the myths offer hope of winning divine favors through prayer, but fate can never be appealed. 

One who is wise knows fortune is not god, as many believe, because the gods do not act randomly. Nor does he believe that everything is randomly caused. Nor does he believe that chance doles out good or evil for the sake of human happiness. He would actually prefer to suffer setbacks while acting wisely than to have miraculous luck while acting foolishly; for it would be better that well-planned actions should perchance fail than ill-planned actions should perchance succeed.

So practice these and similar teachings daily and nightly. Study them on your own or in the company of a like-minded friend, and you shall not be disturbed while awake or asleep. You shall live like a god among men, because one whose life is fortified by immortal blessings in no way resembles a mortal being.)



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