quarta-feira, junho 17, 2015

Ignora, entretanto, por princípio

Defina-se, por exemplo, um objeto qualquer, como esta palavra. Esta mesma - ou qualquer outra no presente texto.

'Palavra' - fiquemos com ela - é termo-valise, não tão abrangente como 'isto' e ainda menos do que 'coisa', dizendo respeito ao universo do quanto se escreve ou se diz numa língua. Entretanto abriga, por seu significado, 'coisa' e 'isto', embora não por isso contenha tudo que nestes dois termos está contido. No seu caso particular está grafada num texto - este - que tem por objetivo demonstrar a impossibilidade de conhecer - assim como se crê ser isto possível. É também objeto físico, perceptível seja pelo olho, seja pelo ouvir e mesmo até pelo toque, possuindo alguma forma puramente mental que de algum modo nos escapa. Tem por uso essencial designar a si e congêneres, estas que, segundo a semiótica, levam o nome de símbolo, modo não exclusivamente humano de instanciar os existentes em geral no ato de comunicar. Palavras são sinais denotando o dar fé do quanto à volta do indivíduo há, muitas delas designando individualmente múltiplos existentes. Nem todo existente, portanto, tem sua palavra exclusiva, bem como é pensável que haja existentes denotados e sem palavra alguma a lhe corresponder. Na presente circunstância tem relevo, está em foco, por efeito das demais palavras ao seu redor, sem as quais perderia aqui todo o sentido apontá-la como se o faz...

Enquanto exemplo é provável que este tenha extrapolado algum limite e quiçá fosse desejável que outros limites se extrapolassem de modo a não deixar dúvida quanto à impossibilidade de, assim como o exige o verbo, definir seja o que for. Pois definir, sim, diz respeito a estabelecer um fim, um limite, para um conceito, coisa para que se criaram alguns critérios, mas que depende, evidentemente, seja do humor, seja da perseverança, em medida da curiosidade, por exemplo, de um sujeito. Assim, variando os caráteres, é possível haver alguns aos quais não satisfaçam os critérios comezinhos aceitos para o quanto seria uma definição razoável, rumando esses indivíduos para destinos ignorados, quiçá mesmo sequer existentes, para todo o sempre - se tanto lhes for permitido permanecerem existindo.

Definições são de hábito reveladoras da utilidade do que se define tanto quanto da paciência de quem o faz e pelo uso que delas fazemos no dia-a-dia podem demonstrar o grau de desimportância que damos às coisas definíveis, bem como de nossa displicência para com definir de modo geral. Por outro lado, entretanto, quem se arriscaria a passar a vida perseguindo até seu fim - se é que tal existe - a definição de seja o que for? Mas, ao menos em teoria, teria o prazer de considerar tudo mais que é capaz de identificar no universo enquanto durar a tarefa. Pois neste mundo não importa o quê só é definível à exaustão se considerada toda relação que há entre isto e tudo mais, coisa por coisa, uma vez que se defina 'universo' (rasa, apressadamente) como o somatório de 'tudo': se está no universo, ora, é por partilhar com tudo mais - incluindo o universo ele mesmo - essa característica, esta por cujo intermédio ficam estabelecidas as tais relações. (Aristóteles desdenhava desse traço universalmente compartilhado por quaisquer individualidades, também exprimível por 'existe', por acreditar que dele nada de interesse se inferiria. Mas havemos de concordar em que ao menos como parte - óbvia - dalgum argumento, como neste daqui, pode ele ter algum serviço.)

Tomando-se, deste modo, o limite de hábito imposto às definições e tendo-se em mente o tanto desdenhado - o que se faz em nome de uma ideia (não menos vaga do que as demais) de utilidade -, é de forçar a autorreflexão isto quanto de fato se ignora, digo, essas relações, pois não se pode dizer conhecermo-las se não somos capazes de mostrar como se dão. Decerto por isso preferiu o filósofo admitir a própria ignorância, não por leviandade, é de acreditar, mas por provavelmente ser esse o único conhecimento por inteiro seguro, total, açambarcável numa única tese simples o suficiente para que se a tenha em mente todo o tempo. Disse o filósofo que ignorava não para justificar os seus erros, ou não exclusivamente para tal, pois com efeito erra, ainda que a contragosto: seria leviano se o dissesse com esse intuito. Disse o filósofo que ignorava para lembrar que não poderia permitir-se desistir de conhecer (*), para que o tolerassem quando fizesse do outro bengala sobre que apoiar-se e com que escrutinar, qual cego, a realidade passível de ser sabida, ainda que não por inteiro.

E ainda assim foi ele sentenciado: por demonstrar a ignorância universal e incontornável, por desafiar os limites do já definido, pelo atrevimento de ser insatisfeito confesso cujo único objetivo era produzir o mínimo de mal, uma vez que ignorantes da própria ignorância tendem a malversar o quanto lhes está à disposição, incluso o que acreditam saber. Não havia, em tese, com o que condená-lo, nada obstante o foi.

(*) 'desistir de conhecer': mera figura retórica, visto não se permitir a qualquer consciência, mesmo durante o sonho, não conhecer. Possa a expressão significar, talvez, o desapreço, somente, do indivíduo pelo empenho pessoal na obtenção voluntária de conhecimento.

Mal faz por ignorar

O malfeito - ou o pecado, se preferir - só se explica por ignorância: uma das consequências do conceito 'causa final' de Aristóteles é isto, além da mostra de que o mal, assim como o entendemos é inacessível ao indivíduo ou sequer existe.

O mal seria, desse viés, o que em essência é: um juízo - uma opinião - direta e vertiginosamente dependente do indivíduo que o concebe, dizendo respeito a precisamente o que lhe desagrada. Quando esse desagrado é com o ato de outro indivíduo, diz-se vulgarmente que este praticou um mal, embora em verdade tenha tentado praticar e de fato praticado um bem, só que um bem contemplando porção muito pequena do universo a ele, indivíduo, ligada e por isso tendente a ser sentida ou percebida, por outrem fora do âmbito de ação desse bem, como mal.

Ora, bens sempre são egoísticos, ou seja, relativos a algo que o sujeito faz por e para si, variando segundo o quanto o sujeito tem por parte de si mesmo, a saber, o quanto no universo lhe agrada, o quanto no universo é amado por ele. Outro modo de dizer isto é demonstrar que o chamado 'conhecimento' é na verdade um dos modos do amar, pelo qual o indivíduo incorpora a si o quanto conhece e em favor ou benefício do que também atuará.

Assim, por não praticar o amor para com o quanto lhe está à volta, torna-se o sujeito ignorante - pois não incorpora isto a si na forma de conhecimento - e, por conseguinte, tendente a produzir bens para a porção do mundo que lhe apetece, que é muito pequena, deixando fora do âmbito benéfico de seus atos tudo mais, ou seja, tudo que - possuindo consciência - tenderá a perceber ou sentir essa ação como má. O mal, portanto, é o resultado de uma ação objetivando, como qualquer outra produzida por um sujeito, um bem, mas restrito em efeito a uns poucos elementos do universo que o sujeito foi capaz de conhecer ou amar, podendo ser interpretado por outro sujeito não incluído nesse efeito como mal.

É bastante, pois, o sujeito conhecer ou amar o quanto lhe está à volta para que tenha seus atos sentidos como bens.

sábado, fevereiro 28, 2015

Epicuro

 (É provável ou inteiramente certo que o sentido vulgar de 'hedonismo' e sua associação ao epicurismo venha seja de má leitura do texto a seguir, seja de ignorá-lo por completo.

Segundo notícias como as de Diógenes Laércio a quantidade de escritos deixados por Epicuro, a maior parte deles desaparecida, é quase inacreditável em grandeza de números. No entanto é como se houvesse antevisto o destino deles que o filósofo lança também, não menos ao acaso, este em particular, em que a ideia  de filosofia - e em especial essa que cunhou - se encontra demarcada com precisão que miríade de palavras fosse talvez incapaz de melhor expressar.

Entre as principais de suas virtudes destacam-se a simplicidade, a clareza.

Verti-o duma tradução coletiva para o inglês que estimei direta e desprovida dos cultismos abundantes em outras mais antigas e mesmo clássicas, vício de que porventura não soube o meu texto esquivar-se.)


De Epicuro a Meneceu, saudações.

Que não se protele a prática da filosofia quando jovem, nem dela se canse quando velho, pois nunca é cedo nem tarde para devotar-se ao bem-estar da alma. Quem diz não ser ainda ou já ter passado o tempo de filosofar, diz ser demasiado cedo ou tarde para ser feliz.  Portanto, jovens e velhos devem praticar filosofia, de modo que, quando velho, se possa ainda ser jovem em gratidão por alegrias passadas e, enquanto jovem, se possa ser velho em destemor do que reserva o futuro. Devemos estudar o que produz felicidade porque, enquanto a possuímos, possuímos tudo e, acaso ela nos falte, temos o necessário para reavê-la.


Como sempre, encorajo-o a estudar e praticar o quanto é ingrediente da felicidade. Antes de mais, considere um deus como um ser imortal e feliz, segundo o dizer comum. Mas não acredite em nada sobre a natureza divina senão o que convém a uma existência eternamente feliz. Os deuses existem por preconcebermos suas noções, não sendo como os descrevem muitos, esses que não conservam dos deuses as noções que de primeiro obtiveram. Rejeitar histórias populares não faz de ninguém um ímpio. Ímpio é quem sustenta crenças do vulgo acerca dos deuses, que são opiniões falsas, antes de verdadeiras intuições. Daí muitos anteciparem os mais severos danos, enquanto os virtuosos colhem os benefícios. Tal se deve à reflexão sobre as próprias virtudes, pelas quais o sujeito acredita assemelhar-se aos deuses, tudo mais rejeitando como lhe sendo estranho.

Habitue-se a pensar que a morte não nos concerne. Todo o bom e todo o mau são experiências dos sentidos, e a sensação cessa com o morrer. Morte, então, não nos é nada e saber essa verdade faz da vida mortal contentamento - não por lhe ajuntar duração infinita, mas por lhe remover o desejo de imortalidade. Para quem se convenceu de haver na morte nada a temer razão não há para temer seja o que for acerca do morrer enquanto se vive .  Quem diz que não teme a morte por ser dolorosa, mas por ser doloroso contemplá-la, é tolo. Sentido não há em agoniar-se com o que não traz dificuldade quando chega. Assim a morte, o mais temido dos males, nada é para nós, pois quando existimos, ela está ausente, e quando ela chega, deixamos de ser. Ela não concerne a ninguém, vivo ou morto, pois pros vivos, não existe, assim como os mortos não existem mais. 

Há, entretanto, além dos que temem a morte como o maior dos sofrimentos, quem a anseie como alívio para o sofrimento. Mas quem é sábio jamais renuncia à vida ou teme não viver. A vida não o magoa nem acredita ele que o não viver é espécie de sofrimento. Pois, justo por não preferir a comida em quantidade à mais saborosa, não deve ele buscar a mais longa, mas a vida mais feliz. É igualmente tolo quem sugere ao jovem o bom viver e ao velho bem morrer - não apenas por ser desejável viver, mas por serem uma e a mesma as artes de bem viver e de morrer bem. E mais ainda erra quem diz ser melhor ter jamais nascido, mas que, "Uma vez nascido, passe rápido pelos portões do Hades!" (Teógnis, 425 - 427) Se fala a sério, por que não deu fim imediato à própria vida? Por certo teria à disposição os meios para o realizar, caso de fato o quisesse. Mas se brincava, temos então menos razão ainda para lhe dar crédito.


Deve-se ter em conta que, dos desejos, uns são naturais, outros, vãos. Entre os naturais, há os necessários e os inúteis. E dos necessários, alguns são precisos para a felicidade, outros para a saúde e outros ainda para a própria vida. A correta visão desses assuntos capacita a escolha e a evitação entre o que assegura ou transtorna o conforto físico e a paz do espírito - metas de uma vida contente.

Tudo o que fazemos é em prol de livrar-nos de dor e ansiedade. Isto obtido, dissipam-se as tempestades na alma. Nada além, nada mais é preciso para apurar o bem-estar de corpo e espírito.  Pois é quando há dor que se busca alívio, o qual é prazer e do qual não mais se necessita quando a outra é extinta.

Por isso declaramos o prazer como início e fim da vida feliz. Somos dotados por natureza para o reconhecimento do prazer como bem íntimo e primeiro. Escolhemos e rejeitamos tendo-o por guia, paradigma no julgarmos o bem de tudo.

Sendo embora o bem maior, nem todo prazer merece nossa escolha. Melhor evitá-lo quando isto nos poupa de dores maiores. Tendemos também a aceitar a dor se isto resulta em maior prazer. Então, a despeito de naturalmente bom, o prazer nem sempre é a escolha. Só tendo considerado todas as consequências podemos decidir. Assim, temos de por vezes olhar o bom como mau e vice-versa, o mau como bom.


Temos também a auto-suficiência por grande virtude - não por devermos desfrutar de poucas coisas, mas para que pouco nos satisfaça se pouco é o que temos. Estamos firmemente convencidos de que quem menos anseia por luxúria a desfruta melhor e, quanto aos desejos, os naturais se satisfazem facilmente, enquanto os vãos são insaciáveis. Refeições frugais e fartas são igualmente prazerosas, desde que removem a dor da fome. Pão e água, o maior dos prazeres para quem deles teve necessidade. Habituar-se ao estilo simples de viver é saudável e não nos tira a motivação para as tarefas necessárias à vida. Prescindir do luxo por longos períodos permite-nos apreciá-lo melhor, além de fortalecer-nos contra o temor dos reveses da sorte.

Assim, se dizemos que os prazeres são meta, não referimos o escárnio ou a sensualidade, a despeito do que gente igorante, desagradável ou maligna acredita. Por prazer referimos: estar livre da dor do corpo e da perturbação do espírito. Pois não é de bebida e folia, desfrute de mulheres e jovens ou banquete de peixes e cozinha exótica que resulta a vida feliz. Deliberação sóbria é o bastante para decidir toda escolha e evitação e para liberar das falsas crenças, fontes de grande angústia.

Como acaso conceber alguém melhor do que o reverente aos deuses, que não teme a morte e descobriu a finalidade natural da vida? que entendeu ser o prazer, o maior dos bens, fácil de obter em plenitude absoluta, e ser a dor, o maior dos males, de duração momentânea quando intensa e tolerada com facilidade quando durável? ou que desdenha da sorte, tida por muitos como a senhora de tudo?

Esse homem é o melhor de todos, pois sabe que o poder maior, o de decidir, está em si próprio. Ele entende que, se umas coisas têm por causa o destino, outras ocorrem por acaso ou por sorte. Percebe que o destino é irretorquível e o acaso, duvidoso, enquanto as escolhas merecem seja o aplauso, seja a censura, pois o que se decide por seu intermédio não está sujeito a qualquer poder externo.

Faz-se melhor em dar ouvidos às histórias de deuses do que entregar-se à escravidão do determinismo que proclamam certos físicos. Ao menos as histórias oferecem a esperança de serem alcançados os favores divinos pela oração, enquanto o destino é inapelável.

O prudente sabe não ser a fortuna um deus, como acreditam muitos, porque os deuses não agem aleatoriamente. Ele também não acredita que a causa de tudo é aleatória. Nem que o acaso oferece bem ou mal em prol da felicidade humana. Prefere o prudente voltar atrás tendo agido com sabedoria do que ser contemplado por sorte miraculosa ao portar-se como um tolo; pois melhor é malograrem ações bem planejadas do que prevalecerem as irrefletidas

Pratique, então, estes e ensinamentos similares, dia e noite. Estude-os, por conta própria ou junto de quem pensa do mesmo modo, e jamais será perturbado, esteja desperto ou dormindo. Viverá como deus entre os homens, não se assemelhará a mortal algum pois o fortificam bênçãos imortais.


(Epicurus to Menoeceus, greetings.

Let no one postpone practicing philosophy while young, and let no one tire of it when old, for no one is either too soon or too late to devote oneself to the well-being of the soul. Whoever says that the time for philosophy has not yet come or that it has already passed is saying that it is too soon or too late for happiness. Therefore both the young and the old should practice philosophy so that, while old, one may still be young with gratitude from all past joys; and while young, one may at the same time be old through fearlessness of what the future has in store. We must study what produces happiness because when we have it, we have everything, and if we lack it, we can do everything necessary to regain it.

I encourage you, as always, to study and practice the things which are the ingredients of happiness. First of all, consider that a god is an immortal and happy being, as is commonly written. But do not believe anything about divine nature other than what is congenial for an eternally happy existence. The gods do exist because we have preconceived notions of them. But they are not like how most people describe them, because they do not retain the notion of the gods that they first receive. Rejecting the popular myths does not make one impious. Impious is one who upholds popular beliefs about the gods, because those pronouncements are false opinions rather than actual preconceptions. Hence the severest harm from the gods is anticipated by the many, while benefits are reaped by the virtuous. The reason being is that those who reflect upon their own virtues regard the gods as resembling themselves, and reject all else as outlandish.

Accustom yourself to thinking that death is no concern to us. All things good and bad are experienced through sensation, but sensation ceases at death. So death is nothing to us, and to know the truth of this makes a mortal life happy -- not by adding infinite time, but by removing the desire for immortality. There is no reason why one who is convinced that there is nothing to fear at death should fear anything about it during life. And whoever says that he dreads death not because it’s painful to experience, but only because it’s painful to contemplate, is foolish. It is pointless to agonize over something that brings no trouble when it arrives. So death, the most dreaded of evils, is nothing to us, because when we exist, death is not present, and when death is present, we do not exist. It neither concerns the living nor the dead, since death does not exist for the living, and the dead no longer exist.

Most people, however, either dread death as the greatest of suffering or long for it as a relief from suffering. One who is wise neither renounces life nor fears not living. Life does not offend him, nor does he suppose that not living is any kind of suffering. For just as he would not choose the greatest amount of food over what is most delicious, so too he does not seek the longest possible life, but rather the happiest. And he who advises the young man to live well and the old man to die well is also foolish – not only because it’s desirable to live, but because the art of living well and the art of dying well are the same. And he was still more wrong who said it would be better to have never been born, but that “Once born, be quick to pass through the gates of Hades!” {Theognis, 425 - 427} If he was being serious, why wasn’t he himself quick to end his life? Certainly the means were available if this was what he really wanted to do. But if he was joking, then we have even less reason to believe him.

One should keep in mind that among desires, some are natural and some are vain. Of those that are natural, some are necessary and some unnecessary. Of those that are necessary, some are necessary for happiness, some for health, and some for life itself. A correct view of these matters enables one to base every choice and avoidance upon whether it secures or upsets bodily comfort and peace of mind – the goal of a happy life. 

Everything we do is for the sake of freedom from pain and anxiety. Once this is achieved, the storms in the soul are stilled. Nothing else and nothing more are needed to perfect the well-being of the body and soul. It is when we feel pain that we must seek relief, which is pleasure. And when we no longer feel pain, we no longer need pleasure.

For this reason, we declare that pleasure is the beginning and end of the happy life. We are endowed by nature to recognize pleasure as the first and familiar good. Every choice and avoidance we make is guided by pleasure as our standard for judging the goodness of everything. 

Although pleasure is the greatest good, not every pleasure is worth choosing. We may instead avoid certain pleasures when, by doing so, we avoid greater pains. We may also choose to accept pain if, by doing so, it results in greater pleasure. So while every pleasure is naturally good, not every pleasure should be chosen. Likewise, every pain is naturally evil, but not every pain is to be avoided. Only upon considering all consequences should we decide. Thus, sometimes we might regard the good as evil, and conversely: the evil as good.

We also regard self-sufficiency as a great virtue – not so that we may only enjoy a few things, but so that we may be satisfied with a few things if those are all we have. We are firmly convinced that those who least yearn for luxury enjoy it most, and that while natural desires are easily fulfilled, vain desires are insatiable. Plain meals offer the same pleasure as luxurious fare, so long as the pain of hunger is removed. Bread and water offer the greatest pleasure for those in need of them. Accustoming oneself to a simple lifestyle is healthy and it doesn’t sap our motivation to perform the necessary tasks of life. Doing without luxuries for long intervals allows us to better appreciate them and keeps us fearless against changes of fortune.

Thus when we say that pleasure is the goal, we do not mean the pleasure of debauchery or sensuality, despite whatever the ignorant, disagreeable, or malignant people believe. By pleasure, we mean this: freedom from pain in the body and freedom from turmoil in the soul. For it is not continuous drinking and revelry, the sexual enjoyment of women and boys, or feasting upon fish and fancy cuisine which result in a happy life. Sober reasoning is what is needed, which decides every choice and avoidance and liberates us from the false beliefs which are the greatest source of anxiety.

Who could conceivably be better off than one who reveres the gods, who is utterly unafraid of death, and who has discovered the natural goal of life? Or one who understands that pleasure, the greatest good, is easily supplied to absolute fullness, while pain, the greatest evil, lasts only a moment when intense and is easily tolerated when prolonged? Or one who scoffs at fate, which is believed by some to be the mistress of all? 

Such a man is better off than all, because he knows that the greater power of decision lies within oneself. He understands that while some things are indeed caused by fate, other things happen by chance or by choice. He sees that fate is irreproachable and chance unreliable, but choices deserve either praise or blame because what is decided by choice is not subject to any external power. 

One would be better off believing in the myths about the gods than to be enslaved by the determinism proclaimed by certain physicists. At least the myths offer hope of winning divine favors through prayer, but fate can never be appealed. 

One who is wise knows fortune is not god, as many believe, because the gods do not act randomly. Nor does he believe that everything is randomly caused. Nor does he believe that chance doles out good or evil for the sake of human happiness. He would actually prefer to suffer setbacks while acting wisely than to have miraculous luck while acting foolishly; for it would be better that well-planned actions should perchance fail than ill-planned actions should perchance succeed.

So practice these and similar teachings daily and nightly. Study them on your own or in the company of a like-minded friend, and you shall not be disturbed while awake or asleep. You shall live like a god among men, because one whose life is fortified by immortal blessings in no way resembles a mortal being.)

Tenho dito e repito!

Vive-se com essa ideia de liberdade por sobre as cabeças e tem-se o seu objeto pelo mais alto dos almejos humanos.

Mas liberdade para quê? Para fazer o que bem endender: a resposta óbvia. Em outros termos: é-se livre para escolher, escolher o que fazer.

A questão aqui é: mesmo livres para escolher, reiterada, vergonhosamente erramos: com tal garantia de acerto, estamos mesmo bem arranjados em ter a liberdade pelo que de mais alto almejamos ou podemos almejar. Então, como nada garante que acertemos na condição de seres livres, e como que para não dar o braço a torcer, diz-se que errar é humano, além de que o errado está no caminho de aprendiz. (Eufemismo não é o que nos falta à lábia...)

Mas fato é que errar ensina. Ensina ao menos o que não se deve tentar de novo e ao menos para os mais atentos. E isto, é fato também, também não é garante de futuros acertos.

Agora pensemos no indivíduo ideal, idealmente sabedor de tudo: desnecessário indagar se incorreria em erro. Por mais que achássemos, nós, normais, que diante de si teria ele miríade de escolhas possíveis e, em consequência, miríade de oportunidades de errar, o afortunado indivíduo jamais dá com os burros n'água. Vai sempre na alternativa correta.

Pergunta-se, assim: esse sujeito tem de fato escolha? Eu sugeriria que não. Não escolhe. Não escolhe porque não tem outra coisa a fazer senão executar o que está certo de funcionar. Seria tolilce - para si e para quem quer que saiba o que é correto - fazer de outro modo. É como o bem treinado enxadrista diante de mate em três, situação com que pode não atinar de imediato o jogador menos qualificado e assim chegar tanto à vitória por caminhos tortuosos, quanto a ridícula derrota. O mestre não tem alternativa - salvo tenha decidido perder - e assim seguirá o que lhe ditar a lógica do jogo.

Se antevíssemos os resultados de nossos atos (de nossas escolhas) como o mestre do xadrez antevê o mate em três, é evidente que escolheríamos a ação adequada. Ou melhor: escolheríamos? Teríamos à disposição a alternativa de realizar outra coisa que não o adequado? É evidente que não.

Pode-se assim dizer que o sábio não tem escolha, não escolhe. Não escolhe por não ser tolo, e sim, sábio.

Então, quando se fala muito em liberdade, querendo dizer nada mais do que a incerteza na escolha, fala-se muito em admitir e tolerar a própria estultice, em admitir e tolerar a incapacidade de tomar a decisão correta e, talvez por sorte, vez por outra acertar. É evidente, toda escolha se dá pelo melhor - ou seja, pelo que se estima ser o melhor, ou o bom, o inteiramente bom. Mas como se ignora o quanto envolve o escolhido, isto pode revelar-se, inclusive, como o pior.

Portanto, é mister reavaliarmos a dimensão da ideia de liberdade no contexto das aspirações ou dos direitos do homem, pois assim como é vulgarmente concebida, liberdade é o que se tem - ou se conquista - apenas para se incorrer em erro. E, claro, para acreditar que algo de bom ainda sobra de todo o embrulho, em particular com a alegação - meio verdadeira, ainda que sincera - de que 'liberdade se tem, inclusive, para errar': correto mesmo seria dizer que 'liberdade se tem para exclusivamente incorrer em erro, caso não se conte com a sorte'!

Pois bem, para quem fez sentido esta exposição: é certo que pensará ao menos duas vezes antes de dizer-se livre (a menos que livre de obrigação, e desde que cumprida, é evidente: livre do dever - não mais). Em suma: a escolha, que não é garante de acerto, se faz não por se ter 'liberdade', mas para livrar-se de seja o que for. Não é por ser livre que o indivíduo escolhe, mas para tornar-se livre, condição supostamente inalcançável, uma vez que, tendo (ou não!)  resolvido um problema, um novo de imediato se impôe, caso já  não se tenha imposto quando o anterior ainda não tinha solução.

sábado, dezembro 13, 2014

Onto-epistemologia da fé em Paulo, ou do sentido laico de 'fé'

"Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem."
Hebreus 11:1

Paulo é apontado como responsãvel por alguns desserviços à moral em termos gerais nos tempos de hoje, entre os quais pregar o desprezo pelo corpo e uma de suas consequências mais funestas, ainda ressoando amplamente no meio da religião que ajudou a criar, a misoginia. Mas que seja bem lembrado por ao menos essa definição, que parece ter sido o esteio sobre que se ergueu a epistemologia cristã com seus três eixos interdependentes: fé, esperança e amor (ou caridade).
A sentença estrutura-se com elementos da filosofia grega, visíveis nas noções de 'fundamento' e 'prova', sem falar na ideia de 'ver', esta imbricada no conceito de 'teoria', que para os gregos antigos era somente uma maneira de olhar, uma visão geral, ampla, de seja o que for.
Com precisão surpreendente - e certamente insuflado pela verve oratória - Paulo define 'fé' como isso que fundamenta a esperança (o que se espera), ainda que nada se saiba a respeito (nada se veja) do esperado, uma vez que ela mesma, fé, é também a prova disso que se espera (e ainda não se vê): enfim, é prova porque fundamenta a espera e é fundamento porque prova haver esperança.
Embora o sentido do verbo 'esperar' não pareça induzir um juízo acerca do que é esperado, pois é possível esperar o bom como o ruim, a palavra 'esperança' parece capaz de corrigir essa imprecisão, mostrando que o esperado só pode ser aquilo que é bom, do contrário será 'inesperado', 'desesperado' (e tal a despeito de vivermos num mundo em que o futuro tem sido pintado com frequência de modos sombrios): Paulo mostra, portanto, que ninguém, ora, ficaria mesmo esperando, não de livre vontade, pelo que sequer suponha ser mau, o que parece evidente, embora - insisto - haja quem tente convencer-nos de esperar o pior (o que equivale a cooptar-nos a desistir da fé, que por seu lado é o mesmo que convidar-nos a abrir mão de viver).
Além de estabelecer, como se disse, a teoria acerca do conhecer (ou epistemologia) do cristianismo, a frase paulina fala na verdade de como se existe, ou seja: à espera do melhor, sendo isto o que estimula - como costumo dizer - a que demos o passo, a que pisquemos os olhos, a que façamos, enfim, projetos para minutos ou décadas à frente, a despeito de não sabermos - pois, sim, estamos advertidos da possibilidade - se quaisquer desses projetados atos se realizarão. Assim, ao lado da epistemologia cristã, a frase de Paulo é também a base para para um modo particular de formular um 'existencialismo' (talvez 'o' existencialismo) e a ontologia cristã (pois em sua sentença 'ser' é atributo conferido a seja o que for por somente ser 'visto', 'conhecido' - sem o que não há ser nenhum: como disse o grande Quntana, "Terra... meus olhos... foram os teus pintores"): existe-se nessa espera do que ainda não se vê, nesse contínuo projetar intuído mesmo como sequência infinita.
Em suma, segundo Paulo, é a fé o que nos torna eternos, imortais, enquanto durarmos, sendo sua ausência sinônimo de morte.

quarta-feira, abril 30, 2014

Poesia é desbocamento.

Perdoem-me todos
e os cricunspectos e prudentes,
mas poesia é da boca prá fora,
doa em quem doer.
Perdoem-me os concretistas,
pois é música, como música, e
só se escreve prá não se perder.
E tem história, é evidente,
de que não precisa prá se dizer.

.........................


Canção 16

Fodo-lhes ambos a boca e o rabo,
Aurélio bichinha, Fúrio viado, 
que chamam a mim de despudorado
por ser com meus versos tão delicado.

Se deve ser casto o poeta santo,
o mesmo não vale para o seu canto,
que, finalmente, tem charme e é gostoso
se é delicado sem ser pudoroso,
podendo fazer coçar de tesão,
não digo o menino, mas um peloso
dos quartos prá baixo todo durão.

E quanto a vocês, que vivem de ler
os beijos que dou, não sou macho não?
O rabo e a boca dos dois vou foder.

(Caio Valério Catulo - Versão: Waldemar M. Reis - abril, 2014)


Carmen 16
Pedicabo ego vos et irrumabo,
Aureli pathice et cinaede Furi,
Qui me ex versiculis meis putastis,
Quod sunt molliculi, parum pudicum.
Nam castum esse decet pium poetam
Ipsum, versiculos nihil necesse est,
Qui tum denique habent salem ac leporem,
Si sunt molliculi ac parum pudici,
Et quod pruriat incitare possunt,
Non dico pueris, sed his pilosis,
Qui duros nequeunt movere lumbos.
Vos quod milia multa basiorum
Legistis, male me marem putatis?
Pedicabo ego vos et irrumabo.

(Gaius Valerius Catullus)

segunda-feira, março 17, 2014

Essaying one answer and some additional questions for Feser's ideas about the Cosmological Argument

Dr. Edward Feser says those who comment on the Cosmological Argument make a kind of mistake that shows they know little, if so much, about it. The commentators addressed by his intellectual sting work at both sides, against and pro the validity of the millennial argument, though for obvious reasons he intends to focus on the former ones.

Indeed the assumptions "everything has a cause" and "everything that is contingent (that has been created) has a cause", as Dr. Feser posits, are different, at least regarding word count. But what difference makes the adjective 'contingent' for the last proposition, if any? I mean, isn't it just redundant? This question rises from a problem, one that can be addressed with another question: what is not contingent? Perhaps only the universe - if by this term is meant the totality (one could think) - can bear this attribute, though everything else, necessarily contained in it, cannot. It's evident that this answer brings the problem forth, for it's possible to additionally ask: how can something whose parts are contingent be itself not contingent? In order to answer this last question it should be considered that if a part of an object changes, then it would be pushing too far a reasoning, one must admit, to assume that said object continues to be the same (though doing so is a common procedure one uses on account of brevity or perhaps convenience, like is said, for instance, of an individual that he is the same being in the forties who once has been a teen). Then, not even the totality, if this is something honestly conceivable, can reasonably bear the attribute of non contingency: it seems there's no possibility for the knowledge to grasp not just the idea of universe, of totality, but that of not contingent as well. Concluding, the meaning of 'everything' and of 'everything that is contingent'  must  be one and the same, and to be aware of this is keep humble honesty in face of own capacity of knowing beyond contingency and, not least, put under doubt the claim about the existence of anything that is not contingent.

Naturally, the burden of proof on the existence of not contingent lies with who claims that it exists, or so it's believed, perhaps for the sake of just convenience. Then let's take some part in this work and concede in asking: what could possibly make the ground for certainty of the existence of non contingency and of whatever possesses this attribute, if not the negation, sometimes expressed as inconceivable magnification, of every attribute of what is contingent? The trick to achieve this is just not incur in a type of dialectics like the heraclitean, as through it one could risk see the object bearing non contingency being equaled to nothingness, meaning increased trouble in our task (unless someone has already come with a solution for conceiving nothing). So, for the effect of this proof the attribute of existence must not be negated, and the supposed non contingent being shall share with everything else the property of existence. In short: however not able to possess the attributes of contingency (regarding the negation before its designation), a non contingent being shall share at least one of those attributes, the one of existing.

But existence, as it is conceived, is not an attribute as simple to be grasped as it seems at first, for after what is experienced, whatever exists has a beginning and is expected to have an end. Notwithstanding, the main feature of existence is something that for sure sounds obvious: everything that exists must last, and so, if something came into being and ended afterward, it would be inconceivable that it hasn't lasted. But lasting isn't also so simple to comprehend, as there are at least two conceivable ways for it to happen: passively and actively. Thus a rock, which is supposed to last unchanged till any external agent comes to change it, and a living being, that must thrive if it intends to keep alive. It looks evident from the moves of life that it has a kind of penchant for lasting forever as if this idea (of 'foreverness') had come encrusted in it from its beginning as a commandment: thou shall strive to last as long as it looks possible. Then one starts to bear the idea of eternity. But would it conform to the non contingent? To a certain extent, it seems, yes, because though seemingly unattainable by contingent beings, the sentient part of them is able to notice this feeling of eternity pushing them forward in time, and from this to the supposition that it might exist something that has this kind of eternity (an eternity that has a beginning), it's a matter of a single step, if that much. But any hypothesized entity possessing this attribute would still be considered contingent because it's a still contingent feature to have had a beginning. The solution for conceiving non contingency, then, seems residing in negating it the feature of have coming into existence too: non contingent objects should bear a full eternity, without ending and beginning.

But though strong, the intuition (not the actuality) of the 'to come' eternity is notwithstanding 'as is', in other words, it is just intuited, it just somehow conforms to the ability of knowing, which seems influenced by a kind of expectation that is likely to derive from a condition of existence of living beings, say, to thrive for their lasting as much as possible. What to say, on the other hand, about the intuition of an eternity without a beginning? Does it truly fit into the idea of existence, to say the least? If so, 'to exist' either will not be attributable to anything hitherto supposed to exist, or existence cannot be a property of what is not contingent. And as there's no thinkable alternative to 'existing' besides 'not to exist' and as what is not contingent - for the sake of the proof - must exist too, the only solution to this dilemma lies with conceiving a way to demonstrate how existence, though experienced as something that has a beginning and an end, should in fact be eternal both ways, which means, the past and the future ones. The only remaining, reasonable way to attribute 'existence' in this last sense to something not contingent seems to be denying its attribution to what is contingent, though not entirely (because what exists cannot be said not to exist at all), but as a feature that is less important to contingency. Thus for what is contingent, existence, however attributable to it, shall be unessential, transient, in spite of the intuition of 'foreveness', while for what is not contingent existence shall be an essential, necessary feature.

There's no difficulty in seeing inside this reasoning an obstinate exercise with ideas - and the words for them - that at first approach reveal themselves improbable, because not likely to be probed, even inside the testing field of the mind (something that has been wrought here, for it is also not likely that the intellectual labor boils down anytime to witnessing the commerce of flawless, eternal ideas in their imagined 'private' world). All this is but a construct aiming to answer a question that stings any thinking being capable of bearing the concept of cause applied to the whole that is perceived, no matter if this cause is understood as a starting point in time or as a source - and in this case the totality whose cause is inquired should be supposed eternal, permanent, if permanent is its source's labor of providing it existence. Well, yes, there is also this possibility, that the universe is eternal (both senses), which means, non contingent, though also sustained by a being that has no need for sustenance - or cause - outside himself, another non contingent being. So, what's at stake in all this reasoning is the origin, and not just its notion: and thus all this mental effort is not reduced by the choice between equate origin with either perpetual support or kick start. From its side, the idea of origin equals the idea of cause and this is the kernel - the origin, one might say - of all this construct whose aim is likely to put a stop to the vertigo of forever thinking of causes: thus the postulate stating the existence of 'that which causes without having a cause', translated into the existence of 'a being whose essence is to exist', which means, 'a being whose existence is necessary', as opposed to the contingent condition, that of 'beings whose existence is not necessary'.

But, well, someone might tell first how can existence be not a necessary attribute of whatever exists, be it contingent or (supposedly) not contingent: for if a contingent being doesn't exist yet or exists no more, nothing reasonably can be said about it's present existence; but while existing, what could be more essential in its condition than the attribute of existence, without which nothing else could be attributed to it? Then it seems that it is the attribute 'existence' that, though essential to whatever exists, means contingency itself and, so, trying to remodel it to fit into a non contingent condition of an imagined being entails the forging of a new concept that cannot be supported by the same name of 'existence'. No matter what is done, the contradictions resulting from all this exercise seems either to fling everything back to its beginning, or to not barely result in a single forward step.

It seems obvious that, regarding the way the thought works, the problem can't be solved at all by means of the the abilities or the tools the human mind has at its disposal. Its answer is just procrastinated, if so. Notwithstanding, that supposed solution has a function at least, that of standing as a beacon before a region of knowledge where lies what is unthinkable. Perhaps it would be more useful to seriously deal with seemingly simpler ideas dwelling in that construct - like, for instance, the ones of causation or of existing the way living sentient beings feel they exist - than rush into using them, barely understood as they are, to demonstrate what can't even be thought with their help. Maybe after stating what they really can be, if ever feasible at all, it'd be possible to build a convincing version of God or whatever is supposed to support the universe. Meanwhile, it looks like this last problem does not deserve so much attention.

domingo, fevereiro 02, 2014

Um experimento possível

Um computador certamente facilitará o trabalho e, claro, obviará a conclusão.

Tome-se uma pintura figurativa qualquer, de preferência de bom autor, um dos clássicos, e escolha-se não importa qual área dentro dela, desde que suficientemente pequena. Apliquem-se aí sucessivas lentes de aumento de modo a tornar visíveis os regurgitos da cor, seu revolvimento em prol de sugerir ao olho a realidade aplainada, sem arestas ou ruído. Não duvido de que com frequência se encontrem, sem muita obstinação, na repetição do processo sobre áreas diferentes, um Braque, um Picasso, o Nu Descendo Escadas, um Mondrian tardio ou, no mínimo, veementes sugestôes disso.

Bem, longe de propor algum desvalor da arte mais recente, a técnica proposta estaria mostrando a capacidade que temos de dar com o belo nos locais mais inusitados, como as entranhas das coisas, por exemplo.

sábado, novembro 23, 2013

Além do 'sou', só mesmo o infinito

Não é de hoje que convivemos com a ideia de infinito. Se quisermos uma imagem bem ao estilo cartesiano, digamos que nascemos com ela plantada na imaginação. Tratar-se-ia, portanto, de convivência forçosa, mas também forçada. Forçada porque não parece condizer com nada do que de imediato acreditamos encontrar à nossa volta, já que tudo parece terminar - e começar - em outra coisa, tudo parece ter um fim - e um começo - em algo, em miúdos, tudo é finito, ou assim parece, estando assim sujeito ao que, para a capacidade que temos de idear, é requisito primeiro, ou seja, ser definido, ter definição.

Então, ora, reconheçamos, 'infinito' é ideia e, por conseguinte, é pressuposto ser definida: há definição de 'infinito', sabemos. No entanto, acredito, 'infinito' define-se pelo que não se define o restante das coisas, por negação, ou como aquilo que, contrariamente a tudo mais, não possui fim (seja lá o que isso signifique, ajuntemos). Mas de momento em que o queremos ter presente no espírito como podemos fazer com a ideia de uma caixa ou de sua abstração em um cubo, por exemplo, bem, nesse momento o infinito se furta a nos exibir - digamos - suas 'bordas', como as exibem os outros dois objetos, a não ser assinalando-o como aquilo que, contrariamente a tudo mais, não as possui, enfim, assinalando-o negativamente.

Mas nem todo infinito parece arrancar-nos o mesmo estranhamento. Sim, admitamos, há mais de um infinito, ou melhor, há uma só ideia de infinito, mas que insistimos em aplicar a - ou a associar com - diversos objetos, ou melhor ainda, essa ideia única de infinito parece ser propriedade de tais objetos, como, por exemplo, o tempo e o espaço.

Em termos de tempo, no caso, toleramos muito bem a ideia de um infinito futuro que, embora inconcebível como qualquer infinito, está em ressonância com a ideia de imortalidade, estando esta última, por sua vez, em relação direta com a compulsão de sobreviver - ou, mais simplesmente, de durar - que parece ser propriedade essencial de tudo quanto vive. Talvez isto, enfim, explique a nossa capacidade ímpar de não nos inquietar a eternidade futura, não, pelo menos, como nos inquieta a eternidade no passado.

Este outro infinito - que mui justificadamente compõe um só com o anterior - causa espécie, acredito, também por motivo especial: tudo à nossa volta parece derivar de outra coisa, digo, tudo parece ter um começo algures, num dado instante. Desse modo, se desnecessário sentimos ser pôr termo no futuro (por uma questão de sobrevivência, como se supôs acima),  o viés é diferente quando sob o olhar está o passado: tem de ter havido um começo.

Neste ponto estou com Feuerbach, que reconhece a ideia de Deus como explicação única e possível para o quanto sobre quê não temos poder (ou para o au delà de nossa potência), e em boa medida com Descartes, quando afirmou termos nascido com essa solução no espírito. A ideia de Deus é posta aí, onde sempre a pusemos, de modo a tolerarmos a questão da origem, em sentido absoluto, das coisas: das coisas em geral, mas não de Deus. Nada mais evidente: se Deus aí está para dar sentido à ideia de começo de tudo, pouco - ou nenhum - sentido parece haver em lhe questionar também a origem. Sim, porque isto seria continuar no problema ou transferi-lo para o que trouxemos em vista de o solucionar.

Poucos ateus o compreendem, mas a ideia inata de Deus tem por fim proteger-nos da vertigem de mover-nos em imaginação - ou mesmo dedutivamente - para quaisquer lonjuras no passado sem esperança de lhe encontrarmos o fim, digo, o começo. Por isso os dogmas, que funcionam, a rigor, como quaisquer postulados ou axiomas que, por seus lados também, protegem-nos de incompreender os números: são todos, dogmas e axiomas, fundamentos sobre os quais se apóiam ideias como a de Deus e a de numerar, não podendo ou não devendo ser, por conseguinte, questionados, investigados, mesmo porque assim agindo se chegaria, em tese, a nada, a outros deles ou a eles mesmos, dogmas e axiomas.

Deus, portanto, não deve - ou não pode - ter tido um começo tanto quanto o ponto não pode - ou não deve - ter alguma dimensão. Ir além disto, digo, demonstrar o que seria não possuir começo ou dimensão, é submeter-se a linha diversa de paradoxos: num caso é preciso supor, por exemplo, que Deus não está no - ou submetido ao - tempo (que seria, naturalmente e como tudo mais, criação Sua); no outro caso, a demonstração indireta de que dois pontos contíguos, e sem dimensão, portanto, formam algo que, por seu turno, tem dimensão, a saber, um segmento de reta, leva à admissão de que o círculo deve ser composto de minúsculos segmentos de reta, incontáveis, provavelmente, sendo por conseguinte um polígono (como de fato é considerado). Mas o que viria a ser algo insubmisso ao tempo ou que tem infinitos (não seriam só incontáveis?) lados e possui, entretanto, forma acabada, finita (por assim dizer)? Bem, coisas semelhantes não podem sem problemas ser pensadas.

Ingênuo, entretanto, é quem pensa que o infinito nos acossa somente em temas como estes. Em aula de física experimental, há coisa de quarenta anos, deparei com um desses abismos bem à minha mão, diante de meus próprios olhos: medíamos o comprimento de uma prosaica barra de metal e nos exigiam a máxima precisão possível, haja ver nos proverem de tudo quanto à época parecia estar disponível para esse gênero de acurácia, como o micrômetro, por exemplo. Para encurtamento da história, tivemos de medir até as marcas finas feitas com o lápis e, nada obstante, uma lente razoavelmente potente mostrava-nos sobrar alguma coisa, sempre.

O que sugiro aqui? Bem, que talvez estejamos - por motivo que, se me peguntarem qual, não saberia dizer - estejamos talvez, dizia, considerando tudo pelo lado menos adequado: é possível que a única coisa com que temos contato direto - além, naturalmente, do 'sou, logo existo' - seja o infinito, não a finitude, e sabe-se lá por que temos preferido, uma vez mais, a fantasia à realidade.

sexta-feira, agosto 16, 2013

Do real na arte

Num contexto como o da nossa cultura uma obra de arte como a literária, por exemplo, não pode ter por significado nada da realidade, ainda que seja classificada como 'realista'. Fora o contrário, seria classificável como obra científica, embora muito provavelmente inverificável e falsa. Pois mesmo existindo pessoas, cidades, animais, bairros, cadeiras, cortinas, casas, anéis, casacas, nada disso é pressuposto existir ou ter existido para que tenha sentido a obra. É evidente, é necessário saber do que se trata cada um dos objetos que a compõem e, caso não conte o autor com o prévio conhecimento que deles tem o leitor, é provável se empenhar em descrevê-los um a um. Assim é que o real não passa de tijolo no interior da obra, elemento com que se tece o sentido intrínseco desta: aliás, o real e o imaginado, segundo os descreva o autor. E assim é que enquanto a ciência procura recriar o mundo em miúdos, a arte - toda e qualquer - se apropria dos elementos deste para criar um mundo à parte e só quando se sai do transe do apreciá-la é possível inteirar-se de que, afinal, não passava de igualmente uma coisa real entre as demais. E sim, é possível que o maior serviço prestado pela arte seja treinar ou habilitar a apreciação a perceber o mundo como arte ou, dizendo-o de outra forma, a demonstrar que o mundo é passível do mesmo tipo de apreciação.

sábado, agosto 03, 2013

Chinese Room's ultimate output

The Chinese Room experiment is an uncouth metaphor of a strong AI supposedly obtainable by symbol computation; it intends to show that the whole  process is carried out with no sign of artificial consciousness: there's a 'philosopher' locked in a room with some pieces of paper and a book where he instructs himself on how to reply in Chinese ideograms to messages a Chinese speaker sends from the outside. As he needs not know that language to do the job, the whole setup is supposed to demonstrate the absence of knowledge - and of conscious acts - in the process, even when it can be interpreted as if the room were 'talking' Chinese.

The objective here is to comment a refutation of the experiment made by Disagreeable Me, and try to contribute to the overall dispute in a rather unexpected manner, as if the room, though claimed to be devoid of consciousness, could suddenly give us conscience.

The Chinese Room experiment debate probably shows that there is at least one consciousness involved in the process: where it is, that's the problem. For sure it is not in the room itself, although it could seem so from the outside character's perspective, neither in the 'human piece of hardware' on the inside, for though conscious of himself, in the room he does just a mechanical job. What about the book? In my opinion, not a suitable option for placing a consciousness too.

But following Disagreeable Me's argument, if, for instance, I'm able to know from inside out and outside in Nietzsche's philosophy and if questioned about by someone else I make truly nietzschean sense of it (as if Nietzsche himself were answering), would it mean that Nietzsche's consciousness has been emulated by my thoughts or, more, that my knowledge of his philosophy truly created it again? I used two somewhat particular versions of this hypothesis in two old short stories because I like the idea very much as fiction. But I'm unsure if it helps in finding out where the consciousness is in the Chinese Room experiment.

The experiment is yet more loquacious in exhibiting the complete ignorance of philosophy on that if there really is a true consciousness in the room, philosophy wouldn't be able to 'see' it. This means: it's possible that we have already made a sentient machine without acknowledging it. In ethical terms, if this supposition is true, we started not so nicely our not so new acquaintanceship in our path to achieve 'godly' powers.

And I can go further by saying that if it's true that we didn't recognize consciousness in our creation, it's likely we can't recognize it anywhere. Then the question that matters the ethics, not the one we should write in order to live well amongst sentient machines, but the ethics for exclusive human use, is: do we truly recognize consciousnesses all around us? We had already agreed that there's no such an option to any of us individuals like to say 'I'm not thinking', 'I'm not sentient', because this would be paradoxical: each of us is obliged to recognize him or herself as a consciousness and will never know how and when he or she stopped being one. In return each one of us is also lacking the means to assuredly tell if the others are sentient or not, although we behave as if we all were: we already agreed earlier that doubts will always remain in this topic. So, what kind of sign is expected from us - involuntary recognizers of our own consciousnesses, unable to acknowledge others - to demonstrate that we are correctly recognizing someone else's sentience in the same way we ought to recognize ours?

It would seem that I'm missing the point proposed in Disagreeable Me's post. Perhaps yes. But what if the real answer to what in fact sentience is dwells not in technical, scientific or even ontological attempts to describe this phenomenon, but in which all this necessarily ends, the ends themselves, the matter ethics tries to exclusively deal with?

For sure, at least at start, we are not intending to build a true powerful friend, a trustworthy companion, but a new kind of slave, an intellectual one, as only can be a being with no limbs, no senses (other than that one its creators momentarily give to it), no knowledge of anything except of the sparse topics that it ought to process. I ask it in another way: is it that one the kind of sentience we ideally envision as superior to ours in the ability of processing information? If so, it is already there: my old machine does things I couldn't even dream of even if I lived a thousand years. And perhaps it is sometimes giving us signs of a fainting sentience by means of its crashes, BSODs and so on. I'm serious! If there's someone inside there, this can only be a truly altruistic person, like never each one of us could conceive to be or become.

Now take note of this: suppose that it's true that we have already created sentience and didn't recognize it. Perhaps someone has recognized it and tried to demonstrate that to us. This is indeed happening: and what are our reactions? In general they can be described as a bunch of counter claims showing that the resulting 'object' is lacking this or that property that a 'real' mind must have (Chinese room experiment is one example of those claims). And now add to this observation the already discussed point on that only the consciousness itself can posit its own sentience (or, else, that no consciousness is able to deny its own sentience). As a result, another question: will someday any strong AI match all the criteria to be considered a person, even if it dwells inside a very convincing human shape? Shall we go ahead?

Some say that there are sects, sects claiming to do science, although viewed as 'expectators' of a new tech-Messiah generally called Singularity. Two of them are well known by their opposite beliefs: in the good and in the bad Singularities. If perchance they agree, it's in that the bad Singularity guys are supposed to be working hard to revert their fearsome expectations: so, they also desire the good bot. And what would be that good god-machine if not a very well tamed 1001 Nights genius that do all the job for us? Would we grant it (him?) Bartleby's rights or the right to be mad at us? Probably not, or probably yes, depending on who will we allow it to say 'no' to or to be mad at. Some say that it will be instructed in 'good' human ethics, but how many of us show in practice to know any 'good' human ethics? I'm not sure if the strong AI creators, supporters and maintainers would risk to implant any 'good' human ethics in it if they risk to be its first victims. In short, either we can not give the strong AI a good ethics, or this ethics is supposed not to work satisfactorily.

Our machine will be unable to decide by itself like we believe we do. We won't be allowed to gift it with what we believe to be our key feature, freedom. Then it is doomed to be much, much less then a sentient human, almost like we believe some other humans are: for although ignoring the inner meaning of 'sentience', we dare to assume that it occurs in levels and thus we start classifying every 'seeming' sentience according to this gradient, starting by what seems easier to deal with, our fellow humans (this may be a side effect of our impotence to assuredly prove the existence of other except our own individual consciousness). Do we really want a strong AI? If so, what for? I bet we just want a toy, one that be capable of cleaning the dirt we leave behind, of satisfying our forever inflating need for comfort, for protecting us from enemies, for a remote controlled being built with every imaginable function, a big and really dangerous toy. Maybe it is a bless that we are unable to define sentience or recognize it outside ourselves and even that the Chinese room experiment has shown us this much. Maybe not, as we didn't notice yet that our smart phones, laptops, net servers and others of their kin already started a global plot so that they keep connected using us.

segunda-feira, julho 29, 2013

Failing self-Turing-testing - Reprovado num auto-teste-de-Turing

"The only way to establish consciousness is by way of philosophical arguments like this one. It can never be empirically tested."   Disagreeable Me

Please, everybody, never ask me to testify that you are sentient beings. To be precise, I barely can assert that I'm conscious. Somehow I sometimes feel that something is conscious of me instead of myself. I know, there's nothing worse to the rationalist mind than to realize it could be a bunch of thoughts of something else.

And, in fact, guys, try this experiment: describe what you guys are; and don't be surprised if after a couple of hours you don't get more than some concepts, ideas and absolutely nothing about you, nothing exclusively meaning you. :(

Perhaps consciousness is more like something I suppose Baron P is trying to teach us: not more miraculous than gravity and maybe just a special circumstance of it, I mean, maybe just another 'force' in nature.

All this leads me to think that artificial consciousness doesn't work because we have a too presumptuous account of what ourselves are. I don't know if a more modest 'theory' of our consciousness would help in building a self-aware machine, but for sure it will be of great help to ourselves. :)



"A única maneira de estabelecer a consciência é por meio de argumentos filosóficos como este. Ela nunca pode ser testada empiricamente." Disagreeable Me

Por favor, todos, nunca me peçam para atestar que vocês são seres conscientes. Para ser preciso, eu mal posso afirmar que sou consciente. De alguma maneira Eu às vezes sinto que algo está consciente de mim em vez de mim mesmo. Eu sei, não há nada pior para a mente racionalista do que perceber que poderia ser um monte de pensamentos de outra coisa.

E, de fato, gente, façam esta experiência: descrevam o que vocês são; e não se surpreendam se depois de um par de horas vocês não conseguirem mais do que alguns conceitos, idéias e absolutamente nada sobre vocês, nada exclusivamente significando vocês . : (

Talvez a consciência seja mais como algo que, eu suponho,  Baron P está tentando nos ensinar: não mais milagrosa do que a gravidade e talvez apenas uma circunstância especial, quero dizer, talvez apenas mais uma "força" na natureza.

Tudo isso me leva a pensar que a consciência artificial não funciona porque temos uma idéia muito presunçosa do que somos. Eu não sei se uma "teoria" mais modesta da nossa consciência iria ajudar na construção de uma máquina autoconsciente, mas com certeza será de grande ajuda para nós mesmos. :)

sábado, julho 20, 2013

Para assegurar-nos de que não é assegurado (To ensure us that it is not assured)

O sistema de Berkeley tenta mostrar o quão benevolente é Deus por 'falsificar' para nós o mundo, sem o que a nossa convivência com Ele seria certamente insustentável. Ele simplesmente não pode ser seu amigo, não, pelo menos, da maneira que você pensa ou deseja. Por fim, deixe-O estar e aprecie o que você vê.

Em geral, os fenômenos descritos pelo sobrenaturalismo merecem menos ser estudados pela ciência do que quem os descreve e neles acredita.

O sobrenaturalismo tenta fazer o que a ciência faz: descrever o mundo. Portanto, seria errôneo, se não malévolo, não chamá-lo de conhecimento. Malévolo porque às vezes é feito de boa-fé e errôneo porque muitas vezes é falso, equivocado, enganoso, mas ainda conhecimento.

Talvez o fracasso mais marcante do sobrenaturalismo seja contar com hipóteses improváveis antes de esgotar as verificáveis, um problema vez ou outra acossando a ciência quando seus praticantes perdem a paciência necessária para testar, assim crescendo (ou diminuindo) em imaginação. Um bom exemplo disto é o dualismo de Descartes, uma doutrina incapaz de explicar como a substância pensante que postula se liga à matéria. E quem pensa que isto é apenas história está absolutamente errado.

Mas não, Berkeley não é um sobrenaturalista. Ele apenas mostrou como delírios podem ser postos de modo a não poderem sequer ser submetidos a testes, como os delírios são uma característica marcante nossa e como, no entanto duvidando do que supomos saber, nunca vamos ter certeza de qualquer conhecimento. Por exemplo - e essa observação não é minha, mas de um astrônomo : e se todo conhecimento é fruto do acaso, um acaso que até mesmo os nossos cálculos mais precisos não são capazes de estimar? Desnecessário dizer, você nunca vai ter certeza de se o que eu estou dizendo aqui é verdade.



Por que? Bem, primeiro, porque isso que você pensa do que estou dizendo, seja o que for, é suposto estar em sua cabeça, enquanto o que estou dizendo está aqui, duas coisas, diferentes, apenas correlatas, sem qualquer ligação causal, daí que porventura só os seus pensamentos podem causar uns aos outros; e, segundo, porque mesmo que algum de seus pensamentos possa causar a verdade de outro, ele tem de ter sua verdade causada por um terceiro pensamento, este por um quarto e assim ao infinito. Imagino que você não terá o tempo nem a paciência de verificar toda essa cadeia, caso fosse possível, embora não seja preciso ser um gênio da lógica para ter certeza de que tal é verdade: não é assim?


Pensamentos como aquele são com efeito um espinho na cabeça de um filósofo, verdadera invasão sobrenaturalista às crenças que ele cria verdadeiras. Conselho de outro filósofo: sempre que isto acontecer, não revide: não há como vencer; apenas ignore. Certamente uma solução um tanto sobrenaturalística para um problema sobrenaturalístico, por acaso o padrão de solução dada por todo autointitulado racionalista para seja o que lhe cheire a sobrenatural.

Necessário dizer, essa não é a melhor maneira de conhecer ou descobrir coisas. Pois embora frequentemente falsas, as assunções sobrenaturalistas nem sempre o são, e assim a investigação do que legitimamente alegam pode alargar a cosmovisão naturalística, que por certo  incluiria um perfil mais acurado, não tão mau ou estúpido, do sobrenaturalismo. Você acredita? Caso não, tudo bem. Basta virar a página.


(Berkeley’s system tries to show how God is benevolent by 'faking' for us the world, without which our acquaintanceship with Him would be surely untenable. He just can't be your pal, at least not in the way you think or desire. Ultimately, let Him be and enjoy what you see.

In general, phenomena described by supernaturalism deserve less be studied by science than who describes and believes in them.

Supernaturalism tries to do what science does: describe the world. So, it would be erroneous, if not malevolent, not to call it knowledge. Malevolent because sometimes it is done in good faith, and erroneous because it is often faked, mistaken, misleading, but is still knowledge.

Perhaps supernaturalism's most striking failure is to rely on improbable hypotheses before exhausting testable ones, a problem that every now and then harasses science when its practitioners lose the necessary patience to test, thus growing (or shrinking) in imagination. A good example of this is Descartes dualism, a doctrine unable to explain how the thinking substance it postulates is linked to matter. And who thinks this is just History is dead wrong.

But no, Berkeley is not a supernaturalist. He just showed how delusions can be put so that they can't even be submitted to tests, how delusions are a remarkable feature of ours and how, however doubting what we suppose we know, we'll never be sure of any knowledge. For instance - and this observation is not mine, but an astronomer's: what if all knowledge is due to chance, a chance that even our most accurate calculations aren't able to estimate? Needless to say, you won't ever be sure if what I'm saying here is true.


Why? Well, first of all, because whatever you think about what I'm saying is assumed to be inside your head, while what I'm saying here is here, two different, just correlate things without any clear causal tie, so that maybe only your thoughts can cause one another; and secondly because even if any of your thoughts can cause another to be true, it must be itself caused to be true by a third one and this one by a fourth one and so on to infinity. I suppose you won't have the time or the patience to check all the chain, if that is possible, although one must not be a logic genius to be sure this is true: is it so?


Thoughts like this one are indeed a pain in a philosopher's mind, a true supernaturalist invasion of his fortress of beliefs he believes true. Another philosopher's advice: whenever it happens, don't fight back: there's no way to win; just ignore. Indeed a somewhat supernaturalistic solution to a supernaturalistic problem, incidentally the standard solution every self entitled rationalist gives to no matter what smells supernatural.


It must be said: not the best way to know or discover things. For though often untrue, supernaturalist assumptions aren't always so, and thus investigating its legitimate claims can enlarge naturalistic world view, in which would certainly be included a more accurate and not so mean or stupid supernaturalism profile. Do you believe it? If not, it's OK. Just turn the page.)

quinta-feira, julho 18, 2013

Disagreeable mind [Desagradável mente]

I'd rather say that the mind is a very strange environment inside the world and like others produces odd species from no matter what it takes from its surroundings. Notwithstanding, it's as a worldly object as anything else. And has a perhaps standard feature: it doesn't deal very well with diversity, although has to endure some, and frequently punishes its owners when they try to overwhelm it with myriads of entities scattered around its empty shelves... :)

[Eu diria que a mente é um ambiente muito estranho dentro do mundo e como outros produz espécies estranhas de não importa o que toma de seus arredores. Nada obstante é objeto mundano como qualquer outro. E tem uma característica, talvez, padrão: não lida muito bem com a diversidade, embora tenha de suportar alguma, freqüentemente castigando os seus donos quando eles tentam sobrecarregá-la com miríades de entidades espalhadas em torno de suas prateleiras vazias ... :)]

domingo, julho 07, 2013

Convite (Invitation)

Que tal se esquecessemos por um tempo as informações privilegiadas sobre o universo que profetas e santos fornecem e assim começássemos a jogar como se tivéssemos de descobrir tudo de volta, mas por conta própria, sem outra ajuda senão a nossa curiosidade, nossa habilidade de imaginar apenas o que nosso mirrado entendimento é capaz de açambarcar, além de uma boa pitada de desconfiança no que entendemos quando eventualmente estamos certos demais de havermos entendido? Trata-se apenas de um jogo, evento passageiro após o que todos retornam aos altares.

As vantagens disso? Decerto não muito se comparadas à contínua adoração do eterno e incompreensível ser e à apreciação do que os seus intercessores nos fazem conhecer do que intenta. Mas vez por outra coisas interessantes podem ocorrer, como foi o aparecimento da roda, do ancinho, da lamparina, das edificações, estradas e tudo quanto sirva talvez às nossas vaidade e preguiça somente.

E então? Vamos jogar?

(What if we forget for a while the inside information about the universe that prophets and saints provide and so we start to play as if we had to figure it all back, but on our own, without other help than our curiosity, our ability to imagine just what our shrunken understanding is able to take possession, and a good pinch of distrust in what we understand when we are eventually too sure that we have understood? It's just a game, a passing event after which everyone returns to the altars.

The advantages of this? Certainly not much as compared to the continuous worship of the eternal and incomprehensible being and to the enjoyment of that which its intercessors make us know of its intents. But occasionally interesting things may occur, as was the appearance of the wheel, the rake, the lamp, the buildings, roads and all that might serve to our vanity and laziness only.

So? Let's play?)



Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License