domingo, fevereiro 22, 2009

Darwin, pecador

Darwin não soube em que se metia. Avaliou mal as conseqüências de sua hipótese. No seu rastro vieram a selvageria esclarecida dos mercados, a eugenia e argumentos capciosos justificando o racismo. À exceção da entropia, tudo parece evoluir no mundo feliz dos seres superiores.

Apesar de todo o cuidado, toda a parcimônia por que pautou sua existência, não pôde evitar certas conclusões. Sabe-se lá como no fim da vida justificava para si próprio a postura anti-escravidão de sua juventude!

Seu pecado, entretanto, não foi exclusivo, tampouco inédito. Toda uma civilização cantava e ainda canta a igualdade de ’progresso’, ’aperfeiçoamento’ e ’evolução’, nada obstante tenha sempre sabido que doenças e outros malefícios também progridem ou evoluem e mesmo se aperfeiçoam.

Fora decerto melhor se seguisse os antigos chineses e um conhecido químico francês, dizendo: tudo se transforma. Mas enquanto homem deixou prevalecer a vaidade e enquanto europeu a cor da própria pele. Esqueceu-se de ser nossa superioridade semelhante à das abelhas e formigas e de que abandonados e solitários na natureza virgem poucos de nós sobreviveriam.

É verdade, sim, entendemos ou procuramos entender o mundo, exercemos um falar complexo e produzimos livros. Em que, entretanto, isto nos tem ajudado a escapar da sina comum a toda forma de vida?

Resultado: nem mesmo chegamos a ver-nos sós na mata ou escaldados no deserto e a menos de duzentos anos de sua morte já contávamos com progressiva escassez de recursos provocada por um mercado inteirado de ser ele também uma força da natureza, devendo por conseguinte obedecer-lhe as leis, essas mesmas cuja ação teria posto o homem no topo da escala evolutiva.

Isto para nos darmos conta do quão perigoso é o uso dos conceitos. Como na aplicação da matemática, é suficiente um sinal a menos, um ponto fora do lugar para mudar a rota de uma nave ou pôr uma casa no chão.

A despeito dos tropeços, no entanto, proporcionou-nos - em parceria com muitos de seus contemporâneos, não esqueçamos - a abertura de uma porta efetivamente dando para paisagem compreensível e ampla, sulcada de caminhos que, decerto por milagre, dão voltas, voltas e mais voltas antes de darem no precipício além do qual, dizem, para sempre espera Deus.

Rio, 22 de fevereiro de 2009

Waldemar M. Reis

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