domingo, fevereiro 02, 2014

Um experimento possível

Um computador certamente facilitará o trabalho e, claro, obviará a conclusão.

Tome-se uma pintura figurativa qualquer, de preferência de bom autor, um dos clássicos, e escolha-se não importa qual área dentro dela, desde que suficientemente pequena. Apliquem-se aí sucessivas lentes de aumento de modo a tornar visíveis os regurgitos da cor, seu revolvimento em prol de sugerir ao olho a realidade aplainada, sem arestas ou ruído. Não duvido de que com frequência se encontrem, sem muita obstinação, na repetição do processo sobre áreas diferentes, um Braque, um Picasso, o Nu Descendo Escadas, um Mondrian tardio ou, no mínimo, veementes sugestôes disso.

Bem, longe de propor algum desvalor da arte mais recente, a técnica proposta estaria mostrando a capacidade que temos de dar com o belo nos locais mais inusitados, como as entranhas das coisas, por exemplo.

sábado, novembro 23, 2013

Além do 'sou', só mesmo o infinito

Não é de hoje que convivemos com a ideia de infinito. Se quisermos uma imagem bem ao estilo cartesiano, digamos que nascemos com ela plantada na imaginação. Tratar-se-ia, portanto, de convivência forçosa, mas também forçada. Forçada porque não parece condizer com nada do que de imediato acreditamos encontrar à nossa volta, já que tudo parece terminar - e começar - em outra coisa, tudo parece ter um fim - e um começo - em algo, em miúdos, tudo é finito, ou assim parece, estando assim sujeito ao que, para a capacidade que temos de idear, é requisito primeiro, ou seja, ser definido, ter definição.

Então, ora, reconheçamos, 'infinito' é ideia e, por conseguinte, é pressuposto ser definida: há definição de 'infinito', sabemos. No entanto, acredito, 'infinito' define-se pelo que não se define o restante das coisas, por negação, ou como aquilo que, contrariamente a tudo mais, não possui fim (seja lá o que isso signifique, ajuntemos). Mas de momento em que o queremos ter presente no espírito como podemos fazer com a ideia de uma caixa ou de sua abstração em um cubo, por exemplo, bem, nesse momento o infinito se furta a nos exibir - digamos - suas 'bordas', como as exibem os outros dois objetos, a não ser assinalando-o como aquilo que, contrariamente a tudo mais, não as possui, enfim, assinalando-o negativamente.

Mas nem todo infinito parece arrancar-nos o mesmo estranhamento. Sim, admitamos, há mais de um infinito, ou melhor, há uma só ideia de infinito, mas que insistimos em aplicar a - ou a associar com - diversos objetos, ou melhor ainda, essa ideia única de infinito parece ser propriedade de tais objetos, como, por exemplo, o tempo e o espaço.

Em termos de tempo, no caso, toleramos muito bem a ideia de um infinito futuro que, embora inconcebível como qualquer infinito, está em ressonância com a ideia de imortalidade, estando esta última, por sua vez, em relação direta com a compulsão de sobreviver - ou, mais simplesmente, de durar - que parece ser propriedade essencial de tudo quanto vive. Talvez isto, enfim, explique a nossa capacidade ímpar de não nos inquietar a eternidade futura, não, pelo menos, como nos inquieta a eternidade no passado.

Este outro infinito - que mui justificadamente compõe um só com o anterior - causa espécie, acredito, também por motivo especial: tudo à nossa volta parece derivar de outra coisa, digo, tudo parece ter um começo algures, num dado instante. Desse modo, se desnecessário sentimos ser pôr termo no futuro (por uma questão de sobrevivência, como se supôs acima),  o viés é diferente quando sob o olhar está o passado: tem de ter havido um começo.

Neste ponto estou com Feuerbach, que reconhece a ideia de Deus como explicação única e possível para o quanto sobre quê não temos poder (ou para o au delà de nossa potência), e em boa medida com Descartes, quando afirmou termos nascido com essa solução no espírito. A ideia de Deus é posta aí, onde sempre a pusemos, de modo a tolerarmos a questão da origem, em sentido absoluto, das coisas: das coisas em geral, mas não de Deus. Nada mais evidente: se Deus aí está para dar sentido à ideia de começo de tudo, pouco - ou nenhum - sentido parece haver em lhe questionar também a origem. Sim, porque isto seria continuar no problema ou transferi-lo para o que trouxemos em vista de o solucionar.

Poucos ateus o compreendem, mas a ideia inata de Deus tem por fim proteger-nos da vertigem de mover-nos em imaginação - ou mesmo dedutivamente - para quaisquer lonjuras no passado sem esperança de lhe encontrarmos o fim, digo, o começo. Por isso os dogmas, que funcionam, a rigor, como quaisquer postulados ou axiomas que, por seus lados também, protegem-nos de incompreender os números: são todos, dogmas e axiomas, fundamentos sobre os quais se apóiam ideias como a de Deus e a de numerar, não podendo ou não devendo ser, por conseguinte, questionados, investigados, mesmo porque assim agindo se chegaria, em tese, a nada, a outros deles ou a eles mesmos, dogmas e axiomas.

Deus, portanto, não deve - ou não pode - ter tido um começo tanto quanto o ponto não pode - ou não deve - ter alguma dimensão. Ir além disto, digo, demonstrar o que seria não possuir começo ou dimensão, é submeter-se a linha diversa de paradoxos: num caso é preciso supor, por exemplo, que Deus não está no - ou submetido ao - tempo (que seria, naturalmente e como tudo mais, criação Sua); no outro caso, a demonstração indireta de que dois pontos contíguos, e sem dimensão, portanto, formam algo que, por seu turno, tem dimensão, a saber, um segmento de reta, leva à admissão de que o círculo deve ser composto de minúsculos segmentos de reta, incontáveis, provavelmente, sendo por conseguinte um polígono (como de fato é considerado). Mas o que viria a ser algo insubmisso ao tempo ou que tem infinitos (não seriam só incontáveis?) lados e possui, entretanto, forma acabada, finita (por assim dizer)? Bem, coisas semelhantes não podem sem problemas ser pensadas.

Ingênuo, entretanto, é quem pensa que o infinito nos acossa somente em temas como estes. Em aula de física experimental, há coisa de quarenta anos, deparei com um desses abismos bem à minha mão, diante de meus próprios olhos: medíamos o comprimento de uma prosaica barra de metal e nos exigiam a máxima precisão possível, haja ver nos proverem de tudo quanto à época parecia estar disponível para esse gênero de acurácia, como o micrômetro, por exemplo. Para encurtamento da história, tivemos de medir até as marcas finas feitas com o lápis e, nada obstante, uma lente razoavelmente potente mostrava-nos sobrar alguma coisa, sempre.

O que sugiro aqui? Bem, que talvez estejamos - por motivo que, se me peguntarem qual, não saberia dizer - estejamos talvez, dizia, considerando tudo pelo lado menos adequado: é possível que a única coisa com que temos contato direto - além, naturalmente, do 'sou, logo existo' - seja o infinito, não a finitude, e sabe-se lá por que temos preferido, uma vez mais, a fantasia à realidade.

sexta-feira, agosto 16, 2013

Do real na arte

Num contexto como o da nossa cultura uma obra de arte como a literária, por exemplo, não pode ter por significado nada da realidade, ainda que seja classificada como 'realista'. Fora o contrário, seria classificável como obra científica, embora muito provavelmente inverificável e falsa. Pois mesmo existindo pessoas, cidades, animais, bairros, cadeiras, cortinas, casas, anéis, casacas, nada disso é pressuposto existir ou ter existido para que tenha sentido a obra. É evidente, é necessário saber do que se trata cada um dos objetos que a compõem e, caso não conte o autor com o prévio conhecimento que deles tem o leitor, é provável se empenhar em descrevê-los um a um. Assim é que o real não passa de tijolo no interior da obra, elemento com que se tece o sentido intrínseco desta: aliás, o real e o imaginado, segundo os descreva o autor. E assim é que enquanto a ciência procura recriar o mundo em miúdos, a arte - toda e qualquer - se apropria dos elementos deste para criar um mundo à parte e só quando se sai do transe do apreciá-la é possível inteirar-se de que, afinal, não passava de igualmente uma coisa real entre as demais. E sim, é possível que o maior serviço prestado pela arte seja treinar ou habilitar a apreciação a perceber o mundo como arte ou, dizendo-o de outra forma, a demonstrar que o mundo é passível do mesmo tipo de apreciação.

sábado, julho 20, 2013

Para assegurar-nos de que não é assegurado (To ensure us that it is not assured)

O sistema de Berkeley tenta mostrar o quão benevolente é Deus por 'falsificar' para nós o mundo, sem o que a nossa convivência com Ele seria certamente insustentável. Ele simplesmente não pode ser seu amigo, não, pelo menos, da maneira que você pensa ou deseja. Por fim, deixe-O estar e aprecie o que você vê.

Em geral, os fenômenos descritos pelo sobrenaturalismo merecem menos ser estudados pela ciência do que quem os descreve e neles acredita.

O sobrenaturalismo tenta fazer o que a ciência faz: descrever o mundo. Portanto, seria errôneo, se não malévolo, não chamá-lo de conhecimento. Malévolo porque às vezes é feito de boa-fé e errôneo porque muitas vezes é falso, equivocado, enganoso, mas ainda conhecimento.

Talvez o fracasso mais marcante do sobrenaturalismo seja contar com hipóteses improváveis antes de esgotar as verificáveis, um problema vez ou outra acossando a ciência quando seus praticantes perdem a paciência necessária para testar, assim crescendo (ou diminuindo) em imaginação. Um bom exemplo disto é o dualismo de Descartes, uma doutrina incapaz de explicar como a substância pensante que postula se liga à matéria. E quem pensa que isto é apenas história está absolutamente errado.

Mas não, Berkeley não é um sobrenaturalista. Ele apenas mostrou como delírios podem ser postos de modo a não poderem sequer ser submetidos a testes, como os delírios são uma característica marcante nossa e como, no entanto duvidando do que supomos saber, nunca vamos ter certeza de qualquer conhecimento. Por exemplo - e essa observação não é minha, mas de um astrônomo : e se todo conhecimento é fruto do acaso, um acaso que até mesmo os nossos cálculos mais precisos não são capazes de estimar? Desnecessário dizer, você nunca vai ter certeza de se o que eu estou dizendo aqui é verdade.



Por que? Bem, primeiro, porque isso que você pensa do que estou dizendo, seja o que for, é suposto estar em sua cabeça, enquanto o que estou dizendo está aqui, duas coisas, diferentes, apenas correlatas, sem qualquer ligação causal, daí que porventura só os seus pensamentos podem causar uns aos outros; e, segundo, porque mesmo que algum de seus pensamentos possa causar a verdade de outro, ele tem de ter sua verdade causada por um terceiro pensamento, este por um quarto e assim ao infinito. Imagino que você não terá o tempo nem a paciência de verificar toda essa cadeia, caso fosse possível, embora não seja preciso ser um gênio da lógica para ter certeza de que tal é verdade: não é assim?


Pensamentos como aquele são com efeito um espinho na cabeça de um filósofo, verdadera invasão sobrenaturalista às crenças que ele cria verdadeiras. Conselho de outro filósofo: sempre que isto acontecer, não revide: não há como vencer; apenas ignore. Certamente uma solução um tanto sobrenaturalística para um problema sobrenaturalístico, por acaso o padrão de solução dada por todo autointitulado racionalista para seja o que lhe cheire a sobrenatural.

Necessário dizer, essa não é a melhor maneira de conhecer ou descobrir coisas. Pois embora frequentemente falsas, as assunções sobrenaturalistas nem sempre o são, e assim a investigação do que legitimamente alegam pode alargar a cosmovisão naturalística, que por certo  incluiria um perfil mais acurado, não tão mau ou estúpido, do sobrenaturalismo. Você acredita? Caso não, tudo bem. Basta virar a página.


(Berkeley’s system tries to show how God is benevolent by 'faking' for us the world, without which our acquaintanceship with Him would be surely untenable. He just can't be your pal, at least not in the way you think or desire. Ultimately, let Him be and enjoy what you see.

In general, phenomena described by supernaturalism deserve less be studied by science than who describes and believes in them.

Supernaturalism tries to do what science does: describe the world. So, it would be erroneous, if not malevolent, not to call it knowledge. Malevolent because sometimes it is done in good faith, and erroneous because it is often faked, mistaken, misleading, but is still knowledge.

Perhaps supernaturalism's most striking failure is to rely on improbable hypotheses before exhausting testable ones, a problem that every now and then harasses science when its practitioners lose the necessary patience to test, thus growing (or shrinking) in imagination. A good example of this is Descartes dualism, a doctrine unable to explain how the thinking substance it postulates is linked to matter. And who thinks this is just History is dead wrong.

But no, Berkeley is not a supernaturalist. He just showed how delusions can be put so that they can't even be submitted to tests, how delusions are a remarkable feature of ours and how, however doubting what we suppose we know, we'll never be sure of any knowledge. For instance - and this observation is not mine, but an astronomer's: what if all knowledge is due to chance, a chance that even our most accurate calculations aren't able to estimate? Needless to say, you won't ever be sure if what I'm saying here is true.


Why? Well, first of all, because whatever you think about what I'm saying is assumed to be inside your head, while what I'm saying here is here, two different, just correlate things without any clear causal tie, so that maybe only your thoughts can cause one another; and secondly because even if any of your thoughts can cause another to be true, it must be itself caused to be true by a third one and this one by a fourth one and so on to infinity. I suppose you won't have the time or the patience to check all the chain, if that is possible, although one must not be a logic genius to be sure this is true: is it so?


Thoughts like this one are indeed a pain in a philosopher's mind, a true supernaturalist invasion of his fortress of beliefs he believes true. Another philosopher's advice: whenever it happens, don't fight back: there's no way to win; just ignore. Indeed a somewhat supernaturalistic solution to a supernaturalistic problem, incidentally the standard solution every self entitled rationalist gives to no matter what smells supernatural.


It must be said: not the best way to know or discover things. For though often untrue, supernaturalist assumptions aren't always so, and thus investigating its legitimate claims can enlarge naturalistic world view, in which would certainly be included a more accurate and not so mean or stupid supernaturalism profile. Do you believe it? If not, it's OK. Just turn the page.)

sábado, julho 06, 2013

Em que tem de crer

Sim, crê num deus. Não tem escolha sempre que se inteira de ter vindo de alguém e de que estes vieram, por sua vez, de outrem; sempre que se inteira de que tudo parece vir de outra coisa, sem exceção. Em vista disto, arrisca supor que o mundo, em sendo coisas saídas de outras, em algum tempo possuiu coisas primeiras, as quais não foi capaz de imaginar incriadas: assim, visando talvez e somente dissimular para si essa incapacidade, supõe um criador dessas primeiras coisas, mas apenas para se dar conta de agora estar nele a sua ignorância do princípio de tudo. E percebendo que alimentar semelhantes suposições é trilhar caminho sem termo, alentar vertigem sem cura, contenta-se com acreditar ser esse o primeiro a ter criado, o deus.

E então apareces, acoimando-o por achar que o deus em que crê - em que teve de crer - é diferente desse em que crês e que alegas ser único. E lhe demonstras tal singularidade pelos mesmos passos que deu para encontrar esse em que, para conforto de sua ignorância das coisas, teve de crer. E, ora, fossem ainda distintos dos seus os passos que destes para encontrar o teu, é incompreensível que o condenes: pois ou falam do mesmo indivíduo, ou ele não é como o afirmas, único.

No mais, a despeito de tentado, esquiva-se de imaginá-lo como seja para além da unicidade, idéia que acata, embora não veja o por que de a criação não ser obra de muitos: conceber um só, entretanto, é ao menos medida da forçosa economia de uma mente inábil, como a que tem, para com mistérios dessa monta. Dizer mais é enveredar por idéias de que não dá conta, algumas de cujas conclusões, inclusive, desmerecedoras da obra e de quem a fez. Sequer pode mesmo afirmar que não passa esse deus de uma idéia, visto ter sido capaz de conceber um sem número de coisas cujos pares no mundo já deparou e outras que permanecem ímpares. Contenta-se, então, com achar que, se existe, não quer ser conhecido para lá da intuição de que criou e, se proclamou leis, fê-las perceptíveis sem necessidade haver de ser invocado, compreensíveis do próprio entretecer das  coisas. Contenta-se também com se inteirar de teus avanços sobre a natureza divina, não os acatando, no entanto, e espera não vejas nisso igualmente motivo para estranhamento, salvo tenhas gosto por continuar contrariando o que tu próprio afirmas, como dela teres intuído, entre tantas preciosas coisas, a compreensão, a compaixão, a misericórdia.

quinta-feira, maio 02, 2013

Por que não se descreve

Antes de mais, por não ter a mínima noção de quem seja, coisa que a esmagadora totalidade dos homens crê - ou finge crer - em contrário: em seus auto-retratos figuram sempre como bons ou como se possuindo uma boa razão para o mal existindo em si  (que admitem ser pouco) - esquecendo-se de que por natureza se é bom, a despeito do quanto disso decorra. É evidente, tais representações buscam produzir alguma analogia com os retratados, embora delas resultem dois tipos únicos: o dos bons e o dos justificados. Desnecessário dizer que é mais difícil reconhecer quem posou para as do primeiro do que para as do segundo tipo, ao fim aparecendo todos, sem exceção, como um indivíduo só e uma tênue variação deste. Sem exceção enganam-se, embora cada qual acredite enganar somente aos demais.

Irônico perceber como em poucos pensamentos, acreditando ser impossível ou vão descrever-se, lhe apareciam - como se por absurdo - ao menos dois traços distintivos próprios, exclusivos: o desconhecimento de si, decorrente da incapacidade de admitir-se como realmente é, e a surpreendente sinceridade do saber - e do tolerar esse saber - que todo o tempo se engana, que é hipócrita para consigo, sendo essa, em tese, a verdadeira, a única descrição de um indivíduo por si mesmo, algo como o desdobramento lúcido do 'cogito': sei que sei o que não sou. Lúcido por apontar um conteúdo palpável (a própria singularidade) para o que sabe - pois dizer 'sou quem sabe' ou 'sou porque sei', convenhamos, não é dizer muito: sou quem finge saber quem sou e sei disso - o que na fórmula falta em elegância, sobra em acuidade.

domingo, abril 28, 2013

Por que tem de estar só.

Porque, ora, já lhe basta carregar a própria hipocrisia, a própria impotência para se tornar o indivíduo melhor que entende dever ser. Já lhe basta o incômodo permanente de não encontrar o que as justifique. Daí então a tolerar quem acredita ter as mais justas razões para conservar-se hipócrita e para sequer tentar tornar-se indivíduo melhor, está seguro de o entenderem quando afirma ser isto demais para uma sensibilidade combalida como a sua.

quarta-feira, abril 10, 2013

Penso, logo,...

...  desisto. Há quem não creia, mas essa é uma das convicções com freqüência atribuídas ao chamado espírito prático. Nesse contexto indica de hábito a ineficácia do pensamento quando uma outra ação é requerida - em geral em caráter de urgência - na solução de seja o que for. Aqui pensar confina com postergar e, em fim de contas, com inação, inércia. Para esse espírito o pensamento é usado em vetar a quem dele se vale o acesso à oportunidade e, embora pareça inverossímil, é a um raciocínio - ao pensar, portanto - que deve esse juízo, e cujas linhas gerais podem escrever-se: ora, nem todo ato dá com a oportunidade, seja ou não seja ele determinado pelo pensamento, tornando-se assim irrelevante para o sucesso de uma ação que se a preceda de ponderá-la.

E que se imbua de tolerância para com o espírito prático o espírito mais tendido a ponderar, uma vez que parece aquele encontrar apoio para sua tese na irretorquível ciência, segundo a qual, se bem entendi, os membros do nosso corpo estão habilitados a atuar também de modo autônomo, ou seja, sem o concurso do órgão a que presentemente atribuímos o papel de pensar, o cérebro. (A maior compreensão dessa descoberta, é de temer, deverá de futuro ter importância crucial no que há de passar em julgado, se já não a tem, servindo-nos inclusive para melhor compreender a sabedoria judicial antiga, cujas sentenças capitais vez por outra referiam, em lugar de indivíduos, partes destes, as que de certo cometeram  - e quiçá à revelia - os crimes de que os acusavam.)

Mas além da vetusta ciência - que, como a entendemos hoje, nem é tão idosa assim - há também fator quiçá mais incisivo no veredito favorável à ação imediata, fator esse alçado a posição das mais influentes no quotidiano das gentes, a saber, o tempo. Não seria de surpreender se uma enquete criteriosa acerca do que isto de fato seja ou representa para quem dele fala - o que, no caso do tempo, parece em princípio ser o mesmo - no-lo definisse como aquilo que a todos falta ou, no mínimo, como o que temos todos muito pouco à disposição. E aqui ao espírito ponderador poderia seduzir a possibilidade de interpretar esse resultado como apenas exprimindo a consciência de ser transitório o indivíduo, da qual, crê, nem o mais radical espírito prático seria capaz de isentar-se. Já este tenderia a rir-se de tão singela interpretação, uma vez que, embora a contragosto, incessantemente pensa, é evidente, como qualquer um (não o pode evitar), e assim a tem por lugar comum, não o preocupando senão o quanto lhe é possível obter, realizar, com o pouco que lhe falta até deixar de existir. E desse pouco, por pouco ser para tantos, lamenta ele, justificando-se, ainda há quem lhe tire porção, disto lhe sobrando o bastante para que jamais cogite de investi-lo no pensar, pelo qual se arriscaria inclusive a convencer-se da inutilidade ou inoportunidade de reaver o que lhe tomaram e mesmo da indignidade de fazer igual a quem seja.

Por essa e outras razões é possível cogitar para o espírito prático uma variação do seu seu lema, que por praticidade manteria sua estrutura sintática e mesmo os termos iniciais, substituindo apenas o último por 'resisto'. O sentido final permanece aqui inalterado, sendo bastante perguntar a quem o professa de que desiste ou a que resiste quando se põe a pensar, apenas para o conhecer em toda a sua prática ambigüidade: ora, diria,  quando se pensa  desiste-se de - ou resiste-se a - agir de imediato tanto quanto pensar mesmo esse agir, uma vez que é aconselhável desistir de ponderar uma ação - ou resistir a pensá-la de antemão - caso não se queira, inclusive, desistir da oportunidade - ou caso não se queira resistir a realizá-la.

Neste ponto sorri o espírito ponderoso, um sorriso que lhe é próprio, algo búdico, compassivo, mas que não esconde ironia fina. Seja talvez essa a única maneira de chamar ao espírito prático a atenção para si antes de este desembestar na atitude a que mais recorre, seguir em frente. É que, como é de adivinhar, tem algo a dizer do raciocínio que supõe o espírito prático justificar o seu modo de agir. E assim  é que este, um tanto a contragosto, posterga sua ação preferida para inteirar-se de que, ora, se o ponderar não garante em absoluto o sucesso no agir, melhor fosse, quiçá, não agir de todo, deixando ao mundo, em si ativo, agir sobre si, sujeito; enfim, deixando ao acaso o que ao acaso já está. Mais: em se contando ser o pensamento igualmente ação, algo de que o espírito prático parece esquecido, que se desista então de - ou resista a - pensar de todo, inclusive, sugere o espírito ponderoso, certo, entretanto, de ser tal impraticável por quem seja - e isto diz com um rabo do olho para o autointitulado espírito meditativo, em lótus e que com costumeira maestria não dá mostras do que for, como se, com efeito, fosse o único em suceder à interrupção do fluxo pensante, como alega repetidamente após esses transes (e quanto a isso o espírito ponderoso nada tem a dizer, cônscio de ser tema por inteiro alheio ao escrutínio de sua razão, uma vez ter jamais sucedido em livrar-se dela ou de qualquer outro tipo possível de pensamento - a despeito de insistentemente instruído pelo meditador - e, naturalmente, por lhe ser intangível a experiência privada desse instrutor, contentando-se portanto com tão-só ouvi-lo). E é desse modo, em pleno gozo de sua impotência para recusar a própria capacidade pensante,  que o espírito ponderador pontua, finalizando: penso, sim, logo, insisto.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Porém todos são perdoados

O problema dos que não crêem na existência de Deus - ou dos que dela duvidam - não é Deus ele mesmo, mas o homem. Pois se em parte é como o descrevem os que nele crêem, saberá compreender os motivos da descrença ou da dúvida que, como tudo mais, seriam obra sua.

Já quanto aos que crêem, o problema é mais sério. Qualquer um se aborreceria com ver-se pintado de forma tão desconexa, em que cada traço bom se transmuta em incontáveis reconhecidamente duvidosos ou maus, como o dizer, entre outras coisas, que é onisciente (presciente), onipresente, de bondade infinita, e irresponsavelmente tolera - permite - o erro, o mal, em nome de algo como o livre-arbítrio (cuja existência sequer se provou). Nenhuma infinita misericórdia, é de imaginar, seria capaz de compreender semelhante disparate: pois se não se sabe como algo é, ora, que nada a respeito se diga. Entretanto, até isso, ainda que não o tenha criado diretamente, teria ele de, ao fim, perdoar, pois por certo advém do que criou.

quinta-feira, maio 31, 2012

Em defesa da propriedade

Ao contrário do que pode sugerir o título, estas notas não se propõem refutar Proudhon, mas tampouco endossá-lo. A rigor sua afirmação (« La propriété, c'est le vol ! »), categórica e universal, é de per si falsa, pois parece evidente existir objeto cuja propriedade não envolve roubo, como o corpo original de um indivíduo, relativamente a esse indivíduo mesmo: à primeira vista um truísmo, na prática o exemplo é, entretanto, tratado com reserva, a qual não põe sub suspeita a legalidade dessa apropriação, naturalmente, mas sua condição mesma de propriedade no sentido integral, assim como intuitivamente é entendida, ou seja, algo sobre que tem o proprietário inteiro poder. Em grande parte das circunstâncias o corpo é tratado como propriedade, como quando não se permite que outrem o viole sem se expor a sanções: isto, entretanto, se aplica também a quem o possui. Desse viés o corpo se assemelha ao dinheiro, ou seja, à moeda que, decerto por ser propriedade do Estado (ou conjunto dos cidadãos), não pode ser publicamente destruído, pertencendo a quem o porta somente o seu valor, o qual, por seu turno, é passível das mais variadas formas de dilapidação, a maior parte delas - convenhamos, de passagem - sem castigo previsto em lei. Corpo e moeda, portanto, parecem ser as únicas exceções à intuição do que seja possuir por inteiro alguma coisa: a norma concede aos seus proprietários - se assim se os pode chamar - o fructus e o usus, mas não o abusus. Diferem, é claro, em diversos outros aspectos, mas em particular, concernente a estas notas, em que a posse de uma pode ser fruto de roubo, enquanto a do o outro, não (é claro, por motivos óbvios desconsiderando-se aqui os recentes avanços da medicina e a ancestral prática da escravidão).

Em seu sentido literal, então, a fórmula proudhoniana não carece de contestação, por falseá-la a existência de pelo menos um exemplo, esse que lhe nega a universalidade: em condições normais, pelo menos, se de fato distinto do indivídiuo que o possui, o corpo não lhe pertence como resultado de roubo, isso bastando para invalidá-la (e é provável que não somente este exemplo o faça). Contextualizada, entretanto, como figura de retórica, é perfeita na emulação do repúdio às desigualdades na distribuição de bens no mundo, sentimento predominando - é provável - entre os quanto se sentem desfavorecidos nessa partilha. Como é notório, desnecessário também é endossá-la, sendo bastante para quem duvide do seu valor retórico pôr-se onde muitos foram a contragosto parar e, claro, desde que não o faça como renunciado: se de demonstração dificultosa em termos argumentativos, a validade retórica da afirmação de Proudhon parece evidenciar-se na experiência.

Creio não ser preciso professar alguém o socialismo para dar-se conta de semelhante desequilíbrio cujas vítimas em aparência não merecem o ser. Um cristão, por exemplo, parece o perceber em sua inteireza, agudeza, mas como em tese faz profissão de tolerar, quando muito se permite acudir os desfavorecidos, quando não a com eles compartilhar o prejuízo. Mas, como é possível perceber (e o primeiro parágrafo nestas notas dá uma pequena mostra do fato), definir o que seja propriedade é tarefa para cartapácios cujas conclusões oscilarão para sempre entre o imponderável e o incompreensível. Aliás, como boa parte - quiçá a totalidade - do quanto é passível de definição (se é que se entende o que seja definir, diga-se, "estabelecer limites" - como sentencia um dicionário - para as coisas).

Valha, por conseguinte, para estas notas a intuição vaga que se tem do possuir seja o que for, convicta o bastante, porém, para desencadear e justificar a maior parte dos atos - se não todos eles - na sociedade dos homens. O que importa aqui não é discutir conceitos, não exatamente, mas propor um levantamento, do qual não parece haver ainda notícia, ou melhor, supondo-se que de fato ele inexista, propõem-se estas notas desafiar os recenseadores desse gênero de dados a empreendê-lo, se possível com urgência. Trata-se de estabelecer o mais exatamente possível e em termos de trabalho e valor a elas associados a proporção entre propriedade e proteção da mesma. Em outros termos, trata-se de saber o quanto se despende em defesa da propriedade, distinguindo-se ao menos duas classes de riscos aos quais está sujeita: decorrentes do tempo (que, segundo o ditado, é pai e carrasco), e da alienação (ou transferência, apropriação) indébita.

A idéia de desafio parece adequada em vista do quanto se exige para sequer iniciar o empreendimento e que se enumera nas duas frases anteriores. Ao menos um critério a mais, distinto e mandatório, se ajunta aos anteriores: a delimitação dos dois domínios, o da propriedade e o do que a protege, visto em maioria - seriam todos? - os meios de proteção serem igualmente propriedades. Se outros critérios, diferentes, não se agregam à lista, haverá por certo uns quantos - de observação igualmente difícil - cuja decorrência desses poucos é pressuposta: por exemplo, tomando-se por muito provável e natural que os instrumentos de proteção sejam em maioria propriedades também, mostra-se procedente investigar a existência de proteções sem proprietário (que não pertençam sequer à coletividade) e, caso existam, a demonstração do seu papel nesse balanço; o modo de a defesa interferir no valor do que é defendido; o custo e a quantidade de cada tipo de proteção segundo as classes de ameaças à propriedade (decorrentes do tempo e da apropriação indébita); o custo das sanções às apropriações indébitas etc. É evidente que o maior peso nesse levantamento se dará à classe de instrumentos destinados a proteger contra a apropriação indébita e - é fundamental mencioná-lo - um seu primo-irmão, o dano intencional (o não intencional se alinharia àqueles decorrentes do tempo).

O tema, em sua simplicidade (e, é possível, em sua idiotice), evidencia-se nos detalhes mínimos do dia-a-dia, dos noticiosos às grades nos condomínios, no mundo digital. Atiça a curiosidade a percepção do volume e da relativa transitoriedade da proteção (pois perde o valor ao perder a função, tendo de substituir-se imediatamente). A impressão é a de que o balanço final nesse levantamento seja escandaloso, bem como ridículo, cômico, com o investimento em proteção - em especial contra roubos e estragos intencionais - superando em muito o valor da propriedade. Assim, se Proudhon e outros demonstraram - ao menos da perspectiva dos desfavorecidos na partilha de bens - a inaturalidade do direito construído à volta da propriedade (assim como viemos desejando-a enquanto comunidade), é provável que o estudo aqui proposto aponte - e não apenas daquele ponto de vista - para algo pior: sua inutilidade.

sábado, março 17, 2012

Que a lógica é necessária

QUANDO um dos presentes lhe disse, Persuada-me de que a lógica é necessária, ele respondeu, Você quer que eu o prove? A resposta foi --Sim. --Então tenho de usar de demonstração. --Concedido. --Como então saberá você se eu não o engano com meu argumento? O homem permaneceu silente. Você vê, disse Epicteto, que está admitindo a necessidade da lógica, já que sem ela não se pode saber se ela própria é ou não é necessária?

Epicteto, Discursos, Livro 2, Capítulo 25
Versão da tradução de George Long


(That logic is necessary

WHEN one of those who were present said, Persuade me that logic is necessary, he replied, Do you wish me to prove this to you? The answer was—Yes.—Then I must use a demonstrative form of speech.—This was granted.— How then will you know if I am cheating you by my argument? The man was silent. Do you see, said Epictetus, that you yourself are admitting that logic is necessary, if without it you cannot know so much as this, whether logic is necessary or not necessary?

Epictetus: The Discourses: Book 2: Chapter 25
George Long, translator)

Para cristão ver

O dar a outra face, descontado o quanto de sublime daí se tirou, deveu-se por certo à circunstância e nela tenha servido talvez para pôr a nu maldade contumaz - por certo, também, inutlimente, ou não acabaria em calvário. Desse viés, foi gesto provocador, que absolve inculpando, de violência comprarável, aliás, à fúria no templo.
Perdão incondicional? É evidente que sim, mas tendo as coisas em seus devidos lugares.
Daí ser impossível que protagonista de atos tais ainda viva e "à direita do pai" aguarde incólume o "fim dos tempos" para pôr ordem na casa. Sua humanidade, em vista disto, teria sido completa, desintegrando-se como tudo mais, e a história restante, obra de loucos - eles mesmos santos, é bem provável, santos loucos, ingênuos de Deus cuja herança se confiou, entre outros, a patifes.
Tudo em nome da livre vontade: em nome de que, ora, tudo sempre se deu (como se alguma vez pudesse a vontade dar conta de concertar o mundo): para isto, então, o teriam consubstanciado: para no fim deixar ao acaso o que ao acaso sempre estivera - prova essa da inutilidade de tudo antes que da confiança no que haveria de ser (ou fé); para dar corpo e voz ao enredo que lhe urdiram os profetas, certos de assim pavimentarem o acesso dos homens à aliança, aliás, antiga, consabida e que de vontade ignoraram; e para entregar-se às atrocidades com que didaticamente ilustraram as cenas finais de sua existência, a serem emuladas e esmeradas nos mais de dois mil anos depois de as encenar, e que ensinam o que qualquer dor ensina: que depois de estancada, é o paraíso.
Acaso o único feito de sua biografia tenha sido o de servir de símbolo em torno do qual se buscaria o unânime repúdio a tudo quanto é bestial entre os homens e, se a História não mente, não terá sido o primeiro nem o último, tampouco o maior, embora exemplo dos mais visíveis do que à brutalidade  é possível. O que vem mesmo a ser o cristianismo?

CRISTO EN LA CRUZ

Cristo en la cruz. Los pies tocan la tierra.
Los tres maderos son de igual altura.
Cristo no está en el medio. Es el tercero.
La negra barba pende sobre el pecho.
El rostro no es el rostro de las láminas.
Es áspero y judío.
No lo veo
y seguiré buscándolo hasta el día
último de mis pasos por la tierra.

El hombre quebrantado sufre y calla.
La corona de espinas lo lastima.
No lo alcanza la befa de la plebe
que ha visto su agonía tantas veces.
La suya o la de otro. Da lo mismo.
Cristo en la cruz. Desordenadamente
piensa en el reino que tal vez lo espera,
piensa en una mujer que no fue suya.
No le está dado ver la teología,
la indescifrable Trinidad, los gnósticos,
las catedrales, la navaja de Occam,
la púrpura, la mitra, la liturgia,
la conversión de Guthrum por la espada,
la Inquisición, la sangre de los mártires,
las atroces Cruzadas, Juana de Arco,
el Vaticano que bendice ejércitos.

Sabe que no es un dios y que es un hombre
que muere con el día.
No le importa.
Le importa el duro hierro de los clavos.
No es un romano. No es un griego. Gime.
Nos ha dejado espléndidas metáforas
y
una doctrina del perdón que puede
anular el pasado.
(Esa sentencia
la escribió un irlandés en una cárcel.)
El alma busca el fin, apresurada.
Ha oscurecido un poco. Ya se ha muerto.
Anda una mosca por la carne quieta.
¿De qué puede servirme que aquel hombre
haya sufrido, si yo sufro ahora?
(Jorge Luis Borges)

quarta-feira, março 07, 2012

Se a escutassem Castillo e Sábato

A voz. Há embargo nela, perceptível somente quando a atenção não se exila no que diz - os sonhos, o oriente, a fábula celta, um oráculo, o mesmo crepúsculo, uma peleja - e que recorta com precisão da massa informe que é o mundo, justo com os instrumentos que usam os demais para extrair das próprias peles o mero sangue, as inúteis entranhas. O embargo é o cuidado e o vagar com que escolhe as palavras (que o prolongam indefinidamente), mostrando os motivos que - acaso permitisse - teria para chorar. Nunca o faz; jamais lhe encontro lágrima a induzir outras em quem a escuta, embora aqui e ali alguém deixe alguma escapar e mesmo não contenha um soluço - sinais de haver atinado para o embargo sem o observar. Pois  é vã a penitência, sugere o embargo, exceto a que imputa o existir (e que não nos merece ênfase), cabendo ao dizer nada além do apontar seja o que for, inclusive ele mesmo, conjugando-o, reencenando sem pausa o assombro, que se indefine por ser inato e prenuncia o incerto prazer.

domingo, março 04, 2012

Por punição, a recompensa

A Marcos Pompéia
 
Se a notícia de grilhões em ouro encantou e entreteve nos derradeiros séculos, a circunstância de terem por fim evidente a coibição não os distingue tanto de seus similares em metais mais resistentes, menos nobres, ou dos confinamentos em geral. A rigor, os princípios legais de Lugar Nenhum(1) são análogos aos que conhecemos, e apenas - talvez - mais esmaecidos, atenuados - diga-se assim - por uma compreensão maior da inutilidade e da vergonha dos atos punitivos para a sociedade que os pratica: inutilidade, por não prevenirem recidivas; vergonha, por indicarem a permanência de motivos para que crimes se cometam. Tacitamente concebemos a sociedade ideal como aquela que logra inibir infrações, não por perpétua vigilância, mas por não ensejá-las com atos consentidos. E desse viés o infrator se apresentaria qual dedo em riste para as condições impeditivas de sua natural atuação no meio, e o seu delito como exercício próprio da justiça, por assim dizer. Na comunidade ideal a contravenção é questão médica.

Não há propriamente médicos entre os Nhenhenhém. O curandeiro é presença figurativa, assim como o chefe. Mantêm-nos lá para não se distinguirem demasiado dos vizinhos, dos quais conservam cauta distância: a recíproca é verdadeira, mas são evitados, além de, igualmente, por cautela, por reverência. No mais, todos sabem safar-se das mazelas comuns e a ordem imperturbável da tribo não carece de quem medeie dissensões ou remedeie suas - por vezes - dramáticas consequências, pois inexistentes. Cumprem todos com o que lhes cabe, sem distinção de sexo ou idade, como se cada qual soubesse desde sempre do que estará incumbido. Digo 'desde sempre' por não ter atinado com o modo de dividirem as tarefas, visto serem também obstinadamente econômicos com a fala. A língua, aliás, não lhes parece instituição das mais importantes, donde o nome que lhes dão - e aceito com dignidade - sugerir pilhéria. Afirmar ou negar lhes basta, em particular ao tratar com estrangeiros; entre si, raro é trocarem palavra. Entretanto não são sisudos; sorriem pouco, é verdade, mas conservam bom humor, sempre atarefados sem darem mostra de aborrecimento ou cansaço com o que fazem.

Crianças parecem aprender por imitação; nunca sequer lhes apontam para onde se dirigirem. Em geral imiscuem jogos e brincadeiras nas tarefaz que aprendem, envolvendo inclusive os adultos. São muito acarinhadas e recebem constante atenção. Não se fica inerte entre os Nhenhenhém: ao quinto dia de chegada fui cativado por sua determinação e, de pequenas tarefas auxiliares, uma semana à frente já cumpria uma rotina. Refeições nem sempre são coletivas, salvo a noturna, que tem caráter de festim, mas frugal. Usam da bebida só até lhes soltar um pouco a língua, quando então, além de alguma conversa, cantam e contam histórias. Esporadicamente louvam ou agradecem aos deuses, isto por estarem certos de não serem estes loucos ou tolos para perseguirem ou prejudicarem por motivos vãos as únicas criaturas no mundo conscientes de eles existirem. Creem ser inata a atitude religiosa: para ela os teriam criado, sendo homenagem bastante ao Criador o estarem vivos. Assim, jamais maldizem a divindade ou sequer dela reclamam, pois para tanto nunca encontram motivos.

É de imaginar e compreender que, assumindo aqui o papel do Arauto de Disparates(2), eu ficasse tentado a contrastar com esse meu antecessor chamando esta terra e sua gente de O Bom Lugar(3) ou, ainda, O Melhor Lugar. Ao cabo de quase um ano entre eles, não havia observado sequer uma expressão, alteração da voz e mesmo atitude que me remetessem a manifestações usuais de desagravo, aborrecimento, desaprovação. Mas isto somente até presenciar comportamento exclusivo e de difícil detecção, dado entre os Nhenhenhém ser frequente a troca de gentilezas: jamais se carrega fardo sozinho, há sempre alguém para nos esfregar as costas no banho e de bom gosto servem um ao outro durante as ceias. A exclusividade da circunstância não estava nas atitudes que a compunham, mas no quanto se repetiam e um tanto na ordem em que se davam - é possível, também, que na expressividade de algum gesto, o que não notei. Só depois de testemunhá-la meia dúzia de vezes, dei-me conta de ser o correlato do que entre nós se chama 'processo judicial'. Um pouco decepcionado, tive de admitir minha ingenuidade e a impossibilidade de convivência sem regras, lei de que os Nhenhenhém não seriam exceção. Fiquei igualmente apreensivo com o tratamento tácito dado a seu 'código legal', receoso de havê-lo infringido alguma vez, mas fui tranquilizado ao saber que ignoram a noção de 'perdoar', ou melhor, têm-na por sinônimo de 'esquecer' ou 'não perceber'; que a ignorância mesma é "esquecível" (ou "não merece ser percebida"), pois só se ignora o que é de somenos importância; e que somente ao 'descaso', ou a quem o comete, é devida a 'atenção'.

A importância secundária que, parece, atribuem os Nhenhenhém à linguagem não a torna instrumento menos sofisticado. Ao contrário: combinada às ações que a acompanham, ganha significados precisos cuja versão para idiomas como o nosso é grande estorvo. Dizem, por exemplo, ser possível perceber sem dar atenção, pois dar atenção é sinônimo estrito de cuidar, preservar. Detalhe: as gentilezas que reciprocamente distribuem nada têm que ver com a 'atenção', assim como a entendemos, sendo antes atitudes incontornáveis, necessárias, naturais da condição gregária. Compreendem mal a presença de conflilto em sociedade, estando em paz mesmo com os estrangeiros (entre os quais os vizinhos), aos quais se sentem associados ao mero contato. Em consequência, ninguém lhes faz guerra, o que me confirmou um visitante de outra tribo com a narrativa de um raro incidente de caça, que ouviu do avô: um Nhenhenhém fora morto por flechar o animal também na mira de um vizinho, que ele não viu. Já preparada para a guerra, a tribo do assassino, que desconhecia os Nhenhenhém (pois o traslado de aldeias para o pouso da terra de cultivo eventualmente possibilita encontros inéditos), foi surpreendida pelo cortejo de oferendas noite adentro e nos dias seguintes. Por uma semana ou mais foram poupados de trabalhar, de banhar-se e mesmo de comer por conta própria até que, tomados de vergonha, imploraram por 'perdão', no que foram prontamente atendidos.

O relato serviu para aclarar aquilo que eu já presenciara tantas vezes sem me dar conta do que fosse. Sem motivo aparente alguém se tornava alvo seguido de 'atenções' progressivamente maiores: muitos ou todos o serviam às refeições, ofereciam-se para carregá-lo à menor intenção sua de deslocamento, era banhado e à volta de sua rede acumulavam-se presentes. O comportamento tinha duração imprevisível, mas podia ser interrompido após repetidas recusas do favorecido. Tratava-se, como disse, do 'processo judicial'; e, como o nosso, compreendia etapas diversas. A primeira delas, a da acusação, cujo início nunca detectei, evidentemente, visto a amabilidade ser moeda corrente entre os Nhenhenhém: imagino que se configure com gestos sutis, pequenas variações da norma. A melhor resposta que obtive depois de indagar a respeito foi a de que a consciência do descaso (ou da infração) é em primeiro lugar do autor, o qual, por isso, concorda em ser servido. É natural, é seu direito inato recusar os favores. Caso isto se dê, tem lugar a segunda fase, a da defesa, mera sucessão de recusas às ofertas e que termina quando um dos lados deixa de insistir, encerrando-se o processo ou continuando-o na fase seguinte, final, correspondente ao cumprimento da sentença, que é sempre única, a exclusiva aceitação dos presentes, variando somente quanto à duração e cuja interrupção, igualmente, cabe com exclusividade ao sentenciado. Dignas de nota são as condições em que tudo ocorre, em princípio indistinguíveis das normais, ao condenado sendo permitido praticamente tudo, desde que obediente ao protocolo de sua pena, que nada tem de excepcional, visto ser sua a iniciativa de interrompê-la a qualquer momento - ou quando ele e todos entendem ser oportuno, ao que parece.

Se algo entendi dos meandros do tema, faço o esboço a seguir :

1) Por que não falam dos seus princípios legais: primeiro, por os entenderem como evidentes, inatos; depois, porque, sendo na verdade um só, quando enunciado quebra-se em uns poucos, o que obriga ordená-los, o que induz á hierarquia, a qual é fonte do engano.

2) O descaso é o escândalo: o indivíduo sabe que infringe a norma, não depois do ato (o que, no caso, constituiria ignorância - merecendo, portanto, não mais do que o 'esquecimento', o 'não-percebimento'); sabe que a infringe antes do ato infrator (quando se decide a - ou se permite - praticá-lo) e, principalmente, enquanto o comete. É evidente, a infração só é percebida pelos demais depois de ocorrida, assim dando início ao procedimento legal descrito e cuja primeira função é investigar se de fato a houve.

3) Quanto a em que consiste a falta, como observei, nunca tive oportunidade de presenciar o cometimento de alguma nem de ouvir sua descrição para arriscar dizer seja o que for. Então busquei na razão o que a circunstância omitiu, e ainda assim é indiretamente que o menciono:

     a) A completa ausência de ofensas recíprocas entre os Nhenhenhém induz a pensar que em meio aos seus princípios está esse, atribuído aos judeus, mas que é provável os preceder: 'fazer ao outro apenas o que se permite fazer a si mesmo'.

     b) Entretanto o exame cuidadoso do princípio revela um problema: se é o masoquista quem o observa, por exemplo, será fonte de constantes desavenças. O processo judicial descrito aqui sugere que os Nhenhenhém estão a par disso: cada parte se dispõe a interrompê-lo a qualquer momento, tendo por critério do 'jogo', ao que tudo indica, a tolerância da outra parte. Assim, observam uma forma corrigida do princípio e a têm por inata: 'jamais exceder a tolerância alheia'.

    c) O novo preceito justifica a conduta amável dos Nhenhenhém, ou seja, veta a possibilidade de conflitos, já que o observam à letra. Mas se não há ofensa recíproca, se não se excede a tolerância do outro, o que puniriam com as oferendas? A solução do impasse se apresenta somente quando é posta em evidência personagem quase desaparecida em meio às solicitações daquela que de hábito protagoniza as considerações legais: o 'eu', esse 'objeto' da lei, quem tem de observá-la, o coadjuvante do 'outro', o 'sujeito' dela, que o acusa de infringi-la. À exceção do matar-se, por que o punimos acaso falhe em realizar, do 'eu' cobramos tacitamente toda sorte de sacrifícios a cuja submissão se associa sua honra (esse nome de pompa para a vaidade), restando-lhe, além de entregar-se aos suplícios, a vergonha de fugir ou, excedida sua tolerância, o suicídio mesmo. Os casos extremos do herói e do santo, únicos a nos merecer a admirada consternação, impedem-nos de notar os demais, os dos obreiros, dos funcionários, das mães, dos médicos, dos professores e enfiada sem fim de indivíduos onde é certo estarmos você, leitor, e eu: supliciados menores, esperados, quase invisíveis. Os Nhenhenhém os percebem. Por isso, ao preceito 'jamais exceder a tolerância alheia'  teriam acrescentado: '...nem a  própria'.

Notas:

1 - A expressão indica que o autor refere desde a primeira frase o clássico de More.

2 - Raphael Hytholdaeus.

3 - Num comentário à obra, More admite mesmo a expressão ("a place of felicitie") como ainda mais adequada para qualificar o país imaginário do que a usada no título.

sexta-feira, março 02, 2012

Relata o visitante

... creio ter sido por volta da décima visita: tive a ligeira impressão de ser a mesma de sempre a coleção de papéis que deparava sobre a mesa, mas não me dei inteiramente conta. Ainda retornaria cerca de outra dezena de vezes antes de ter a suspeita por hipótese a ser investigada: tudo já estava - sempre estivera - como ali se dispunha e seriam então os meus olhos, alterado o estado do espírito em face do maravilhoso, a vê-los assim diferentes, renovados a cada excursão, a produzir a ilusão de variedade, do novo. Hoje tenho quase por certa a incômoda idéia de estarem abandonados desde que os escreveram e então me rio das inúteis preocupações com demorar-me ali ou com apagar os indícios de minha passagem, com sequer tocar o alimento, sempre fresco e como a me esperar, e com a pressa de partir tão-logo voltava a mim no intervalo de substituir diante dos olhos uma página pela seguinte, com o receio de ser pilhado ao sair e com a firme e reiterada decisão de aguardar, escondido num desvão da mesa, o retorno do autor. Além desse espaço monumental, dos escritos maravilhosos e do silêncio, talvez ninguém, senão eu e talvez algum animal errante, tenha-se esgueirado pelas ranhuras do piso ou misturado às sombras sem fim das portas quase inamovíveis, não fossem as dobradiças responsivas ao meu toque insignificante como se por milagre. Por momentos ignorei os papéis na busca de peças de vestimenta que me confirmassem as dimensões do dono, já intuídas do mobilliário; pois nada, além da cama, igualmente rústica e dum armário inviolável, bem como da mesa e da cadeira - que me dava acesso, embora penoso, aos escritos - traíam a possibilidade de o lugar ser habitado. Observei depois as frutas - o cacho tinha o tanto de bagos maduros que noutra excursão - e o queijo - macio e odoroso como d'antes: sempre ali, como a me esperarem ou a qualquer outro visitante, indiferentes e intencionais. Nem tanto ao receio de me revelar devo a reserva em tocá-los, mas ao temor de me afogar em seus sumos. Voltei assim aos papéis, umas visitas mais tarde, e tentei decifrar os seus traços: era evidente haver letras, que de tão próximo dos olhos não figuravam palavra, mas como que caminhos que trilhei vez ou outra na esperança de lhes achar o sentido. Foi somente quando logrei pendurar-me na lamparina presa à parede que pude confirmar tratar-se de notas margeando desenhos, alguns traçados com precisão de instrumentos da geometria. Sim, eram planos, mas numa língua que desconhecia, ou melhor, numa língua cujos termos não conseguia vislumbrar em conjunto, dado estarem ainda muito perto. Semanas de estudo me forneceram o meio seguro de atingir o teto: penderia do cordão quase esquecido à volta duma viga no telhado. Só assim entenderia que, se estavam num vernáculo, este era o do mundo, no qual em inesperada harmonia vocábulos de línguas diversas se alternavam em seus respectivos alfabetos e ideogramas: além do provável tamanho, era também pantagruélico o poliglotismo e - constataria mais tarde - a polimatia do autor. Quanto ao que os ilustrava, em traçado leonardiano, uma paisagem e como se a anatomia de um pássaro. As visitas seguintes dediquei a adaptar o dispositivo de cordas e varas para do meu ponto de observação poder mover as folhas sem sair de onde estava, deslilzando-as para o chão, onde permaneceriam intocadas até quando as vi da última vez. Ocorreu-me também de copiá-las, guardadas as limitações do meu engenho, e submetê-las a algum sábio disposto a decifrá-las. Era constante o pentagrama, no qual se inscreviam um homem, mas também um símio, um lobo, o jaguar, e em outras abundavam as esferas - sobre as quais havia mapas, um deles, do planeta - e que por vezes se agrupavam em sistemas como o solar, além de nuvens espessas de pontos sugerindo objetos ignorados. Paisagens figuravam por vezes seccionadas, exibindo as entranhas em que, num ciclo de setas sem princípio nem fim, a seiva das árvores fluía para os veios dum vulcão cujas cinzas pareciam animar o vento que se esgueirava pelos escuros dum céu estrelado refletido no mar à guisa de peixes e equinodermos, e assim por diante, para sempre. Sequencias inteiras não eram ilustradas e ali as sentenças pareciam fazer seus sentidos usuais; umas emulando frases célebres, que reconhecia quando era familiar o idioma. Muitas estavam em sânscrito, outras em chinês e hebraico - penosas de reproduzir - e só ao fim de várias centenas de folhas desfrutei do conforto de reproduzir o alfabeto latino, embora pouco ou nada entendesse do que escrevia. Na esperança de encontrar algo compreensível, pus abaixo páginas e páginas seguidas para somente assim observar que parecia interminável a modesta pilha, que apresentava, a despeito do quanto a desbastara, espessura semelhante, se não igual, à de sempre. Já as demais, espalhadas pelo soalho, davam a impressão de serem mais numerosas do que as que ainda se empilhavam, ou melhor: davam a impressão de serem em maior número do que a soma de todas quando ainda sobre a mesa. Retornam os desenhos num certo momento, os textos reduzidos: havia agora exércitos, hordas de miseráveis e seus reis ou generais, não sei precisar, pois vestiam-se do inusitado, ás vezes parecendo nus ou cobrindo-se demais; vi máquinas volantes e bólidos incandescentes rasgando os céus em direção a lagartos imensos, o apagar de sóis e um amanhecer igual aos outros em todo lugar; e uma mansarda, representada dum ângulo aéreo, familiar: a cama, o móvel, a cadeira e a mesa onde papéis se empilham e se espalham pelo chão.

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