domingo, janeiro 09, 2011

Experimentando a causa final

a Clarão e Tuninho
Há quem prove - ou pense provar - que o tempo não existe: trata-se de apenas uma ideia sem correspondente exato na 'realidade'.Sim, acato – e, engraçado, fala-se assim como se as ideias fossem irreais. Mas não vamos aqui discutir tanto esse ponto. Peço somente que se conceda que, seja o tempo o que for para lá das ideias, é com o auxílio da ideia que se faz dele que o mundo ganha algum sentido para nós. De fato envelhecemos depois de termos sido jovens, fomos jovens depois de havermos nascido e bem depois de sequer termos sido seja o que fomos quando nossos pais não se conheciam. Tal conjunto de eventos, seja ou não 'coisa real', com ele lidamos com o auxílio da ideia incerta de tempo.

 É preciso, pois, que algo dure, para nos ser possível afirmar que isto existe. Nossos corpos, por exemplo, duram, embora mudem sem pausa, desde quando somos concebidos, até depois da morte, quando continuam seus processos de mudança até se dissiparem, assumindo então forma da qual não nos permitimos mais afirmar que foram ou são aqueles corpos. Mas nós mesmos, ou seja, esses conjuntos ainda pouco compreendidos de corpos e consciências, se é impreciso dizer que começamos a existir em úteros, há generalizada concordância em torno à afirmação de que nos finamos com a morte, apesar de os corpos com que nos compúnhamos permanecerem por mais algum tempo existindo. Cessar de durar é, por conseguinte, deixar de existir, seja lá como isto se entenda por intermédio do abstruso conceito de tempo.

Assim, as coisas têm de durar, ou não existem. No nosso caso é possível acrescentar que também queremos durar – exceção feita, naturalmente, a quem da vida se desencantou, embora até se desencantar tenha-se por certo alinhado conosco, os demais, que têm de e querem durar. Parece ser parte da natureza disto que chamamos de 'estar vivo' essa obstinação em durar. No meu entender, muito naturalmente. Pois, como já concordamos, se não dura, não existe, com a diferença de que o ser vivo existe por si e também por querer, por fazer por onde.

Ah, claro, a ciência e - principalmente - a filosofia já provaram - ou acreditaram provar - que os indivíduos são outra ficção. Sem dúvida, mas este é mais um ponto por que teremos de passar sem o levarmos muito além. Infelizmente somos também constrangidos por algo na nossa natureza a ver o mundo como amontoado de coisas distintas umas das outras, embora por vezes sejamos capazes também de vê-las todas como uma coisa só – ou melhor, somos obrigados a 'engolir' isso em virtude de tudo diante dos nossos narizes transformar-se em qualquer outra coisa com o passar do misterioso tempo, em virtude, enfim, da impressão de que a rigor há algo de fundamental na composição de tudo, algo em que tudo com o tempo se desfaz. Enfim, temos aqui de admitir, sem maiores considerações, que há para nós o mundo como um todo, bem como há as coisas no mundo, seja qual for o motivo de tal ocorrer conosco.

 Então: indivíduos quaisquer existem para nós em virtude de durarem e, no nosso caso, além de termos de durar, também o queremos. E existir, ao menos para os que não se enfadaram da existência, é em princípio algo que sem pestanejar qualificamos de bom. Sim, às vezes não se quer matar-se e, por outro lado, não parece preciso afirmar que existir é bom. Nesse caso trata-se de quem está a transpor a linha dividindo quem gosta e quem desgosta de existir. Nada obstante, enquanto do outro lado não estiver, estará dizendo nas entrelinhas que reconhece haver na vida ao menos o bastante para tolerá-la ou, ainda, que há o suficiente de bem no viver para impedi-lo de estourar os miolos imediatamente.

 Tanto se disse para mostrar que a vida, ao menos para quem não se deprimiu, é um bem. Mas ela não é de fato nada: é a vida, somente. Prova disso é que pode ser desprezada por um sem número de viventes. E embora seja tão-só viver, quem dela se agrada o confessa afixando-lhe um rótulo, o rótulo de bem. E, claro, de tudo faz para permanecer vivendo. Quanto aos outros, os descontentes, não se pense entretanto que discordam por inteiro dos demais: não! Só que para eles, indivíduos em aparência mais exigentes, a vida tem de ser efetivamente boa. Ora, não apenas para eles: para seja qual for o vivente, a vida só é bem se for boa. Aqui entra em cena outro ponto indiscutível, embora tema de incontáveis discussões: a boa vida é questão de tolerância. Uma dor, por exemplo, uma lancinante, no caso: há quem a suporte indefinidamente e quem sequer tolere imaginá-la sem pensar em desaparecer. (Curioso é ter de admitir que quem prefere a morte a um viver menos – ou nada – prazeroso deve ter alguma noção de como é inexistir e essa noção lhe indica tratar-se de coisa melhor do que o existir – pois imaginamos que naturalmente declinaria da escolha caso supusesse tratar-se de algo pior.)

 Enfim, concordamos em que em si o viver não é lá muita coisa, só sendo um bem quando é bom (ai!, geme o lógico – e desta vez o ouvimos), e em que, mesmo em se desprezando a vida, isto se faz na suposição de que a outra condição, a de não viver, é um bem maior - ou simplesmente um bem. Resultado: parece-nos que, até aqui, pouco importa a forma sob a qual ele nos apareça, estamos constantemente no encalço do bem ou, concedo, se não do BEM ele mesmo (espécie de Papai Noel da filosofia), ao menos de algum bem, digo, de parte desse bem de gorro e botas vermelhas. E não se trata só de ir atrás do dito cujo, mas de fazê-lo aparecer, ou mais, trata-se até de criá-lo, de trazê-lo à existência, sintoma este do já menciondo querer viver.

Um sujeito faz sinal na penumbra e indica não concordar. Parece meio sem jeito, não quer mostrar-se, mas como aqui garantimos a livre expressão, aos poucos vai ficar à vontade para expor o seu ponto: ah, sim, uma ressalva: já tentou de tudo para mudar, mas tem de admitir que continua apreciando - o quê? Ah, claro: o sofrimento alheio. Aprecia, então, o sofrimento alheio e - o que mais? Sim, está seguro de produzir o mal. Senhores, senhores, por favor, não riam; é evidente que encontraram a chave: naturalmente a encontraram, ou não teríamos concordado tanto até aqui. É que o amigo lá de trás não percebeu como formulou a questão: disse gostar de fazer o mal. E, claro, não se gosta senão do que é bom. O o cerne do problema, se os senhores bem observaram, está no gostar do que para um outro é mau. Este, entretanto, é outro assunto por que teremos de passar sem virá-lo do avesso: deve por certo haver um viés especial por cujo intermédio nos é possível entender este e semelhantes casos, mas temos de deixar para outra ocasião o encontrá-lo. Então, em miúdos se tem, enfim: seja qual for a causa ou o motor de seu gosto, gosta disso, digo, isso lhe é um bem.

Um outro indivíduo toma coragem e se levanta: não nos alvorocemos, amigos, seu caso pode ser diferente. Como? Certo: detesta o mal – como a maioria de nós afirma detestar – e, no entanto, por mais que busque para todos o melhor, acaba sempre restando de suas ações algo condenável por alguém. É, o inferno parece mesmo estar cheio das melhores intenções. Vejamos: em princípio somos levados a crer que de fato todos – sem exceção – gostamos de algo, ou seja, procuramos sempre por ou nos esforçamos para realizar algo bom, um bem; entretanto há quem goste de fazer com os demais o que estes – e mesmo ele próprio – detestam (sendo preciso reconhecer que há também quem goste disto para si próprio!) e há quem o faça sem querer, crendo produzir um bem comum. O amigo aqui não parece distinto da maioria de nós: há afinal quem aqui se atreva a lhe atirar a primeira pedra?

Pois bem, há entre nós quem creia enquadrar-se em outro grupo? Ah, sim, o amigo ali. Como? Carrasco? Senhores, senhores! Calma, senhores, do contrário rompemos nosso pacto de livre expressão. Ou prefeririam os senhores que mantivesse ele o silêncio e nos privasse de conhecer o que seria – talvez – uma classe distinta de buscadores e criadores do bem? Como? Claro, funcionário público. Não, não precisa dizer de onde o senhor vem; todos aqui estamos cientes de que os carrascos ainda andam longe da via de extinção. Enfim, o senhor mata, diz não gostar do que faz e que o faz por ser preciso. É verdade: o amigo de há pouco causou-nos consternação dupla, de um lado, por confessar gostar de ser mau e, de outro, por termos tacitamente aquiescido em que tal a nós parece dever-se somente a alguma patologia; o segundo não nos pareceu diferente de nós outros; mas este, meus caros, este nos apresenta uma condição como que simétrica – ou seria complementar? – à do anterior. Vejamos: um faz mal – ou algum mal – pensando fazer somente o bem e o outro está certo fazer um bem enquanto faz de fato um mal.

  Mas entendamos. É evidente que esses bens e males não são universais, não agradam ou desagradam generalizadamente. O que é bom para uns não o é para outros e assim por diante. E eis a lição que aprendemos daí: a lição de que bem e mal não existem – é o que diz a garotinha aqui na primeira fila. Não, não estou seguro de que seja essa a lição: pois, ora, cada um de nós de fato experimenta, sente, o que é bom ou mau para si; não há duvidar de que bem e mal existem. A lição é a de que bem e mal são, sim, relativos, não apenas um ao outro, o que é evidente, mas relativos a quem sente ou percebe os eventos no mundo como bons ou maus. Esta lição já podíamos tirá-la faz algum tempo, desde quando o rapaz ali lamentou-se de não conseguir realizar um bem sem arestas, sem que alguém o entendesse como mal, ou mesmo desde antes, quando falamos da tolerância da cada um de nós para com as dores de viver. Bem e mal, por conseguinte, existem, mas não no mundo lá fora: existem em cada um de nós; é, como diria o amigo filósofo aqui nos prestigiando, um juízo. (Falei certo?)

Há outra lição que se pode tirar ainda neste ponto de nosso debate e já adianto-a: o companheiro carrasco ali não é diferente, de modo geral, da maioria de nós. Aliás, mesmo o rapaz na penumbra, embora, digamos, adoentado, não é também tão diferente de nós na medida em que tem razoável noção do que pratica, ainda que não consiga conter-se. Mas a nossa semelhança com o amigo funcionário público é grande o bastante para causar espécie àqueles de nós menos sinceros. Ele não passa de instrumento usado para perpetrar uma ação comum e, de modo geral (salvo por certos filósofos ou ascetas diversos), grandemente aceita em meio a nós, resumível no ditado que hiperbolizo: olho por olhos, dente por dentes. Sim, visto nem sempre parecer-nos satisfatória a troca de um dos nossos por somente um dos de outrem. Em suma, em maioria (assim espero) professamos o desprezo, a intolerância e mesmo o horror do mal, mas quase sempre não hesitamos em o utlizar quando entendemos de remediar-nos de algo que nos acomete. Bem, Samuel Hahnemann, estou seguro, não se orgulharia de nos mostrarmos assim tão intuitivamente homeopáticos.
Mais curiosa ainda se torna a situação caso eu pergunte aos senhores o que se opõe ao mal, o que se opõe no sentido de dar cabo, pôr fim a ele, ao que sem exceção me responderiam: o bem. A senhora ali no meio murmura - o que? Entendi: "e daí o princípio do dar a outra face". Espere! Não estou convencido de que o dar a outra face seja a fórmula exata do bem para dar cabo de todo mal: talvez no caso do amigo na penumbra, e ainda assim a depender do seu tipo de – perdoe, por favor, a franqueza – sadismo, pois há sádicos que preferem as vítimas que se recusam a oferecer quaisquer faces e seja mais o que for. Se o caso é o do indivíduo comum, que nos faz um mal acreditando sanar um outro que pensa haver sofrido por nossa causa, não creio que o oferecimento da outra face o sacie e é possível que o confundamos então com o sádico típico, se ele continua a maltratar-nos, ou que até faça meia volta, tendo-se dado por satisfeito. A questão, aí, está em produzir algo realmente bom para ele ou em não ter produzido o que o afligiu.

É possível que nossa intuição homeopática seja, no entanto, providencial: em certa medida ela pode ser tida por a única maneira de fazermos ver a quem nos causou o mal o que ele nos fez, mas exclusivamente quando isto se produziu por – digamos – engano. Já o dar a outra face, no contexto em que ocorreu, ensina apenas que diante desse tipo de perpetrador do mal não há alternativa a continuar saciando-lhe a índole sádica; não se tratava nem mesmo de ignorância pura: havia ignorância, sim, pois se ele compreendesse de fato a extensão de seus atos, não os realizaria, mas da ignorância se aproveitava o sadismo para exercer-se. Pois bem, o revide, o olho por olho (ou por olhos), talvez não passe – em certa medida – de um modo de trazermos o outro à consciência, embora nós mesmos, ao praticá-lo, incorramos no mesmo tipo de ignorância. O dar a outra face pode também o ser, a depender da circunstância ou mesmo de a quem a oferecemos. Enfim, ambos têm lá sua probabilidade de sucesso na contenção do mal.

 Bem, adiantamo-nos um tanto, mas já era tempo de fazer entrar em nosso debate a ignorância. Então a pergunta: se conhecêssemos sempre o modo mais adequado de agir, adequado, diga-se, sem que dele resultasse para ninguém qualquer mal, qual de nós – com exceção, é claro, do nosso amigo sádico – se recusaria a levá-lo a efeito? Era o que se esperava: silêncio geral. Assim, se soubéssemos, se soubéssemos...! Mas ocorre de quase nunca sabermos, como há pouco o confessou o amigo incapaz de produzir bens universais. E mesmo aqueles que demonstram muito saber, visto serem mínimos ou quase imperceptíveis os males advindos de seus atos, sabem que não sabem o suficiente para evitarem a imiscuição de qualquer mal nos resultados de suas ações. E eis que voltamos a falar do Papai Noel da filosofia: muitos morremos de velhos na esperança de o depararmos na sala em uma noite qualquer – eis o que muitos de vocês acabaram de pensar. Daí, entretanto, a compactuar com o caos, convenhamos, é um exagero.

 Daí ao perdão indiscriminado, diz aqui a senhora da outra face, é outro pulo. É verdade. Mas há alternativa ao perdoar, digo melhor, há um coadjuvante para o perdão. Sim. Acertou na mosca o senhor aqui: conhecer! O contrário de ignorar: bem contra mal, conhecimento contra ignorância. Dir-se-ia mais, entretanto: educar. Pois se nascemos, como afirmaram alguns filósofos, sabendo o que é o bem, parece evidente não sabermos com a desejada precisão como obtê-lo no e do mundo. E como alguns é pressuposto saberem um tanto, em vista mesmo do seu tempo de vida, nada mais adequado que passem adiante esse saber. E que ensinem, acima de tudo, a conhecer, já que, como vimos, são sempre novas as circunstâncias.

  Por fim, imagino que tenhamos compreendido um pouco a 'mecânica' – podemos chamá-la assim – de bem e mal para, em primeiro lugar, termos ciência de que não somos capazes de praticar o mal e tampouco o bem absolutos; para termos ciência antes, até, de que, seja o que pratiquemos, temos em vista sempre um certo bem, necessariamente (e tendo por alvo a nós próprios, não esqueçamos disto, ou seja, tendo por alvo tudo quanto de nós ou para nós consideramos bom, tudo de que gostamos: o altruísmo não passa de uma instância do egoísmo); para sabermos que só concedemos ao mal por ignorar como evitá-lo e que só o evitamos com a prática de bens, a qual só se logra com o auxílio do conhecimento; e, por último, para conscientizar-nos de que gente como Leibniz e Aristóteles não falaram por falar ou inconsequentemente do melhor dos mundos e da causa final.

sábado, janeiro 08, 2011

Sem poesia

Se acaso poesia aqui houver, não a terei posto eu. Poesia é presença acidental: raro atende quando chamada, aparecendo sem que a esperem. Em seu nome faz responder um simulacro cujo ardil é fingir onipresença e fazer pensarem os tolos que os cerca a poesia.

Por isso, se alguma aqui houver, a terá posto o olhar, usado como é em tomar às palavras o sentido mais rasteiro. Seja isto evidência de uma natureza moldada em volta de um sentido único que tem por objeto unicamente o prazer. Bastante é, às vezes, um termo, um som, um gesto acidental para despertá-lo, sem o que recolhe-se o sujeito ao desacordo a que dá o nome de dor. Por isso tanta poesia, mesmo se pouca, até quando nenhuma.

Livre é você. Sou apenas justo, embora incompreendido.


A um amigo óbvio e 'livre' (ou seria apenas 'liberal'?).

Liberdade é a ideia resultante da constatação do sujeito, a despeito de sua capacidade de antever, de a ação do outro ter sempre algo de imprevisível. A si mesmo o sujeito não pode com honestidade considerar livre. O mundo lhe aparece como o coibidor por excelência, diante do qual tudo quanto realiza tem de justificar-se, tem de fazer-se de maneira precisa, consequente, ou arrisca frustrar-se. O justo não pode ser livre como o outro, cujas atitudes é raro lhe parecerem por inteiro justificáveis. Amiúde a ação alheia só lhe é passível de alguma compreensão - de alguma justificação - muito depois de ocorrida, quando então pode ele, o sujeito, o justo, concluir não haver o outro gozado de tanta liberdade quanto lhe atribuiu quando não lhe compreendia o por que do ato. Mas como uma mesma justificativa nem sempre é plenamente aplicável a toda circunstância ulterior, pode advir ao sujeito a constatação de que não previu uma ação subsequente do outro e, por conseguinte, que este é livre na ocasião, ainda que mais tarde venha justificar o ocorrido com o mesmo com que justificou anterirormente outro.

O sujeito é sempre justo. Só reconhece o contrário quando lhe manifestam admiração, ou seja, quando outrem, que sujeito também é, dá mostras de não lhe haver previsto os atos, de não os haver justificado. Só assim reconhece que ele, sujeito, ao menos desse modo é livre também: quando lhe mostram que não é tão justo quanto de si e para si acreditava ser. Mas enquanto não dá com o reflexo do seu ato no outro continua o sujeito para si mesmo sendo apenas justo, incessantemente limitado. Os atos próprios lhe aparecem todos como consequentes: conhece muito bem - ou assim acredita - o por que de cada qual. Mais ainda: quase sempre está tão certo de ser justo que lhe custa admitir ou entender que assim não pareça aos olhos do mundo. É por isso que recalcitra, a despeito de advertido, apenas para permanecer incompreendido, embora a insistência nesse ato lhe possibilite também convencer os demais. Quando há convencimento, sua atitude então não é mais encarada como livre e sim como justificada (ou justificável), podendo ser adotada por todos quanto querem somente permanecer justos. Mas lhe é possível também submeter quem não se convenceu: quando isto se dá, sua ação, a despeito de - ou precisamente por - permanecer incompreendida, pode tornar-se, mais do que reprovável, modelar e, por conseguinte, cobiçável por quem almeje ser - ou parecer - livre.

A associação de liberdade com ignorância não é recente. A argumentação acima apenas a apresenta de outro viés, talvez menos intuitivo do que os vieses clássicos, e faz uso pródigo das ambiguidades que acarreta. Trata-se em princípio de longa e livre paráfrase da sentença de abertura de ’Discurso do Método’, na qual a expressão ’bom senso’ foi substituída pelo termo ’justeza’, em boa medida sinônimo da anterior, embora aqui apareça num contexto diferente daquele sobre que Descartes escreveu (o da metodologia da ciência) e que o especialista no assunto não hesitaria em designar como ética. O ponto polêmico do texto é a oposição flagrante dos termos ’livre’ e ’justo’, conotando o primeiro, evidentemente, transgressão e o segundo, acatamento de alguma regra ou lei. A um moderno liberal isto ressona inequívoca provocação; não o censuremos por haver abandonado a leitura antes do presente parágrafo. Afinal de contas o sentido de ’transgredir’ fixou-se nos últimos tempos numa conotação negativa, a de infringência de algo a ser cumprido, quando em princípio denota apenas ’ultrapassagem’. Nesse contexto, portanto, a transgressão do indivíduo livre esboçada acima não acarreta necessariamente o rompimento de algum trato, lei ou regra, mas um ir além disso, nada obstante tal possa ou não dar-se de maneira procedente: é possível ter-se em conta princípio maior, mais abrangente e, por conseguinte, melhor, ao se ultrapassar um outro, não tendo sido outra a forja de heróis em cujos tempos foram tidos por vilões. Em 'Temor e Tremor' Kierkegaard tratou de caso extremo dessa espécie, o de Abraão desincumbindo-se do que lhe encomendara Deus, a morte de Isaac: em virtude de cumprir o comando divino estaria o patriarca isento de responder aos preceitos da moral - ou da ética - humanamente concebível? - pergunta-se o filósofo.

Em suma, para o sujeito o outro estaria, sim, transgredindo alguma regra, mas não por necessidade infringindo-a. É possível que num primeiro momento fosse o ato tido por infringência, mas, uma vez justificado - compreendido - pelo sujeito, logo passa a transgressão no melhor dos sentidos. É também possível que o sujeito não justifique o ato alheio, o que, na circunstância, o autoriza a qualificá-lo como mera infração. Em ambos os casos é do sujeito a ignorância, ao menos a inicial, até que entenda ele o ato alheio, que o veja como justo, ou quando se rende por fim à evidência de não ser capaz de justificá-lo. No caso último a ignorância é também do outro: ao menos enquanto agia não se deu conta de tão-só infringir - e não de transgredir. Esse ignorar tem algo de perverso: observe-se que enquanto ignora como agir melhor, o sujeito (ou o 'outro') ignora que ignora. E ignora que ignora por acreditar que sabe o que faz: uma completa obscuridade, estado a que se está permanentemente sujeito e detectável quase sempre de forma tardia. Mas tal só se entende por intermédio de Aristóteles, para quem o fim último (ele chamou de ’causa final’) de seja o que for é o bem - ou um bem. Como é evidente, trata-se de sorte de axioma, ou seja, de afirmação não passível de provar-se por intermédio de artifícios da lógica - ou do discurso, como se mostra, por exemplo, que ’Sócrates é mortal’, desde que se admita por premissa que Sócrates é homem e que todo homem é mortal. Descartes disse o mesmo do ’penso, logo existo’: assim como a asserção aristotélica esta seria passível de somente experimentação. Em ambos os casos é mister gozar o experimentador de mínima sinceridade, ou se condenará a um insustentável delírio cético (você consegue, por acaso, convencer-se de que não existe?), ou à ilusão de ser capaz de conceber e empreender algum mal, em suma, tornar-se-á louco ou presunçoso caso não leve a sério as experiências sugeridas pelos dois filósofos.

Assim, a despeito de crermos no contrário, ao acatarmos o ’axioma’ de Aristóteles admitimos de enfiada nossa incapacidade de produzir o mal. E de fato o produzimos, mas exclusivamente por ignorância (a única justificativa plausível para tamanho desatino), como se fora sorte de bem: no fim de todas as nossas intenções há sempre algo de bom, ainda que, tornadas em atos, consumem algum tipo de mal. É evidente, o tal bem almejado, ainda que mínimo, o é sempre referido a um sujeito ou a algo que ele tem por parte de si, pouco importa se em pessoa não é ele o contemplado, como é o caso das guerras, em que se mata e morre por bem de um conceito diáfano como o de ’pátria’, do qual o indivíduo está convicto de ser parte, ou seja, de haver sorte de identidade ou comunhão entre a pátria e ele mesmo. Há uma lógica e mesmo uma 'mecânica' de bem e mal, passíveis, inclusive e como quaisquer outras lógicas e mecânicas, de algebrização, por cujo intermédio se demonstra que o segundo é sempre espécie de subproduto da canhestra obtenção do primeiro. Isto, entretanto, é matéria para outra oportunidade, bastando de momento entender-se que tal só ocorre por intercessão da ignorância: soubesse o sujeito como efetivar o bem concebido, isto é, sem daí surgir mal nenhum, é seguro que o faria: por pior que a alguém pareça o ato de outrem, este foi de fato o melhor que conseguiu realizar - é claro, tomando-se o partido de quem o realizou. E, como se pontuou acima, não raro o sujeito ignora que ignora a maneira de obter um bem maior. Um ponto imprescindível: é suposto concordarmos, para a compreensão do quanto aqui se disse e se dirá, em que bem e mal de fato inexistem no mundo senão como juízos, digo, senão como nota aposta pelo sujeito a tudo quanto lhe é perceptível - aí incluído o pensamento. O mundo é composto de fatos - como o queria Wittgenstein - em si próprios destituídos de bondade ou maldade senão quando presenciados por um sujeito, uma consciência. Há razão para que se os considere como o fazemos, embora o discuti-la tenha de ter lugar noutra instância, por bem da brevidade. De momento é bastante admitirmos existir bem e mal, sim, mas apenas enquanto juízos, sem que tal torne inviável o que se diz aqui.

Descartes dá sua explicação do fenômeno: admite não sermos capazes de saber tudo (admite a ignorância, portanto), mas culpa a vontade, que passaria à frente do entendimento no ato de conhecer e - até por pirraça, é de imaginar - escolheria o pior quando o sujeito é instado à ação. Em sua divisão desmesurada do espírito humano o francês concebe uma vontade desgovernada, embora divina, perfeita, como o é o próprio entendimento, para pôr a salvo de errar a ’clareza e a distinção’ dele, entendimento, razão (o que em princípio soa como justo). Nesse passo põe de ponta-cabeça a idéia de liberdade afirmando ser seu grau mais baixo a indecisão (ou a dúvida, esta que ele usou como ’método’, segundo afirmação própria, para o achamento das verdades de sua metafísica) e o mais alto, a escolha (ainda que a incorreta?), quando se é, então, "ainda mais livre". Em certo sentido tinha razão com respeito á indecisão: caso se aceite o ’axioma’ aristotélico, ignorante seria quem, ainda que não a efetive, crê ter escolha, uma vez que, seja lá como decida realizar não importa o quê, isto a realizar-se será invariavelmente um bem e um bem cuja amplitude ou cujos possíveis corolários, maléficos ou não tão bons, dizem respeito a o quão conhecedor do mundo - o quão sábio, portanto - o seu autor é. E quem crê ter escolhas, ao menos na acepção comum de liberdade, se diz livre, no caso, para escolher, é evidente. Em suma, livre seria quem vê diante de si miríade de opções a serem indiferentemente pinçadas: livre por ignorar qual delas é a adequada à circunstância, na qual seria, enfim, a única  de fato a merecer realizar-se visando a obtenção de um bem maior - ou um bem reconhecível por ao menos outro indivíduo além dele próprio. Observa-se que aqui Descartes entendeu a liberdade em sentido um tanto diverso do que a entende o senso comum: a indecisão - ou a iminência da escolha - seria para ele o mais baixo grau de liberdade, enquanto para o senso comum isto seja talvez o único. Mas ao afirmar que se é "ainda mais livre" quando é realizada a escolha, em que sentido seria possível entendê-lo, se algum há? Imagino que no único possível, o de estar-se livre do cumprimento daquele dever (invariavelmente o dever de produzir algo de bom), se - e somente se - este de fato foi cumprido, embora seja incerto afirmar, pelas indicações que deixou, que Descartes tivesse em mente isso.

Neste ponto o ’sei que não sei’ socrático ganha sentido intrigante: estaria o sábio a justificar suas falhas, em particular as futuras, ou somente a demonstrar a impossibilidade de se praticar o bem perfeito? Em ambos os casos a resposta pode ser afirmativa, o que tornaria a filosofia exclusivamente em sorte de ato de contrição, não fora a orientação inata para o bem do indivíduo, axiomática, a fazer dela, filosofia, também formulário de estratégias para buscar o bem com a menor interferência possível do subproduto mal. Além disso é pouco mais o que afirma o sábio saber, como, por exemplo, que não há escolha, uma vez que, em se supondo que é de fato sábio,  só se tem sentidos para o bom e, caso houvesse no mundo alternativa a este, sequer a levaria em conta, sequer a perceberia; sabe também ser cambiante sua percepção do bem, tanto maior quanto for o seu conhecimento do mundo; e sabe que é livre apenas quando desincumbido do dever, coisa que, a rigor, jamais se dá, pois o desencargo de um é de pronto substituído pela solicitação de cumprimento de dever subsequente e, assim, para todo o sempre enquanto viver.

terça-feira, junho 09, 2009

O Passageiro da Caixa-Preta

Nada mais admirável num avião do que a caixa-preta. Um diminuto objeto, para dizer quase tudo, talvez o único de todo o aparelho a escapar da mais variada gama de acidentes com integridade suficiente para revelar o enredo da tragédia. Em termos de resistência o seu conteúdo é dos mais perecíveis de todo o conjunto, incluídos os passageiros, o que por certo parece ser o bastante para justificar o engenho empregado em fazê-la indestrutível ou próximo disso.

Avesso a viajar como sou e sobrevivente de sensações desagradáveis das três últimas de minhas poucas viagens de avião, determinei que só voltaria a voar quando se pusessem à venda lugares nas caixas-pretas e, é claro, caso ali se diponibilizasse também o suficiente para a sobrevivência humana até o resgate. Se algo incompreensível há para mim, isto é a circunstância de ainda não se haver usado a tecnologia das caixas-pretas nas aeronaves por inteiro.

A própria existência de tais objetos, sem falar na cor que lhe aplicaram no nome, me sugere sentimentos tenebrosos. Ela é a prova de que desastres com esse meio de transporte são efetivamente inevitáveis, ou melhor, imprevisíveis. Caso contrário, qual seria sua necessidade? E por ser refratária, ao contrário do restante do avião, a caixa-preta é evidência do maior apreço dos fabricantes, engenheiros e empresários da aviação pela história (a das catástrofes, no caso) do que pela integridade dos seus semelhantes.

Passando ao largo desta última constatação, os demais pensamentos entristecem quando se percebe também que os altos preços das passagens aéreas não referem apenas o ressarcimento da pesquisa por segurança nos vôos, mas, a rigor, a financiam. Somos todos, então, potenciais voluntários de uma perigosa e lucrativa experiência sem prazo de conclusão. Entre suas metas, naturalmente, a integridade dos viajantes - ou assim anunciam. Antes desta, entretanto, está o ganho milionário dos empreendedores - os fabricantes - e seus intermediários - as companhias aéreas.

Nada de errado há em oferecer-se como cobaia para experimentos, mesmo os de risco, exceto quando não se está consciente das adversidades possíveis, quando não se é advertido delas de antemão. Ora, podem contestar-me: os passageiros de aviões, salvo exceções óbvias, estão plenamente informados dos riscos dessas viagens. Dir-se-ia que sim, que é verdade, não fosse a insistente afirmação, supostamente extraída de estatísticas, de ser a aviação o meio de transporte mais seguro do mundo, quiçá o mais seguro de todos os tempos. Um exemplo desse lugar-comum foi o comentário do Joelmir Beting, menos de um dia após o recente desaparecimento do jato da Air France: nos Estados Unidos morre-se mais em virtude de picadas de abelhas do que de quedas de avião. A ironia - ou o sarcasmo - explícita é inerente à fraseologia desse comentarista de economia e finanças.

O quadro se agrava com a observação de que as incautas cobaias pagam - e caro - para fazer papel pelo qual não poucas vezes se paga, prática que se estende a todos os lados de nossa desvalida existência: de medicamentos a telefones celulares, da agricultura transgênica à malha de satélites sobre nossas cabeças. Quase todos os modernos serviços e objetos à disposição são meros experimentos pelos quais pagamos como se se tratasse de produtos acabados. Quando se conhecem as condições de realização da ciência um pouco mais de perto, das quais a principal seja por certo a de ser obra em progresso, é possível não ceder tão facilmente à sedução de seus derivados, a saber, as técnicas, as tecnologias.

O problema está em, nada obstante a maior correção do cientista, exercer-se a ciência em associação com o capital. É o exercício das finanças que cobra do pesquisador a continuada perfídia de modo a manter o fluxo do lucro em volume suficiente para saciar quem investiu inicialmente em seu trabalho. Por conta dessa aliança somos induzidos, os chamados usuários dos produtos e serviços (e, na verdade, objetos vivos de experiências), a esperar de incontáveis destes mais do que o devido, quando não a perecer e, caso a história venha adotar-nos, figurar para o futuro como meras vítimas do destino e não como heróis ou mártires do conhecimento, da ciência, sem cuja iniciativa suicida as gerações subseqüentes - é provável que de cobaias também! - não estariam onde estarão.

Esta seria uma conclusão eufemística ou, para dizê-lo sem eufemismo excedente, hipócrita. Nela está implícita uma imagem adocicada do cientista e da ciência como faz algum tempo não é praticada: desinteressado ofício de sujeitos ocupados apenas do bem da humanidade, descobridores de noções inauditas e em geral vítimas da ignorância à sua volta. Talvez tenha sido assim há milênios, até Sócrates, mas não com Platão. Talvez com justeza tenha o primeiro criticado os sofistas por venderem ensinamentos e não pelos ensinamentos mesmo. Talvez Galileu, da Vinci e uns tantos mais tenham praticado esse tipo de ciência à margem das finanças. Mas já Pasteur é apontado por fraudar - é possível que por vaidade - certos resultados de seus experimentos e daí então tudo - ou quase isso - parece justificar-se em nome da pecúnia.

É ela, nos derradeiros tempos, a puxar o carro da curiosidade humana e a induzir, mesmo que inadequada ou duvidosa, uma aplicação para seja o que se descubra ou invente nos laboratórios sob seus auspícios. Desde que viável em termos de lucro, todo rebotalho ali produzido ganha no mundo alguma utilidade. Nem a onda natural, hoje transmutada em ecológica, escapa desse procedimento, embora - quem sabe? - um dia aufiramos dela algum benefício... Tendo como aliada a propaganda, capaz de com suas artes insinuar-se na vontade geral, conclui-se que o mercado é a única de todas a invenções humanas cuja serventia é passível de previsão mais segura. Quando sai dos trilhos, a razão é evidente, embora se finja dissimulá-la: malversação continuada. Das outras criações do espírito do homem pouco é possível dizer quando desandam. Até os relógios atómicos atrasam (muito pouco, mas atrasam) e mesmo as caixas-pretas, a despeito de sua aludida solidez, podem perder-se para sempre.

Rio, 9 de junho de 2009

Waldemar M. Reis

domingo, fevereiro 22, 2009

Darwin, pecador

Darwin não soube em que se metia. Avaliou mal as conseqüências de sua hipótese. No seu rastro vieram a selvageria esclarecida dos mercados, a eugenia e argumentos capciosos justificando o racismo. À exceção da entropia, tudo parece evoluir no mundo feliz dos seres superiores.

Apesar de todo o cuidado, toda a parcimônia por que pautou sua existência, não pôde evitar certas conclusões. Sabe-se lá como no fim da vida justificava para si próprio a postura anti-escravidão de sua juventude!

Seu pecado, entretanto, não foi exclusivo, tampouco inédito. Toda uma civilização cantava e ainda canta a igualdade de ’progresso’, ’aperfeiçoamento’ e ’evolução’, nada obstante tenha sempre sabido que doenças e outros malefícios também progridem ou evoluem e mesmo se aperfeiçoam.

Fora decerto melhor se seguisse os antigos chineses e um conhecido químico francês, dizendo: tudo se transforma. Mas enquanto homem deixou prevalecer a vaidade e enquanto europeu a cor da própria pele. Esqueceu-se de ser nossa superioridade semelhante à das abelhas e formigas e de que abandonados e solitários na natureza virgem poucos de nós sobreviveriam.

É verdade, sim, entendemos ou procuramos entender o mundo, exercemos um falar complexo e produzimos livros. Em que, entretanto, isto nos tem ajudado a escapar da sina comum a toda forma de vida?

Resultado: nem mesmo chegamos a ver-nos sós na mata ou escaldados no deserto e a menos de duzentos anos de sua morte já contávamos com progressiva escassez de recursos provocada por um mercado inteirado de ser ele também uma força da natureza, devendo por conseguinte obedecer-lhe as leis, essas mesmas cuja ação teria posto o homem no topo da escala evolutiva.

Isto para nos darmos conta do quão perigoso é o uso dos conceitos. Como na aplicação da matemática, é suficiente um sinal a menos, um ponto fora do lugar para mudar a rota de uma nave ou pôr uma casa no chão.

A despeito dos tropeços, no entanto, proporcionou-nos - em parceria com muitos de seus contemporâneos, não esqueçamos - a abertura de uma porta efetivamente dando para paisagem compreensível e ampla, sulcada de caminhos que, decerto por milagre, dão voltas, voltas e mais voltas antes de darem no precipício além do qual, dizem, para sempre espera Deus.

Rio, 22 de fevereiro de 2009

Waldemar M. Reis

sábado, fevereiro 21, 2009

De literatura, caos e pensamento (um caminho possível entre três temas)


"Que a rosa não se desfaça em borboletas e da macieira não brotem diamantes, não é mais surpreendente que a rosa, as borboletas, a maceira e os diamantes". Antonio Caetano


O fantástico é o único ramo possível da literatura, já dizia Borges. Por mais realista que tente ser um autor, inevitavelmente produzirá situações inusitadas ou não causará interesse. A rigor é a vida mesma fantástica por natureza, por ser imprevisível.

De hábito o fantástico é definido em oposição ao corriqueiro, àquilo de cuja verdade cremos possuir provas bastantes. Seu sinônimo constante tem sido o inverossímil. Mas o que, nesse mundo turbulento, há de mais fantástico do que o comezinho, a repetição? Como não espantar-se também diante da verdade?

Embora não nos demos conta, o habitual e o verdadeiro são autênticos milagres, principalmente quando é possível conhecê-los de antemão, digo, quando é possível prevê-los. O normal é que nos inteiremos de que são um e outro depois de serem fatos e depois de experimentarmos longa ignorância quanto ao que haveria de vir. Em fim de contas o verossímil termina por ser das expectativas a mais incerta.

Assim, se é mister classificar as literaturas e evitar as discrepâncias imediatas na conceituação das classes, que se o faça de maneira mais trivial, por exemplo, segundo a temática: a do cotidiano, no qual se incluem as paixões; a da especulação técnico-científica; a do mistério ou suspense, que abriga desde os crimes até o sobrenatural; a das idéias, como os ensaios, a filosofia e a vulgarização da ciência; e por fim a variada. A rigor é muito difícil encontrar obra exclusivamente classificável num único tipo.

Em virtude da natureza promíscua do modo verbal de o pensamento expressar-se, todos os temas perpassam com mais ou menos contundência toda e qualquer obra; o fato de predominar um tipo não impede a participação dos demais. O problema está em saber se tal ocorre de modo procedente. Por exemplo: se numa ficção científica a tecnologia, a ciência e a filosofia aparecem torcidas, isto é de somenos importância, o mesmo ocorrendo no caso de nos temas fictícios do cotidiano filosofar-se de maneira canhestra ou ocorrerem aparições do domínio sobrenatural.

Estranho, se não mesmo incômodo e intolerável, é o tema das idéias ser pontuado de argumentos sem consistência ou informações enganosas, salvo se está usando do artifício da ironia. Isto decorre do caráter de crônica desse tema, o único de entre os listados a ter compromisso incancelável com a verdade, com a realidade. No caso de insistir-se no uso do termo ’realismo’ para classificar alguma das literaturas, talvez seja este o tipo que mais o merece.

Semelhantes ocorrências derivam de circunstâncias variadas, visto a vulgarização da ciência ser em geral atribuição de leigos, jornalistas mais ou menos especializados no tema, ou de cientistas que, se fluem nas linguagens usadas nos respectivos ramos da ciência em que investigam, de hábito articulam mal essas idéias na linguagem comum. Há exceções, é natural, mas em vista de sua raridade fazem história, caso como o de Asimov, que terminou por dedicar-se exclusivamente à literatura, deixando de lado a prática letiva da ciência.

Entretanto as imperfeições na divulgação da ciência, se não mesmo na própria ciência, se devem ao manejo canhestro dos conceitos. O problema começa já na filosofia, responsável, na estrutura acadêmica, pelo estudo destes. Passando ao largo das recentes publicações destinadas ao público em geral, algumas das quais de boa qualidade, freqüente-se por exemplo o repertório de ensaios de filosofia ditos profissionais para se ter uma idéia do que é não fazer idéia daquilo sobre que se discorre. Justiça feita às exceções, pode-se dizer que o fantástico se manifesta ali sob a forma do absurdo, quando não cede lugar ao irrelevante.

É natural também que se exercite diante de quaisquer textos, e não apenas nos deste último tipo, o viés crítico, o qual não passa do continuado cotejo com a experiência pessoal com vistas à estimativa do que ao leitor parece mais ou menos próximo ao que considera como realidade. Na literatura de divulgação científica isto é de importância particular na medida em que somos circundados por quantidade crescente de artefatos derivados do estudo metódico do mundo, e não apenas para termos idéia de como manejá-los, mas também para o fazermos com a devida cautela.

Um dos exemplos mais recentes da penetração das descobertas de físicos, químicos e biólogos no quotidiano é a idéia de que ’tudo é quântico’, embora boa parte de quem o afirme o faça sem qualquer idéia do que ’quântico’ vem a ser - e imagino que se o soubesse mencioná-lo-ia com maior parcimônia. Já se tornou senso comum explicar o mundo por meio do funcionamento ainda pouco compreendido do que vai no minucioso abismo hoje tido por cerne da matéria, atitude em nada censurável em vista do padrão universal de raciocínio do homem, que não encontrou ainda alternativa eficiente para a lógica causal.

Assim, se admitimos que, embora organismos estudados e descritos na biologia, somos constituídos de substâncias que, por sua vez, derivam das combinações de outras elementares, derivando o comportamento destas da mecânica da estrutura em seus cernes, ditos atômicos, e estes, por fim, funcionando tal e qual o prescrevem os invisíveis efeitos em dimensões ainda menores, chamadas as dos ’quarks’ e similares, ora, então não deve haver dúvida quanto a estar tudo determinado desde esse universo quântico. É natural que de muitos eventos se encontrem as causas em dimensões mais imediatamente observáveis, equivalentes ou mesmo maiores do que a dimensão em que esses eventos se dão. Mas mesmo estas terão sido causadas ou podem ter suas causas atribuídas a essa dimensão ínfima, talvez mais em virtude do hábito do pensamento de acreditar que do menor deriva todo o maior do que do fato de ser precisamente assim que a realidade é.

Dado o repertório de conceitos fundamentais - com os quais se torna possível todo e qualquer raciocinar - ser um e o mesmo para o leigo e para o experimentado cientista (embora utilizado por um e por outro de maneiras distintas), e desde que é a própria ciência a responsável primeira por esta recente ’moda quântica’, nada mais natural que se pense no cientista como o primeiro a estar seguro de ser ’tudo quântico’. Tal não me pareceu ser verdadeiro, entretanto, à leitura de um breve artigo sobre pesquisas interdisciplinares de biologia e física quântica: só agora esses pesquisadores começam a assegurar-se de que somos mesmo determinados pelas atividades inusitadas dum mundo percebido apenas nos sintomas de maquinaria que só outras máquinas são capazes de detectar.

Constatar tão tardia certeza por parte da ciência, já passados mais de cem anos da predição da mecânica quântica e mais de oitenta de efetivo aparecimento do seu estudo, causou-me o espanto de quem pilha a si no curso de uma indiscrição ou dos que de súbito se inteiram de a realidade ser inteiramente diversa do que sempre acreditaram. A sensação é comparável - e o digo sem temor de incorrer no menor exagero - á descoberta, em obras de outro gênero literário, do que tornou Bentinho num Dom Casmurro ou de que o amor de Riobaldo não era outro homem. Em que acreditava a ciência antes de certificar-se de que até mesmo o pensamento parece dever-se ao comportamento de quarks, múons e outras subpartículas? Será que, na contramão do que afirmou Laplace, a ciência mais recente ainda tinha Deus por hipótese de causa universal passível de investigação por meio de instrumental ainda tão tosco? Ou esperava ela dar com outro conjunto de eventos com maior grau de probabilidade de ter atribuído a si o status de causa primeira?

Afora o desfrute dessa emoção típica da apreciação de obras da literatura de qualquer tipo, há também aquelas resultantes das especulações privadas em torno à constatação. Em primeiro lugar a de a realidade - a que nos habituamos considerar como ordenada, como um cosmo, e a despeito de com constância experimentarmos eventos inclassificáveis - ter por lastro uma dimensão na qual as ocorrências têm de ser interpretadas, desde esta dimensão vivenciada por nós, como enigmáticas ou contrariadoras do senso comum. Desse viés o tempo parece mesmo operar exumações cíclicas de idéias, como a dos gregos antigos de ser o caos a semente do cosmos.

Até o pensamento, em cuja pressuposta ordem somos induzidos a apostar, se de fato organizado, o é por obra de força ou esforço ainda hoje desconhecidos. O artigo mencionado centra-se nas observações do comércio de substâncias no interior das células, de como tornou-se possível flagrar a formação de processos regulares a partir das operações dos quanta, das quais logramos estimar apenas a probabilidade. Começa a ter-se alguma idéia de como o que chamamos de acaso se configura no que cremos ser constância. Em seguida os depoimentos dos cientistas entrevistados migram para especulações na área do funcionamento mental, é claro, visto conhecer-se o papel das interações químicas na constituição de vários de nossos pensamentos, como as emoções, e inclusive os manipularmos com substâncias exógenas já faz algum tempo.

Aponto ao menos mais um dos sentimentos experimentados à leitura do artigo e já referido acima quando se ponderou o desconcerto que pode advir de uma consideração menos parcial do comezinho: não é à toa que a regularidade seja mais assombrosa do que o acaso, já que em aparência é filha deste e em aparência o contraria, embora no momento - e justo pelo mesmo motivo - pareça assombroso que tal nos possa assombrar. Pois começam enfim a ruir as barreiras separando caos e cosmos, coisa que nos é possível realizar desde há muito, já que de há muito estamos de posse dos instrumentos para o fazer (desde, pelo menos, os tempos dos antigos gregos). Além do mais não é de hoje que descobrimos, por exemplo, nossa incapacidade de exprimir com precisão a medida de algo tão prosaico como uma barra de metal, de dizer com a exatidão desejada o momento de ocorrer um fenômeno qualquer e, enfim, de fazer corresponderem as respostas invariáveis fornecidas pelos números e a inquietude das coisas. E pensar, enfim, parece ser tão-só um desejo, o esforço de constituir-se em algo que ele não é, o desejo de escapar da natureza caótica e tornar-se numa quimera que, em face do comportamento mutante de todo o universo, não se sabe o que o inspirou.

Rio, 15 de fevereiro de 2009

Waldemar M. Reis



domingo, fevereiro 08, 2009

Escatologia pós-bohemiana


... e naquele dia mesmo haveria Deus de estranhar alguns dos resultados da Criação. Mais O impressionou o modo de adaptar-se da cadeia alimentar, certas espécies de bichos habituando-se ao sabor da carne de outras.
Não provera Ele, ora, o enlace incontornável, oferecendo-lhes os frutos em troca do transporte das sementes que abrigam para que germinassem noutros lugares? Era preciso ir além? Passar às folhas? Degustar as flores?
A um animal apenas, pequeno e delicado, mas não indefeso, concedeu aproximar-se destas e, inclusive, de fartar-se com o seu pólen, desde que auxilia o vento a dispersá-lo sobre suas semelhantes. Eram agora devoradas, mal saíam de botão.
Decerto por se demorarem mais no estômago, as folhagens contentavam os gulosos, muitos sequer dignando-se a erguer o pescoço, consumindo aquelas rasteiras, que ali dispusera com o fito de suavizar-lhes o contato do passo com a pedra.
Generalizado, o hábito de servir-se de partes vitais de outros seres teria um só limite, o da ingestão de indivíduos por inteiro, e daí para a animalada toda olhar-se de través foi passo. Entretanto muitos, incontáveis, alegrava-Se de constatar, permaneciam irredutíveis, resignados a não tornar seu o alimento exclusivo da terra.
A rigor, tudo, absolutamente tudo sobre a terra servirá para alimentá-la, mesmo enquanto vivos, regalando-a com seus dejetos que legião de animálculos refinam até o estado puro da substância. A ela cabem inclusive os frutos, os esquecidos ou desprezados pelos bichos: são, por assim dizer, o alimento comum.
Mas somente a ela, a terra, são reservados os seres - a ela e ao quanto vive inumado em seu ventre - e somente depois de mortos. Antes disso têm por missão apenas viver, comprazer-se da condição de vivos, assim como Ele próprio, que não tem escolher.
Nisso, pensa, reside a semelhança, a imagem de Si dispersa por tudo quanto há: o imperativo de existir, de persistir, da vida. Pois inevitável é que deixe marca Sua no que cria, nada havendo a ser imitado, de princípio, senão Ele mesmo. Faça-se o diferente, foi o que pronunciou, mas eis que depara ser que, se distinto de Si, o era por meramente ocupar espaço diverso do Seu: o Outro.
Muito tempo se passaria até convencer-Se Deus de que, se Lhe era o Outro infinitamente semelhante, nada obstava serem igualmente numerosas suas diferenças: pouca oportunidade sobrava a Si e ao Companheiro de privarem, dada a faina interminável de criar.
Iniciada, a obra não teria termo, perduraria: com o Outro vem à luz o lugar onde estavam e a percepção recíproca; vem à luz, por conseguinte, a própria luz e com ela miríades de ocorrências derivadas que por vezes O fazem sentir-Se qual mero observador do modo de se encadearem, mero descobridor das conseqüências do ato único, este, sim, criativo de fato.
Assim teria de ser. Uma questão de... Vontade - foi atalhado. De vontade. Em que, do mundo, não perpassa Tua Vontade, Pai? Por isso, imitando-O, tudo cria ou assim o crê. A bem dizer, re-cria. Mas seja o que for, o faz por querê-lo. E por tal transgridem-se Tuas regras, se é que as há. Por teres multiplicado - diversificado - a Vontade, confinando-a em cada partícula de Tua Obra.
Com insondável humildade meneia a cabeleira e sorri. Também nisto diferiria do Outro: ao menos por ser mais antigo, por ser O Criador, mas certamente por Lhe importar pouco a questão. O que é Ele sem mais nada? Nada, é evidente. Nem Ele próprio. Eis o que foi até criar.
No entanto, foi Algo, Algo na iminência vertiginosa de nada ser. Algo na ubíqua contemplação de Sua quase nula unidade. Fremia, assim, precipitando-se no abismo sem chão e foi tremente que bramiu o ’Fiat’, do qual jamais se ouvirá o eco pois não existirá confim no qual venha refletir-se. Ainda hoje, passado tanto tempo, apura o ouvido para escutá-lo e admira-se de que tenha assumido diversidade assim de estados, de densidades, a ponto de simular a existência de modos distintos de perceber, como o ver e o tocar, o pressentir.
Já andava longe a aurora do sétimo dia e quando não atentava, era como se houvesse silêncio, como aquele quebrado com O Verbo. E então preferia dar a este ouvidos a ser aterrado pela lembrança anterior, mas quase não o reconhecia como o Seu próprio grito. Revisitava assim todo recanto da Obra em busca do motivo e, embora se encadeasse tudo tal e qual determinara em Seu comando único, singularidades, não menos conseqüentes, teimavam em insinuar-se nos interstícios.
Fizera o bom. Concebeu-o para durar todo o sempre. Com seu urro creu banir a dor e constituir uma trama da qual estivesse ela de todo ausente, um mundo de criação pura, onde todo e cada indivíduo permaneceria, com a condição de auxiliar os demais a permanecerem: daí a idéia de os frutos serem o alimento, não as sementes, não a folhagem, não os corpos. Mas mesmo isto, a subversão de Seus Desígnios Primordiais, parecia aninhar-se entre estes como se eles próprios foram.
Também isto o impressionou, digo mais, impressionou-o muito, muito mais do que os desvios mesmos: que O desgostasse, mas que fosse, por outro lado, capaz de compreendê-lo, de entendê-lo como um derivatório a mais do Seu próprio ato. E, ainda que não entendesse como o compreendia, pascentou-se com o Seu continuado descanso.
Entretanto, intranqüilo e muito breve foi o Seu sono. As vagas do ’Fiat’ chegavam-lhe agora muito desvirtuadas, tanto que despertou. Contemplando a diversidade, percebeu esparsos alvoroços. Aproximando o olhar, deu com cena inimaginável, mesmo por sua infinita capacidade de criar, já que os bichos, embora caçando-se reciprocamente, não mais o faziam como justificavam: para saciar a fome e por se-lhes terem tornado sápidas as carnes dos semelhantes.
O Bem, em nome do qual pronunciara o universo, pareceu-lhe por inteiro dissipado. Responsável por tal fora uma criatura nova, aparecida aquando de Seu breve Repouso Sabatino, criatura singular que, além de matar sem fome ter, dizia fazê-lo para aplacar carências outras, como o agravo e o tédio. Fosse tanto insuficiente, dizia-se ainda feita á imagem e semelhança d’Ele, Pai.
Sentiu Deus, então, desejo de rir, como se para distrair certa cólera que, qual a do princípio de tudo, insinuava apossar-se de Si. E foi assim, rindo, que Se voltou para o lado, ainda esboçando num murmúrio o comentario por fazer, quando Se deu conta de estar só. Só é força de expressão, pois rodeava-o tudo quanto criou. Mas não podia referi-lo sem provocar transtornos, um dos quais, chegara a imaginar, o de estimular a vanidade no interlocutor.
Por isso para a Criação reservara apenas os ouvidos. Escutava-a como música e como música a tolerava, compreendia e apreciava. Havendo de dizer, dirigir-se-ia ao Outro, de constituição robusta o bastante para suportar o vigor de Sua voz. Não O encontrou, entretanto. Não O encontrava, a bem da verdade se diga, desde o meio desse interminável Sabá, desde quando Se deu conta dos primeiros desvios do que criou.
Estendeu, então, uma vez mais o olhar para os confins do todo, certo de encontrá-Lo sem demora: foi preciso mais de uma vez ajustar suas lentes para o diminuto, depois para o gigantesco e assim sucessivamente, até admitir que o Outro se dissipara. Tempos estranhos os que se seguiam: os do infinito Sábado à noite.
Por primeira vez cedeu à própria censura: descansara demais enquanto algo na Criação operara o inesperado e indesejável. A Obra tomara rumos próprios e em aparência incontornáveis. Veja-se só, dizia então para Si, como agem essas diminutas e presunçosas criaturas: em seu delírio imaginam-se concebidos à Minha imagem, embora não saibam dizer como sou (naturalmente, pois jamais me viram!), e matam-se em Meu nome, matam-se por achar cada qual saber mais sobre Mim do que os demais. A isto chamam de desagravo.
Parte deles cria ser bom o Deus que supunha conhecer, sendo maus os deuses conhecidos pelos restantes. Mecanismo demasiado simplista, gracejou Ele. À parte má emprestavam imagens e, aproximando o olho, viu Deus nessas faces a Sua própria, mas pintavam-nas quase sempre de vermelho, bem como ao corpo, e lhes apunham chifres, por vezes serpentes e entre as pernas uma invariável cauda.
E O adoravam! Isto era de fato extraordinário: adorá-Lo. Não fora com esse fim que criara. Quisera apenas companhia, seres que apenas reverberassem a existência, atributo único ao qual devia o ’Fiat’ e a Vontade, que O mantinham a distância segura do nada. Descansara, inclusive, nesse sétimo dia, por confiar nas propriedades desse atributo, a principal delas a meta de alcançar ou produzir o bem. Por isso retirara-se.
Mais adiante ouviu-os remoerem suas dores, delas a maior, para Seu assombro, a ignorância: pelo menos possuem alguma ciência de si, refletiu, não são de todo parvos, portanto. Mas a referida ignorância era singular, visto excederem em desejo o conhecimento deles próprios e do suficiente para susterem suas vidas efêmeras. Sequer os satisfazia a presunção de conhecê-Lo, pois nisso criam-se doutores, cada qual com suas convicções dando cabo dos restantes.
Desejam verdadeiramente conhecer a Minha origem, observa e ri entre dentes na ausência do Outro, para quem o diria. Ora, se nem mesmo Eu posso com segurança - e alguma tranqüilidade - dizer donde vim... Donde teriam sacado idéia tão estapafúrdia? Escutou falarem de profetas, em cujos desvarios ouviram mensagens Suas ou dalgum incercessor Seu. O teor, obsessivamente amargo, girava em torno dessa ignorância singular e repetia-se era após era.
Muito O impressionara o quanto sabiam de Si. Natural era que O intuíssem, pois guardavam Sua própria essência, como tudo mais; mas que conhecessem detalhes tantos da Obra e do Criador, incluindo a presunção de Lhe suporem origem, ora, isto era definitivamente insustentável. Ao fim de tais considerações, lembrou-Se de um certo diálogo, entretido não fazia muito, ainda pela manhã, cujo tema foi Vontade e transgressão.
Soube assim que deveria voltar-se, de imediato e ainda que só dessa vez, para onde dera as costas desde o primeiro dia, aonde não queria nem deveria retornar, mas assim mesmo o fez, mesmo sob o risco de pôr a perder a Obra toda: a mera proximidade seria o bastante. Creu não haver perigo em enviar de Si apenas o olho, mas nada viu.
Restou-Lhe então ir até a borda e usar de toda a Sua força para não ser tragado pela voragem. E ali pressentiu, a distância prudente do abismo colossal constrangendo-se sem detença na direção de ponto ínfimo e inatingível afundando-se no nada, a presença de algo, diga-se, de algo criado, pois como que ouviu ressonância do ’Fiat’ embrenhando-se no remoinho. Tratava-se de sonoridade singular, a de corpo triturando-se misturada a lamúrias ou gemidos de prazer frívolo: Ele não soube precisar.
Num esforço titânico afastou-se com lentidão, não por tristeza, pois não Se permitia entristecer: por profundo assombro. Sustentáculo da Criação, a Vontade obedecia à sua própria natureza, proporcionando a cada existente a determinação de durar. Esta, por sua vez, deu ensejo aos seres de se valerem de não importa o quê para a cumprirem, transmutando Vontade em desejo. Tal desespero, por fim, fez-se em método, estratégias por cujo intermédio melhor se lograva a duração.
E de apenas ser, de apenas o desfrute da Criação, chegou-se ao conhecê-la como condição desse desfrute. Mas o que levara o Outro a lançar-se no vazio? Ser como Ele? Ora, isto nem mesmo Deus era capaz de responder. Pois era o Outro como Ele, era-Lhe infinitamente semelhante - embora infinitamente distinto também. Tal não Lhe bastara? Tinha de saber como iniciara, donde viera, quando nem Ele próprio o sabia? Caso o soubesse, é claro, tudo o saberia como de nascença tudo sabe de Si.
Então percebeu Deus que tais pensamentos mitigavam-Lhe o esforço de esquivar-Se do vórtice. Concentrou-Se por um instante e logo estava de volta ao Seu retiro. Considerou uma vez mais aqueles animais presunçosos e litigiosos, crias de Sua cria, era-Lhe evidente agora, e cogitou de emendá-los. Depois pareceu esquecê-los, estirando-Se de novo no catre, donde mirava boa parte do universo: se assim os fez a Vontade, pensou, a Vontade os refará.
Rio, 08 de fevereiro de 2009
Waldemar M. Reis


terça-feira, dezembro 30, 2008

Desvendando o Plano Inteligente

Deus já foi mais simples. É o que ensina a História. Ao menos podíamos imaginá-Lo a partir do que víamos: os bichos, as árvores, o céu, a terra. Há quem sustente, entretanto, que nesse período já tínhamos conhecimento, por certo vago, desse Deus único, primeiro, criador de todas as coisas (inclusive dos deuses imagináveis ou visíveis), mas teríamos preferido deixá-Lo lá, para onde foi depois da faina da Criação. Decerto o fizemos por já intuirmos as dificuldades de concebê-Lo, destas a mais evidente aquela dizendo respeito à Sua origem: os outros, os deuses concebíveis, Seus subordinados, conformavam-se melhor à nossa exigente maneira de imaginá-los, para a qual tudo tem de ter um ponto inicial.
Somos até capazes de imaginar coisas sem fim, como o tempo, por exemplo, bastando associar certos sinais de sua passagem, digamos, os dias, aos dedos das mãos, repetindo o processo sempre que acabarem os dedos contados, ou mesmo associá-los à série numeral, da qual não achamos também o elemento último. Se admitimos que um dia tudo pode acabar, o vazio, além do tempo, recusar-se-á a sair da cena final que imaginarmos. Encontramos problemas, entretanto, para pensar algo sem começo: isto sempre começará em outra coisa, esta numa terceira, a terceira numa quarta e assim por diante; e no momento de pôr termo a esse processo, no momento de apontar a primeira de todas as coisas, o pensamento não hesita e pergunta: como isto teria começado? Como se vê, a despeito de descômoda para o pensamento a hipótese de algo não ter tido um começo, a tentativa de resolvê-la achando-lhe um começo termina por criar outra descomodidade, a de não encontrar um começo satisfatório.
Os primeiros visitadores do Deus único e primeiro não pareciam preocupar-se com tanto. Invocavam-No sem qualquer interesse por sua história e só os descendentes muito tardios destes viríamos acordar para o problema. Jamais o resolveríamos, embora as tentativas nos tenham rendido, entre outras coisas, a ciência, mas também os dogmas. Estes últimos dizem respeito aos limites do quanto é possível dizermos de Deus e passam a incomodar quando usados pela estreiteza de julgamento para coibir iniciativas como a da ciência. Já esta quer somente observar o mundo: admite que tenha sido criado - não pode escapar de conceber-lhe um princípio - e mesmo não a incomoda a idéia de um Criador, mas sua forma de observar parece frutificar sem mesmo tê-Lo como hipótese, segundo o afirmou certo sábio francês.
O bom cientista, já o sabia o referido sábio, não deve nem pode intrometer-se na alçada dos dogmas: por referirem limitações do pensamento, idéias imunes a qualquer esforço especulativo, sequer se oferecem à contestação (pois como contestar o impensável?). Os dogmas são como portais ao pé de que se vislumbra paisagem além, sendo embora impossível esboçar ao menos um passo nessa direção. Dogmas estão desde sempre em nossas mentes, pode dizer-se que os conhecemos desde quando nascemos e só quando inteirados de que pensamos tomamos ciência deles. No caso de Deus, os dogmas a seu respeito são como os axiomas de qualquer geometria: ou os admitimos como nos são dados, ou não traçamos linha nenhuma.
Isto equivale a dizer que nossa idéia de Deus, o primeiro e único, nasce conosco por inteiro, completa e, no entanto, inverificável. Outra forma de concebê-Lo não temos senão admitindo-O como inconcebível, impensável. É-nos igualmente impossível negá-Lo, ao menos enquanto princípio, enquanto origem, pois é preciso pensarmos algum, alguma, de que viria o quanto nos originou. Além disso, tudo mais a dizer-se d’Ele é incerto e, sobretudo, blasfemo. A onipotência, por exemplo: nada garante Seu poder além do fiat, que pode ter sido mero pontapé de um processo potencialmente imprevisível. Por isso, talvez, tenha-se afastado, deixando aos sub-deuses, mais habituados aos reveses do mundo, o cuidado para com os homens, indivíduos esses muito impressionáveis com a própria impotência. Coisa semelhante se diga da onisciência e da onipresença, caso as possuísse de fato: decerto nos daria maior proteção, atenderia com inteira presteza aos nossos chamados, pois teria idéia precisa e imediata de nossas aflições.
Afirmar Sua inteira perfeição, então, deve soar-Lhe como ácida ironia, em vista de o fazermos por contraste com nossa admitida condição imperfeita: como ter-nos-ia criado assim tão cheios de defeitos, de carências? É dessa maneira, segundo nos conta Feuerbach, que os kamchadalos, povo decerto já extinto da região a nordeste da Sibéria, o Kamchaca, O trataram: Kutka, nome que Lhe deram naqueles confins, só poderia mesmo ser estulto por tê-los posto num mundo de meses gélidos e montanhas intransponíveis. E estultice, para bom entendedor, é eufemismo por trás do qual bondosamente os kamchadalos escondiam atributo ainda menos apreciável, a maldade. Afora o de iniciador da criação, por conseguinte, as restantes qualidades que - até numa atitude sincera - cremos ver n’Ele terminam por transformar-se em graves acusações. Para quem O ama incondicionalmente, portanto, melhor é concebê-Lo assim, quase inqualificável.
A verve do cientista não poderia permitir-lhe que se imiscuísse em querela dessa monta, se de querela é possível chamá-la. A empresa de compreender Deus, como é evidente, em si mesma é paralisante. Passo nenhum pode dar-se nesse terreno sem risco de vertigens abismais. Eis as razões de a ciência ter-se voltado para os objetos dos sentidos imediatos, deixando Deus em Seu retiro previdente. Mas não se pense que a ciência, embora não O pressupondo em suas observações, não queira chegar a Ele: tudo em seu modo de agir o demonstra, pois tem por meta o achamento do princípio universal, o qual quase involuntariamente tendemos a chamar de Deus. À diferença da atitude religiosa, entretanto, a científica parece desprovida da mesma pressa, como se quisesse construir sua opinião sem prejulgamentos, a partir de somente o que pode sentir, para estar munida, quando diante d’Ele estiver, dos argumentos bastantes para o debate fluido, sem as arestas das emoções.
E não se pense também que em sua faina prescinda o cientista de emocionar-se. Seria uma tolice caso o admitisse, pois sabe que as emoções são tudo com que conta para investigar o mundo. As emoções são como sentidos internos voltados para o quanto os outros, externos, colhem no entorno. As emoções são como sinais indicando ser o que percebemos bom ou não. E de bem em bem desvelamos os caminhos seguros a serem trilhados. Seja qual for o seu apuro, a ciência é um tecido de bens cuja utilidade primeira é prover-nos da permanência, é permitir-nos durar. Pode tratar-se de mera ilusão, advertem uns obstinados observadores dos atributos de Deus, pode ser que duremos por obra e graça d’Ele somente, e arrolam como prova nossa própria transitoriedade: seja qual for o esforço, seja qual for o refino da ciência, um dia desaparecemos todos. Como se disse há pouco, o cientista não pode também dar ouvidos a semelhante cantilena e assim age como se dependesse apenas de si permanecer sobre a terra. Mesmo porque, caso tenha razão quem o admoesta desse modo, é na própria autonomia que em aparência quer Deus que ele acredite.
A despeito de tanto cuidado, de trilhar seu caminho no encalço do bem, não caminha a ciência por linhas retas, sequer por curvas ou outras quaisquer de alguma previsibilidade. A incerteza também a persegue, sendo possível vê-la mover-se em ziguezague, retroceder e até deter-se por lapsos consideráveis. Às vezes lhe passa pela cabeça ser o mundo interminável, às vezes está certa de sua finitude. Às vezes a paralisa uma dessas considerações, às vezes parece que a excitam quase ao delírio. Entretanto o bom cientista sabe ser este um falso problema: seja qual for a grandeza do mundo, não há um fim possível para a empresa de conhecê-lo, já que isto é tarefa exclusivamente relacional, tarefa de ligar uma coisa com todas e cada uma das demais, bastando ter alguém uma rasa idéia de como se processam as permutações para abrir mão de sequer começar o enunciado do numeral em que a operação resultará. Observando desse viés, percebe o cientista ter trabalho para sempre. Por outro lado, sabe que é possível pôr um fim em sua labuta e esse ponto final se chama Deus, o qual não estaria somente na ponta extrema de uma caminhada imensurável: a qualquer momento pode a ciência dar por terminada sua missão, bastando para tanto usar o nome d’Ele para expressar a causa de seja o que for.
Nesse ponto parece extinguir-se toda a curiosidade que à ciência motivou. Para os bons conhecedores do gênero humano, nada obstante, ocorreria apenas uma mudança de objeto da compulsão do saber. Toda a ciência tomaria então o nome de Psicologia de Deus, já havendo, inclusive, quem a pratique, em grande parte do viés da religião, os restantes desde suas cátedras científicas. Acreditam estes permanecer nos domínios naturais da ciência, mas é bastante possuir-se razoável senso de observação para concluir, como aqui se demonstra, que andam já pelo reino do sobrenatural. Se inquiridos, rejeitarão qualificar o que fazem de anticientífico e mesmo de paracientífico ou de misticismo. Nem quando apresentados os sinais inequívocos de sua inclinação seriam capazes de reconhecê-los como próprios de uma Psicologia do Divino, ciência futura da qual talvez não possuamos ainda as bases suficientes para desenvolvê-la a contento. Por ’bases’ tem-se aqui o tipo de conhecimento cuja verificação apresente consistência mínima, digo, cuja verificação não redunde quase de imediato em paradoxos, em contradições e outros impeditivos paralisantes da ação do pensamento.
Passando ao largo do redundante Criacionismo, espécie de investida de maus leitores das fábulas bíblicas contra o ainda pobre mas consistente acervo da biologia depois de Darwin, ao introduzir a Psicologia do Divino tenho em mente uma corrente mais sutil de pensamento, quiçá sorte de polimento dado pelos criacionistas às suas elucubrações de modo a torná-las menos repulsivas aos critérios da ciência. Em tese consiste em afirmar a existência de um Plano Inteligente, à primeira vista parecendo designar a expressão tão-só substituto menos prolixo e de apelo metafórico mais contundente para Sistema de Propriedades Notáveis, como pareceria mais ao gosto científico chamar o mundo. Inteligência, em primeiro lugar, é apenas o nome da medida - demasiado imprecisa, como suas semelhantes - utilizada pelo homem para avaliar a eficiência da sua e da ação de outros seres no mundo. Assim de princípio, observado sem a malícia do polemista, o emprego de ’Inteligência’ na expressão mostra-se em perfeita conformidade com os pressupostos científicos. Mas basta acrescentar que inteligente, segundo o uso corrente do termo, é qualificativo aplicável somente a algum sujeito, este entendido como indivíduo dotado de vontade própria e capacitado a responder pelos próprios atos, esteja ou não submetido a um outro: isto feito, configura-se o problema.
Acompanhado como está na expressão por ’Plano’, o termo ’Inteligência’ não deixa dúvida de que quem utiliza ambos pressupõe um interlocutor, o qual poderia em tese ser inquirido acerca do que planejou. É claro, é possível ainda conservar a atitude científica diante da inteligência de tal plano e continuar reservando-se o prazer de decifrá-lo sem necessário ser lançar mão da menor pista fornecida por quem o elaborou. E pelo jeito é assim que devem proceder os investigadores do Plano Inteligente, ou seremos levados a crer que gozam de privilégio não estendido a nós outros, os menos do que meros mortais. Teriam eles de fato acesso a um canal privilegiado de contato com Ele? Em face do que afirmam só nos resta permanecer na dúvida, pois entre as razões apresentadas para o estabelecimento do novo viés estão, à primeira vista, algumas observações, todas muito criteriosas, do funcionamento geral da vida. Revelariam elas sistemas cuja forma atual resiste à interpretação evolucionista segundo a preconizou Darwin, a saber, que derivariam uns organismos de outros sutil e paulatinamente em resposta às exigências do meio. Tais sistemas só poderiam advir por inteiro e entre eles está o DNA, a essência da vida.
O próprio Darwin, até onde sei, teria considerado a possibilidade de deparar-se com mistérios desse tipo. Alguém ou ele mesmo os chamou de Complexidades Irredutíveis, indicando que não poderiam aparecer senão completos e não lentamente derivados de sistemas quaisquer. Uma visão apressada do quadro induz de imediato à consideração de que também no tempo de Darwin a mentalidade comum relutou em aceitar que nos parecemos com os símios e que outrora a eles nos assemelhamos ainda mais. Foram precisos século e meio de escavações incansáveis para hoje, com o endosso da análise dos genes, aceitarmos o parentesco. A solução estava em encontrar elos a porem em contato pontos descontínuos de uma presumida cadeia que, a despeito de ainda muito incompleta, é tida por prova suficiente de sermos de fato mais próximos dos macacos do que de qualquer outro animal. Mas o Plano Inteligente vai além, afirmando: por mais notáveis que sejam as propriedades do sistema, a pressuposta forma de este operar, com o uso do acaso, não seria capaz de produzir Complexidades Irredutíveis como o DNA ou o flagelo inusitado de uma determinada bactéria.
Neste ponto, ao lado de ’Plano’, ’Inteligente’, ’Complexidade’ e ’Irredutível’, entra em cena ’Acaso’. O acaso, então, não daria origem a Complexidades Irredutíveis. Um documentário sobre o tema ilustra muito bem o problema contrastando a rocha talhada ao acaso em contigüidade com as quatro cabeças dos presidentes norte-americanos esculpidas na mesma matéria, ou a ação caotizante do mar sobre uma frase rasgada na areia da praia: ventos e movimentos tectônicos não esculpiriam bustos de humanos nem frases seriam escritas pelo mar. A ação de uma inteligência - mais ainda, de uma vontade - torna-se clara nos contrastes. A biologia do Plano Inteligente leva-nos a concluir que a Criação, se obra genuína de Deus, consumou-se em ao menos duas partes após o fiat: para a primeira teria concorrido o acaso e em seguida, depois de aleatoriamente moldadas as montanhas, de aplainadas as praias pela água, retornaria Ele à cena resultante e, considerando-a palco ideal para o que concebera então, entregar-se-ia a modelar as Complexidades Irredutíveis. Para o aficcionado dos jogos de simulação do Will Wright eu diria sim, é assim que se joga Sim City, Sim Earth ou Sim Life, embora não seja certo que esse autor buscou no novo viés da biologia sua inspiração. Acho mesmo possível ter ocorrido o contrário.
Escuto, depois desse pensar, uma voz conhecida falando-me desde a imaginação, adversando com a consideração de não haver necessidade de invocar diretamente Deus no aparecimento da vida, pois a vida como a conhecemos, certamente obra de uma inteligência, pode dever-se, por exemplo, a ente igualmente criado, quiçá aparecido, sim, das operações do acaso... Embora canhestra, a hipótese merece réplica, como a de que nela mesma já se considerou a ação de um Criador Primeiro, antecessor desse criador da vida, ainda que este tenha sido criado pelo Acaso. E investigações nessa direção, já experimentamos, são fontes de vertigens e paralisações. Além disso, tal ser criado - e nosso suposto criador - estaria para nós no altar reservado ao que chamaríamos de Deus. Seja, enfim, quem tenha sido o planejador da vida, ele teria trabalhado, segundo a biologia do Plano Inteligente, a partir de coisas já existentes. O acaso lhe teria fornecido a matéria sobre que plasmaria sua inteligência. Em suma, traçar do mundo físico a evolução levar-nos-ia à sua origem simples e à sua transformação paulatina e aleatória no que hoje contemplamos. Já o caso da vida seria outro, daríamos com o seu artífice, a quem outrossim pouco teríamos a perguntar, visto já sabermos o essencial - as moléculas, o modo de agruparem-se e como se replicam. Ir além disso seria arriscar-se a ter como resposta aquele gênero do consideração que ensaiam os artistas fazer quando inquiridos sobre os motivos para terem realizada sua obra: "fi-lo porque o quis".
Como os biólogos do Plano Inteligente, também os físicos, os químicos, os geólogos e, creio, até os evolucionistas empedernidos têm de eventualmente ceder ao puro êxtase em face das maravilhas que desvendam. Em meio às metáforas de que se valem para exprimi-lo estão certamente ’Plano’, ’Inteligência’ e, talvez a mais hiperbólica, ’Autor’. Isto se deve à inevitabilidade da idéia de um princípio, de um Deus único que, nada obstante aperfeiçoada nos derradeiros milênios, não logrou ainda a forma adequada para sem atritos introduzir-se no discurso científico. Entretanto nada impede que um investigador do mundo a introduza, particularmente nos momentos de desfrute, quando pausa seu trabalho e se permite mais amplamente contemplá-lo, não raro suscitando hipérboles sintomáticas do seu prazer com o próprio ofício. Isto não significa também que a ciência não se construa com metáforas. Para a ciência não há como escapar destas, pois consistem na própria linguagem: metáforas relacionam coisas distantes entre si - no espaço, no tempo ou na constituição - e se validam por haver em comum no que relacionam o suficiente para o estabelecimento de tal relação (devemos a Borges, lembremos, essa visão simplista e eficiente do conceito). Mas do viés científico a metáfora só se consolida quando, mesmo hiperbólica, é amparada por outras metáforas menos ambiciosas e cujas partes guardam assemelhamento maior. De hábito reservam-se as hipérboles para as expressões puramente emocionais.
Mas há hiperbolismo em ver na vida um plano inteligente? Creio que mais de um, deles o primeiro a inferência imediata de haver um autor. Depois, o que seria a inteligência? Como se mostrou, uma medida da ação eficiente do sujeito no mundo. Assim, se dum lado é plausível a atribuição de inteligência ao criador da vida, pois ele teria agido como todos os sujeitos têm de agir, ou seja, transmutando a matéria com alguma finalidade, doutro lado não me parece adequado atribuí-la a quem criou a matéria com que depois é criada a vida, não ao menos nas condições iniciais que costuma supor a religião para o seu trabalho, isto é, o nada. É claro: se inteligência é termo designando a capacidade de operar após o advento do mundo, seria lícito atribuí-la a quem o sacou quando nada havia? E digo mais: se criar designa mais exatamente trazer à existência, seríamos nós, que apenas juntamos o já existente, criadores? Suponho que sejamos apenas inteligentes - se tanto. Deus, à medida que o intuamos melhor, num tempo muito mais à frente, por certo revelar-se-á detentor de faculdades ainda mais impressionantes do que a da inteligência, faculdades quiçá para sempre incogitáveis, como Ele próprio o é, por nosso singelo aparato cerebral.
Por fim, ’Plano’ é o termo que vem lacrar a estreita relação dessa nova biologia com o nem tão antigo Criacionismo. Associado à impossibilidade de reduzir certas estruturas complexas a partes evolvendo, tem-se panorama decerto o mais terrífico para o âmbito do conhecimento em geral e da ciência natural em particular: entes postados cada qual no seu nicho de espaço e tempo reproduzindo-se com variações mínimas no universo de cada espécie sem guardar com os entes de outras espécies qualquer significativa relação. Em vista da irredutível complexidade dos seus respectivos genes e a despeito das assemelhações, sequer homens e chimpanzés teriam derivado de um mesmo ancestral. Nesse passo teríamos de retomar a hipótese de geração espontânea e as demonstrações de Berkeley e Malebranche, até as assimilarmos completamente, voltariam a assombrar o cotidiano universal. Cairia por terra o pressuposto maior da filosofia que, de ’tudo é um’ (segundo interpretou Nietzche a máxima de Thales), teria de enunciar-se ’cada coisa é uma’ (ou melhor, ’cada coisa é cada coisa’): a categoria universal, tão discutida na Metafísica, seria posta de lado, bem como a ciência na forma que a cultivamos, doravante voltada para o particular. Borges rir-se-ia sem a costumeira modéstia, pois só o memorioso Funes, de sua invenção, se habilitaria a dar conta de mundo assim diverso, mundo em que a metáfora não passaria de um delírio e onde cada coisa, incomparável a qualquer outra, teria de ter designação exclusiva.
’Plano Inteligente’ a mim parece mescla pouco refletida de conceitos mal aplicados e entendidos. Configura-se como recurso da indústria religiosa tencionando ampliar sua dominação de milênios sobre a ciência, a qual seria, em aparência, infensa às suas ações. Revela-se como sintoma da ignorância dos doutores da religião, que não compreendem o potencial do conceito central em seu poder, o conceito de Deus, incontornável, inevitável, irrecusável e nada obstante imune a toda investida lógica ou experimental visando demonstrar seja o que for a Seu respeito, inclusive a Sua real existência. Do ponto de vista estritamente científico, ’Plano Inteligente’ só pode representar exclamação do gosto do cientista diante do quanto foi possível descobrir. Caso contrário, deve indicar postura presunçosa da ciência, prestes a cruzar os braços até que encontre o suposto responsável pela criação dos objetos de seu estudo. E se alguns desses cientistas já não O encontraram, quando o fizerem, do diálogo entretido é provável constar uma passagem assim: "o que mais querem vocês? já sabem como funciona, já sabem quem fez; agora, por favor, deixem-me em paz!"
Rio, 29 de dezembro de 2008
Waldemar M. Reis

terça-feira, outubro 07, 2008

O mundo acabou?

E nós temendo, faz poucas semanas, uma hipotética hecatombe iniciada no novo acelerador de partículas. Antes fossem fundadas tais premonições. Ao menos seria catástrofe instantânea, diga-se, inteiramente imperceptível, como asseguram os físicos. Um espírito polêmico sentir-se-ia à vontade para perguntar: não teria ela ocorrido de fato e não viveríamos agora no tão sonhado e temido Além?


É impossível responder-lhe com acerto, mas sendo mesmo este o caso, pouco se observa de diferente da vida passada, permanecemos no Purgatório, com a particularidade de alguns de seus aspectos parecerem agora mais veementes: a atmosfera sofre de um certo exagero, com tufões gerando-se em questão de minutos e mantendo-se no ar por dias ou dissolvendo-se logo que transpõem o horizonte, gélidos meios-dias cheios de sol e a bolsa - meu Deus! - a louca bolsa desgrenhando-se em meio à plácida fartura das linhas de montagem e do deslocamento incólume das multidões na densa névoa de Pequim. Sim, continuamos no Purgatório, embora - quem sabe? - tenha-nos mesmo pulverizado a curiosidade da ciência ao produzir mero arremedo do fiat primevo. Continuamos no Purgatório por não existir, talvez, senão Purgatório, misto de abundância - dádiva celeste - e insaciabilidade - sua contrapartida infernal. Talvez seja o caso de o mundo continuar o mesmo depois de acabado (por lhe ser impossível inexistir, segundo afirmou alguma filosofia), apresentando somente uma alteração na intensidade das coisas.


Isto é o suficiente, entretanto, para tirar dos trilhos, além dos cinco básicos, o sexto e mais crucial dos sentidos: o da premonição. E como o provocou uma flutuação quântica, useira e vezeira em inverter a seta do tempo, seus efeitos se fizeram sentir antes mesmo das causas: pressentimos catástrofe, é verdade, mas não a do retorno do mundo ao pó; antevimos a pulverização do quanto pensamos dele, o vasto sistema de valores erguido ao longo dos dois ou três últimos milhares de anos. E então testemunhamos o desvario dessa senhora sobre quem pesou guardar a integridade do castelo de retângulos de papel, discos de metal e cartões em plástico cujo colapso tirou-lhe o tino.


Vendo-a assim, parece não haver dúvidas de que enlouqueceu de vez, mas diante da universal e continuada indiferença para com sua aflição é possível notar um certo exagero em como a demonstra, um tom de encenação (pois mesmo para a loucura são impostos limites). Peregrina nos dias úteis ao redor da Terra que, por girar sem descanso, obriga-a ao cumprimento de jornadas noite adentro, quer, em resumo, cooptar a comoção geral, suscitar o desespero mundial pelo desmoronamento de seu efêmero fortim; quer cumpridos os termos pelos quais nos apalavramos, ver ruir também cada parte do mundo que as peças de seu castelo representam.


Até há pouco não merecia senão a piedade circunstante e por seguidores não tinha mais do que os conhecidos arautos do apocalipse. Mas tamanha é a insistência do desvairado cortejo que se observam, com o passar dos dias, novos adeptos: abandonam seus afazeres para lhe fazerem coro no conhecido bordão com que ora pede, ora suplica, ora exige que tudo pare. Caso sucedam os seus planos, em breve estaremos todos na comitiva e, quem sabe, ajudamo-la a reerguer o edifício de papel, discos metálicos e matéria plástica, recebendo pela tarefa algum soldo, que de pouco ou nada nos servirá até voltarem à ativa engrenagens e arados. Enquanto isso poderemos restaurar outros aspectos saborosos da vida, como a circulação de promessas, essenciais na constituição da certeza de possuirmos algum futuro.


De momento a reconstrução do mundo oferece ainda pouca vantagem e portanto não há motivo para empreender nada. Além da saciação da fome e da sede, o que se promete a quem nos provê do alimento? Muito pouco, avalia-se. Por que? Por tratar-se, ora, de crise, e de crise do essencial, do pressentimento. Em tempos dela todo o mais perde a importância, inclusive o viver! O mecanismo é simples, lógico, fácil de entender: o futuro só existe para quem é capaz de pressenti-lo, mesmo que sem o esperado acerto, não havendo instrumento tão eficaz no estímulo de pressentimentos quanto as promessas que, mesmo insustentáveis e conseqüentemente descumpridas, mantêm sempre aberto o caminho para as cobranças. E cobros de prometidos são exercícios infalíveis da construção do futuro, mesmo sendo ele rancoroso e triste.


Estão em crise nossos futuros por não sermos capazes de concebê-los de outro modo; projetamo-los muito além do que somos capazes de divisar; há mais promessas do que possibilidades de honrá-las. Crise de futuros só se dá no rastro de crise outra, esta mais séria, mais grave e porventura perene, mas constantemente contornada pelo trabalho incansável de legisladores e com freqüência subestimada enquanto não acomete o pressentimento: trata-se de crise da honra mesmo, sustentada em sua latência pelo pendor humano para o ludíbrio, este gerado pela universal propensão para a indolência, que não pode senão ser controlada, jamais extinguida. Em tempo de incêndios como este pouco se obtém no rescaldo, a não ser a certeza resignada de que praticamente nada se queimou, pois nada havia para queimar senão vaidade insustentável, equilibrada sobre esperteza de tipo efêmero, incapaz de manter-nos convencidos da segurança que inspiram os seus cofres de papel. Tempo promissor, sim, embora as dádivas que anuncia não tenham o apelo das antigas.


Parece que a ciência conseguiu mesmo dar fim no mundo - e isto é tão certo quanto é impossível provar o contrário. Em sendo esta a realidade pós-apocalíptica, prova de a destruição do mundo ser espécie de decaimento em outro semelhante e talvez somente mais atroz, não faltará quem lamente a impossibilidade de ele tornar-se nada.


Rio, 07 de outubro de 2008


Waldemar M. Reis


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