Ensaios e afins
Os escritos a seguir são partes do jogo simplório de periodicamente lançá-los à maneira de garrafas com mensagens ao mar, embora subvertendo o sentido ordinário do gesto. Pois tendo o propósito inicial de auxiliar o autor na organização do pensamento, seu teor deixa clara a presunção de não ser exata ou tão-somente ele o náufrago a que se destinam.
domingo, janeiro 09, 2011
Experimentando a causa final
sábado, janeiro 08, 2011
Sem poesia
Livre é você. Sou apenas justo, embora incompreendido.
terça-feira, junho 09, 2009
O Passageiro da Caixa-Preta
Nada mais admirável num avião do que a caixa-preta. Um diminuto objeto, para dizer quase tudo, talvez o único de todo o aparelho a escapar da mais variada gama de acidentes com integridade suficiente para revelar o enredo da tragédia. Em termos de resistência o seu conteúdo é dos mais perecíveis de todo o conjunto, incluídos os passageiros, o que por certo parece ser o bastante para justificar o engenho empregado em fazê-la indestrutível ou próximo disso.
A própria existência de tais objetos, sem falar na cor que lhe aplicaram no nome, me sugere sentimentos tenebrosos. Ela é a prova de que desastres com esse meio de transporte são efetivamente inevitáveis, ou melhor, imprevisíveis. Caso contrário, qual seria sua necessidade? E por ser refratária, ao contrário do restante do avião, a caixa-preta é evidência do maior apreço dos fabricantes, engenheiros e empresários da aviação pela história (a das catástrofes, no caso) do que pela integridade dos seus semelhantes.
Passando ao largo desta última constatação, os demais pensamentos entristecem quando se percebe também que os altos preços das passagens aéreas não referem apenas o ressarcimento da pesquisa por segurança nos vôos, mas, a rigor, a financiam. Somos todos, então, potenciais voluntários de uma perigosa e lucrativa experiência sem prazo de conclusão. Entre suas metas, naturalmente, a integridade dos viajantes - ou assim anunciam. Antes desta, entretanto, está o ganho milionário dos empreendedores - os fabricantes - e seus intermediários - as companhias aéreas.
Nada de errado há em oferecer-se como cobaia para experimentos, mesmo os de risco, exceto quando não se está consciente das adversidades possíveis, quando não se é advertido delas de antemão. Ora, podem contestar-me: os passageiros de aviões, salvo exceções óbvias, estão plenamente informados dos riscos dessas viagens. Dir-se-ia que sim, que é verdade, não fosse a insistente afirmação, supostamente extraída de estatísticas, de ser a aviação o meio de transporte mais seguro do mundo, quiçá o mais seguro de todos os tempos. Um exemplo desse lugar-comum foi o comentário do Joelmir Beting, menos de um dia após o recente desaparecimento do jato da Air France: nos Estados Unidos morre-se mais em virtude de picadas de abelhas do que de quedas de avião. A ironia - ou o sarcasmo - explícita é inerente à fraseologia desse comentarista de economia e finanças.
O problema está em, nada obstante a maior correção do cientista, exercer-se a ciência em associação com o capital. É o exercício das finanças que cobra do pesquisador a continuada perfídia de modo a manter o fluxo do lucro em volume suficiente para saciar quem investiu inicialmente em seu trabalho. Por conta dessa aliança somos induzidos, os chamados usuários dos produtos e serviços (e, na verdade, objetos vivos de experiências), a esperar de incontáveis destes mais do que o devido, quando não a perecer e, caso a história venha adotar-nos, figurar para o futuro como meras vítimas do destino e não como heróis ou mártires do conhecimento, da ciência, sem cuja iniciativa suicida as gerações subseqüentes - é provável que de cobaias também! - não estariam onde estarão.
É ela, nos derradeiros tempos, a puxar o carro da curiosidade humana e a induzir, mesmo que inadequada ou duvidosa, uma aplicação para seja o que se descubra ou invente nos laboratórios sob seus auspícios. Desde que viável em termos de lucro, todo rebotalho ali produzido ganha no mundo alguma utilidade. Nem a onda natural, hoje transmutada em ecológica, escapa desse procedimento, embora - quem sabe? - um dia aufiramos dela algum benefício... Tendo como aliada a propaganda, capaz de com suas artes insinuar-se na vontade geral, conclui-se que o mercado é a única de todas a invenções humanas cuja serventia é passível de previsão mais segura. Quando sai dos trilhos, a razão é evidente, embora se finja dissimulá-la: malversação continuada. Das outras criações do espírito do homem pouco é possível dizer quando desandam. Até os relógios atómicos atrasam (muito pouco, mas atrasam) e mesmo as caixas-pretas, a despeito de sua aludida solidez, podem perder-se para sempre.
Waldemar M. Reis
domingo, fevereiro 22, 2009
Darwin, pecador
Darwin não soube em que se metia. Avaliou mal as conseqüências de sua hipótese. No seu rastro vieram a selvageria esclarecida dos mercados, a eugenia e argumentos capciosos justificando o racismo. À exceção da entropia, tudo parece evoluir no mundo feliz dos seres superiores.
Seu pecado, entretanto, não foi exclusivo, tampouco inédito. Toda uma civilização cantava e ainda canta a igualdade de ’progresso’, ’aperfeiçoamento’ e ’evolução’, nada obstante tenha sempre sabido que doenças e outros malefícios também progridem ou evoluem e mesmo se aperfeiçoam.
É verdade, sim, entendemos ou procuramos entender o mundo, exercemos um falar complexo e produzimos livros. Em que, entretanto, isto nos tem ajudado a escapar da sina comum a toda forma de vida?
Isto para nos darmos conta do quão perigoso é o uso dos conceitos. Como na aplicação da matemática, é suficiente um sinal a menos, um ponto fora do lugar para mudar a rota de uma nave ou pôr uma casa no chão.
Rio, 22 de fevereiro de 2009
sábado, fevereiro 21, 2009
De literatura, caos e pensamento (um caminho possível entre três temas)
"Que a rosa não se desfaça em borboletas e da macieira não brotem diamantes, não é mais surpreendente que a rosa, as borboletas, a maceira e os diamantes". Antonio Caetano
O fantástico é o único ramo possível da literatura, já dizia Borges. Por mais realista que tente ser um autor, inevitavelmente produzirá situações inusitadas ou não causará interesse. A rigor é a vida mesma fantástica por natureza, por ser imprevisível.
Embora não nos demos conta, o habitual e o verdadeiro são autênticos milagres, principalmente quando é possível conhecê-los de antemão, digo, quando é possível prevê-los. O normal é que nos inteiremos de que são um e outro depois de serem fatos e depois de experimentarmos longa ignorância quanto ao que haveria de vir. Em fim de contas o verossímil termina por ser das expectativas a mais incerta.
Em virtude da natureza promíscua do modo verbal de o pensamento expressar-se, todos os temas perpassam com mais ou menos contundência toda e qualquer obra; o fato de predominar um tipo não impede a participação dos demais. O problema está em saber se tal ocorre de modo procedente. Por exemplo: se numa ficção científica a tecnologia, a ciência e a filosofia aparecem torcidas, isto é de somenos importância, o mesmo ocorrendo no caso de nos temas fictícios do cotidiano filosofar-se de maneira canhestra ou ocorrerem aparições do domínio sobrenatural.
Semelhantes ocorrências derivam de circunstâncias variadas, visto a vulgarização da ciência ser em geral atribuição de leigos, jornalistas mais ou menos especializados no tema, ou de cientistas que, se fluem nas linguagens usadas nos respectivos ramos da ciência em que investigam, de hábito articulam mal essas idéias na linguagem comum. Há exceções, é natural, mas em vista de sua raridade fazem história, caso como o de Asimov, que terminou por dedicar-se exclusivamente à literatura, deixando de lado a prática letiva da ciência.
É natural também que se exercite diante de quaisquer textos, e não apenas nos deste último tipo, o viés crítico, o qual não passa do continuado cotejo com a experiência pessoal com vistas à estimativa do que ao leitor parece mais ou menos próximo ao que considera como realidade. Na literatura de divulgação científica isto é de importância particular na medida em que somos circundados por quantidade crescente de artefatos derivados do estudo metódico do mundo, e não apenas para termos idéia de como manejá-los, mas também para o fazermos com a devida cautela.
Assim, se admitimos que, embora organismos estudados e descritos na biologia, somos constituídos de substâncias que, por sua vez, derivam das combinações de outras elementares, derivando o comportamento destas da mecânica da estrutura em seus cernes, ditos atômicos, e estes, por fim, funcionando tal e qual o prescrevem os invisíveis efeitos em dimensões ainda menores, chamadas as dos ’quarks’ e similares, ora, então não deve haver dúvida quanto a estar tudo determinado desde esse universo quântico. É natural que de muitos eventos se encontrem as causas em dimensões mais imediatamente observáveis, equivalentes ou mesmo maiores do que a dimensão em que esses eventos se dão. Mas mesmo estas terão sido causadas ou podem ter suas causas atribuídas a essa dimensão ínfima, talvez mais em virtude do hábito do pensamento de acreditar que do menor deriva todo o maior do que do fato de ser precisamente assim que a realidade é.
Constatar tão tardia certeza por parte da ciência, já passados mais de cem anos da predição da mecânica quântica e mais de oitenta de efetivo aparecimento do seu estudo, causou-me o espanto de quem pilha a si no curso de uma indiscrição ou dos que de súbito se inteiram de a realidade ser inteiramente diversa do que sempre acreditaram. A sensação é comparável - e o digo sem temor de incorrer no menor exagero - á descoberta, em obras de outro gênero literário, do que tornou Bentinho num Dom Casmurro ou de que o amor de Riobaldo não era outro homem. Em que acreditava a ciência antes de certificar-se de que até mesmo o pensamento parece dever-se ao comportamento de quarks, múons e outras subpartículas? Será que, na contramão do que afirmou Laplace, a ciência mais recente ainda tinha Deus por hipótese de causa universal passível de investigação por meio de instrumental ainda tão tosco? Ou esperava ela dar com outro conjunto de eventos com maior grau de probabilidade de ter atribuído a si o status de causa primeira?
Até o pensamento, em cuja pressuposta ordem somos induzidos a apostar, se de fato organizado, o é por obra de força ou esforço ainda hoje desconhecidos. O artigo mencionado centra-se nas observações do comércio de substâncias no interior das células, de como tornou-se possível flagrar a formação de processos regulares a partir das operações dos quanta, das quais logramos estimar apenas a probabilidade. Começa a ter-se alguma idéia de como o que chamamos de acaso se configura no que cremos ser constância. Em seguida os depoimentos dos cientistas entrevistados migram para especulações na área do funcionamento mental, é claro, visto conhecer-se o papel das interações químicas na constituição de vários de nossos pensamentos, como as emoções, e inclusive os manipularmos com substâncias exógenas já faz algum tempo.
Rio, 15 de fevereiro de 2009
domingo, fevereiro 08, 2009
Escatologia pós-bohemiana
terça-feira, dezembro 30, 2008
Desvendando o Plano Inteligente
terça-feira, outubro 07, 2008
O mundo acabou?
E nós temendo, faz poucas semanas, uma hipotética hecatombe iniciada no novo acelerador de partículas. Antes fossem fundadas tais premonições. Ao menos seria catástrofe instantânea, diga-se, inteiramente imperceptível, como asseguram os físicos. Um espírito polêmico sentir-se-ia à vontade para perguntar: não teria ela ocorrido de fato e não viveríamos agora no tão sonhado e temido Além?
É impossível responder-lhe com acerto, mas sendo mesmo este o caso, pouco se observa de diferente da vida passada, permanecemos no Purgatório, com a particularidade de alguns de seus aspectos parecerem agora mais veementes: a atmosfera sofre de um certo exagero, com tufões gerando-se em questão de minutos e mantendo-se no ar por dias ou dissolvendo-se logo que transpõem o horizonte, gélidos meios-dias cheios de sol e a bolsa - meu Deus! - a louca bolsa desgrenhando-se em meio à plácida fartura das linhas de montagem e do deslocamento incólume das multidões na densa névoa de Pequim. Sim, continuamos no Purgatório, embora - quem sabe? - tenha-nos mesmo pulverizado a curiosidade da ciência ao produzir mero arremedo do fiat primevo. Continuamos no Purgatório por não existir, talvez, senão Purgatório, misto de abundância - dádiva celeste - e insaciabilidade - sua contrapartida infernal. Talvez seja o caso de o mundo continuar o mesmo depois de acabado (por lhe ser impossível inexistir, segundo afirmou alguma filosofia), apresentando somente uma alteração na intensidade das coisas.
Isto é o suficiente, entretanto, para tirar dos trilhos, além dos cinco básicos, o sexto e mais crucial dos sentidos: o da premonição. E como o provocou uma flutuação quântica, useira e vezeira em inverter a seta do tempo, seus efeitos se fizeram sentir antes mesmo das causas: pressentimos catástrofe, é verdade, mas não a do retorno do mundo ao pó; antevimos a pulverização do quanto pensamos dele, o vasto sistema de valores erguido ao longo dos dois ou três últimos milhares de anos. E então testemunhamos o desvario dessa senhora sobre quem pesou guardar a integridade do castelo de retângulos de papel, discos de metal e cartões em plástico cujo colapso tirou-lhe o tino.
Vendo-a assim, parece não haver dúvidas de que enlouqueceu de vez, mas diante da universal e continuada indiferença para com sua aflição é possível notar um certo exagero em como a demonstra, um tom de encenação (pois mesmo para a loucura são impostos limites). Peregrina nos dias úteis ao redor da Terra que, por girar sem descanso, obriga-a ao cumprimento de jornadas noite adentro, quer, em resumo, cooptar a comoção geral, suscitar o desespero mundial pelo desmoronamento de seu efêmero fortim; quer cumpridos os termos pelos quais nos apalavramos, ver ruir também cada parte do mundo que as peças de seu castelo representam.
Até há pouco não merecia senão a piedade circunstante e por seguidores não tinha mais do que os conhecidos arautos do apocalipse. Mas tamanha é a insistência do desvairado cortejo que se observam, com o passar dos dias, novos adeptos: abandonam seus afazeres para lhe fazerem coro no conhecido bordão com que ora pede, ora suplica, ora exige que tudo pare. Caso sucedam os seus planos, em breve estaremos todos na comitiva e, quem sabe, ajudamo-la a reerguer o edifício de papel, discos metálicos e matéria plástica, recebendo pela tarefa algum soldo, que de pouco ou nada nos servirá até voltarem à ativa engrenagens e arados. Enquanto isso poderemos restaurar outros aspectos saborosos da vida, como a circulação de promessas, essenciais na constituição da certeza de possuirmos algum futuro.
De momento a reconstrução do mundo oferece ainda pouca vantagem e portanto não há motivo para empreender nada. Além da saciação da fome e da sede, o que se promete a quem nos provê do alimento? Muito pouco, avalia-se. Por que? Por tratar-se, ora, de crise, e de crise do essencial, do pressentimento. Em tempos dela todo o mais perde a importância, inclusive o viver! O mecanismo é simples, lógico, fácil de entender: o futuro só existe para quem é capaz de pressenti-lo, mesmo que sem o esperado acerto, não havendo instrumento tão eficaz no estímulo de pressentimentos quanto as promessas que, mesmo insustentáveis e conseqüentemente descumpridas, mantêm sempre aberto o caminho para as cobranças. E cobros de prometidos são exercícios infalíveis da construção do futuro, mesmo sendo ele rancoroso e triste.
Estão em crise nossos futuros por não sermos capazes de concebê-los de outro modo; projetamo-los muito além do que somos capazes de divisar; há mais promessas do que possibilidades de honrá-las. Crise de futuros só se dá no rastro de crise outra, esta mais séria, mais grave e porventura perene, mas constantemente contornada pelo trabalho incansável de legisladores e com freqüência subestimada enquanto não acomete o pressentimento: trata-se de crise da honra mesmo, sustentada em sua latência pelo pendor humano para o ludíbrio, este gerado pela universal propensão para a indolência, que não pode senão ser controlada, jamais extinguida. Em tempo de incêndios como este pouco se obtém no rescaldo, a não ser a certeza resignada de que praticamente nada se queimou, pois nada havia para queimar senão vaidade insustentável, equilibrada sobre esperteza de tipo efêmero, incapaz de manter-nos convencidos da segurança que inspiram os seus cofres de papel. Tempo promissor, sim, embora as dádivas que anuncia não tenham o apelo das antigas.
Parece que a ciência conseguiu mesmo dar fim no mundo - e isto é tão certo quanto é impossível provar o contrário. Em sendo esta a realidade pós-apocalíptica, prova de a destruição do mundo ser espécie de decaimento em outro semelhante e talvez somente mais atroz, não faltará quem lamente a impossibilidade de ele tornar-se nada.
Rio, 07 de outubro de 2008
Waldemar M. Reis
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