segunda-feira, dezembro 24, 2012

Porém todos são perdoados

O problema dos que não crêem na existência de Deus - ou dos que dela duvidam - não é Deus ele mesmo, mas o homem. Pois se em parte é como o descrevem os que nele crêem, saberá compreender os motivos da descrença ou da dúvida que, como tudo mais, seriam obra sua.

Já quanto aos que crêem, o problema é mais sério. Qualquer um se aborreceria com ver-se pintado de forma tão desconexa, em que cada traço bom se transmuta em incontáveis reconhecidamente duvidosos ou maus, como o dizer, entre outras coisas, que é onisciente (presciente), onipresente, de bondade infinita, e irresponsavelmente tolera - permite - o erro, o mal, em nome de algo como o livre-arbítrio (cuja existência sequer se provou). Nenhuma infinita misericórdia, é de imaginar, seria capaz de compreender semelhante disparate: pois se não se sabe como algo é, ora, que nada a respeito se diga. Entretanto, até isso, ainda que não o tenha criado diretamente, teria ele de, ao fim, perdoar, pois por certo advém do que criou.

quinta-feira, maio 31, 2012

Em defesa da propriedade

Ao contrário do que pode sugerir o título, estas notas não se propõem refutar Proudhon, mas tampouco endossá-lo. A rigor sua afirmação (« La propriété, c'est le vol ! »), categórica e universal, é de per si falsa, pois parece evidente existir objeto cuja propriedade não envolve roubo, como o corpo original de um indivíduo, relativamente a esse indivíduo mesmo: à primeira vista um truísmo, na prática o exemplo é, entretanto, tratado com reserva, a qual não põe sub suspeita a legalidade dessa apropriação, naturalmente, mas sua condição mesma de propriedade no sentido integral, assim como intuitivamente é entendida, ou seja, algo sobre que tem o proprietário inteiro poder. Em grande parte das circunstâncias o corpo é tratado como propriedade, como quando não se permite que outrem o viole sem se expor a sanções: isto, entretanto, se aplica também a quem o possui. Desse viés o corpo se assemelha ao dinheiro, ou seja, à moeda que, decerto por ser propriedade do Estado (ou conjunto dos cidadãos), não pode ser publicamente destruído, pertencendo a quem o porta somente o seu valor, o qual, por seu turno, é passível das mais variadas formas de dilapidação, a maior parte delas - convenhamos, de passagem - sem castigo previsto em lei. Corpo e moeda, portanto, parecem ser as únicas exceções à intuição do que seja possuir por inteiro alguma coisa: a norma concede aos seus proprietários - se assim se os pode chamar - o fructus e o usus, mas não o abusus. Diferem, é claro, em diversos outros aspectos, mas em particular, concernente a estas notas, em que a posse de uma pode ser fruto de roubo, enquanto a do o outro, não (é claro, por motivos óbvios desconsiderando-se aqui os recentes avanços da medicina e a ancestral prática da escravidão).

Em seu sentido literal, então, a fórmula proudhoniana não carece de contestação, por falseá-la a existência de pelo menos um exemplo, esse que lhe nega a universalidade: em condições normais, pelo menos, se de fato distinto do indivídiuo que o possui, o corpo não lhe pertence como resultado de roubo, isso bastando para invalidá-la (e é provável que não somente este exemplo o faça). Contextualizada, entretanto, como figura de retórica, é perfeita na emulação do repúdio às desigualdades na distribuição de bens no mundo, sentimento predominando - é provável - entre os quanto se sentem desfavorecidos nessa partilha. Como é notório, desnecessário também é endossá-la, sendo bastante para quem duvide do seu valor retórico pôr-se onde muitos foram a contragosto parar e, claro, desde que não o faça como renunciado: se de demonstração dificultosa em termos argumentativos, a validade retórica da afirmação de Proudhon parece evidenciar-se na experiência.

Creio não ser preciso professar alguém o socialismo para dar-se conta de semelhante desequilíbrio cujas vítimas em aparência não merecem o ser. Um cristão, por exemplo, parece o perceber em sua inteireza, agudeza, mas como em tese faz profissão de tolerar, quando muito se permite acudir os desfavorecidos, quando não a com eles compartilhar o prejuízo. Mas, como é possível perceber (e o primeiro parágrafo nestas notas dá uma pequena mostra do fato), definir o que seja propriedade é tarefa para cartapácios cujas conclusões oscilarão para sempre entre o imponderável e o incompreensível. Aliás, como boa parte - quiçá a totalidade - do quanto é passível de definição (se é que se entende o que seja definir, diga-se, "estabelecer limites" - como sentencia um dicionário - para as coisas).

Valha, por conseguinte, para estas notas a intuição vaga que se tem do possuir seja o que for, convicta o bastante, porém, para desencadear e justificar a maior parte dos atos - se não todos eles - na sociedade dos homens. O que importa aqui não é discutir conceitos, não exatamente, mas propor um levantamento, do qual não parece haver ainda notícia, ou melhor, supondo-se que de fato ele inexista, propõem-se estas notas desafiar os recenseadores desse gênero de dados a empreendê-lo, se possível com urgência. Trata-se de estabelecer o mais exatamente possível e em termos de trabalho e valor a elas associados a proporção entre propriedade e proteção da mesma. Em outros termos, trata-se de saber o quanto se despende em defesa da propriedade, distinguindo-se ao menos duas classes de riscos aos quais está sujeita: decorrentes do tempo (que, segundo o ditado, é pai e carrasco), e da alienação (ou transferência, apropriação) indébita.

A idéia de desafio parece adequada em vista do quanto se exige para sequer iniciar o empreendimento e que se enumera nas duas frases anteriores. Ao menos um critério a mais, distinto e mandatório, se ajunta aos anteriores: a delimitação dos dois domínios, o da propriedade e o do que a protege, visto em maioria - seriam todos? - os meios de proteção serem igualmente propriedades. Se outros critérios, diferentes, não se agregam à lista, haverá por certo uns quantos - de observação igualmente difícil - cuja decorrência desses poucos é pressuposta: por exemplo, tomando-se por muito provável e natural que os instrumentos de proteção sejam em maioria propriedades também, mostra-se procedente investigar a existência de proteções sem proprietário (que não pertençam sequer à coletividade) e, caso existam, a demonstração do seu papel nesse balanço; o modo de a defesa interferir no valor do que é defendido; o custo e a quantidade de cada tipo de proteção segundo as classes de ameaças à propriedade (decorrentes do tempo e da apropriação indébita); o custo das sanções às apropriações indébitas etc. É evidente que o maior peso nesse levantamento se dará à classe de instrumentos destinados a proteger contra a apropriação indébita e - é fundamental mencioná-lo - um seu primo-irmão, o dano intencional (o não intencional se alinharia àqueles decorrentes do tempo).

O tema, em sua simplicidade (e, é possível, em sua idiotice), evidencia-se nos detalhes mínimos do dia-a-dia, dos noticiosos às grades nos condomínios, no mundo digital. Atiça a curiosidade a percepção do volume e da relativa transitoriedade da proteção (pois perde o valor ao perder a função, tendo de substituir-se imediatamente). A impressão é a de que o balanço final nesse levantamento seja escandaloso, bem como ridículo, cômico, com o investimento em proteção - em especial contra roubos e estragos intencionais - superando em muito o valor da propriedade. Assim, se Proudhon e outros demonstraram - ao menos da perspectiva dos desfavorecidos na partilha de bens - a inaturalidade do direito construído à volta da propriedade (assim como viemos desejando-a enquanto comunidade), é provável que o estudo aqui proposto aponte - e não apenas daquele ponto de vista - para algo pior: sua inutilidade.

sábado, março 17, 2012

Que a lógica é necessária

QUANDO um dos presentes lhe disse, Persuada-me de que a lógica é necessária, ele respondeu, Você quer que eu o prove? A resposta foi --Sim. --Então tenho de usar de demonstração. --Concedido. --Como então saberá você se eu não o engano com meu argumento? O homem permaneceu silente. Você vê, disse Epicteto, que está admitindo a necessidade da lógica, já que sem ela não se pode saber se ela própria é ou não é necessária?

Epicteto, Discursos, Livro 2, Capítulo 25
Versão da tradução de George Long


(That logic is necessary

WHEN one of those who were present said, Persuade me that logic is necessary, he replied, Do you wish me to prove this to you? The answer was—Yes.—Then I must use a demonstrative form of speech.—This was granted.— How then will you know if I am cheating you by my argument? The man was silent. Do you see, said Epictetus, that you yourself are admitting that logic is necessary, if without it you cannot know so much as this, whether logic is necessary or not necessary?

Epictetus: The Discourses: Book 2: Chapter 25
George Long, translator)

Para cristão ver

O dar a outra face, descontado o quanto de sublime daí se tirou, deveu-se por certo à circunstância e nela tenha servido talvez para pôr a nu maldade contumaz - por certo, também, inutlimente, ou não acabaria em calvário. Desse viés, foi gesto provocador, que absolve inculpando, de violência comprarável, aliás, à fúria no templo.
Perdão incondicional? É evidente que sim, mas tendo as coisas em seus devidos lugares.
Daí ser impossível que protagonista de atos tais ainda viva e "à direita do pai" aguarde incólume o "fim dos tempos" para pôr ordem na casa. Sua humanidade, em vista disto, teria sido completa, desintegrando-se como tudo mais, e a história restante, obra de loucos - eles mesmos santos, é bem provável, santos loucos, ingênuos de Deus cuja herança se confiou, entre outros, a patifes.
Tudo em nome da livre vontade: em nome de que, ora, tudo sempre se deu (como se alguma vez pudesse a vontade dar conta de concertar o mundo): para isto, então, o teriam consubstanciado: para no fim deixar ao acaso o que ao acaso sempre estivera - prova essa da inutilidade de tudo antes que da confiança no que haveria de ser (ou fé); para dar corpo e voz ao enredo que lhe urdiram os profetas, certos de assim pavimentarem o acesso dos homens à aliança, aliás, antiga, consabida e que de vontade ignoraram; e para entregar-se às atrocidades com que didaticamente ilustraram as cenas finais de sua existência, a serem emuladas e esmeradas nos mais de dois mil anos depois de as encenar, e que ensinam o que qualquer dor ensina: que depois de estancada, é o paraíso.
Acaso o único feito de sua biografia tenha sido o de servir de símbolo em torno do qual se buscaria o unânime repúdio a tudo quanto é bestial entre os homens e, se a História não mente, não terá sido o primeiro nem o último, tampouco o maior, embora exemplo dos mais visíveis do que à brutalidade  é possível. O que vem mesmo a ser o cristianismo?

CRISTO EN LA CRUZ

Cristo en la cruz. Los pies tocan la tierra.
Los tres maderos son de igual altura.
Cristo no está en el medio. Es el tercero.
La negra barba pende sobre el pecho.
El rostro no es el rostro de las láminas.
Es áspero y judío.
No lo veo
y seguiré buscándolo hasta el día
último de mis pasos por la tierra.

El hombre quebrantado sufre y calla.
La corona de espinas lo lastima.
No lo alcanza la befa de la plebe
que ha visto su agonía tantas veces.
La suya o la de otro. Da lo mismo.
Cristo en la cruz. Desordenadamente
piensa en el reino que tal vez lo espera,
piensa en una mujer que no fue suya.
No le está dado ver la teología,
la indescifrable Trinidad, los gnósticos,
las catedrales, la navaja de Occam,
la púrpura, la mitra, la liturgia,
la conversión de Guthrum por la espada,
la Inquisición, la sangre de los mártires,
las atroces Cruzadas, Juana de Arco,
el Vaticano que bendice ejércitos.

Sabe que no es un dios y que es un hombre
que muere con el día.
No le importa.
Le importa el duro hierro de los clavos.
No es un romano. No es un griego. Gime.
Nos ha dejado espléndidas metáforas
y
una doctrina del perdón que puede
anular el pasado.
(Esa sentencia
la escribió un irlandés en una cárcel.)
El alma busca el fin, apresurada.
Ha oscurecido un poco. Ya se ha muerto.
Anda una mosca por la carne quieta.
¿De qué puede servirme que aquel hombre
haya sufrido, si yo sufro ahora?
(Jorge Luis Borges)

quarta-feira, março 07, 2012

Se a escutassem Castillo e Sábato

A voz. Há embargo nela, perceptível somente quando a atenção não se exila no que diz - os sonhos, o oriente, a fábula celta, um oráculo, o mesmo crepúsculo, uma peleja - e que recorta com precisão da massa informe que é o mundo, justo com os instrumentos que usam os demais para extrair das próprias peles o mero sangue, as inúteis entranhas. O embargo é o cuidado e o vagar com que escolhe as palavras (que o prolongam indefinidamente), mostrando os motivos que - acaso permitisse - teria para chorar. Nunca o faz; jamais lhe encontro lágrima a induzir outras em quem a escuta, embora aqui e ali alguém deixe alguma escapar e mesmo não contenha um soluço - sinais de haver atinado para o embargo sem o observar. Pois  é vã a penitência, sugere o embargo, exceto a que imputa o existir (e que não nos merece ênfase), cabendo ao dizer nada além do apontar seja o que for, inclusive ele mesmo, conjugando-o, reencenando sem pausa o assombro, que se indefine por ser inato e prenuncia o incerto prazer.

domingo, março 04, 2012

Por punição, a recompensa

A Marcos Pompéia
 
Se a notícia de grilhões em ouro encantou e entreteve nos derradeiros séculos, a circunstância de terem por fim evidente a coibição não os distingue tanto de seus similares em metais mais resistentes, menos nobres, ou dos confinamentos em geral. A rigor, os princípios legais de Lugar Nenhum(1) são análogos aos que conhecemos, e apenas - talvez - mais esmaecidos, atenuados - diga-se assim - por uma compreensão maior da inutilidade e da vergonha dos atos punitivos para a sociedade que os pratica: inutilidade, por não prevenirem recidivas; vergonha, por indicarem a permanência de motivos para que crimes se cometam. Tacitamente concebemos a sociedade ideal como aquela que logra inibir infrações, não por perpétua vigilância, mas por não ensejá-las com atos consentidos. E desse viés o infrator se apresentaria qual dedo em riste para as condições impeditivas de sua natural atuação no meio, e o seu delito como exercício próprio da justiça, por assim dizer. Na comunidade ideal a contravenção é questão médica.

Não há propriamente médicos entre os Nhenhenhém. O curandeiro é presença figurativa, assim como o chefe. Mantêm-nos lá para não se distinguirem demasiado dos vizinhos, dos quais conservam cauta distância: a recíproca é verdadeira, mas são evitados, além de, igualmente, por cautela, por reverência. No mais, todos sabem safar-se das mazelas comuns e a ordem imperturbável da tribo não carece de quem medeie dissensões ou remedeie suas - por vezes - dramáticas consequências, pois inexistentes. Cumprem todos com o que lhes cabe, sem distinção de sexo ou idade, como se cada qual soubesse desde sempre do que estará incumbido. Digo 'desde sempre' por não ter atinado com o modo de dividirem as tarefas, visto serem também obstinadamente econômicos com a fala. A língua, aliás, não lhes parece instituição das mais importantes, donde o nome que lhes dão - e aceito com dignidade - sugerir pilhéria. Afirmar ou negar lhes basta, em particular ao tratar com estrangeiros; entre si, raro é trocarem palavra. Entretanto não são sisudos; sorriem pouco, é verdade, mas conservam bom humor, sempre atarefados sem darem mostra de aborrecimento ou cansaço com o que fazem.

Crianças parecem aprender por imitação; nunca sequer lhes apontam para onde se dirigirem. Em geral imiscuem jogos e brincadeiras nas tarefaz que aprendem, envolvendo inclusive os adultos. São muito acarinhadas e recebem constante atenção. Não se fica inerte entre os Nhenhenhém: ao quinto dia de chegada fui cativado por sua determinação e, de pequenas tarefas auxiliares, uma semana à frente já cumpria uma rotina. Refeições nem sempre são coletivas, salvo a noturna, que tem caráter de festim, mas frugal. Usam da bebida só até lhes soltar um pouco a língua, quando então, além de alguma conversa, cantam e contam histórias. Esporadicamente louvam ou agradecem aos deuses, isto por estarem certos de não serem estes loucos ou tolos para perseguirem ou prejudicarem por motivos vãos as únicas criaturas no mundo conscientes de eles existirem. Creem ser inata a atitude religiosa: para ela os teriam criado, sendo homenagem bastante ao Criador o estarem vivos. Assim, jamais maldizem a divindade ou sequer dela reclamam, pois para tanto nunca encontram motivos.

É de imaginar e compreender que, assumindo aqui o papel do Arauto de Disparates(2), eu ficasse tentado a contrastar com esse meu antecessor chamando esta terra e sua gente de O Bom Lugar(3) ou, ainda, O Melhor Lugar. Ao cabo de quase um ano entre eles, não havia observado sequer uma expressão, alteração da voz e mesmo atitude que me remetessem a manifestações usuais de desagravo, aborrecimento, desaprovação. Mas isto somente até presenciar comportamento exclusivo e de difícil detecção, dado entre os Nhenhenhém ser frequente a troca de gentilezas: jamais se carrega fardo sozinho, há sempre alguém para nos esfregar as costas no banho e de bom gosto servem um ao outro durante as ceias. A exclusividade da circunstância não estava nas atitudes que a compunham, mas no quanto se repetiam e um tanto na ordem em que se davam - é possível, também, que na expressividade de algum gesto, o que não notei. Só depois de testemunhá-la meia dúzia de vezes, dei-me conta de ser o correlato do que entre nós se chama 'processo judicial'. Um pouco decepcionado, tive de admitir minha ingenuidade e a impossibilidade de convivência sem regras, lei de que os Nhenhenhém não seriam exceção. Fiquei igualmente apreensivo com o tratamento tácito dado a seu 'código legal', receoso de havê-lo infringido alguma vez, mas fui tranquilizado ao saber que ignoram a noção de 'perdoar', ou melhor, têm-na por sinônimo de 'esquecer' ou 'não perceber'; que a ignorância mesma é "esquecível" (ou "não merece ser percebida"), pois só se ignora o que é de somenos importância; e que somente ao 'descaso', ou a quem o comete, é devida a 'atenção'.

A importância secundária que, parece, atribuem os Nhenhenhém à linguagem não a torna instrumento menos sofisticado. Ao contrário: combinada às ações que a acompanham, ganha significados precisos cuja versão para idiomas como o nosso é grande estorvo. Dizem, por exemplo, ser possível perceber sem dar atenção, pois dar atenção é sinônimo estrito de cuidar, preservar. Detalhe: as gentilezas que reciprocamente distribuem nada têm que ver com a 'atenção', assim como a entendemos, sendo antes atitudes incontornáveis, necessárias, naturais da condição gregária. Compreendem mal a presença de conflilto em sociedade, estando em paz mesmo com os estrangeiros (entre os quais os vizinhos), aos quais se sentem associados ao mero contato. Em consequência, ninguém lhes faz guerra, o que me confirmou um visitante de outra tribo com a narrativa de um raro incidente de caça, que ouviu do avô: um Nhenhenhém fora morto por flechar o animal também na mira de um vizinho, que ele não viu. Já preparada para a guerra, a tribo do assassino, que desconhecia os Nhenhenhém (pois o traslado de aldeias para o pouso da terra de cultivo eventualmente possibilita encontros inéditos), foi surpreendida pelo cortejo de oferendas noite adentro e nos dias seguintes. Por uma semana ou mais foram poupados de trabalhar, de banhar-se e mesmo de comer por conta própria até que, tomados de vergonha, imploraram por 'perdão', no que foram prontamente atendidos.

O relato serviu para aclarar aquilo que eu já presenciara tantas vezes sem me dar conta do que fosse. Sem motivo aparente alguém se tornava alvo seguido de 'atenções' progressivamente maiores: muitos ou todos o serviam às refeições, ofereciam-se para carregá-lo à menor intenção sua de deslocamento, era banhado e à volta de sua rede acumulavam-se presentes. O comportamento tinha duração imprevisível, mas podia ser interrompido após repetidas recusas do favorecido. Tratava-se, como disse, do 'processo judicial'; e, como o nosso, compreendia etapas diversas. A primeira delas, a da acusação, cujo início nunca detectei, evidentemente, visto a amabilidade ser moeda corrente entre os Nhenhenhém: imagino que se configure com gestos sutis, pequenas variações da norma. A melhor resposta que obtive depois de indagar a respeito foi a de que a consciência do descaso (ou da infração) é em primeiro lugar do autor, o qual, por isso, concorda em ser servido. É natural, é seu direito inato recusar os favores. Caso isto se dê, tem lugar a segunda fase, a da defesa, mera sucessão de recusas às ofertas e que termina quando um dos lados deixa de insistir, encerrando-se o processo ou continuando-o na fase seguinte, final, correspondente ao cumprimento da sentença, que é sempre única, a exclusiva aceitação dos presentes, variando somente quanto à duração e cuja interrupção, igualmente, cabe com exclusividade ao sentenciado. Dignas de nota são as condições em que tudo ocorre, em princípio indistinguíveis das normais, ao condenado sendo permitido praticamente tudo, desde que obediente ao protocolo de sua pena, que nada tem de excepcional, visto ser sua a iniciativa de interrompê-la a qualquer momento - ou quando ele e todos entendem ser oportuno, ao que parece.

Se algo entendi dos meandros do tema, faço o esboço a seguir :

1) Por que não falam dos seus princípios legais: primeiro, por os entenderem como evidentes, inatos; depois, porque, sendo na verdade um só, quando enunciado quebra-se em uns poucos, o que obriga ordená-los, o que induz á hierarquia, a qual é fonte do engano.

2) O descaso é o escândalo: o indivíduo sabe que infringe a norma, não depois do ato (o que, no caso, constituiria ignorância - merecendo, portanto, não mais do que o 'esquecimento', o 'não-percebimento'); sabe que a infringe antes do ato infrator (quando se decide a - ou se permite - praticá-lo) e, principalmente, enquanto o comete. É evidente, a infração só é percebida pelos demais depois de ocorrida, assim dando início ao procedimento legal descrito e cuja primeira função é investigar se de fato a houve.

3) Quanto a em que consiste a falta, como observei, nunca tive oportunidade de presenciar o cometimento de alguma nem de ouvir sua descrição para arriscar dizer seja o que for. Então busquei na razão o que a circunstância omitiu, e ainda assim é indiretamente que o menciono:

     a) A completa ausência de ofensas recíprocas entre os Nhenhenhém induz a pensar que em meio aos seus princípios está esse, atribuído aos judeus, mas que é provável os preceder: 'fazer ao outro apenas o que se permite fazer a si mesmo'.

     b) Entretanto o exame cuidadoso do princípio revela um problema: se é o masoquista quem o observa, por exemplo, será fonte de constantes desavenças. O processo judicial descrito aqui sugere que os Nhenhenhém estão a par disso: cada parte se dispõe a interrompê-lo a qualquer momento, tendo por critério do 'jogo', ao que tudo indica, a tolerância da outra parte. Assim, observam uma forma corrigida do princípio e a têm por inata: 'jamais exceder a tolerância alheia'.

    c) O novo preceito justifica a conduta amável dos Nhenhenhém, ou seja, veta a possibilidade de conflitos, já que o observam à letra. Mas se não há ofensa recíproca, se não se excede a tolerância do outro, o que puniriam com as oferendas? A solução do impasse se apresenta somente quando é posta em evidência personagem quase desaparecida em meio às solicitações daquela que de hábito protagoniza as considerações legais: o 'eu', esse 'objeto' da lei, quem tem de observá-la, o coadjuvante do 'outro', o 'sujeito' dela, que o acusa de infringi-la. À exceção do matar-se, por que o punimos acaso falhe em realizar, do 'eu' cobramos tacitamente toda sorte de sacrifícios a cuja submissão se associa sua honra (esse nome de pompa para a vaidade), restando-lhe, além de entregar-se aos suplícios, a vergonha de fugir ou, excedida sua tolerância, o suicídio mesmo. Os casos extremos do herói e do santo, únicos a nos merecer a admirada consternação, impedem-nos de notar os demais, os dos obreiros, dos funcionários, das mães, dos médicos, dos professores e enfiada sem fim de indivíduos onde é certo estarmos você, leitor, e eu: supliciados menores, esperados, quase invisíveis. Os Nhenhenhém os percebem. Por isso, ao preceito 'jamais exceder a tolerância alheia'  teriam acrescentado: '...nem a  própria'.

Notas:

1 - A expressão indica que o autor refere desde a primeira frase o clássico de More.

2 - Raphael Hytholdaeus.

3 - Num comentário à obra, More admite mesmo a expressão ("a place of felicitie") como ainda mais adequada para qualificar o país imaginário do que a usada no título.

sexta-feira, março 02, 2012

Relata o visitante

... creio ter sido por volta da décima visita: tive a ligeira impressão de ser a mesma de sempre a coleção de papéis que deparava sobre a mesa, mas não me dei inteiramente conta. Ainda retornaria cerca de outra dezena de vezes antes de ter a suspeita por hipótese a ser investigada: tudo já estava - sempre estivera - como ali se dispunha e seriam então os meus olhos, alterado o estado do espírito em face do maravilhoso, a vê-los assim diferentes, renovados a cada excursão, a produzir a ilusão de variedade, do novo. Hoje tenho quase por certa a incômoda idéia de estarem abandonados desde que os escreveram e então me rio das inúteis preocupações com demorar-me ali ou com apagar os indícios de minha passagem, com sequer tocar o alimento, sempre fresco e como a me esperar, e com a pressa de partir tão-logo voltava a mim no intervalo de substituir diante dos olhos uma página pela seguinte, com o receio de ser pilhado ao sair e com a firme e reiterada decisão de aguardar, escondido num desvão da mesa, o retorno do autor. Além desse espaço monumental, dos escritos maravilhosos e do silêncio, talvez ninguém, senão eu e talvez algum animal errante, tenha-se esgueirado pelas ranhuras do piso ou misturado às sombras sem fim das portas quase inamovíveis, não fossem as dobradiças responsivas ao meu toque insignificante como se por milagre. Por momentos ignorei os papéis na busca de peças de vestimenta que me confirmassem as dimensões do dono, já intuídas do mobilliário; pois nada, além da cama, igualmente rústica e dum armário inviolável, bem como da mesa e da cadeira - que me dava acesso, embora penoso, aos escritos - traíam a possibilidade de o lugar ser habitado. Observei depois as frutas - o cacho tinha o tanto de bagos maduros que noutra excursão - e o queijo - macio e odoroso como d'antes: sempre ali, como a me esperarem ou a qualquer outro visitante, indiferentes e intencionais. Nem tanto ao receio de me revelar devo a reserva em tocá-los, mas ao temor de me afogar em seus sumos. Voltei assim aos papéis, umas visitas mais tarde, e tentei decifrar os seus traços: era evidente haver letras, que de tão próximo dos olhos não figuravam palavra, mas como que caminhos que trilhei vez ou outra na esperança de lhes achar o sentido. Foi somente quando logrei pendurar-me na lamparina presa à parede que pude confirmar tratar-se de notas margeando desenhos, alguns traçados com precisão de instrumentos da geometria. Sim, eram planos, mas numa língua que desconhecia, ou melhor, numa língua cujos termos não conseguia vislumbrar em conjunto, dado estarem ainda muito perto. Semanas de estudo me forneceram o meio seguro de atingir o teto: penderia do cordão quase esquecido à volta duma viga no telhado. Só assim entenderia que, se estavam num vernáculo, este era o do mundo, no qual em inesperada harmonia vocábulos de línguas diversas se alternavam em seus respectivos alfabetos e ideogramas: além do provável tamanho, era também pantagruélico o poliglotismo e - constataria mais tarde - a polimatia do autor. Quanto ao que os ilustrava, em traçado leonardiano, uma paisagem e como se a anatomia de um pássaro. As visitas seguintes dediquei a adaptar o dispositivo de cordas e varas para do meu ponto de observação poder mover as folhas sem sair de onde estava, deslilzando-as para o chão, onde permaneceriam intocadas até quando as vi da última vez. Ocorreu-me também de copiá-las, guardadas as limitações do meu engenho, e submetê-las a algum sábio disposto a decifrá-las. Era constante o pentagrama, no qual se inscreviam um homem, mas também um símio, um lobo, o jaguar, e em outras abundavam as esferas - sobre as quais havia mapas, um deles, do planeta - e que por vezes se agrupavam em sistemas como o solar, além de nuvens espessas de pontos sugerindo objetos ignorados. Paisagens figuravam por vezes seccionadas, exibindo as entranhas em que, num ciclo de setas sem princípio nem fim, a seiva das árvores fluía para os veios dum vulcão cujas cinzas pareciam animar o vento que se esgueirava pelos escuros dum céu estrelado refletido no mar à guisa de peixes e equinodermos, e assim por diante, para sempre. Sequencias inteiras não eram ilustradas e ali as sentenças pareciam fazer seus sentidos usuais; umas emulando frases célebres, que reconhecia quando era familiar o idioma. Muitas estavam em sânscrito, outras em chinês e hebraico - penosas de reproduzir - e só ao fim de várias centenas de folhas desfrutei do conforto de reproduzir o alfabeto latino, embora pouco ou nada entendesse do que escrevia. Na esperança de encontrar algo compreensível, pus abaixo páginas e páginas seguidas para somente assim observar que parecia interminável a modesta pilha, que apresentava, a despeito do quanto a desbastara, espessura semelhante, se não igual, à de sempre. Já as demais, espalhadas pelo soalho, davam a impressão de serem mais numerosas do que as que ainda se empilhavam, ou melhor: davam a impressão de serem em maior número do que a soma de todas quando ainda sobre a mesa. Retornam os desenhos num certo momento, os textos reduzidos: havia agora exércitos, hordas de miseráveis e seus reis ou generais, não sei precisar, pois vestiam-se do inusitado, ás vezes parecendo nus ou cobrindo-se demais; vi máquinas volantes e bólidos incandescentes rasgando os céus em direção a lagartos imensos, o apagar de sóis e um amanhecer igual aos outros em todo lugar; e uma mansarda, representada dum ângulo aéreo, familiar: a cama, o móvel, a cadeira e a mesa onde papéis se empilham e se espalham pelo chão.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Sobre amizade

Aquilo em que se empenha um homem com diligência, disso ele naturalmente gosta. Empenham-se os homens dililgentemente no que é mau? De modo algum. Bem, empenham-se então no que de todo não lhes concerne? Igualmente não. Tem-se, assim, que se empenham com diligência apenas no que é bom e se estão diligentemente aplicados nisso é por o amarem. Quem quer que entenda o que é bom, então, pode também saber como amar; mas quem não distingue bom de ruim e o que nem bom nem mau é de ambos pode ter o poder do amor? Amar, então, está somente em poder do sábio.

...

Pois universalmente, não estando enganado, todo animal não se apega a nada tanto quanto ao seu próprio interesse. O que então lhe parece impedimento a tal interesse, seja isto um irmão, um pai, um filho ou amante, ele odeia, despreza, maldiz: pois é de sua natureza nada amar tanto quanto o seu próprio interesse; isto é pai, irmão, parente, pátria e Deus. Quando os deuses parecem ser impedimento disso, são execrados e têm demolidas suas estátuas e queimados seus templos, como fez Alexandre, mandando incendiar os templos de Esculápio quando seu amigo querido morreu.

Por esse motivo, se um homem pôs no mesmo lugar seu interesse, santidade, bondade e pátria, pais e amigos, tudo isto está assegurado: mas se põe em um ponto seu interesse e noutro seus amigos e pátria e parentes e a própria justiça, todos estes desaparecem sob o peso do interesse. Pois onde o "Eu" e o "Meu" estão, para ali o animal tende: se na carne, ali está o governo: se na vontade, é aí que ele está: e se é no que lhe é externo, é lá, então. Assim, se estou onde está o meu querer, só assim serei o amigo que devo ser, e filho, e pai: pois isto será meu interesse, o manter-me fiel, modesto, paciente, abstinente, ativamente cooperador, atento às minhas relações. Mas se me ponho num lugar e noutro a honestidade, então a doutrina de Epicuro se fortalece, essa que afirma inexistir honestidade ou ser ela o que diz a opinião.

Epicteto, Discursos, Livro 2, Capítulo 22
Versão da tradução de George Long

(On friendship

What a man applies himself to earnestly, that he naturally loves. Do men then apply themselves earnestly to the things which are bad? By no means. Well, do they apply themselves to things which in no way concern themselves? Not to these either. It remains, then, that they employ themselves earnestly only about things which are good; and if they are earnestly employed about things , they love such things also. Whoever, then, understands what is good, can also know how to love; but he who cannot distinguish good from bad, and things which are neither good nor bad from both, can he possess the power of loving? To love, then, is only in the power of the wise.

...

For universally, be not deceived, every animal is attached to nothing so much as to its own interest. Whatever then appears to it an impediment to this interest, whether this be a brother, or a father, or a child, or beloved, or lover, it hates, spurns, curses: for its nature is to love nothing so much as its own interest; this is father, and brother and kinsman, and country, and God. When, then, the gods appear to us to be an impediment to this, we abuse them and throw down their statues and burn their temples, as Alexander ordered the temples of AEsculapius to be burned when his dear friend died.

For this reason if a man put in the same place his interest, sanctity, goodness, and country, and parents, and friends, all these are secured: but if he puts in one place his interest, in another his friends, and his country and his kinsmen and justice itself, all these give way being borne down by the weight of interest. For where the " I" and the " Mine" are placed, to that place of necessity the animal inclines: if in the flesh, there is the ruling power: if in the will, it is there: and if it is in externals , it is there. If then I am there where my will is, then only shall I be a friend such as I ought to be, and son, and father; for this will he my interest, to maintain the character of fidelity, of modesty, of patience, of abstinence, of active cooperation, of observing my relations. But if I put myself in one place, and honesty in another, then the doctrine of Epicurus becomes strong, which asserts either that there is no honesty or it is that which opinion holds to be honest.

Epictetus: The Discourses: Book 2: Chapter 22
George Long, translator)

Ciência e desespero

O cosmos é imperfeito. Nada é perfeito. Postular ou supor o contrário é mero sintoma de lassidão que, por sua vez, é sinal de ser o indivíduo consciente de sua impotência em face das coisas. Essa consciência é especial, pois sabe ter ao menos algum poder sobre elas, poder equivalente, em verdade, ao de animal qualquer: o de produzir não mais do que alguma modificação no entorno, a suficiente, em geral, para lhe manter a condição, de vivente. Pois tudo refere, em última instância, o prolongamento possível do fio vital. A vida só quer viver - teria dito um poeta. Eis o único paradigma possível de perfeição.

Justo aí começa o pasmo, o assombro do deparar-se com a idéia da totalidade: começa no contraste entre a irredutível complexidade constatada no universo e o destino inexorável do que o constitui, a extinção. Tudo se extingue (quiçá mesmo a totalidade), nada obstante ter a vida por princípio - ou por essência - prorrogar-se pela eternidade. Daí, por derivação de sentido explicável talvez na constatação da impotência para obter o que de fato importa (a eternização da vida), o assombro é entendido como deslumbramento, processo semelhante àquele por que passam uns torturados, ao fim amando quem os torturou.

Outra explicação para esse desvio de significado: vaidade, prazer de contemplar visão exclusiva das coisas, à qual se chega por obra própria da compreensão. A maravilha não estaria, assim, na estrutura labiríntica, abstrusa, do que se observa, mas na capacidade de observá-la desse modo e de se o ter feito por esforço próprio, seja como indivíduo, seja como espécie. O universo como espelho para a inteligência, como o foi para Narciso a fonte.

Há algo além. O conhecimento traz implícita a perspectiva de o indivíduo melhor manipular o mundo e com isso a esperança de chegar ao fim que lhe interessa. Isso é o maravilhamento. Por outro lado lhe ensina o que de fato é diante de tudo mais: peça, tão-só, de mecanismo indivisável na totalildade e, em consequência dessa grandeza, imune a todo controle, salvo o de umas poucas partes, essas ínfimas como ele mesmo. E aí está o pavor.

Em última análise o conhecimento só nos provê do modo como as coisas findam. Por isso define. A única ciência - a única possível - é a escatologia. A idéia de que por seu intermédio se chegará a reverter a finitude não passa de lenitivo. É a maneira de a consciência suportar, na condição irreversível de conhecedora, a decepção que lhe oferece o conhecimento: mero auto-engano.

Hipótese do espírito

(breve dissertação à maneira de Antonio Caetano)

Espírito talvez seja o que ocupa os interstícios abismais da matéria sem, entretanto, preenchê-los. É possível que não passe mesmo desses vazios, os quais se espraiariam, caso os transpuséssemos para dimensões visíveis, por miriâmetros de miriâmetros em torno de âmago não maior do que mero caroço de ervilha. Daí veria o espírito o quanto de hábito é passível de ser tangido - pelos sentidos (em suma, o quanto lhe é perceptível) -, mas a cujo respeito, em vista do distanciamento, só lhe restaria supor, imaginar.

terça-feira, outubro 18, 2011

Viver...

... como quem passa.


Por quê? Ora, por ser assim mesmo que se vive.


Veja o sol, por exemplo, incidindo sobre um ponto qualquer do globo: é sempre de outra maneira a cada vez que o faz e mesmo se acaso o ângulo é igual, ninguém o notará, por se terem modificado o ponto ou a atmosfera que os seus raios cortam e, é certo, o lugar donde se observa a cena. E ainda que o observador jamais se mova, se possível, tudo mais ao seu redor continuará a suceder-se: sempre algo novo, inimitável, irrepetível e que passa. Assim rezam física, religião, o poeta.


Portanto, despeça-se. Mas não como quem vai depois reencontrar, tampouco como quem canta um tango ou uma modinha. Despeça-se apenas. Pois é assim que se vive.

sexta-feira, agosto 05, 2011

O uso próprio de 'liberdade' segundo Epicteto

Uma provocação para Antonio Caetano

"É a liberdade algo além do poder de viver como escolhemos? "Nada além." Dizei-me, então, ó vós homens, quereis viver em erro? "Não queremos." Ninguém, então, que viva em erro é livre. Desejais viver no medo? Desejais viver em tristeza? Desejais viver em perturbação? "De modo algum." Ninguém, então, que esteja em estado de medo ou tristeza ou perturbação é livre; mas quem quer que esteja livre de tristezas e medos e perturbações estará ao mesmo tempo livre da servidão."
Epicteto - Discursos, Livro 2, Capítulo 1

Em certo sentido o filósofo é um dicionarista. Mas ao invés de apenas coligir as acepções de todo e qualquer termo em uso em determinado lugar e a um determinado tempo, ele parece restringir-se a uns tantos, que acredita atemporais e de domínio universal, procurando afinar-lhes e, em boa medida, corrigir-lhes o significado. Bom exemplo disso é termo 'liberdade'. No diálogo em epígrafe Epicteto é preciso em sua definição ordinária: 'o poder de escolher'. E nas três frases seguintes delineia o argumento que, levado às últimas conseqüências, conclui por em grande medida negar ou, ainda, limitar a definição inicial. Trata-se de argumento imbricado na fórmula aristotélica que iguala o conceito de 'causa final' ao de 'bem': se aceita, então não há escolha e, por conseguinte, ou não há liberdade, ou é impróprio o seu sentido ordinário. Epicteto se esquiva de concluir o argumento que iniciou. Por não tê-lo em conta? É incerto, em especial pelo fato de que em seguida o desenvolve ao ponto de apresentar o único objeto relativamente ao qual a acepção comum de 'liberdade' é aplicável.

Aristóteles não deixa dúvidas quando identifica 'causa final' com o 'bem' e só faz ressalvas quanto a utilizá-la na investigação da natureza: na esfera do humano sua aplicação seria inequívoca. Quer pôr de fora de sua teleologia natural a presunção de intenção consciente, cuidado admirável quando não fazia muito Thales via deuses no interior das coisas: no âmbito da natureza a 'causa final' seria inferida somente do que é repetidamente produzido e apresenta uma função. O olho, por exemplo, teria por 'causa final' o ver: pouco importa que seja criado com a intenção de proporcionar a visão ou que apenas se veja porque se o possui. Já um eclipse se explicaria suficientemente por intermédio da 'causa material' e da 'causa eficiente': não faria sentido encontrar-lhe 'causa final'. Ajunta também que, mesmo nesse contexto, o da natureza, a 'causa final' tem de ser algo bom. 'Bom', no caso, parece indicar precisamente a qualidade do que mostra ter alguma função, alguma utilidade, mesmo não se inferindo intenção de se produzir tal utilidade: ter uma função é bom.

Nos domínios da produção humana a inferência da 'causa final' segue uma linha semelhante, mas há um complicador quanto ao que constitui função ou bem por cuja influência algo aí se produz: a opinião diversa e por vezes inconciliável dos indivídos quanto a de fato ser ou não ser bom o que se produziu. E mais do que objetos quaisquer, obras de arte ou instrumentos, os atos parecem ser o tipo de produto mais numeroso causado pela intenção do homem. Aristóteles demonstra estar ciente desses aspectos por tão-só não apresentar restrições à fórmula da 'causa final' quando aplicada à compreensão da produção humana. Tacitamente assume ser o bem - ou algum bem - o que move a produção humana e ainda que esse produto seja avaliado como mau por muitos e mesmo todos os indivíduos - incluindo o que o produziu. É o caso, por exemplo, de obra cujo autor a repudia depois de rejeitada pelos apreciadores, de um medicamento que por qualquer motivo se revela nocivo após ser lançado no mercado, duma declaração de guerra da qual se arrepende quem a fez e, principalmente, caso do maníaco que incomoda ou mesmo lesa quem não lhe causou nenhum mal e do terrorista que se mata para matar outrem. Todas essas coisas e atos possuem em comum a intenção causadora, que para o perpetrador foi, pareceu de momento ou é de fato boa.

'O inferno está cheio de boas intenções': o ditado pode ser sinal de familiaridade do senso comum para com idéia que, simples embora, é adrede rejeitada por alguma filosofia, para dizer o mínimo. No entanto, não é exatamente de 'boas intenções' que se alimenta o mal, mas de ignorância. Soubessem de antemão, o autor, do efeito futuro que teria o seu trabalho no público - e em si próprio - e quem declarou guerra, que não a venceria, por certo não levariam a termo o que fizeram. Já o maníaco e o terrorista, embora não arrependidos de suas ações (suponha-se que mesmo na morte este último se mantenha inflexível), caso encontrassem, um, algo de diferente e que supusesse ser melhor para fazer, e o outro, um modo mais ameno e igualmente eficaz de externar seu protesto, creio não haver dúvida de que os escolheriam.

Isto se dá por não serem coisas e atos produtos interessantes em si mesmos, mas no quanto deles se infere de bom. Pois o bem, como é corrente, a rigor é um juízo - uma opinião, dissesse talvez Epicteto - afixado no quanto se produz desde que isto é ainda projeto. Como bem o demonstra o cuidado de Aristóteles ao considerar a inferência de 'causa final' de eventos da natureza, bem e mal são exclusivos da esfera humana, que os detecta por meio das sensações de prazer e desprazer. E são inúmeros os tipos de prazer e desprazer, cada qual correspondendo a determinados bens e males, tantos são que por vezes causam grande confusão, de que é exemplo o suicida: ora, estando a noção de bem entremeada nas estratégias de auto-preservação da vida, como pode a supressão, pelo sujeito, da sua própria ter por 'causa final' algo bom? É compreensível, entretanto, que circunstâncias adversas quaisquer possam torcer no sujeito até mesmo o cerne de sua representação do bem, quando o morrer, então, lhe parece perspectiva tolerável, mais do que a de estar vivo, pois crê que ao menos desse modo põe fim ao sofrimento.

É provável que considerações desse gênero tivesse Aristóteles no espírito quando afirmou ser indiferente se a 'causa final' é "um bem real ou só uma aparência do bem" (Metafísica, 5-2): talvez por ser para nós o 'bem real' algo como o norte é para o planeta e a 'aparência de bem' como a bússola que o suscita. Tão poderoso é o seu magnetismo sobre nós que chega a comprometer mesmo a sagrada idéia de escolha. Esta a conclusão a que chegaria Epicteto caso interrompesse o seu diálogo na quarta sentença e acrescentasse apenas mais uma: 'ora, se liberdade é poder de escolha e se jamais se escolhe errar ou, o que é o mesmo, jamais se escolhe o pior, o mal, como então é possivel ser-se livre preferindo-se sempre e exclusivamente um dos termos da alternativa?' Entretanto, ele a omite, é provável que por prudência. Afinal já desafiava o suficiente as preconcepções de sua assistência com o rigor do estoicismo para pôr em xeque assim de súbito idéia talvez a mais apreciada pelo gênero humano, causa que é do imprevisível quando ameaçada. Por outro lado, é possível também que por conhecer a fundo suas implicações - Epicteto foi escravo na Roma de Nero - tenha preferido conservar o significado comum do termo, embora corrigindo os excessos no seu uso. Além disso, ele sabia: na prática, ainda que nos convença a lógica rasteira do argumento, lidamos como se houvesse escolha, desavisados como somos de que a indecisão quanto ao que eleger não passa de efeito da ignorância, que nos embota a percepção instantânea da única possibilidade válida na circunstância. Por isso é paciente e prossegue fazendo o que lhe cabe para contornar ou dissipar a ignorância: ensina - da maneira, em aparência a melhor possível: questionando.

Assim ele procede expandindo o argumento que passa a centrar-se, em suma, na definição de 'erro', de início de maneira direta - é ausência de liberdade - e depois de forma enviesada, contemplando aquilo em que resulta, seus sintomas: medo, tristeza, perturbação. O final parece fugir à conclusão, embora ele retorne ao conceito inicial, de liberdade. Um amigo filósofo confessou-me uma vez seu constrangimento diante da conclusão nos silogismos, esforço evidentemente vão de esclarecer o que claro está desde a premissa. Ponderei dizendo-lhe que talvez fosse justo que assim se sentisse com os exemplares do silogismo escolar, criados com o fito de fazer ver o aprendiz o quanto da premissa interessa de fato para o conhecimento, mas não com os silogismos propostos na práxis, quase sempre apresentados sem a conclusão. Exatamente como procede Epicteto com o seu, a ser concluído por quem dele se inteirar.

Como se observou, apesar de não nos ter dito na quinta e supostamente omitida sentença, a liberdade já fora rechaçada: como a entendemos de ordinário, a liberdade se revela impossível. Então ele prossegue com o argumento do erro, estabelece sua relação com a liberdade e envereda por realçar seus sinais: sinais de que não se agiu como é devido, de que se deixou embotar pela ignorância, de que se realizou escolha - quando a rigor é instantânea para o instruído a percepção do melhor a fazer: e daí as mostras de arrependimento - medo, tristeza, perturbação - à guisa de confissão de culpa. É disso que não se é livre quando se está em erro, insinua Epicteto e o todo de sua doutrina o confirma insistentemente: de culpa e arrependimento. É deles que é mister se livrar. Mas não apenas. Livre é quem cumpriu com o devido, é quem, então, está livre do dever, único uso aceitável da acepção de liberdade. É verdade, e Epicteto e o estoicismo não nos enganam, trata-se de sensação transitória essa da liberdade, caso o sujeito tenha sorte, já que a realidade é pródiga em substituir um dever cumprido pelo chamado de um novo, quando não de nos propor diversos ao mesmo tempo e cujos cumprimentos nunca se alinham a um mesmo instante. Mas essa é a vida segundo os estóicos, restando a nós resignar-nos, jamais curvar-nos à servidão dos deveres não cumpridos e ao rol de infelicidades que acarretam.

Cadenza interrotta

Revisitar o estoicismo - coisa hoje em dia na esfera da obstinação, para mim - é recapitular ingratidão milenar dois de cujos atores significativos são cristianismo e Descartes. Descartes ao menos o aponta, imprecisamente, com vaga metonímia: "filósofos antigos". E dá a 'sua' versão de liberdade: desta feita graduada - como é usual proceder quando da mensuração de continua como quente-frio - e a cujo mais baixo grau estariam confinados os acometidos da incerteza (ou indiferença), estado - aliás - a que ele próprio se submete para gestar suas Meditações. A ascenção de nível do sujeito se dá quando pende para um dos lados do dilema: "seja porque... conheça evidentemente que o bom e o verdadeiro aí se encontrem, seja porque Deus assim disponha o interior do... pensamento(!?), tanto mais livremente" o escolherá e abraçará (Meditação Quarta). Também, como seus 'misteriosos', 'antigos' mentores, omite a conclusão: questão de escola, questão de estilo.

Rio, 13 de agosto de 2011

Waldemar Reis

quinta-feira, abril 07, 2011

Narciso

a Maria Clara

Verdadeira vítima. Que mal há em desejar ninguém? Mas aos olhos de quem o quis sem esperança de sucesso era o completo arrogante: não mudamos muito desde o seu tempo. Foi amado, sim, é certo que Eco o amou, um amor incomunicável ou somente comunicável quando o outro lhe dissesse antes amá-la. Foi a sorte a que Juno a condenou quando se deu conta de ser enganada por Jove, o marido, que fornicava outras ninfas enquanto Eco a levava literalmente na conversa. Dali em diante a alcoviteira só repetiria o que ouvisse e, o pior, apenas os derradeiros sons. Como era de se esperar de figurinha assim, foi oportunista, aproveitando-se do que dizia Narciso ao notar que o seguiam ás escondidas; em resumo: precipitou-se, lançou-se nos braços do rapaz e - era de esperar também - foi posta a correr. Mas foi coerente com o que sentia pelo moço e findou seus dias em prantos, transformada em pedra que para sempre reproduz o final do que se diz ao redor.

O responsável pelo destino de Narciso foi na verdade outro moço. Dizem que se chamou Adaminio e terminou por se matar implorando a Nemesis pelo que de melhor ela fazia: vingança. Há quem diga que somente pediu à deusa para dar a Narciso amor não correspondido. Pedido, concedido. O cenário foi escolhido com critério, fonte límpida, intocada, protegida dos reflexos excessivos do sol, lugar perfeito para que se cumprisse o vaticínio estranho, pois formulado em condicional, que lhe fizeram ainda nos braços da ninfa sua mãe: viveria muito se não se conhecesse. Um detalhe crucial: é inverossímil que Narciso, caçador solitário por escolha, tenha jamais se debruçado sobre poça d'água, que seja, para saciar a sede; talvez não estivera diante de uma tão cristalina quanto a que lhe ofereceria a deusa, mas é certo que de alguma mais opaca, o suficiente, entretanto, para ter uma idéia do quanto de si sabia impressionar quem o desejava. Segundo o poeta é fato que até se envaidecia um tanto de ser cobiçado por ninfas, mas tal poderia não passar de mera constatação das cortes que lhe faziam e que por vezes o aborreciam, é natural, fomentando o seu perfil público de imodesto. Enfim, conhece Narciso a si, conhece a própria beleza, não o suficiente para desencadear a condição de sua sorte adversa, com certeza, mas se conhece. Vê-se por aí a quantas já ia o tino grego desde bem antes de Platão quando o assunto era conhecimento: conhecer é conhecer bem, por inteiro (ou o mais próximo possível disso), ou não passa de simples opinião. Daí a fonte límpida, sem os exageros do sol e intocada.

O resto é história bem conhecida, embora muitos pensem que Narciso morreu sem saber que se apaixonara pelo próprio reflexo. Quanto a isto o poeta não deixa dúvidas e é pródigo nos detalhes da tragédia a partir desse ponto. De tanto ficou uma das mais assombrosas e ambiciosas meditações acerca do amor-próprio quando levado a sua expressão hiperbólica. Não há, em primeiro lugar, culpa alguma em Narciso. Como se disse no início, trata-se de vítima - como a maioria dos personagens trágicos na Grécia antiga - do destino. Um destino que o fez belo e lhe prometeu vida longa caso permanecesse ignorante de si (como, aliás, queriam que ficasse ao lhe chamarem Narciso, sonâmbulo ou, do modo como usamos o possível radical do nome hoje em dia, narcotizado, entorpecido) e lhe pôs no encalço verdadeira horda de fanáticos por sua aparência, capazes, pelo visto, de qualquer artimanha para se verem deitados com o efebo ou para se desagravarem do não conseguido. Depois, a esperteza cruel de Nemesis, que entende ser improvável encontrar no mundo alguém a impressionar o auto-suficiente Narciso senão ele mesmo e lhe oferece então a visão perfeita, o perfeito conhecimento de si, que lhe reverteria o destino possível de longevo ignorante.

A fábula também faz cotejar som e luz quando refletidos: o amor de Eco só se comunica e se consuma como reflexo do amor alheio, enquanto o de Narciso é impossibilitado por ser reflexo aquilo que ama e, por conseguinte, não o refletir - enfim, o não corresponder; uma não pode refletir o amor do outro, pois inexistente, e este ama o reflexo que não pode amá-lo de volta. Infelicidades simétricas. Ovidio não é claro ou mesmo omite o porque de haver Juno escolhido esse castigo para a ninfa, mas é de supor que a condenou a perpetuar o quanto fazia para distraí-la das fugidas de Júpiter: alongar ao máximo a conversa com a deusa, na certa aproveitando-se do final de um assunto para incitá-la a emendar noutro correlato. Assim, de qualquer modo, Eco é vítima dos próprios atos, mas Narciso o é dos atos e cobiças alheios, sem mencionar os de uma divindade que usa espada e porta uma ampulheta, mas possui asas, contrariando as expectativas que criamos na convivência com uma sua parenta menos ágil e de olhos vendados.

O tema do exagerado amor-próprio é central na alegoria, mas ao seu redor gravitam outros de peso equivalente, como o do conhecimento, por exemplo, sem falar no do desejo, que confina com outros como o da inveja e assim numa cadeia praticamente interminável. É suficiente contemplar o mito para ir dando com eles um a um, às vezes amontoados, esquema classificável como interdisciplinar por um especialista em matéria de conhecimento em nossos tempos. A história de Narciso é mesmo exemplar no quanto concerne ao escopo da mitopoiese (ou a composição do mito, segundo o jargão técnico). Às vezes breves, esses relatos se entrelaçam uns nos outros e é pressuposto a urdidura resultante representar o funcionamento das coisas, um modelo do mundo, de modo análogo ao que supõem atualmente as ciências fazer, talvez distinguindo-se apenas quanto à linguagem usada, mas não quanto ao interesse e mesmo à precisão. Os temas aparecem evidentemente revolvidos, discutidos, ponderados ou expostos para serem assim tratados por quem do mito se inteirar, de modo correlato ao que em mais de dois mil anos a filosofia vem tratando os seus.

A reserva com que o auto-conhecimento é apresentado, no caso, surpreende, em particular quando confrontada com o 'conhece-te a ti mesmo' do anedotário socrático. Espécie de despertar propiciado, em princípio, pelo artifício da deusa, talvez não por qualquer outro de seus sortilégios, e configurado com os elementos do sentido visual, pode ser estendido sem constrangimento a toda e qualquer parte do sujeito passível de percepção e conhecimento pelos sentidos restantes - inclusive o sentido somatório dos demais, o pensamento. Quantos narcisos há imunes a espelhos, mas não ao som da própria voz, à textura da própria pele e mesmo ao quanto tramam ao pensar? Veja-se, no mito mesmo, o sentido da presença de Eco. Seu amor só é dado a conhecer como reflexo do amor alheio externado - só pode manifestar o seu a quem primeiro manifesta amor por ela; não pode cortejar dizendo amar ou, mais ainda, pode ser obrigada a dizer amar a quem não ama de fato, apenas por assim determinar a maldição de Juno. Trata-se de uma variação do próprio Narciso: o amor que pode dizer nutrir pelo outro é em verdade um amor a si mesma, pois amor do outro por ela, Eco: só pode dar a conhecer o seu depois de conhecer o amor alheio: ama, portanto, esse amá-la*. E não se perca de vista o medium a que Eco foi designada, o som, a despeito de a imagem permanecer como elemento fundamental na montagem do mito.

A assimilação de conhecimento e amor é outro ponto notável: seria de fato o conhecer um amar o conhecido? Comparemo-la ao 'amor ao saber', tradução do termo 'filosofia', de cunhagem atribuída a Sócrates. É evidente, o amor de Narciso por seu reflexo perfeito é hiperbólico e mesmo doentio, segundo algumas compilações de patologias psiquiátricas. Haveria então limite para o conhecer-se, para o amar-se? Sim, limite, visto o amor a si ser inextirpável do indivíduo, findando quando este finda. E os gregos já estavam perfeitamente inteirados disto: o estoicismo observava que o primeiro conhecimento, o conhecimento inato, era o do bem. Nasce-se sabendo-se o que é bom e mau, o que apetece e desgosta. Vê-se que os fazedores de mitos já sabiam de antemão o que filósofos demonstrariam depois de trilharem os caminhos instáveis da metafísica: conhecer só é possível por intermédio do amar, esse primeiro julgar, de que viemos dotados ao mundo: é, enfim, o somatório do quanto experimentamos na condição de viventes, espécie de códice pessoal, interno, onde se inscrevem todos os sabores e dissabores atribuídos ao percebido. Essa discussão ressoará forte em Teeteto e terminará, como praticamente tudo na obra platônica, indecidida.

Mas não parece duvidoso afirmar que, se o perceber e o julgá-lo não são ainda conhecimento propriamente dito, são o seu estopim. E perceber é perceber-se, é perceber-se percebendo, ainda que não se esteja sempre inteirado disto em ato. O mesmo pode ser dito do conhecer. Ora, Narciso conhecia-se antes de condená-lo Nemesis; segundo o poeta, estava satisfeito consigo mesmo, como se observou: já devia inclusive conhecer ao menos sua imagem embaçada. Mas não adoeceu desse amar. Só ao contemplar-se no cenário escolhido pela deusa definha até a morte. Por que? É possível que por ter-se posto, com clareza e distinção, diante de si, ter-se percebido como outro, ter-se despossuído. O tema retornaria - ainda que sem referir diretamente Narciso, se bem me recordo - em Doença Mortal: um dos graus do pecar, mostra Kierkegaard, está nesse modo narcísico de lidar com a alteridade eventual ou não do próprio eu. Quis Narciso ter quem de fato ja possuía. Viu-se como o viam os demais, que não podiam tê-lo. E, é claro, como esses, foi incapaz de resistir aos próprios encantos. O sortilégio de Nemesis foi pôr Narciso fora de si, literalmente.

Narciso feliz seria aquele que se conhece, sim, mas não como o conhece o outro. Eis, por fim, o perigo do conhecer-se anunciado pelo adivinho: tornar-se permanentemente objeto do próprio conhecimento, esquecer-se de que se é, antes de mais, sujeito. Tal jogo de espelhos pode pepetuar-se ao ponto de susucitar a questão: sofria também o reflexo n'água por ver-se apartado de Narciso? De qualquer modo, era assim que Narciso o via: em sofrimento. Mas a profecia de Tirésias não dá pistas de tanto. Seu enunciado padece ainda de pelo menos dois dos cacoetes clássicos dos vaticínios: é excessivamente lacônico e evasivo, algo contornado pela formulação condicional, esta típica dos enunciados da filosofia e da ciência desde sempre. Não diz 'conhecer-se-á e, portanto, viverá pouco', mas 'caso se conheça, não chegará à velhice': o conhecimento de si como condição da morte precoce. Nisto Tirésias mostra estar bem à frente do seu tempo, tempo no qual a adivinhação ainda não lançara mão do artifício do condicional para evadir-se das charadas e da vertigem de errar: para tanto inclui em sua sentença a escolha de Narciso ou o acaso, o fado. Mas fica por aí, omite os detalhes da natureza do conhecimento que levaria Narciso a morrer tão cedo. Curioso é notar que o conhecer tem como função - talvez - essencial a de ser o meio pelo qual o indivíduo projeta durar (ou permanecer no mundo por intermédio da manipulação deste), por conseguinte sendo - ou contendo - uma forma de previsão, uma espécie de profecia.

Codetta

Há quem pergunte, por exemplo, como o narcisismo é visto pela filosofia. Aqui se procurou responder a isto de modo algo enviesado: como o mito de Narciso se apresenta ao pensamento ou, ainda, como filosofia e ciência - assim como as entendemos hoje em dia - já estavam contidas, cifradas, nesse gênero de relatos, observação esta que, é evidente, em nada as diminui.

*O trecho a seguir é um flerte clássico com o narcisismo de Eco.
"As mulheres, especialmente se forem belas ao crescerem, desenvolvem certo autocontentamento que as compensa pelas restrições sociais que lhes são impostas em sua escolha objetal. Rigorosamente falando, tais mulheres amam apenas a si mesmas, com uma intensidade comparável à do amor do homem por elas. Sua necessidade não se acha na direção de amar, mas de serem amadas; e o homem que preencher essa condição cairá em suas boas graças. A importância desse tipo de mulher para a vida erótica da humanidade deve ser levada em grande consideração. Tais mulheres exercem o maior fascínio sobre os homens, não apenas por motivos estéticos, visto que em geral são as mais belas, mas também por uma combinação de interessantes fatores psicológicos, pois parece muito evidente que o narcisismo de outra pessoa exerce grande atração sobre aqueles que renunciaram a uma parte de seu próprio narcisismo e estão em busca do amor objetal. O encanto de uma criança reside em grande medida em seu narcisismo, seu autocontentamento e inacessibilidade, assim como também o encanto de certos animais que parecem não se preocupar conosco, tais como os gatos e os grandes animais carniceiros. Realmente, mesmo os grandes criminosos e os humoristas, conforme representados na literatura, atraem nosso interesse pela coerência narcisista com que conseguem afastar do ego qualquer coisa que o diminua. É como se os invejássemos por manterem um bem-aventurado estado de espírito - uma posição libidinal inatacável que nós próprios já abandonamos. O grande encanto das mulheres narcisistas tem, contudo, o seu reverso; grande parte da insatisfação daquele que ama, de suas dúvidas quanto ao amor da mulher, de suas queixas quanto à natureza enigmática da mulher, tem suas raízes nessa incongruência entre os tipos de escolha de objeto."

S. Freud; Sobre o Narcismo: Uma Introdução

Fim dos tempos

Para quem ainda não entendeu: o mesmo que eternidade, o que dura para sempre, mesmo porque "o tempo não pára" (algo como o 'fim da história', com a particularidade de que haverá soberano, o de sempre e sem sucessor). Acaba, isto sim, a medida ou a noção da passagem do tempo, isto é, a alternância. Pois, segundo a promessa, só haverá dois lados, incomunicáveis: um de êxtase, outro de desespero. Enfim o que é bom vai durar.

domingo, janeiro 09, 2011

Experimentando a causa final

a Clarão e Tuninho
Há quem prove - ou pense provar - que o tempo não existe: trata-se de apenas uma ideia sem correspondente exato na 'realidade'.Sim, acato – e, engraçado, fala-se assim como se as ideias fossem irreais. Mas não vamos aqui discutir tanto esse ponto. Peço somente que se conceda que, seja o tempo o que for para lá das ideias, é com o auxílio da ideia que se faz dele que o mundo ganha algum sentido para nós. De fato envelhecemos depois de termos sido jovens, fomos jovens depois de havermos nascido e bem depois de sequer termos sido seja o que fomos quando nossos pais não se conheciam. Tal conjunto de eventos, seja ou não 'coisa real', com ele lidamos com o auxílio da ideia incerta de tempo.

 É preciso, pois, que algo dure, para nos ser possível afirmar que isto existe. Nossos corpos, por exemplo, duram, embora mudem sem pausa, desde quando somos concebidos, até depois da morte, quando continuam seus processos de mudança até se dissiparem, assumindo então forma da qual não nos permitimos mais afirmar que foram ou são aqueles corpos. Mas nós mesmos, ou seja, esses conjuntos ainda pouco compreendidos de corpos e consciências, se é impreciso dizer que começamos a existir em úteros, há generalizada concordância em torno à afirmação de que nos finamos com a morte, apesar de os corpos com que nos compúnhamos permanecerem por mais algum tempo existindo. Cessar de durar é, por conseguinte, deixar de existir, seja lá como isto se entenda por intermédio do abstruso conceito de tempo.

Assim, as coisas têm de durar, ou não existem. No nosso caso é possível acrescentar que também queremos durar – exceção feita, naturalmente, a quem da vida se desencantou, embora até se desencantar tenha-se por certo alinhado conosco, os demais, que têm de e querem durar. Parece ser parte da natureza disto que chamamos de 'estar vivo' essa obstinação em durar. No meu entender, muito naturalmente. Pois, como já concordamos, se não dura, não existe, com a diferença de que o ser vivo existe por si e também por querer, por fazer por onde.

Ah, claro, a ciência e - principalmente - a filosofia já provaram - ou acreditaram provar - que os indivíduos são outra ficção. Sem dúvida, mas este é mais um ponto por que teremos de passar sem o levarmos muito além. Infelizmente somos também constrangidos por algo na nossa natureza a ver o mundo como amontoado de coisas distintas umas das outras, embora por vezes sejamos capazes também de vê-las todas como uma coisa só – ou melhor, somos obrigados a 'engolir' isso em virtude de tudo diante dos nossos narizes transformar-se em qualquer outra coisa com o passar do misterioso tempo, em virtude, enfim, da impressão de que a rigor há algo de fundamental na composição de tudo, algo em que tudo com o tempo se desfaz. Enfim, temos aqui de admitir, sem maiores considerações, que há para nós o mundo como um todo, bem como há as coisas no mundo, seja qual for o motivo de tal ocorrer conosco.

 Então: indivíduos quaisquer existem para nós em virtude de durarem e, no nosso caso, além de termos de durar, também o queremos. E existir, ao menos para os que não se enfadaram da existência, é em princípio algo que sem pestanejar qualificamos de bom. Sim, às vezes não se quer matar-se e, por outro lado, não parece preciso afirmar que existir é bom. Nesse caso trata-se de quem está a transpor a linha dividindo quem gosta e quem desgosta de existir. Nada obstante, enquanto do outro lado não estiver, estará dizendo nas entrelinhas que reconhece haver na vida ao menos o bastante para tolerá-la ou, ainda, que há o suficiente de bem no viver para impedi-lo de estourar os miolos imediatamente.

 Tanto se disse para mostrar que a vida, ao menos para quem não se deprimiu, é um bem. Mas ela não é de fato nada: é a vida, somente. Prova disso é que pode ser desprezada por um sem número de viventes. E embora seja tão-só viver, quem dela se agrada o confessa afixando-lhe um rótulo, o rótulo de bem. E, claro, de tudo faz para permanecer vivendo. Quanto aos outros, os descontentes, não se pense entretanto que discordam por inteiro dos demais: não! Só que para eles, indivíduos em aparência mais exigentes, a vida tem de ser efetivamente boa. Ora, não apenas para eles: para seja qual for o vivente, a vida só é bem se for boa. Aqui entra em cena outro ponto indiscutível, embora tema de incontáveis discussões: a boa vida é questão de tolerância. Uma dor, por exemplo, uma lancinante, no caso: há quem a suporte indefinidamente e quem sequer tolere imaginá-la sem pensar em desaparecer. (Curioso é ter de admitir que quem prefere a morte a um viver menos – ou nada – prazeroso deve ter alguma noção de como é inexistir e essa noção lhe indica tratar-se de coisa melhor do que o existir – pois imaginamos que naturalmente declinaria da escolha caso supusesse tratar-se de algo pior.)

 Enfim, concordamos em que em si o viver não é lá muita coisa, só sendo um bem quando é bom (ai!, geme o lógico – e desta vez o ouvimos), e em que, mesmo em se desprezando a vida, isto se faz na suposição de que a outra condição, a de não viver, é um bem maior - ou simplesmente um bem. Resultado: parece-nos que, até aqui, pouco importa a forma sob a qual ele nos apareça, estamos constantemente no encalço do bem ou, concedo, se não do BEM ele mesmo (espécie de Papai Noel da filosofia), ao menos de algum bem, digo, de parte desse bem de gorro e botas vermelhas. E não se trata só de ir atrás do dito cujo, mas de fazê-lo aparecer, ou mais, trata-se até de criá-lo, de trazê-lo à existência, sintoma este do já menciondo querer viver.

Um sujeito faz sinal na penumbra e indica não concordar. Parece meio sem jeito, não quer mostrar-se, mas como aqui garantimos a livre expressão, aos poucos vai ficar à vontade para expor o seu ponto: ah, sim, uma ressalva: já tentou de tudo para mudar, mas tem de admitir que continua apreciando - o quê? Ah, claro: o sofrimento alheio. Aprecia, então, o sofrimento alheio e - o que mais? Sim, está seguro de produzir o mal. Senhores, senhores, por favor, não riam; é evidente que encontraram a chave: naturalmente a encontraram, ou não teríamos concordado tanto até aqui. É que o amigo lá de trás não percebeu como formulou a questão: disse gostar de fazer o mal. E, claro, não se gosta senão do que é bom. O o cerne do problema, se os senhores bem observaram, está no gostar do que para um outro é mau. Este, entretanto, é outro assunto por que teremos de passar sem virá-lo do avesso: deve por certo haver um viés especial por cujo intermédio nos é possível entender este e semelhantes casos, mas temos de deixar para outra ocasião o encontrá-lo. Então, em miúdos se tem, enfim: seja qual for a causa ou o motor de seu gosto, gosta disso, digo, isso lhe é um bem.

Um outro indivíduo toma coragem e se levanta: não nos alvorocemos, amigos, seu caso pode ser diferente. Como? Certo: detesta o mal – como a maioria de nós afirma detestar – e, no entanto, por mais que busque para todos o melhor, acaba sempre restando de suas ações algo condenável por alguém. É, o inferno parece mesmo estar cheio das melhores intenções. Vejamos: em princípio somos levados a crer que de fato todos – sem exceção – gostamos de algo, ou seja, procuramos sempre por ou nos esforçamos para realizar algo bom, um bem; entretanto há quem goste de fazer com os demais o que estes – e mesmo ele próprio – detestam (sendo preciso reconhecer que há também quem goste disto para si próprio!) e há quem o faça sem querer, crendo produzir um bem comum. O amigo aqui não parece distinto da maioria de nós: há afinal quem aqui se atreva a lhe atirar a primeira pedra?

Pois bem, há entre nós quem creia enquadrar-se em outro grupo? Ah, sim, o amigo ali. Como? Carrasco? Senhores, senhores! Calma, senhores, do contrário rompemos nosso pacto de livre expressão. Ou prefeririam os senhores que mantivesse ele o silêncio e nos privasse de conhecer o que seria – talvez – uma classe distinta de buscadores e criadores do bem? Como? Claro, funcionário público. Não, não precisa dizer de onde o senhor vem; todos aqui estamos cientes de que os carrascos ainda andam longe da via de extinção. Enfim, o senhor mata, diz não gostar do que faz e que o faz por ser preciso. É verdade: o amigo de há pouco causou-nos consternação dupla, de um lado, por confessar gostar de ser mau e, de outro, por termos tacitamente aquiescido em que tal a nós parece dever-se somente a alguma patologia; o segundo não nos pareceu diferente de nós outros; mas este, meus caros, este nos apresenta uma condição como que simétrica – ou seria complementar? – à do anterior. Vejamos: um faz mal – ou algum mal – pensando fazer somente o bem e o outro está certo fazer um bem enquanto faz de fato um mal.

  Mas entendamos. É evidente que esses bens e males não são universais, não agradam ou desagradam generalizadamente. O que é bom para uns não o é para outros e assim por diante. E eis a lição que aprendemos daí: a lição de que bem e mal não existem – é o que diz a garotinha aqui na primeira fila. Não, não estou seguro de que seja essa a lição: pois, ora, cada um de nós de fato experimenta, sente, o que é bom ou mau para si; não há duvidar de que bem e mal existem. A lição é a de que bem e mal são, sim, relativos, não apenas um ao outro, o que é evidente, mas relativos a quem sente ou percebe os eventos no mundo como bons ou maus. Esta lição já podíamos tirá-la faz algum tempo, desde quando o rapaz ali lamentou-se de não conseguir realizar um bem sem arestas, sem que alguém o entendesse como mal, ou mesmo desde antes, quando falamos da tolerância da cada um de nós para com as dores de viver. Bem e mal, por conseguinte, existem, mas não no mundo lá fora: existem em cada um de nós; é, como diria o amigo filósofo aqui nos prestigiando, um juízo. (Falei certo?)

Há outra lição que se pode tirar ainda neste ponto de nosso debate e já adianto-a: o companheiro carrasco ali não é diferente, de modo geral, da maioria de nós. Aliás, mesmo o rapaz na penumbra, embora, digamos, adoentado, não é também tão diferente de nós na medida em que tem razoável noção do que pratica, ainda que não consiga conter-se. Mas a nossa semelhança com o amigo funcionário público é grande o bastante para causar espécie àqueles de nós menos sinceros. Ele não passa de instrumento usado para perpetrar uma ação comum e, de modo geral (salvo por certos filósofos ou ascetas diversos), grandemente aceita em meio a nós, resumível no ditado que hiperbolizo: olho por olhos, dente por dentes. Sim, visto nem sempre parecer-nos satisfatória a troca de um dos nossos por somente um dos de outrem. Em suma, em maioria (assim espero) professamos o desprezo, a intolerância e mesmo o horror do mal, mas quase sempre não hesitamos em o utlizar quando entendemos de remediar-nos de algo que nos acomete. Bem, Samuel Hahnemann, estou seguro, não se orgulharia de nos mostrarmos assim tão intuitivamente homeopáticos.
Mais curiosa ainda se torna a situação caso eu pergunte aos senhores o que se opõe ao mal, o que se opõe no sentido de dar cabo, pôr fim a ele, ao que sem exceção me responderiam: o bem. A senhora ali no meio murmura - o que? Entendi: "e daí o princípio do dar a outra face". Espere! Não estou convencido de que o dar a outra face seja a fórmula exata do bem para dar cabo de todo mal: talvez no caso do amigo na penumbra, e ainda assim a depender do seu tipo de – perdoe, por favor, a franqueza – sadismo, pois há sádicos que preferem as vítimas que se recusam a oferecer quaisquer faces e seja mais o que for. Se o caso é o do indivíduo comum, que nos faz um mal acreditando sanar um outro que pensa haver sofrido por nossa causa, não creio que o oferecimento da outra face o sacie e é possível que o confundamos então com o sádico típico, se ele continua a maltratar-nos, ou que até faça meia volta, tendo-se dado por satisfeito. A questão, aí, está em produzir algo realmente bom para ele ou em não ter produzido o que o afligiu.

É possível que nossa intuição homeopática seja, no entanto, providencial: em certa medida ela pode ser tida por a única maneira de fazermos ver a quem nos causou o mal o que ele nos fez, mas exclusivamente quando isto se produziu por – digamos – engano. Já o dar a outra face, no contexto em que ocorreu, ensina apenas que diante desse tipo de perpetrador do mal não há alternativa a continuar saciando-lhe a índole sádica; não se tratava nem mesmo de ignorância pura: havia ignorância, sim, pois se ele compreendesse de fato a extensão de seus atos, não os realizaria, mas da ignorância se aproveitava o sadismo para exercer-se. Pois bem, o revide, o olho por olho (ou por olhos), talvez não passe – em certa medida – de um modo de trazermos o outro à consciência, embora nós mesmos, ao praticá-lo, incorramos no mesmo tipo de ignorância. O dar a outra face pode também o ser, a depender da circunstância ou mesmo de a quem a oferecemos. Enfim, ambos têm lá sua probabilidade de sucesso na contenção do mal.

 Bem, adiantamo-nos um tanto, mas já era tempo de fazer entrar em nosso debate a ignorância. Então a pergunta: se conhecêssemos sempre o modo mais adequado de agir, adequado, diga-se, sem que dele resultasse para ninguém qualquer mal, qual de nós – com exceção, é claro, do nosso amigo sádico – se recusaria a levá-lo a efeito? Era o que se esperava: silêncio geral. Assim, se soubéssemos, se soubéssemos...! Mas ocorre de quase nunca sabermos, como há pouco o confessou o amigo incapaz de produzir bens universais. E mesmo aqueles que demonstram muito saber, visto serem mínimos ou quase imperceptíveis os males advindos de seus atos, sabem que não sabem o suficiente para evitarem a imiscuição de qualquer mal nos resultados de suas ações. E eis que voltamos a falar do Papai Noel da filosofia: muitos morremos de velhos na esperança de o depararmos na sala em uma noite qualquer – eis o que muitos de vocês acabaram de pensar. Daí, entretanto, a compactuar com o caos, convenhamos, é um exagero.

 Daí ao perdão indiscriminado, diz aqui a senhora da outra face, é outro pulo. É verdade. Mas há alternativa ao perdoar, digo melhor, há um coadjuvante para o perdão. Sim. Acertou na mosca o senhor aqui: conhecer! O contrário de ignorar: bem contra mal, conhecimento contra ignorância. Dir-se-ia mais, entretanto: educar. Pois se nascemos, como afirmaram alguns filósofos, sabendo o que é o bem, parece evidente não sabermos com a desejada precisão como obtê-lo no e do mundo. E como alguns é pressuposto saberem um tanto, em vista mesmo do seu tempo de vida, nada mais adequado que passem adiante esse saber. E que ensinem, acima de tudo, a conhecer, já que, como vimos, são sempre novas as circunstâncias.

  Por fim, imagino que tenhamos compreendido um pouco a 'mecânica' – podemos chamá-la assim – de bem e mal para, em primeiro lugar, termos ciência de que não somos capazes de praticar o mal e tampouco o bem absolutos; para termos ciência antes, até, de que, seja o que pratiquemos, temos em vista sempre um certo bem, necessariamente (e tendo por alvo a nós próprios, não esqueçamos disto, ou seja, tendo por alvo tudo quanto de nós ou para nós consideramos bom, tudo de que gostamos: o altruísmo não passa de uma instância do egoísmo); para sabermos que só concedemos ao mal por ignorar como evitá-lo e que só o evitamos com a prática de bens, a qual só se logra com o auxílio do conhecimento; e, por último, para conscientizar-nos de que gente como Leibniz e Aristóteles não falaram por falar ou inconsequentemente do melhor dos mundos e da causa final.

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