Ensaios e afins
Os escritos a seguir são partes do jogo simplório de periodicamente lançá-los à maneira de garrafas com mensagens ao mar, embora subvertendo o sentido ordinário do gesto. Pois tendo o propósito inicial de auxiliar o autor na organização do pensamento, seu teor deixa clara a presunção de não ser exata ou tão-somente ele o náufrago a que se destinam.
terça-feira, dezembro 30, 2008
Desvendando o Plano Inteligente
terça-feira, outubro 07, 2008
O mundo acabou?
E nós temendo, faz poucas semanas, uma hipotética hecatombe iniciada no novo acelerador de partículas. Antes fossem fundadas tais premonições. Ao menos seria catástrofe instantânea, diga-se, inteiramente imperceptível, como asseguram os físicos. Um espírito polêmico sentir-se-ia à vontade para perguntar: não teria ela ocorrido de fato e não viveríamos agora no tão sonhado e temido Além?
É impossível responder-lhe com acerto, mas sendo mesmo este o caso, pouco se observa de diferente da vida passada, permanecemos no Purgatório, com a particularidade de alguns de seus aspectos parecerem agora mais veementes: a atmosfera sofre de um certo exagero, com tufões gerando-se em questão de minutos e mantendo-se no ar por dias ou dissolvendo-se logo que transpõem o horizonte, gélidos meios-dias cheios de sol e a bolsa - meu Deus! - a louca bolsa desgrenhando-se em meio à plácida fartura das linhas de montagem e do deslocamento incólume das multidões na densa névoa de Pequim. Sim, continuamos no Purgatório, embora - quem sabe? - tenha-nos mesmo pulverizado a curiosidade da ciência ao produzir mero arremedo do fiat primevo. Continuamos no Purgatório por não existir, talvez, senão Purgatório, misto de abundância - dádiva celeste - e insaciabilidade - sua contrapartida infernal. Talvez seja o caso de o mundo continuar o mesmo depois de acabado (por lhe ser impossível inexistir, segundo afirmou alguma filosofia), apresentando somente uma alteração na intensidade das coisas.
Isto é o suficiente, entretanto, para tirar dos trilhos, além dos cinco básicos, o sexto e mais crucial dos sentidos: o da premonição. E como o provocou uma flutuação quântica, useira e vezeira em inverter a seta do tempo, seus efeitos se fizeram sentir antes mesmo das causas: pressentimos catástrofe, é verdade, mas não a do retorno do mundo ao pó; antevimos a pulverização do quanto pensamos dele, o vasto sistema de valores erguido ao longo dos dois ou três últimos milhares de anos. E então testemunhamos o desvario dessa senhora sobre quem pesou guardar a integridade do castelo de retângulos de papel, discos de metal e cartões em plástico cujo colapso tirou-lhe o tino.
Vendo-a assim, parece não haver dúvidas de que enlouqueceu de vez, mas diante da universal e continuada indiferença para com sua aflição é possível notar um certo exagero em como a demonstra, um tom de encenação (pois mesmo para a loucura são impostos limites). Peregrina nos dias úteis ao redor da Terra que, por girar sem descanso, obriga-a ao cumprimento de jornadas noite adentro, quer, em resumo, cooptar a comoção geral, suscitar o desespero mundial pelo desmoronamento de seu efêmero fortim; quer cumpridos os termos pelos quais nos apalavramos, ver ruir também cada parte do mundo que as peças de seu castelo representam.
Até há pouco não merecia senão a piedade circunstante e por seguidores não tinha mais do que os conhecidos arautos do apocalipse. Mas tamanha é a insistência do desvairado cortejo que se observam, com o passar dos dias, novos adeptos: abandonam seus afazeres para lhe fazerem coro no conhecido bordão com que ora pede, ora suplica, ora exige que tudo pare. Caso sucedam os seus planos, em breve estaremos todos na comitiva e, quem sabe, ajudamo-la a reerguer o edifício de papel, discos metálicos e matéria plástica, recebendo pela tarefa algum soldo, que de pouco ou nada nos servirá até voltarem à ativa engrenagens e arados. Enquanto isso poderemos restaurar outros aspectos saborosos da vida, como a circulação de promessas, essenciais na constituição da certeza de possuirmos algum futuro.
De momento a reconstrução do mundo oferece ainda pouca vantagem e portanto não há motivo para empreender nada. Além da saciação da fome e da sede, o que se promete a quem nos provê do alimento? Muito pouco, avalia-se. Por que? Por tratar-se, ora, de crise, e de crise do essencial, do pressentimento. Em tempos dela todo o mais perde a importância, inclusive o viver! O mecanismo é simples, lógico, fácil de entender: o futuro só existe para quem é capaz de pressenti-lo, mesmo que sem o esperado acerto, não havendo instrumento tão eficaz no estímulo de pressentimentos quanto as promessas que, mesmo insustentáveis e conseqüentemente descumpridas, mantêm sempre aberto o caminho para as cobranças. E cobros de prometidos são exercícios infalíveis da construção do futuro, mesmo sendo ele rancoroso e triste.
Estão em crise nossos futuros por não sermos capazes de concebê-los de outro modo; projetamo-los muito além do que somos capazes de divisar; há mais promessas do que possibilidades de honrá-las. Crise de futuros só se dá no rastro de crise outra, esta mais séria, mais grave e porventura perene, mas constantemente contornada pelo trabalho incansável de legisladores e com freqüência subestimada enquanto não acomete o pressentimento: trata-se de crise da honra mesmo, sustentada em sua latência pelo pendor humano para o ludíbrio, este gerado pela universal propensão para a indolência, que não pode senão ser controlada, jamais extinguida. Em tempo de incêndios como este pouco se obtém no rescaldo, a não ser a certeza resignada de que praticamente nada se queimou, pois nada havia para queimar senão vaidade insustentável, equilibrada sobre esperteza de tipo efêmero, incapaz de manter-nos convencidos da segurança que inspiram os seus cofres de papel. Tempo promissor, sim, embora as dádivas que anuncia não tenham o apelo das antigas.
Parece que a ciência conseguiu mesmo dar fim no mundo - e isto é tão certo quanto é impossível provar o contrário. Em sendo esta a realidade pós-apocalíptica, prova de a destruição do mundo ser espécie de decaimento em outro semelhante e talvez somente mais atroz, não faltará quem lamente a impossibilidade de ele tornar-se nada.
Rio, 07 de outubro de 2008
Waldemar M. Reis
terça-feira, setembro 30, 2008
Fragmentos 'pré-modernos'
A difícil arte da tradução, a lúbrica facilidade da presunção, um texto instigando noutro vernáculo e o impulso de entendê-lo neste que compreendo melhor: os ingredientes de cuja combinação destilaram-se as linhas mais abaixo.
Nada obstante os quase duzentos anos de nascido seu autor, desconcertam pela insistente atualidade, tanto que o inculpam de germinar o redundante existencialismo. Alguns propósitos em aparência o obstinaram, ao menos em certos escritos, como a vertigem da alteridade - artifício visando ao distanciamento esperado naqueles que praticam a ciência, mas empregado com a veemência de quem, por sinceridade, não pôde debruçá-la senão sobre si mesmo - e os heterônimos multiplicando-se ao passo que constatava seus desdobramentos próprios, por cujo intermédio procurava seu espírito amoldar-se às extravagâncias morais daquele tempo.
Em vista disto mesclou em vários de seus trabalhos ficção e filosofia, dispondo as personagens como que num labirinto. Parecia querer tornar o conceito à condição originária, mítica, na qual possuiria a concretude do sentimento. Em Kierkegaard raciocina a comoção, enternece a lógica. E a fé provoca, faz tremer...
Temeu e condenou o fracionamento de seu trabalho, deste em particular, de título insólito, "Ou, ou", cujas partes aqui se lançam no limite do acaso. Mas foi capaz de reconhecer-se como origem e estímulo desse mesmo risco, dado o seu pendor quase irresistível para o aforismo.
A inquieta fraseologia intriga e encanta pelo emprego dos recursos extremos da gramática tendo por intuito evidente fazer cantar a dedução. Utilizaram-se duas versões em inglês, a de David e Lillian Swenson, revisada por Howard A. Johnson, e a de Alastair Hannay.
***
"O que é um poeta? Um infeliz cujo coração abriga dor profunda, mas cujos lábios são capazes de fazer dos gritos e gemidos que por ali passam música arrebatadora. Sua sorte é como a das infelizes vítimas do tirano Faláris, encerradas em touro de latão, lentamente torturadas por fogo constante; seus gritos atingiriam jamais os ouvidos do tirano, nem terror lhe causariam no coração; soariam, quando escutados, qual doce música. E o povo rodeia o poeta dizendo-lhe: ’Canta para nós outra vez’ - o mesmo é dizer-lhe: ’Possam novos tormentos afligir teu espírito, mas que continuem teus lábios como dantes; pois teus gritos somente nos inquietariam, mas a música, ora, a música é deliciosa’. E vêm adiante os críticos, dizendo, ’Perfeito - como tem de ser, segundo as leis da estética’. Agora, entenda-se que o crítico difere do poeta por um fio; falta-lhe tão-só a angústia no coração e música nos lábios. Eu lhes digo: preferível é guardar porcos que me entendam a ser poeta incompreendido.
"... pois antevejo as inquietações e elas teimam em ficar atrás.
"Tenho coragem, acredito, de duvidar de tudo; tenho coragem, creio, para lutar contra tudo; mas não tenho a coragem de nada saber; nem a coragem de ter - de possuir - nada. Lamenta-se que seja o mundo assim prosaico, que não seja a vida como num romance, no qual as oportunidades são sempre favoráveis. Eu lamento não ser a vida um romance com pais desalmados, tritões e gnomos contra que lutar e princesas para libertar. O que são todos esses inimigos comparados às pálidas, exangues e tenazes formas noturnas contra as quais me bato e a que dou vida e substância?
"O que pressagia? O que trará o futuro? Eu não sei, não tenho pressentimento. Quando se lança de algum ponto fixo, segundo sua natureza, vê a aranha diante de si sempre e apenas o espaço vazio, onde não encontra apoio, por mais que se estique. Assim é comigo: tenho sempre à frente o espaço vazio, indo adiante em virtude da consistência que tenho detrás. A vida tem as pernas pr’o ar, é terrível, intolerável.
"Minha visão da vida carece de todo o sentido. Suponho que um espírito mau me pôs sobre o nariz um par de óculos, uma de cujas lentes magnifica tremendamente tudo, enquanto a outra tem poder equivalente de tudo encolher.
"De todos os ridículos, não há maior, para mim, do que o do ocupado homem de negócios, pronto a cear, pronto a trabalhar. Tanto que, quando vejo pousar uma mosca, num momento crucial, sobre as ventas de um homem de negócios, ou quando o vejo respingado de lama à precipitada passagem dum coche, ou quando bem à sua frente levanta-se a ponte, ou quando cai do teto uma telha, matando-o, rio com vontade. O que faz rir? O que realizam esses apressados? Não são eles como as donas de casa que, desorientadas com seu lar em chamas, salvam os atiçadores? O que mais levam eles do grande incêndio da vida?
"Perguntem-me o que lhes aprouver, mas não me peçam razões. A uma moça perdoa-se a incapacidade de fornecê-las, pois vivem, como se diz, com os próprios sentimentos. Comigo é diferente. Tenho, em geral, muitas e com freqüência mutuamente contraditórias, de modo que por tanto me é impossível oferecer razões. Algo de errado parece haver com causa e efeito, que não se combinam com acerto. Causas tremendas e poderosas por vezes produzem pequenos e irrisórios efeitos, senão nenhum; enquanto ocorre de uma ligeira causa menor resultar em efeito colossal.
"Ninguém volta dos mortos, ninguém jamais veio ao mundo sem chorar; a ninguém se pergunta quando na vida deseja entrar nem quando dela quer sair. "O tempo flui, a vida é uma corrente, diz a gente, e assim por diante. Eu não vejo como. O tempo é imóvel e eu com ele. Todos os meus planos se lançam de volta sobre mim; quando cuspo é em minha própria cara. "Cada qual deve ser um mistério, não só para os outros, mas para si. Estudo-me; quando me canso, á guisa de passatempo acendo um charuto e penso: o Senhor sabe apenas o que supõe ou o que faria de mim.
"Divido o meu tempo assim: uma metade passo dormindo e a outra, sonhando. Nunca sonho enquanto durmo; seria uma pena, pois o sono é o exercício maior do gênio.
"A natureza reconhece a dignidade humana, pois quando se quer manter os pássaros distante das árvores, monta-se algo parecido com um homem, e mesmo essa pouca semelhança, caso do espantalho, é bastante para inspirar aos pássaros respeito. "A melhor prova da miséria da existência é a derivada da contemplação de suas glórias.
"Os homens, em maioria, perseguem o prazer com tal azáfama que logo lhe estão adiante. Guardam-no como à princesa capturada o anão em seu castelo. Um dia, tira uma pestana. Quando acorda, depois de hora, foi-se a princesa. Rápido, suas botas de sete léguas calça e num só passo a deixa para trás."
Em Kierkegaard - Diapsalmata
"Em sendo contrário ao espírito da Irmandade das Vidas Sepultas (symparanekronomenoi) produzir coerência intrínseca ou grandes conjuntos em sua obra, em não sendo nosso propósito erigir uma Babel sobre a qual pode Deus, em sua justeza, descer e lançar destruição, já que, cônscios de ser tal confusão de línguas ocorrência justa, reconhecemos o fragmentário como característico dos que investigam sua verdade e entendemos ser precisamente isto o que a distingue da coerência infinita na Natureza, consistindo a riqueza do indivíduo precisamente em seu poder de fragmentária extravagância, sendo o êxtase do produzir também o do utilizar, não a laboriosa e meticulosa execução, nem a duradoura apreensão do executado, mas a produção e o desfrute dessa luminosa impermanência que para o produtor compreende algo mais do que o esforço completo, visto ser a aparência da Idéia, e que para o receptor, igualmente, contém um excedente, constatando que tal fulguração desperta sua produtividade própria - em vista de tanto ser contrário ao pendor de nossa irmandade (e desde que, de fato, mesmo o período que se vem lendo bem poderia ser tomado por ataque desmobilizador ao insinuante estilo que a idéia intumesce sem atravessar, um estilo a que se confere em nossa irmandade status oficial), então, enfatizando o fato de sequer poder chamar-se de rebelde a minha conduta, em vista do quão frouxa é a consolidação deste período, cujas cláusulas intermediárias se protraem de maneira suficientemente aforística e arbitrária, devo meramente ressaltar que meu estilo ensaiou parecer o que não é - revolucionário.
"Nossa sociedade necessita renovar-se, renascer, quando se reúne, tendo por fim poder sua atividade interna refazer-se com uma nova descrição de sua produtividade. Descrevamos nosso propósito como empenho em buscas fragmentárias ou na arte de redigir papéis póstumos. Uma obra poética inteiramente acabada não tem relação com a personalidade poética; no caso de escritos póstumos, em sendo inacabados, desordenados, sente-se necessidade de romancear a personalidade. Papéis póstumos são como ruínas; e que lugar assombrado seria mais natural para os sepultados? A arte, então, tem de produzir artisticamente o mesmo efeito, a mesma aparência de descuido e de acidente, o mesmo vôo anacolútico do pensamento; a arte consiste em agradar sem jamais tornar-se de fato presente, de modo que sempre tem algo de passado em si, é presente no passado. Isto já se expressou com o termo ’póstumo’. Tudo quanto o poeta produz, num certo sentido, é póstumo; mas nunca poderia chamar-se de póstuma uma obra acabada, nada obstante possua a qualidade acidental de não ter sido poublicada em vida do poeta. Admito também ser esta a verdadeira característica de toda produção humana como a apreendemos, que é herança, pois ao homem não se permite viver eternamente sob as vistas dos deuses. Uma herança, por conseguinte, é o que chamarei de efeitos produzidos entre nós, uma herança artística; negligência, indolência, eis como chamarei o gênio que apreciamos; vis inertiae, a lei natural que cultuamos. Com esta explanação compactuo com nossos sagrados costumes e leis."
Em Kierkegaard - O antigo mote trágico e seu reflexo no moderno
Rio, 30 de setembro de 2008Waldemar M. Reis
domingo, junho 01, 2008
Para pensar Deus – a natureza de uma idéia recorrente
terça-feira, maio 20, 2008
Para pensar Deus – metáfora de humanidade
O biólogo Dawkins escolheu para opositor central personagem particularmente frágil: a versão de divindade da tradição judaica. Tal fragilidade se deve a todos os malefícios, de exclusiva responsabilidade dos humanos, praticados em nome dela. E o discurso desse autor parece evitar o reconhecimento dos incontáveis serviços prestados à ética pela invenção abraâmica.
Entre suas teses está a da plena possibilidade de correção de caráter na ausência total de deuses, mas a principal delas parece originar-se na combinação de resultados dos diversos ramos da ciência natural, a saber, a de não ser demonstrável a precedência da inteligência com relação às coisas (ao universo), mas sim como resultante da evolução delas. Sendo a teoria evolucionista critério nevrálgico de sua contestação, seria razoável imaginar-se da parte de Dawkins, ora, o reconhecimento do papel de Javé no processo evolutivo das sociedades humanas ao tempo em que foi proposto como legislador da conduta. Não teria sido o Deus de Israel, enfim, passo necessário no processo de achamento dos princípios éticos?
Sim, é provável que seja Deus passo necessário na evolução humana e quiçá passível de descarte em tempos atuais, quando cremos ser melhores do que os homens de passado remoto. Feuerbach, há mais de cento e cinquenta anos, já ensejava com rara consistência dizer o mesmo. Mas é igualmente provável, em vista dos percalços da filosofia (sempre às voltas com antinomias atalhando-a em virtualmente toda questão possível de formular-se), que o tema do divino seja de fato incontornável na atitude humana de pensar. A idéia de Deus parece não ser descartável com provas advindas dos métodos das ciências da natureza e o motivo pode ser o de o pensamento - instrumento crucial na iniciativa científica - mostrar-se irreversivelmente contaminado por essa mesma idéia.
Para sugerir a supressão dos cultos à divindade Feuerbach também tinha como respaldo o cientificismo, ainda na infância à época de sua proposta, mas talvez por força do repertório incipiente de certezas da ciência natural de então tenha escolhido como fundamento espécie de psicologia universal, que sacou da própria idéia de deus cunhada pelo homem nas mais diversificadas manifestações culturais que foi capaz de criar. Entre os principais traços da psique humana arrolados por ele destacam-se por certo dois: o sentimento de dependência do indivíduo perante o quanto considera como exterior a si próprio e a antropomorfização da idéia de deus, não raro intermediada por zoomorfizações que, nada obstante, já se haviam sedimentado a partir de antropomorfizações dos comportamentos animais, bem como daqueles dos vegetais: se deuses assumiram as formas doutros bichos é porque o comportamento destes já havia passado pelo crivo da assemelhação com o comportamento humano ou da mera relação de ambos, àquele tempo já consagrada.
Em vista de tal, não é excessivo afirmar que Feuerbach ofereceu ao seu século e ao seguinte paradigma recorrente na formulação de sistemas profundamente marcantes de interpretação de indivíduo e sociedades, como a psicanálise e o socialismo. Desnecessário observar, se não a persistência intocada desses sistemas, ao menos a de sua essência. Pois, ora, num mundo onde o homem presume decifrada, enfim, a alegoria milenar com que costumava referir-se a uma idéia recorrente de seu ato espontâneo de pensar e que designou, entre outros, com o nome de Deus, num mundo como esse só há lugar para a auto-gestão, para a mais pura responsabilidade, tornando assim desnecessários os instrumentos de dominação usados em todo o espectro de suas intensidades para o exercício das governanças. Afinal é do próprio homem a inteira responsabilidade por todos os traços com que foi pintada a divindade, evidência disto sendo as marcas de antropomorfismo em cada um deles.
A metáfora, possivelmente exclusiva do raciocínio humano, caso aproxime, no ensejo de significar, coisas quaisquer, aproxima-as em primeiro lugar do homem, embora seja mais preciso dizer que opera o reverso, levando as singularidades de nossa espécie a designar existentes tidos como distantes de si em tempo, espaço e idéia. E se em inúmeras ocasiões os três reinos da natureza também carregaram para nós o significado de deus, isto se deu por já estarem carregados da acepção de homem.
De todos os traços que reconhecemos em nós, decerto como o mais característico elegemos a capacidade de compreender. É possível seguir as transformações a que foi submetido em sua história, por exemplo, Deus de Abraão, de princípio criando uma sua imagem, pura assemelhação, supostamente física (seja como isto possa compreender-se) que, nada obstante, discrepava de si em caráter, por tal não merecendo habitar o Paraíso. Assim, sendo-lhe concedida a aparência do criador, da criatura exige-se em seguida imitar-lhe também o modo de agir, isto não significando inexistir no homem o quanto idealizou em Deus, do contrário: talvez não sendo predominante, mas com certeza existente e, por conseguinte, percebida, elegemos essa parte nossa como objeto em cujo sentido evolvermos. O termos plasmado semelhantes traços num ser de abstrusa superioridade, de paradoxais presença, potência e ciência, justifique-se porventura na forçosa atitude paternal a que nos vemos coagidos no cuidado com a progênie, outra face da condição animal e, mais especialmente, da nossa, humana, que igualmente apusemos a Deus. Sem a imposição todo-poderosa, habituada como estava a humanidade a curvar-se ante o domínio pela força, provável é que a empresa evolutiva da mente como hoje a desfrutamos sequer começasse caso não absorvesse também as atribuições da paternidade.
Do viés evolucionista, por conseguinte, e em se partindo do pressuposto consagrado na filosofia de Feuerbach, o de ser a divindade produto da imaginação humana premida pelos revezes de que se via depender o indivíduo na imposição endógene de sobrevivência, as transformações por que passa a idéia recorrente de origem comum de todas as coisas parece ilustrar, além do processo evolutivo da humanidade no reconhecimento de seus próprios atributos, o papel ativo do homem na seleção daqueles quanto creu condizerem com suas aspirações de desenvolvimento pessoal. A seleção natural parece contar também, ao menos no caso humano, não exclusivamente com fatores exógenos, ou melhor, tudo parece indicar o papel decisivo do sujeito humano na escolha dos instrumentos com que responderia à exigências do meio à volta. Eis porventura uma idéia, se não ausente do darwinismo, por certo esquecida por seus cultores: o traço designado como inteligência não é só auto-referente, mas também dominante e exclusivista na evolução do homem.
Uma análise deste tipo pode outrossim levar novas luzes à tese central de Dawkins, a de o entendimento – a inteligência – ser resultante e não causa do processo evolutivo. Ora, do modo como o compreende, o ser humano o toma como traço distintivo seu, isto significando que o ato de apô-lo a coisas quaisquer – e mais especificamente aos deuses – enquadra-se como mais uma de suas iniciativas de antropomorfização do meio. Inteligente ou não, a mecânica intrínseca do universo trouxe-o de fato a configurar-se como atualmente o observamos, em toda diversidade e complexidade. E que reconheça como diversa e complexa a sua determinação de pensar, pela qual não apenas absorve as coisas ao modo de informação, mas também urde estratégias para lidar de maneira útil com elas, em suma, que o homem associe a capacidade de sua inteligência produzir com a exuberante produção testemunhada à volta, tal não significa existir no meio capacidade igual, assim como tantos outros atributos da humanidade usados para fins análogos.
E mais do que sintoma de incontido antropocentrismo (termo aqui utilizado com todo o peso que possa conter da idéia de egocentrismo), o uso humano de metáforas sacadas de sua própria condição é antes recurso pelo qual investe na decifração do desconhecido – ou do pouco conhecido – com instrumentos a si familiares, usando-os como medida geral. Desse modo a atribuição da inteligência ao universo deixa de ser uma presunção formulada sem o cabido vagar e com o fito de tão-só tornar procedentes certas ilações em torno à divindade para mostrar-se como unidade métrica pela qual pode o homem expressar e quantificar a exuberância constatada no seu entorno.
Iniciativas semelhantes se apresentaram no correr do tempo desde pelo menos a Antigüidade, como o atestam os sistemas de filosofia atribuídos a Xenófanes e Protágoras, o deste último, através da máxima que faz do homem medida do todo, como que demonstrando o pressuposto central do anterior, de ser o "noûs" princípio universal. E se erro há nisto, é do mesmo gênero do cometido com freqüência compreensível no âmbito das ciências da natureza, a que se é determinado pela imposição indutiva, pela qual somos instados, nem sempre oportunamente, a projetar os resultados obtidos no processamento das informações do passado no presente contínuo descortinando-se à nossa frente. Quase nunca o jogador, papel que assumimos por destinação, pode elaborar o suficiente o próprio lance na urgência com que se acredita premido pelo entorno a responder-lhe os desafios. Pode-se pensar: precipitação milenar essa de atribuir ao mundo ou aos deuses inteligência, poder criador. Sim, deve-se admitir. Mas qual outra maneira apresentaria a bastante eficiência em expressar essa admirável conivência de nossa capacidade abstrata de conceber e a supostamente espontânea geração na natureza? Não há, pelo menos em princípio, erro intrínseco em utilizar-se uma medida em lugar de outra na interpretação da natureza, mas sim nos fins dados ao resultado de tal operação.
Doutro lado e por fim, desnecessário fosse talvez sinalizar para um especialista em processos biológicos a íntima conivência da estrutura autônoma organizando a matéria e sua resultante inteligência humana: talvez não convenha chamar as duas pelo mesmo nome, assim como não é adequado chamar de ser humano os genes em seu interior, senão como recurso poético. E não se despreze, na empresa de compreender os meandros da decifração da natureza pelo homem, a presença do que hoje denominamos poesia, em particular quando as idéias de ciência e sagrado ainda eram uma só. Se definida, de maneira rasa, como a forma de aproximar, em discurso, o quanto no universo é tido por estar demasiado apartado, ou seja, de pôr em relação o que no mundo não parece relacionar-se ou, em suma, de criar metáforas, a poesia tem tomado para si o papel do batedor atrás do qual pode seguir a caravana da ciência no seu ritmo próprio, embora nem sempre cauteloso, como quer fazer crer a quem simplesmente a vê passar.
Rio, 02 de maio de 2008
Waldemar M. Reis
Arremate
O texto acima apareceu quando eu ainda lia o livro de Dawkins sobre Deus. Veio na forma de reação ante uma seqüência de argumentações intoleráveis, mormente quando formuladas por profissional da ciência. Refere-se, por conseguinte, à parte até então conhecida por mim do trabalho desse cientista, muitas de cujas assunções iniciais são retomadas nos capítulos finais, ganhando apenas maior nitidez, não maior poder de persuasão. Tratou-se, de minha parte, de exercício dedutivo do que seria como um todo a obra a partir do conhecimento de uma de suas seções, talvez a mais substanciosa e significativa, embora não a mais feliz. Deixei-o como o concebi e reservo para este arremate informar que Dawkins, mais adiante no livro e sem o esperado brilhantismo, trata a crença em Deus do viés evolucionista, sim, e conclui ser ela não um dos traços adaptativos, mas manifestação inconveniente de alguns deles. Argumenta com o exemplo da navegação noturna de vespas e outros insetos, que tem por guia os corpos celestes, e o poder mortal exercido pelo fogo sobre esses animais por contarem com semelhante habilidade. Num processo análogo a autoridade divina seria manifestação equívoca da inclinação da natureza humana para o respeito pelos indivíduos mais velhos em vista de sua experiência, do conhecimento que detêm: desse viés Deus é demonstrado como o são as doenças congênitas, ou seja, como desvios, nem sempre inúteis de todo, na rota adaptativa da espécie.
Rio, 20 de maio de 2008
terça-feira, janeiro 01, 2008
Nota sobre intolerância e doutrina liberal
Entretanto, se tomada como se anunciou, como crença, no sentido de profissão de fé, a afirmação de ser possível convivermos não obstante divergirmos, quando posta na boca de quem esteja seguro de possuir as melhores intenções ao dizê-la, parece pressupor um estado contrário ao observado na associação humana, a saber, de paz, compreensão, enfim, de tolerância. À primeira vista parece sugerir a prática disto mesmo, da tolerância, digo, parece ensejar a constituição de indivíduos permanentemente capazes de relevar o quanto na atitude alheia lhe possa ser infenso, mas não, talvez, o seu aperfeiçoamento com vistas a não empreenderem nada a impedir o bem-estar dos demais. O bom senso nos indicaria tratar-se de ambas as sugestões. O mau treinamento na boa convivência obriga quem sofre suas conseqüências a tão-só tolerar, atitude imprescindível enquanto o uso sistemático da auto-crítica pelos ofensores não a torna desnecessária. Atingido, assim, um estágio generalizado de ações individuais selecionadas, imagina-se que os pontos de dissenso permaneceriam existindo, embora seja igualmente de supor não consistirem em fatores a cobrarem complacência acentuada.
A experiência histórica mostra-nos também isto: dentre as divergências há as intoleráveis, as quais o mundo como o conhecemos vem, via de regra, negligenciando, vem fingindo, de um lado, não praticar atos merecedores de grande tolerância – quando não de punição severa – e, de outro, não dar fé daqueles de que são vitimas – numa sorte de indiferença à imitação da estóica, embora prenhe de ressentimentos. Definindo-o de um modo apressado, o divergir constituiria oposição frontal de indivíduos a condições tidas como contrárias ao que é fundamental em suas existências. Tendo-se em conta isto, ou não há entre nós consenso quanto a quais sejam as condições adequadas e mesmo quanto a se consistem de fato em fundamento existencial do indivíduo (disto deduzindo-se a incompatibilidade geral e incontornável de cada um para com os demais), ou a capacidade humana de indulgenciar é demasiado reduzida. Talvez observem-se ambas as situações.
Excetuando-se as iniciativas pessoais, sobre as quais podem incidir escolhas religiosas, há duas tentativas seculares clássicas de equacionamento do bem-estar comunal experimentadas no correr do último par de séculos ditas, uma, liberal, outra, socialista. A contraposição dos nomes e sua aplicação aos fatos sugerem, a uma abordagem imediata, certa indiferença para com a causa coletiva no primeiro e, no segundo, incompatibilidade de gregarismo e liberdade. O modo de entender o conceito de liberdade é o referencial para o sugerido na oposição dos dois termos: se designa a obediência do sujeito a tudo quanto possa ditar-lhe o desejo a despeito do mal-estar alheio, o liberalismo vem a ser o embate perpétuo de individualidades num meio político de regras demasiado instáveis e o socialismo doutrina cuja missão é o estabelecimento de limites para a atuação pessoal com vistas ao bem geral; mas se liberdade se define como a manifestação de quem, justo por ter na mais alta conta o próprio bem-estar, entende a estreita dependência deste para com o dos seus consociados, então as diferenças entre liberais e socialistas deixam de ter sentido.
Um indivíduo livre neste último sentido é, parece-me, tudo quanto pode desejar-se de alguém, mesmo se quem o deseja toma como verdadeiro o primeiro dos significados de liberdade. Muito embora se espere de quem se crê livre desse modo – o primeiro – a firmeza bastante para transigir em face dos excessos previsíveis de outrem compartilhando do mesmo credo, a prática fornece constantemente dados demonstrando a variedade de lindes, nesses professos liberais, para a tolerância das veleidades alheias. Pelo que o liberalismo, embora ensejando pronunciar-se em prol de uma irrestrita liberdade, termina por apor-lhe condições, ainda que de contorno incerto, assim dando margens a variegadas interpretações que o tornam, em realidade, o preceito bárbaro que de maneira tão canhestra tentou aprimorar.
Ora, o liberalismo pontuado de regras de conduta termina por ser, à primeira vista, justo aquele professado por quem tem na mais alta conta o próprio bem-estar e por tanto cuida do bem alheio por conhecer o quão entremeados este e o seu estão. Mas se termina por incorrer em erros ou em burlas, é por não se constituir sobre tal premissa, a do bem comum em prol do bem individual, antes usando-a como sorte de estatuto provisório cujo fito, nada inocente, é tão-só protelar uma pré-concebida ação livre à moda libertina para quando oportuno for. Por trás da transitória regulação da liberdade, enfim, jaz ad aeternum a esperança do indivíduo de perfazer atos livres no sentido em que, no fundo, crê, ou seja, a despeito do assentimento dos que a si estão associados. Quanto à oportunidade, ela é, infalivelmente, aquela em que o ato inaceitável passará desapercebido ou em que terá de ser universalmente tolerado, sem alternativa: em suma, todo liberal autêntico, no primeiro dos sentidos apontados acima, é aquele que aguarda a circunstância em que terá poder suficiente para predominar, desse modo desfrutando os seus atos da invisibilidade ou da ostensão próprias de quem os pratica do viés dominante.
Uma das espertezas da conhecida doutrina liberal em voga nos meios políticos e econômicos desde pelo menos os confins do século XVII é anuir ao conhecido bordâo reconhecendo oportunidade para todos. Ora, pergunte-se, com razão: oportunidade de que? para que? Para ocupar – ou de ocupar – os postos exclusivos e reservados aos quantos podem gozar da própria liberdade como sói, por sob os disfarces, professar a doutrina liberal. O resultado evidente é a própria realidade na qual estamos imiscuídos, de que falávamos no início, sortida de todo tipo de desentendimento, uma vez todos – ou praticamente todos – terem por desejo maior galgar a pirâmide social ao encontro desse lugar por cujas duvidosas virtudes está-se desde berço seduzido. Quem escapa à sina de tal aspiração é decerto por ser dotado de dose maior de tolerância ou por achar conveniência no lugar, embora ordinário, que ocupa. Destes muitos há que não recusariam, caso se apresentasse graciosamente, a ocasião de ascender: são os oportunistas no sentido lasso e não seria de impressionar se um estatístico mostrasse que existem em proporção muito maior do que a suposta aqui.
Interessante é notar o quão cioso é o homem de sua escalada na descoberta de bens tecnológicos cujo fim, naturalmente, é incrementar o conforto. A despeito de vivermos num tempo de crescimento em progressão geométrica da geração de tecnologia, futurólogos teimam em supô-lo infinito, inesgotável. É de esperar, na medida em que igualmente não tem peias o desejo de bem-estar do indivíduo humano. Ao lado disso, pouco ou nada se espera, ao menos na prática, de aperfeiçoamento da própria natureza do homem, a saber, do seu caráter, de sua capacidade de melhor conviver. Do viés da doutrina liberal, pouco se espere nesse sentido: melhorar a natureza humana seria conspurcá-la, privá-la de seus anseios de liberdade ou, antes, de sua livre manifestação. Uma das pedras de toque do liberalismo, inclusive, é o atestamento e a defesa da diversidade de anseios: nem todos querem o mesmo, razão de muitos estarem satisfeitos onde estão, não necessitando atingir o topo da pirâmide social para sentirem-se plenos. De uma certa maneira têm razão os liberais: quiséramos todos as mesmas coisas e não haveria necessidade de tanta publicidade, de tanta estratégia de mercado direcionando o desejo de muitos para certas coisas. Mas a satisfação a que se referem pode, em grande medida, ser nomeada 'resignação', visto não contarem os resignados com o suficiente para sequer almejarem sair de onde estão e rumarem para um posto imediatamente acima. Se consideradas as condições reais desses lugares pode ter-se uma razoável medida do poder do instinto vital, fazendo os seus ocupantes preferirem ser como são a não serem de modo algum. E, é claro, um bom liberal não deixaria de tirar partido de escolha assim instintiva a lhe proporcionar hordas de mãos laboriosas sustentando a sua privilegiada posição.
Rio, 01 de janeiro de 2008
Waldemar Mendonça Reis
terça-feira, junho 19, 2007
Filosofia, narcisismo, ética e moral
Filósofo é tão-só quem ama sua disposição inata para o conhecimento e a aplica, seja a um só, seja a muitos objetos, observando-os e entendendo-os de um ou de variados modos. Distingue-se dos demais indivíduos exatamente por esse amar, pois conhecem apenas por serem dessa maneira constituídos. Por outro lado, o filósofo não se mostra em essência diferente de outro humano qualquer: é suficiente admitir que a cada um pode caber afeiçoar-se a uma ou muitas das inúmeras características de que é constituído, podendo amar-se o próprio braço, por exemplo, pela força ou pela forma que apresenta, o próprio nariz, a boca, os olhos, as próprias mãos, os pés e mesmo o corpo por inteiro, a inteligência ou o humor descontraído, a própria honestidade e até a malícia e a vilania de que se é dotado. Embora possa concomitantemente amar uma ou mais de suas partes constitutivas, o filósofo ama sua condição cognoscitiva. Mas ama-a sem hesitação.
Ao encarar a si com tal sinceridade um filósofo percebe não passar de mais um dos acometidos de narcisismo, talvez não de um narcisismo integral, pois nem todos são como Alcibíades, cuja beleza física, entretanto, não pareceu comover Sócrates, encantado, como era, com apenas ser filósofo, mesmo porque não via em seu próprio corpo motivos para amá-lo. Mas não devemos esquecer que assim como conhecedores inatos, embora não por necessidade embevecidos com o conhecer, embora não por necessidade filósofos, somos também e em essência narcisistas, temos de amar ao menos uma, se não várias, de nossas características, ou mesmo todas elas, do contrário viver pode tornar-se experiência de todo desaconselhável. Há quem diga ser possível desprezar tudo em si e ainda assim ter vida tolerável, quiçá agradável, quando se aprecia outra coisa qualquer fora de si: nesse caso, entretanto, goza-se ou ama-se esse apreciar mesmo, o qual, sem dúvida, é parte do sujeito.
Filosofar, como se vê, não faz de ninguém um ser especial, mais ou menos louvável do que qualquer outro entre cujas predileções não está o conhecer. Entretanto o seu gozo com o conhecimento, porta aberta que é para a ciência, propicia-lhe o ensejo de tornar-se alguém distinto dos demais, um ser verdadeiramente singular. Isto ocorre quando o filósofo finalmente entende o por que do seu conhecer: conhece para agir, embora também aja para conhecer, embora em certas circunstâncias aja como se em aparência ignorasse o motivo ou a finalidade de sua ação e embora aja e sempre tenha agido, desde sua primeira ação, por ter algum conhecimento, aquele suficiente para ação assim primordial. Sua sabença está a serviço de como se comporta diante das coisas, pois é preciso considerá-las ciosamente, ou arrisca viver em desacordo com elas e mesmo desaparecer, extinguir-se.
Pelo inerente amor a si o sujeito - qualquer um - tem de saber como coordena suas ações dirigidas ao meio, tem de saber resistir a este e com tal resistência tem de igualmente preservá-lo, pois depende disto para continuar existindo. Em sua afeição pelo conhecimento o filósofo parece mais afeito do que os demais indivíduos a admitir essa interação necessária com o mundo e, claro, a cultivá-la de modo singular, buscando entendê-la cientificamente, ou seja, segundo princípios aplicáveis a uma ampla gama de situações e aceitos mediante provas, ou não lhe merecem a fé. Para tanto inteira-se da necessidade de valer-se de tudo quanto sabe, de todas as ciências que cultivou ou pode cultivar, pois encontrou a ciência por excelência, a ciência de todas as ciências: encontrou a Ética. E quando a encontra, de modo diferente de outros filósofos, cujas sabedorias se aplicam segundo princípios variáveis ou instáveis ou segundo princípios dizendo respeito tão-só ao seu amor a si próprio, o filósofo versado em Ética não pode empregar a sua senão sob os pressupostos inflexíveis dessa ciência máxima, tem de, por conseguinte, comportar-se como o sábio que é, caso contrário mostrará não passar de aprendiz, não passar de um curioso movido apenas por uma paixão qualquer.
Mas a todos, queiramos ou não, termina por interessar a Ética, sugere-me a voz que me inteirou também de sermos conhecedores e narcisistas natos. Sim, respondo-lhe, temos todos de estudar Ética, embora não do modo ou com a intensidade de um apaixonado por conhecê-la, não como o filósofo convencido de ser ela a única ciência possível, diante da qual as demais encontram justificativa, mero apêndice que são dela. Diferentemente do Ético, chamemos assim a esse filósofo, nós outros não buscamos perfeição sequer semelhante à que encontra em sua ciência. Seríamos, quando muito, versados numa espécie de sombra desta: pois se conforma em função das múltiplas superfícies sobre que é projetada, sendo variável e volátil como os acordos que propicia, incerta e sinuosa como as justificativas para as ações que enseja, quase que uma para cada sujeito. Enfim, sem amar o conhecer que nos é inerente podemos até fazer ciência, mas por imposição da própria natureza, e tal ciência congênita tenderá, também por necessidade, a algo como a Ética, a um seu arremedo, ética de amadores, não de verdadeiros amantes do conhecimento, ética possível a quem deseja exclusivamente desfrutar a vida sem saber ao certo se por mérito ou mesmo se de fato o faz: e seu nome correto é moral.
Rio, 19/06/07
Waldemar M. Reis
domingo, junho 17, 2007
Voltas ao mote do Mundo
Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.
Luís de Camões
Presunçoso poeta! Oh, porventura quisesse apenas passar-se por bom; até ser mau, naturalmente, pois apenas o bom corre o risco de mau tornar-se. E quem o puniu, finalmente? O mal, por sua desfaçatez de invadir-lhe o território em busca dos prazeres de quem o professa de corpo e alma, ou o bem enciumado? Ora, poeta, o seu castigo não é prova de estar o Mundo, ainda que só para si, concertado.
Que o Mundo não é como nos fazem crer, poeta, disto já me havia inteirado. Nele é bom quem do mal não tem oportunidade, cabendo-lhe assim tão-só sofrer aquele que outrem lhe faz. Estóico poeta! O mal é para peritos! Estultos sábios de antanho, cavilando do bem pedagogias, quando é para a maldade que carece adestrar-se. Fosse o contrário, não seria o bem saber inato.
Já o mal, em sendo novidade, tem de demonstrar-se, verificar-se, justificar-se! Doutro modo, não se o aprende. Preciso é torcer a bondade de que se vem ao Mundo dotado, contrariá-la com argumentos terríficos, irrefutáveis, inquebrantáveis, e depois testar-se, mostrar-se proficiente. Por isso o castigo, poeta. Foi reprovado.
É, o mal não admite fraudes. Nem indecisões. Não contemporiza: o mínimo deslize é o retorno ao chão. Uma vez erguido, no entanto, são oceano as retribuições. A começar pela posição, de mestre, para quem os discípulos, literalmente sob os seus pés, são só gratidão. Ora, poeta, não se anoje, ou mostra ter nada aprendido. Lembre do ditado: só a dor ensina. Ensina a ocasião de infligi-la para a instrução de algum coitado.
Rio, 17/16/07
Waldemar M. Reis
segunda-feira, junho 11, 2007
Livre e abreviada teoria das democracias
Exageros à parte, estes não podem ser motivos para darmos as costas para o sistema democrático e partirmos em busca de um mais apropriado. E a razão é, pelo menos em princípio, inexistir outro capaz de oferecer ao indivíduo melhor perspectiva de liberdade - assim como de hábito é concebida. Se a história não mente, o ser humano praticou já todos os possíveis métodos de organização comunitária, os quais, valendo-se da lógica mais rasteira, contam-se nos dedos de uma só mão: ou governa um indivíduo, herdando ou não o cargo, ou governam alguns, que igualmente podem ou não transmitir suas funções, ou, por fim, governam-se todos.
De novo com o auxílio da lógica é possível afirmar que, desconsiderada a quantidade de governantes, é a totalidade da população que outorga a estes as atribuições que têm - não fosse assim, governar-se-ia quem? Em suma, é sempre o povo que governa. O segredo de imperadores, ditadores, presidentes, legistladore, resume-se em manter a massa em dissensão continuada, pois é na ciosa administração das desigualdades que reside o poder, assim como é ordinariamente entendido o termo. Um tirano competente jamais delibera contra porções significativas da população. Do outro lado, um povo tiranizado, prova cabal de masoquismo coletivo, nada obstante cuida de moderar os efeitos do jogo político ou perece.
O poder democrático é passível de descrever-se, segundo é comum entendê-lo hoje, como o exercido por déspotas potenciais coagidos pelas massas, enfim esclarecidas, à negociação. Figuras assim seriam versões políticas de pais benevolentes, não fosse mais forte a vocação para o domínio a transformá-los em sólidos personagens num enredo em que a população, sem o perceber, permanece manipulada. Por isso é mais fácil definir democracia como o padrão de gestão coletiva admitindo variantes ao longo das eras, nas quais os indivíduos participam mais ou menos das decisões de um governo central, tendo-lhe previamente outorgado e continuando a lhe garantir a atribuição de governar. Como se vê, não pode haver motivo para dar-se as costas à democracia em favor de outro sistema, visto não existir a alternativa: melhor do que uma dada democracia só mesmo outra melhor - ou não tão ruim, se quisermos aderir à ironia de Churchill.
A quem está convencido, chegando neste ponto do ensaio, tratar-se tudo de puro non-sense, fica a sugestão de analisar, ainda que de maneira superficial, a evolução (no sentido de malabarismos, acrobacias - segundo sugestão de Antonio Caetano) das democracias no correr do último século. Em todas é visível a cuidadosa cisão das massas jogadas, assim partidas, umas contra as outras; e mesmo em momentos de maior participação coletiva prevalece ainda a separação em blocos, dos quais sobressaem líderes cuja função mais significativa é a de manter aquela facção centrada no quanto a distingue das demais, forma esta de perpetuarem suas respectivas influências e, tendo na retaguarda contingentes consideráveis de indivíduos, obter determinados privilégios, sempre mais pródigos para si do que para suas bases. Finda a análise, o bom observador terá concebido espécie de imagem tingida de uma única cor em vários matizes e jamais esquecerá de que oligarquias, despotismos e mesmo realezas são partes mais ou menos ativas, mais ou menos fortes, da democracia como até hoje a conhecemos. Tudo, como não poderia deixar de ser, de conluio com a patuléia.
A associação de idéias como a de perfeição democrática com educação não é casual. A despeito do grau de conhecimento de distintos membros de uma sociedade, esta se move numa massa de informação cujo nome é senso comum. Tanto mais o senso comum de uma população se aproxima dos níveis de conhecimento ditos de excelência, maior tende a ser a liberdade de cada indivíduo, ou seja, maior tende a ser sua auto-suficiência. Nada mais natural: senso comum é o repositório do saber de uma comunidade, é onde se preservam os meios de esta lidar com seu entorno visando a sobrevivência. E toda política, sendo, como é, arte de administrar ou manipular as massas, tem de lidar, evidentemente, com esse conhecimento rigorosamente acessível a todos, ou não sucede.
Mas a educação em quaisquer das modalidades de democracia conhecidas tem de, para manter-se coerente com o princípio de dominação, exercer-se num determinado âmbito, fora do qual torna-se atividade subversiva. Ensinar-se-á, assim, a conservação das instituições políticas vigentes, jamais seu real aperfeiçoamento. Uma mancheia de educadores de aluguel terá torcido os narizes para tais afirmações presumindo que educam para a liberdade, para a livre-iniciativa, portanto, para prover o mundo de gerações cada vez mais aptas a corrigir os desvios do poder público. E de fato é improvável encontrarem-se dois momentos consecutivos quaisquer em que não tenha havido alguma reforma, algum aperfeiçoamento, a despeito de persistirem falhas incontáveis e, o pior, descontentamento quase universal: mudar é revolver, sendo também condição inescapável das coisas no mundo.Assim, prescrevem as gestões públicas: se é imperativo mudar, que se o faça então em pequenos bocados, sutis revoluções que não desandem a ordem coletiva. Formam-se, portanto, pela educação consensualmente tolerada, pequenos revolucionários, indivíduos capacitados a manter ao máximo as condições próximo de certo estado admitido como ideal para a conjuntura vigente. A única razão a conservar de pé as democracias como as conhecemos, por quase perfeitas que sejam, parece ser a esperança em cada um de nós de um dia passarmos pelo funil conduzindo a sucessão de privilégios, à imitação dos poucos que nos últimos decênios o fizemos: e tal em nome da renovação, das pequenas e controladas revoluções em cujos finais é possível constatarmos a presença de grupo de atores diferente do anterior, mas desfrutando de privilégios idênticos. Por isto são raros os grandes revolucionários, mesmo aqueles praticantes e pregadores da paz, que em tese não o fereceriam qualquer incômodo, mas talvez que por isso mesmo sejam caçados e suprimidos.
Por força da intuição, entretanto, sabemos todos como de fato tem de ser a melhor democracia: cada qual conhecendo exatamente o que de melhor fazer e, o principal, sem prejuízo de ninguém (uma coisa, na verdade, acarreta a outra, mas não custa reiterar). Em vista de como estimamos nosso caráter mediano, tal intuição define comunidade de sábios, seres imagináveis e mesmo reconhecíveis, mas a quem é impossível imitar, segundo se crê em consenso. Na raiz de tão insensata crença, entretanto, reside equívoco secular, pelo qual a figura do sábio metamorfoseou-se naquela do indivíduo provido de grande quantidade de informação tornando-o apto a manipular ou dominar o meio ao redor, a natureza, nela incluídos seus semelhantes. Antes, por milênios, o sábio foi, ao contrário, aquele capaz de manipular ou dominar a si mesmo, sua natureza pessoal. Uma democracia no limite da perfeição só pode ser praticada, evidentemente, por sábios à moda antiga. Essas democracias 'quase perfeitas' - e, ainda assim, tão insatisfeitas - hoje circundando-nos ou circundadas pelas nossas (a meio-caminho da perfeição das primeiras), têm-se mostrado como exemplos de gestão pública abundando em sábios à maneira moderna, sábios entre cujas especialidades está a acurada manipulação de seus semelhantes, sejam estes sagazes ou não. Suas ações estendem-se, não raro, a populações estrangeiras, pelo que não demonstram serem deveras auto-suficientes tais sábios à moda recente, sempre necessitando do esforço alheio provendo-lhes do que viver.
A educação capacitadora de cidadãos em verdadeira liberdade constitui-se de princípios de Ética antes de princípios das demais ciências, dois gêneros de princípios que, por sinal, não discrepam, embora sem os do primeiro tipo os do último tendam a desgovernar-se em presunção. Com os princípios éticos é possível chegar-se a uma ciência limpa, capaz de extrair do entorno apenas o suficiente e sem o concurso de massa de indivíduos manipulada para atender aos fins de outros, menos numerosos. A democracia perfeita, constituída por homens sábios é, por fim, alcançável sem transtorno maior do que uma inflexível boa vontade e já possui mesmo um nome, sendo definida como o federalismo tendo por limite apenas o indivíduo, sua unidade menor: Anarquismo. Assim se intitula o pacto no qual o homem professa entender que sua liberdade existe em função da fraternidade e, principalmente, da igualdade, conceitos enfim alçados da condição de meras promessas e mantendo distância segura das definições que lhes atribui a sabedoria de tipo moderno. Em tal pacto a convicção das partes não oblitera a noção do todo, as dificuldades são resolvidas topicamente - pois singulares são as condições de cada ponto do planeta - e nacionalidade será apenas designação geográfica. O acúmulo de riquezas, em vista do custo do futuro, só terá sentido se administrado pela totalidade dos indivíduos e é possível ser-se, quando assim se o desejar ou preciso for, engenheiro, operário, médico, lixeiro, músico, lavrador etc, embora jamais presidente, general, polícia, juíz, pois o pecado não se faz mais perceber tanto a norte quanto a sul do equador. Entretanto são todos - questão de ordem - legisladores, investigadores insaciáveis de regras segundo a ocasião, mas orientadas por par de princípios que, a bem dizer, são conhecidos de nascença: produzir o melhor (sem prejuízo de ninguém - não custa insistir). Fora essa, temos mesmo de contentar-nos com estar em alguma das melhores dentre as piores democracias.
Em 11 de junho de 2007
Waldemar M. Reis
terça-feira, maio 15, 2007
Fides et Ratzinger
No princípio, era a confiança. Apenas confiança, mas num sentido do qual você e eu não guardamos mais do que uma noção descorada, confiança em sentido absoluto. Hoje é sentimento atribuído aos parvos, indivíduos dotados da coragem, a eles conferida pela ingenuidade, para confiar cegamente, confiar simplesmente, a priori, quiçá sem garantias. Confiança assim só se deposita, é natural cogitarmos, em quem de certo a malversará jamais. E de espantar é que tenha havido quem a merecesse ou que tenha alguém acreditado em sua existência.
Mas, conta-se, teria de fato existido tal sentimento. E veio ele à tona, diz a história, quando um homem e seu clã deixaram para trás o lugar onde nasceram em busca de uma promessa. Foi por nela confiarem que seguiram caminho e de passagem testemunharam a destruição de cidades sem sequer um olhar, a transformação de um dos seus em estátua de sal, entre outras mostras impressionantes do preço de não confiar.
Muitas são as provas por eles deixadas do quão firme foi sua confiança. Jamais esqueceremos da saga do pai conduzindo o filho à imolação depois de abandonar às portas do deserto um outro, o primogênito, com a mãe, sua antiga concubina, designada por seu Deus para lhe dar a descendência negada pela constituição física de sua esposa e meio-irmã, a quem por duas vezes vendeu em troca da própria vida e por duas vezes restituiu em meio a riquezas incalculáveis. Fraqueza, diriam os incautos, diriam os incréus leitores de sua sina; loucura, completariam. Mas o fariam por não mais confiarem, não no sentido daquela confiança de quem estava seguro de não haver lugar senão para o bem, para o bom, neste mundo de desígnios imponderáveis. Foi suficiente tolerar o peso do revés para que o ventre vetusto da esposa inesperadamente concebesse, para que o filho por dever renegado se tornasse patriarca do povo do deserto, para que um anjo viesse conter o braço antes do golpe do punhal.
Como se não bastassem essas e outras mostras desse confiar (não esqueçamos daquele pai cuja firmeza não se abalou com o decesso de toda a família, a penúria extrema e a temporada no estômago de um cetáceo), como se fossem insuficientes para o entendermos, séculos adiante, ou melhor, livros à frente, a história nos dá um pregador de cujo delírio brota a ambígua noção que doravante orientará a razão, mas também a desrazão, do homem. Em nome dela, fé (como passou a chamar-se a confiança), segundo a definiu Paulo, apóstolo tardio dum Cristo já ressurgido, milhares, quiçá milhões, pereceram sob a acusação de não a possuírem, de não a exercerem: eis um dos mais bem acabados exemplos da demência. Pois como é possível sequer suspeitar de haver quem seja destituído de fé? Como é possível conceber vida sem fé? A estas interrogações entregaram-se os espíritos verdadeiramente lúcidos, embora não dessem com outro meio para evitar os inúteis suplícios senão oferecendo às prováveis vítimas, os supostos destituídos de fé, o objeto sobre que depositarem a que sempre tiveram e que de fato existia, embora não a percebesse o clericalismo irracional, decerto por tratar-se de fé em estado bruto, aliás, como a quis Paulo mesmo, a saber, a espera do que não se pode ver.
Cristo, imagino, dar-se-ia por contente se seus seguidores apenas se inteirassem da fé que sempre possuíram e que sempre possuiriam em sendo viventes, tomando cada qual, em seguida, caminho próprio. Creio, entretanto, ter em mente o Cristo ideal quando assim o digo, o Cristo coerente com a pregação que lhe atribuíram. Não sei se para o mesmo fim posso invocar o Cristo histórico, personagem dia a dia emergindo da pertinácia ou da fantasia de arqueólogos e historiadores, cuja suposta vaidade teria levado ao paroxismo, no breve intervalo em que viveu, a corrompida sociedade desse tempo e cuja recompensa foi inserir-se na história, a passada, com a qual fez coincidir cada um dos seus passos desde que adentrou Jerusalém em lombo de jumento até a crucifixão, e a futura, a habilidade de cujos escribas o tornou em lenda.
Por que se daria por satisfeito o Cristo ideal com a contrita diáspora de seu rebanho? Por ser um visionário, como o confirma em boa medida o Cristo histórico assim como o esboçam. O Cristo coerente estaria lasso das invectivas dos poderosos sobre o comum acusando-o de desligado, sua meta seria a de livrá-lo de uma vez por todas desse tribunal insano. Mas desligado de quê estaria o comum? Ora, de sua natureza primeira, de sua essência imaterial, de sua origem na divindade. Não é outra a premissa religiosa, de seja qual for a religião. Mesmo a etimologia do termo, em sua ambigüidade, pende ao fim para delineá-lo como o esforço de fazer tornar o indivíduo ao essencial, em suma, de reatar seus laços com o que não percebem os sentidos nem alcança a razão. Como se possível nos fosse escapar ao incognoscível e ao paradoxo enquanto vivos e conscientes! É verdade: a empresa religiosa padece cronicamente da presunção de estarmos tecnicamente apartados de nossa origem, a despeito de atribuir-lhe poder, conhecimento e presença absolutos. Em sua opinião teria Deus criado o universo e o povoado de criaturas capazes de eventualmente apartarem-se disto que criou, não obstante tudo, absolutamente tudo, seja criação Sua. Em suma, é simples a dedução: para onde quer que tais supostos fugitivos pensem rumar, permanecerão sempre confinados à Sua obra. Enfim, os pressupostos religiosos jamais justificaram ou justificarão as conclusões que deles se retiram e muito menos os atos determinados pelo que se concluiu.
Até onde alcanço, só vislumbro uma causa única para a profissão religiosa: o vício da dominação. E melhor viceja sua semente onde antes adubou a ignorância aterrada com o fado dos viventes. Pois o mundo é útero e túmulo, berço e esquife, palco e cadafalso, saciedade e penúria, de que, mais dia, menos dia, vamo-nos dando conta. Mas se vem à luz com uma imcumbência, uma só, contrariadora da metade - a metade indesejada - disto que o mundo é, a incumbência de cá permanecer o quanto possível for. E, não importa o tanto que se perdure, não há quem ou o que cumpra por inteiro a tarefa nem quem ou o que dela deixe dívida: todos o sabemos, intuitivamente; sem qualquer pressa a vida no-lo ensina. Tememos tudo cujos efeitos desconhecemos ou não logramos mensurar, dos eventos da natureza aos pensamentos de terror que estes nos infundem, frente aos quais só duas atitudes se mostram possíveis: a obstinação perquiridora, naturalmente decorrente da incumbência - ou, melhor dizendo, da imposição - de perdurar, e a submissão incontornável aos fatos, cuja continuidade termina por extinguir-nos. A vida é a temporada durante a qual oscilamos entre uma e outra posições e talvez sua duração se relacione diretamente com a eqüidade com que nos mantemos mais na primeira, visto ter a outra a função de mera pausa antes do impulso pelo qual penetramos mais e mais no conhecimento das coisas. E é nesses momentos de dúvida, quando por qualquer motivo se enfraquece a confiança que temos de ter no que somos capazes de saber, é em tais hiatos - por vezes mais duradouros do que desejávamos - que as admoestações religiosas se vêm imiscuir.
Suas ofertas não são de todo despreziveis: convencendo-nos de estarmos desgarrados, acenam a seguir com a reentrada no mundo verdadeiro, segundo o concebem, para tal ofertando-nos o conhecimento total e instantâneo da realidade. Abstenho-me de julgar o teor ou o valor desse conhecimento, pois tal só se mede tendo em vista um sujeito e o quanto isto lhe tem serventia. E de hábito não é raro topar-se com 'religados' cuja vida sucede à sua satisfação, prova esta porventura considerável do valor do que conhecem. Arrisco-me inclusive a reputar tal conhecimento, em essência, o melhor, o único mesmo. Mas recuso conceder-lhe o acabamento às pressas arranjado pelos doutores das religiões para torná-lo palatável ao indivíduo em dúvida profunda, convencido de estar de parte da Criação. Prefiro restringir-me à letra da palavra de Paulo em Hebreus (11:1), para quem a fé é a forma da esperança e a prova do invisível, descartando os objetos que a tradição a ela apôs à guisa de isca para os destituídos de paciência e imaginação. Pois o objeto da fé, da fé que é apanágio de todo vivente e não apenas dos devotos desta ou daquela religião, não se constitui senão na espera que o desvela infinitamente em sua infinita perfeição. Bem aventurados os que não se apressam em pôr no seu lugar qualquer coisa que, no incessante desvelamento, dá à fé a impressão de ser como uma árvore, o trovão, o mar ou as divindades. Pois ela é tudo isto e muito mais, é qualquer coisa, é todas as coisas. Mas só o é por haver quem - por haver um sujeito - a exercê-la, sem o qual é nada.
A fé é a prova de estarmos, desde sempre e enquanto durarmos, ligados com as coisas, ligados nas coisas. É desejo, vontade, indução; é o passo que darei a seguir sem qualquer garantia, mas com a certeza plena de que o darei. Em sua audácia a fé tem mesmo um objeto último, extremo, mas do qual possuímos, quando muito, um nome, Deus, e uns poucos atributos óbvios, embora paradoxais. E de pouco nos servem tais elementos: por certo de estímulos para o exercício mais vigoroso, mais entusiástico, da continuada e imperiosa fé; jamais como justificativas para o antagonismo que o arrebanhamento de homens em torno a cleros distintos costuma suscitar, menos ainda para promover a servidão. A fé nos constitui igualmente, pelo que somos livres e fraternos. É o que viemos descobrindo, ao passar das eras, a despeito da massa ainda orientando sua fé para os objetos impostos por conventículos cujo fito não é outro senão mantê-la submissa. A passos módicos, nada obstante, evolvemos, e prova-o o modo como findamos por designar tal objeto maior possível à fé, objeto indivisável por inteiro, mas perpetuamente descortinando-se aos nossos sentidos, mesmo os mais recônditos: Deus, atributo de gênero antes que nome de espécime.
O Cristo ideal, dizia, satisfar-se-ia com entendermos apenas isto: é impossível 'desligar-nos', não havendo necessidade, por conseguinte, de religamento; só se desligam os decedidos, pois em seus corpos não mais habita a fé, isto que nos mantém aderidos ao mundo; por conseguinte, somos feitos de fé, por cujo intermédio tudo é possível conceber, nada excedendo, embora, a idéia de Deus, cuja propriedade é a de constituir-se enquanto fé houver, enquanto vivo se for. E uma vez aprendida lição assim singela, que tome cada um o seu caminho no mundo, tratando de mantê-la, transmitindo-a às gerações vindouras, de modo que em pouco sejam esquecidos todos quanto fizeram e ainda fazem da fé instrumento de servidão.
Rio, 15 de maio de 2007
Waldemar Reis
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