quinta-feira, novembro 02, 2006

Discurso liberal

a um amigo

Ora, meu amigo, é uma maravilha esse mundo liberal! Como indica o próprio nome, é tudo quanto pode alguém desejar: liberdade, direito inalienável com que nascemos e pelo qual nos é permitido fazer o que desejamos de nossas existências, até mesmo errar, se assim for necessário ou acaso apenas assim o queiramos. Pois só se é livre quando é possível escolher, inclusive o pior. Sem ser isso da conta de ninguém.

Ou você preferiria o mundo onde alguém lhe dissesse o que fazer, o mundo sem escolha, pronto e acabado a despeito dos seus anseios particulares? Sendo esse o seu desejo, é bom se apressar: não há mais tantos lugares onde tais experiências são feitas e em breve nenhum restará. Mas não vá, depois, reclamar, pois isso é malvisto por essas bandas, se não impossível. Nem me venha dizer que eu não avisei.

Um dos pontos notáveis do liberalismo diz respeito diretamente ao significado mesmo do termo. É-se livre para dar-lhe aquele que se acredita ser o mais cabivel. São possíveis tantas idéias liberais quanto houver de indivíduos a concebê-las, havendo para tal, em aparência, somente o limite da interdição ao aparecimento de novas: em vista dessas premissas, a única proibição tolerável por um espírito francamente liberal só pode ser a de proibir, ao menos e em particular a concepção do que seja a liberdade. Semelhante panorama, como é previsível, se apresenta como a convivência, nem sempre pacífica, tampouco inteligível para a maioria de nós, de idéias em franca oposição, em aberto conflito. E ao liberal autêntico, é natural, não inquieta semelhante composição. Do contrário, nada mais livre do que a profusão, ainda que conflituosa, de convicções.

Dado o fato de tais juízos dizerem respeito, por necessidade, ao modo idiossincrático de cada indivíduo entender e lidar com a realidade, é de esperar o recurso freqüente às vias de fato na dirimição das divergências. É claro, há regras moderando o uso de tal solução, havendo também um sem número de objeções e de reparos às mesmas, propostos com o fito de conservar o equilíbrio ideal de duas forças contrárias (pois no liberalismo, reiteremos, é-se livre para virtualmente tudo que não cerceie seu princípio seminal, o da liberdade), redundando todos no favor incontornável a uma delas. Eis, ouso afirmar, um dos problemas genuínos enfrentados na experiência liberal do cotidiano.

Correntes mais realistas do liberalismo, entre cujos bordões está o uso da silenciosa ironia num dos cantos dos lábios constantemente dirigida aos liberais afeitos ao idealismo, costumam justificar essa insubmissão das regras a todo esforço corretivo como a emergência da lei natural do mais forte, contra a qual é impossível insurgir-se sem pôr em risco a continuidade do princípio liberal. O indivíduo, evidentemente, é livre para manifestar-se como é, e se a posse de maior força é sua condição originária, nada poderá coibi-la sem o fazer de enfiada com sua própria liberdade. É de esperar que num ambiente de liberdade semelhantes situações sejam contornadas de maneiras igualmente livres, mas uma dessas contingências - talvez só explicáveis nas leis da físicas contemplando o comportamento imprevisível de partículas dispondo-se segundo padrões simples e determinados a despeito de se moverem aleatoriamente - tem produzido a adesão em massa, se não total, dos adeptos do liberalismo à convicção de haver também um equilíbrio intrínseco a essa lei natural do mais forte provendo cada indivíduo de força particular cujo emprego adequado pode levá-lo a superar a de outro semelhante. Assim convencidos, professam ou demonstram o livre direito de cada um ocupar, segundo o uso conveniente das próprias capacidades, as posições mais elevadas - as mais cobiçadas por praticamente todos - na estrutura da sociedade liberal.

Só mesmo um tolo, é óbvio, escolheria viver num sistema não liberal, seja ele qual for (pois não há, para algumas correntes do liberalismo, senão ele mesmo em oposição a uma profusão de versões inconsistentes do seu contrário, o não liberalismo). Onde mais, senão cá, seria possível prevalecer sobre os iguais, ainda que por período incerto? Onde mais se toleraria a submissão senão onde existe a perspectiva de, algum dia e a depender da própria habilidade, submeter também? Há quem prevaleça por lustros consecutivos e mesmo quem o faça por décadas ou séculos e, nada obstante contestados e até combatidos, gozem do merecido respeito dos seus contendores, garantido no princípio liberal. Tornam-se história, exemplo, esperança para gerações de submissos no aguardo de suas horas ditosas de preeminência. São, tais ícones, prova definitiva da liberdade de meios usados para atingir os seus objetivos. Para comprová-lo é suficiente consultar suas biografias, cuja reunião, aliás, é o objeto central da ciência histórica.

No cerne do pensamento liberal, é consabido, está a noção de erro. Ali o erro é apresentado como o direito maior ao qual fazemos todos jus. Em particular pela compreensão de que a todo erro cometido num certo âmbito corresponde um acerto noutro. Imperdoáveis, entretanto, são os erros do indivíduo cometidos consigo próprio, tidos como manifestação de incontornável fraqueza e merecendo, quando menos, o escárnio universal. Os demais, todos decorrentes da passividade, são inteiramente compreensíveis, tanto que para designá-los adota-se o eufemismo 'engano', pois os cometeram quem procedeu com acerto para si, induzindo os restantes aos equívocos ditos perdoáveis. Sem errar tornar-nos-íamos inertes, seres desprovidos de qualquer desejo de movimento, fadados à sucumbência, se não pela depressão, decerto pelo suicídio. Motivados pelo temor de semelhante marasmo, há mesmo quem admita o perdão para os erros imperdoáveis como alternativa para evitá-lo. Mas os autênticos pensadores liberais, convencidos do império incontornável da liberdade (pelo que nem mesmo preocupam-se com criar-lhe dispositivos protetores), não reservam para estes desesperados senão o mesmo sarcasmo de canto de boca lançado ao liberalismo idealista.

A seguir à risca o pensamento desses genuínos liberalistas chega-se à conclusão inelutável de que a consideração de outro princípio fundamental da ética que não o da liberdade, como o da igualdade, por exemplo (precipitadamente associado a ele no fervor renitente de revoluções), é apanágio dos desprovidos da força, da astúcia ou do poder bastantes para alguma vez acharem-se no ponto mais alto na roda de fortúnio, confinando-se indefinidamente à parte submersa dela mesma. É o caso de quem não logra escapar de moto próprio ao erro alheio recaindo sobre si ou de quem erra contra a própria pele. Só estes, segundo essa filosofia, são capazes de imaginar, como o faz quem tem sede no deserto, modelos perfeitos de eqüidade com os quais iludem-se em massa, configurando em seu delírio ameaça suficiente para aqueles cujos poder e habilidades para conservá-lo são congênitos. Tendo conseguido mudar de posição em esforço coletivo, dominando quem antes os submetia, percebem-se, esses fracos, quase de imediato regidos - ainda e de fato - pelo princípio liberal, reconhecendo como secundários aqueles outros princípios que os guiaram a prevalecerem, passando de imediato a proceder como é de esperar e, caso não hajam aprendido de sua experiência de ascenção a perspicácia para manterem-se onde estão, descambam de volta nos submundos donde a custo se ergueram. Em vista dos fatos, para o liberalismo realista a conclusão óbvia é a de não haver pensamento outro a refutá-lo nem iniciativa alguma a destituí-lo.

Rio, 02/11/2006

Waldemar Reis

segunda-feira, setembro 18, 2006

Melancolia

A idéia de depressão traz a mim a lembrança de uma charge, se não me engano, do Sempé, monumentalmente estampada em duas páginas de um número dedicado à literatura latino-americana da antiga revista Status. No traço descuidado e sujo típico da caricatura do século XX, mas nem por isso feio ou ininteligível como o foram muitos da sua espécie, divisavam-se, do alto, blblioteca ocupando todas as paredes de um enorme salão obscurecido e, quase perdidos na imensidade da detalhada garatuja, duas personagens assentadas sobre poltronas fartas. Apenas uma delas fala e discorre sobre os seus motivos para evadir-se da depressão, a frivolidade dos quais a deprime.

Sou de opinião que o deprimido só tem mesmo solução para o seu mal na folia - com o perdão pelo galicismo, mas ele ilustra suficientemente bem uma face do comportamento que a moderna psiquiatria diagnostica como doença bipolar. Nos termos de Sempé, dir-se-ia que o doente adere aos motivos inconvicentes ou permanece melancólico, pois não os há de outro tipo. E tal adesão só se verifica quando o sofrente o faz com todo o seu ser, digo, de modo frenético, estado cuja duração é medida na razão direta de sua resistência física: se o sujeito tem sorte, há falência orgânica; se não, um repouso temporário é o prelúdio para, caso encontre motivo, retomar o desvario ou, no caso contrário, intoxicar-se outra vez com a bile negra. Afora essa, à inteira disposição de espíritos menos exigentes ou mais necessitados, há soluções mais demoradas, da ordem das terapias propriamente ditas, e que requerem, se não maiores refinamentos, por certo boa dose de determinação.

Tenho alguma experiência no assunto, claro, como padecente e, de quando em vez, como leitor de doutas opiniões na matéria. Conheço a envolvente gravidade das razões depressivas, bem como a trivialidade exasperante das que as combatem (assim vistas do viés de quem se deixou convencer pelas anteriores). É efetivamente impossível escapar ao assédio das primeiras quando se sobrevive um pouco ao corte do cordão umbilical (não estou sendo hiperbólico, visto o corpo recém-nascido, a descoberto dos cuidados automáticos do organismo materno, já ser provido do arcabouço sensorial na raiz do fato depressivo, pelo qual tem de, doravante, chorar quando tem fome ou frio, ao menos). Entretanto, talvez em virtude do período de formação do indivíduo, ao longo do qual constitui e consolida essa parte sua mais afeita aos motivos depressores, falo da razão, só quando adulto virá discernir dos demais sabores à sua disposição o amargor característico desse mal, dar-lhe-á um nome e perceberá que sua saída está em abrir mão disso que lhe concedeu a maturação, em retornando a um estado mais próximo do inicial, grandemente desconfortável quando se está em contato com quem não reconhece ou aprova essa via terapêutica. Há quem, como eu, encontre modos aceitáveis do viés da sociedade de alternar a inexorabilidade da tristeza com uma atividade física radical, no caso, um esporte, mas há quem encontre solução em exasperar-se com os entes queridos até as vias de fato ou com os opositores numa tribuna e quem consuma drogas ou se exaura em sexo para não se entregar ao fim decerto o mais lamentável reservado a um vivente.

Além do padecimento de intermitentes depressões, minha experiência na área tem sido larga como testemunha de crises alheias. Uma destas arrastou-se por anos, cerca de doze, mas eu a assistia demasiado próximo para só lhe extrair os ensinamentos mais de década depois. Tratou-se de um construto cuidadoso, muito bem justificado (pois era indivíduo de enorme inteligência quem o fez) e cuja raiz se alimentava do truísmo que, não obstante de presença insidiosa em todos os instantes da vida, só à razão maturada caberá defini-lo assim: há sentido, sim, pois correm as coisas umas com as outras, umas após as outras, em diversos encadeamentos, sendo impensável negá-lo; mas não há finalidade, justo em virtude desse mesmo encadear-se de coisas, ou seria preciso estabelecer aí um ponto terminal (algo que, diga-se en passant, é preciso tanto coragem quanto desespero bastantes para fazer!). Em suma, nesta, cruamente demorada, tanto quanto nas demais depressões, passageiras ou não, a que assisti, reduziam-se os sintomas à simples formulação do efêmero. Em aparência noção excessivamente geral para dar conta da diversidade de melancolias, é suficiente considerar-se o que lhes serve de estopim, os aliciantes motivos no cerne dos quais esconde-se ao menos um 'não': 'não é possível', 'é inviável', 'não consigo', 'não deu'...

A depressão ataca fundo a segunda das virtudes teologais, a esperança, a qual não passa do modo de a primeira, a fé, manifestar-se. Em meu entender, fé é instinto sem o qual a idéia de vida não se consuma: estar vivo é o mesmo que ter fé, que é o dar o passo sem a certeza de sê-lo possível ou o continuar por continuar, por ser assim que se foi feito, para a continuidade. Já a esperança é a presunção de que o passo a ser dado possa ter finalidade outra que não o dar o passo mesmo: a esperança é como a cenoura pendurada à frente do burro por quem o monta. Pois bem, e o deprimido é aquela montaria que entende ser impossível morder a isca, aliás, já nem a considera como tal, mas como a fonte de seu tormento: e então empaca. Justo aqui melancólico e eufórico se separam, digo, é precisamente no modo de agir diante da cenoura que o eufórico pode desfrutar da graça efêmera da folia: basta acreditar - ou mesmo fingi-lo de si para si - que, sim, é possível alcançá-la, pois, ora, é de fato mais agradável essa crença do que a contrária. E, como que por milagre, assim pensando o nosso burrico é capaz de fazer-se em alazão, embora com tal arroubo arrisque surpreender seu montador, derrubando-o e à cenoura, a qual poderá, finalmente, ser degustada, mas ao custo da decisão previsível do dono de não usar tão cedo da artimanha, pelo que ao burrinho folião as cenouras parecerão mais apetitosas quando eternamente diante dos olhos do que eventualmente dentro do estômago.

O deprimido obstinado tem uma de duas sentenças: aguardar que nada em si ouse o passo seguinte, o último dos quais será dado pelo coração, ou estabelecer uma data para sair de cena (conheci alguém que elaborou o enredo exato para convencer a enfermeira a levá-la ao terraço do prédio, donde se lançou). A última alternativa, é bem verdade, um deprimido convicto das razões de o ser a rechaça com a alegação de que nela encontrou-se ao menos uma esperança e se a fisgou como fez o burro com a cenoura, com a vantagem de essa estar envenenada, poupando-o da futura decepção pela ausência provável de mais iscas. Mas o deprimido convicto também não escapa às próprias críticas, pois no fundo espera que, morta a esperança, morra-lhe de imediato a fé (sim, não é a esperança, mas a fé a última a morrer, visto que o sistema basal parece insistir em seu trabalho meramente orgânico quando à consciência faltam objetos que esperar). Ao soi disant deprimido autêntico (como o da charge do Sempé), no entanto, não se pode imputar a infidelidade aos princípios, reconhecidamente universais, de sua depressão.

Tal acusação se aplica do mesmo modo aos que escolhem a euforia: são rigorosamente fiéis aos motivos que os agitam, motivos esses, reitere-se, idênticos àqueles do melancólico e tão prosaicos como uma cenoura. Está livre de erro, portanto, a ciência médica ao vê-los como faces de uma mesma moeda compulsivamente lançada ao ar. E sustentarem-se como tais, eufóricos e deprimidos, é questão da resistência orgânica de cada qual, devendo o estado de um ser substituído pelo estado oposto enquanto o corpo o permitir. Há, não obstante, um modo de evadirem-se desse jogo, existindo quem o faça como que por natureza, embora o comum seja topar com quem o conseguiu em longo e continuado esforço. Trata-se de estado intermédio, não estático, tampouco eqüidistante de tristeza e folia por isso mesmo: quem nele se encontra não se torna imune a uma ou à outra, sendo capaz de experimentá-las alternadamente como qualquer indivíduo, mas com o privilégio de não se ver enredado por nenhuma. Chamam-no de indiferença, frieza e insensibilidade, havendo também quem escolha formas menos parciais de nomeá-las, como beatitude, ataraxia, nirvana e satori, e quem aprecie as designações oriundas da clínica psicoterápica, dizendo que se está em alta, que se tem o passe, ou da clínica psiquiátrica, onde o alcunham de dopagem. À exceção dos pacientes psiquiátricos, aos quais em sã consciência não se pode atribuir a experiência de alguma emoção, aqueles cujas imunidades à bipolaridade foram conseguidas por esforço próprio experimentam uma dificuldade singular: a de conservarem-se como estão, pois permanecem à mercê das forças que tangem para lá e para cá deprimidos e eufóricos, sendo por elas testados sem pausa, a ponto de terem de habituar-se a viver em dúvida quanto a terem ou não conseguido o que pretendiam, considerada melhor do que a certeza, que lhes acarretaria presunção ou frustração e os conduziria de volta à roda de excitação e infortúnio.

As fórmulas para aí se chegar são variadas, havendo particular predileção pelo divã psicoterápico e pelas práticas originadas em culturas asiáticas, entre as quais a meditação, sem falar nas farmacopaicas, legais ou não. O espírito cristão, por outro lado, desperdiça hoje, resultado da ignorância apondo toda sorte de estapafurdice à singeleza da doutrina original, as propriedades balsâmicas da caridade, terceira das virtudes teologais, indo buscar na compaixão budista sucedâneo eventual, com a desvantagem de esta não se encontrar tão imiscuída nos códigos de sua cultura quanto a outra. Pondo outra vez de lado as conotações de teor místico ou religioso, parece-me evidente que, assim como a esperança é a fé provida de objeto, a caridade vem a designar o objeto mesmo a nutrir (a dar corpo a) a esperança. Entendido como apenas outro nome para esmola, o termo caridade tem servido a cada dia menos como auxílio para se atingir a beatitude, o estado para além de bem e mal. Observando-se, entretanto, alguns dos seus significados anteriores, encontra-se ali a idéia de 'caro', designando tanto preço alto quanto afeto, sendo a dádiva, em particular a monetária, um modo relativamente eficiente de o indivíduo demonstrar, na esfera social, o presumido cultivo desses dois valores.

Nisso, acredito, reside o maior entrave do sujeito à solução de sua durável condição bipolar, visto parecer o mesmo para o seu semelhante que ele de fato a tenha superado ou que apenas o aparente. O recurso às drogas legais recende um pouco a essa idiossincrasia social, restaurando a tranqüilidade do meio - o grupo - e do indivíduo enfermo, embora sem qualquer controle deste sobre seu novo estado e a um preço ainda desconhecido em termos orgânicos. (Essa observação ajuda a entender o porque de a religião ter sido refinada como sorte de opiáceo popular.) A considerar a tendência orientando toda iniciativa em nosso já bem sedimentado hedonismo tecnológico, por meio do qual o homem não mais necessitará demover de moto próprio qualquer obstáculo de seu caminho, é provável que em breve tenhamos de receber a primeira geração de seres geneticamente planejados sem propensão alguma à melancolia. E parece natural que os queira também imortais, como se demonstrasse a ciência, por intermédio de seus admiráveis artefatos, a ingênua crença de o nirvana - o paraíso - ser mesmo aqui, bastando apenas povoá-lo de quem o tolere indefinidamente.

Rio, 17de setembro de 2006

Waldemar Reis

domingo, agosto 20, 2006

O que dizer de Bertold?

Personagens para quase-atores: o corpo é a parte visível do fantoche, em cujo interior a mão do texto atua. Por vezes o boneco se insurge contra o que o anima, por outras ri-se de sua vida fajuta, canta e suspende com sarcasmo o próprio roupão em cumplicidade com a platéia.

Cenas para quase-público: ninguém se convence mesmo de o boneco ser alguém. Tampouco se quer senão resvalar no real, fazer pouco dele, atitude única cabível à massa de impotentes.

Verdades para quase-crenças: dali, distando umas poucas portas do restante do mundo, quem acreditaria nessas falas que não dizem muito, quem ousaria dar fé de sua frágil mensagem se, passada a farsa, retornarão todos para suas casas, passando por calçadas, miseráveis, meliantes, rufiões, sacerdotes, ou no interior de ônibus e táxis observando automaticamente manchetes sangrentas, coexistindo em inevitável harmonia?

Rio, 20/08/2006

Waldemar Reis

quinta-feira, agosto 10, 2006

Quase tudo

O que dizer? Todo o passível de dizer-se é por demais óbvio e repeti-lo, se não inútil, é decerto aviltante. Aviltante para quem diz, aviltante para quem lê. Para quem lê, por razões evidentes: é colocar-lhe diante espelho de reflexo cristalino o bastante para ali enxergar a própria deformidade, circunstância insustentável. Para quem diz, porque diz, porque dizê-lo é prova suficiente de tolerar em boa medida a imagem grotesca impingida ao outro no espelho - do contrário lhe daria as costas - enquanto desfruta do verso do mesmo, no qual nada se reflete; e é prova direta de ser essa tolerância assentimento ao quanto produz semelhante aberração, o embate interno de dever e desejo. E é tamanho o aviltamento, tão universal, que o da face vítrea acredita olhar tão-só através de janela donde vê não a si, mas quem lhe apresenta e segura o objeto revelador, enquanto o outro sequer suspeita de, caso se atrevesse a olhar o lado refletor, ali dar com visão horrenda que jamais admitiria como sua. Dizer, enfim, por pouco que seja, é dar seqüência à comédia cuja renitência só faz irritar. Melhor seria calar, ou melhor, nada escrever, apresentar aqui o já clássico manifesto da arte moderna da protestação, um espaço em branco, ícone do vazio tanto quanto índice do todo: tudo dizer dizendo nada.

Pois não conhecemos o certo? Não nascemos - como o afirmava e demonstrava um sábio antigo - dotados do sentido para ele? Aliás, não nascemos com os sentidos para o localizarmos perenemente, para o perseguirmos até o obtermos? E é tanto verdade que dele falamos o tempo inteiro, em geral na forma de cobrança a outrem que, por seu lado, não sabe fazer diferente conosco. Em nome disso, correção, chega-se, já entrevistas desde o dedo em riste e desde mesmo uma ponderosa argumentação, quase sempre às vias de fato quando se possui os instrumentos necessários para chegar-se de fato às vias, sempre. Não faço aqui má antropologia, chula interpretação da ciência arqueológica, mas mera observação das ocorrências corriqueiras cujos relatos reiteram à agonia a condição universal de enredamento dos indivíduos: estamos montados, amontoados, uns sobre os outros numa espécie de pirâmide impossível, reciprocamente abaixo de quem está embaixo, acima de quem está por cima, de tal modo, num tão inefável equilíbrio que, é bem verdade, a ausência de muitos nem sequer se faz notar. Entretanto, não é preciso estar fora da teia ou mesmo em vias de ser dela extirpado para se experimentar em imaginação o sentido disso. E ainda assim brincamos do jogo perene do desterro alheio mesmo em vista do risco de em algum momento sermos nós os desterrados.

Não, não acreditamos em promessas que jamais nos fez a senda civilizatória: elas eram mesmo consenso, estiveram sempre embutidas na misteriosa força tornando-nos grei. São parte de sua lógica, são evidentes. Por isso tão grande o protesto, tão silencioso deve ser. Sendo preciso continuar e, continuando sem mesmo saber por que é preciso, sendo imperativo gozarmos de alguma coerência, justificamos: é a natureza. Embalde nos esforçamos por nos mantermos de parte dela, em nicho seguro donde, atingido o átimo da compreensão, no instante do completo entendimento, proclamar-nos-íamos redimidos desse prolongado pecar: mas dalgum injustificável modo ela se imiscui no trabalho incerto de nossos teares e, apropriando-se da urdiduta para sempre incompleta, no limiar de completar-se, ali aplica sua leis. A natureza tem leis irrevogáveis, misteriosamente promulgadas, executadas com rigor. São observadas em quaisquer partes do seu reino e desafiam os propósitos mais obstinados de sequer revisá-las. Em compensação, conferem impunibilidade a quem as observa e tranqüilidade às respectivas consciências : a despeito de todo ideal, somos - da primeira à última instância - cidadãos do mundo, garanta-se nele quem souber ou puder. Pecadores? Sim, mas sem culpas! E sem vontade também!

Como dizia, não faço pífia antropologia nem pior arqueologia: não começamos essa milenar história com anseios por justiça, pois sequer a conhecíamos, mas por mera fraqueza, por temermos a inconstância dos céus e a fome das feras, a fúria do mar e a sanha da terra. E então, enredados uns aos outros, em presumida segurança, sonharíamos a equanimidade, a óbvia e translúcida equanimidade emanando da própria teia, de que somos o fio, onde nos guardamos do inevitável para apenas o assistirmos - impotentes, fracos como só nós - exercer a sua lei. A natureza de que pensamos fugir sabe assomar do interior da horda humana, nela reinstaurando a noite, a selva, o vendaval e o maremoto, fazendo dum indivíduo o raio e de outro sua vítima, dum terceiro as fauces e do quarto a carniça, no conhecido espetáculo em que o consolo é não termos culpa.

Como sugeri, deveria ter dito nada, mas disse: pouco. E pouco, entre nós, é quase tudo.

Rio, 10 de agosto de 2006

Waldemar M. Reis

segunda-feira, junho 05, 2006

Volta a um mote

"Respondendo a seu mail, eu agi. Se "escolhesse" nada mais responder, estaria igualmente agindo? Olhe que essa linha de pensamento leva longe. Pelo menos até o deserto, com uma pedra para sentar em cima, à maneira do famoso ermitão." (Humberto Marini)


O deserto é para onde se dirigem, com certeza, os verdadeiros seres pensantes. E de lá jamais sairão, não por culpa da vastidão, de fato incomensurável, mas por vontade própria ou por instinto de sobrevivência, pois se trata do seu habitat.

Sua esperança - ou seu desejo - é o de chegar ao menos a um oásis, ainda que aí só encontrem poça d'água, nenhuma vegetação, visto ser incerta a presença de sequer nichos assim parcos nesses exílios do espirito. Pois tais eremitas sabem que, existindo algum, há boa chance de haver outros, às vezes luxuriantes, entenda-se, dessa luxúria que só o contraste com a aridez faz ver.

Mas dão-se por satisfeitos se concebem uma miragem, aliás, sua maior cobiça, já que miragens, ao contrário dos oásis, nunca ficam para trás quando é imperativo seguir caminho e jamais se apresentam mirradas: estarão sempre a certa distância dos olhos e figuram o paraíso almejado onde seu vagar teria fim.

Sorte terá algum se der com algo como uma pedra para sentar-se, o que, com certeza, só fará por instantes, uma vez que estará muito quente ao longo do dia e muito fria à noite. Seu propósito, entretanto, é tão arraigado que mesmo desdenha da possibilidade de descanso, inclusive nas horas intermediárias do crepúsculo e do amanhecer, quando é amena a temperatura e pode parar brevemente.

Sendo doutos, estão advertidos das incertezas dos céus e inteiramente aptos a caminhar por linhas retas à mercê duma estrela, o que muitos fazem, embora preferindo andar em círculos: primeiro, em vista da perfeição da forma, sentimento inexplicável que os compraz; depois, por fiarem-se no mapa em que se demonstram a imobilidade, a finitude e a redondez do mundo inteiro, pelo que conhecem a impossibilidade, caso existisse o movimento, de chegar-se a outro ponto senão aquele onde já se encontram (e nada obstante seguem caminhando, decerto por ato reflexo, pois não crêem mesmo que de fato o fazem); enfim, movem-se em círculos por conhecerem que toda reta possuindo mais de dois pontos é fragmento de arco cujo raio é imensurável, preferindo alguns trilhar curvas finitas a entregarem-se à aventura de jamais reverem o lugar donde partiram.

E, não sendo poucos tais caminhantes, admira que jamais se cruzem os seus caminhos - há quem suponha existirem tantos desertos quantos há de seus ermitães, desertos paralelos que, como se acredita, se tocam no infinito. No entanto, é comum conversarem, mas nada se vê à sua frente. E em tais monólogos, em verdade diálogos partidos ao meio, prevalece de hábito a discórdia.

Rio, 05/06/2006

Waldemar Mendonça Reis

sábado, abril 08, 2006

A prece e o mal

Vi a matéria, primeiro, no 'Monde', mas percebi que a notícia saíra também em outros jornais estrangeiros como o N. Y. Times e em ao menos um brasileiro. Para entender semelhante repercussão é preciso considerar dois fatores: a ausência de novidade mais significativa no último número do The Aamerican Heart Journal - referência americana no assunto (e fonte privilegiada de reportagens que consolam e aturdem a massa de hipocondríacos em que nos transformamos a cada dia) - e a oportunidade de protesto contra os cerca de dois milhões e meio de dólares gastos numa pesquisa de premissas de duvidosa relevância no cenário contemporâneo da medicina.

Só desse modo entendo a razão de os noticiosos tratarem com certo destaque uma investigação científica cuja conclusão sugere ser nociva a prece: assim seduz o título da matéria. Indo mais adiante, percebe-se que a reza má seria não toda nem qualquer uma, mas aquela enfocada no experimento, a endereçada aos doentes, especialmente àqueles em processo ou em esperança de cura e que sabem da antemão estar alguém pedindo aos santos por si. Até aqui, nada mais espantoso e nada mais natural: espanta, em primeiro lugar, que se tenham submetido seres humanos reais a tal investigação; depois, parece verossímil a ocorrência de piora e até de morte quando um enfermo se dá conta de o seu estado ser grave o bastante para reclamar o uso de instrumento vulgarmente conhecido pelo seu emprego em momentos de desespero. Não esqueço um agravante dando toque negro ao inequívoco espírito mordaz da investigação: todos os voluntários eram cardíacos na iminência de intervenção cirúrgica.

Trata-se, como é visível, de uma experiência pertencente mais ao domínio da psicologia do que ao da medicina propriamente dita, muito embora seja notória a intrînseca dependência das duas ciências. Dos três grupos de voluntários envolvidos obteve os piores resultados somente aquele cujos pacientes souberam que seriam de fato objetos de prece, equivalendo-se os resultados dos outros dois. Destes, apenas um não recebeu efetivamente os duvidosos préstimos da oração, embora todos os pacientes de ambos soubessem da possibilidade de serem rezados. À guisa de conclusão parcial pode-se dizer que a incerteza de ser alvo de prece é melhor do que a certeza, ou ao menos é tão boa quanto não o ser (pois não se orou pelos doentes de um dos grupos).

Custo, escopo, cobaias: fosse isto insuficiente, o jornal francês conclui informando que o patrocínio veio de uma fundação religiosa, a John-Templeton! Verdadeiro tiro no próprio pé? Ou a John-Templeton, suspeitando da eficácia desse serviço tão antigo quanto a civilização, o da oração pelos enfermos, estaria financiando sua extinção? Antes tarde do que nunca: as preces foram ditas por comunidades cristâs. E, para finalizar, um atenuante: as mortes foram percentualmente iguais em todos os grupos.

Assim, em vista do modo como se procedeu à pesquisa, se não é possível afirmar a absoluta nocividade da prece, pois ela não se provou mortal, reafirma-se a observação, desde sempre parte do senso comum, de que a sua necessidade indica o esgotamanto dos meios ditos meramente humanos na solução de um problema e, conseqüentemente, situação desesperadora, informação esta danosa para quem é questão a saúde, em especial a cardíaca.

Mas não foi este o único golpe sofrido hoje pela religião: um outro diz mais diretamente respeito à fé cristã. Refiro o anúncio, em virtualmente todos os jornais do planeta, do completo restauro e tradução do Evangelho de Judas, texto do primeiro cristianismo, de que já se tinha notícia pela menção no Contra os Hereges de Irineu de Lyon. Um Jesus sarcástico emerge dos diálogos no Evangelho, pronto a gargalhar em face das dúvidas e questões dos apóstolos, capaz de estimular-lhes a raiva e eleger Judas como o obreiro maior de sua própria paixão, desse modo oferecendo-lhe o conhecimento do "mistério da traição" (segundo expressão do próprio Irineu).

Se histórica ou não, a circunstância é certamente decorrência natural da consabida presciência do Cristo no que respeita a própria sina: seria 'traído', imolado e ressucitaria, para tanto havendo necessidade de 'traidor' e imolador, sem os quais os mistérios da crucifixão, da morte e da ressurreição nos seriam ignorados. O sacrifício no Calvário e a subseqüente redenção da humanidade seriam impossíveis sem um 'lado podre' a cumprir o seu papel, tornando-se este, por isso mesmo, agente do bem, ou melhor, do bem maior. E alguma voz, ao menos por uma questão de coerência, haveria de levantar-se sobre o problema ainda cedo na formação da cristandade, o caso do Evangelho de Judas. Ecos seus se escutam no século XX, na obra de Borges, que usou do tema e de variações em alguns contos e ensaios.

O leitor atilado decerto já percebeu que a predestinação de Judas para a maldade, assim coadjuvando um bem tido e havido como supremo, é variante de outro problema, clássco desde o judaísmo, o da onisciência divina em face do mal. A sua solução mais difundida alega o livre arbítrio, supostamente dado a nós por Deus, pelo qual estaríamos habilitados a seguir tanto a virtude quanto o vício. Mas, como é sabido, a própria noção de onisciência acarreta a anulação dessa outra, a do livre arbítrio, agravando-se desse modo a questão: se nos indigna saber que Ele conhece com antecedência o advento do que nos aflige, o mal, e não o evita, sendo Todo-poderoso, o que dizer de Sua passividade em face do conhecimento prévio de nossas más escolhas?

Enquanto a idéia de Deus não se reconciliar com a de mal, suponho, a pergunta acima permanecerá sem resposta. No entanto, o próprio Demiurgo apõe às Escrituras de Seus profetas breves pistas de Sua natureza inconcebível, uma das quais encontrei coligida pela Loucura no elogio que lhe dedicou Erasmo de Roterdam: decreta Ele, em Isaías, que confundirá a sabedoria dos sábios e reprovará a prudência dos prudentes, donde se conclui que jamais Se fará conhecer e que o Seu eleito é o imprudente, o parvo. Da cita a erasmiana Moria retira, segundo sua natureza, naturalmente, as mais encantadoras lições. Os episódios da tentação de Adão e da torre de Babel sugerem o mesmo: em ambos fica a lição de o conhecimento da Verdade ser-nos impossível, todo esforço nessa direção passível de castigos como a expulsão do Paraíso ou a incompreensão recíproca dos homens e a diáspora. Não foi casualmente que um cristianismo mais rasteiro fez do néscio o fiel típico, exemplo de uma almejada fé espontânea, aparecida sem o concurso do intelecto. Hordas de santos e doutores da igreja concordaram em que somos e seremos sempre ineptos diante da possibilidade de conceber o Criador, caso de Douta Ignorância de Nicolau de Cusa. O Evangelho de Judas não deixa de iterar a fórmula, num diálogo em que Jesus diz aos discípulos: "Como me conheceis? Em verdade, eu digo, geração alguma do povo em meio a vós conhecer-me-á."

É possível traçar um perfil teológico da humanidade usando o problema como eixo: em torno a ele dividimo-nos entre aqueles que crêem a despeito das adversidades da fé - grupo compreendendo os que tomam a si próprios por ignorantes de Deus - e aqueles revoltosos, na verdade mais pios do que os primeiros, pois preservam tão ciosamente a idéia de Deus associado irreversivelmente ao bem que mais justo lhes parece renunciar a essa idéia mesma a ter de admitir Deus como fonte ou veículo do mal. Sob esse prisma o ateísmo seria a mais radical manifestação do teísmo.

A dimensão paradoxal da fé cristã mereceu tantas análises quanto é possível à questão. O teólogo e filósofo Kierkegaard ensaia a sua na forma de extensa meditação sobre a passagem em que Abraão é intimado a sacrificar Isaac: ali defende a condição privilegiada do Pai da Fé relativamente à dimensão ética (ou moral), à qual fere com o seu silêncio ao longo do preparo para a imolação e do percurso até o local onde ela se daria, ou seja, o fato de Abraão ter como lastro uma solicitação divina o isentaria das obrigações éticas e morais, como o prestar contas de seus atos ao menos aos membros mais próximos da comunidade, familiares e amigos, e mesmo das obrigações estéticas, como o desafogo de sua angústia; pois a instrução divina o poria em 'relação absoluta com o absoluto', acima, portanto, do quanto diz respeito ao mundo inteligível, ou o 'geral', segundo a terminologia do filósofo. Já Nicolau de Cusa leva o debate para o âmbito da epistemologia, justificando nossa ignorância da natureza divina na evidente incomensurabilidade do nosso pensamento, finito, e da infinitude de Deus. No século XVII Jacob Boehme pintará uma cosmologia panteísta na qual um vórtice centrífugo - ali chamado, entre outros nomes, de Vontade - aparta-se de outro, centrípeto, ou Desejo, também alcunhando o primeiro de Manifestação ou Deus e o segundo de 'sem-fundo' e Inferno, mas eventualmente denominando o conjunto inteiro como Deus, donde se infere que, para o filósofo, Este não só proviria do mal como também o incluiria em sua natureza: na cosmogonia bohemiana Deus escaparia de si próprio, enquanto Desejo, fazendo-se Vontade e originando assim o mundo, modelo este de universo, segundo pondero, um dos melhor concebidos.

Em dias atuais o aparecimento de notícias como essas é sugestivo: de um lado, um experimento estatístico, como de hábito o são os da ciência, demonstra de forma algo complicada o óbvio (é desagradável saber-se desenganado a ponto de necessitar da oração, que se mostra, entretanto, inteiramente inútil de acordo os dados da pesquisa); doutro, um Evangelho gnóstico lembra-nos de noção não menos conhecida de nossa intuição, exortando-nos a reconsiderar o mal num enredo que acreditamos protagonizado pelo bem e a nossa inamovível ignorância quanto à Verdade de Deus, pouco importa o quão sábios sejamos!

Desnecessário é listar o quanto em nosso tempo se põe como campo onde fertilizar a certeza gnóstica de não vivermos num mundo bom: para conhecê-lo é suficiente continuar folheando as seções de política e economia dos jornais ou freqüentar cultos religiosos. A visão da atualidade é porventura o melhor retrato já produzido do mundo abastardado dos gnósticos, onde efetivamente vivemos, mundo originado em erro cuja causa é o desejo de saber, Sophia, resultando em seu húbris desenfreado e, não obstante, permanentemente contrário às aspirações do homem. Mas como o saber não produz senão a si próprio, sendo apenas potencial para a produção dos demais artefatos, é um artesão, o Demiurgo, quem cria a materialidade, essa espécie de imitação de Pleroma, nome do universo do Deus primordial. Isto feito, proclama-se o Demiurgo, nesse seu novo e falso reino, o único Deus existente. Cristo, ou a salvação, segundo o evangelhista, adviria não deste, mas daquele universo primordial para auxiliar-nos, por compaixão, em nossa emigração para o lugar de origem, o lugar do sumo bem.

Intentando instaurar o cristianismo como religião autônoma, muitos dos primeiros teólogos da nova seita buscaram distanciá-lo do judaísmo e mesmo opô-lo a este. Para tanto descartaram de saída o Antigo Testamento, partindo dos Evangelhos canônicos, desvenvolvendo, inclusive, traços do que a partir do século XIX se chamaria anti-semitismo: o Deus desse Éon - ou nosso universo - é o Deus de Israel (assim pregava Basilides, filósofo e teólogo do segundo século da era cristã), divindade esta favorável, portanto, a tudo quanto diz respeito a esse povo e à sua terra e causadora de toda sorte de entraves a todos os envolvidos com as questões judaicas, muito embora não poupando eventualmente nem os próprios judeus. As exegeses de vários desses primeiros cristãos, muitas vezes conduzindo a hipéboles intoleráveis ao espírito religioso da época, foram acusadas de heresia e convenientemente banidas dos ensinamentos usuais, embora hajam contribuído significativamente com estes, ao menos no apontar-lhes certas inconsistências.

Enfim, o gnosticismo parece ter sido espécie de guardião da coerência para o cristianismo nascente, prevenindo sua imobilização, comum a toda nova crença, num pietismo leigo, promovendo o seu elo com as principais correntes de pensamento vigentes à época, como platonismo e estoicismo. Procurou mostrar aos novos crentes a inexistência de garantias da intrínseca bondade do mundo nos escritos judaicos e, extirpando o Messias dessa tradição, dava-lhes a noção e a esperança do bem verdadeiro, assim como o entendia o mundo helênico.

O cristão futuro, entretanto, escolheria a via da omissão ou da hipocrisia. E se hoje dizemos habitar um mundo erigido segundo preceitos de linhagem judaico-cristã, tal afirmação desvela-nos uma realidade onde o mal, tão ciosamente escondido ou providencialmente desdenhado ao longo de milênios, mostra-se agora explícito e apadrinhado por justificativas morais, éticas e mesmo lógicas que a filosofia ainda não soube conciliar. Pessoalmente, não creio que, desse ponto de vista, algum dia haja sido muito diferente a realidade: o mal sempre se exerceu sobre o quinhão que lhe cabe.

Há, entretanto, uma particularidade deste nosso momento, em pleno 2006: já não concebemos salvação! Não, ao menos, aquela arquitetada no gnosticismo. Não somos mais engenhosos e ingênuos o bastante para tecer a solução do insolúvel: o habitarmos um mundo diverso do que desejamos, consolando-nos com a idéia de outro melhor anunciado pelo seu messias. Pois a salvação do gnóstico está dentro de si, na certeza de existir o lugar ideal, compatível com os seus anseios, a qual é, como a Idéia platônica, espécie de marca de proveniência ou de origem atestando o seu pertencimento primeiro a esse lugar, Pleroma, onde está o verdadeiro Deus, em verdade espaço emanado de Si. Do nosso lado, não conseguimos reconhecer em nós qualquer idealidade por que nutrir esperanças, pois talvez já nutramos incomensurável paixão por este mundo que criamos, mundo de certos confortos, mas também de finanças, de política, religiões (ainda!) e o que tudo isto implica, assim não vislumbrando alternativa melhor ao que já nos é oferecido e prometido: nosso paraíso é o aqui e o agora, o qual, por discrepar do que verdadeiramente desejamos, é também nosso inferno.

Conjugados na imprensa às catástrofes e aos crimes, os dois achados da ciência assumem nota sombria. Rezar é tanto inútil quanto daninho, enquanto o mundo permanece o mesmo, aqui, diante de nós, adverso, intolerante, inclemente, sem esperanças em si. Quanto à marca distintiva fazendo de nós - e de boa parte dos seres vivos! - entes direcionados para o autèntico bem (bem ausente, não obstante, de onde habitamos), dela é possível afirmar-se, com incerta ironia, que, se de fato a possuímos todos, seria isto a melhor prova de que não faltam ao Inferno, de fato, as boas intenções.

Rio, 06/04/06

Waldemar M. Reis

sábado, fevereiro 04, 2006

Borges nas sombras

É estranho o jogo de 'Borges à contraluz'. De saída, o confronto de uma algo singela e por vezes discretamente insinuante Estela Canto com outra, muitíssimo mais velha e remendada com tinta, laquê, muito pano, colares, anéis e brincos. Tanto uma quanto a outra fazem as vezes da bem-amada: a primeira, em fotos de 1945, parece ainda pesquisar essa frente do recente feminismo, embora já teorizando sobre a variante que escolheu para si, a de mulher livre e sexualmente satisfeita; enquanto a segunda presta contas, ao cabo de décadas, dessa escolha admitindo secretamente que o amor poderia ter-lhe sido bem mais generoso.

Não é difícil ver no livro uma mulher 'mordida', decerto por erro próprio, ao avaliar o potencial de 'glória' oferecendo-se aos seus pés e 'garfado' trinta anos depois por Maria Kodama. Algumas fofocas: disse Esther Vásquez - a outra biógrafa do Borges, também sua amiga, colaboradora e ex-musa - que 'la' Canto foi vista 'bebida' e rogando impropérios de amor traído na porta Biblioteca Nacional argentina ao então diretor do estabelecimento; para Vásquez 'la' Canto quis muito os cachês do poeta, como a primeira esposa, Elsa, que além do mais os roubou todos (o Prêmio Formentor, que dividiu com o Becket, junto!); tanto Vásquez quanto Woodall (James, autor inglês de uma terceira versão do biografado) insistem no mau gosto do trabalho da Canto, a qual, como que por instinto de defesa, deixa claro desde a Introdução não haver composto uma biografia no sentido restrito, mas um relato do que viveu com o poeta e do qual não poderia excluir incursões mais íntimas - dada a natureza múltipla da relação - e, naturalmente, suas observações e análises quase psicoanalitico-feministas. Como se vê, a luz prometida desde o título é 'contra', disso resultando imagem destoante daquelas tidas como boas, seja pela nitidez, seja pela poesia. Além de mistério, é possível entrever sensualidade na sugestão da Canto, o que, nada obstante, é paulatinamente rechaçado.

Entretanto, é bom encontrar ali um Borges mais humano do que o dos outros dois trabalhos. Ainda não conheço o do uruguaio Monegal, a quarta biografia do argentino, também seu amigo e especialista em sua obra, mas creio que o enfoque seja, no bom sentido, acadêmico (tenho uma antologia borgesiana do Monegal, que me pareceu correta). Em Woodall e Vásquez há uma certa idealização, no primeiro, em vista da distância, no tempo e no espaço; já na segunda há alguma humanidade, aquela do ângulo da amiga dedicada, colaboradora e ex-desejada do grande mestre, além de ser muito, muito mais nova do que ele. O Borges de Canto mostra-se ainda mais frágil que o dos demais: foi de fato criado para ser literato, projeto que a mãe continuou tocando após a morte do pai, e quando saía à noite ligava para casa de hora em hora para manter D. Leonor a par de onde e com quem estava; beijava mal e não sabia tocar; sua mão parecia não ter ossos quando cumprimentava; era pálido e gorducho, mas alto; apaixonava-se ridiculamente, como um cavaleiro medieval na imaginação do século XIX.

Em suma, Estela 'fala demais': a partir de sua mágoa pinta sua versão verossímil de um sábio, um pouco como Xenofonte e mesmo Aristófanes nos apresentam um Sócrates certamente mais prosaico que o dos diálogos. Não passa, no fundo, de uma grande fofoqueira recebendo-nos, toda emperiquitada, 'para un té en su casa'. Promete algumas vezes falar de 'O Aleph', que o poeta lhe dedicou, e nem possui mais o manuscrito (presente valiosíssimo que o então diretor cego da Biblioteca Nacional argentina também lhe ofereceu), negociado com um colecionador. Mas só comenta o relato lé pelo fim do livro, além de outros três ou quatro tidos por ela como emblemáticos da mente borgesiana. O tom dos comentários é fortemente sabido às artimanhas freudescas e, se não faz suficiente psicanálise, menos ainda faz de teoria literária.

Os mexericos 'cantianos' - ou seria melhor dizer 'cantescos'? - perdem, aqui e eli, como é habitual no calor desse tipo de narrativa, a compostura presumida em sua autora, premiada romancista para quem o romance é planura, carecendo, por natureza, de clímax, o qual seria próprio do relato curto. É bem possível que, ao urdir sua 'teoria' do romance, 'la' Canto jamais tenha escutado nomes como Machado de Assis, Pirandello e Balzac, talvez se degredando voluntariamente nas infinitas planícies dum Proust ou nos planaltos escarpados de Mann... Seu Borges é, por conseguinte, contumaz depreciador e leitor improvável de romances, mesmo dos tantos aludidos em seus contos, ensaios e poesia. Seria, portanto, culpado de uma das mais prosaicas imposturas intelectuais, aquela de dizer-se leitor do que apenas conhecia 'de orelhas'.

Mais para o fim do trabalho a autora reabilita a imagem do biografado, ou melhor, a torna mais condizente com aquela, exaustivamente divulgada, de sua vetustez, imagem idealizada concebida não só nos esforços dos editores como também na faina do argentino em suas palestras e derradeiros trabalhos. O quanto o consagrou foi, no entanto, concebido antes, em sua maturidade ambígua, parecendo restar-lhe, nesses derradeiros decênios de vida, tão-só passear as jóias que lapidou no passado, exibindo os mais variados ângulos do seu brilho. De fato, não é incomum que na obra tardia nostalgicamente se debruce um autor sobre sua produção primeira, tampouco são raros os que se vêem inexoravelmente atados a uma única fórmula até morrerem. Poucos, entretanto, o fazem como o portenho e não é à toa que trabalhos como 'O Aleph' sejam considerados como chaves para a compreensão de toda sua produção: o objeto 'mágico' ali descrito enseja a visão de tudo no mundo tal qual cada conto, ensaio ou poema seus são, em última análise, perspectivas diferentes dum mesmo cerne, o qual é ele mesmo, Borges, em seu perene assombro em face duma existência que o tornou quase imaterial, coibindo-o à renúncia de parte significativa de sua condição corpórea.

'Borges à contraluz', enfim, pode ser tido como o sítio onde soem combinar-se as diversas mesquinharias, como a dessa velha dama cuja cama recusou antes de casar-se aquele que admirava (embora não o desejando sexualmente), e como a nossa, mesquinharia de admiradores sabendo a escrevinhadores que se consolam da mortal condição nas desventuras comezinhas de quem, um dia, logrou urdir a própria imortalidade. O 'té' de 'la' Canto é a ocasião 'par excellence' do confronto de mediocridades variadas que, a despeito de consabidas e toleradas, refestelam-se em longas risadas a bochechas intumescidas e dentes postiços empastelados de bolacha molhada. E é desejando compensar-nos de suas alusões incontidas que a escritora nos oferece provas tidas e havidas como cabais, abrindo-nos, lá para o meio do livro, o seu correio íntimo, donde nos saltam Borges inesperados, em fotos e em caligrafia, ingênuos e ordinários em grande parte, dos restantes sobressaindo este, mais condizente com aquele das obras completas e, não obstante, trescalando Pierre Menard como se, esquecido de si mesmo, 'Georgie' se inventasse para esse amor da meia idade: "No sé qué lo ocurre a Buenos Aires. No hace otra cosa que aludirte, infinitamente".

Rio 31/01/06

Waldemar Reis

quinta-feira, julho 21, 2005

Da evolução de cães e gatos

Dada a convivência conosco, ao que tudo indica, voluntária, é de supor que cães e gatos devem seguir-nos e, talvez num período muito curto, atingir grau semelhante na corrida evolutiva. Decerto nos estudam e, cada qual ao seu modo, criam pacientemente as condições de suas escaladas: é suficiente observar-lhes as escolhas, dentre tudo quanto lhes oferecemos, para o concluirmos.

Nem os símios, apontados pela genética como nossos primos e, devido à semelhança orgânica, mais dotados para imitar-nos o comportamento, parecem interessados no que insistentemente tentamos ensinar-lhes, demonstrando preferência pela vida silvestre. Talvez as condições de seu aprendizado, o mais das vezes estabelecidas com a objetividade dos profissionais da ciência e na frieza dos laboratórios, estejam longe das ideais.

De outro lado, não sendo também menos vítimas do experimentalismo científico, os nossos estimados bichos domésticos desfrutam de pedagogias mais amenas, a começar pelas 'salas de aula', instaladas nas próprias habitações de seus instrutores. Em resposta, não obstante lhes dedicarmos cuidados quase idênticos, obstinam-se cânidas e felídeos em desenvolver hábitos radicalmente distintos.

Já tive convivência estreita com uns e outros, alternadamente, em diversos períodos de minha vida, quando morei em casas com espaço bastante para que exercessem suas idiossincrasias. Bem conheço, portanto, os paradoxos da afeição excessiva dos totós e da circunspeta indiferença dos bichanos, mas só ontem, cruzando num intervalo de meia hora o poodle e um sedentário gato bicolor de dois vizinhos, dei-me conta disso ao tempo em que era atravessado pela suspeita de cumprirem as duas espécies projeto milenar de aproximação e apropriação de tudo quanto humanos vimos construindo, cada qual, entretanto, consoante objetivo exclusivo.

A efusiva receptividade do cãozinho ao me ver, irrefreável - a despeito da coleira e dos ciúmes do dono - e não menos inconveniente, enlameando-me a roupa, contrastava com o obeso desinteresse do felino pela aproximação da minha mão previamente banhada, digo, livre de odores indesejáveis, mal se dignando a me dirigir o focinho e, sem alterar o passo lerdo e leve, seguir seu caminho. Tendo em conta a notável comunicação das duas espécies com a nossa, bem como a progressiva adaptação de ambas a costumes e habilidades tidos antes como exclusivamente humanos (banhos, tosas, perfumes, shampoos, alimentos processados, manejo de alguns instrumentos como portas, botões etc), concluí que esses bichinhos evoluem na nossa esteira e por opção própria - ou já teriam ganho mundo faz tempo! Mas haverá ao menos uma diferença fundamental entre as possíveis civilizações futuras de cães e gatos: os primeiros, pelo jeito, seguirão à risca o padrão que lhes ensinamos, enquanto os outros certamente não incorrerão nos mesmos erros.

Waldemar M. Reis

Rio, 10 de maio de 2005

quarta-feira, novembro 10, 2004

Do cobro de proteger

A lição vem dos tempos de colégio, das noções de história e zoologia. Das primeiras entendi que, esfacelado o império Romano, o burgo medieval nasce do medo dos camponeses reunidos à volta de um protetor influente o bastante para constituir exércitos ao custo, em última análise, da maior parte das lavouras dos protegidos. Os animais também, quando gregários, em geral elegem o mais forte para os protegerem, ao qual permitem, entre outras coisas, desfrutar da maioria das fêmeas. Com o perdão pelo o espírito redutivo, arrisco supor ser isso a regra desde muito, muito antes do advento dos castelos e seus senhores, perdurando até nossos dias: a proteção finda por se mostrar dominação, com o mais fraco escolhendo a dor da extração regular de umas tantas gotas do seu sangue a rebelar-se e perder as restantes.

Um bom teórico da conspiração não perderia a ocasião de observar a conveniência, para um forte, de força equivalente e contrária na subjugação do seu rebanho particular de fracos. Não fosse o resultado usual das guerras, com a submissão de um dos lados, crer-se-ia que tais conflitos têm a função exclusiva de manter alarmados os ânimos dos 'protegidos' de ambas as partes. Esqueça-se agora a pluralidade inestimável de povos, nações e países acotovelando-se sobre cada palmo de terra ao redor do mundo, organizando-se cada um em torno a sua respectiva e particular forma de poder, uma arreganhando os dentes - ainda que velados em sorrisos - para as demais, sendo de admirar que todos não tenhamos sucumbido ainda à conflagração universal a despeito do delicado equilíbrio no qual as verdadeiras potências tomam para si - à imitação de senhor e servos no sistema feudal - a proteção dos estados menos robustos. Esqueça-se então o mundo e considere-se a escala mais reduzida de uma população e seu governante.

Nesse âmbito parece óbvia a utilidade da contravenção enquanto endosso do poder. Este se alimenta, em verdade, do que o corrói, à semelhança de quem, em sua hipotética e extremada miséria, se visse coagido a apascentar piolhos e congêneres sobre a própria pele para se alimentar. Pois qual o uso do governo para o indivíduo se na vida deste tudo corre perfeitamente bem? Para quê o senhor se nada ameaça o servo em sua gleba? Veja, leitor, não é natural para um produtor a demonstração da necessidade do seu produto caso esta seja algo duvidosa?

Assim, bênção maior não há para um governante do que o ladrão, o sonegador, o arruaceiro e o assassino comuns, à excessão dos que agem em seu nome. Nada mais útil para um juiz, um delegado, um parlamentar ou qualquer outro membro do poder, portanto, do que pilhar outro juiz, delegado ou mesmo senador, prefeito, presidente em conluio com criminosos ou assumindo suas funções. A metáfora, agora, tem de ceder a maior dramaticidade forjando a imagem do indivíduo um ou mais de cujos membros transmudam-se em malófagos ou sifonápteros descomunais devorados tão logo percebidos. Dada a assiduidade do fenômeno, mesmo nós, gente comum, somos acometidos do mesmo delírio dos paranóicos de conspirações e, em vista do caráter perfeitamente lógico, racional, do observado, nos vemos obrigados a suprimir destes a pecha de enfermos, intitulando-os doutores.

Cumpre lembrar que, nos meados do século XIX, Feuerbach demonstrou a presença desse mecanismo no universo da religião, cujos representantes ou oficiantes não poupam esforços para convencer os fiéis de suas habilidades com a evitação do mal pairando sobre as cabeças destes e, por fim, que a aplicação em maior ou menor grau dessa metodologia é observada na atividade publicitária. Reitero: escusado é ser um especialista nos meandros conspiratórios ou meramente um louco para dar-se conta disso.

Waldemar Reis

terça-feira, novembro 09, 2004

Pouco importa!

Já não é a primeira vez, pergunto-me se um dia lerei tudo a que me tenho proposto - refiro a biblioteca esplhando-se por virtualmente todo o apartamento onde moro, montada por sorte de compulsão esquadrinhadora associando temas como se cozesse interminável colcha de retalhos incompatíveis a olhos normais. Ainda hoje surpreendeu-me certa esperança: um exemplar repetido, edição francesa, de bolso, de 'A filosofia à época trágica dos gregos'. Efêmera esperança que, a repetir-se a ocorrência nos dias de todo um ano, teria ainda de cobrar-me disciplina que me subtrairia para sempre o exercício de muitos prazeres, alguns não menos cobiçados, outros dificilmente confessáveis! Como agravante, a incerteza, partilhada por todos, quanto à página marcada à revelia como a final.

Ora, por mais de uma vez e de muitas maneiras já se o disse e com isto poderia consolar-me, livros não são para serem lidos de cabo a rabo por obrigação e sim degustados enquanto se nos parecem saborosos, ou devem ser postos de lado. Particularmente nutro opinião em certos aspectos contrária: com raras exceções, os livros de hábito escondem, mesmo trás a inépcia do autor, quando não exibem objetivamente, um sem número de preciosidades que, mesmo estimulando o escárnio, revelam uma época, um modo de pensar, outro de contar, e assim por diante. Claro, digo isso tendo em mente os escolhidos por mim, em grossa maioria merecedores das revisitas de que é sinal extremo a duplicata com que topei no correr de laboriosa e escasssa faxina. Os outros, não adquiridos, por sua vez, podem ter quatro perfis distintos: os não encontrados, os desconhecidos, aqueles ainda por se escreverem ou os milhares que sequer me atrevo a abrir.

Desde a capa, não apenas desde o título, é possível dizer com razoável precisão se é legível um livro, sem necessário ser expor-se ao risco de folheá-lo. Por motivos óbvios, especial cuidado é recomentdável com as muito belas, em geral feitas mesmo com o propósito de desestimular as incursões mais tímidas ao conteúdo e o de causar sensação ao lado de similares na estante. Enganos, entretanto, são tolerados desde que não se tornem rotina: não sei onde, por exemplo, ainda guardo por descaso um volume de aspecto muito simples, feio até (indício também pouco seguro da qualidade interna, hoje o sei!), e título algo expressivo, de que, na ausência de qualquer informação na contracapa, só consultei o índice à hora de comprar: além de versar sobre ontologia, dele não posso dizer nem a língua em que se escreveu, não obstante alguma semelhança insidiosa com o português.

Salvo casos como esse, abandonar um livro é como deixar alguém falando sozinho. Há quem o mereça, é bem verdade, mas a nobreza, quando não a caridade e quase sempre a agudeza ou a perspicácia ensinam, se não a tolerância, decerto o artifício de postergar o assunto para quando o desenfado o permitir ou, quando oportuno, habilmente manejar um punhado de tópicos de modo a atalhar o interesse com suficiente precisão. Ler é dialogar por intermédio da própria escuta e toda boa conversa é sorte privilegiada de leitura: se não ambos, ao menos um dos interlocutores tem de prodigalizar cortesia ou sequer se dê início à charla.

Os livros não são afeitos ao melindre como as pessoas. Isto não significa, entretanto, que se empregue menos cuidado no seu trato. Pois, se não eles, pode o acaso tomar para si, de conluio com outro livro, o encargo de desagravá-lo quando, ao cabo de um parágrafo, pode-se dar conta da dimensão da incúria! Fosse mais prudente porventura termos jamais aberto este ou o anterior, ao menos em respeito à própria reputação: sim, este é outro gênero de lapso contornável somente pelos mais experimentados na convivência com livros. Aí, noblesse oblige, é dar à palmatória a mão e retomar o primeiro com a precaução da humildade e cuidar para, vexando-se, não generalizar o procedimento e entregar-se irrefletidamente àqueles conteúdos bolorentos cujo destino é permanecerem magnificamente encerrados em suas capas em prol do bem universal.

Não é pela vastidão do planeta ou pelo interesse da diversidade de hábitos e culturas dos seus rincões que se deve pautar a determinação de conhecer e desse modo tomar o primeiro transporte à disposição e palmilhá-lo copiosamente. É suficiente, não raro, desembarcar uma ou duas estações de metrô adiante daquela onde é costume ficar-se para se compreender a inutilidade de uma excursão à China ou à Itãlia, por exemplo, não obstante chineses e italianos assim encontrados falem bom português até e em muitos aspectos compartilhem conosco, nativos, espécie transtornada de patriotismo. Inumeráveis idéias, relatos e poemas, de forma análoga, não necessitam de verificação in loco, bastando-nos as notícias suas colhidas em outros livros, mesmo sendo estas desfavoráveis. Pois do cotejo delas é possível obter-se boa noção daquilo de que falam, considerando-se inclusive ter sido essa a forma de preservação de grande parte do saber. Forma espúria de conservação essa, dirá um certo bom senso, é verdade, mas observe-se uma coisa: tome-se um original qualquer e, desconsiderando o fato de nele abundar a menção a incontáveis originais outros, formule-se opinião ou resumo (termos, em verdade, sinônimos) do que se leu; em seguida consultem-se resenhas, contestações ou assentimentos diversos do volume lido e, ato contínuo, cotejem-se todos, inclusive a sua opinião, essa lavrada recentemente; caso compartilhem da décima parte do que tratam, exorto-o, leitor, a interromper aqui a presente leitura e dela mofar. Dessa esperança não se vive, a de compartilhar juízos, mesmo consigo próprio: não será idêntico ao de hoje o juízo de ontem nem o de amanhã, ainda que jamais se volte a defrontar com o que o suscitou.

E sobre semelhantes transfigurações são erguidas outras obras, esteios, por sua vez, de suas sucessoras, e assim enquanto durar o gênero humano. Isto é em breve notado pelo leitor contumaz: com ou sem intenção, os escritos aproveitam-se uns dos outros de modo que se está sempre compilando mais ou menos o produzido no passado. Assim, apesar de todo bom livro - falo daquele merecedor de ser aberto - cobrar a leitura de todas as suas páginas, a freqüência a seus semelhantes termina por mostrar, com o tempo, um universo cujos objetos, sempre os mesmos, aparecem ora magnificados, ora reduzidos, seja pela distância de que são apontados, seja pelo apreço ou pela importância a eles atribuídos pelos autores. Tal observação, por uma lado pode signifcar, para uns, a irrelevância de se abordar não mais de um punhado de volumes eleitos ao acaso durante suas vidas; por outro, para aqueles habituados a desfrutar dessas quietas aventuras perturbadas apenas pelo revirar compassado das folhas impressas, todo livro é como placa de sinalização num caminho onde só há incontáveis semelhantes, remetendo umas a quaisquer e alimentando a esperança desses aventureiros de ao menos acercar-se ainda mais de algo que, não obstante muito próximo, jamais será tocado.

À guisa de conclusão, poderia aqui ostentar uma assunção de cunho realista, no sentido mais comum ou limitador: não, jamais lerei tudo quanto venho colecionando, sequer mesmo a terça parte, visto eu continuar adquirindo mais e mais volumes cujos temas estimo como do meu interesse. Entretanto, se tomo em sentido rigoroso o conteúdo do parágrafo precedente, posso assumir algo diverso, mais conforme um espírito fantasioso, alegando já haver lido todos mesmo não conhecendo mais do que uns poucos. E se continuo, enfim, nessa busca do invariável, do inútil, portanto, é por cultivar aquela disposição de quem está diante do palco e, sabendo ser fingimento a cena - excluo os loucos, naturalmente - já vista um sem número de vezes, deixa-se perpassar por multíplices e renovadas emoções até quando ocupa o mesmo assento.

Waldemar Reis

sexta-feira, setembro 24, 2004

Casuísmo mundificado em Gracián

Gracián não foi o primeiro a me alertar para o fato, pois é de amplo domínio, esquecido ou desdenhado apenas por incautos. Em seu opúsculo em prol da prudência - que também chamou de oráculo - a matéria retorna como que em ciclos, envolta em roupagens diversas ou subordinada a um ou outro dos tópicos principais da obra. É resumível numa palavra: inveja, assunto de presença insidiosa nas vidas de todos. Atido copiosamente ao senso comum, decerto não traz ali - e porventura nem se o quisesse - maiores novidades o conceito, embora fascine a artesania perifrásica com que o mais das vezes é posto em foco: em virtude disso, a cada aparição é como se o vemos por um lado até aí desconhecido, despertando a surpresa do inusitado.

Por certo em virtude da diversidade conflitante do gosto geral - em grande parte parecendo-me insossa futilidade ou autêntica loucura - foi que me dei conta tão tardiamente de a inveja acossar apenas no tocante àquilo de que mais se gosta! Até aí, nada de novo, suficiente é consultar o mais breve dicionário para constatá-lo. Quanta perversidade, no entanto! Não fosse o autor desautorizar de modo explícito o paradoxo, o qual define como "um tipo de engano que parece plausível a princípio e nos surpreende com sua novidade picante" e como algo que "decreta fraqueza de discernimento e falta de prudência", desaconselhando-o particularmente quando se o utiliza para fugir ao vulgar, sua finura conceptista parecer-nos-ia flertar permissivamente com o instrumento consagrado pelo eleata Zenão.

É paradoxal a inveja: conclusão obrigatória ao término da leitura das sucessivas exposições desse sentimento no seu oráculo, apesar das objeções de Gracián às antinomias. Aliada às evidências da constância no quotidiano universal e do esforço habitualmente subentendido na iniciativa de preveni-la ou de esquivá-la, a conclusão acima acarreta outra: o vertiginoso pendor humano para conviver com o disparate. E, em assim o sendo, é naturalmente perversa a inveja, visto que oblitera, no todo ou em parte, o desfrute do bem, transtornando-o ou transfigurando-o numa sensação de mal.

De mecânica conhecida, não abole em absoluto a noção de bom em quem a nutre. Caso o fizesse não apresentaria contradição, sendo antes sorte de bênção, de bálsamo, poupando sua vítima, exclusivamente confinada ao reino maligno, do cotejo que a faria preferir estar no reino oposto. Sua malignidade está em exercer-se a plenos sentidos, a condição de excelente discernimento de joio e trigo e, o pior, na certeza de se estar em desfavor.

Fato: é profunda a dificuldade de julgar a inveja, em especial quando se é alvo dela. Tampouco suas vítimas estão aptas a fazê-lo, ou se encontrariam a um passo da cura: do contrário, sentem-se tomadas de legítima revolta ao experimentá-la, da qual não lhes ocorre de pronto fugir. É claro, há invejas injustificáveis, essas originadas na falta de discernimento, quando há desejo mórbido de possuir o que se tem de sobejo. Tolerá-las é fonte de confusão, como quando se admite haver ao menos ponta de despeito em todo sentimento de admiração.

Refiro-me não a estas últimas, mas às nutridas em completa lucidez. Gracián nos dá um exemplo de especial crueldade: "espere pouco dos que têm defeitos físicos, pois gostam de se vingar da natureza por tê-los honrado tão pouco". Tendo-se em conta a finalidade da obra em foco (a de oriente em meio ao comércio humano) e o lugar e o tempo em que se escreveu (Espanha em meados do século XVII), ainda que perversa, é no mínimo atilada a observação. Permito-me esclarecer um pouco mais: não obstante sua condição clerical, da qual se veria constrangido a exortar os desafortunados à tolerância, quando não a regozijarem-se com os reveses (pois nestes supõe a igreja promessa de bem-aventurança post mortem), o autor toma direção contrária, por decerto dar ouvidos antes às evidências que às presunções santificantes da fé católica, uma vez a realidade desses infelizes a essa época ser eivada de sofrimentos, o principal dos quais a acentuada dependência do favor geral, fonte a alimentar temperamentos acerbos.

Por essa e por outras tantas tiradas análogas o realismo do jesuíta, assombroso, poderia ser dito sem exagero como espécie de maquiavelismo plebeu, uma vez dirigido não a déspotas, como o do florentino, mas ao vulgo. Pondo de lado a severidade disciplinar de sua ordem, a qual proíbe exposições públicas dos seus membros, não era outro o motivo, segundo parece, para que assinasse seus trabalhos com pseudônimo e para que alguns tivessem condenada a publicação, sujeitando-o às sanções costumeiras até morrer. Doutro lado, isto faz de Gracián produto legítimo do iluminismo humanista - que elevou a circunspecto paroxismo - cultivado pelos sectários de Inácio de Loyola, esse cuja práxis tanta celeuma provocou ao longo da colonização ibérica das Américas.

Seu senso de realidade um tanto ácido aproxima-se deste utilizado na prática psicanalítica hodierna, sorte de medicina cuja sabedoria retira os pensos de chagas abertas, arejando-as em detrimento do pejo universal de tê-las à vista. Mas não o faz sem antes ter à mão unturas eficazes no avio da cura, de todo distintas das prescritas na fé. Aos defeituosos, bem como aos sãos, nem resignação nem a incerta recompensa póstuma por se terem resignado: ministra-lhes Gracián medicamento dos mais empregados na atualidade, distribuindo-o racionalmente nas composições de múltiplos ítens de sua botica de prudência, a auto-estima. Todos estamos informados dos prodígios desse fármaco ancestral, em uso na produção de verdadeiros heróis na superação das perversidades do fado e que, embora faltos de membros e órgãos ou das funções destes, são recebidos em Olimpia como os que a excelência aquinhoou. Muito se deve dessa transformação às condições propiciadas pelas técnica e indústria advindas no mundo atual, conferindo significativa ampliação das atividades independentes dos portadores de imperfeições, determinante direto do apreço pessoal.

A inveja, mostra o jesuíta, mesmo nutrida com motivos justos (como os aleijões), é de grande poder infeccioso: qual faca de dois gumes, faz vítimas somente quando, instalando-se em alguém, atinge também um alvo ao menos. Até aqui discorreu-se sobre como frei Baltasar socorre as primeiras; entretanto, sabendo ele da inutilidade das curas isoladas nesse caso, trata de acudir também a outra parte.

Saca, portanto, do seu alforje filosofal, de primeiro, a indiferença, medicina em verdade preventiva, de pouca valia quando já se foi atingido pelo mal - adverte-nos. Em seguida mostra, sem traço de afetação, outro frasco, e o apresenta como o continente de elixir definitivo, eficiente na profilaxia tanto quanto na debelação das crises agudas e dos estados crônicos nos tocados pela inveja alheia. Da naturalidade com que nos exibe o composto depreende-se a sua certeza de o conhecermos suficientemente, mas em vista do pasmo geral, recita um a um os componentes: generosidade, o principal, à qual se adicionam em diversas proporções complacência e, naturalmente, amor-próprio, ali constituído de mérito e talento. Já advertido de nossa fraca memória, o frade finaliza enunciando os efeitos colaterais, infensos apenas aos verdadeiros enfermos da inveja, esses dos quais ela emana, para quem a mistura tem o efeito dum dobre de finados.

De curioso nos tratamentos é se fazerem ambos com o uso da auto-estima que, enquanto agente no invejado, é nefasta para o invejoso que não a ingeriu ainda. De efeito miraculoso também, se ministrada apenas neste último, poupa igualmente o outro dos sintomas malsãos. Conceda-se uma distinção crucial: a estima de si indicada aos invejosos não é a mesma prescrita aos invejados, uma vez a dos primeiros ter de forjar-se em puras vontade e imaginação em continuado esforço de negar a evidência decepcionante, enquanto a dos derradeiros tem o frescor da realidade ditosa, dispensando artifícios quaisquer para se hipostasiar. Eis segredo somente acessível aos versados na alquimia sútil do espírito!

Nada mais natural do que o olho desconfiado seguido de explosão biliar do catolicismo em face das práticas desse físico de almas, seu sectário. Semelhante fúria se justifica somente nos cria-cobras confiados em pedagogia de falso liberalismo cujos fundamentos são a inépcia e o comodismo dissoluto. Picada pelos reformismos de meados do século XVI, à fé católica houve por bem tolerar o inaciano, haja vista o luterano ter-se afastado por conta própria. Via-se então, cerca de cem anos depois, desafiada por outra renovação, desta feita no seio daquele que escolheu indulgenciar, pondo em xeque um dos esteios católicos, terceira das virtudes teologais, a caridade, o que, por força da fraca engenharia dos alicerces religiosos, debilita os restantes.

Atropelando Francisco de Assis e tantos penitentes como os seus confrades jesuítas amargando febres e silvícolas num Mundo Novo, Lourenço - firma temporal do monge Baltasar, audaciosa o suficiente para se apresentar com o seu próprio sobrenome - desdenha dessa forma transfigurada de amor ao próximo (a piedade, sentimento que ensina sorte de dolorosa mescla de sujeito e objeto) subjazendo ao ato caridoso, dizendo: "não se tornar infeliz por compaixão aos infelizes". Apenas Borges, no fragmento final dum seu evangelho apócrifo, faria possível concisão maior: "felizes os felizes"!

Tanto, não obstante, não diz tudo. Sobreviver à inveja seria tão-só uma etapa - grandemente compreensiva, é verdade - na obtenção da felicidade, cujos postulantes deveriam gozar também de plenas discrição, perspicácia, sensibilidade, sensatez, coragem, cautela, honestidade, verdade, prudência, entre outros atributos numa cadeia de virtudes de que é merecedor exclusivo o 'herói universal' (para certo despeito do Zaratustra e para o deleite de Schopenhauer, Godwin e Feuerbach), saudável e sábio como só um santo pode ser. Um santo do século no século. Assim seja!

Waldemar Reis - 24/09/04

domingo, setembro 19, 2004

Caprichos

"A arte é vã se não exerce uma influência." (Atribuída a Francisco Goya, quando admite o próprio erro de ocultar - temendo a Inquisição - a sua série 'Caprichos')

I
A velha tese da "arte inútil (vã)" em oposição à da "arte engajada (influente)"...Ambas são primas, não muito afastadas, das idéias de "arte-arte" e "arte-não-arte".

Uma vez eu me perguntei, vindo de um debate de filosófos(!), o que seria, de fato, inútil no mundo. Ora, você me diria: lá me vem o "absoluto"! Nem querendo - redargüiria eu: como posso lidar com o "absoluto" senão como fantasia, como quimera da pirrônica lógica, isto é, do pensamento, num mundo que é o reino do "relativo"? Utilidade, em suma, diz respeito a um sujeito, sempre; trata-se de um valor, tão-só. "Inútil", por conseguinte, só teria sentido figurativo, meramente retórico, o que, em se tratando de assunto seríssimo como o é a arte, tende a enfumar o entendimento. Dizê-lo em circunstâncias como essas é indício da falta de um olho ou de indolência, bastando quando muito um passo para se deparar, do outro lado, com a utilidade. E que utilidade! Tudo é útil, em última análise, restando saber para quê.

Seguindo o raciocínio da tese enunciada no princípio, sendo "inútil", salva-se a arte se é "engajada". Então repito aqui a pergunta acima, usando o artifício matemático de substituir apenas as variáveis, no caso, "inútil" por "não engajado" e, antes mesmo de você fazer muxoxo para a sombra do "absoluto" parecendo retornar, dou a resposta: é também impossível qualquer ocorrência não engajada com as demais suas coetâneas.

Tudo, por conseguinte, seja ou não arte, é útil e engajado. E essa oposição "inútil" versus "engajado" relativa à arte sempre foi indício, para mim, da meia coragem de certos oprimidos por regimes ditatoriais: como o poder é composto sempre de gente burra (visto ser burrice detê-lo), nem sempre se inteira das cifragens que urdem os "engajamentos' nos seus "objetos de arte" e, quando o faz, ainda há a chance de o "artista" sair pela culatra das múltiplas interpretações, o velho "qual é, meu irmão? não é nada disso!".

A utilidade da arte, acima das esferas comezinhas de oposições como essas, sempre foi e será a do despertar do conhecimento, a do fazer por simplesmente ser possível esse fazer (dado o material utilizado prestar-se a manipulações e a combinações a que se presta) e, mais ainda, feito o objeto, a do dizer-se o sujeito que o aprecia (seja ou não quem o urdiu), para si, 'isto é bom' ou 'isto não é bom', a despeito de sujeito outro discordar.

Todo o resto é questão pura de mercado ou, dizendo-o de outro modo, de arrebanhar o maior número possível de indivíduos em torno a uma certa preferência com vistas ao acúmulo de riqueza de outro determinado indivíduo. Só. Nesse contexto tem maquiavélico sentido a oposição "arte e não-arte", como o querem as atividades 'críticas' dos srs. Romano de Sant'Anna e Ferreira Gullar.

O artista lança ao mar mensagem numa garrafa: não sabe se a encontrarão e se, lida, será sequer entendida, diga-se, se o destinatário vai 'vibrar' na mesma freqüência em que 'vibrou' quem a compôs. Os de pura têmpera não acalentam a menor esperança de resgate em seu isolamento ou nem mesmo o querem, sendo seus textos quase sempre unívocos: 'deixem-me em paz!'

Uma observação final: embora o negue a Estética de orientação hegeliana, o "belo natural" é certamente o modo mais à mão para o exercício do estopim do conhecimento (a arte), bem como está provido, contra o que postulou o alemão, do "Espírito", pois o "Espírito" (esse sucedâneo de "História") está por necessidade em quem o vê, quem o aprecia: a Natureza não é aos seus olhos, meu caro amigo, a mesma que foi ao olhar de Lucrécio. E tanto assim o "belo natural" o é que vem sendo objeto constante da cobiça imitadora do "belo artístico" ao longo das eras. Vem-se tentando superá-lo - ao "belo natural" - como se por si não fosse ele capaz de mover, no sujeito, o conhecimento, de suscitar-lhe os juízos "bom" e "mau" dos quais este se constitui. Vã pretensão. No fundo, seguindo esse caminho, é possivel que o "belo artístico" nos tenha prestado um escabroso desserviço, condenando-nos a progressiva (e espero que reversível) insensibilidade, contra a qual só mesmo os reality-shows, os espetáculos terroristas ao vivo, entre outros, funcionam.

II
É à consciência da duração da obra de arte e da missão final da sociedade humana que devo o bom gosto de recusar a arte-panfleto, a arte-denúncia, a arte-choramingas, essa representante de circunstância cujo destino tem de ser o imediato esquecimento, o mais autêntico desdém.

Concebida como o é a vida, para durar enquanto possível for, a obra aspira à perpetuidade, à perene juventude do seu potencial evocativo do ser da consciência, que é o perene conhecer. Tem de estar, portanto, a serviço dos valores imorredouros, não daqueles que quer o humano ver extintos o quanto antes.

As condições tirânicas, assolando a comunidade humana ao longo de eras, podem parecer merecedoras - por tanto durarem - do olhar do artista. No entanto, figuram em meio a tudo quanto quer o homem ver banido de sua convivência pois, podendo ser até logicamente dedutíveis do conceito mesmo de grei, estão em contradição com a idéia que, humanos, alimentamos de nossa própria condição, e, se devem integrar o discurso artístico, que o façam como o fazem os seus possíveis materiais, como o são o barro, o som, as tintas, as palavras, as idéias, e tudo mais existindo no mundo. Que não se lhes erijam estátuas, por mais degradantes que nestas estejam representadas, que nem mesmo se as execrem, pois isto é ocupação dos arrazoados, da filosofia. No mais, que sejam tratadas com a indiferença com que se pintam as gramíneas numa paisagem, que sua necessidade na poesia não exceda a dum artigo definido cuja presença pode, ademais, ser suprimida num sem número de casos: são apenas parte daquilo sobre que, inevitável e lamentavelmente, temos de circunstancialmente nos apoiar enquanto não encontra o pé sítio de legítima firmeza onde pisar.

Por fim, sendo possível, o aconselhável mesmo é que se lhes passemos ao largo, que as ignoremos com toda a sinceridade, pois as condições tirânicas alimentam-se de tudo quanto se lhes é lançado - seja contra, seja em seu favor - e em especial do que há de nefasto, de pútrido, de negativo, que a ingenuidade ou a incúria podem num rasgo deixar escapar. No mais, que isto seja tomado como tão-só um manifesto de gosto muito pessoal, muito embora procurando fundar-se em princípios que tanto a Ética quanto a Estética podem facilmente comprovar, como o imperativo de equanimidade no trato dos homens e a vocação para o eterno intrínseca à concepção da obra de arte, ainda que eternidade possa significar, para muitos, a intensidade de um grito, a pungência de uma dor, a efemeridade de um suspiro.

III
Devo de fato ter sido inexplícito! Nem o maior esforço dedutivo, untado ou não dos favores da retórica, parece capaz de trazer a lume em sua pureza a idéia fermentada no isolamento do indivíduo. Inserta no comércio dos homens, é trocada de mão em mão, às vezes sem sequer um olhar de viés, sendo amarfanhada, feita em pedaços, findando seus dias dispersa em outras idéias, em geral suas opositoras, que os mais canhestros expedientes logram aglutinar para serem dadas em seqüência à bulha indiferente e ignara, e assim para todo o sempre. Não obstante, persisto.

E não vou empregar-me no arrazoado devido, por certo o melhor para o auxílio da estutltícia sinceramente empenhada em ilustrar-se. Atenho-me, enfim, a argumento único de prova singela. Que fique clara de um só golpe a utilidade seminal das idéias estudadas na hoje alcunhada Estética, entre elas a de arte, na formação disto que você é, leitor, seja para bem, seja para mal. Sim, e é o gosto - a preferência - o indício singular de elas existirem de fato. Não, não são delírio: em absoluto. Assim tem sido desde o princípio, o seu e o meu, o de todos: gosta-se ou não das coisas, cada qual nutrindo suas preferências. Por conta disso - por favor, continue a seguir-me, não se deixe flagrar colhendo provas para o evidente! - tudo o mais, como eu principiava a dizer, por conta disso se faz possível: a fome e a saciação, o desprezo e a paixão, a música, a poesia, as promessas, as deduções, e mesmo a guerra se faz por se gostar mais ou menos das coisas.

Vem-se ao mundo em branco, cá começando a riscar-se a história de cada um. De sabedoria inata não se traz muito: quem sabe a capacidade de distinguir o antes do depois e a de reter o que nos impõem sem descanso os sentidos. Naturalmente somos dotados de um só poder, o de, segundo a conveniência, dizer não: não aprecio, não concordo, não faço; sempre segundo certos pressupostos, parte dos quais só com tempo e continuado esforço você seria capaz de discriminar, todos, indiscutivelmente, referidos no seu gosto. Dado tanto, vá tomando as peças com o máximo critério, sem a menor precipitação e, quem sabe ao cabo de pouco mais ou pouco menos de um punhado de lustros você chegue a si mesmo! Indo um bocado além, caso a fortuna lhe falte para todo o sempre, em sua inefável melancolia você porventura encontre toda a ciência, quase inteira a sabedoria, as quais lhe serão, suponho, inúteis em vista da circunstância de sua pessoal eternidade. Veja aonde chegou: a quase tudo, havendo muito mais em função do quanto dure você. E isto a partir de quase nada, corrijo-me, a partir do quanto na estrutura ou na essência da arte é vital!

É para isso que ela serve: para mantê-lo sempre novo, como se a sua história começasse a se escrever a cada instante; para conservar ativo, ágil, o mecanismo de sua sensibilidade. Pois, mesmo sendo - do seu ponto de vista - má, uma manifestação de arte jamais deixará de ser arte enquanto houver alguém que a aprecie como tal, nada perdendo, de um modo ou de outro, em utilidade. Continuará útil para você, que a despreza, visto que o encorajará ao desfrute de outras manifestações de arte e, não encontrando uma sequer do seu agrado, ainda poderá conduzir seu olhar para o mundo, para a natureza donde ela e suas congêneres vêm.

Portanto, não esqueça: você está aqui para o puro desfrute. Não vá se meter em encrenca. Se não der por ora, por certo depois dará. O mundo o convida insistentemente.


IV
Erro histórico: 'belo natural' versus 'belo artístico'. Ora, você me diria, ninguém mais pensa segundo semelhante critério: Hegel, nesse pormenor, está morto e enterrado. Ledo engano! A oposição ainda está presente, se não de forma explícita, em asserções como: 'isso não é arte'. Exagero? Não. Há, evidentemente, o que não é arte, mas o critério para distingui-lo não pode ser: 'é ciência', 'é filosofia', 'é esporte', 'é comércio', entre muitos. O motivo é simples: embora possam ser individuadas, tais áreas de conhecimento ou de atuação não possuem limites muito precisos, imiscuindo-se umas nos terrenos das outras, entre os quais o da arte. É comum ouvir dizer de alguém ter feito de uma ocupação qualquer 'verdadeira arte', evidência que pouco diz, não obstante, pois pode aparecer quem pense em contrário, às vezes considerando outrem como 'artista em seu ofício'.

Há duas coisas a considerar a partir do exposto: a primeira, que tudo quanto se disse dos outros fazeres e de sua imbricação com o fazer artístico pode aplicar-se confortavelmente ao objeto natural; a segunda diz respeito à questão do sujeito, o verdadeiro responsável por essa aparente baderna na determinação do que é ou não é arte.

Começo discorrendo um pouco mais sobre esta última consideração, em princípio fazendo apenas uma observação: é inegável a preponderância de um sujeito no estabelecimento do que seja artístico, sendo suficiente aparecer alguém dizendo 'isto é uma obra de arte' para que todos nos voltemos à apreciação disto cujo status foi de súbito alterado. Muitos aceitam prontamente a nova designação, enquanto outros se põem a disseminar dúvidas na forma de, por exemplo, 'por que isto é arte?' ou 'ora, se isto pode ser arte, então aquilo também pode!' Salta aos olhos, enfim, a pergunta: 'o que faz algo ser tomado como artístico?'

Respondê-la foi em parte a intenção do "Capricho" antecedendo imediatamente o presente. Retomo-o, porém: é profundamente pessoal o que chamo de 'a outorga do rótulo de arte' a objeto qualquer, havendo entretanto algo em comum a todas essas outorgas particulares, a saber, a circunstância de o tal objeto haver desperto num sujeito a experiência valorativa fundamental para que este, enquanto repositório de conhecimento, incluso o de si próprio, enquanto consciência, portanto, se faça viável. É na apreciação dita 'da arte' que se exercita, do modo mais fundamental possível para uma consciência já preenchida do tecido vário do viver em todas as dimensões (como a social, a biológica, a psicológica, entre incontáveis outras), o potencial de dar-se conta de si e do mundo. Nesse transe apreciativo o sujeito 'pega no tranco' como se, à imitação dum automóvel muito usado, estivesse 'afogado'. Por isso, nem sempre se espera pacientemente pelo advento de alguma 'pura' manifestação artística, apressando-se em elegê-la em meio ao que de mais imediato se dispõe.

Num estudo - de nome em extremo complicado para ser repetido sem melhores motivos - escrevi que o processo de outorga do rótulo de arte às coisas possui uma outra vertente, simultânea a esta e que produz a outorga do rótulo genericamente chamado de 'objeto do afeto', a qual se volta com exclusividade para o que entendemos como 'seres'. Assim a 'afetividade', aqui tomada de uma maneira mais abrangente, recorta o mundo em duas classes de existentes, ambas merecedoras de nossa apreciação: a dos seres, nos quais é possível aplicarmos a etiqueta de 'amados', e a das coisas, etiquetadas oportunamente como 'artísticas'. Familiares, amigos, animais e plantas de estimação fazem parte do primeiro grupo, enquanto os mais diversos objetos inanimados e mesmo ações (teatro, dança, cinema) pertencem - ou podem pertencer - ao segundo.

Como é evidente, passamos a vida nesse exercício compulsivo de pôr a funcionar os lastros do conhecimento, os lastros da consciência. Não há um momento sequer de pausa, exceto, é possível, o do sono sem sonhos! À mesa, diante do espelho, escutando uma canção, lendo um livro, realizando bem o nosso trabalho, passeando ao ar livre e, no caso de insatisfação extrema com todo o passível de ser amado ou apreciado como artístico, inventando ou criando algo que - segundo cremos - suscite em nós esses sentimentos! Outra curiosidade salta aos olhos: sendo tudo passível de se tornar ser amado ou objeto de arte, a depender do arbítrio exclusivo de cada sujeito, cai por terra de uma vez por todas a distinção de arte e nâo-arte, uma pulseira de miçangas só possuindo mais valor do que um cerâmica de Picasso para alguém em particular e em certas circunstâncias. Uma questão simples de mercado!

De volta ao 'belo natural', Hegel disse ser impossível apreciá-lo como se o faz com o 'belo artístico' pelo fato de nele, o 'natural', não estar presente a 'Idéia', ou seja, sendo embora 'belo', não é o 'belo ideal', produzido por quem urdiu a 'história', o ser humano. Estive convencido disto por tempo suficiente para hesitar confessá-lo! Embutido em correntes que prevalecem até recentemente, o hegelianismo foi grosso retrocesso, pois um senhor muito meticuloso, do tipo que passeava diariamente a certa hora a ponto de os relógios serem acertados segundo os seus passos e cuja filosofia maior se manifestou já em plena maturidade, já havia apontado o caminho mais confortável para os afeitos a jornadas como a presente: já muito velho, quando resolve investigar a fisiologia do 'juízo', todos o tomam por senil, mormente porque suas elucubrações determinariam a demolição da prevalência, na determinação do que seja 'belo', 'arte' e outros valores mais, do criador, do autor, colocando em pauta este outro sujeito, sem o qual tudo, tenha ou não um criador reconhecível ou nominável, não pode ser 'belo' nem 'artístico' ou, a rigor, não pode ser nada.

É verdade, esse senhor (I. Kant) ainda estabeleceu, quando investigouo conceito 'belo', a distinção cuja eliminaçâo a arte futura, em especial a do século XX, viria dissipar, falo do 'belo natural' e do 'belo artístico', a qual assume, no pensamento hegeliano, função de lastro. Semelhante deslize, natural uma vez existirem objetos aparecidos da natureza e outros urdidos pelo homem, deveria ser dissipado em vista do que desenvolveu em torno ao papel do sujeito, esse cuja apreciação, na qual está em jogo o 'gosto', é o rito que confere ao objeto assim apreciado o valor pertencente a si apenas e do qual pouco se pode inferir, menos ainda se nele se faz a distinção entre o que se produziu pelo homem e o que se encontrou assim como está no mundo. A presunção de deverem ser apreciados de maneiras diferentes os objetos oriundos do homem e da natureza, se levada a miúdo (como o fez Hagel), traz a questão da arte de volta ao centro no qual se considera o objeto como dotado das características que autorizam a apreciação, que a suscitam em a direcionando para o modo artístico, para apreciá-la como arte em oposição a outros cuja estrutura nos determinaria a apreciá-la como objeto da natureza: tal centralização no objeto, já abandonada em Descartes e em Hume, é inútil pois num sem número de situações é indecidível a questão da origem, não obstante a apreciação ocorra ou possa ocorrer indiferentemente, como se mostrará mais abaixo.

De que lhe adiantaria, leitor, eu estar escrevendo isto daqui se você não o lê agora? Sim, falo somente do seu ponto de vista, porque do meu, além de ser quem o escreve, sou também quem primeiro o lê. Não o torno em arte, tampouco você, por tão-só o ler, mas é possível que um de nós - tantos são os que não o criaram mas o leriam - o faça! (Ainda há esperança!) Hegel esqueceu que a tal 'idéia', por certo verossímil, não está nas coisas, mas em quem as percebe. O ideal está no sujeito, a este fornecendo os critérios para as escolhas e rotulações que produz.

Estive, faz tempo, em Campos do Jordão durante o inverno, numa sala de extraordinário pé-direito na residência de um conhecido. Isolado em imensa parede, um quadro pequenino demais para o vazio ao seu redor. Desconheço o motivo de minha atenção voltar-se periodicamente para ele durante a conversa, aliás, muito interessante. Tratava-se de paisagem - a despeito do tamanho da moldura e da distância para um olhar míope como o meu - realista. Passado um tempo, cessou a fumaça da chaminé na casinha dentro da paisagem, o que tomei por ilusão, visto as pessoas me chamarem mais a atenção do que a pintura onde, uma hora ou duas a mais, se fez noite! Estupefato, fui tirar a limpo as impressões e, perto do estranho objeto, percebi tratar-se de uma janela, não menos surpreendente pelo seu tamanho relativo à parede do que o tinha sido o suposto quadrinho. Eu passara umas poucas horas apreciando uma obra de arte que, ao fim, realizei ser mera janela. Cheguei até a esboçar alguma crítica à localização do quadro, ao motivo e, não menos surpreendentemente, ao 'estilo', do qual pouca informação possuía em virtude dos meus olhos insuficientes.

Pensemos agora em quantas florestas, morros, vales, lagos, praias, cujas configurações podem ser devidas à interferência mais ou menos intencional do elemento humano por ali de passagem. Assim como os mapas obsoletos e milhares de objetos cuja função se deteriorou (incluindo as obras de ciência que a evidência fez inválidas), podem um dia vir a enfeitar uma parede numa residência ou num museu (ou, no caso dos tratados científicos falseados, ser admirados apenas pela escritura do autor a despeito - ou em virtude - de versar sobre o improvável), qual o impedimento, de olharmos para o mundo indiscriminadamente como se o faz com a arte? Seria por termos de lhe supor um criador? As paisagens que sofreram a intervenção humana seriam menos artísticas do que os jardins de Babilônia ou um jardim botânico qualquer por conhecermos destes últimos seja os seus autores, seja a intenção por trás das obras?

Ao valorizar a intencionalidade, presente na distinção 'natural'-'artístico' relativa a 'belo', Hegel (e em certa medida Kant também) exige de um objeto qualquer, para ser tomado como arte, que possua um autor. Sendo ele desconhecido ou ignorada a sua intenção, como saber se estamos em presença de algo feito com o propósito de cumprir a função de arte? Eis a razão de, no passo do hegelianismo, muito da estética escolar ter como esteio as biografias dos artistas e o inventário de seus propósitos no exercício do seu trabalho, e de na ciência (e na história, por que não?) haver quem se inquiete com os impeditivos das provas da existência de Deus! É inegável a importância de tais informações, caso possíveis, não obstante muito possa dizer-se na falta delas, boa parte do que - espero não causar espécie ao afirmá-lo - diz respeito a você mesmo, quem se põe a investigar ou apreciar o mundo.

Waldemar M. Reis

terça-feira, setembro 07, 2004

Cantada

(texto originalmente publicado na edição de setembro/outubro de 2004 do jornal ParaTodos, da ESPM-Rio)

A edição de agosto último da revista 'Superinteressante' - conhecida divulgadora de ciência e tecnologia - traz reportagem a um tempo lisonjeira e desconcertante sobre música. De um lado, mostra que a divina arte está presente, sem exceção, em todo canto do planeta e enumera alguns de seus efeitos (todos observados e comprovados como manda o figurino científico, digo, valendo-se de medições exaustivas), entre os quais o aumento significativo de sinapses (o nome dado pelos cientistas às conexões de neurônios), o que, trocando-se em miúdos, faz do usuário e, mais ainda, do praticante de música pessoas cujas massas encefálicas estão aptas a realizar, com grande rapidez, número maior de operações que as demais. Sim, parece que músicos e seus ouvintes regulares são de fato muito inteligentes, ou assim querem crer os pesquisadores! Por outro lado, após esse caprichado lustro nos nossos egos, a matéria não pode deixar de puxar o tapete, quando informa que a utilidade da música, infelizmente, ainda é por completo desconhecida, em resumo, ela não serviria para nada. Ora, de tudo quanto até aqui se disse, parece óbvio concluir que, se puxaram algum tapete, esse foi o da própria ciência, pois a música termina servindo, se não para outra coisa, ao menos para aumentar a inteligência!

Uma abertura assim deixa claro que toda esta conversa tem por alvo levar, no mínimo, a um maior consumo de música, não bastassem as pilhas de cds e dvds, as trilhas sonoras de novelas, filmes, publicidade, e as horas incontáveis nas filas à entrada dos concertos que são parte da vida de qualquer um. No mundo moderno, se depender do volume musical despejado em nossos ouvidos a todo instante, antes de mais inteligentes, tendemos mesmo é a ficar mais loucos, em especial se considerarmos o aspecto qualidade.

Não, não se vai desfiar aqui um receituário estético, pois isso é, a despeito do quanto se diga e se queira provar, uma questão pessoal. Cada qual sabe o que quer e pode pôr para dentro de casa ou das orelhas (pois agora tudo tem de vir com bula, embora quase sempre em tipos praticamente ilegíveis, é bem verdade)! E qualquer gênero de arte, não apenas a música, tem seus representantes mais e menos nobres, fato de conhecimento universal. O objetivo aqui, portanto é outro: nada de crítica, de censura, nada de mais estímulo ao desbragado consumo já existente.

Trata-se, em suma, de convite à produção. Sim, a passar de consumidor a produtor de música. De especial, na convocação, o seu caráter irrecusável, e para tanto espero contar com um mínimo de sagacidade, prometida na ciência, propiciada pela imersão musical a que venho me submetendo por toda a vida. Tamanho cuidado tem justificativa: um sem número de objeções ostentadas por quem, em última análise, ainda não rompeu com a inércia de ser somente ouvinte. Estas, de modo geral, têm aparência convincente e entre as mais comuns está, em primeiro lugar, a falta de tempo; depois vem a dificuldade presumida na aprendizagem da música, o questionamento da própria aptidão e, mais para o fim da interminável lista, o fato de alguns, de modo circunstancial e descompromissado, já fazerem música (todos temos nossos momentos de karaokê, de rasqueado, de caixa de fósforo).

Dessas possíveis recusas, a mais forte - por incrível que pareça - é a derradeira, pois, no caso, se está, bem ou mal, na posição de músico - daquele que a produz - e assim incrementando as próprias ligações neuronais em escala maior do que quem apenas escuta. Entretanto, essa prática não difere muito daquela de quem acha que exercita convenientemente os músculos com apenas uns poucos movimentos além dos exigidos pela moderna vida sedentária, em contraste com a dos que se consagram regular e conscientemente a algum esporte, por exemplo. Embora ainda não seja de domínio amplo, o exercício de toda arte é, ao contrário do que ainda se crê, a adoção de certo grau de disciplina. Na música, atividade em princípio auditiva, além do discernimento de sons estimula-se a coordenação motora em todos os níveis e, no caso dos instrumentos de sopro, entre os quais a voz, é vital para todo o trato respiratório, sem falar no aparelho fonador. Como toda arte, em suma, promove um maior auto-conhecimento, instrumento precioso em tempos como o nosso em que o individualismo não passa de escudo empedernido para as invectivas de um meio em extremo insidioso.

Portanto, alegar falta de tempo para realizar algo tão importante para si é como dar tiro no próprio pé. O mesmo se diga da impressão de não se possuir talento suficiente para a música, de não se ter ouvido: esse é um triste sintoma da falta de auto-observação, pois todos nós falamos, entendemos o que o outro fala distinguindo, inclusive, os diferentes modos de o fazermos, os sotaques: a linguagem falada, antes de mais, é um tipo de música, de extrema complexidade, inclusive. Já somos músicos desde o berço e não nos damos conta. O instrumento, a voz, que não ocupa espaço extra nos nossos já acanhados lares e do qual possuímos substancial domínio. Para complementar, canto é, em geral, partilhado, digo, é praticado em grupo, circunstância excelente para o exercício consciencioso da condição gregária de nós humanos, progressivamente distorcida, amarfanhada ao longo desta interminável era individualista. Enfim, faça música; na falta de outro instrumento, cante; e torne-se mais sociável, mais consciente de si, auto-confiante, em suma, mais inteligente, proporcionando a quem o escutar benefícios equivalentes!

Neste ponto o leitor atento pode começar a rever de memória todas as pessoas que conhece e então encontrar aquele músico amigo, sujeito desligado de tudo exceto do seu instrumento, desempenho qustionável na escola, magrelo e de pouca ou desajeitada conversação, mas de presença imprescindível nas festas, onde rouba as atenções (em especial as femininas), mesmo estando quieto num canto, atendendo a pedidos sem fim das ouvintes incansáveis: um personagem assim leva à suspeita de que a ciência cochilou durante a pesquisa (ou seria o show?) e de que o autor aqui exagera no seu convite. Para finalizar, entretanto, peço a quem se dá a tais considerações que não se precipite e pondere um pouco mais, em especial se a música não é um de suas atividades preferidas: é possível que, na verdade, seja você quem não está alcançando o tal amigo...

Waldemar Reis

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