domingo, junho 01, 2008

Para pensar Deus – a natureza de uma idéia recorrente

Em seu livro tratando de Deus o cientista Dawkins investe principalmente contra a versão de origem judaica da divindade. Mas não prova sua inexistência, para desespero de quem busca esse tipo de informação em publicações do gênero. Sua argumentação, nem sempre consistente, achou por bem concluir que é "praticamente" impossível que Deus exista, ou seja, embora não haja provas cabais dessa impossibilidade, é cabível tratar o assunto como se as houvesse, visto também não se provar o contrário.

Algo há, entretanto, a impedir a conclusão categórica desejada pelo autor, sendo devido, por isso, dar a esse impedimento valor análogo ao de uma prova, embora não se diga com a clareza suficiente do que se trata. E, é possível deduzir, se possui valor de prova, este é deveras baixo, pois também permite que ’na prática’ se possa ter Deus por inexistente.

Em algumas partes Dawkins menciona a improbabilidade tamanha de a vida formar-se no universo para enfatizar como somente o processo adaptativo teria proporcionado àquele evento, quase único em toda a duração do cosmo, manter-se e multiplicar-se. Percebe-se pelo argumento que Deus, em sendo ’na prática’ impossível, pode ser tido, ao menos em teoria, como ’muito improvável’ se comparado, por exemplo, à aparição da vida.

Mas probabilidade é função do tempo, que mais chance oferece de ocorrer o menos provável quanto mais longo for o período: refiro os eventos praticamente inexistentes, esses de existência muito improvável. À primeira vista parece abuso da lógica traduzir aqui a opinião de ser Deus ’praticamente inexistente’ como a de ser ’muito improvável’ que exista. Entretanto é isto o que quer dizer a ciência em não encerrando o assunto com provas irrefutáveis de não haver deus algum.

E quando Deus é o tema isto parece mesmo ser o máximo permitido à ciência honestamente concluir: pela muita improbabilidade de sua existência. Muito natural, é evidente, pressupondo-se honesta a ciência (uma ciência desonesta é contradição de termos, obra da estultice), visto ’improvável’ designar literalmente aquilo de que não se possui provas ou para que ainda não se conseguiu produzi-las. Sob esse viés as evidências da aparição da vida não são mais eloqüentes do que as da existência de Deus.

Em síntese, a ciência não é capaz - e desse modo o confessa - de detectar Deus, ou seja, não tem meios de realizá-lo. Deveria, por conseguinte, postergar suas investigações do tema até quando se sentisse melhor habilitada para a tarefa. Isto seria de esperar de qualquer pessoa honesta e ciente da distinção dos significados de improvável e impossível.

Para surpresa geral a ciência se vale, ao contrário, do que se pode chamar de navalha cartesiana, embora empregando-a com propósitos diferentes. Se Descartes, diante da dúvida quanto à existência do mundo, escolhe a negativa, não é por de fato descrer de que ele exista, mas para provar sua existência por intermédio do puro raciocínio, haja ver o esforço das últimas meditações. Assim, numa mostra de presunçosa confiança em si mesma, em face da muita improbabilidade a ciência encerra o assunto concluindo pela impossibilidade ’prática’ de Deus existir, o que, quando não se aventura a alardear de maneira taxativa, procura demonstrar nas atitudes de reserva cética dos seus profissionais.

’Pouco provável’ não é o mesmo que ’muito improvável’, como se poderia irrefletidamente pensar. Antes de mais, ’muito improvável’ não significa, a rigor, mais do que ’improvável’: o que, dentre tudo quanto é improvável, o seria mais ou menos, ou ainda, o que, dentre tudo de que não se pode provar a existência, oferece mais ou menos provas de existir? O que se exprimiria, nesse caso, modulando a improbabilidade com ’muito’ é, presumo, a confiança da ciência na própria capacidade de encontrar ou produzir provas do quanto decida investigar e de ser na prática inexistente aquilo que não as possui, além da segurança de que tal persistirá ao longo da evolução do conhecimento.

’Pouco provável’, do seu lado, indicaria existir, sim, ao menos uma prova, por certo não cabal. Como viemos observando, para a ciência não têm valor as tentativas tradicionais de provar a existencia de Deus. Não vê por que, por exemplo, diante do abismo abrindo-se ao questionamento incontornável acerca do princípio de tudo, postular-se um ponto inicial e chamá-lo, talvez precipitadamente, de Deus. Ora, pergunta-se ela, por que parar aí? Por que não continuar a série interminável de perguntas com aquela sobre a origem de tal origem?

O teísta astuto, usado nas limitações científicas, não perderia a oportunidade de observar a analogia entre sua própria precipitação em postular um fundo para o abistmo de questões acerca do princípio e o uso feito pela ciência da navalha cartesiana. Se é direito avaliar como nula a existência de algo (muito) improvável e com o prognóstico de essa avaliação permanecer enquanto houver ciência, ora, é direito também pôr Deus na origem de tudo, ainda que esta seja de fato inconcebível. Do mesmo modo amputam-se com freqüência as dízimas infinitas do quanto se considera irrelevante para obter-se o grau de aproximação desejado em cálculo que as utilize.

Aliás, a empresa científica seria impossível sem incontáveis reduções. Sendo seu objetivo constante a descrição do mundo, do seu funcionamento, e sendo o descrever o relato das interações de determinados fatos ou objetos, ora, a rigor uma qualquer descrição completa teria de abarcar absolutamente todas as interações, ou ter-se-ia de admitir no universo a existência de coisas que não interagem de modo algum, isto, sim, uma impossibilidade lógica. A descrição da ciência, entretanto, para ser exeqüível tanto quanto útil, tem de eleger um âmbito de interações a serem listadas, além do qual nada é tido por relevante para determinado fim. Caso contrário, nem toda a eternidade bastaria para a descrição de uma partícula, idêntica, se concluída, à descrição da totalidade das coisas.

Esse reducionismo, é bem verdade, não invalida a ciência, embora lhe confira considerável grau de imprecisão, aumentável por sua cooperação com as finanças e contra a qual o cientista honesto se bate. Não é incomum o uso de algo cujo conhecimento, por diversos motivos insuficiente, resulta em efeitos imprevistos e, não raro, indesejáveis também.

Assim como nos procedimentos científicos, há no procedimento teológico tão-só a presunção metodológica de evitar, com a designação ’Deus’, a queda interminável no abismo aberto pela questão da origem, em tudo semelhante ao método geométrico, que tem de eleger um entre os infinitos pontos de uma linha, sobre o qual baseará sua demonstração. O problema da teologia, o mesmo de todo ramo do conhecimento, começa quando produz ilações muito particulares e supostamente derivadas desse fundo arbitrário dado ao seu precipício, desse modo incitando ações intoleráveis.

Crendo-se honesta, a ciência não pode bater-se contra a iniciativa teológica, pois esta não é senão a investigação de um pensamento recorrente em toda a história da humanidade. Crendo-se honesta, a ciência teria de bater-se contra certo tipo de teologia, como de fato se bate contra a biologia com pressupostos criacionistas. A bem dizer, bate-se a ciência contra espécie de espantalho quando investe contra os resultados canhestros de uma teologia precária, embora capaz de estimular atos nefastos. Portanto não pode partir para a negação completa da empreitada teológica, em particular por não lhe ser possível tanto, como o demonstra ao estimar a existência de Deus como nula na prática ou ’muito improvável’.

Outro aspecto saliente do debate científico sobre Deus é o da inteligência. Para um evolucionista a inteligência resulta do esforço adaptativo das espécies que a portam, possuindo uma história, ainda que lacunar em tempos atuais. Com efeito não nos parece procedente chamar de inteligente o gene, mas sim o sujeito a quem dá origem. Que a inteligência exulte diante do trabalho genético e mesmo que o utilize para os mais diversos fins, isto não significa haver inteligência nele, nada obstante aja a inteligência como replicador de tudo quanto encontra na natureza, em grande medida lembrando, é mister admitir, a atividade do próprio DNA.

Se considerado desse modo, o assunto se encaminha para a afirmação de que, se de fato princípio, Deus não teria de necessariamente ser inteligente, como diz a teologia, não sendo a intelegência também um traço de que tanto possa a humanidade se orgulhar (e muito menos passível de honestamente atribuir-se a um ser considerado como a suprema origem de tudo). Em fim de contas a inteligência não passa da capacidade - em extremo variada e admirável, admita-se - dentre as tantas promovendo a reprodução de processos encontráveis todos na natureza, algo em boa medida muito comum. Neste ponto o teísta astuto teria de admitir que para Deus seria inútil, se não inconveniente, dizer-se inteligente, pois deve ele ter sacado o mundo do nada, tendo de inventá-lo desde o princípio, algo decididamente impraticável por qualquer inteligência - a qual cria, de modo impressionante, mas sempre a partir do já existente.

Em suma, se a inteligência cria (a partir do zero, portanto), então é atributo divino, mas se apenas reproduz, não passa de um dos resultados do quanto iniciou com a criação. Quando se bate com teorias como o criacionismo ou o design inteligente a ciência arremete contra os castelos de cartas de quem muito se admira do fucionamento das coisas, contra mera mostra da vaidade da inteligência. Quando combinado a esse centro, em que, humanos, nos constituímos e cujas capacidades únicas são a de emitir juízos numa gama indo de bom a mau e a de agir em função deles, esse replicador de processos no universo crido como exclusivamente humano, a inteligência, proporciona ocasião para muitos julgamentos positivos desses centros, outrossim ditos ’eus’. E, convenhamos, nada de intrinsecamente pernicioso há em as consciências regozijarem-se com aquilo de que são capazes.

O problema de qualquer vaidade - ou de qualquer coisa - estaria no uso que dela se faz, em particular o de produzir embriaguez inoportuna e, como no caso da inteligência, de incorrer, se não na produção de miragens dos processos na natureza (pois tudo quanto observa quase com certeza é como tal), por certo no emprego duvidoso dos mesmos. Em termos do criacionismo ou design inteligente há neles a combinação de investigação biológica ou cosmológica e de uma versão particular, aquela do ramo judaico-cristão, da intuição (chamemo-la assim) da divindade. Nesse embate a ciência teria com justiça o direito de no máximo perguntar pelos critérios usados para escolher esse e não outro dentre os inúmeros modelos disponíveis de Deus e de enfiada encaminhar, com o auxílio dos instrumentos da lógica (de momento, creio, os únicos a darem conta de semelhante tema), a devida crítica a este e aos demais modelos preteridos.

Mas para fazê-lo, tão afastada anda da filosofia (sua única e permamente fonte), a ciência terá de oferecer a mão à palmatória e admitir que carece de meios mais eficientes para detectar provas da existência de Deus. Terá de manter a distinção dos significados de improvável e de inexistente. Terá de convencer-se de que jamais conseguirá apagar do espírito humano a solução que este dá ao problema da origem, pois seria preciso antes convencê-lo a esquecer uma questão que obstinadamente o acossa ao simples pensar. E terá de, por fim, enxergá-la, solução, como de fato é, como mero passo metodológico em tudo semelhante ao dado por ela própria, ciência, quando de fato lhe convém desconsiderar os detalhes.

Passo seguinte, questão de método, é o entendimento das razões para tanto interessar ao humano o conhecimento de seus começos ou, dizendo-o de outro modo, é compreender a mecânica de imiscuição de tal interesse no intercurso dos demais pensamentos, muitos dos quais a serviço de ações triviais. A questão da origem se instala em toda iniciativa humana de lidar com a natureza tão-somente por ser limitado o conhecimento: a simples presença de limites no quanto conhece determina de imediato o sujeito a indagar de suas causas e buscá-las, acreditando por hábito que também as têm, o mesmo podendo dizer destas e das demais na progressão infinita.

Depois, admitido como algo inerente à atitude de pensar o universo, o problema da origem suscitaria ainda a investigação da pertinência de solucioná-lo elegendo um ponto no qual interromper a cadeia de origens, chamando-o de a origem primeira, assim como a compreensão da natureza do mesmo, a saber, a compreensão de como ese ponto escolhido torna irrelevante a suposição de seus começos. Pois enquanto origem, seja no sentido de início, seja no de substrato da existência, não havendo outro, Deus terá de possuir ao menos esse atributo, o de ser presença da qual é inútil indagar a origem.

Só então é possível debruçar-se sobre a literatura sacra, quando por lume se tem a certeza de que Deus, para sê-lo, tem de oferecer-nos motivos para não nos perguntarmos como se originou. E só então se saberá das versões já oferecidas de Deus quais apresentam esse traço. Caso não as haja, que se empreenda de pronto a dedução dos demais atributos divinos, dos quais não é parte, como já se mostrou, a inteligência - seja tido por começo ou por substrato de tudo, Deus não reproduz nada, pois ele nada possuiria para reproduzir, mas cria: não nos permitamos esquecê-lo.

Mas não surpreenda o fato de muito do que disseram sábios e santos se aplicar também ao Deus deduzido. Ele talvez seja onipresente e quiçá onisciente, parecendo inconcebível que seja onipotente, pois a plenipotência acarreta a inação, já que o exercício de qualquer potencialidade reduz a potestade. Um Deus onipotente é um Deus imóvel, puro e absoluto potencial impossibilitado de agir, ou não seria a totalidade o que pode. Portanto a ação, é indiferente como a concebamos, parece ser atributo certo da divindade, que seria muito - e mesmo inifinitamente, embora não totalmente - potente.

Também não surpreenda que muitos desses atributos se distribuam por coisas chamadas físicas, aproximando a ciência, que as investiga, da idéia de Deus. Pois ruma a ciência no encalço do divino, quer admita, quer não, e quando o nega é por muito justamente não admitir a possibilidade de detectá-lo tal e qual está nos esboços tendenciosos apresentados pela teologia vulgar. A ciência precisa entender que aos poucos pinta imagem particular de Deus e como tal deve oferecê-la à apreciação geral, mas sem se fazer em religião, sem deixar-se seduzir pela facilidade de dominar, disponível para quem lida com conhecimento assim fundamental.

É contra a religião e não contra a presença insistente da idéia de Deus que quer bater-se a ciência; é contra o uso malsão feito dessa e de outras tantas idéias fundamentais para se compreender a condição humana e mesmo o universo, como a idéia de fé. Se o que diz a etimologia é verdadeiro, o termo ’religião’ proviria da noção suspeita de religamento, por intermédio de um agente, do indivíduo com a divindade, como se possível fosse estarem estes dois alguma vez desligados.

A religião deve ter aparecido como as demais formas de dominação, pelos idênticos motivos mesquinhos que retardam ainda a compreensão da condição gregária do ser humano. É cabível cogitar que tenha resultado do assombro produzido por quem melhor conhecia os processos da natureza naqueles que os conheciam menos. Sob esse viés ela não passa de manifestação precoce de patifaria científica, caso se anua sem dificuldades à evidência de que o homem desde sempre observou a natureza e, por conseguinte, bem ou mal, com maior ou menor eficiência, procurou compreendê-la, isto é, praticou ciência, embora sob a denominação genérica de religião.

Parece haver apenas um modo de a ciência não tomar outra vez para si as atribuições da religião: obstinar-se em sua vocação exotérica, pôr-se à disposição de todos sem exceção. Isto não significa dar acesso às novas descobertas, não apenas: o oferecimento de seus resultados a um público como o contemporâneo não tem efeito significativamente diverso da imposição religiosa de dogmas ao vulgo. Significa antes mostrar como somos por natureza determinados a conhecer, como a todo instante, mais ou menos automaticamente, concebemos hipóteses acerca do que nos rodeia e nelas nos apoiamos para agir. Significa mostrar que somos por condição cientistas necessitando apenas de algum crédito e de inteirar-se do básico da ética e da lógica dedutiva para organizar suas intenções.

Só assim todos entenderemos que a existência de Deus não deve ser tratada em termos ’práticos’ pela navalha cartesiana, pois o problema se insinua em pensamentos confinando com a ’prática’, seja lá o que se intente dizer com o termo. Entenderemos também que se o fazemos é por anuirmos à nossa incompetência para dar um fim cabal à questão, protelando-a indefinidamente; e que o ato de adorar o divino, persistindo na história, não passa de mais um aspecto da vaidade da inteligência, semelhante ao exibido nas teorias criacionista e do design inteligente, externado embora de modo negativo, depreciando a nossa em vista da suposta inteligência divinal. Entenderemos, finalmente, o risco contínuo a que nos expomos, o de perpetuar o comportamento religioso e suas conseqüências nefastas, sempre que fazemos da ciência uma prática de poucos em benefício imediato de número ainda menor de indivíduos e aceita pelos demais, o vulgo, em virtude dos efeitos assombrosos que produz, milagres em versão atualizada.

Rio, 01 de junho de 2008

Waldemar M. Reis

terça-feira, maio 20, 2008

Para pensar Deus – metáfora de humanidade

O biólogo Dawkins escolheu para opositor central personagem particularmente frágil: a versão de divindade da tradição judaica. Tal fragilidade se deve a todos os malefícios, de exclusiva responsabilidade dos humanos, praticados em nome dela. E o discurso desse autor parece evitar o reconhecimento dos incontáveis serviços prestados à ética pela invenção abraâmica.


Entre suas teses está a da plena possibilidade de correção de caráter na ausência total de deuses, mas a principal delas parece originar-se na combinação de resultados dos diversos ramos da ciência natural, a saber, a de não ser demonstrável a precedência da inteligência com relação às coisas (ao universo), mas sim como resultante da evolução delas. Sendo a teoria evolucionista critério nevrálgico de sua contestação, seria razoável imaginar-se da parte de Dawkins, ora, o reconhecimento do papel de Javé no processo evolutivo das sociedades humanas ao tempo em que foi proposto como legislador da conduta. Não teria sido o Deus de Israel, enfim, passo necessário no processo de achamento dos princípios éticos?


Sim, é provável que seja Deus passo necessário na evolução humana e quiçá passível de descarte em tempos atuais, quando cremos ser melhores do que os homens de passado remoto. Feuerbach, há mais de cento e cinquenta anos, já ensejava com rara consistência dizer o mesmo. Mas é igualmente provável, em vista dos percalços da filosofia (sempre às voltas com antinomias atalhando-a em virtualmente toda questão possível de formular-se), que o tema do divino seja de fato incontornável na atitude humana de pensar. A idéia de Deus parece não ser descartável com provas advindas dos métodos das ciências da natureza e o motivo pode ser o de o pensamento - instrumento crucial na iniciativa científica - mostrar-se irreversivelmente contaminado por essa mesma idéia.


Para sugerir a supressão dos cultos à divindade Feuerbach também tinha como respaldo o cientificismo, ainda na infância à época de sua proposta, mas talvez por força do repertório incipiente de certezas da ciência natural de então tenha escolhido como fundamento espécie de psicologia universal, que sacou da própria idéia de deus cunhada pelo homem nas mais diversificadas manifestações culturais que foi capaz de criar. Entre os principais traços da psique humana arrolados por ele destacam-se por certo dois: o sentimento de dependência do indivíduo perante o quanto considera como exterior a si próprio e a antropomorfização da idéia de deus, não raro intermediada por zoomorfizações que, nada obstante, já se haviam sedimentado a partir de antropomorfizações dos comportamentos animais, bem como daqueles dos vegetais: se deuses assumiram as formas doutros bichos é porque o comportamento destes já havia passado pelo crivo da assemelhação com o comportamento humano ou da mera relação de ambos, àquele tempo já consagrada.


Em vista de tal, não é excessivo afirmar que Feuerbach ofereceu ao seu século e ao seguinte paradigma recorrente na formulação de sistemas profundamente marcantes de interpretação de indivíduo e sociedades, como a psicanálise e o socialismo. Desnecessário observar, se não a persistência intocada desses sistemas, ao menos a de sua essência. Pois, ora, num mundo onde o homem presume decifrada, enfim, a alegoria milenar com que costumava referir-se a uma idéia recorrente de seu ato espontâneo de pensar e que designou, entre outros, com o nome de Deus, num mundo como esse só há lugar para a auto-gestão, para a mais pura responsabilidade, tornando assim desnecessários os instrumentos de dominação usados em todo o espectro de suas intensidades para o exercício das governanças. Afinal é do próprio homem a inteira responsabilidade por todos os traços com que foi pintada a divindade, evidência disto sendo as marcas de antropomorfismo em cada um deles.


A metáfora, possivelmente exclusiva do raciocínio humano, caso aproxime, no ensejo de significar, coisas quaisquer, aproxima-as em primeiro lugar do homem, embora seja mais preciso dizer que opera o reverso, levando as singularidades de nossa espécie a designar existentes tidos como distantes de si em tempo, espaço e idéia. E se em inúmeras ocasiões os três reinos da natureza também carregaram para nós o significado de deus, isto se deu por já estarem carregados da acepção de homem.


De todos os traços que reconhecemos em nós, decerto como o mais característico elegemos a capacidade de compreender. É possível seguir as transformações a que foi submetido em sua história, por exemplo, Deus de Abraão, de princípio criando uma sua imagem, pura assemelhação, supostamente física (seja como isto possa compreender-se) que, nada obstante, discrepava de si em caráter, por tal não merecendo habitar o Paraíso. Assim, sendo-lhe concedida a aparência do criador, da criatura exige-se em seguida imitar-lhe também o modo de agir, isto não significando inexistir no homem o quanto idealizou em Deus, do contrário: talvez não sendo predominante, mas com certeza existente e, por conseguinte, percebida, elegemos essa parte nossa como objeto em cujo sentido evolvermos. O termos plasmado semelhantes traços num ser de abstrusa superioridade, de paradoxais presença, potência e ciência, justifique-se porventura na forçosa atitude paternal a que nos vemos coagidos no cuidado com a progênie, outra face da condição animal e, mais especialmente, da nossa, humana, que igualmente apusemos a Deus. Sem a imposição todo-poderosa, habituada como estava a humanidade a curvar-se ante o domínio pela força, provável é que a empresa evolutiva da mente como hoje a desfrutamos sequer começasse caso não absorvesse também as atribuições da paternidade.


Do viés evolucionista, por conseguinte, e em se partindo do pressuposto consagrado na filosofia de Feuerbach, o de ser a divindade produto da imaginação humana premida pelos revezes de que se via depender o indivíduo na imposição endógene de sobrevivência, as transformações por que passa a idéia recorrente de origem comum de todas as coisas parece ilustrar, além do processo evolutivo da humanidade no reconhecimento de seus próprios atributos, o papel ativo do homem na seleção daqueles quanto creu condizerem com suas aspirações de desenvolvimento pessoal. A seleção natural parece contar também, ao menos no caso humano, não exclusivamente com fatores exógenos, ou melhor, tudo parece indicar o papel decisivo do sujeito humano na escolha dos instrumentos com que responderia à exigências do meio à volta. Eis porventura uma idéia, se não ausente do darwinismo, por certo esquecida por seus cultores: o traço designado como inteligência não é só auto-referente, mas também dominante e exclusivista na evolução do homem.


Uma análise deste tipo pode outrossim levar novas luzes à tese central de Dawkins, a de o entendimento – a inteligência – ser resultante e não causa do processo evolutivo. Ora, do modo como o compreende, o ser humano o toma como traço distintivo seu, isto significando que o ato de apô-lo a coisas quaisquer – e mais especificamente aos deuses – enquadra-se como mais uma de suas iniciativas de antropomorfização do meio. Inteligente ou não, a mecânica intrínseca do universo trouxe-o de fato a configurar-se como atualmente o observamos, em toda diversidade e complexidade. E que reconheça como diversa e complexa a sua determinação de pensar, pela qual não apenas absorve as coisas ao modo de informação, mas também urde estratégias para lidar de maneira útil com elas, em suma, que o homem associe a capacidade de sua inteligência produzir com a exuberante produção testemunhada à volta, tal não significa existir no meio capacidade igual, assim como tantos outros atributos da humanidade usados para fins análogos.


E mais do que sintoma de incontido antropocentrismo (termo aqui utilizado com todo o peso que possa conter da idéia de egocentrismo), o uso humano de metáforas sacadas de sua própria condição é antes recurso pelo qual investe na decifração do desconhecido – ou do pouco conhecido – com instrumentos a si familiares, usando-os como medida geral. Desse modo a atribuição da inteligência ao universo deixa de ser uma presunção formulada sem o cabido vagar e com o fito de tão-só tornar procedentes certas ilações em torno à divindade para mostrar-se como unidade métrica pela qual pode o homem expressar e quantificar a exuberância constatada no seu entorno.


Iniciativas semelhantes se apresentaram no correr do tempo desde pelo menos a Antigüidade, como o atestam os sistemas de filosofia atribuídos a Xenófanes e Protágoras, o deste último, através da máxima que faz do homem medida do todo, como que demonstrando o pressuposto central do anterior, de ser o "noûs" princípio universal. E se erro há nisto, é do mesmo gênero do cometido com freqüência compreensível no âmbito das ciências da natureza, a que se é determinado pela imposição indutiva, pela qual somos instados, nem sempre oportunamente, a projetar os resultados obtidos no processamento das informações do passado no presente contínuo descortinando-se à nossa frente. Quase nunca o jogador, papel que assumimos por destinação, pode elaborar o suficiente o próprio lance na urgência com que se acredita premido pelo entorno a responder-lhe os desafios. Pode-se pensar: precipitação milenar essa de atribuir ao mundo ou aos deuses inteligência, poder criador. Sim, deve-se admitir. Mas qual outra maneira apresentaria a bastante eficiência em expressar essa admirável conivência de nossa capacidade abstrata de conceber e a supostamente espontânea geração na natureza? Não há, pelo menos em princípio, erro intrínseco em utilizar-se uma medida em lugar de outra na interpretação da natureza, mas sim nos fins dados ao resultado de tal operação.


Doutro lado e por fim, desnecessário fosse talvez sinalizar para um especialista em processos biológicos a íntima conivência da estrutura autônoma organizando a matéria e sua resultante inteligência humana: talvez não convenha chamar as duas pelo mesmo nome, assim como não é adequado chamar de ser humano os genes em seu interior, senão como recurso poético. E não se despreze, na empresa de compreender os meandros da decifração da natureza pelo homem, a presença do que hoje denominamos poesia, em particular quando as idéias de ciência e sagrado ainda eram uma só. Se definida, de maneira rasa, como a forma de aproximar, em discurso, o quanto no universo é tido por estar demasiado apartado, ou seja, de pôr em relação o que no mundo não parece relacionar-se ou, em suma, de criar metáforas, a poesia tem tomado para si o papel do batedor atrás do qual pode seguir a caravana da ciência no seu ritmo próprio, embora nem sempre cauteloso, como quer fazer crer a quem simplesmente a vê passar.


Rio, 02 de maio de 2008


Waldemar M. Reis


Arremate


O texto acima apareceu quando eu ainda lia o livro de Dawkins sobre Deus. Veio na forma de reação ante uma seqüência de argumentações intoleráveis, mormente quando formuladas por profissional da ciência. Refere-se, por conseguinte, à parte até então conhecida por mim do trabalho desse cientista, muitas de cujas assunções iniciais são retomadas nos capítulos finais, ganhando apenas maior nitidez, não maior poder de persuasão. Tratou-se, de minha parte, de exercício dedutivo do que seria como um todo a obra a partir do conhecimento de uma de suas seções, talvez a mais substanciosa e significativa, embora não a mais feliz. Deixei-o como o concebi e reservo para este arremate informar que Dawkins, mais adiante no livro e sem o esperado brilhantismo, trata a crença em Deus do viés evolucionista, sim, e conclui ser ela não um dos traços adaptativos, mas manifestação inconveniente de alguns deles. Argumenta com o exemplo da navegação noturna de vespas e outros insetos, que tem por guia os corpos celestes, e o poder mortal exercido pelo fogo sobre esses animais por contarem com semelhante habilidade. Num processo análogo a autoridade divina seria manifestação equívoca da inclinação da natureza humana para o respeito pelos indivíduos mais velhos em vista de sua experiência, do conhecimento que detêm: desse viés Deus é demonstrado como o são as doenças congênitas, ou seja, como desvios, nem sempre inúteis de todo, na rota adaptativa da espécie.


Rio, 20 de maio de 2008

terça-feira, janeiro 01, 2008

Nota sobre intolerância e doutrina liberal

Crença muito difundida no mundo moderno, embora já sustentada de longa data, é a de sermos todos capazes de conviver a despeito das diferenças, a despeito das divergências. Pode alegar-se, é bem verdade, que se trata antes de hipótese justificada na constatação histórica: em vista da fragilidade inerente para sobreviver no meio natural, o gênero humano vem submetendo-se a perene comunidade desde – é suposto – o seu aparecimento, embora não seja possível afirmar com conforto a permanência de um estado de paz, de bem estar, sequer em dois instantes consecutivos dessa história comunitária. Prova esta de o contato de indivíduos humanos não se ter isentado do traço da intolerância – a despeito da forçosa determinação de convívio trazida na constituição frágil da espécie – ou ser afeito a divergências inconciliáveis que, se não têm o poder de cancelar o contrato social, o tornam em contínuo suplício.

Entretanto, se tomada como se anunciou, como crença, no sentido de profissão de fé, a afirmação de ser possível convivermos não obstante divergirmos, quando posta na boca de quem esteja seguro de possuir as melhores intenções ao dizê-la, parece pressupor um estado contrário ao observado na associação humana, a saber, de paz, compreensão, enfim, de tolerância. À primeira vista parece sugerir a prática disto mesmo, da tolerância, digo, parece ensejar a constituição de indivíduos permanentemente capazes de relevar o quanto na atitude alheia lhe possa ser infenso, mas não, talvez, o seu aperfeiçoamento com vistas a não empreenderem nada a impedir o bem-estar dos demais. O bom senso nos indicaria tratar-se de ambas as sugestões. O mau treinamento na boa convivência obriga quem sofre suas conseqüências a tão-só tolerar, atitude imprescindível enquanto o uso sistemático da auto-crítica pelos ofensores não a torna desnecessária. Atingido, assim, um estágio generalizado de ações individuais selecionadas, imagina-se que os pontos de dissenso permaneceriam existindo, embora seja igualmente de supor não consistirem em fatores a cobrarem complacência acentuada.

A experiência histórica mostra-nos também isto: dentre as divergências há as intoleráveis, as quais o mundo como o conhecemos vem, via de regra, negligenciando, vem fingindo, de um lado, não praticar atos merecedores de grande tolerância – quando não de punição severa – e, de outro, não dar fé daqueles de que são vitimas – numa sorte de indiferença à imitação da estóica, embora prenhe de ressentimentos. Definindo-o de um modo apressado, o divergir constituiria oposição frontal de indivíduos a condições tidas como contrárias ao que é fundamental em suas existências. Tendo-se em conta isto, ou não há entre nós consenso quanto a quais sejam as condições adequadas e mesmo quanto a se consistem de fato em fundamento existencial do indivíduo (disto deduzindo-se a incompatibilidade geral e incontornável de cada um para com os demais), ou a capacidade humana de indulgenciar é demasiado reduzida. Talvez observem-se ambas as situações.

Excetuando-se as iniciativas pessoais, sobre as quais podem incidir escolhas religiosas, há duas tentativas seculares clássicas de equacionamento do bem-estar comunal experimentadas no correr do último par de séculos ditas, uma, liberal, outra, socialista. A contraposição dos nomes e sua aplicação aos fatos sugerem, a uma abordagem imediata, certa indiferença para com a causa coletiva no primeiro e, no segundo, incompatibilidade de gregarismo e liberdade. O modo de entender o conceito de liberdade é o referencial para o sugerido na oposição dos dois termos: se designa a obediência do sujeito a tudo quanto possa ditar-lhe o desejo a despeito do mal-estar alheio, o liberalismo vem a ser o embate perpétuo de individualidades num meio político de regras demasiado instáveis e o socialismo doutrina cuja missão é o estabelecimento de limites para a atuação pessoal com vistas ao bem geral; mas se liberdade se define como a manifestação de quem, justo por ter na mais alta conta o próprio bem-estar, entende a estreita dependência deste para com o dos seus consociados, então as diferenças entre liberais e socialistas deixam de ter sentido.

Um indivíduo livre neste último sentido é, parece-me, tudo quanto pode desejar-se de alguém, mesmo se quem o deseja toma como verdadeiro o primeiro dos significados de liberdade. Muito embora se espere de quem se crê livre desse modo – o primeiro – a firmeza bastante para transigir em face dos excessos previsíveis de outrem compartilhando do mesmo credo, a prática fornece constantemente dados demonstrando a variedade de lindes, nesses professos liberais, para a tolerância das veleidades alheias. Pelo que o liberalismo, embora ensejando pronunciar-se em prol de uma irrestrita liberdade, termina por apor-lhe condições, ainda que de contorno incerto, assim dando margens a variegadas interpretações que o tornam, em realidade, o preceito bárbaro que de maneira tão canhestra tentou aprimorar.

Ora, o liberalismo pontuado de regras de conduta termina por ser, à primeira vista, justo aquele professado por quem tem na mais alta conta o próprio bem-estar e por tanto cuida do bem alheio por conhecer o quão entremeados este e o seu estão. Mas se termina por incorrer em erros ou em burlas, é por não se constituir sobre tal premissa, a do bem comum em prol do bem individual, antes usando-a como sorte de estatuto provisório cujo fito, nada inocente, é tão-só protelar uma pré-concebida ação livre à moda libertina para quando oportuno for. Por trás da transitória regulação da liberdade, enfim, jaz ad aeternum a esperança do indivíduo de perfazer atos livres no sentido em que, no fundo, crê, ou seja, a despeito do assentimento dos que a si estão associados. Quanto à oportunidade, ela é, infalivelmente, aquela em que o ato inaceitável passará desapercebido ou em que terá de ser universalmente tolerado, sem alternativa: em suma, todo liberal autêntico, no primeiro dos sentidos apontados acima, é aquele que aguarda a circunstância em que terá poder suficiente para predominar, desse modo desfrutando os seus atos da invisibilidade ou da ostensão próprias de quem os pratica do viés dominante.

Uma das espertezas da conhecida doutrina liberal em voga nos meios políticos e econômicos desde pelo menos os confins do século XVII é anuir ao conhecido bordâo reconhecendo oportunidade para todos. Ora, pergunte-se, com razão: oportunidade de que? para que? Para ocupar – ou de ocupar – os postos exclusivos e reservados aos quantos podem gozar da própria liberdade como sói, por sob os disfarces, professar a doutrina liberal. O resultado evidente é a própria realidade na qual estamos imiscuídos, de que falávamos no início, sortida de todo tipo de desentendimento, uma vez todos – ou praticamente todos – terem por desejo maior galgar a pirâmide social ao encontro desse lugar por cujas duvidosas virtudes está-se desde berço seduzido. Quem escapa à sina de tal aspiração é decerto por ser dotado de dose maior de tolerância ou por achar conveniência no lugar, embora ordinário, que ocupa. Destes muitos há que não recusariam, caso se apresentasse graciosamente, a ocasião de ascender: são os oportunistas no sentido lasso e não seria de impressionar se um estatístico mostrasse que existem em proporção muito maior do que a suposta aqui.

Interessante é notar o quão cioso é o homem de sua escalada na descoberta de bens tecnológicos cujo fim, naturalmente, é incrementar o conforto. A despeito de vivermos num tempo de crescimento em progressão geométrica da geração de tecnologia, futurólogos teimam em supô-lo infinito, inesgotável. É de esperar, na medida em que igualmente não tem peias o desejo de bem-estar do indivíduo humano. Ao lado disso, pouco ou nada se espera, ao menos na prática, de aperfeiçoamento da própria natureza do homem, a saber, do seu caráter, de sua capacidade de melhor conviver. Do viés da doutrina liberal, pouco se espere nesse sentido: melhorar a natureza humana seria conspurcá-la, privá-la de seus anseios de liberdade ou, antes, de sua livre manifestação. Uma das pedras de toque do liberalismo, inclusive, é o atestamento e a defesa da diversidade de anseios: nem todos querem o mesmo, razão de muitos estarem satisfeitos onde estão, não necessitando atingir o topo da pirâmide social para sentirem-se plenos. De uma certa maneira têm razão os liberais: quiséramos todos as mesmas coisas e não haveria necessidade de tanta publicidade, de tanta estratégia de mercado direcionando o desejo de muitos para certas coisas. Mas a satisfação a que se referem pode, em grande medida, ser nomeada 'resignação', visto não contarem os resignados com o suficiente para sequer almejarem sair de onde estão e rumarem para um posto imediatamente acima. Se consideradas as condições reais desses lugares pode ter-se uma razoável medida do poder do instinto vital, fazendo os seus ocupantes preferirem ser como são a não serem de modo algum. E, é claro, um bom liberal não deixaria de tirar partido de escolha assim instintiva a lhe proporcionar hordas de mãos laboriosas sustentando a sua privilegiada posição.

Rio, 01 de janeiro de 2008

Waldemar Mendonça Reis

terça-feira, junho 19, 2007

Filosofia, narcisismo, ética e moral

Filosofia não é uma ciência. Jamais poderá sê-lo. Se de fato cunhado por Sócrates, em tudo parece condizer o termo com a reputação sobrante desse filósofo, cujo interesse centrou-se no que mais tarde se chamou de Ética, esta, sim, ciência das ciências. Filosofia, como o próprio nome indica, designa tão -só disposição especial do sujeito para fazer ciência. Sua idéia nasce, provavelmente, quando este se inteira de sua condição irrefreável para conhecer, atividade central de sua existência, pouco importa o que de diverso pense fazer, e a incorpora como o amante ao direcionar sua inclinação amorosa para outrem ou mesmo para ninguém em particular, mas a exerça indiscriminada e integralmente por gostar de exercê-la.

Filósofo é tão-só quem ama sua disposição inata para o conhecimento e a aplica, seja a um só, seja a muitos objetos, observando-os e entendendo-os de um ou de variados modos. Distingue-se dos demais indivíduos exatamente por esse amar, pois conhecem apenas por serem dessa maneira constituídos. Por outro lado, o filósofo não se mostra em essência diferente de outro humano qualquer: é suficiente admitir que a cada um pode caber afeiçoar-se a uma ou muitas das inúmeras características de que é constituído, podendo amar-se o próprio braço, por exemplo, pela força ou pela forma que apresenta, o próprio nariz, a boca, os olhos, as próprias mãos, os pés e mesmo o corpo por inteiro, a inteligência ou o humor descontraído, a própria honestidade e até a malícia e a vilania de que se é dotado. Embora possa concomitantemente amar uma ou mais de suas partes constitutivas, o filósofo ama sua condição cognoscitiva. Mas ama-a sem hesitação.

Ao encarar a si com tal sinceridade um filósofo percebe não passar de mais um dos acometidos de narcisismo, talvez não de um narcisismo integral, pois nem todos são como Alcibíades, cuja beleza física, entretanto, não pareceu comover Sócrates, encantado, como era, com apenas ser filósofo, mesmo porque não via em seu próprio corpo motivos para amá-lo. Mas não devemos esquecer que assim como conhecedores inatos, embora não por necessidade embevecidos com o conhecer, embora não por necessidade filósofos, somos também e em essência narcisistas, temos de amar ao menos uma, se não várias, de nossas características, ou mesmo todas elas, do contrário viver pode tornar-se experiência de todo desaconselhável. Há quem diga ser possível desprezar tudo em si e ainda assim ter vida tolerável, quiçá agradável, quando se aprecia outra coisa qualquer fora de si: nesse caso, entretanto, goza-se ou ama-se esse apreciar mesmo, o qual, sem dúvida, é parte do sujeito.

Filosofar, como se vê, não faz de ninguém um ser especial, mais ou menos louvável do que qualquer outro entre cujas predileções não está o conhecer. Entretanto o seu gozo com o conhecimento, porta aberta que é para a ciência, propicia-lhe o ensejo de tornar-se alguém distinto dos demais, um ser verdadeiramente singular. Isto ocorre quando o filósofo finalmente entende o por que do seu conhecer: conhece para agir, embora também aja para conhecer, embora em certas circunstâncias aja como se em aparência ignorasse o motivo ou a finalidade de sua ação e embora aja e sempre tenha agido, desde sua primeira ação, por ter algum conhecimento, aquele suficiente para ação assim primordial. Sua sabença está a serviço de como se comporta diante das coisas, pois é preciso considerá-las ciosamente, ou arrisca viver em desacordo com elas e mesmo desaparecer, extinguir-se.

Pelo inerente amor a si o sujeito - qualquer um - tem de saber como coordena suas ações dirigidas ao meio, tem de saber resistir a este e com tal resistência tem de igualmente preservá-lo, pois depende disto para continuar existindo. Em sua afeição pelo conhecimento o filósofo parece mais afeito do que os demais indivíduos a admitir essa interação necessária com o mundo e, claro, a cultivá-la de modo singular, buscando entendê-la cientificamente, ou seja, segundo princípios aplicáveis a uma ampla gama de situações e aceitos mediante provas, ou não lhe merecem a fé. Para tanto inteira-se da necessidade de valer-se de tudo quanto sabe, de todas as ciências que cultivou ou pode cultivar, pois encontrou a ciência por excelência, a ciência de todas as ciências: encontrou a Ética. E quando a encontra, de modo diferente de outros filósofos, cujas sabedorias se aplicam segundo princípios variáveis ou instáveis ou segundo princípios dizendo respeito tão-só ao seu amor a si próprio, o filósofo versado em Ética não pode empregar a sua senão sob os pressupostos inflexíveis dessa ciência máxima, tem de, por conseguinte, comportar-se como o sábio que é, caso contrário mostrará não passar de aprendiz, não passar de um curioso movido apenas por uma paixão qualquer.

Mas a todos, queiramos ou não, termina por interessar a Ética, sugere-me a voz que me inteirou também de sermos conhecedores e narcisistas natos. Sim, respondo-lhe, temos todos de estudar Ética, embora não do modo ou com a intensidade de um apaixonado por conhecê-la, não como o filósofo convencido de ser ela a única ciência possível, diante da qual as demais encontram justificativa, mero apêndice que são dela. Diferentemente do Ético, chamemos assim a esse filósofo, nós outros não buscamos perfeição sequer semelhante à que encontra em sua ciência. Seríamos, quando muito, versados numa espécie de sombra desta: pois se conforma em função das múltiplas superfícies sobre que é projetada, sendo variável e volátil como os acordos que propicia, incerta e sinuosa como as justificativas para as ações que enseja, quase que uma para cada sujeito. Enfim, sem amar o conhecer que nos é inerente podemos até fazer ciência, mas por imposição da própria natureza, e tal ciência congênita tenderá, também por necessidade, a algo como a Ética, a um seu arremedo, ética de amadores, não de verdadeiros amantes do conhecimento, ética possível a quem deseja exclusivamente desfrutar a vida sem saber ao certo se por mérito ou mesmo se de fato o faz: e seu nome correto é moral.

Rio, 19/06/07

Waldemar M. Reis

domingo, junho 17, 2007

Voltas ao mote do Mundo

Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões


Pobre poeta! Perdido em descaminhos indescritíveis até para sua dialética tortuosa. Foi mau, estupidez, cuidando obter o bem, inalcançável enquanto bom foi. Quiçá melhor faria em continuar passando no Mundo tormentos, do que aventurar-se nos exclusivos contentamentos dos maus. Ovelha em pele de lobo, ignorante de estar nos focinhos, por excelência, o tino de predadores tais.

Presunçoso poeta! Oh, porventura quisesse apenas passar-se por bom; até ser mau, naturalmente, pois apenas o bom corre o risco de mau tornar-se. E quem o puniu, finalmente? O mal, por sua desfaçatez de invadir-lhe o território em busca dos prazeres de quem o professa de corpo e alma, ou o bem enciumado? Ora, poeta, o seu castigo não é prova de estar o Mundo, ainda que só para si, concertado.

Que o Mundo não é como nos fazem crer, poeta, disto já me havia inteirado. Nele é bom quem do mal não tem oportunidade, cabendo-lhe assim tão-só sofrer aquele que outrem lhe faz. Estóico poeta! O mal é para peritos! Estultos sábios de antanho, cavilando do bem pedagogias, quando é para a maldade que carece adestrar-se. Fosse o contrário, não seria o bem saber inato.

Já o mal, em sendo novidade, tem de demonstrar-se, verificar-se, justificar-se! Doutro modo, não se o aprende. Preciso é torcer a bondade de que se vem ao Mundo dotado, contrariá-la com argumentos terríficos, irrefutáveis, inquebrantáveis, e depois testar-se, mostrar-se proficiente. Por isso o castigo, poeta. Foi reprovado.

É, o mal não admite fraudes. Nem indecisões. Não contemporiza: o mínimo deslize é o retorno ao chão. Uma vez erguido, no entanto, são oceano as retribuições. A começar pela posição, de mestre, para quem os discípulos, literalmente sob os seus pés, são só gratidão. Ora, poeta, não se anoje, ou mostra ter nada aprendido. Lembre do ditado: só a dor ensina. Ensina a ocasião de infligi-la para a instrução de algum coitado.

Rio, 17/16/07

Waldemar M. Reis

segunda-feira, junho 11, 2007

Livre e abreviada teoria das democracias

Como pode ser justo um sistema político no qual todos sustentam como insígnias suas mais miseráveis diferenças? A bem da verdade sequer há consenso, na prática, de sermos todos humanos, de necessitarmos basicamente das mesmas coisas ou mesmo de coisas semelhantes. Espalhados pelas manchetes de jornais, exemplos disto só nos convidam a concordar com Churchil, para quem a democracia seria o melhor dentre os piores sistemas de gestão pública.

Exageros à parte, estes não podem ser motivos para darmos as costas para o sistema democrático e partirmos em busca de um mais apropriado. E a razão é, pelo menos em princípio, inexistir outro capaz de oferecer ao indivíduo melhor perspectiva de liberdade - assim como de hábito é concebida. Se a história não mente, o ser humano praticou já todos os possíveis métodos de organização comunitária, os quais, valendo-se da lógica mais rasteira, contam-se nos dedos de uma só mão: ou governa um indivíduo, herdando ou não o cargo, ou governam alguns, que igualmente podem ou não transmitir suas funções, ou, por fim, governam-se todos.

De novo com o auxílio da lógica é possível afirmar que, desconsiderada a quantidade de governantes, é a totalidade da população que outorga a estes as atribuições que têm - não fosse assim, governar-se-ia quem? Em suma, é sempre o povo que governa. O segredo de imperadores, ditadores, presidentes, legistladore, resume-se em manter a massa em dissensão continuada, pois é na ciosa administração das desigualdades que reside o poder, assim como é ordinariamente entendido o termo. Um tirano competente jamais delibera contra porções significativas da população. Do outro lado, um povo tiranizado, prova cabal de masoquismo coletivo, nada obstante cuida de moderar os efeitos do jogo político ou perece.

O poder democrático é passível de descrever-se, segundo é comum entendê-lo hoje, como o exercido por déspotas potenciais coagidos pelas massas, enfim esclarecidas, à negociação. Figuras assim seriam versões políticas de pais benevolentes, não fosse mais forte a vocação para o domínio a transformá-los em sólidos personagens num enredo em que a população, sem o perceber, permanece manipulada. Por isso é mais fácil definir democracia como o padrão de gestão coletiva admitindo variantes ao longo das eras, nas quais os indivíduos participam mais ou menos das decisões de um governo central, tendo-lhe previamente outorgado e continuando a lhe garantir a atribuição de governar. Como se vê, não pode haver motivo para dar-se as costas à democracia em favor de outro sistema, visto não existir a alternativa: melhor do que uma dada democracia só mesmo outra melhor - ou não tão ruim, se quisermos aderir à ironia de Churchill.

A quem está convencido, chegando neste ponto do ensaio, tratar-se tudo de puro non-sense, fica a sugestão de analisar, ainda que de maneira superficial, a evolução (no sentido de malabarismos, acrobacias - segundo sugestão de Antonio Caetano) das democracias no correr do último século. Em todas é visível a cuidadosa cisão das massas jogadas, assim partidas, umas contra as outras; e mesmo em momentos de maior participação coletiva prevalece ainda a separação em blocos, dos quais sobressaem líderes cuja função mais significativa é a de manter aquela facção centrada no quanto a distingue das demais, forma esta de perpetuarem suas respectivas influências e, tendo na retaguarda contingentes consideráveis de indivíduos, obter determinados privilégios, sempre mais pródigos para si do que para suas bases. Finda a análise, o bom observador terá concebido espécie de imagem tingida de uma única cor em vários matizes e jamais esquecerá de que oligarquias, despotismos e mesmo realezas são partes mais ou menos ativas, mais ou menos fortes, da democracia como até hoje a conhecemos. Tudo, como não poderia deixar de ser, de conluio com a patuléia.

A associação de idéias como a de perfeição democrática com educação não é casual. A despeito do grau de conhecimento de distintos membros de uma sociedade, esta se move numa massa de informação cujo nome é senso comum. Tanto mais o senso comum de uma população se aproxima dos níveis de conhecimento ditos de excelência, maior tende a ser a liberdade de cada indivíduo, ou seja, maior tende a ser sua auto-suficiência. Nada mais natural: senso comum é o repositório do saber de uma comunidade, é onde se preservam os meios de esta lidar com seu entorno visando a sobrevivência. E toda política, sendo, como é, arte de administrar ou manipular as massas, tem de lidar, evidentemente, com esse conhecimento rigorosamente acessível a todos, ou não sucede.

Mas a educação em quaisquer das modalidades de democracia conhecidas tem de, para manter-se coerente com o princípio de dominação, exercer-se num determinado âmbito, fora do qual torna-se atividade subversiva. Ensinar-se-á, assim, a conservação das instituições políticas vigentes, jamais seu real aperfeiçoamento. Uma mancheia de educadores de aluguel terá torcido os narizes para tais afirmações presumindo que educam para a liberdade, para a livre-iniciativa, portanto, para prover o mundo de gerações cada vez mais aptas a corrigir os desvios do poder público. E de fato é improvável encontrarem-se dois momentos consecutivos quaisquer em que não tenha havido alguma reforma, algum aperfeiçoamento, a despeito de persistirem falhas incontáveis e, o pior, descontentamento quase universal: mudar é revolver, sendo também condição inescapável das coisas no mundo.Assim, prescrevem as gestões públicas: se é imperativo mudar, que se o faça então em pequenos bocados, sutis revoluções que não desandem a ordem coletiva. Formam-se, portanto, pela educação consensualmente tolerada, pequenos revolucionários, indivíduos capacitados a manter ao máximo as condições próximo de certo estado admitido como ideal para a conjuntura vigente. A única razão a conservar de pé as democracias como as conhecemos, por quase perfeitas que sejam, parece ser a esperança em cada um de nós de um dia passarmos pelo funil conduzindo a sucessão de privilégios, à imitação dos poucos que nos últimos decênios o fizemos: e tal em nome da renovação, das pequenas e controladas revoluções em cujos finais é possível constatarmos a presença de grupo de atores diferente do anterior, mas desfrutando de privilégios idênticos. Por isto são raros os grandes revolucionários, mesmo aqueles praticantes e pregadores da paz, que em tese não o fereceriam qualquer incômodo, mas talvez que por isso mesmo sejam caçados e suprimidos.

Por força da intuição, entretanto, sabemos todos como de fato tem de ser a melhor democracia: cada qual conhecendo exatamente o que de melhor fazer e, o principal, sem prejuízo de ninguém (uma coisa, na verdade, acarreta a outra, mas não custa reiterar). Em vista de como estimamos nosso caráter mediano, tal intuição define comunidade de sábios, seres imagináveis e mesmo reconhecíveis, mas a quem é impossível imitar, segundo se crê em consenso. Na raiz de tão insensata crença, entretanto, reside equívoco secular, pelo qual a figura do sábio metamorfoseou-se naquela do indivíduo provido de grande quantidade de informação tornando-o apto a manipular ou dominar o meio ao redor, a natureza, nela incluídos seus semelhantes. Antes, por milênios, o sábio foi, ao contrário, aquele capaz de manipular ou dominar a si mesmo, sua natureza pessoal. Uma democracia no limite da perfeição só pode ser praticada, evidentemente, por sábios à moda antiga. Essas democracias 'quase perfeitas' - e, ainda assim, tão insatisfeitas - hoje circundando-nos ou circundadas pelas nossas (a meio-caminho da perfeição das primeiras), têm-se mostrado como exemplos de gestão pública abundando em sábios à maneira moderna, sábios entre cujas especialidades está a acurada manipulação de seus semelhantes, sejam estes sagazes ou não. Suas ações estendem-se, não raro, a populações estrangeiras, pelo que não demonstram serem deveras auto-suficientes tais sábios à moda recente, sempre necessitando do esforço alheio provendo-lhes do que viver.

A educação capacitadora de cidadãos em verdadeira liberdade constitui-se de princípios de Ética antes de princípios das demais ciências, dois gêneros de princípios que, por sinal, não discrepam, embora sem os do primeiro tipo os do último tendam a desgovernar-se em presunção. Com os princípios éticos é possível chegar-se a uma ciência limpa, capaz de extrair do entorno apenas o suficiente e sem o concurso de massa de indivíduos manipulada para atender aos fins de outros, menos numerosos. A democracia perfeita, constituída por homens sábios é, por fim, alcançável sem transtorno maior do que uma inflexível boa vontade e já possui mesmo um nome, sendo definida como o federalismo tendo por limite apenas o indivíduo, sua unidade menor: Anarquismo. Assim se intitula o pacto no qual o homem professa entender que sua liberdade existe em função da fraternidade e, principalmente, da igualdade, conceitos enfim alçados da condição de meras promessas e mantendo distância segura das definições que lhes atribui a sabedoria de tipo moderno. Em tal pacto a convicção das partes não oblitera a noção do todo, as dificuldades são resolvidas topicamente - pois singulares são as condições de cada ponto do planeta - e nacionalidade será apenas designação geográfica. O acúmulo de riquezas, em vista do custo do futuro, só terá sentido se administrado pela totalidade dos indivíduos e é possível ser-se, quando assim se o desejar ou preciso for, engenheiro, operário, médico, lixeiro, músico, lavrador etc, embora jamais presidente, general, polícia, juíz, pois o pecado não se faz mais perceber tanto a norte quanto a sul do equador. Entretanto são todos - questão de ordem - legisladores, investigadores insaciáveis de regras segundo a ocasião, mas orientadas por par de princípios que, a bem dizer, são conhecidos de nascença: produzir o melhor (sem prejuízo de ninguém - não custa insistir). Fora essa, temos mesmo de contentar-nos com estar em alguma das melhores dentre as piores democracias.

Em 11 de junho de 2007

Waldemar M. Reis

terça-feira, maio 15, 2007

Fides et Ratzinger

A meu pai, em seus oitenta anos, no décimo quarto ano de ausência de minha mãe.

No princípio, era a confiança. Apenas confiança, mas num sentido do qual você e eu não guardamos mais do que uma noção descorada, confiança em sentido absoluto. Hoje é sentimento atribuído aos parvos, indivíduos dotados da coragem, a eles conferida pela ingenuidade, para confiar cegamente, confiar simplesmente, a priori, quiçá sem garantias. Confiança assim só se deposita, é natural cogitarmos, em quem de certo a malversará jamais. E de espantar é que tenha havido quem a merecesse ou que tenha alguém acreditado em sua existência.

Mas, conta-se, teria de fato existido tal sentimento. E veio ele à tona, diz a história, quando um homem e seu clã deixaram para trás o lugar onde nasceram em busca de uma promessa. Foi por nela confiarem que seguiram caminho e de passagem testemunharam a destruição de cidades sem sequer um olhar, a transformação de um dos seus em estátua de sal, entre outras mostras impressionantes do preço de não confiar.

Muitas são as provas por eles deixadas do quão firme foi sua confiança. Jamais esqueceremos da saga do pai conduzindo o filho à imolação depois de abandonar às portas do deserto um outro, o primogênito, com a mãe, sua antiga concubina, designada por seu Deus para lhe dar a descendência negada pela constituição física de sua esposa e meio-irmã, a quem por duas vezes vendeu em troca da própria vida e por duas vezes restituiu em meio a riquezas incalculáveis. Fraqueza, diriam os incautos, diriam os incréus leitores de sua sina; loucura, completariam. Mas o fariam por não mais confiarem, não no sentido daquela confiança de quem estava seguro de não haver lugar senão para o bem, para o bom, neste mundo de desígnios imponderáveis. Foi suficiente tolerar o peso do revés para que o ventre vetusto da esposa inesperadamente concebesse, para que o filho por dever renegado se tornasse patriarca do povo do deserto, para que um anjo viesse conter o braço antes do golpe do punhal.

Como se não bastassem essas e outras mostras desse confiar (não esqueçamos daquele pai cuja firmeza não se abalou com o decesso de toda a família, a penúria extrema e a temporada no estômago de um cetáceo), como se fossem insuficientes para o entendermos, séculos adiante, ou melhor, livros à frente, a história nos dá um pregador de cujo delírio brota a ambígua noção que doravante orientará a razão, mas também a desrazão, do homem. Em nome dela, fé (como passou a chamar-se a confiança), segundo a definiu Paulo, apóstolo tardio dum Cristo já ressurgido, milhares, quiçá milhões, pereceram sob a acusação de não a possuírem, de não a exercerem: eis um dos mais bem acabados exemplos da demência. Pois como é possível sequer suspeitar de haver quem seja destituído de fé? Como é possível conceber vida sem fé? A estas interrogações entregaram-se os espíritos verdadeiramente lúcidos, embora não dessem com outro meio para evitar os inúteis suplícios senão oferecendo às prováveis vítimas, os supostos destituídos de fé, o objeto sobre que depositarem a que sempre tiveram e que de fato existia, embora não a percebesse o clericalismo irracional, decerto por tratar-se de fé em estado bruto, aliás, como a quis Paulo mesmo, a saber, a espera do que não se pode ver.

Cristo, imagino, dar-se-ia por contente se seus seguidores apenas se inteirassem da fé que sempre possuíram e que sempre possuiriam em sendo viventes, tomando cada qual, em seguida, caminho próprio. Creio, entretanto, ter em mente o Cristo ideal quando assim o digo, o Cristo coerente com a pregação que lhe atribuíram. Não sei se para o mesmo fim posso invocar o Cristo histórico, personagem dia a dia emergindo da pertinácia ou da fantasia de arqueólogos e historiadores, cuja suposta vaidade teria levado ao paroxismo, no breve intervalo em que viveu, a corrompida sociedade desse tempo e cuja recompensa foi inserir-se na história, a passada, com a qual fez coincidir cada um dos seus passos desde que adentrou Jerusalém em lombo de jumento até a crucifixão, e a futura, a habilidade de cujos escribas o tornou em lenda.

Por que se daria por satisfeito o Cristo ideal com a contrita diáspora de seu rebanho? Por ser um visionário, como o confirma em boa medida o Cristo histórico assim como o esboçam. O Cristo coerente estaria lasso das invectivas dos poderosos sobre o comum acusando-o de desligado, sua meta seria a de livrá-lo de uma vez por todas desse tribunal insano. Mas desligado de quê estaria o comum? Ora, de sua natureza primeira, de sua essência imaterial, de sua origem na divindade. Não é outra a premissa religiosa, de seja qual for a religião. Mesmo a etimologia do termo, em sua ambigüidade, pende ao fim para delineá-lo como o esforço de fazer tornar o indivíduo ao essencial, em suma, de reatar seus laços com o que não percebem os sentidos nem alcança a razão. Como se possível nos fosse escapar ao incognoscível e ao paradoxo enquanto vivos e conscientes! É verdade: a empresa religiosa padece cronicamente da presunção de estarmos tecnicamente apartados de nossa origem, a despeito de atribuir-lhe poder, conhecimento e presença absolutos. Em sua opinião teria Deus criado o universo e o povoado de criaturas capazes de eventualmente apartarem-se disto que criou, não obstante tudo, absolutamente tudo, seja criação Sua. Em suma, é simples a dedução: para onde quer que tais supostos fugitivos pensem rumar, permanecerão sempre confinados à Sua obra. Enfim, os pressupostos religiosos jamais justificaram ou justificarão as conclusões que deles se retiram e muito menos os atos determinados pelo que se concluiu.

 Até onde alcanço, só vislumbro uma causa única para a profissão religiosa: o vício da dominação. E melhor viceja sua semente onde antes adubou a ignorância aterrada com o fado dos viventes. Pois o mundo é útero e túmulo, berço e esquife, palco e cadafalso, saciedade e penúria, de que, mais dia, menos dia, vamo-nos dando conta. Mas se vem à luz com uma imcumbência, uma só, contrariadora da metade - a metade indesejada - disto que o mundo é, a incumbência de cá permanecer o quanto possível for. E, não importa o tanto que se perdure, não há quem ou o que cumpra por inteiro a tarefa nem quem ou o que dela deixe dívida: todos o sabemos, intuitivamente; sem qualquer pressa a vida no-lo ensina. Tememos tudo cujos efeitos desconhecemos ou não logramos mensurar, dos eventos da natureza aos pensamentos de terror que estes nos infundem, frente aos quais só duas atitudes se mostram possíveis: a obstinação perquiridora, naturalmente decorrente da incumbência - ou, melhor dizendo, da imposição - de perdurar, e a submissão incontornável aos fatos, cuja continuidade termina por extinguir-nos. A vida é a temporada durante a qual oscilamos entre uma e outra posições e talvez sua duração se relacione diretamente com a eqüidade com que nos mantemos mais na primeira, visto ter a outra a função de mera pausa antes do impulso pelo qual penetramos mais e mais no conhecimento das coisas. E é nesses momentos de dúvida, quando por qualquer motivo se enfraquece a confiança que temos de ter no que somos capazes de saber, é em tais hiatos - por vezes mais duradouros do que desejávamos - que as admoestações religiosas se vêm imiscuir.

Suas ofertas não são de todo despreziveis: convencendo-nos de estarmos desgarrados, acenam a seguir com a reentrada no mundo verdadeiro, segundo o concebem, para tal ofertando-nos o conhecimento total e instantâneo da realidade. Abstenho-me de julgar o teor ou o valor desse conhecimento, pois tal só se mede tendo em vista um sujeito e o quanto isto lhe tem serventia. E de hábito não é raro topar-se com 'religados' cuja vida sucede à sua satisfação, prova esta porventura considerável do valor do que conhecem. Arrisco-me inclusive a reputar tal conhecimento, em essência, o melhor, o único mesmo. Mas recuso conceder-lhe o acabamento às pressas arranjado pelos doutores das religiões para torná-lo palatável ao indivíduo em dúvida profunda, convencido de estar de parte da Criação. Prefiro restringir-me à letra da palavra de Paulo em Hebreus (11:1), para quem a fé é a forma da esperança e a prova do invisível, descartando os objetos que a tradição a ela apôs à guisa de isca para os destituídos de paciência e imaginação. Pois o objeto da fé, da fé que é apanágio de todo vivente e não apenas dos devotos desta ou daquela religião, não se constitui senão na espera que o desvela infinitamente em sua infinita perfeição. Bem aventurados os que não se apressam em pôr no seu lugar qualquer coisa que, no incessante desvelamento, dá à fé a impressão de ser como uma árvore, o trovão, o mar ou as divindades. Pois ela é tudo isto e muito mais, é qualquer coisa, é todas as coisas. Mas só o é por haver quem - por haver um sujeito - a exercê-la, sem o qual é nada.

A fé é a prova de estarmos, desde sempre e enquanto durarmos, ligados com as coisas, ligados nas coisas. É desejo, vontade, indução; é o passo que darei a seguir sem qualquer garantia, mas com a certeza plena de que o darei. Em sua audácia a fé tem mesmo um objeto último, extremo, mas do qual possuímos, quando muito, um nome, Deus, e uns poucos atributos óbvios, embora paradoxais. E de pouco nos servem tais elementos: por certo de estímulos para o exercício mais vigoroso, mais entusiástico, da continuada e imperiosa fé; jamais como justificativas para o antagonismo que o arrebanhamento de homens em torno a cleros distintos costuma suscitar, menos ainda para promover a servidão. A fé nos constitui igualmente, pelo que somos livres e fraternos. É o que viemos descobrindo, ao passar das eras, a despeito da massa ainda orientando sua fé para os objetos impostos por conventículos cujo fito não é outro senão mantê-la submissa. A passos módicos, nada obstante, evolvemos, e prova-o o modo como findamos por designar tal objeto maior possível à fé, objeto indivisável por inteiro, mas perpetuamente descortinando-se aos nossos sentidos, mesmo os mais recônditos: Deus, atributo de gênero antes que nome de espécime.

O Cristo ideal, dizia, satisfar-se-ia com entendermos apenas isto: é impossível 'desligar-nos', não havendo necessidade, por conseguinte, de religamento; só se desligam os decedidos, pois em seus corpos não mais habita a fé, isto que nos mantém aderidos ao mundo; por conseguinte, somos feitos de fé, por cujo intermédio tudo é possível conceber, nada excedendo, embora, a idéia de Deus, cuja propriedade é a de constituir-se enquanto fé houver, enquanto vivo se for. E uma vez aprendida lição assim singela, que tome cada um o seu caminho no mundo, tratando de mantê-la, transmitindo-a às gerações vindouras, de modo que em pouco sejam esquecidos todos quanto fizeram e ainda fazem da fé instrumento de servidão.

Rio, 15 de maio de 2007

Waldemar Reis

quinta-feira, novembro 02, 2006

Discurso liberal

a um amigo

Ora, meu amigo, é uma maravilha esse mundo liberal! Como indica o próprio nome, é tudo quanto pode alguém desejar: liberdade, direito inalienável com que nascemos e pelo qual nos é permitido fazer o que desejamos de nossas existências, até mesmo errar, se assim for necessário ou acaso apenas assim o queiramos. Pois só se é livre quando é possível escolher, inclusive o pior. Sem ser isso da conta de ninguém.

Ou você preferiria o mundo onde alguém lhe dissesse o que fazer, o mundo sem escolha, pronto e acabado a despeito dos seus anseios particulares? Sendo esse o seu desejo, é bom se apressar: não há mais tantos lugares onde tais experiências são feitas e em breve nenhum restará. Mas não vá, depois, reclamar, pois isso é malvisto por essas bandas, se não impossível. Nem me venha dizer que eu não avisei.

Um dos pontos notáveis do liberalismo diz respeito diretamente ao significado mesmo do termo. É-se livre para dar-lhe aquele que se acredita ser o mais cabivel. São possíveis tantas idéias liberais quanto houver de indivíduos a concebê-las, havendo para tal, em aparência, somente o limite da interdição ao aparecimento de novas: em vista dessas premissas, a única proibição tolerável por um espírito francamente liberal só pode ser a de proibir, ao menos e em particular a concepção do que seja a liberdade. Semelhante panorama, como é previsível, se apresenta como a convivência, nem sempre pacífica, tampouco inteligível para a maioria de nós, de idéias em franca oposição, em aberto conflito. E ao liberal autêntico, é natural, não inquieta semelhante composição. Do contrário, nada mais livre do que a profusão, ainda que conflituosa, de convicções.

Dado o fato de tais juízos dizerem respeito, por necessidade, ao modo idiossincrático de cada indivíduo entender e lidar com a realidade, é de esperar o recurso freqüente às vias de fato na dirimição das divergências. É claro, há regras moderando o uso de tal solução, havendo também um sem número de objeções e de reparos às mesmas, propostos com o fito de conservar o equilíbrio ideal de duas forças contrárias (pois no liberalismo, reiteremos, é-se livre para virtualmente tudo que não cerceie seu princípio seminal, o da liberdade), redundando todos no favor incontornável a uma delas. Eis, ouso afirmar, um dos problemas genuínos enfrentados na experiência liberal do cotidiano.

Correntes mais realistas do liberalismo, entre cujos bordões está o uso da silenciosa ironia num dos cantos dos lábios constantemente dirigida aos liberais afeitos ao idealismo, costumam justificar essa insubmissão das regras a todo esforço corretivo como a emergência da lei natural do mais forte, contra a qual é impossível insurgir-se sem pôr em risco a continuidade do princípio liberal. O indivíduo, evidentemente, é livre para manifestar-se como é, e se a posse de maior força é sua condição originária, nada poderá coibi-la sem o fazer de enfiada com sua própria liberdade. É de esperar que num ambiente de liberdade semelhantes situações sejam contornadas de maneiras igualmente livres, mas uma dessas contingências - talvez só explicáveis nas leis da físicas contemplando o comportamento imprevisível de partículas dispondo-se segundo padrões simples e determinados a despeito de se moverem aleatoriamente - tem produzido a adesão em massa, se não total, dos adeptos do liberalismo à convicção de haver também um equilíbrio intrínseco a essa lei natural do mais forte provendo cada indivíduo de força particular cujo emprego adequado pode levá-lo a superar a de outro semelhante. Assim convencidos, professam ou demonstram o livre direito de cada um ocupar, segundo o uso conveniente das próprias capacidades, as posições mais elevadas - as mais cobiçadas por praticamente todos - na estrutura da sociedade liberal.

Só mesmo um tolo, é óbvio, escolheria viver num sistema não liberal, seja ele qual for (pois não há, para algumas correntes do liberalismo, senão ele mesmo em oposição a uma profusão de versões inconsistentes do seu contrário, o não liberalismo). Onde mais, senão cá, seria possível prevalecer sobre os iguais, ainda que por período incerto? Onde mais se toleraria a submissão senão onde existe a perspectiva de, algum dia e a depender da própria habilidade, submeter também? Há quem prevaleça por lustros consecutivos e mesmo quem o faça por décadas ou séculos e, nada obstante contestados e até combatidos, gozem do merecido respeito dos seus contendores, garantido no princípio liberal. Tornam-se história, exemplo, esperança para gerações de submissos no aguardo de suas horas ditosas de preeminência. São, tais ícones, prova definitiva da liberdade de meios usados para atingir os seus objetivos. Para comprová-lo é suficiente consultar suas biografias, cuja reunião, aliás, é o objeto central da ciência histórica.

No cerne do pensamento liberal, é consabido, está a noção de erro. Ali o erro é apresentado como o direito maior ao qual fazemos todos jus. Em particular pela compreensão de que a todo erro cometido num certo âmbito corresponde um acerto noutro. Imperdoáveis, entretanto, são os erros do indivíduo cometidos consigo próprio, tidos como manifestação de incontornável fraqueza e merecendo, quando menos, o escárnio universal. Os demais, todos decorrentes da passividade, são inteiramente compreensíveis, tanto que para designá-los adota-se o eufemismo 'engano', pois os cometeram quem procedeu com acerto para si, induzindo os restantes aos equívocos ditos perdoáveis. Sem errar tornar-nos-íamos inertes, seres desprovidos de qualquer desejo de movimento, fadados à sucumbência, se não pela depressão, decerto pelo suicídio. Motivados pelo temor de semelhante marasmo, há mesmo quem admita o perdão para os erros imperdoáveis como alternativa para evitá-lo. Mas os autênticos pensadores liberais, convencidos do império incontornável da liberdade (pelo que nem mesmo preocupam-se com criar-lhe dispositivos protetores), não reservam para estes desesperados senão o mesmo sarcasmo de canto de boca lançado ao liberalismo idealista.

A seguir à risca o pensamento desses genuínos liberalistas chega-se à conclusão inelutável de que a consideração de outro princípio fundamental da ética que não o da liberdade, como o da igualdade, por exemplo (precipitadamente associado a ele no fervor renitente de revoluções), é apanágio dos desprovidos da força, da astúcia ou do poder bastantes para alguma vez acharem-se no ponto mais alto na roda de fortúnio, confinando-se indefinidamente à parte submersa dela mesma. É o caso de quem não logra escapar de moto próprio ao erro alheio recaindo sobre si ou de quem erra contra a própria pele. Só estes, segundo essa filosofia, são capazes de imaginar, como o faz quem tem sede no deserto, modelos perfeitos de eqüidade com os quais iludem-se em massa, configurando em seu delírio ameaça suficiente para aqueles cujos poder e habilidades para conservá-lo são congênitos. Tendo conseguido mudar de posição em esforço coletivo, dominando quem antes os submetia, percebem-se, esses fracos, quase de imediato regidos - ainda e de fato - pelo princípio liberal, reconhecendo como secundários aqueles outros princípios que os guiaram a prevalecerem, passando de imediato a proceder como é de esperar e, caso não hajam aprendido de sua experiência de ascenção a perspicácia para manterem-se onde estão, descambam de volta nos submundos donde a custo se ergueram. Em vista dos fatos, para o liberalismo realista a conclusão óbvia é a de não haver pensamento outro a refutá-lo nem iniciativa alguma a destituí-lo.

Rio, 02/11/2006

Waldemar Reis

segunda-feira, setembro 18, 2006

Melancolia

A idéia de depressão traz a mim a lembrança de uma charge, se não me engano, do Sempé, monumentalmente estampada em duas páginas de um número dedicado à literatura latino-americana da antiga revista Status. No traço descuidado e sujo típico da caricatura do século XX, mas nem por isso feio ou ininteligível como o foram muitos da sua espécie, divisavam-se, do alto, blblioteca ocupando todas as paredes de um enorme salão obscurecido e, quase perdidos na imensidade da detalhada garatuja, duas personagens assentadas sobre poltronas fartas. Apenas uma delas fala e discorre sobre os seus motivos para evadir-se da depressão, a frivolidade dos quais a deprime.

Sou de opinião que o deprimido só tem mesmo solução para o seu mal na folia - com o perdão pelo galicismo, mas ele ilustra suficientemente bem uma face do comportamento que a moderna psiquiatria diagnostica como doença bipolar. Nos termos de Sempé, dir-se-ia que o doente adere aos motivos inconvicentes ou permanece melancólico, pois não os há de outro tipo. E tal adesão só se verifica quando o sofrente o faz com todo o seu ser, digo, de modo frenético, estado cuja duração é medida na razão direta de sua resistência física: se o sujeito tem sorte, há falência orgânica; se não, um repouso temporário é o prelúdio para, caso encontre motivo, retomar o desvario ou, no caso contrário, intoxicar-se outra vez com a bile negra. Afora essa, à inteira disposição de espíritos menos exigentes ou mais necessitados, há soluções mais demoradas, da ordem das terapias propriamente ditas, e que requerem, se não maiores refinamentos, por certo boa dose de determinação.

Tenho alguma experiência no assunto, claro, como padecente e, de quando em vez, como leitor de doutas opiniões na matéria. Conheço a envolvente gravidade das razões depressivas, bem como a trivialidade exasperante das que as combatem (assim vistas do viés de quem se deixou convencer pelas anteriores). É efetivamente impossível escapar ao assédio das primeiras quando se sobrevive um pouco ao corte do cordão umbilical (não estou sendo hiperbólico, visto o corpo recém-nascido, a descoberto dos cuidados automáticos do organismo materno, já ser provido do arcabouço sensorial na raiz do fato depressivo, pelo qual tem de, doravante, chorar quando tem fome ou frio, ao menos). Entretanto, talvez em virtude do período de formação do indivíduo, ao longo do qual constitui e consolida essa parte sua mais afeita aos motivos depressores, falo da razão, só quando adulto virá discernir dos demais sabores à sua disposição o amargor característico desse mal, dar-lhe-á um nome e perceberá que sua saída está em abrir mão disso que lhe concedeu a maturação, em retornando a um estado mais próximo do inicial, grandemente desconfortável quando se está em contato com quem não reconhece ou aprova essa via terapêutica. Há quem, como eu, encontre modos aceitáveis do viés da sociedade de alternar a inexorabilidade da tristeza com uma atividade física radical, no caso, um esporte, mas há quem encontre solução em exasperar-se com os entes queridos até as vias de fato ou com os opositores numa tribuna e quem consuma drogas ou se exaura em sexo para não se entregar ao fim decerto o mais lamentável reservado a um vivente.

Além do padecimento de intermitentes depressões, minha experiência na área tem sido larga como testemunha de crises alheias. Uma destas arrastou-se por anos, cerca de doze, mas eu a assistia demasiado próximo para só lhe extrair os ensinamentos mais de década depois. Tratou-se de um construto cuidadoso, muito bem justificado (pois era indivíduo de enorme inteligência quem o fez) e cuja raiz se alimentava do truísmo que, não obstante de presença insidiosa em todos os instantes da vida, só à razão maturada caberá defini-lo assim: há sentido, sim, pois correm as coisas umas com as outras, umas após as outras, em diversos encadeamentos, sendo impensável negá-lo; mas não há finalidade, justo em virtude desse mesmo encadear-se de coisas, ou seria preciso estabelecer aí um ponto terminal (algo que, diga-se en passant, é preciso tanto coragem quanto desespero bastantes para fazer!). Em suma, nesta, cruamente demorada, tanto quanto nas demais depressões, passageiras ou não, a que assisti, reduziam-se os sintomas à simples formulação do efêmero. Em aparência noção excessivamente geral para dar conta da diversidade de melancolias, é suficiente considerar-se o que lhes serve de estopim, os aliciantes motivos no cerne dos quais esconde-se ao menos um 'não': 'não é possível', 'é inviável', 'não consigo', 'não deu'...

A depressão ataca fundo a segunda das virtudes teologais, a esperança, a qual não passa do modo de a primeira, a fé, manifestar-se. Em meu entender, fé é instinto sem o qual a idéia de vida não se consuma: estar vivo é o mesmo que ter fé, que é o dar o passo sem a certeza de sê-lo possível ou o continuar por continuar, por ser assim que se foi feito, para a continuidade. Já a esperança é a presunção de que o passo a ser dado possa ter finalidade outra que não o dar o passo mesmo: a esperança é como a cenoura pendurada à frente do burro por quem o monta. Pois bem, e o deprimido é aquela montaria que entende ser impossível morder a isca, aliás, já nem a considera como tal, mas como a fonte de seu tormento: e então empaca. Justo aqui melancólico e eufórico se separam, digo, é precisamente no modo de agir diante da cenoura que o eufórico pode desfrutar da graça efêmera da folia: basta acreditar - ou mesmo fingi-lo de si para si - que, sim, é possível alcançá-la, pois, ora, é de fato mais agradável essa crença do que a contrária. E, como que por milagre, assim pensando o nosso burrico é capaz de fazer-se em alazão, embora com tal arroubo arrisque surpreender seu montador, derrubando-o e à cenoura, a qual poderá, finalmente, ser degustada, mas ao custo da decisão previsível do dono de não usar tão cedo da artimanha, pelo que ao burrinho folião as cenouras parecerão mais apetitosas quando eternamente diante dos olhos do que eventualmente dentro do estômago.

O deprimido obstinado tem uma de duas sentenças: aguardar que nada em si ouse o passo seguinte, o último dos quais será dado pelo coração, ou estabelecer uma data para sair de cena (conheci alguém que elaborou o enredo exato para convencer a enfermeira a levá-la ao terraço do prédio, donde se lançou). A última alternativa, é bem verdade, um deprimido convicto das razões de o ser a rechaça com a alegação de que nela encontrou-se ao menos uma esperança e se a fisgou como fez o burro com a cenoura, com a vantagem de essa estar envenenada, poupando-o da futura decepção pela ausência provável de mais iscas. Mas o deprimido convicto também não escapa às próprias críticas, pois no fundo espera que, morta a esperança, morra-lhe de imediato a fé (sim, não é a esperança, mas a fé a última a morrer, visto que o sistema basal parece insistir em seu trabalho meramente orgânico quando à consciência faltam objetos que esperar). Ao soi disant deprimido autêntico (como o da charge do Sempé), no entanto, não se pode imputar a infidelidade aos princípios, reconhecidamente universais, de sua depressão.

Tal acusação se aplica do mesmo modo aos que escolhem a euforia: são rigorosamente fiéis aos motivos que os agitam, motivos esses, reitere-se, idênticos àqueles do melancólico e tão prosaicos como uma cenoura. Está livre de erro, portanto, a ciência médica ao vê-los como faces de uma mesma moeda compulsivamente lançada ao ar. E sustentarem-se como tais, eufóricos e deprimidos, é questão da resistência orgânica de cada qual, devendo o estado de um ser substituído pelo estado oposto enquanto o corpo o permitir. Há, não obstante, um modo de evadirem-se desse jogo, existindo quem o faça como que por natureza, embora o comum seja topar com quem o conseguiu em longo e continuado esforço. Trata-se de estado intermédio, não estático, tampouco eqüidistante de tristeza e folia por isso mesmo: quem nele se encontra não se torna imune a uma ou à outra, sendo capaz de experimentá-las alternadamente como qualquer indivíduo, mas com o privilégio de não se ver enredado por nenhuma. Chamam-no de indiferença, frieza e insensibilidade, havendo também quem escolha formas menos parciais de nomeá-las, como beatitude, ataraxia, nirvana e satori, e quem aprecie as designações oriundas da clínica psicoterápica, dizendo que se está em alta, que se tem o passe, ou da clínica psiquiátrica, onde o alcunham de dopagem. À exceção dos pacientes psiquiátricos, aos quais em sã consciência não se pode atribuir a experiência de alguma emoção, aqueles cujas imunidades à bipolaridade foram conseguidas por esforço próprio experimentam uma dificuldade singular: a de conservarem-se como estão, pois permanecem à mercê das forças que tangem para lá e para cá deprimidos e eufóricos, sendo por elas testados sem pausa, a ponto de terem de habituar-se a viver em dúvida quanto a terem ou não conseguido o que pretendiam, considerada melhor do que a certeza, que lhes acarretaria presunção ou frustração e os conduziria de volta à roda de excitação e infortúnio.

As fórmulas para aí se chegar são variadas, havendo particular predileção pelo divã psicoterápico e pelas práticas originadas em culturas asiáticas, entre as quais a meditação, sem falar nas farmacopaicas, legais ou não. O espírito cristão, por outro lado, desperdiça hoje, resultado da ignorância apondo toda sorte de estapafurdice à singeleza da doutrina original, as propriedades balsâmicas da caridade, terceira das virtudes teologais, indo buscar na compaixão budista sucedâneo eventual, com a desvantagem de esta não se encontrar tão imiscuída nos códigos de sua cultura quanto a outra. Pondo outra vez de lado as conotações de teor místico ou religioso, parece-me evidente que, assim como a esperança é a fé provida de objeto, a caridade vem a designar o objeto mesmo a nutrir (a dar corpo a) a esperança. Entendido como apenas outro nome para esmola, o termo caridade tem servido a cada dia menos como auxílio para se atingir a beatitude, o estado para além de bem e mal. Observando-se, entretanto, alguns dos seus significados anteriores, encontra-se ali a idéia de 'caro', designando tanto preço alto quanto afeto, sendo a dádiva, em particular a monetária, um modo relativamente eficiente de o indivíduo demonstrar, na esfera social, o presumido cultivo desses dois valores.

Nisso, acredito, reside o maior entrave do sujeito à solução de sua durável condição bipolar, visto parecer o mesmo para o seu semelhante que ele de fato a tenha superado ou que apenas o aparente. O recurso às drogas legais recende um pouco a essa idiossincrasia social, restaurando a tranqüilidade do meio - o grupo - e do indivíduo enfermo, embora sem qualquer controle deste sobre seu novo estado e a um preço ainda desconhecido em termos orgânicos. (Essa observação ajuda a entender o porque de a religião ter sido refinada como sorte de opiáceo popular.) A considerar a tendência orientando toda iniciativa em nosso já bem sedimentado hedonismo tecnológico, por meio do qual o homem não mais necessitará demover de moto próprio qualquer obstáculo de seu caminho, é provável que em breve tenhamos de receber a primeira geração de seres geneticamente planejados sem propensão alguma à melancolia. E parece natural que os queira também imortais, como se demonstrasse a ciência, por intermédio de seus admiráveis artefatos, a ingênua crença de o nirvana - o paraíso - ser mesmo aqui, bastando apenas povoá-lo de quem o tolere indefinidamente.

Rio, 17de setembro de 2006

Waldemar Reis

domingo, agosto 20, 2006

O que dizer de Bertold?

Personagens para quase-atores: o corpo é a parte visível do fantoche, em cujo interior a mão do texto atua. Por vezes o boneco se insurge contra o que o anima, por outras ri-se de sua vida fajuta, canta e suspende com sarcasmo o próprio roupão em cumplicidade com a platéia.

Cenas para quase-público: ninguém se convence mesmo de o boneco ser alguém. Tampouco se quer senão resvalar no real, fazer pouco dele, atitude única cabível à massa de impotentes.

Verdades para quase-crenças: dali, distando umas poucas portas do restante do mundo, quem acreditaria nessas falas que não dizem muito, quem ousaria dar fé de sua frágil mensagem se, passada a farsa, retornarão todos para suas casas, passando por calçadas, miseráveis, meliantes, rufiões, sacerdotes, ou no interior de ônibus e táxis observando automaticamente manchetes sangrentas, coexistindo em inevitável harmonia?

Rio, 20/08/2006

Waldemar Reis

quinta-feira, agosto 10, 2006

Quase tudo

O que dizer? Todo o passível de dizer-se é por demais óbvio e repeti-lo, se não inútil, é decerto aviltante. Aviltante para quem diz, aviltante para quem lê. Para quem lê, por razões evidentes: é colocar-lhe diante espelho de reflexo cristalino o bastante para ali enxergar a própria deformidade, circunstância insustentável. Para quem diz, porque diz, porque dizê-lo é prova suficiente de tolerar em boa medida a imagem grotesca impingida ao outro no espelho - do contrário lhe daria as costas - enquanto desfruta do verso do mesmo, no qual nada se reflete; e é prova direta de ser essa tolerância assentimento ao quanto produz semelhante aberração, o embate interno de dever e desejo. E é tamanho o aviltamento, tão universal, que o da face vítrea acredita olhar tão-só através de janela donde vê não a si, mas quem lhe apresenta e segura o objeto revelador, enquanto o outro sequer suspeita de, caso se atrevesse a olhar o lado refletor, ali dar com visão horrenda que jamais admitiria como sua. Dizer, enfim, por pouco que seja, é dar seqüência à comédia cuja renitência só faz irritar. Melhor seria calar, ou melhor, nada escrever, apresentar aqui o já clássico manifesto da arte moderna da protestação, um espaço em branco, ícone do vazio tanto quanto índice do todo: tudo dizer dizendo nada.

Pois não conhecemos o certo? Não nascemos - como o afirmava e demonstrava um sábio antigo - dotados do sentido para ele? Aliás, não nascemos com os sentidos para o localizarmos perenemente, para o perseguirmos até o obtermos? E é tanto verdade que dele falamos o tempo inteiro, em geral na forma de cobrança a outrem que, por seu lado, não sabe fazer diferente conosco. Em nome disso, correção, chega-se, já entrevistas desde o dedo em riste e desde mesmo uma ponderosa argumentação, quase sempre às vias de fato quando se possui os instrumentos necessários para chegar-se de fato às vias, sempre. Não faço aqui má antropologia, chula interpretação da ciência arqueológica, mas mera observação das ocorrências corriqueiras cujos relatos reiteram à agonia a condição universal de enredamento dos indivíduos: estamos montados, amontoados, uns sobre os outros numa espécie de pirâmide impossível, reciprocamente abaixo de quem está embaixo, acima de quem está por cima, de tal modo, num tão inefável equilíbrio que, é bem verdade, a ausência de muitos nem sequer se faz notar. Entretanto, não é preciso estar fora da teia ou mesmo em vias de ser dela extirpado para se experimentar em imaginação o sentido disso. E ainda assim brincamos do jogo perene do desterro alheio mesmo em vista do risco de em algum momento sermos nós os desterrados.

Não, não acreditamos em promessas que jamais nos fez a senda civilizatória: elas eram mesmo consenso, estiveram sempre embutidas na misteriosa força tornando-nos grei. São parte de sua lógica, são evidentes. Por isso tão grande o protesto, tão silencioso deve ser. Sendo preciso continuar e, continuando sem mesmo saber por que é preciso, sendo imperativo gozarmos de alguma coerência, justificamos: é a natureza. Embalde nos esforçamos por nos mantermos de parte dela, em nicho seguro donde, atingido o átimo da compreensão, no instante do completo entendimento, proclamar-nos-íamos redimidos desse prolongado pecar: mas dalgum injustificável modo ela se imiscui no trabalho incerto de nossos teares e, apropriando-se da urdiduta para sempre incompleta, no limiar de completar-se, ali aplica sua leis. A natureza tem leis irrevogáveis, misteriosamente promulgadas, executadas com rigor. São observadas em quaisquer partes do seu reino e desafiam os propósitos mais obstinados de sequer revisá-las. Em compensação, conferem impunibilidade a quem as observa e tranqüilidade às respectivas consciências : a despeito de todo ideal, somos - da primeira à última instância - cidadãos do mundo, garanta-se nele quem souber ou puder. Pecadores? Sim, mas sem culpas! E sem vontade também!

Como dizia, não faço pífia antropologia nem pior arqueologia: não começamos essa milenar história com anseios por justiça, pois sequer a conhecíamos, mas por mera fraqueza, por temermos a inconstância dos céus e a fome das feras, a fúria do mar e a sanha da terra. E então, enredados uns aos outros, em presumida segurança, sonharíamos a equanimidade, a óbvia e translúcida equanimidade emanando da própria teia, de que somos o fio, onde nos guardamos do inevitável para apenas o assistirmos - impotentes, fracos como só nós - exercer a sua lei. A natureza de que pensamos fugir sabe assomar do interior da horda humana, nela reinstaurando a noite, a selva, o vendaval e o maremoto, fazendo dum indivíduo o raio e de outro sua vítima, dum terceiro as fauces e do quarto a carniça, no conhecido espetáculo em que o consolo é não termos culpa.

Como sugeri, deveria ter dito nada, mas disse: pouco. E pouco, entre nós, é quase tudo.

Rio, 10 de agosto de 2006

Waldemar M. Reis

segunda-feira, junho 05, 2006

Volta a um mote

"Respondendo a seu mail, eu agi. Se "escolhesse" nada mais responder, estaria igualmente agindo? Olhe que essa linha de pensamento leva longe. Pelo menos até o deserto, com uma pedra para sentar em cima, à maneira do famoso ermitão." (Humberto Marini)


O deserto é para onde se dirigem, com certeza, os verdadeiros seres pensantes. E de lá jamais sairão, não por culpa da vastidão, de fato incomensurável, mas por vontade própria ou por instinto de sobrevivência, pois se trata do seu habitat.

Sua esperança - ou seu desejo - é o de chegar ao menos a um oásis, ainda que aí só encontrem poça d'água, nenhuma vegetação, visto ser incerta a presença de sequer nichos assim parcos nesses exílios do espirito. Pois tais eremitas sabem que, existindo algum, há boa chance de haver outros, às vezes luxuriantes, entenda-se, dessa luxúria que só o contraste com a aridez faz ver.

Mas dão-se por satisfeitos se concebem uma miragem, aliás, sua maior cobiça, já que miragens, ao contrário dos oásis, nunca ficam para trás quando é imperativo seguir caminho e jamais se apresentam mirradas: estarão sempre a certa distância dos olhos e figuram o paraíso almejado onde seu vagar teria fim.

Sorte terá algum se der com algo como uma pedra para sentar-se, o que, com certeza, só fará por instantes, uma vez que estará muito quente ao longo do dia e muito fria à noite. Seu propósito, entretanto, é tão arraigado que mesmo desdenha da possibilidade de descanso, inclusive nas horas intermediárias do crepúsculo e do amanhecer, quando é amena a temperatura e pode parar brevemente.

Sendo doutos, estão advertidos das incertezas dos céus e inteiramente aptos a caminhar por linhas retas à mercê duma estrela, o que muitos fazem, embora preferindo andar em círculos: primeiro, em vista da perfeição da forma, sentimento inexplicável que os compraz; depois, por fiarem-se no mapa em que se demonstram a imobilidade, a finitude e a redondez do mundo inteiro, pelo que conhecem a impossibilidade, caso existisse o movimento, de chegar-se a outro ponto senão aquele onde já se encontram (e nada obstante seguem caminhando, decerto por ato reflexo, pois não crêem mesmo que de fato o fazem); enfim, movem-se em círculos por conhecerem que toda reta possuindo mais de dois pontos é fragmento de arco cujo raio é imensurável, preferindo alguns trilhar curvas finitas a entregarem-se à aventura de jamais reverem o lugar donde partiram.

E, não sendo poucos tais caminhantes, admira que jamais se cruzem os seus caminhos - há quem suponha existirem tantos desertos quantos há de seus ermitães, desertos paralelos que, como se acredita, se tocam no infinito. No entanto, é comum conversarem, mas nada se vê à sua frente. E em tais monólogos, em verdade diálogos partidos ao meio, prevalece de hábito a discórdia.

Rio, 05/06/2006

Waldemar Mendonça Reis

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