terça-feira, janeiro 01, 2008

Nota sobre intolerância e doutrina liberal

Crença muito difundida no mundo moderno, embora já sustentada de longa data, é a de sermos todos capazes de conviver a despeito das diferenças, a despeito das divergências. Pode alegar-se, é bem verdade, que se trata antes de hipótese justificada na constatação histórica: em vista da fragilidade inerente para sobreviver no meio natural, o gênero humano vem submetendo-se a perene comunidade desde – é suposto – o seu aparecimento, embora não seja possível afirmar com conforto a permanência de um estado de paz, de bem estar, sequer em dois instantes consecutivos dessa história comunitária. Prova esta de o contato de indivíduos humanos não se ter isentado do traço da intolerância – a despeito da forçosa determinação de convívio trazida na constituição frágil da espécie – ou ser afeito a divergências inconciliáveis que, se não têm o poder de cancelar o contrato social, o tornam em contínuo suplício.

Entretanto, se tomada como se anunciou, como crença, no sentido de profissão de fé, a afirmação de ser possível convivermos não obstante divergirmos, quando posta na boca de quem esteja seguro de possuir as melhores intenções ao dizê-la, parece pressupor um estado contrário ao observado na associação humana, a saber, de paz, compreensão, enfim, de tolerância. À primeira vista parece sugerir a prática disto mesmo, da tolerância, digo, parece ensejar a constituição de indivíduos permanentemente capazes de relevar o quanto na atitude alheia lhe possa ser infenso, mas não, talvez, o seu aperfeiçoamento com vistas a não empreenderem nada a impedir o bem-estar dos demais. O bom senso nos indicaria tratar-se de ambas as sugestões. O mau treinamento na boa convivência obriga quem sofre suas conseqüências a tão-só tolerar, atitude imprescindível enquanto o uso sistemático da auto-crítica pelos ofensores não a torna desnecessária. Atingido, assim, um estágio generalizado de ações individuais selecionadas, imagina-se que os pontos de dissenso permaneceriam existindo, embora seja igualmente de supor não consistirem em fatores a cobrarem complacência acentuada.

A experiência histórica mostra-nos também isto: dentre as divergências há as intoleráveis, as quais o mundo como o conhecemos vem, via de regra, negligenciando, vem fingindo, de um lado, não praticar atos merecedores de grande tolerância – quando não de punição severa – e, de outro, não dar fé daqueles de que são vitimas – numa sorte de indiferença à imitação da estóica, embora prenhe de ressentimentos. Definindo-o de um modo apressado, o divergir constituiria oposição frontal de indivíduos a condições tidas como contrárias ao que é fundamental em suas existências. Tendo-se em conta isto, ou não há entre nós consenso quanto a quais sejam as condições adequadas e mesmo quanto a se consistem de fato em fundamento existencial do indivíduo (disto deduzindo-se a incompatibilidade geral e incontornável de cada um para com os demais), ou a capacidade humana de indulgenciar é demasiado reduzida. Talvez observem-se ambas as situações.

Excetuando-se as iniciativas pessoais, sobre as quais podem incidir escolhas religiosas, há duas tentativas seculares clássicas de equacionamento do bem-estar comunal experimentadas no correr do último par de séculos ditas, uma, liberal, outra, socialista. A contraposição dos nomes e sua aplicação aos fatos sugerem, a uma abordagem imediata, certa indiferença para com a causa coletiva no primeiro e, no segundo, incompatibilidade de gregarismo e liberdade. O modo de entender o conceito de liberdade é o referencial para o sugerido na oposição dos dois termos: se designa a obediência do sujeito a tudo quanto possa ditar-lhe o desejo a despeito do mal-estar alheio, o liberalismo vem a ser o embate perpétuo de individualidades num meio político de regras demasiado instáveis e o socialismo doutrina cuja missão é o estabelecimento de limites para a atuação pessoal com vistas ao bem geral; mas se liberdade se define como a manifestação de quem, justo por ter na mais alta conta o próprio bem-estar, entende a estreita dependência deste para com o dos seus consociados, então as diferenças entre liberais e socialistas deixam de ter sentido.

Um indivíduo livre neste último sentido é, parece-me, tudo quanto pode desejar-se de alguém, mesmo se quem o deseja toma como verdadeiro o primeiro dos significados de liberdade. Muito embora se espere de quem se crê livre desse modo – o primeiro – a firmeza bastante para transigir em face dos excessos previsíveis de outrem compartilhando do mesmo credo, a prática fornece constantemente dados demonstrando a variedade de lindes, nesses professos liberais, para a tolerância das veleidades alheias. Pelo que o liberalismo, embora ensejando pronunciar-se em prol de uma irrestrita liberdade, termina por apor-lhe condições, ainda que de contorno incerto, assim dando margens a variegadas interpretações que o tornam, em realidade, o preceito bárbaro que de maneira tão canhestra tentou aprimorar.

Ora, o liberalismo pontuado de regras de conduta termina por ser, à primeira vista, justo aquele professado por quem tem na mais alta conta o próprio bem-estar e por tanto cuida do bem alheio por conhecer o quão entremeados este e o seu estão. Mas se termina por incorrer em erros ou em burlas, é por não se constituir sobre tal premissa, a do bem comum em prol do bem individual, antes usando-a como sorte de estatuto provisório cujo fito, nada inocente, é tão-só protelar uma pré-concebida ação livre à moda libertina para quando oportuno for. Por trás da transitória regulação da liberdade, enfim, jaz ad aeternum a esperança do indivíduo de perfazer atos livres no sentido em que, no fundo, crê, ou seja, a despeito do assentimento dos que a si estão associados. Quanto à oportunidade, ela é, infalivelmente, aquela em que o ato inaceitável passará desapercebido ou em que terá de ser universalmente tolerado, sem alternativa: em suma, todo liberal autêntico, no primeiro dos sentidos apontados acima, é aquele que aguarda a circunstância em que terá poder suficiente para predominar, desse modo desfrutando os seus atos da invisibilidade ou da ostensão próprias de quem os pratica do viés dominante.

Uma das espertezas da conhecida doutrina liberal em voga nos meios políticos e econômicos desde pelo menos os confins do século XVII é anuir ao conhecido bordâo reconhecendo oportunidade para todos. Ora, pergunte-se, com razão: oportunidade de que? para que? Para ocupar – ou de ocupar – os postos exclusivos e reservados aos quantos podem gozar da própria liberdade como sói, por sob os disfarces, professar a doutrina liberal. O resultado evidente é a própria realidade na qual estamos imiscuídos, de que falávamos no início, sortida de todo tipo de desentendimento, uma vez todos – ou praticamente todos – terem por desejo maior galgar a pirâmide social ao encontro desse lugar por cujas duvidosas virtudes está-se desde berço seduzido. Quem escapa à sina de tal aspiração é decerto por ser dotado de dose maior de tolerância ou por achar conveniência no lugar, embora ordinário, que ocupa. Destes muitos há que não recusariam, caso se apresentasse graciosamente, a ocasião de ascender: são os oportunistas no sentido lasso e não seria de impressionar se um estatístico mostrasse que existem em proporção muito maior do que a suposta aqui.

Interessante é notar o quão cioso é o homem de sua escalada na descoberta de bens tecnológicos cujo fim, naturalmente, é incrementar o conforto. A despeito de vivermos num tempo de crescimento em progressão geométrica da geração de tecnologia, futurólogos teimam em supô-lo infinito, inesgotável. É de esperar, na medida em que igualmente não tem peias o desejo de bem-estar do indivíduo humano. Ao lado disso, pouco ou nada se espera, ao menos na prática, de aperfeiçoamento da própria natureza do homem, a saber, do seu caráter, de sua capacidade de melhor conviver. Do viés da doutrina liberal, pouco se espere nesse sentido: melhorar a natureza humana seria conspurcá-la, privá-la de seus anseios de liberdade ou, antes, de sua livre manifestação. Uma das pedras de toque do liberalismo, inclusive, é o atestamento e a defesa da diversidade de anseios: nem todos querem o mesmo, razão de muitos estarem satisfeitos onde estão, não necessitando atingir o topo da pirâmide social para sentirem-se plenos. De uma certa maneira têm razão os liberais: quiséramos todos as mesmas coisas e não haveria necessidade de tanta publicidade, de tanta estratégia de mercado direcionando o desejo de muitos para certas coisas. Mas a satisfação a que se referem pode, em grande medida, ser nomeada 'resignação', visto não contarem os resignados com o suficiente para sequer almejarem sair de onde estão e rumarem para um posto imediatamente acima. Se consideradas as condições reais desses lugares pode ter-se uma razoável medida do poder do instinto vital, fazendo os seus ocupantes preferirem ser como são a não serem de modo algum. E, é claro, um bom liberal não deixaria de tirar partido de escolha assim instintiva a lhe proporcionar hordas de mãos laboriosas sustentando a sua privilegiada posição.

Rio, 01 de janeiro de 2008

Waldemar Mendonça Reis

terça-feira, junho 19, 2007

Filosofia, narcisismo, ética e moral

Filosofia não é uma ciência. Jamais poderá sê-lo. Se de fato cunhado por Sócrates, em tudo parece condizer o termo com a reputação sobrante desse filósofo, cujo interesse centrou-se no que mais tarde se chamou de Ética, esta, sim, ciência das ciências. Filosofia, como o próprio nome indica, designa tão -só disposição especial do sujeito para fazer ciência. Sua idéia nasce, provavelmente, quando este se inteira de sua condição irrefreável para conhecer, atividade central de sua existência, pouco importa o que de diverso pense fazer, e a incorpora como o amante ao direcionar sua inclinação amorosa para outrem ou mesmo para ninguém em particular, mas a exerça indiscriminada e integralmente por gostar de exercê-la.

Filósofo é tão-só quem ama sua disposição inata para o conhecimento e a aplica, seja a um só, seja a muitos objetos, observando-os e entendendo-os de um ou de variados modos. Distingue-se dos demais indivíduos exatamente por esse amar, pois conhecem apenas por serem dessa maneira constituídos. Por outro lado, o filósofo não se mostra em essência diferente de outro humano qualquer: é suficiente admitir que a cada um pode caber afeiçoar-se a uma ou muitas das inúmeras características de que é constituído, podendo amar-se o próprio braço, por exemplo, pela força ou pela forma que apresenta, o próprio nariz, a boca, os olhos, as próprias mãos, os pés e mesmo o corpo por inteiro, a inteligência ou o humor descontraído, a própria honestidade e até a malícia e a vilania de que se é dotado. Embora possa concomitantemente amar uma ou mais de suas partes constitutivas, o filósofo ama sua condição cognoscitiva. Mas ama-a sem hesitação.

Ao encarar a si com tal sinceridade um filósofo percebe não passar de mais um dos acometidos de narcisismo, talvez não de um narcisismo integral, pois nem todos são como Alcibíades, cuja beleza física, entretanto, não pareceu comover Sócrates, encantado, como era, com apenas ser filósofo, mesmo porque não via em seu próprio corpo motivos para amá-lo. Mas não devemos esquecer que assim como conhecedores inatos, embora não por necessidade embevecidos com o conhecer, embora não por necessidade filósofos, somos também e em essência narcisistas, temos de amar ao menos uma, se não várias, de nossas características, ou mesmo todas elas, do contrário viver pode tornar-se experiência de todo desaconselhável. Há quem diga ser possível desprezar tudo em si e ainda assim ter vida tolerável, quiçá agradável, quando se aprecia outra coisa qualquer fora de si: nesse caso, entretanto, goza-se ou ama-se esse apreciar mesmo, o qual, sem dúvida, é parte do sujeito.

Filosofar, como se vê, não faz de ninguém um ser especial, mais ou menos louvável do que qualquer outro entre cujas predileções não está o conhecer. Entretanto o seu gozo com o conhecimento, porta aberta que é para a ciência, propicia-lhe o ensejo de tornar-se alguém distinto dos demais, um ser verdadeiramente singular. Isto ocorre quando o filósofo finalmente entende o por que do seu conhecer: conhece para agir, embora também aja para conhecer, embora em certas circunstâncias aja como se em aparência ignorasse o motivo ou a finalidade de sua ação e embora aja e sempre tenha agido, desde sua primeira ação, por ter algum conhecimento, aquele suficiente para ação assim primordial. Sua sabença está a serviço de como se comporta diante das coisas, pois é preciso considerá-las ciosamente, ou arrisca viver em desacordo com elas e mesmo desaparecer, extinguir-se.

Pelo inerente amor a si o sujeito - qualquer um - tem de saber como coordena suas ações dirigidas ao meio, tem de saber resistir a este e com tal resistência tem de igualmente preservá-lo, pois depende disto para continuar existindo. Em sua afeição pelo conhecimento o filósofo parece mais afeito do que os demais indivíduos a admitir essa interação necessária com o mundo e, claro, a cultivá-la de modo singular, buscando entendê-la cientificamente, ou seja, segundo princípios aplicáveis a uma ampla gama de situações e aceitos mediante provas, ou não lhe merecem a fé. Para tanto inteira-se da necessidade de valer-se de tudo quanto sabe, de todas as ciências que cultivou ou pode cultivar, pois encontrou a ciência por excelência, a ciência de todas as ciências: encontrou a Ética. E quando a encontra, de modo diferente de outros filósofos, cujas sabedorias se aplicam segundo princípios variáveis ou instáveis ou segundo princípios dizendo respeito tão-só ao seu amor a si próprio, o filósofo versado em Ética não pode empregar a sua senão sob os pressupostos inflexíveis dessa ciência máxima, tem de, por conseguinte, comportar-se como o sábio que é, caso contrário mostrará não passar de aprendiz, não passar de um curioso movido apenas por uma paixão qualquer.

Mas a todos, queiramos ou não, termina por interessar a Ética, sugere-me a voz que me inteirou também de sermos conhecedores e narcisistas natos. Sim, respondo-lhe, temos todos de estudar Ética, embora não do modo ou com a intensidade de um apaixonado por conhecê-la, não como o filósofo convencido de ser ela a única ciência possível, diante da qual as demais encontram justificativa, mero apêndice que são dela. Diferentemente do Ético, chamemos assim a esse filósofo, nós outros não buscamos perfeição sequer semelhante à que encontra em sua ciência. Seríamos, quando muito, versados numa espécie de sombra desta: pois se conforma em função das múltiplas superfícies sobre que é projetada, sendo variável e volátil como os acordos que propicia, incerta e sinuosa como as justificativas para as ações que enseja, quase que uma para cada sujeito. Enfim, sem amar o conhecer que nos é inerente podemos até fazer ciência, mas por imposição da própria natureza, e tal ciência congênita tenderá, também por necessidade, a algo como a Ética, a um seu arremedo, ética de amadores, não de verdadeiros amantes do conhecimento, ética possível a quem deseja exclusivamente desfrutar a vida sem saber ao certo se por mérito ou mesmo se de fato o faz: e seu nome correto é moral.

Rio, 19/06/07

Waldemar M. Reis

domingo, junho 17, 2007

Voltas ao mote do Mundo

Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões


Pobre poeta! Perdido em descaminhos indescritíveis até para sua dialética tortuosa. Foi mau, estupidez, cuidando obter o bem, inalcançável enquanto bom foi. Quiçá melhor faria em continuar passando no Mundo tormentos, do que aventurar-se nos exclusivos contentamentos dos maus. Ovelha em pele de lobo, ignorante de estar nos focinhos, por excelência, o tino de predadores tais.

Presunçoso poeta! Oh, porventura quisesse apenas passar-se por bom; até ser mau, naturalmente, pois apenas o bom corre o risco de mau tornar-se. E quem o puniu, finalmente? O mal, por sua desfaçatez de invadir-lhe o território em busca dos prazeres de quem o professa de corpo e alma, ou o bem enciumado? Ora, poeta, o seu castigo não é prova de estar o Mundo, ainda que só para si, concertado.

Que o Mundo não é como nos fazem crer, poeta, disto já me havia inteirado. Nele é bom quem do mal não tem oportunidade, cabendo-lhe assim tão-só sofrer aquele que outrem lhe faz. Estóico poeta! O mal é para peritos! Estultos sábios de antanho, cavilando do bem pedagogias, quando é para a maldade que carece adestrar-se. Fosse o contrário, não seria o bem saber inato.

Já o mal, em sendo novidade, tem de demonstrar-se, verificar-se, justificar-se! Doutro modo, não se o aprende. Preciso é torcer a bondade de que se vem ao Mundo dotado, contrariá-la com argumentos terríficos, irrefutáveis, inquebrantáveis, e depois testar-se, mostrar-se proficiente. Por isso o castigo, poeta. Foi reprovado.

É, o mal não admite fraudes. Nem indecisões. Não contemporiza: o mínimo deslize é o retorno ao chão. Uma vez erguido, no entanto, são oceano as retribuições. A começar pela posição, de mestre, para quem os discípulos, literalmente sob os seus pés, são só gratidão. Ora, poeta, não se anoje, ou mostra ter nada aprendido. Lembre do ditado: só a dor ensina. Ensina a ocasião de infligi-la para a instrução de algum coitado.

Rio, 17/16/07

Waldemar M. Reis

segunda-feira, junho 11, 2007

Livre e abreviada teoria das democracias

Como pode ser justo um sistema político no qual todos sustentam como insígnias suas mais miseráveis diferenças? A bem da verdade sequer há consenso, na prática, de sermos todos humanos, de necessitarmos basicamente das mesmas coisas ou mesmo de coisas semelhantes. Espalhados pelas manchetes de jornais, exemplos disto só nos convidam a concordar com Churchil, para quem a democracia seria o melhor dentre os piores sistemas de gestão pública.

Exageros à parte, estes não podem ser motivos para darmos as costas para o sistema democrático e partirmos em busca de um mais apropriado. E a razão é, pelo menos em princípio, inexistir outro capaz de oferecer ao indivíduo melhor perspectiva de liberdade - assim como de hábito é concebida. Se a história não mente, o ser humano praticou já todos os possíveis métodos de organização comunitária, os quais, valendo-se da lógica mais rasteira, contam-se nos dedos de uma só mão: ou governa um indivíduo, herdando ou não o cargo, ou governam alguns, que igualmente podem ou não transmitir suas funções, ou, por fim, governam-se todos.

De novo com o auxílio da lógica é possível afirmar que, desconsiderada a quantidade de governantes, é a totalidade da população que outorga a estes as atribuições que têm - não fosse assim, governar-se-ia quem? Em suma, é sempre o povo que governa. O segredo de imperadores, ditadores, presidentes, legistladore, resume-se em manter a massa em dissensão continuada, pois é na ciosa administração das desigualdades que reside o poder, assim como é ordinariamente entendido o termo. Um tirano competente jamais delibera contra porções significativas da população. Do outro lado, um povo tiranizado, prova cabal de masoquismo coletivo, nada obstante cuida de moderar os efeitos do jogo político ou perece.

O poder democrático é passível de descrever-se, segundo é comum entendê-lo hoje, como o exercido por déspotas potenciais coagidos pelas massas, enfim esclarecidas, à negociação. Figuras assim seriam versões políticas de pais benevolentes, não fosse mais forte a vocação para o domínio a transformá-los em sólidos personagens num enredo em que a população, sem o perceber, permanece manipulada. Por isso é mais fácil definir democracia como o padrão de gestão coletiva admitindo variantes ao longo das eras, nas quais os indivíduos participam mais ou menos das decisões de um governo central, tendo-lhe previamente outorgado e continuando a lhe garantir a atribuição de governar. Como se vê, não pode haver motivo para dar-se as costas à democracia em favor de outro sistema, visto não existir a alternativa: melhor do que uma dada democracia só mesmo outra melhor - ou não tão ruim, se quisermos aderir à ironia de Churchill.

A quem está convencido, chegando neste ponto do ensaio, tratar-se tudo de puro non-sense, fica a sugestão de analisar, ainda que de maneira superficial, a evolução (no sentido de malabarismos, acrobacias - segundo sugestão de Antonio Caetano) das democracias no correr do último século. Em todas é visível a cuidadosa cisão das massas jogadas, assim partidas, umas contra as outras; e mesmo em momentos de maior participação coletiva prevalece ainda a separação em blocos, dos quais sobressaem líderes cuja função mais significativa é a de manter aquela facção centrada no quanto a distingue das demais, forma esta de perpetuarem suas respectivas influências e, tendo na retaguarda contingentes consideráveis de indivíduos, obter determinados privilégios, sempre mais pródigos para si do que para suas bases. Finda a análise, o bom observador terá concebido espécie de imagem tingida de uma única cor em vários matizes e jamais esquecerá de que oligarquias, despotismos e mesmo realezas são partes mais ou menos ativas, mais ou menos fortes, da democracia como até hoje a conhecemos. Tudo, como não poderia deixar de ser, de conluio com a patuléia.

A associação de idéias como a de perfeição democrática com educação não é casual. A despeito do grau de conhecimento de distintos membros de uma sociedade, esta se move numa massa de informação cujo nome é senso comum. Tanto mais o senso comum de uma população se aproxima dos níveis de conhecimento ditos de excelência, maior tende a ser a liberdade de cada indivíduo, ou seja, maior tende a ser sua auto-suficiência. Nada mais natural: senso comum é o repositório do saber de uma comunidade, é onde se preservam os meios de esta lidar com seu entorno visando a sobrevivência. E toda política, sendo, como é, arte de administrar ou manipular as massas, tem de lidar, evidentemente, com esse conhecimento rigorosamente acessível a todos, ou não sucede.

Mas a educação em quaisquer das modalidades de democracia conhecidas tem de, para manter-se coerente com o princípio de dominação, exercer-se num determinado âmbito, fora do qual torna-se atividade subversiva. Ensinar-se-á, assim, a conservação das instituições políticas vigentes, jamais seu real aperfeiçoamento. Uma mancheia de educadores de aluguel terá torcido os narizes para tais afirmações presumindo que educam para a liberdade, para a livre-iniciativa, portanto, para prover o mundo de gerações cada vez mais aptas a corrigir os desvios do poder público. E de fato é improvável encontrarem-se dois momentos consecutivos quaisquer em que não tenha havido alguma reforma, algum aperfeiçoamento, a despeito de persistirem falhas incontáveis e, o pior, descontentamento quase universal: mudar é revolver, sendo também condição inescapável das coisas no mundo.Assim, prescrevem as gestões públicas: se é imperativo mudar, que se o faça então em pequenos bocados, sutis revoluções que não desandem a ordem coletiva. Formam-se, portanto, pela educação consensualmente tolerada, pequenos revolucionários, indivíduos capacitados a manter ao máximo as condições próximo de certo estado admitido como ideal para a conjuntura vigente. A única razão a conservar de pé as democracias como as conhecemos, por quase perfeitas que sejam, parece ser a esperança em cada um de nós de um dia passarmos pelo funil conduzindo a sucessão de privilégios, à imitação dos poucos que nos últimos decênios o fizemos: e tal em nome da renovação, das pequenas e controladas revoluções em cujos finais é possível constatarmos a presença de grupo de atores diferente do anterior, mas desfrutando de privilégios idênticos. Por isto são raros os grandes revolucionários, mesmo aqueles praticantes e pregadores da paz, que em tese não o fereceriam qualquer incômodo, mas talvez que por isso mesmo sejam caçados e suprimidos.

Por força da intuição, entretanto, sabemos todos como de fato tem de ser a melhor democracia: cada qual conhecendo exatamente o que de melhor fazer e, o principal, sem prejuízo de ninguém (uma coisa, na verdade, acarreta a outra, mas não custa reiterar). Em vista de como estimamos nosso caráter mediano, tal intuição define comunidade de sábios, seres imagináveis e mesmo reconhecíveis, mas a quem é impossível imitar, segundo se crê em consenso. Na raiz de tão insensata crença, entretanto, reside equívoco secular, pelo qual a figura do sábio metamorfoseou-se naquela do indivíduo provido de grande quantidade de informação tornando-o apto a manipular ou dominar o meio ao redor, a natureza, nela incluídos seus semelhantes. Antes, por milênios, o sábio foi, ao contrário, aquele capaz de manipular ou dominar a si mesmo, sua natureza pessoal. Uma democracia no limite da perfeição só pode ser praticada, evidentemente, por sábios à moda antiga. Essas democracias 'quase perfeitas' - e, ainda assim, tão insatisfeitas - hoje circundando-nos ou circundadas pelas nossas (a meio-caminho da perfeição das primeiras), têm-se mostrado como exemplos de gestão pública abundando em sábios à maneira moderna, sábios entre cujas especialidades está a acurada manipulação de seus semelhantes, sejam estes sagazes ou não. Suas ações estendem-se, não raro, a populações estrangeiras, pelo que não demonstram serem deveras auto-suficientes tais sábios à moda recente, sempre necessitando do esforço alheio provendo-lhes do que viver.

A educação capacitadora de cidadãos em verdadeira liberdade constitui-se de princípios de Ética antes de princípios das demais ciências, dois gêneros de princípios que, por sinal, não discrepam, embora sem os do primeiro tipo os do último tendam a desgovernar-se em presunção. Com os princípios éticos é possível chegar-se a uma ciência limpa, capaz de extrair do entorno apenas o suficiente e sem o concurso de massa de indivíduos manipulada para atender aos fins de outros, menos numerosos. A democracia perfeita, constituída por homens sábios é, por fim, alcançável sem transtorno maior do que uma inflexível boa vontade e já possui mesmo um nome, sendo definida como o federalismo tendo por limite apenas o indivíduo, sua unidade menor: Anarquismo. Assim se intitula o pacto no qual o homem professa entender que sua liberdade existe em função da fraternidade e, principalmente, da igualdade, conceitos enfim alçados da condição de meras promessas e mantendo distância segura das definições que lhes atribui a sabedoria de tipo moderno. Em tal pacto a convicção das partes não oblitera a noção do todo, as dificuldades são resolvidas topicamente - pois singulares são as condições de cada ponto do planeta - e nacionalidade será apenas designação geográfica. O acúmulo de riquezas, em vista do custo do futuro, só terá sentido se administrado pela totalidade dos indivíduos e é possível ser-se, quando assim se o desejar ou preciso for, engenheiro, operário, médico, lixeiro, músico, lavrador etc, embora jamais presidente, general, polícia, juíz, pois o pecado não se faz mais perceber tanto a norte quanto a sul do equador. Entretanto são todos - questão de ordem - legisladores, investigadores insaciáveis de regras segundo a ocasião, mas orientadas por par de princípios que, a bem dizer, são conhecidos de nascença: produzir o melhor (sem prejuízo de ninguém - não custa insistir). Fora essa, temos mesmo de contentar-nos com estar em alguma das melhores dentre as piores democracias.

Em 11 de junho de 2007

Waldemar M. Reis

terça-feira, maio 15, 2007

Fides et Ratzinger

A meu pai, em seus oitenta anos, no décimo quarto ano de ausência de minha mãe.

No princípio, era a confiança. Apenas confiança, mas num sentido do qual você e eu não guardamos mais do que uma noção descorada, confiança em sentido absoluto. Hoje é sentimento atribuído aos parvos, indivíduos dotados da coragem, a eles conferida pela ingenuidade, para confiar cegamente, confiar simplesmente, a priori, quiçá sem garantias. Confiança assim só se deposita, é natural cogitarmos, em quem de certo a malversará jamais. E de espantar é que tenha havido quem a merecesse ou que tenha alguém acreditado em sua existência.

Mas, conta-se, teria de fato existido tal sentimento. E veio ele à tona, diz a história, quando um homem e seu clã deixaram para trás o lugar onde nasceram em busca de uma promessa. Foi por nela confiarem que seguiram caminho e de passagem testemunharam a destruição de cidades sem sequer um olhar, a transformação de um dos seus em estátua de sal, entre outras mostras impressionantes do preço de não confiar.

Muitas são as provas por eles deixadas do quão firme foi sua confiança. Jamais esqueceremos da saga do pai conduzindo o filho à imolação depois de abandonar às portas do deserto um outro, o primogênito, com a mãe, sua antiga concubina, designada por seu Deus para lhe dar a descendência negada pela constituição física de sua esposa e meio-irmã, a quem por duas vezes vendeu em troca da própria vida e por duas vezes restituiu em meio a riquezas incalculáveis. Fraqueza, diriam os incautos, diriam os incréus leitores de sua sina; loucura, completariam. Mas o fariam por não mais confiarem, não no sentido daquela confiança de quem estava seguro de não haver lugar senão para o bem, para o bom, neste mundo de desígnios imponderáveis. Foi suficiente tolerar o peso do revés para que o ventre vetusto da esposa inesperadamente concebesse, para que o filho por dever renegado se tornasse patriarca do povo do deserto, para que um anjo viesse conter o braço antes do golpe do punhal.

Como se não bastassem essas e outras mostras desse confiar (não esqueçamos daquele pai cuja firmeza não se abalou com o decesso de toda a família, a penúria extrema e a temporada no estômago de um cetáceo), como se fossem insuficientes para o entendermos, séculos adiante, ou melhor, livros à frente, a história nos dá um pregador de cujo delírio brota a ambígua noção que doravante orientará a razão, mas também a desrazão, do homem. Em nome dela, fé (como passou a chamar-se a confiança), segundo a definiu Paulo, apóstolo tardio dum Cristo já ressurgido, milhares, quiçá milhões, pereceram sob a acusação de não a possuírem, de não a exercerem: eis um dos mais bem acabados exemplos da demência. Pois como é possível sequer suspeitar de haver quem seja destituído de fé? Como é possível conceber vida sem fé? A estas interrogações entregaram-se os espíritos verdadeiramente lúcidos, embora não dessem com outro meio para evitar os inúteis suplícios senão oferecendo às prováveis vítimas, os supostos destituídos de fé, o objeto sobre que depositarem a que sempre tiveram e que de fato existia, embora não a percebesse o clericalismo irracional, decerto por tratar-se de fé em estado bruto, aliás, como a quis Paulo mesmo, a saber, a espera do que não se pode ver.

Cristo, imagino, dar-se-ia por contente se seus seguidores apenas se inteirassem da fé que sempre possuíram e que sempre possuiriam em sendo viventes, tomando cada qual, em seguida, caminho próprio. Creio, entretanto, ter em mente o Cristo ideal quando assim o digo, o Cristo coerente com a pregação que lhe atribuíram. Não sei se para o mesmo fim posso invocar o Cristo histórico, personagem dia a dia emergindo da pertinácia ou da fantasia de arqueólogos e historiadores, cuja suposta vaidade teria levado ao paroxismo, no breve intervalo em que viveu, a corrompida sociedade desse tempo e cuja recompensa foi inserir-se na história, a passada, com a qual fez coincidir cada um dos seus passos desde que adentrou Jerusalém em lombo de jumento até a crucifixão, e a futura, a habilidade de cujos escribas o tornou em lenda.

Por que se daria por satisfeito o Cristo ideal com a contrita diáspora de seu rebanho? Por ser um visionário, como o confirma em boa medida o Cristo histórico assim como o esboçam. O Cristo coerente estaria lasso das invectivas dos poderosos sobre o comum acusando-o de desligado, sua meta seria a de livrá-lo de uma vez por todas desse tribunal insano. Mas desligado de quê estaria o comum? Ora, de sua natureza primeira, de sua essência imaterial, de sua origem na divindade. Não é outra a premissa religiosa, de seja qual for a religião. Mesmo a etimologia do termo, em sua ambigüidade, pende ao fim para delineá-lo como o esforço de fazer tornar o indivíduo ao essencial, em suma, de reatar seus laços com o que não percebem os sentidos nem alcança a razão. Como se possível nos fosse escapar ao incognoscível e ao paradoxo enquanto vivos e conscientes! É verdade: a empresa religiosa padece cronicamente da presunção de estarmos tecnicamente apartados de nossa origem, a despeito de atribuir-lhe poder, conhecimento e presença absolutos. Em sua opinião teria Deus criado o universo e o povoado de criaturas capazes de eventualmente apartarem-se disto que criou, não obstante tudo, absolutamente tudo, seja criação Sua. Em suma, é simples a dedução: para onde quer que tais supostos fugitivos pensem rumar, permanecerão sempre confinados à Sua obra. Enfim, os pressupostos religiosos jamais justificaram ou justificarão as conclusões que deles se retiram e muito menos os atos determinados pelo que se concluiu.

 Até onde alcanço, só vislumbro uma causa única para a profissão religiosa: o vício da dominação. E melhor viceja sua semente onde antes adubou a ignorância aterrada com o fado dos viventes. Pois o mundo é útero e túmulo, berço e esquife, palco e cadafalso, saciedade e penúria, de que, mais dia, menos dia, vamo-nos dando conta. Mas se vem à luz com uma imcumbência, uma só, contrariadora da metade - a metade indesejada - disto que o mundo é, a incumbência de cá permanecer o quanto possível for. E, não importa o tanto que se perdure, não há quem ou o que cumpra por inteiro a tarefa nem quem ou o que dela deixe dívida: todos o sabemos, intuitivamente; sem qualquer pressa a vida no-lo ensina. Tememos tudo cujos efeitos desconhecemos ou não logramos mensurar, dos eventos da natureza aos pensamentos de terror que estes nos infundem, frente aos quais só duas atitudes se mostram possíveis: a obstinação perquiridora, naturalmente decorrente da incumbência - ou, melhor dizendo, da imposição - de perdurar, e a submissão incontornável aos fatos, cuja continuidade termina por extinguir-nos. A vida é a temporada durante a qual oscilamos entre uma e outra posições e talvez sua duração se relacione diretamente com a eqüidade com que nos mantemos mais na primeira, visto ter a outra a função de mera pausa antes do impulso pelo qual penetramos mais e mais no conhecimento das coisas. E é nesses momentos de dúvida, quando por qualquer motivo se enfraquece a confiança que temos de ter no que somos capazes de saber, é em tais hiatos - por vezes mais duradouros do que desejávamos - que as admoestações religiosas se vêm imiscuir.

Suas ofertas não são de todo despreziveis: convencendo-nos de estarmos desgarrados, acenam a seguir com a reentrada no mundo verdadeiro, segundo o concebem, para tal ofertando-nos o conhecimento total e instantâneo da realidade. Abstenho-me de julgar o teor ou o valor desse conhecimento, pois tal só se mede tendo em vista um sujeito e o quanto isto lhe tem serventia. E de hábito não é raro topar-se com 'religados' cuja vida sucede à sua satisfação, prova esta porventura considerável do valor do que conhecem. Arrisco-me inclusive a reputar tal conhecimento, em essência, o melhor, o único mesmo. Mas recuso conceder-lhe o acabamento às pressas arranjado pelos doutores das religiões para torná-lo palatável ao indivíduo em dúvida profunda, convencido de estar de parte da Criação. Prefiro restringir-me à letra da palavra de Paulo em Hebreus (11:1), para quem a fé é a forma da esperança e a prova do invisível, descartando os objetos que a tradição a ela apôs à guisa de isca para os destituídos de paciência e imaginação. Pois o objeto da fé, da fé que é apanágio de todo vivente e não apenas dos devotos desta ou daquela religião, não se constitui senão na espera que o desvela infinitamente em sua infinita perfeição. Bem aventurados os que não se apressam em pôr no seu lugar qualquer coisa que, no incessante desvelamento, dá à fé a impressão de ser como uma árvore, o trovão, o mar ou as divindades. Pois ela é tudo isto e muito mais, é qualquer coisa, é todas as coisas. Mas só o é por haver quem - por haver um sujeito - a exercê-la, sem o qual é nada.

A fé é a prova de estarmos, desde sempre e enquanto durarmos, ligados com as coisas, ligados nas coisas. É desejo, vontade, indução; é o passo que darei a seguir sem qualquer garantia, mas com a certeza plena de que o darei. Em sua audácia a fé tem mesmo um objeto último, extremo, mas do qual possuímos, quando muito, um nome, Deus, e uns poucos atributos óbvios, embora paradoxais. E de pouco nos servem tais elementos: por certo de estímulos para o exercício mais vigoroso, mais entusiástico, da continuada e imperiosa fé; jamais como justificativas para o antagonismo que o arrebanhamento de homens em torno a cleros distintos costuma suscitar, menos ainda para promover a servidão. A fé nos constitui igualmente, pelo que somos livres e fraternos. É o que viemos descobrindo, ao passar das eras, a despeito da massa ainda orientando sua fé para os objetos impostos por conventículos cujo fito não é outro senão mantê-la submissa. A passos módicos, nada obstante, evolvemos, e prova-o o modo como findamos por designar tal objeto maior possível à fé, objeto indivisável por inteiro, mas perpetuamente descortinando-se aos nossos sentidos, mesmo os mais recônditos: Deus, atributo de gênero antes que nome de espécime.

O Cristo ideal, dizia, satisfar-se-ia com entendermos apenas isto: é impossível 'desligar-nos', não havendo necessidade, por conseguinte, de religamento; só se desligam os decedidos, pois em seus corpos não mais habita a fé, isto que nos mantém aderidos ao mundo; por conseguinte, somos feitos de fé, por cujo intermédio tudo é possível conceber, nada excedendo, embora, a idéia de Deus, cuja propriedade é a de constituir-se enquanto fé houver, enquanto vivo se for. E uma vez aprendida lição assim singela, que tome cada um o seu caminho no mundo, tratando de mantê-la, transmitindo-a às gerações vindouras, de modo que em pouco sejam esquecidos todos quanto fizeram e ainda fazem da fé instrumento de servidão.

Rio, 15 de maio de 2007

Waldemar Reis

quinta-feira, novembro 02, 2006

Discurso liberal

a um amigo

Ora, meu amigo, é uma maravilha esse mundo liberal! Como indica o próprio nome, é tudo quanto pode alguém desejar: liberdade, direito inalienável com que nascemos e pelo qual nos é permitido fazer o que desejamos de nossas existências, até mesmo errar, se assim for necessário ou acaso apenas assim o queiramos. Pois só se é livre quando é possível escolher, inclusive o pior. Sem ser isso da conta de ninguém.

Ou você preferiria o mundo onde alguém lhe dissesse o que fazer, o mundo sem escolha, pronto e acabado a despeito dos seus anseios particulares? Sendo esse o seu desejo, é bom se apressar: não há mais tantos lugares onde tais experiências são feitas e em breve nenhum restará. Mas não vá, depois, reclamar, pois isso é malvisto por essas bandas, se não impossível. Nem me venha dizer que eu não avisei.

Um dos pontos notáveis do liberalismo diz respeito diretamente ao significado mesmo do termo. É-se livre para dar-lhe aquele que se acredita ser o mais cabivel. São possíveis tantas idéias liberais quanto houver de indivíduos a concebê-las, havendo para tal, em aparência, somente o limite da interdição ao aparecimento de novas: em vista dessas premissas, a única proibição tolerável por um espírito francamente liberal só pode ser a de proibir, ao menos e em particular a concepção do que seja a liberdade. Semelhante panorama, como é previsível, se apresenta como a convivência, nem sempre pacífica, tampouco inteligível para a maioria de nós, de idéias em franca oposição, em aberto conflito. E ao liberal autêntico, é natural, não inquieta semelhante composição. Do contrário, nada mais livre do que a profusão, ainda que conflituosa, de convicções.

Dado o fato de tais juízos dizerem respeito, por necessidade, ao modo idiossincrático de cada indivíduo entender e lidar com a realidade, é de esperar o recurso freqüente às vias de fato na dirimição das divergências. É claro, há regras moderando o uso de tal solução, havendo também um sem número de objeções e de reparos às mesmas, propostos com o fito de conservar o equilíbrio ideal de duas forças contrárias (pois no liberalismo, reiteremos, é-se livre para virtualmente tudo que não cerceie seu princípio seminal, o da liberdade), redundando todos no favor incontornável a uma delas. Eis, ouso afirmar, um dos problemas genuínos enfrentados na experiência liberal do cotidiano.

Correntes mais realistas do liberalismo, entre cujos bordões está o uso da silenciosa ironia num dos cantos dos lábios constantemente dirigida aos liberais afeitos ao idealismo, costumam justificar essa insubmissão das regras a todo esforço corretivo como a emergência da lei natural do mais forte, contra a qual é impossível insurgir-se sem pôr em risco a continuidade do princípio liberal. O indivíduo, evidentemente, é livre para manifestar-se como é, e se a posse de maior força é sua condição originária, nada poderá coibi-la sem o fazer de enfiada com sua própria liberdade. É de esperar que num ambiente de liberdade semelhantes situações sejam contornadas de maneiras igualmente livres, mas uma dessas contingências - talvez só explicáveis nas leis da físicas contemplando o comportamento imprevisível de partículas dispondo-se segundo padrões simples e determinados a despeito de se moverem aleatoriamente - tem produzido a adesão em massa, se não total, dos adeptos do liberalismo à convicção de haver também um equilíbrio intrínseco a essa lei natural do mais forte provendo cada indivíduo de força particular cujo emprego adequado pode levá-lo a superar a de outro semelhante. Assim convencidos, professam ou demonstram o livre direito de cada um ocupar, segundo o uso conveniente das próprias capacidades, as posições mais elevadas - as mais cobiçadas por praticamente todos - na estrutura da sociedade liberal.

Só mesmo um tolo, é óbvio, escolheria viver num sistema não liberal, seja ele qual for (pois não há, para algumas correntes do liberalismo, senão ele mesmo em oposição a uma profusão de versões inconsistentes do seu contrário, o não liberalismo). Onde mais, senão cá, seria possível prevalecer sobre os iguais, ainda que por período incerto? Onde mais se toleraria a submissão senão onde existe a perspectiva de, algum dia e a depender da própria habilidade, submeter também? Há quem prevaleça por lustros consecutivos e mesmo quem o faça por décadas ou séculos e, nada obstante contestados e até combatidos, gozem do merecido respeito dos seus contendores, garantido no princípio liberal. Tornam-se história, exemplo, esperança para gerações de submissos no aguardo de suas horas ditosas de preeminência. São, tais ícones, prova definitiva da liberdade de meios usados para atingir os seus objetivos. Para comprová-lo é suficiente consultar suas biografias, cuja reunião, aliás, é o objeto central da ciência histórica.

No cerne do pensamento liberal, é consabido, está a noção de erro. Ali o erro é apresentado como o direito maior ao qual fazemos todos jus. Em particular pela compreensão de que a todo erro cometido num certo âmbito corresponde um acerto noutro. Imperdoáveis, entretanto, são os erros do indivíduo cometidos consigo próprio, tidos como manifestação de incontornável fraqueza e merecendo, quando menos, o escárnio universal. Os demais, todos decorrentes da passividade, são inteiramente compreensíveis, tanto que para designá-los adota-se o eufemismo 'engano', pois os cometeram quem procedeu com acerto para si, induzindo os restantes aos equívocos ditos perdoáveis. Sem errar tornar-nos-íamos inertes, seres desprovidos de qualquer desejo de movimento, fadados à sucumbência, se não pela depressão, decerto pelo suicídio. Motivados pelo temor de semelhante marasmo, há mesmo quem admita o perdão para os erros imperdoáveis como alternativa para evitá-lo. Mas os autênticos pensadores liberais, convencidos do império incontornável da liberdade (pelo que nem mesmo preocupam-se com criar-lhe dispositivos protetores), não reservam para estes desesperados senão o mesmo sarcasmo de canto de boca lançado ao liberalismo idealista.

A seguir à risca o pensamento desses genuínos liberalistas chega-se à conclusão inelutável de que a consideração de outro princípio fundamental da ética que não o da liberdade, como o da igualdade, por exemplo (precipitadamente associado a ele no fervor renitente de revoluções), é apanágio dos desprovidos da força, da astúcia ou do poder bastantes para alguma vez acharem-se no ponto mais alto na roda de fortúnio, confinando-se indefinidamente à parte submersa dela mesma. É o caso de quem não logra escapar de moto próprio ao erro alheio recaindo sobre si ou de quem erra contra a própria pele. Só estes, segundo essa filosofia, são capazes de imaginar, como o faz quem tem sede no deserto, modelos perfeitos de eqüidade com os quais iludem-se em massa, configurando em seu delírio ameaça suficiente para aqueles cujos poder e habilidades para conservá-lo são congênitos. Tendo conseguido mudar de posição em esforço coletivo, dominando quem antes os submetia, percebem-se, esses fracos, quase de imediato regidos - ainda e de fato - pelo princípio liberal, reconhecendo como secundários aqueles outros princípios que os guiaram a prevalecerem, passando de imediato a proceder como é de esperar e, caso não hajam aprendido de sua experiência de ascenção a perspicácia para manterem-se onde estão, descambam de volta nos submundos donde a custo se ergueram. Em vista dos fatos, para o liberalismo realista a conclusão óbvia é a de não haver pensamento outro a refutá-lo nem iniciativa alguma a destituí-lo.

Rio, 02/11/2006

Waldemar Reis

segunda-feira, setembro 18, 2006

Melancolia

A idéia de depressão traz a mim a lembrança de uma charge, se não me engano, do Sempé, monumentalmente estampada em duas páginas de um número dedicado à literatura latino-americana da antiga revista Status. No traço descuidado e sujo típico da caricatura do século XX, mas nem por isso feio ou ininteligível como o foram muitos da sua espécie, divisavam-se, do alto, blblioteca ocupando todas as paredes de um enorme salão obscurecido e, quase perdidos na imensidade da detalhada garatuja, duas personagens assentadas sobre poltronas fartas. Apenas uma delas fala e discorre sobre os seus motivos para evadir-se da depressão, a frivolidade dos quais a deprime.

Sou de opinião que o deprimido só tem mesmo solução para o seu mal na folia - com o perdão pelo galicismo, mas ele ilustra suficientemente bem uma face do comportamento que a moderna psiquiatria diagnostica como doença bipolar. Nos termos de Sempé, dir-se-ia que o doente adere aos motivos inconvicentes ou permanece melancólico, pois não os há de outro tipo. E tal adesão só se verifica quando o sofrente o faz com todo o seu ser, digo, de modo frenético, estado cuja duração é medida na razão direta de sua resistência física: se o sujeito tem sorte, há falência orgânica; se não, um repouso temporário é o prelúdio para, caso encontre motivo, retomar o desvario ou, no caso contrário, intoxicar-se outra vez com a bile negra. Afora essa, à inteira disposição de espíritos menos exigentes ou mais necessitados, há soluções mais demoradas, da ordem das terapias propriamente ditas, e que requerem, se não maiores refinamentos, por certo boa dose de determinação.

Tenho alguma experiência no assunto, claro, como padecente e, de quando em vez, como leitor de doutas opiniões na matéria. Conheço a envolvente gravidade das razões depressivas, bem como a trivialidade exasperante das que as combatem (assim vistas do viés de quem se deixou convencer pelas anteriores). É efetivamente impossível escapar ao assédio das primeiras quando se sobrevive um pouco ao corte do cordão umbilical (não estou sendo hiperbólico, visto o corpo recém-nascido, a descoberto dos cuidados automáticos do organismo materno, já ser provido do arcabouço sensorial na raiz do fato depressivo, pelo qual tem de, doravante, chorar quando tem fome ou frio, ao menos). Entretanto, talvez em virtude do período de formação do indivíduo, ao longo do qual constitui e consolida essa parte sua mais afeita aos motivos depressores, falo da razão, só quando adulto virá discernir dos demais sabores à sua disposição o amargor característico desse mal, dar-lhe-á um nome e perceberá que sua saída está em abrir mão disso que lhe concedeu a maturação, em retornando a um estado mais próximo do inicial, grandemente desconfortável quando se está em contato com quem não reconhece ou aprova essa via terapêutica. Há quem, como eu, encontre modos aceitáveis do viés da sociedade de alternar a inexorabilidade da tristeza com uma atividade física radical, no caso, um esporte, mas há quem encontre solução em exasperar-se com os entes queridos até as vias de fato ou com os opositores numa tribuna e quem consuma drogas ou se exaura em sexo para não se entregar ao fim decerto o mais lamentável reservado a um vivente.

Além do padecimento de intermitentes depressões, minha experiência na área tem sido larga como testemunha de crises alheias. Uma destas arrastou-se por anos, cerca de doze, mas eu a assistia demasiado próximo para só lhe extrair os ensinamentos mais de década depois. Tratou-se de um construto cuidadoso, muito bem justificado (pois era indivíduo de enorme inteligência quem o fez) e cuja raiz se alimentava do truísmo que, não obstante de presença insidiosa em todos os instantes da vida, só à razão maturada caberá defini-lo assim: há sentido, sim, pois correm as coisas umas com as outras, umas após as outras, em diversos encadeamentos, sendo impensável negá-lo; mas não há finalidade, justo em virtude desse mesmo encadear-se de coisas, ou seria preciso estabelecer aí um ponto terminal (algo que, diga-se en passant, é preciso tanto coragem quanto desespero bastantes para fazer!). Em suma, nesta, cruamente demorada, tanto quanto nas demais depressões, passageiras ou não, a que assisti, reduziam-se os sintomas à simples formulação do efêmero. Em aparência noção excessivamente geral para dar conta da diversidade de melancolias, é suficiente considerar-se o que lhes serve de estopim, os aliciantes motivos no cerne dos quais esconde-se ao menos um 'não': 'não é possível', 'é inviável', 'não consigo', 'não deu'...

A depressão ataca fundo a segunda das virtudes teologais, a esperança, a qual não passa do modo de a primeira, a fé, manifestar-se. Em meu entender, fé é instinto sem o qual a idéia de vida não se consuma: estar vivo é o mesmo que ter fé, que é o dar o passo sem a certeza de sê-lo possível ou o continuar por continuar, por ser assim que se foi feito, para a continuidade. Já a esperança é a presunção de que o passo a ser dado possa ter finalidade outra que não o dar o passo mesmo: a esperança é como a cenoura pendurada à frente do burro por quem o monta. Pois bem, e o deprimido é aquela montaria que entende ser impossível morder a isca, aliás, já nem a considera como tal, mas como a fonte de seu tormento: e então empaca. Justo aqui melancólico e eufórico se separam, digo, é precisamente no modo de agir diante da cenoura que o eufórico pode desfrutar da graça efêmera da folia: basta acreditar - ou mesmo fingi-lo de si para si - que, sim, é possível alcançá-la, pois, ora, é de fato mais agradável essa crença do que a contrária. E, como que por milagre, assim pensando o nosso burrico é capaz de fazer-se em alazão, embora com tal arroubo arrisque surpreender seu montador, derrubando-o e à cenoura, a qual poderá, finalmente, ser degustada, mas ao custo da decisão previsível do dono de não usar tão cedo da artimanha, pelo que ao burrinho folião as cenouras parecerão mais apetitosas quando eternamente diante dos olhos do que eventualmente dentro do estômago.

O deprimido obstinado tem uma de duas sentenças: aguardar que nada em si ouse o passo seguinte, o último dos quais será dado pelo coração, ou estabelecer uma data para sair de cena (conheci alguém que elaborou o enredo exato para convencer a enfermeira a levá-la ao terraço do prédio, donde se lançou). A última alternativa, é bem verdade, um deprimido convicto das razões de o ser a rechaça com a alegação de que nela encontrou-se ao menos uma esperança e se a fisgou como fez o burro com a cenoura, com a vantagem de essa estar envenenada, poupando-o da futura decepção pela ausência provável de mais iscas. Mas o deprimido convicto também não escapa às próprias críticas, pois no fundo espera que, morta a esperança, morra-lhe de imediato a fé (sim, não é a esperança, mas a fé a última a morrer, visto que o sistema basal parece insistir em seu trabalho meramente orgânico quando à consciência faltam objetos que esperar). Ao soi disant deprimido autêntico (como o da charge do Sempé), no entanto, não se pode imputar a infidelidade aos princípios, reconhecidamente universais, de sua depressão.

Tal acusação se aplica do mesmo modo aos que escolhem a euforia: são rigorosamente fiéis aos motivos que os agitam, motivos esses, reitere-se, idênticos àqueles do melancólico e tão prosaicos como uma cenoura. Está livre de erro, portanto, a ciência médica ao vê-los como faces de uma mesma moeda compulsivamente lançada ao ar. E sustentarem-se como tais, eufóricos e deprimidos, é questão da resistência orgânica de cada qual, devendo o estado de um ser substituído pelo estado oposto enquanto o corpo o permitir. Há, não obstante, um modo de evadirem-se desse jogo, existindo quem o faça como que por natureza, embora o comum seja topar com quem o conseguiu em longo e continuado esforço. Trata-se de estado intermédio, não estático, tampouco eqüidistante de tristeza e folia por isso mesmo: quem nele se encontra não se torna imune a uma ou à outra, sendo capaz de experimentá-las alternadamente como qualquer indivíduo, mas com o privilégio de não se ver enredado por nenhuma. Chamam-no de indiferença, frieza e insensibilidade, havendo também quem escolha formas menos parciais de nomeá-las, como beatitude, ataraxia, nirvana e satori, e quem aprecie as designações oriundas da clínica psicoterápica, dizendo que se está em alta, que se tem o passe, ou da clínica psiquiátrica, onde o alcunham de dopagem. À exceção dos pacientes psiquiátricos, aos quais em sã consciência não se pode atribuir a experiência de alguma emoção, aqueles cujas imunidades à bipolaridade foram conseguidas por esforço próprio experimentam uma dificuldade singular: a de conservarem-se como estão, pois permanecem à mercê das forças que tangem para lá e para cá deprimidos e eufóricos, sendo por elas testados sem pausa, a ponto de terem de habituar-se a viver em dúvida quanto a terem ou não conseguido o que pretendiam, considerada melhor do que a certeza, que lhes acarretaria presunção ou frustração e os conduziria de volta à roda de excitação e infortúnio.

As fórmulas para aí se chegar são variadas, havendo particular predileção pelo divã psicoterápico e pelas práticas originadas em culturas asiáticas, entre as quais a meditação, sem falar nas farmacopaicas, legais ou não. O espírito cristão, por outro lado, desperdiça hoje, resultado da ignorância apondo toda sorte de estapafurdice à singeleza da doutrina original, as propriedades balsâmicas da caridade, terceira das virtudes teologais, indo buscar na compaixão budista sucedâneo eventual, com a desvantagem de esta não se encontrar tão imiscuída nos códigos de sua cultura quanto a outra. Pondo outra vez de lado as conotações de teor místico ou religioso, parece-me evidente que, assim como a esperança é a fé provida de objeto, a caridade vem a designar o objeto mesmo a nutrir (a dar corpo a) a esperança. Entendido como apenas outro nome para esmola, o termo caridade tem servido a cada dia menos como auxílio para se atingir a beatitude, o estado para além de bem e mal. Observando-se, entretanto, alguns dos seus significados anteriores, encontra-se ali a idéia de 'caro', designando tanto preço alto quanto afeto, sendo a dádiva, em particular a monetária, um modo relativamente eficiente de o indivíduo demonstrar, na esfera social, o presumido cultivo desses dois valores.

Nisso, acredito, reside o maior entrave do sujeito à solução de sua durável condição bipolar, visto parecer o mesmo para o seu semelhante que ele de fato a tenha superado ou que apenas o aparente. O recurso às drogas legais recende um pouco a essa idiossincrasia social, restaurando a tranqüilidade do meio - o grupo - e do indivíduo enfermo, embora sem qualquer controle deste sobre seu novo estado e a um preço ainda desconhecido em termos orgânicos. (Essa observação ajuda a entender o porque de a religião ter sido refinada como sorte de opiáceo popular.) A considerar a tendência orientando toda iniciativa em nosso já bem sedimentado hedonismo tecnológico, por meio do qual o homem não mais necessitará demover de moto próprio qualquer obstáculo de seu caminho, é provável que em breve tenhamos de receber a primeira geração de seres geneticamente planejados sem propensão alguma à melancolia. E parece natural que os queira também imortais, como se demonstrasse a ciência, por intermédio de seus admiráveis artefatos, a ingênua crença de o nirvana - o paraíso - ser mesmo aqui, bastando apenas povoá-lo de quem o tolere indefinidamente.

Rio, 17de setembro de 2006

Waldemar Reis

domingo, agosto 20, 2006

O que dizer de Bertold?

Personagens para quase-atores: o corpo é a parte visível do fantoche, em cujo interior a mão do texto atua. Por vezes o boneco se insurge contra o que o anima, por outras ri-se de sua vida fajuta, canta e suspende com sarcasmo o próprio roupão em cumplicidade com a platéia.

Cenas para quase-público: ninguém se convence mesmo de o boneco ser alguém. Tampouco se quer senão resvalar no real, fazer pouco dele, atitude única cabível à massa de impotentes.

Verdades para quase-crenças: dali, distando umas poucas portas do restante do mundo, quem acreditaria nessas falas que não dizem muito, quem ousaria dar fé de sua frágil mensagem se, passada a farsa, retornarão todos para suas casas, passando por calçadas, miseráveis, meliantes, rufiões, sacerdotes, ou no interior de ônibus e táxis observando automaticamente manchetes sangrentas, coexistindo em inevitável harmonia?

Rio, 20/08/2006

Waldemar Reis

quinta-feira, agosto 10, 2006

Quase tudo

O que dizer? Todo o passível de dizer-se é por demais óbvio e repeti-lo, se não inútil, é decerto aviltante. Aviltante para quem diz, aviltante para quem lê. Para quem lê, por razões evidentes: é colocar-lhe diante espelho de reflexo cristalino o bastante para ali enxergar a própria deformidade, circunstância insustentável. Para quem diz, porque diz, porque dizê-lo é prova suficiente de tolerar em boa medida a imagem grotesca impingida ao outro no espelho - do contrário lhe daria as costas - enquanto desfruta do verso do mesmo, no qual nada se reflete; e é prova direta de ser essa tolerância assentimento ao quanto produz semelhante aberração, o embate interno de dever e desejo. E é tamanho o aviltamento, tão universal, que o da face vítrea acredita olhar tão-só através de janela donde vê não a si, mas quem lhe apresenta e segura o objeto revelador, enquanto o outro sequer suspeita de, caso se atrevesse a olhar o lado refletor, ali dar com visão horrenda que jamais admitiria como sua. Dizer, enfim, por pouco que seja, é dar seqüência à comédia cuja renitência só faz irritar. Melhor seria calar, ou melhor, nada escrever, apresentar aqui o já clássico manifesto da arte moderna da protestação, um espaço em branco, ícone do vazio tanto quanto índice do todo: tudo dizer dizendo nada.

Pois não conhecemos o certo? Não nascemos - como o afirmava e demonstrava um sábio antigo - dotados do sentido para ele? Aliás, não nascemos com os sentidos para o localizarmos perenemente, para o perseguirmos até o obtermos? E é tanto verdade que dele falamos o tempo inteiro, em geral na forma de cobrança a outrem que, por seu lado, não sabe fazer diferente conosco. Em nome disso, correção, chega-se, já entrevistas desde o dedo em riste e desde mesmo uma ponderosa argumentação, quase sempre às vias de fato quando se possui os instrumentos necessários para chegar-se de fato às vias, sempre. Não faço aqui má antropologia, chula interpretação da ciência arqueológica, mas mera observação das ocorrências corriqueiras cujos relatos reiteram à agonia a condição universal de enredamento dos indivíduos: estamos montados, amontoados, uns sobre os outros numa espécie de pirâmide impossível, reciprocamente abaixo de quem está embaixo, acima de quem está por cima, de tal modo, num tão inefável equilíbrio que, é bem verdade, a ausência de muitos nem sequer se faz notar. Entretanto, não é preciso estar fora da teia ou mesmo em vias de ser dela extirpado para se experimentar em imaginação o sentido disso. E ainda assim brincamos do jogo perene do desterro alheio mesmo em vista do risco de em algum momento sermos nós os desterrados.

Não, não acreditamos em promessas que jamais nos fez a senda civilizatória: elas eram mesmo consenso, estiveram sempre embutidas na misteriosa força tornando-nos grei. São parte de sua lógica, são evidentes. Por isso tão grande o protesto, tão silencioso deve ser. Sendo preciso continuar e, continuando sem mesmo saber por que é preciso, sendo imperativo gozarmos de alguma coerência, justificamos: é a natureza. Embalde nos esforçamos por nos mantermos de parte dela, em nicho seguro donde, atingido o átimo da compreensão, no instante do completo entendimento, proclamar-nos-íamos redimidos desse prolongado pecar: mas dalgum injustificável modo ela se imiscui no trabalho incerto de nossos teares e, apropriando-se da urdiduta para sempre incompleta, no limiar de completar-se, ali aplica sua leis. A natureza tem leis irrevogáveis, misteriosamente promulgadas, executadas com rigor. São observadas em quaisquer partes do seu reino e desafiam os propósitos mais obstinados de sequer revisá-las. Em compensação, conferem impunibilidade a quem as observa e tranqüilidade às respectivas consciências : a despeito de todo ideal, somos - da primeira à última instância - cidadãos do mundo, garanta-se nele quem souber ou puder. Pecadores? Sim, mas sem culpas! E sem vontade também!

Como dizia, não faço pífia antropologia nem pior arqueologia: não começamos essa milenar história com anseios por justiça, pois sequer a conhecíamos, mas por mera fraqueza, por temermos a inconstância dos céus e a fome das feras, a fúria do mar e a sanha da terra. E então, enredados uns aos outros, em presumida segurança, sonharíamos a equanimidade, a óbvia e translúcida equanimidade emanando da própria teia, de que somos o fio, onde nos guardamos do inevitável para apenas o assistirmos - impotentes, fracos como só nós - exercer a sua lei. A natureza de que pensamos fugir sabe assomar do interior da horda humana, nela reinstaurando a noite, a selva, o vendaval e o maremoto, fazendo dum indivíduo o raio e de outro sua vítima, dum terceiro as fauces e do quarto a carniça, no conhecido espetáculo em que o consolo é não termos culpa.

Como sugeri, deveria ter dito nada, mas disse: pouco. E pouco, entre nós, é quase tudo.

Rio, 10 de agosto de 2006

Waldemar M. Reis

segunda-feira, junho 05, 2006

Volta a um mote

"Respondendo a seu mail, eu agi. Se "escolhesse" nada mais responder, estaria igualmente agindo? Olhe que essa linha de pensamento leva longe. Pelo menos até o deserto, com uma pedra para sentar em cima, à maneira do famoso ermitão." (Humberto Marini)


O deserto é para onde se dirigem, com certeza, os verdadeiros seres pensantes. E de lá jamais sairão, não por culpa da vastidão, de fato incomensurável, mas por vontade própria ou por instinto de sobrevivência, pois se trata do seu habitat.

Sua esperança - ou seu desejo - é o de chegar ao menos a um oásis, ainda que aí só encontrem poça d'água, nenhuma vegetação, visto ser incerta a presença de sequer nichos assim parcos nesses exílios do espirito. Pois tais eremitas sabem que, existindo algum, há boa chance de haver outros, às vezes luxuriantes, entenda-se, dessa luxúria que só o contraste com a aridez faz ver.

Mas dão-se por satisfeitos se concebem uma miragem, aliás, sua maior cobiça, já que miragens, ao contrário dos oásis, nunca ficam para trás quando é imperativo seguir caminho e jamais se apresentam mirradas: estarão sempre a certa distância dos olhos e figuram o paraíso almejado onde seu vagar teria fim.

Sorte terá algum se der com algo como uma pedra para sentar-se, o que, com certeza, só fará por instantes, uma vez que estará muito quente ao longo do dia e muito fria à noite. Seu propósito, entretanto, é tão arraigado que mesmo desdenha da possibilidade de descanso, inclusive nas horas intermediárias do crepúsculo e do amanhecer, quando é amena a temperatura e pode parar brevemente.

Sendo doutos, estão advertidos das incertezas dos céus e inteiramente aptos a caminhar por linhas retas à mercê duma estrela, o que muitos fazem, embora preferindo andar em círculos: primeiro, em vista da perfeição da forma, sentimento inexplicável que os compraz; depois, por fiarem-se no mapa em que se demonstram a imobilidade, a finitude e a redondez do mundo inteiro, pelo que conhecem a impossibilidade, caso existisse o movimento, de chegar-se a outro ponto senão aquele onde já se encontram (e nada obstante seguem caminhando, decerto por ato reflexo, pois não crêem mesmo que de fato o fazem); enfim, movem-se em círculos por conhecerem que toda reta possuindo mais de dois pontos é fragmento de arco cujo raio é imensurável, preferindo alguns trilhar curvas finitas a entregarem-se à aventura de jamais reverem o lugar donde partiram.

E, não sendo poucos tais caminhantes, admira que jamais se cruzem os seus caminhos - há quem suponha existirem tantos desertos quantos há de seus ermitães, desertos paralelos que, como se acredita, se tocam no infinito. No entanto, é comum conversarem, mas nada se vê à sua frente. E em tais monólogos, em verdade diálogos partidos ao meio, prevalece de hábito a discórdia.

Rio, 05/06/2006

Waldemar Mendonça Reis

sábado, abril 08, 2006

A prece e o mal

Vi a matéria, primeiro, no 'Monde', mas percebi que a notícia saíra também em outros jornais estrangeiros como o N. Y. Times e em ao menos um brasileiro. Para entender semelhante repercussão é preciso considerar dois fatores: a ausência de novidade mais significativa no último número do The Aamerican Heart Journal - referência americana no assunto (e fonte privilegiada de reportagens que consolam e aturdem a massa de hipocondríacos em que nos transformamos a cada dia) - e a oportunidade de protesto contra os cerca de dois milhões e meio de dólares gastos numa pesquisa de premissas de duvidosa relevância no cenário contemporâneo da medicina.

Só desse modo entendo a razão de os noticiosos tratarem com certo destaque uma investigação científica cuja conclusão sugere ser nociva a prece: assim seduz o título da matéria. Indo mais adiante, percebe-se que a reza má seria não toda nem qualquer uma, mas aquela enfocada no experimento, a endereçada aos doentes, especialmente àqueles em processo ou em esperança de cura e que sabem da antemão estar alguém pedindo aos santos por si. Até aqui, nada mais espantoso e nada mais natural: espanta, em primeiro lugar, que se tenham submetido seres humanos reais a tal investigação; depois, parece verossímil a ocorrência de piora e até de morte quando um enfermo se dá conta de o seu estado ser grave o bastante para reclamar o uso de instrumento vulgarmente conhecido pelo seu emprego em momentos de desespero. Não esqueço um agravante dando toque negro ao inequívoco espírito mordaz da investigação: todos os voluntários eram cardíacos na iminência de intervenção cirúrgica.

Trata-se, como é visível, de uma experiência pertencente mais ao domínio da psicologia do que ao da medicina propriamente dita, muito embora seja notória a intrînseca dependência das duas ciências. Dos três grupos de voluntários envolvidos obteve os piores resultados somente aquele cujos pacientes souberam que seriam de fato objetos de prece, equivalendo-se os resultados dos outros dois. Destes, apenas um não recebeu efetivamente os duvidosos préstimos da oração, embora todos os pacientes de ambos soubessem da possibilidade de serem rezados. À guisa de conclusão parcial pode-se dizer que a incerteza de ser alvo de prece é melhor do que a certeza, ou ao menos é tão boa quanto não o ser (pois não se orou pelos doentes de um dos grupos).

Custo, escopo, cobaias: fosse isto insuficiente, o jornal francês conclui informando que o patrocínio veio de uma fundação religiosa, a John-Templeton! Verdadeiro tiro no próprio pé? Ou a John-Templeton, suspeitando da eficácia desse serviço tão antigo quanto a civilização, o da oração pelos enfermos, estaria financiando sua extinção? Antes tarde do que nunca: as preces foram ditas por comunidades cristâs. E, para finalizar, um atenuante: as mortes foram percentualmente iguais em todos os grupos.

Assim, em vista do modo como se procedeu à pesquisa, se não é possível afirmar a absoluta nocividade da prece, pois ela não se provou mortal, reafirma-se a observação, desde sempre parte do senso comum, de que a sua necessidade indica o esgotamanto dos meios ditos meramente humanos na solução de um problema e, conseqüentemente, situação desesperadora, informação esta danosa para quem é questão a saúde, em especial a cardíaca.

Mas não foi este o único golpe sofrido hoje pela religião: um outro diz mais diretamente respeito à fé cristã. Refiro o anúncio, em virtualmente todos os jornais do planeta, do completo restauro e tradução do Evangelho de Judas, texto do primeiro cristianismo, de que já se tinha notícia pela menção no Contra os Hereges de Irineu de Lyon. Um Jesus sarcástico emerge dos diálogos no Evangelho, pronto a gargalhar em face das dúvidas e questões dos apóstolos, capaz de estimular-lhes a raiva e eleger Judas como o obreiro maior de sua própria paixão, desse modo oferecendo-lhe o conhecimento do "mistério da traição" (segundo expressão do próprio Irineu).

Se histórica ou não, a circunstância é certamente decorrência natural da consabida presciência do Cristo no que respeita a própria sina: seria 'traído', imolado e ressucitaria, para tanto havendo necessidade de 'traidor' e imolador, sem os quais os mistérios da crucifixão, da morte e da ressurreição nos seriam ignorados. O sacrifício no Calvário e a subseqüente redenção da humanidade seriam impossíveis sem um 'lado podre' a cumprir o seu papel, tornando-se este, por isso mesmo, agente do bem, ou melhor, do bem maior. E alguma voz, ao menos por uma questão de coerência, haveria de levantar-se sobre o problema ainda cedo na formação da cristandade, o caso do Evangelho de Judas. Ecos seus se escutam no século XX, na obra de Borges, que usou do tema e de variações em alguns contos e ensaios.

O leitor atilado decerto já percebeu que a predestinação de Judas para a maldade, assim coadjuvando um bem tido e havido como supremo, é variante de outro problema, clássco desde o judaísmo, o da onisciência divina em face do mal. A sua solução mais difundida alega o livre arbítrio, supostamente dado a nós por Deus, pelo qual estaríamos habilitados a seguir tanto a virtude quanto o vício. Mas, como é sabido, a própria noção de onisciência acarreta a anulação dessa outra, a do livre arbítrio, agravando-se desse modo a questão: se nos indigna saber que Ele conhece com antecedência o advento do que nos aflige, o mal, e não o evita, sendo Todo-poderoso, o que dizer de Sua passividade em face do conhecimento prévio de nossas más escolhas?

Enquanto a idéia de Deus não se reconciliar com a de mal, suponho, a pergunta acima permanecerá sem resposta. No entanto, o próprio Demiurgo apõe às Escrituras de Seus profetas breves pistas de Sua natureza inconcebível, uma das quais encontrei coligida pela Loucura no elogio que lhe dedicou Erasmo de Roterdam: decreta Ele, em Isaías, que confundirá a sabedoria dos sábios e reprovará a prudência dos prudentes, donde se conclui que jamais Se fará conhecer e que o Seu eleito é o imprudente, o parvo. Da cita a erasmiana Moria retira, segundo sua natureza, naturalmente, as mais encantadoras lições. Os episódios da tentação de Adão e da torre de Babel sugerem o mesmo: em ambos fica a lição de o conhecimento da Verdade ser-nos impossível, todo esforço nessa direção passível de castigos como a expulsão do Paraíso ou a incompreensão recíproca dos homens e a diáspora. Não foi casualmente que um cristianismo mais rasteiro fez do néscio o fiel típico, exemplo de uma almejada fé espontânea, aparecida sem o concurso do intelecto. Hordas de santos e doutores da igreja concordaram em que somos e seremos sempre ineptos diante da possibilidade de conceber o Criador, caso de Douta Ignorância de Nicolau de Cusa. O Evangelho de Judas não deixa de iterar a fórmula, num diálogo em que Jesus diz aos discípulos: "Como me conheceis? Em verdade, eu digo, geração alguma do povo em meio a vós conhecer-me-á."

É possível traçar um perfil teológico da humanidade usando o problema como eixo: em torno a ele dividimo-nos entre aqueles que crêem a despeito das adversidades da fé - grupo compreendendo os que tomam a si próprios por ignorantes de Deus - e aqueles revoltosos, na verdade mais pios do que os primeiros, pois preservam tão ciosamente a idéia de Deus associado irreversivelmente ao bem que mais justo lhes parece renunciar a essa idéia mesma a ter de admitir Deus como fonte ou veículo do mal. Sob esse prisma o ateísmo seria a mais radical manifestação do teísmo.

A dimensão paradoxal da fé cristã mereceu tantas análises quanto é possível à questão. O teólogo e filósofo Kierkegaard ensaia a sua na forma de extensa meditação sobre a passagem em que Abraão é intimado a sacrificar Isaac: ali defende a condição privilegiada do Pai da Fé relativamente à dimensão ética (ou moral), à qual fere com o seu silêncio ao longo do preparo para a imolação e do percurso até o local onde ela se daria, ou seja, o fato de Abraão ter como lastro uma solicitação divina o isentaria das obrigações éticas e morais, como o prestar contas de seus atos ao menos aos membros mais próximos da comunidade, familiares e amigos, e mesmo das obrigações estéticas, como o desafogo de sua angústia; pois a instrução divina o poria em 'relação absoluta com o absoluto', acima, portanto, do quanto diz respeito ao mundo inteligível, ou o 'geral', segundo a terminologia do filósofo. Já Nicolau de Cusa leva o debate para o âmbito da epistemologia, justificando nossa ignorância da natureza divina na evidente incomensurabilidade do nosso pensamento, finito, e da infinitude de Deus. No século XVII Jacob Boehme pintará uma cosmologia panteísta na qual um vórtice centrífugo - ali chamado, entre outros nomes, de Vontade - aparta-se de outro, centrípeto, ou Desejo, também alcunhando o primeiro de Manifestação ou Deus e o segundo de 'sem-fundo' e Inferno, mas eventualmente denominando o conjunto inteiro como Deus, donde se infere que, para o filósofo, Este não só proviria do mal como também o incluiria em sua natureza: na cosmogonia bohemiana Deus escaparia de si próprio, enquanto Desejo, fazendo-se Vontade e originando assim o mundo, modelo este de universo, segundo pondero, um dos melhor concebidos.

Em dias atuais o aparecimento de notícias como essas é sugestivo: de um lado, um experimento estatístico, como de hábito o são os da ciência, demonstra de forma algo complicada o óbvio (é desagradável saber-se desenganado a ponto de necessitar da oração, que se mostra, entretanto, inteiramente inútil de acordo os dados da pesquisa); doutro, um Evangelho gnóstico lembra-nos de noção não menos conhecida de nossa intuição, exortando-nos a reconsiderar o mal num enredo que acreditamos protagonizado pelo bem e a nossa inamovível ignorância quanto à Verdade de Deus, pouco importa o quão sábios sejamos!

Desnecessário é listar o quanto em nosso tempo se põe como campo onde fertilizar a certeza gnóstica de não vivermos num mundo bom: para conhecê-lo é suficiente continuar folheando as seções de política e economia dos jornais ou freqüentar cultos religiosos. A visão da atualidade é porventura o melhor retrato já produzido do mundo abastardado dos gnósticos, onde efetivamente vivemos, mundo originado em erro cuja causa é o desejo de saber, Sophia, resultando em seu húbris desenfreado e, não obstante, permanentemente contrário às aspirações do homem. Mas como o saber não produz senão a si próprio, sendo apenas potencial para a produção dos demais artefatos, é um artesão, o Demiurgo, quem cria a materialidade, essa espécie de imitação de Pleroma, nome do universo do Deus primordial. Isto feito, proclama-se o Demiurgo, nesse seu novo e falso reino, o único Deus existente. Cristo, ou a salvação, segundo o evangelhista, adviria não deste, mas daquele universo primordial para auxiliar-nos, por compaixão, em nossa emigração para o lugar de origem, o lugar do sumo bem.

Intentando instaurar o cristianismo como religião autônoma, muitos dos primeiros teólogos da nova seita buscaram distanciá-lo do judaísmo e mesmo opô-lo a este. Para tanto descartaram de saída o Antigo Testamento, partindo dos Evangelhos canônicos, desvenvolvendo, inclusive, traços do que a partir do século XIX se chamaria anti-semitismo: o Deus desse Éon - ou nosso universo - é o Deus de Israel (assim pregava Basilides, filósofo e teólogo do segundo século da era cristã), divindade esta favorável, portanto, a tudo quanto diz respeito a esse povo e à sua terra e causadora de toda sorte de entraves a todos os envolvidos com as questões judaicas, muito embora não poupando eventualmente nem os próprios judeus. As exegeses de vários desses primeiros cristãos, muitas vezes conduzindo a hipéboles intoleráveis ao espírito religioso da época, foram acusadas de heresia e convenientemente banidas dos ensinamentos usuais, embora hajam contribuído significativamente com estes, ao menos no apontar-lhes certas inconsistências.

Enfim, o gnosticismo parece ter sido espécie de guardião da coerência para o cristianismo nascente, prevenindo sua imobilização, comum a toda nova crença, num pietismo leigo, promovendo o seu elo com as principais correntes de pensamento vigentes à época, como platonismo e estoicismo. Procurou mostrar aos novos crentes a inexistência de garantias da intrínseca bondade do mundo nos escritos judaicos e, extirpando o Messias dessa tradição, dava-lhes a noção e a esperança do bem verdadeiro, assim como o entendia o mundo helênico.

O cristão futuro, entretanto, escolheria a via da omissão ou da hipocrisia. E se hoje dizemos habitar um mundo erigido segundo preceitos de linhagem judaico-cristã, tal afirmação desvela-nos uma realidade onde o mal, tão ciosamente escondido ou providencialmente desdenhado ao longo de milênios, mostra-se agora explícito e apadrinhado por justificativas morais, éticas e mesmo lógicas que a filosofia ainda não soube conciliar. Pessoalmente, não creio que, desse ponto de vista, algum dia haja sido muito diferente a realidade: o mal sempre se exerceu sobre o quinhão que lhe cabe.

Há, entretanto, uma particularidade deste nosso momento, em pleno 2006: já não concebemos salvação! Não, ao menos, aquela arquitetada no gnosticismo. Não somos mais engenhosos e ingênuos o bastante para tecer a solução do insolúvel: o habitarmos um mundo diverso do que desejamos, consolando-nos com a idéia de outro melhor anunciado pelo seu messias. Pois a salvação do gnóstico está dentro de si, na certeza de existir o lugar ideal, compatível com os seus anseios, a qual é, como a Idéia platônica, espécie de marca de proveniência ou de origem atestando o seu pertencimento primeiro a esse lugar, Pleroma, onde está o verdadeiro Deus, em verdade espaço emanado de Si. Do nosso lado, não conseguimos reconhecer em nós qualquer idealidade por que nutrir esperanças, pois talvez já nutramos incomensurável paixão por este mundo que criamos, mundo de certos confortos, mas também de finanças, de política, religiões (ainda!) e o que tudo isto implica, assim não vislumbrando alternativa melhor ao que já nos é oferecido e prometido: nosso paraíso é o aqui e o agora, o qual, por discrepar do que verdadeiramente desejamos, é também nosso inferno.

Conjugados na imprensa às catástrofes e aos crimes, os dois achados da ciência assumem nota sombria. Rezar é tanto inútil quanto daninho, enquanto o mundo permanece o mesmo, aqui, diante de nós, adverso, intolerante, inclemente, sem esperanças em si. Quanto à marca distintiva fazendo de nós - e de boa parte dos seres vivos! - entes direcionados para o autèntico bem (bem ausente, não obstante, de onde habitamos), dela é possível afirmar-se, com incerta ironia, que, se de fato a possuímos todos, seria isto a melhor prova de que não faltam ao Inferno, de fato, as boas intenções.

Rio, 06/04/06

Waldemar M. Reis

sábado, fevereiro 04, 2006

Borges nas sombras

É estranho o jogo de 'Borges à contraluz'. De saída, o confronto de uma algo singela e por vezes discretamente insinuante Estela Canto com outra, muitíssimo mais velha e remendada com tinta, laquê, muito pano, colares, anéis e brincos. Tanto uma quanto a outra fazem as vezes da bem-amada: a primeira, em fotos de 1945, parece ainda pesquisar essa frente do recente feminismo, embora já teorizando sobre a variante que escolheu para si, a de mulher livre e sexualmente satisfeita; enquanto a segunda presta contas, ao cabo de décadas, dessa escolha admitindo secretamente que o amor poderia ter-lhe sido bem mais generoso.

Não é difícil ver no livro uma mulher 'mordida', decerto por erro próprio, ao avaliar o potencial de 'glória' oferecendo-se aos seus pés e 'garfado' trinta anos depois por Maria Kodama. Algumas fofocas: disse Esther Vásquez - a outra biógrafa do Borges, também sua amiga, colaboradora e ex-musa - que 'la' Canto foi vista 'bebida' e rogando impropérios de amor traído na porta Biblioteca Nacional argentina ao então diretor do estabelecimento; para Vásquez 'la' Canto quis muito os cachês do poeta, como a primeira esposa, Elsa, que além do mais os roubou todos (o Prêmio Formentor, que dividiu com o Becket, junto!); tanto Vásquez quanto Woodall (James, autor inglês de uma terceira versão do biografado) insistem no mau gosto do trabalho da Canto, a qual, como que por instinto de defesa, deixa claro desde a Introdução não haver composto uma biografia no sentido restrito, mas um relato do que viveu com o poeta e do qual não poderia excluir incursões mais íntimas - dada a natureza múltipla da relação - e, naturalmente, suas observações e análises quase psicoanalitico-feministas. Como se vê, a luz prometida desde o título é 'contra', disso resultando imagem destoante daquelas tidas como boas, seja pela nitidez, seja pela poesia. Além de mistério, é possível entrever sensualidade na sugestão da Canto, o que, nada obstante, é paulatinamente rechaçado.

Entretanto, é bom encontrar ali um Borges mais humano do que o dos outros dois trabalhos. Ainda não conheço o do uruguaio Monegal, a quarta biografia do argentino, também seu amigo e especialista em sua obra, mas creio que o enfoque seja, no bom sentido, acadêmico (tenho uma antologia borgesiana do Monegal, que me pareceu correta). Em Woodall e Vásquez há uma certa idealização, no primeiro, em vista da distância, no tempo e no espaço; já na segunda há alguma humanidade, aquela do ângulo da amiga dedicada, colaboradora e ex-desejada do grande mestre, além de ser muito, muito mais nova do que ele. O Borges de Canto mostra-se ainda mais frágil que o dos demais: foi de fato criado para ser literato, projeto que a mãe continuou tocando após a morte do pai, e quando saía à noite ligava para casa de hora em hora para manter D. Leonor a par de onde e com quem estava; beijava mal e não sabia tocar; sua mão parecia não ter ossos quando cumprimentava; era pálido e gorducho, mas alto; apaixonava-se ridiculamente, como um cavaleiro medieval na imaginação do século XIX.

Em suma, Estela 'fala demais': a partir de sua mágoa pinta sua versão verossímil de um sábio, um pouco como Xenofonte e mesmo Aristófanes nos apresentam um Sócrates certamente mais prosaico que o dos diálogos. Não passa, no fundo, de uma grande fofoqueira recebendo-nos, toda emperiquitada, 'para un té en su casa'. Promete algumas vezes falar de 'O Aleph', que o poeta lhe dedicou, e nem possui mais o manuscrito (presente valiosíssimo que o então diretor cego da Biblioteca Nacional argentina também lhe ofereceu), negociado com um colecionador. Mas só comenta o relato lé pelo fim do livro, além de outros três ou quatro tidos por ela como emblemáticos da mente borgesiana. O tom dos comentários é fortemente sabido às artimanhas freudescas e, se não faz suficiente psicanálise, menos ainda faz de teoria literária.

Os mexericos 'cantianos' - ou seria melhor dizer 'cantescos'? - perdem, aqui e eli, como é habitual no calor desse tipo de narrativa, a compostura presumida em sua autora, premiada romancista para quem o romance é planura, carecendo, por natureza, de clímax, o qual seria próprio do relato curto. É bem possível que, ao urdir sua 'teoria' do romance, 'la' Canto jamais tenha escutado nomes como Machado de Assis, Pirandello e Balzac, talvez se degredando voluntariamente nas infinitas planícies dum Proust ou nos planaltos escarpados de Mann... Seu Borges é, por conseguinte, contumaz depreciador e leitor improvável de romances, mesmo dos tantos aludidos em seus contos, ensaios e poesia. Seria, portanto, culpado de uma das mais prosaicas imposturas intelectuais, aquela de dizer-se leitor do que apenas conhecia 'de orelhas'.

Mais para o fim do trabalho a autora reabilita a imagem do biografado, ou melhor, a torna mais condizente com aquela, exaustivamente divulgada, de sua vetustez, imagem idealizada concebida não só nos esforços dos editores como também na faina do argentino em suas palestras e derradeiros trabalhos. O quanto o consagrou foi, no entanto, concebido antes, em sua maturidade ambígua, parecendo restar-lhe, nesses derradeiros decênios de vida, tão-só passear as jóias que lapidou no passado, exibindo os mais variados ângulos do seu brilho. De fato, não é incomum que na obra tardia nostalgicamente se debruce um autor sobre sua produção primeira, tampouco são raros os que se vêem inexoravelmente atados a uma única fórmula até morrerem. Poucos, entretanto, o fazem como o portenho e não é à toa que trabalhos como 'O Aleph' sejam considerados como chaves para a compreensão de toda sua produção: o objeto 'mágico' ali descrito enseja a visão de tudo no mundo tal qual cada conto, ensaio ou poema seus são, em última análise, perspectivas diferentes dum mesmo cerne, o qual é ele mesmo, Borges, em seu perene assombro em face duma existência que o tornou quase imaterial, coibindo-o à renúncia de parte significativa de sua condição corpórea.

'Borges à contraluz', enfim, pode ser tido como o sítio onde soem combinar-se as diversas mesquinharias, como a dessa velha dama cuja cama recusou antes de casar-se aquele que admirava (embora não o desejando sexualmente), e como a nossa, mesquinharia de admiradores sabendo a escrevinhadores que se consolam da mortal condição nas desventuras comezinhas de quem, um dia, logrou urdir a própria imortalidade. O 'té' de 'la' Canto é a ocasião 'par excellence' do confronto de mediocridades variadas que, a despeito de consabidas e toleradas, refestelam-se em longas risadas a bochechas intumescidas e dentes postiços empastelados de bolacha molhada. E é desejando compensar-nos de suas alusões incontidas que a escritora nos oferece provas tidas e havidas como cabais, abrindo-nos, lá para o meio do livro, o seu correio íntimo, donde nos saltam Borges inesperados, em fotos e em caligrafia, ingênuos e ordinários em grande parte, dos restantes sobressaindo este, mais condizente com aquele das obras completas e, não obstante, trescalando Pierre Menard como se, esquecido de si mesmo, 'Georgie' se inventasse para esse amor da meia idade: "No sé qué lo ocurre a Buenos Aires. No hace otra cosa que aludirte, infinitamente".

Rio 31/01/06

Waldemar Reis

quinta-feira, julho 21, 2005

Da evolução de cães e gatos

Dada a convivência conosco, ao que tudo indica, voluntária, é de supor que cães e gatos devem seguir-nos e, talvez num período muito curto, atingir grau semelhante na corrida evolutiva. Decerto nos estudam e, cada qual ao seu modo, criam pacientemente as condições de suas escaladas: é suficiente observar-lhes as escolhas, dentre tudo quanto lhes oferecemos, para o concluirmos.

Nem os símios, apontados pela genética como nossos primos e, devido à semelhança orgânica, mais dotados para imitar-nos o comportamento, parecem interessados no que insistentemente tentamos ensinar-lhes, demonstrando preferência pela vida silvestre. Talvez as condições de seu aprendizado, o mais das vezes estabelecidas com a objetividade dos profissionais da ciência e na frieza dos laboratórios, estejam longe das ideais.

De outro lado, não sendo também menos vítimas do experimentalismo científico, os nossos estimados bichos domésticos desfrutam de pedagogias mais amenas, a começar pelas 'salas de aula', instaladas nas próprias habitações de seus instrutores. Em resposta, não obstante lhes dedicarmos cuidados quase idênticos, obstinam-se cânidas e felídeos em desenvolver hábitos radicalmente distintos.

Já tive convivência estreita com uns e outros, alternadamente, em diversos períodos de minha vida, quando morei em casas com espaço bastante para que exercessem suas idiossincrasias. Bem conheço, portanto, os paradoxos da afeição excessiva dos totós e da circunspeta indiferença dos bichanos, mas só ontem, cruzando num intervalo de meia hora o poodle e um sedentário gato bicolor de dois vizinhos, dei-me conta disso ao tempo em que era atravessado pela suspeita de cumprirem as duas espécies projeto milenar de aproximação e apropriação de tudo quanto humanos vimos construindo, cada qual, entretanto, consoante objetivo exclusivo.

A efusiva receptividade do cãozinho ao me ver, irrefreável - a despeito da coleira e dos ciúmes do dono - e não menos inconveniente, enlameando-me a roupa, contrastava com o obeso desinteresse do felino pela aproximação da minha mão previamente banhada, digo, livre de odores indesejáveis, mal se dignando a me dirigir o focinho e, sem alterar o passo lerdo e leve, seguir seu caminho. Tendo em conta a notável comunicação das duas espécies com a nossa, bem como a progressiva adaptação de ambas a costumes e habilidades tidos antes como exclusivamente humanos (banhos, tosas, perfumes, shampoos, alimentos processados, manejo de alguns instrumentos como portas, botões etc), concluí que esses bichinhos evoluem na nossa esteira e por opção própria - ou já teriam ganho mundo faz tempo! Mas haverá ao menos uma diferença fundamental entre as possíveis civilizações futuras de cães e gatos: os primeiros, pelo jeito, seguirão à risca o padrão que lhes ensinamos, enquanto os outros certamente não incorrerão nos mesmos erros.

Waldemar M. Reis

Rio, 10 de maio de 2005

quarta-feira, novembro 10, 2004

Do cobro de proteger

A lição vem dos tempos de colégio, das noções de história e zoologia. Das primeiras entendi que, esfacelado o império Romano, o burgo medieval nasce do medo dos camponeses reunidos à volta de um protetor influente o bastante para constituir exércitos ao custo, em última análise, da maior parte das lavouras dos protegidos. Os animais também, quando gregários, em geral elegem o mais forte para os protegerem, ao qual permitem, entre outras coisas, desfrutar da maioria das fêmeas. Com o perdão pelo o espírito redutivo, arrisco supor ser isso a regra desde muito, muito antes do advento dos castelos e seus senhores, perdurando até nossos dias: a proteção finda por se mostrar dominação, com o mais fraco escolhendo a dor da extração regular de umas tantas gotas do seu sangue a rebelar-se e perder as restantes.

Um bom teórico da conspiração não perderia a ocasião de observar a conveniência, para um forte, de força equivalente e contrária na subjugação do seu rebanho particular de fracos. Não fosse o resultado usual das guerras, com a submissão de um dos lados, crer-se-ia que tais conflitos têm a função exclusiva de manter alarmados os ânimos dos 'protegidos' de ambas as partes. Esqueça-se agora a pluralidade inestimável de povos, nações e países acotovelando-se sobre cada palmo de terra ao redor do mundo, organizando-se cada um em torno a sua respectiva e particular forma de poder, uma arreganhando os dentes - ainda que velados em sorrisos - para as demais, sendo de admirar que todos não tenhamos sucumbido ainda à conflagração universal a despeito do delicado equilíbrio no qual as verdadeiras potências tomam para si - à imitação de senhor e servos no sistema feudal - a proteção dos estados menos robustos. Esqueça-se então o mundo e considere-se a escala mais reduzida de uma população e seu governante.

Nesse âmbito parece óbvia a utilidade da contravenção enquanto endosso do poder. Este se alimenta, em verdade, do que o corrói, à semelhança de quem, em sua hipotética e extremada miséria, se visse coagido a apascentar piolhos e congêneres sobre a própria pele para se alimentar. Pois qual o uso do governo para o indivíduo se na vida deste tudo corre perfeitamente bem? Para quê o senhor se nada ameaça o servo em sua gleba? Veja, leitor, não é natural para um produtor a demonstração da necessidade do seu produto caso esta seja algo duvidosa?

Assim, bênção maior não há para um governante do que o ladrão, o sonegador, o arruaceiro e o assassino comuns, à excessão dos que agem em seu nome. Nada mais útil para um juiz, um delegado, um parlamentar ou qualquer outro membro do poder, portanto, do que pilhar outro juiz, delegado ou mesmo senador, prefeito, presidente em conluio com criminosos ou assumindo suas funções. A metáfora, agora, tem de ceder a maior dramaticidade forjando a imagem do indivíduo um ou mais de cujos membros transmudam-se em malófagos ou sifonápteros descomunais devorados tão logo percebidos. Dada a assiduidade do fenômeno, mesmo nós, gente comum, somos acometidos do mesmo delírio dos paranóicos de conspirações e, em vista do caráter perfeitamente lógico, racional, do observado, nos vemos obrigados a suprimir destes a pecha de enfermos, intitulando-os doutores.

Cumpre lembrar que, nos meados do século XIX, Feuerbach demonstrou a presença desse mecanismo no universo da religião, cujos representantes ou oficiantes não poupam esforços para convencer os fiéis de suas habilidades com a evitação do mal pairando sobre as cabeças destes e, por fim, que a aplicação em maior ou menor grau dessa metodologia é observada na atividade publicitária. Reitero: escusado é ser um especialista nos meandros conspiratórios ou meramente um louco para dar-se conta disso.

Waldemar Reis

terça-feira, novembro 09, 2004

Pouco importa!

Já não é a primeira vez, pergunto-me se um dia lerei tudo a que me tenho proposto - refiro a biblioteca esplhando-se por virtualmente todo o apartamento onde moro, montada por sorte de compulsão esquadrinhadora associando temas como se cozesse interminável colcha de retalhos incompatíveis a olhos normais. Ainda hoje surpreendeu-me certa esperança: um exemplar repetido, edição francesa, de bolso, de 'A filosofia à época trágica dos gregos'. Efêmera esperança que, a repetir-se a ocorrência nos dias de todo um ano, teria ainda de cobrar-me disciplina que me subtrairia para sempre o exercício de muitos prazeres, alguns não menos cobiçados, outros dificilmente confessáveis! Como agravante, a incerteza, partilhada por todos, quanto à página marcada à revelia como a final.

Ora, por mais de uma vez e de muitas maneiras já se o disse e com isto poderia consolar-me, livros não são para serem lidos de cabo a rabo por obrigação e sim degustados enquanto se nos parecem saborosos, ou devem ser postos de lado. Particularmente nutro opinião em certos aspectos contrária: com raras exceções, os livros de hábito escondem, mesmo trás a inépcia do autor, quando não exibem objetivamente, um sem número de preciosidades que, mesmo estimulando o escárnio, revelam uma época, um modo de pensar, outro de contar, e assim por diante. Claro, digo isso tendo em mente os escolhidos por mim, em grossa maioria merecedores das revisitas de que é sinal extremo a duplicata com que topei no correr de laboriosa e escasssa faxina. Os outros, não adquiridos, por sua vez, podem ter quatro perfis distintos: os não encontrados, os desconhecidos, aqueles ainda por se escreverem ou os milhares que sequer me atrevo a abrir.

Desde a capa, não apenas desde o título, é possível dizer com razoável precisão se é legível um livro, sem necessário ser expor-se ao risco de folheá-lo. Por motivos óbvios, especial cuidado é recomentdável com as muito belas, em geral feitas mesmo com o propósito de desestimular as incursões mais tímidas ao conteúdo e o de causar sensação ao lado de similares na estante. Enganos, entretanto, são tolerados desde que não se tornem rotina: não sei onde, por exemplo, ainda guardo por descaso um volume de aspecto muito simples, feio até (indício também pouco seguro da qualidade interna, hoje o sei!), e título algo expressivo, de que, na ausência de qualquer informação na contracapa, só consultei o índice à hora de comprar: além de versar sobre ontologia, dele não posso dizer nem a língua em que se escreveu, não obstante alguma semelhança insidiosa com o português.

Salvo casos como esse, abandonar um livro é como deixar alguém falando sozinho. Há quem o mereça, é bem verdade, mas a nobreza, quando não a caridade e quase sempre a agudeza ou a perspicácia ensinam, se não a tolerância, decerto o artifício de postergar o assunto para quando o desenfado o permitir ou, quando oportuno, habilmente manejar um punhado de tópicos de modo a atalhar o interesse com suficiente precisão. Ler é dialogar por intermédio da própria escuta e toda boa conversa é sorte privilegiada de leitura: se não ambos, ao menos um dos interlocutores tem de prodigalizar cortesia ou sequer se dê início à charla.

Os livros não são afeitos ao melindre como as pessoas. Isto não significa, entretanto, que se empregue menos cuidado no seu trato. Pois, se não eles, pode o acaso tomar para si, de conluio com outro livro, o encargo de desagravá-lo quando, ao cabo de um parágrafo, pode-se dar conta da dimensão da incúria! Fosse mais prudente porventura termos jamais aberto este ou o anterior, ao menos em respeito à própria reputação: sim, este é outro gênero de lapso contornável somente pelos mais experimentados na convivência com livros. Aí, noblesse oblige, é dar à palmatória a mão e retomar o primeiro com a precaução da humildade e cuidar para, vexando-se, não generalizar o procedimento e entregar-se irrefletidamente àqueles conteúdos bolorentos cujo destino é permanecerem magnificamente encerrados em suas capas em prol do bem universal.

Não é pela vastidão do planeta ou pelo interesse da diversidade de hábitos e culturas dos seus rincões que se deve pautar a determinação de conhecer e desse modo tomar o primeiro transporte à disposição e palmilhá-lo copiosamente. É suficiente, não raro, desembarcar uma ou duas estações de metrô adiante daquela onde é costume ficar-se para se compreender a inutilidade de uma excursão à China ou à Itãlia, por exemplo, não obstante chineses e italianos assim encontrados falem bom português até e em muitos aspectos compartilhem conosco, nativos, espécie transtornada de patriotismo. Inumeráveis idéias, relatos e poemas, de forma análoga, não necessitam de verificação in loco, bastando-nos as notícias suas colhidas em outros livros, mesmo sendo estas desfavoráveis. Pois do cotejo delas é possível obter-se boa noção daquilo de que falam, considerando-se inclusive ter sido essa a forma de preservação de grande parte do saber. Forma espúria de conservação essa, dirá um certo bom senso, é verdade, mas observe-se uma coisa: tome-se um original qualquer e, desconsiderando o fato de nele abundar a menção a incontáveis originais outros, formule-se opinião ou resumo (termos, em verdade, sinônimos) do que se leu; em seguida consultem-se resenhas, contestações ou assentimentos diversos do volume lido e, ato contínuo, cotejem-se todos, inclusive a sua opinião, essa lavrada recentemente; caso compartilhem da décima parte do que tratam, exorto-o, leitor, a interromper aqui a presente leitura e dela mofar. Dessa esperança não se vive, a de compartilhar juízos, mesmo consigo próprio: não será idêntico ao de hoje o juízo de ontem nem o de amanhã, ainda que jamais se volte a defrontar com o que o suscitou.

E sobre semelhantes transfigurações são erguidas outras obras, esteios, por sua vez, de suas sucessoras, e assim enquanto durar o gênero humano. Isto é em breve notado pelo leitor contumaz: com ou sem intenção, os escritos aproveitam-se uns dos outros de modo que se está sempre compilando mais ou menos o produzido no passado. Assim, apesar de todo bom livro - falo daquele merecedor de ser aberto - cobrar a leitura de todas as suas páginas, a freqüência a seus semelhantes termina por mostrar, com o tempo, um universo cujos objetos, sempre os mesmos, aparecem ora magnificados, ora reduzidos, seja pela distância de que são apontados, seja pelo apreço ou pela importância a eles atribuídos pelos autores. Tal observação, por uma lado pode signifcar, para uns, a irrelevância de se abordar não mais de um punhado de volumes eleitos ao acaso durante suas vidas; por outro, para aqueles habituados a desfrutar dessas quietas aventuras perturbadas apenas pelo revirar compassado das folhas impressas, todo livro é como placa de sinalização num caminho onde só há incontáveis semelhantes, remetendo umas a quaisquer e alimentando a esperança desses aventureiros de ao menos acercar-se ainda mais de algo que, não obstante muito próximo, jamais será tocado.

À guisa de conclusão, poderia aqui ostentar uma assunção de cunho realista, no sentido mais comum ou limitador: não, jamais lerei tudo quanto venho colecionando, sequer mesmo a terça parte, visto eu continuar adquirindo mais e mais volumes cujos temas estimo como do meu interesse. Entretanto, se tomo em sentido rigoroso o conteúdo do parágrafo precedente, posso assumir algo diverso, mais conforme um espírito fantasioso, alegando já haver lido todos mesmo não conhecendo mais do que uns poucos. E se continuo, enfim, nessa busca do invariável, do inútil, portanto, é por cultivar aquela disposição de quem está diante do palco e, sabendo ser fingimento a cena - excluo os loucos, naturalmente - já vista um sem número de vezes, deixa-se perpassar por multíplices e renovadas emoções até quando ocupa o mesmo assento.

Waldemar Reis

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